sexta-feira, 2 de maio de 2008

"PORREIRO,PÁ!"


AINDA O TRATADO DE LISBOA

Excelente o artigo de António Vilarigues, no Público de hoje, sobre o Tratado de Lisboa. Os Estados da UE ao consagrarem um tratado ideologicamente marcado comprometeram a institucionalização da Europa. Dentro de pouco tempo se constatará que algumas das mais importantes máximas que o tratado consagra estarão desactualizadas e serão inadequadas para fazer face aos problemas com que a Europa se defrontará.
É, porém, muito provável que antes da queda, ainda tenhamos a vertigem do sucesso…a menos que a Irlanda se “porte mal”…

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O EXEMPLO PORTUGUÊS FRUTIFICA EM ESPANHA

ZAPLANA NA TELEFÓNICA POR UM MILHÃO AO ANO

O exemplo português (Ferreira do Amaral, Pina Moura, Coelho, para apenas citar os mais conhecidos) começa a fazer carreira em Espanha. Zaplana, número três de Rajoy, durante os últimos quatro anos, considerando-se mal tratado, culpado da derrota eleitoral e marginalizado na nova repartição de poder pelo presidente do PP, decidiu abandonar a política e "fichar" pela Telefónica, como delegado da empresa na Europa, por um milhão ao ano.
Até que enfim que ensinamos alguma coisa a Espanha!

A RONDA DE DOHA E A LIBERALIZAÇÃO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL


UM ARTIGO DO SECRETÁRIO-GERAL DA OMC


O Público do dia 30 de Abril traz um artigo do Secretário Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Angel Gurria, advogando, no melhor estilo neo-liberal, uma maior liberalização do comércio internacional como a receita adequada para superar as várias crises com que o mundo actualmente se defronta.
Segundo o A. do artigo, um novo acordo do comércio multilateral, traduzido numa maior na liberalização do comércio de bens e serviços, seria a solução adequada à actual situação internacional, pelo poderoso impulso que a mesma traria à economia mundial através do aumento da inovação e da produtividade. Depois, avalia os ganhos que uma redução de 50% nas tarifas e nos apoios à agricultura e à indústria poderia gerar, calculados na ordem dos 44 mil milhões de dólares. Insiste na tese de que os países em desenvolvimento, em particular, obteriam acréscimos no ritmo de crescimento do PIB per capita de 2% em cada ano, se se verificasse uma liberalização total das tarifas. Seguidamente defende a lenga-lenga liberal segundo a qual o proteccionismo, embora podendo trazer algum alívio a curto prazo, acaba por desencorajar os produtores a produzirem mais em resposta à subida dos preços nos mercados internacionais e leva inevitavelmente à subida dos preços por reduzir a possibilidade de entrada no mercado de competidores estrangeiros que produzem mais barato.
Ninguém de bom senso nega que o desenvolvimento do comércio internacional tem vantagens, assim como também ninguém nega que uma parte considerável do progresso da humanidade assenta no desenvolvimento do comércio. O problema que hoje se põe não é o de negar esta evidência, mas antes o de questionar o modo como essas vantagens se distribuem entre os diversos actores da comunidade internacional. E quanto a este aspecto, a OMC revela uma total insensibilidade, como ainda esta semana, em Genebra, na reunião das 27 agências das Nações Unidas, foi amplamente sublinhado. De nada vale ao Secretário Geral da OMC advogar por uma maior ajuda no quadro do PAM (Programa Alimentar Mundial) aos países em dificuldades, porque o problema não está em ajudar os pobres e os esfomeados, mas em evitar que haja pobres e esfomeados. E isso não se consegue com uma liberalização cega do comércio internacional, mas com uma liberalização regulada do comércio internacional em todos os seus vectores.
Aliás, quem acompanha as negociações da ronda de Doha na OMC sabe que impera nelas a maior demagogia e o maior cinismo. Vejamos, a título de exemplo, o que se passa com o grupo dos países emergentes, capitaneados pelo Brasil. Pretendem um acesso irrestrito ao mercado europeu em matéria de produtos agrícolas, apesar de já gozarem actualmente de amplíssimas vantagens, mas recusam-se terminantemente a liberalizar os serviços e impõem grandes limitações à produção industrial, tanto relativamente aos bens que produzem, como aos demais. Do lado da Europa, há uma divisão entre os que praticamente não produzem produtos agrícolas e os demais. Depois, os emergentes lutam contra a subsidiação, mas eles próprios laboram em alguns casos com trabalho escravo, no sentido técnico do termo, e nos demais casos sempre com baixíssimos salários, desrespeito frequente pelas regras ambientais e nula ou muito escassa protecção social. Que sentido faz, perante este quadro, deixar de subsidiar a agricultura na Europa para ir engrossar gigantescamente os lucros das grandes empresas do agro-negócio dos países emergentes? E se daqui passássemos para a situação dos países em desenvolvimento, a situação, de grave, passaria a trágica, como em grande medida já passou em consequências das políticas económicas impostas pelo FMI e sempre secundadas, com grande hipocrisia, pela União Europeia, que, a pretexto de que actua na base da “especificidade comunitária”, acaba por fazer, relativamente àqueles países, uma política rigorosamente idêntica à do FMI.
Por outro lado, a recente crise do imobiliário americano, que se propagou a toda a economia mundial, com efeitos ainda não completamente identificados, demonstra também que uma outra vertente desta liberalização irrestrita – a dos mercados financeiros – não pode continuar. Não pode de modo algum aceitar-se uma quase completa ausência de correspondência entre a economia real e a economia especulativa teoricamente, mas só teoricamente, baseada naquela.
Enfim, o que o mundo precisa é de regulação, muita mais regulação e não o contrário. A regulação não é contrária ao desenvolvimento do comércio internacional. É contrária ao “estado de natureza”, ou seja, ao desenvolvimento selvagem do comércio internacional de acordo com a regra do mais forte. Mas exigir isto não é nenhum retrocesso, é apenas lutar contra a barbárie!

OS "EUROPEÍSTAS" E A ESCOLHA DO PRESIDENTE DO CONSELHO EUROPEU


A CAMPANHA PRO BLAIR


Como já tive oportunidade de referir num post aqui publicado há cerca de um mês, os “europeístas” que querem ligar a União Europeia à NATO e, obviamente, submetê-la em matéria de defesa e de diplomacia aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, irão fazer campanha por Blair como presidente do Conselho Europeu.
Os dois mais conceituados atlantistas do governo português, Luís Amado e Severiano Teixeira, já deram o mote, não de uma forma escandalosamente directa, mas mediante uma pretensa teorização das grandes áreas de afirmação de União Europeia depois do Tratado de Lisboa – a defesa e as relações externas – como áreas futuras de integração. Qualquer pessoa percebe que, tendo estes dois ministros a ambição de tornar a política de defesa europeia coincidente com a da NATO, e contando, aparentemente, no quadro desta estratégia, com as recentes posições da França, só podem encarar com grande entusiasmo a campanha a favor de Blair como presidente do Conselho Europeu.
Esta campanha, a nível interno, é deixada, de forma directa, a outros conhecidos “europeístas” que nos jornais em que escrevem não se cansam de exaltar as virtudes de Blair para o lugar. Ainda hoje, um deles dizia: “ Blair (…) é, entre os nomes que circulam, o mais forte e aquele que, inquestionavelmente, daria à Europa um rosto internacional e uma marca igualmente fortes”.
O puzzle ficaria completo se o novo presidente americano fosse um Clinton, já que este, exercendo a tal “hegemonia benigna”, não geraria os mesmos anticorpos que um Bush da segunda geração.
Claro que estas posições têm a importância que têm, vindas de um pequeno país com diminuta ou nenhuma influência na decisão destas questões. Mas nem por isso deixam de ser importantes internamente pelo que revelam do modo como alguns, com grandes responsabilidades políticas, entendem a Europa, além de nos deixaram elucidados sobre as “profundas convicções europeístas” de outros que não fazem outra coisa que não seja escrever sobre a Europa. Por outro lado, são também reveladoras da campanha em curso na Europa, sendo, nesta perspectiva, a posição dos pequenos países, no seu conjunto, importante.
Cá dentro, além dos propagandistas parece que ninguém liga ao assunto e este alheamento permite-lhes fazer o seu caminho tranquilamente. Vamos ter esperança de que a Alemanha, apesar de relativamente isolada, acabe por impor um qualquer Solana…

quarta-feira, 30 de abril de 2008

HILLARY CLINTON GANHA FORÇA NA CORRIDA CONTRA OBAMA


AS PRÓXIMAS PRIMÁRIAS

São cada vez mais ténues as hipóteses de Barack Obama obter a nomeação do Partido Democrático, na Convenção Nacional de Denver, a 25 de Agosto. Os factos ainda não apontam nesse sentido, mas o clima já é esse. Ontem foi um dia fatídico para Obama: o pastor Jeremiah Wright não podia ter escolhido pior oportunidade para falar sobre o seu apostolado. Numa altura em que Obama estava fragilizado pela derrota na Pensilvânia, as declarações do pastor, a que justa ou injustamente o eleitorado o considera ideologicamente ligado, caíram como sopa no mel para os adversários do senador de Illinois. Bem pode Obama dizer que se sente horrorizado com o que ouviu e que rejeita em absoluto as opiniões do pastor. Para o eleitor médio do Partido Democrático, está, no mínimo, instalada a dúvida. E é natural que outros sectores do partido comecem a reequacionar as consequências do apoio a um candidato hipotética ou potencialmente perdedor.
Obama tem ainda uma hipótese de reverter a situação, ganhando, no dia 6, em Indiana, um estado com peso operário, não obstante ter dado a vitória ao candidato republicano nas últimas eleições. As sondagens dão-no com uma ligeira vantagem relativamente a H. Clinton, mas como se trata de um estado com voto livre, tudo pode ainda acontecer.
Na Carolina do Norte, Obama continua à frente, com uma vantagem confortável, não obstante o governador, Mike Easley, ter ontem assegurado o seu apoio a Hillary. Mesmo assim, Obama mantém neste estado uma vantagem razoável entre os superdelegados (6 contra 2).
As sondagens dizem também que dois em cada três apoiantes de Hillary não votarão em Obama se ele for o nomeado. Estes dados podem ainda alterar-se, embora sejam reveladores do grau de animosidade que a campanha atingiu. Pela própria composição do eleitorado de cada candidato, é perfeitamente natural que os fiéis de H. Clinton sejam muito mais renitentes em conceder o voto a Obama do que os deste a Clinton e esse será mais um factor a pesar negativamente na sua candidatura.
Nos tempos difíceis que ai vem, nada pior poderia acontecer ao mundo do que a rotatividade entre os Bush e os Clinton, na América. Teríamos “mais do mesmo”, sem prejuízo de o “mesmo” não ser idêntico em ambos os casos.
Na Europa, toda a ala atlantista (e natista), da Inglaterra à Itália de Berlusconni, passando pelo bloco central português de obediência americana, até aos aspirantes a “protectorados respeitados e respeitáveis” do leste europeu, suspira por uma vitória de Clinton. Nada mais tranquilo de que aquilo a que Guterres chamava a “hegemonia benigna”, que os Clinton certamente assegurariam.
Na América, com os Clinton no poder, nada de verdadeiramente diferente se passaria. Apenas mais impostos para os ricos, que Bush obscenamente isentou, e mais saúde para os pobres. Tudo o resto continuaria na mesma: Wall Street continuaria a especular e o contribuinte americano a pagar os prejuízos sempre que a crise acender a luz vermelha. Na reserva federal e na secretaria do tesouro continuariam a mandar os representantes do grande capital financeiro, no comércio, os representantes das grandes empresas americanas, na defesa, um homem da confiança do complexo militar-industrial e nas relações externas, alguém capaz de entoar uma música audível por europeus ansiosos de participar no concerto…
E o mundo continuaria cada vez mais perigoso!

AGÊNCIAS DA ONU CULPAM FMI PELA CRISE ALIMENTAR


A DIATRIBE DE JEAN ZIEGLER

O relator especial da Organização das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, qualificou ontem de autêntica tragédia o aumento do preço dos alimentos e pediu fundos suplementares para fazer frente à fome.
Numa reunião das agências das Nações Unidas, em Genebra, Jean Ziegler, na presença do Secretário-geral da Organização, imputou a responsabilidade pela crise aos biocombustíveis e às “políticas aberrantes” do FMI.
No que respeita aos biocombustíveis, o conhecido sociólogo qualificou a produção de biocombustíveis como um crime contra a humanidade. Quanto ao FMI, acusou-o de ter destruído as culturas de subsistência em troca do desenvolvimento das culturas de exportação destinadas a reduzir a dívida externa.
Igualmente criticado, foi o director da OMC, Pascal Lamy, que, ao advogar o fim do proteccionismo, imprimiu à organização uma linha de trabalho totalmente contrária aos interesses dos povos martirizados pela fome.
Ziegler pediu ainda aos dadores do PAM (Programa Alimentar Mundial), de que dependem mais de 75 milhões de pessoas, um reforço das ajudas para fazer face à queda de 40% do poder aquisitivo.
Finalmente, considerou positiva a atitude do novo director do FMI, Dominique Strauss-Kahn, que recomendou aos países “prioridade absoluta no cultivo de alimentos".

terça-feira, 29 de abril de 2008

HOWARD DEAN QUER QUE UM DESISTA EM 3 DE JUNHO


A INCERTEZA DO PARTIDO DEMOCRÁTICO


Há sondagens para todos os gostos. Umas dão Hillary como vencedora no confronto com McCain, outras continuam a apontar Obama como o melhor candidato para bater o senador do Arizona.
Até há bem pouco tempo todos diziam que a acirrada disputa entre os pré- candidatos democráticos favorecia o candidato republicano, a ponto de um conhecido radialista da direita americana incitar os republicanos a votar nas primárias democráticas…para manter a contenda em aberto e “fazê-los sangrar”. Agora, já há quem diga que esta permanente atenção dos media nos candidatos democráticos faz perder visibilidade ao candidato republicano, que, além do mais, tem dificuldade em intervir, já que as diferenças entre os candidatos democráticos incidem sobre pontos que raramente lhe permitem opinar sem parecer que está a tomar partido.
Seja como for, o certo é que a campanha dos democratas está longe de terminar, a menos que Obama perca as duas primárias de 6 de Maio. Se isso não acontecer, o mais provável é que a luta se mantenha até à última primária, em Porto Rico, a 3 de Junho.
Howard Dean, presidente do partido, voltou hoje a reiterar, embora em termos diferentes, o pedido de a disputa não ser levada até Denver, à convenção nacional democrata, em 25 de Agosto, sugerindo aos candidatos que um deles se retire a 3 de Junho.
De facto, em 3 de Junho todos os delegados “pledged” estarão identificados. E Dean acredita que até lá se terão pronunciado todos os superdelegados que ainda o não fizeram.
Obama, que continua a despertar a simpatia do eleitorado mais jovem, do afro-americano e dos democratas mais instruídos e com rendimento mais elevado, tem tido dificuldade em penetrar nos sectores mais populares e de mais baixo rendimento do partido democrático. O reverendo Jeremiah Wright, por seu lado, também não ajuda. Ainda ontem reiterou todos os pontos mais polémicos do seu discurso e acrescentou que os ataques de que está a ser alvo não são contra ele, mas contra a igreja negra. Obama demarcou-se dizendo que o reverendo não fala em seu nome.


CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA ALTA DOS PREÇOS DOS ALIMENTOS

A TORMENTA PERFEITA

Segundo os peritos das Nações Unidas, a subida do preço dos alimentos deve-se a uma acumulação de factores – sociais, demográficos, políticos e até especulativos – que faz com que a crise não seja passageira, mas antes um dado com que doravante terá de contar-se. Ao lado do petróleo, principal responsável nos últimos anos pela inflação, o preço dos alimentos passará a ser a outra grande causa de inflação.
A média da inflação, em 2007, nas 30 economias mais avançadas era de 2,1%. Em 2008 subirá até aos 3%.
Para as economias mais avançadas a consequência daquela subida é a inflação, para os mais pobres a consequência é a fome.

Segundo os organismos especializados das NU, as causas da subida dos preços são:
O crescimento da população mundial, à média de 75 milhões de pessoas por ano;
O preço do petróleo, que afectou o cultivo e o transporte dos alimentos;
As mudanças alimentares na China e na Índia (cerca de 40% da população mundial) – ambos os países, em consequência do crescimento económico, passaram a consumir mais;
Os biocombustíveis, responsáveis pela subida dos alimentos entre 5% e 10%, segundo a FAO;
A especulação, dada a menor rentabilidade e maior risco de outras aplicações.

Face ao que se está a passar, apenas breves duas observações:
Primeira – A crise parece ter apanhado toda a gente de surpresa, não obstante os múltiplos indícios que iam surgindo um pouco por todo o lado; todas as atenções estavam viradas para o petróleo, porventura por as correntes neo-liberais haverem desprezado a agricultura como sector estratégico fundamental.
Segunda – O objectivo neo-liberal de completa desregulamentação dos mercados parece cada vez mais inalcançável, desde logo na agricultura (como se verá na próxima ronda das negociações da OMC), onde, dada a radical alteração das circunstâncias, a necessidade de regulamentação dos mercados e dos preços acabará por impor-se.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

EPISÓDIOS DE ARBITRAGEM


FUTEBOL AINDA PIOR DO QUE A POLÍTICA

Acabei de ver na TVI o resumo do Sporting – Marítimo, arbitrado pelo mesmo árbitro que aqui há umas semanas dirigiu o Boavista – Benfica. Agora percebe-se melhor por que razão Pinto da Costa, segundo uma gravação publicada o ano passado pelo Correio da Manhã, depois do jogo Sporting – Porto, do último ano de Mourinho, arbitrado por aquele mesmo Senhor, disse ao telefone a um amigo que os jogadores do Porto tinham chamado ao árbitro todos os nomes possíveis, sem que da parte deste tivesse havido qualquer outra reacção que sorrisos e mais sorrisos. Segundo o presidente do Porto, os jogadores reagiam daquele modo ao favorecimento do Sporting.
É caso para dizer que os jogadores do Porto sabiam do que falavam e, principalmente, com quem falavam
O árbitro incapaz, pelo seu passado, de adoptar o comportamento devido, limitava-se a sorrir, como se nada se passasse.
Pôr, nesta fase do campeonato, este árbitro a arbitrar um jogo do Sporting, ainda por cima em Alvalade, seria como pôr um daqueles políticos que ingressaram na direcção de certas grandes empresas a decidir sobre concursos a que elas tivessem concorrido.

domingo, 27 de abril de 2008

A CRÓNICA DO SR. ANTÓNIO BARRETO

BASTA PEDIR DESCULPA?

Pela leitura do Público de domingo depreendo que o cronista António Barreto, há duas semanas atrás, aceitou como verídicos e inquestionáveis os “factos” descritos pelo autor do livro “Holocausto em Angola”. Entre os ditos “factos” conta-se a famosa carta apócrifa de Rosa Coutinho a Agostinho Neto, que a extrema direita portuguesa e os ex-pides refugiados na África do Sul divulgaram de mão em mão há muitos anos e que, pelos vistos, continuam a divulgar, agora com recurso a novas tecnologias.
Barreto no Público de hoje desculpa-se (diz desconhecer que sobre o assunto já tivesse sido publicado qualquer desmentido), lamenta ter utilizado como argumento um documento apócrifo e pede desculpa a Rosa Coutinho.
Não creio que a questão posa ficar arrumada com estas desculpas. O episódio diz muito sobre a credibilidade do seu autor e sobre o modo como infelizmente se “faz opinião” em Portugal. Não sou de opinião que o Público tenha particulares responsabilidades no sucedido ou sequer tenha qualquer responsabilidade. O que entendo, todavia, é que num país a sério este Senhor nunca mais escreveria num jornal…por falta de leitores.
De facto, não se trata de um erro vulgar, mas antes de um atitude de espírito de quem está predisposto a aceitar como verdadeiros factos que nem o mais néscio dos leitores aceitaria sem, no mínimo, os questionar. Procurou Barreto informar-se sobre a veracidade dos mesmos? Que diligências fez? Teria ele tido a mesma atitude se factos semelhantes fossem imputados a uma das suas “vacas sagradas”?
E é gente desta que ensina nas nossas universidades!

A BÊTE NOIR DO EMPRESARIADO PORTUGUÊS


O PONTO DE VISTA DA JERÓNIMO MARTINS

Percorro o Público de hoje. Detenho-me na página de economia. Leio a entrevista do principal responsável pela Jerónimo Martins. Procuro em vão uma ideia nova do empresariado português para os tempos de mudança que se antevêem. Que encontro? O mesmo problema de sempre: a incontornável dificuldade de as empresas terem de laborar com trabalhadores!
E havendo trabalhadores há os problemas de sempre, ou melhor, os problemas herdados do século passado: a não liberalização dos despedimentos, apesar da taxa de desemprego, dos contratos a prazo e dos recibos verdes; o excesso de direitos, não obstante a constante diminuição do salário real dos trabalhadores; o “impacto brutal” do 25 de Abril de que “ainda estamos a pagar a factura” (a factura da “inflexibilidade” e dos “direitos”); a “inflexibilidade dos horários”, por exemplo, do horário de refeições, por que não reduzir essa pausa a meia-hora ou até a menos, se o trabalhador estiver de acordo?
Por último, o dito empresário acha que a crise resulta de só se falar de problemas e mais problemas. E confessa-se um homem formado numa escola em que o domingo era o dia da família e de ir à missa. De estar com o avô, com os pais, com os tios…Mas está de acordo com a abertura dos supermercados ao domingo, com outros horários para os serviços públicos, para as escolas…e, presumo, também para as missas e já agora para as visitas familiares (talvez de madrugada…).
Na Polónia dos manos ou do actual governo liberal este empresário sente-se bem. Aqui, em Portugal, é preciso licenças para tudo. Na Polónia não. É tudo rapidíssimo. É um prazer lá estar.
Da Polónia, este empresário tem a opinião do turista. Daquele que vê superficialmente aquilo que o acaso lhe mostra. Saberá ele porventura quantos polacos qualificados emigraram para o Reino Unido, para a Irlanda, para a Suécia, enfim, para os países da Europa ocidental desde a adesão da Polónia à União Europeia? Mas que é que isso lhe interessa se tiver gente disponível para empregar como caixa de supermercados com a possibilidade de despedir sempre que as superiores conveniências da empresa o exijam?
Este é mais um exemplo do empresariado português. Mais um exemplo da gente para quem o “Bloco Central” governa!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O QUE ENTRETANTO SE PASSOU


DOZE DIAS IMPORTANTES, MAS INSUFICIENTES PARA ABALAR O MUNDO

Separado por muitos fusos horários e sem possibilidade de aceder à internet nas horas disponíveis, foram-me chegando os ecos do entretanto acontecido.
Registo: 1) a vitória de Berlusconi e a derrota do centro (já não há esquerda em Itália?); 2) a demissão de Menezes depois do ataque soez a Fernanda Câncio, prenunciadora da desagregação do PSD; 3) a triste figura de Cavaco na Madeira, que recebeu os deputados da oposição no hotel; 4) o ataque do PS ao contrato de trabalho, pondo a nu a falsificação ideológica daqueles que insistem em ver nele um partido social-democrata; 5) o corajoso artigo de Mário Crespo sobre os aviões executivos; 6) o ataque de Lula ao FMI, a propósito de uma situação recorrente há mais de vinte anos, para indirectamente reagir à louvável tomada de posição de Dominique Strauss-Khan contra o biocombustível; 7) a derrota de Obama na Pensilvânia, que pode pôr em causa a sua nomeação; 8) a incapacidade de o Benfica-clube reagir à crise, consequência da completa ausência de vitalidade do seu corpo associativo.

25 DE ABRIL SEMPRE






A DEMOCRACIA INACABADA

Trinta e quatro anos depois do dia que pôs termo a 48 anos de ditadura e a 42 de poder pessoal retrógrado, tirânico e policial, da esperança que inundou o país, sobra a democracia representativa de soberania partidária ou, para não ser tão cáustico, de soberania parlamentar.
Apesar das evidentes limitações deste tipo de regime, tanto no plano político, como nos planos económico, social e cultural, não há comparação possível entre as realizações da ditadura durante os quase 50 anos de vigência e as da democracia representativa durante um período relativamente menor.
Esta verdade evidente não nos pode contentar. Todos os democratas sabiam que o regime que queriam construir não tinha a ditadura salazarista por termo de comparação. Sonhavam com mais, com muito mais. E é exactamente esse sonho que continua por realizar.

domingo, 13 de abril de 2008

JIMMY CARTER DEFENDE ENCONTRO COM HAMAS

CARTER ABRE CAMINHO A OUTRA DIPLOMACIA NO MÉDIO ORIENTE

Contrariando os conselhos do Departamento de Estado, Jimmy Carter continua a defender a possibilidade de se reunir, na Síria, com representantes do Hamas, durante a sua visita ao médio oriente na semana que vai entrar.
Carter considera que a paz entre Israel e os seus vizinhos não pode excluir ninguém, além de que falar com o Hamas é importante para avaliar da sua flexibilidade e para o tentar convencer a interromper os ataques contra civis inocentes.
Apesar das críticas de Condolezza Rice, que não vê no encontro qualquer vantagem, o que Carter parece querer dizer aos americanos é que a paz no Médio Oriente e noutras partes do mundo só é possível negociando, principalmente quando começa a estar à vista de toda a gente que outros métodos estão muito longe de levar aos resultados esperados.

ESPANHA: UMA MULHER NA DEFESA


9 MINISTRAS, 8 MINISTROS

Segundo Zapatero, o novo governo espanhol, hoje empossado, terá três grandes objectivos: assegurar o crescimento económico com mais valor acrescentado; afrontar de maneira integral os grandes desafios das mudanças climáticas e garantir a igualdade entre homens e mulheres. Porventura para dar um sinal de que este último objectivo está alicerçado numa sólida vontade política, foi nomeada ministra da Defesa uma mulher, Charme Chacón e criado o ministério da Igualdade.
O novo governo, composto por 17 ministros, mantém o núcleo duro do governo anterior, os vice-presidentes, Teresa de la Vega e Pedro Solbes, Rubalcaba no Interior, Moratinos nos Assuntos Exteriores e Bermejo na Justiça, sendo de sublinhar a entrada de apenas cinco novos ministros.
Pela primeira vez em Espanha, à frente da Defesa ficará uma mulher e, também pela primeira vez, o Governo terá mais mulheres do que homens.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

AINDA OS BIOCOMBUSTÍVEIS


A SUBIDA DOS PREÇOS DAS MATÉRIAS-PRIMAS VEGETAIS

No debate quinzenal de hoje, o primeiro-ministro, ao abordar os temas da energia, anunciou que, em 2010, dez por cento da energia consumida pelos transportes terá a sua origem no biocombustível.
A satisfação com que o primeiro-ministro anunciou a meta a alcançar parece só ter paralelo nos grandes produtores de etanol, já que por todo o lado são cada vez em maior número as vozes que se erguem contra o biocombustível.
Ainda esta semana, na reunião de primavera das instituições de Bretton Woods, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional se uniram contra os biocombustíveis, responsabilizando-os pela alta dos preços de alimentos básicos como o trigo e o arroz. E na Europa, a Agência Europeia do Meio Ambiente considera que eles nem sequer contribuem para a redução do efeito estufa.
A subida dos preços dos produtos alimentares, que já era uma consequência do aumento de consumo dos países emergentes, foi extraordinariamente potenciado pela produção dos biocombustíveis. Se a isto juntarmos a actividade especulativa daqueles que passaram a apostar nas matérias-primas agrícolas teremos uma situação de consequências imprevisíveis. Situações como a que agora se registou no Haiti vamos certamente tê-las em muitas partes do mundo.
Perante um cenário desta natureza soam a irresponsabilidade as respostas e as réplicas do primeiro-ministro durante o debate parlamentar de hoje.

ALGUNS DADOS DA CRISE ITALIANA


NA VÉSPERA DE ELEIÇÕES

A Itália é um país em crise há muitos anos. Crise económica, política e social. Depois da “operação mãos limpas”, que varreu da cena política os partidos saídos da situação política subsequente à segunda guerra mundial e à derrota do fascismo, pode dizer-se que a Itália nunca mais se encontrou. Sem nunca ter tido um grande peso na cena política internacional, salvo o que lhe advinha de aliada fiel dos americanos, a Itália prestigiou-se e impôs-se nos tempos modernos pelo seu poderio económico.
Hoje a Itália é uma pálida imagem dos idolatrados tempos do milagre italiano.
Os dados recentemente tornados públicos pela Universidade de Turim, mostram-nos uma Itália totalmente dependente do petróleo, com uma despesa pública à volta de 40% do PIB, uma dívida pública de 105%, taxas de desemprego e precariedade muito altas, taxas de ocupação feminina baixas, subida em flecha do número de famílias em dificuldades, os impostos mais altos da Europa a seguir à Alemanha e salários apenas superiores aos de Portugal. Uma Itália dominada em grande medida pelas máfias, como ainda agora se evidenciou na crise de Nápoles, fracturada entre o norte e o sul e politicamente desagregada, como os recentes e cada vez mais frequentes poderes assumidos pelos municípios, em domínios da competência governamental, claramente revelam. Uma Itália, enfim, já ultrapassada pela Espanha, brevemente pela Grécia e dentro de mais ou menos uma década pela Roménia.
É neste contexto que vão ter lugar as eleições de domingo e segunda-feira próximos. Eleições fundamentalmente disputadas entre o Partido Democrático (PD), de Veltroni, e seus aliados, e o Partido do Povo da Liberdade (PDL), de Berlusconi, que concorre aliado à Liga do Norte e ao Movimento para a Autonomia (MPA), da Sicília.
As sondagens dão uma vitória à direita na câmara baixa, Câmara dos Deputados, com uma margem entre 7 e 9 pontos, embora não sejam tão conclusivas quanto à câmara alta, Senado, que em Itália tem uma importância praticamente equivalente à daquela. Sem maioria no Senado dificilmente se governa e em minoria, em princípio, não se governa, como aconteceu a Prodi.

BRASIL PREPARA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE BIOCOMBUSTÍVEIS


COMBUSTÍVEL ALTERNATIVO OU MAIS DO MESMO?

O Brasil espera receber representantes de todo mundo na Conferência Internacional de Biocombustíveis que, em Novembro, terá lugar em S.Paulo.
O Brasil e os Estados Unidos são os dois países mais interessados na promoção do biocombustível como alternativa aos combustíveis fósseis. O Brasil produz etanol extraído da cana-de-açúcar e os Estados Unidos, do milho. Ambos os países lideram as respectivas produções mundiais e ambos estão empenhados em demonstrar que a diminuição do consumo de combustíveis fósseis mediante o incremento do consumo de etanol contribuiria para a redução das emissões de gazes poluentes causadores do efeito estufa.
À primeira vista, parece que a altura escolhida pelas autoridades brasileiras para a realização da conferência não poderia ser pior. Para além da crítica geral que se faz ao etanol, assente no argumento de que muito mais importante do que mudar o combustível o que verdadeiramente interessava era substituir o motor de combustão, a recente crise das matérias-primas agrícolas, caracterizada pelo extraordinário aumento do seu preço, parece desaconselhar a promoção de um combustível produzido a partir de produtos cujo preço subiu consideravelmente nos últimos tempos. E, embora esta subida seja a consequência da conjugação de várias causas, parece consensual estar entre elas a produção de biocombustível.
No Brasil, o etanol é ainda acusado de impulsionar a deflorestação de vastíssimas áreas, incluindo a Amazónia, para onde tenderiam a avançar as produções de cana-de-açúcar, o que, a concretizar-se, contribuiria mais para o efeito estufa do que o consumo de combustíveis fósseis.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

ZAPATERO NÃO OBTÉM INVESTIDURA NA PRIMEIRA VOTAÇÃO


PSOE GOVERNARÁ SEM ALIANÇAS FIRMES

Como se esperava, José Luis Zapatero não foi hoje investido primeiro-ministro por não ter obtido a maioria absoluta dos votos (176). Em princípio, e salvo qualquer surpresa que se não espera, será investido na próxima 6.ª feira com maioria relativa.
O desfecho da votação de hoje era esperado, por não ter sido alcançado um acordo estável com as forças que, em princípio, poderiam apoiar Zapatero: a Convergências e União (CiU), da Catalunha e Partido Nacionalista Vasco (PNV), do País Basco.
As negociações, que decorreram durante alguns dias, não se traduziram em qualquer acordo firme, facto que não constituiu surpresa para ninguém, já que desde a primeira hora se compreendeu que o PSOE não estaria na disposição de selar um acordo a qualquer preço. Zapatero considera-se hoje mais forte do que há quatro anos, principalmente no País Basco e na Catalunha, regiões onde ganhou as eleições em todas as províncias. Por outro lado, um entendimento com a CiU não era do agrado do Partido Socialista da Catalunha (PSC), circunstância que pesou decisivamente no desfecho das negociações. Relativamente ao PNV, uma certa ambiguidade da linha política, depois da derrota de 9 de Março, também não favoreceu um entendimento com os socialistas.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A CRISE AMERICANA SEGUNDO A ACTA DO FOMC

A ACTA DO FOMC ADMITE CRISE ECONÓMICA PROLONGADA E SEVERA NOS EUA

A acta do FOMC (Comité federal do mercado aberto) do FED (Reserva federal) de 18 de Março, hoje tornada pública, refere a possibilidade de ocorrer uma prolongada e severa desaceleração económica no país, tendo sido essa a razão que levou aquele Comité a um corte de 0,75% da taxa de juro, agora fixada em 2,25%. A esperada contracção na economia americana no primeiro semestre deste ano, depois de um crescimento muito baixo no último trimestre de 2007, configura o conceito técnico de recessão.
De certo modo, no mesmo sentido se pronunciou o FMI, que hoje confirma que a crise ultrapassou os confins do mercado americano do “subprime” e já atinge os principais mercados imobiliários, o crédito do consumo e o crédito das empresas, admitindo ainda a sua continuação em circunstâncias mais perigosas