segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A EUROPA SEGUE O SEU CAMINHO NA RELAÇÃO COM A RÚSSIA


AS PRIMEIRAS FISSURAS


Os Estados Unidos estão fazendo tudo o que está ao seu alcance para isolar a Rússia.
Dick Cheney andou a prodigalizar promessas e ameaças no Cáucaso, onde verdadeiramente só colheu o apoio a cem por cento do “cadáver político” Saaskashvili – como lhe chama Medvedev -, e procura agora trazer para o seu campo a Itália de Berlusconi, o qual, por força dos negócios que tem com a Rússia e da relação pessoal com Putin, se tem recusado a alinhar com os americanos.
Entretanto, o ministro das Relações Exteriores de Espanha, Miguel Ângel Moratinos, na entrevista que hoje concede ao El País, deixa claro que não é do interesse da Europa uma política seguidista da dos Estados Unidos. Na linguagem diplomática própria de quem exerce a sua função diz expressamente que “devemos evitar que nos coloquem de novo uma agenda de guerra fria” e fala na criação de um grande espaço geopolítico pan-europeu, abrindo assim a porta para a discussão da proposta de Medvedev sobre uma nova arquitectura de segurança europeia. Enfim, toda a sua intervenção vai no sentido de manter e aprofundar a relação com a Rússia, sendo inclusive sintomático que, no decurso da entrevista, tivesse revelado que, no último Conselho Europeu extraordinário, houve chefes de Estado e de Governo que recordaram que as hostilidades no Cáucaso foram abertas pela Geórgia. Finalmente, deixa uma crítica muito marcada relativamente aos países antes pertencentes ao Pacto de Varsóvia ou que integravam a URSS: “O problema é que alguns dos antigos membros da URSS e actuais da UE não avaliam os seus vizinhos russos com os mesmos critérios de relação serena e positiva que todos desejaríamos”.
Hoje mesmo, no Kremlin, a missão chefiada por Sarkozy parece ter chegado a acordo com Medvedev sobre a retirada das tropas russas da Ossétia do Sul e da Abekázia, depois de aquele ter recebido garantias de que a Geórgia não voltaria a atacar aquelas regiões. Moscovo manterá o reconhecimento e continuará a patrulhar áreas adjacentes àquelas duas regiões.
Enfim, a Europa, com mais ou menos dificuldades, continuará a fazer o seu caminho na relação com a Rússia. Um caminho que os interesses europeus impõem diferente do dos Estados Unidos.
Certos sectores da nossa comunicação social, curiosamente os mesmos que ainda não digeriram a derrota de Savimbi, vão ter muita dificuldade em compreender isto e vão continuar, diariamente, a envenenar a opinião pública.

AS ELEIÇÕES EM ANGOLA

E, AGORA, O QUE DIZEM OS DETRACTORES?

As eleições em Angola traduziram-se numa esmagadora vitória do MPLA, porventura acima das previsões mais optimistas.
O MPLA ganhou, como se esperava, de nada tendo valido a histérica contra informação dos portugueses do costume, antes e durante o acto eleitoral.
Ainda tentaram dizer que as eleições não representavam a “verdadeira” vontade popular - vontade de que, pelos vistos, eles são os verdadeiros intérpretes – mas à medida que o escrutínio avançava e os resultados se iam impondo não tiveram outro remédio que não fosse o de “meter a viola no saco”.
Esta gente que em Portugal mantém uma permanente guerrilha contra Angola – colonialistas, ex-pro-chineses de todos os matizes, savimbistas inconsoláveis, etc. – deveria reflectir um pouco sobre os resultados eleitorais e passar a dedicar-se a outra actividade.
Não sei se a “rapaziada” do Eixo do Mal também se ocupou das eleições em Angola – não vejo o programa há mais de dois meses – mas acho que, depois de tudo o que já disseram, só lhes resta pedir a dissolução do povo angolano!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A VIAGEM DE DICK CHENEY AO CÁUCASO

A GRADUAL MUDANÇA DA OPINIÃO PÚBLICA EUROPEIA

Dick Cheney está hoje na Ucrânia, depois de ter visitado o Azerbaijão e a Geórgia. Simultaneamente, em Moscovo os líderes da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC), composta pela Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Rússia davam o seu apoio “ao papel activo da Federação Russa para contribuir para a paz e a cooperação e garantir uma sólida segurança na Ossétia do Sul e na Abekázia”.
A Ucrânia, a braços com uma grave crise política e com o Presidente pró-americano em crescente perda de popularidade (as sondagens não lhe atribuem mais de 10%), é a chave da crise no Cáucaso. Tudo se joga lá. Se houver mudança na Administração americana – hipótese que a muitos parece cada vez mais remota – as forças ucranianas que se opõe a uma relação conflituosa com a Rússia (forças francamente maioritárias) vão ter oportunidade de reverter a actual situação.
Se na América tudo continuar na mesma – e com McCain tudo ficará na mesma ou até pior –, a Ucrânia será palco de um grave conflito.
Curiosamente, na Europa Ocidental (ocidental geograficamente falando) são cada vez mais as vozes, pertencentes a todos os quadrantes políticos, que defendem a inexistência de interesses comuns com a América na relação com a Rússia.
De facto, de nada vale aos novos arautos da guerra-fria continuarem diariamente a esgrimir nos jornais com argumentos ideológicos, quando toda a gente já percebeu que o que os americanos pretendem é assegurar, em exclusivo proveito próprio, a supremacia no Cáucaso e na Ásia Central.
A Europa nada tem a ganhar com esta política americana. Os interesses da Europa vão noutro sentido: no estabelecimento de uma relação dinâmica e segura com a Rússia, dada a grande interdependência já existente entre estas duas partes da mesma Europa.
Se os governantes políticos europeus não compreenderem isto, acabarão por ser responsáveis por um trágico hara kiri. A política prudente que o governo português tem até ao presente seguido nesta matéria deve ser saudada como um gesto de sabedoria política.

A HEROICIDADE DE JOHN McCAIN


OU A FORÇA DO PODER IDEOLÓGICO

John McCain, filho de uma família de militares, nascido na Zona do Canal do Panamá, cedo seguiu também a carreira militar, tendo participado na Guerra do Vietname como piloto aviador da marinha. No Vietname participou activamente na agressão desencadeada pelos norte-americanos contra o Vietname do Norte, nos famosos bombardeamentos a alvos civis, com napalm, tendo o seu avião sido derrubado quando o agora candidato à presidência dos Estados Unidos executava a sua 23.ª missão.
Atingido o avião que pilotava, McCain conseguiu salvar-se, ejectando-se em pára-quedas, que acabou por aterrar no lago Truc Bach. Quando se aproximava da margem, ferido nos braços e numa perna, foi capturado por civis norte-vietnamitas.
Tratado, pelos vietnamitas, no hospital nas 6 semanas seguintes, McCain esteve preso durante 5 anos. Logo após a prisão, os vietnamitas, tendo tido conhecimento de que o prisioneiro era filho do oficial general que então comandava o Pacífico, propuseram a sua libertação, mas McCain recusou-a, caso a medida se não estendesse a todos os prisioneiros.
Durante o tempo de prisão, chegou a confessar nos interrogatórios que cometera crimes de guerra, mas, posteriormente, negou-se a reconhecer outras incriminações.
Bertrand Russel na análise que fez da guerra do Vietname considerou-a uma guerra racista. Uma guerra onde as atrocidades que se cometiam contra os civis só eram possíveis porque aqueles que as sofriam eram considerados um povo inferior. Seja assim ou não, a verdade é que o ódio das populações civis durante a guerra do Vietname era fundamentalmente dirigido contra os ataques assassinos da aviação americana. Evidentemente, que no sul também havia massacres, como os de Mai Lai, e outros dirigidos contra populações civis. Todavia, o combate era mais nobre. A infantaria americana aerotransportada tinha de ir ao objectivo e sofria nessas suas incursões seriíssimos reveses. Nada disto se passava no Norte. Para as populações do Norte, a guerra movida pelos americanos era uma guerra covarde. Por isso, todo o mundo se comovia com o sofrimento dos vietnamitas e enaltecia a nobreza de carácter das suas populações por pura e simplesmente não liquidarem sumariamente os pilotos derrubados.
Numa guerra injusta e cruel, o povo vietnamita deu ao mundo uma grande lição de heroicidade. E por isso saiu vencedor, derrotando a potência mais poderosa alguma vez existente à superfície da terra.
McCain, como tantos outros que participaram em guerras semelhantes, como é o caso das guerras coloniais da segunda metade do séc. XX, foi capturado em combate e tratado como prisioneiro de guerra. Acabou por ser libertado, sem ser julgado, no fim da guerra. Quantos vietnamitas nas mesmas condições se poderão vangloriar de idêntico fim?

A SRA RICE EM LISBOA

O KOSOVO E O CÁUCASO


Acabo de assistir ao resumo de uma conferência de imprensa conjunta da Sra Rice e de Luis Amado.
Perguntada sobre se o reconhecimento do Kosovo não abriu a porta à Rússia para o reconhecimento das regiões separatistas do Cáucaso, Rice deu as esfarrapadas explicações do costume e disse que não podia ser feito qualquer paralelo entre as duas situações (como, de resto, Cavaco já também tinha dito na Polónia).
Pelo contrário, Luis Amado numa excepcional demonstração de independência relativamente à diplomacia americana, concordou que aquele paralelismo poderia ser feito.
Já aqui por mais de uma vez sublinhei e demonstrei as diferenças na política externa portuguesa em relação ao passado. Continuo a pensar que isso se deve a Sócrates, muito mais pragmático e menos ideológico nestas matérias.
ADITAMENTO
A gente lê e não acredita. Diz o Correio da Manhã que o "Grande Aliado" mandou a Sra Rice a Lisboa para convencer José Sócrates a desistir de concorrer ao contrato de manutenção dos C 130 da Líbia. Um negócio de 100 milhões de euros. Com aliados destes um pequeno país como Portugal não precisa de inimigos. Viva a relação transatlântica!

A AMÉRICA NO BOM CAMINHO



O DISCURSO DE SARAH PALIN


Para que não haja dúvidas, John McCain escolheu (ou foi obrigado a escolher) Sarah Palin para candidata a vice-presidente. Não que McCain se distinga assim tanto de Bush. Terá votado com ele em 90% dos casos. Mas sempre poderia dizer que discordou de Guantánamo, da tortura, das escandalosas vantagens fiscais concedidas aos ricos. Com Sarah Palin tudo fica claro. É o partido dos neo-conservadores que está presente. Basta ouvir o discurso dela na Convenção, escrito – para que não haja qualquer dúvida – pelo writer de Bush – Matthew Scully.
E como muita gente acredita que, por uma outra razão, o Vice-presidente acabará por governar em algum período dos próximos quatro anos, a escolha de Palin não poderia ser mais judiciosa…

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

AS ELEIÇÕES EM ANGOLA

A RECUSA DE VISTOS À IMPRENSA HOSTIL

Vai um grande alarido na SIC e Companhia (a companhia é o Expresso, o Público e a Visão) por o Governo angolano não ter concedido vistos aos jornalistas daqueles meios de comunicação social para cobrirem as eleições de amanhã.
Conceder ou não conceder vistos é atributo de soberania. Ninguém tem de se admirar por um país não conceder visto a um estrangeiro. Lembro alguns casos paradigmáticos: as democratíssimas Holanda, Bélgica, França, Itália, Reino Unido, entre outros, não concederam, por mais de uma vez, visto a Humberto Delgado para visitar os respectivos países. Delgado, se lá quis ir, teve de o fazer com passaporte falso e sujeitar-se a ser preso. E o interesse “nacional” desses países era o de proteger a ditadura salazarista!
Há no mundo actualmente algum país que levante mais obstáculos à concessão de vistos que os Estados Unidos? Mais: violam vários e importantes direitos, com a cumplicidade activa de todos os países da União Europeia, sempre que alguém lá quer ir a partir de um país da UE.
E ninguém protesta, nem se fazem mesas redondas sobre o assunto.
Os órgãos de comunicação acima referidos desenvolvem desde sempre uma linha editorial hostil a Angola. Muitas e muitas vezes caluniosa. Deturpam frequentemente a verdade dos factos e estão, como em tantos outros domínios, cheios de ideias pré-concebidas. Ainda muito recentemente alguns deles deram azo a que nos seus respectivos espaços se cometessem crimes (sim, crimes: a calúnia, a injúria, etc. são crimes) contra várias personalidades angolanas.
Provavelmente, se fossem a Angola, seriam incomodados. Não, certamente, por falsearem a realidade; não, seguramente, por não aceitarem a independência de Angola; não, verdadeiramente, por não terem ainda digerido a derrota de Savimbi; mas, muito provavelmente, por razões semelhantes às acima referidas.
É, por isso, do interesse comum, de Angola e de Portugal, que eles lá não vão. Sem hipocrisias: como Portugal não os poderia impedir, acaba por ser positivo que Angola o tenha feito

ASSIM VAI A DEMOCRACIA NA UCRÂNIA


AMEAÇA DE NOVAS ELEIÇÕES

Vítor Iuschenko, o presidente pró-americano, ou quase americano, da Ucrânia sofreu novo revés no Parlamento. A sua antiga aliada Iulia Timoshenko aliou-se ao Partido da Regiões e a coligação governamental caiu.
A coligação governamental no poder, composta pelo partido de Timoschenko, pela Nossa Ucrânia e Auto Defesa Popular, gozava de uma maioria de apenas dois votos. Com a aliança de Timoshenko ao Partido das Regiões, o partido do Presidente (Auto-Defesa Popular, o nome fala por si…), que tem apenas 14,9% dos votos, afastou-se da coligação por discordar de umas leis aprovadas por 331 votos num parlamento de 450 deputados !!!
Pois bem, Iuschenko, grande democrata, muito saudado pelos países da NATO, tem uma forma simples de resolver o assunto. Desengane-se quem supõe que ele pediu ao partido mais votado para formar uma nova coligação que lhe permita governar. Nada disso, o que ele fez foi conceder à Primeira-ministra um prazo de 30 dias para refazer a coligação; se o não conseguir, haverá eleições antecipadas, pela segunda vez em ano e meio! E eleições continuará a haver até que obtenha uma maioria…
Logo por coincidência, amanhã, Dick Cheney estará em Kiev. E conta com uma vanguarda de 15% do eleitorado ucraniano para assegurar a aliança com os Estados Unidos. Os americanos andam a brincar com o fogo. Alguém se vai queimar…

AINDA CAVACO NA POLÓNIA

OS BONS SENTIMENTOS

O Presidente da República é uma pessoa de bons sentimentos e aproveita para os manifestar bem longe da Pátria. Certamente por modéstia. A Polónia, grande exemplo de democracia, é o local ideal para o fazer.
Cavaco faz votos para que as eleições em Angola sejam livres e justas. Grande sentimento este, capaz de nos comover. E para as eleições americanas não faz esses votos? Que votos para a eleição que Bush “ganhou” há oito anos na Florida? E que dizer das vitórias republicanas nos pobres estados do sul de maioria negra e de grande “maioria” branca nos cadernos eleitorais? E, para fim de conversa sobre este assunto, não guardo na minha memória de antifascista qualquer tipo de preocupação semelhante de Cavaco Silva sobre as “eleições” de Salazar e Caetano.
Mas Cavaco não se ficou por aqui. Foi a Cracóvia para homenagear João Paulo II, que é dali perto, e lá foi bispo. Sentiu-se emocionado pelo papel desempenhado pelo falecido Papa na Europa Central e do Leste. Apreciou muito a mensagem do Papa na sua primeira viagem à Polónia: “Não tenhais medo!”. E ficou comovido. Aqui na nossa terra também era preciso não ter medo. E também não me consta que alguma vez Cavaco tenha ficado comovido com os que não tiveram medo…
ADITAMENTO

Dias depois de ter escrito este post, ao finalizar a leitura da biografia do General Humberto Delgado, deparo-me com estas palavras do General Sem Medo: “Não tenhais medo, porque se não o tiverdes, será o tirano que terá medo!”

AFINAL, OS COMBUSTÍVEIS SUBIRAM!


ENTÃO, NÃO É ÓBVIO QUE O ROBIN DOS BOSQUES NUNCA EXISTIU?

A desfaçatez das gasolineiras não tem limites. O petróleo desce mais de 40 dólares por barril e o preço dos combustíveis ao consumidor sobe.
Então, não é verdade que o Robin dos Bosques nunca existiu? De facto, o que existe é o xerife de Notingham. O xerife deixa que os donos dos castelos saqueiem o povo e os ajudantes do xerife, numa manobra simultaneamente de diversão e de solidariedade ideológica de classe, estão é preocupados com a mais que hipotética recuperação do poder de compra dos funcionários públicos. Que fiquem na mesma ou, se possível, ainda pior.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

OS "PRIVILÉGIOS" DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS


O ATAQUE AO ESTADO

Os funcionários públicos perderam nos últimos oito anos cerca de 11,2% em poder de compra, ou seja, 112 euros por cada mil de salário, diz o Correio da Manhã de hoje.
Ora aqui um bom exemplo dos privilégios de que os funcionários públicos gozam e que os acólitos do governo tão denodadamente se têm esforçado em combater.
Na verdade, o ataque ao modelo social vigente passa em primeira linha pela degradação das condições de vida dos funcionários, e logo depois pelo desprestígio da função. E tal acontecerá porque o governo quer menos Estado? Não, nada disso. O que o governo quer é outro Estado…

CAVACO EM VARSÓVIA

CAVACO PREOCUPADO COM OS DIREITOS DA GEÓRGIA

Cavaco disse ontem em Varsóvia que “a União Europeia enviou uma mensagem muito firme e muito clara para a Rússia em defesa da integridade territorial da Geórgia” e finalizou, sentenciando: “a UE quer cooperação, mas com respeito”.
Como Cavaco estava a falar na presença do Presidente polaco só poderia estar a falar para ele, já que para os portugueses tinham falado aqueles que participaram no Conselho Europeu extraordinário. E tantos os portugueses como o Presidente polaco sabem muito bem que a mensagem não foi forte, nem firme. Foi o que podia ser. Por isso, é bom que o PR de um pequeno país não se ponha se ponha a falar grosso para um país como a Rússia, não somente porque é ridículo fazê-lo, mas também porque apenas aqueles que actuam como correias de transmissão de Bush e C.ª ousam ter esse comportamento.
Era bom que Cavaco e os seus assessores lessem o que se tem publicado por essa Europa fora sobre o conflito georgiano e sobre os verdadeiros interesses da Europa. Se passados estes anos todos ainda há quem fale para a Rússia vendo nela a URSS, termos de reconhecer que essas pessoas vivem num mundo imaginário do qual não conseguem libertar-se.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A INDEMNIZAÇÃO CONCEDIDA A PAULO PEDROSO


EFEITOS DE UMA SENTENÇA JUDICIAL

Os telejornais da noite abriram com a notícia de que um tribunal judicial de primeira instancia havia concedido uma indemnização a Paulo Pedroso por, em consequência de erro grosseiro, ter estado indevidamente preso.
Toda a gente tem presente as condições em que se verificou a prisão de Pedroso, então dirigente do PS e das acusações na mesma altura lançadas sobre outros dirigentes do partido, com particular destaque para o então secretário-geral. Igualmente nos recordámos do clima apoteótico que rodeou a sua libertação e da recepção emocionada que os seus colegas de partido lhe fizeram na Assembleia da República, no próprio dia em que foi libertado.
Igualmente nos lembrámos das acusações que os jornais veicularam de pretensas pressões exercidas por altos dignitários para que a prisão não tivesse lugar ou para que se lhe pusesse termo o mais rapidamente possível.
De igual modo nos recordámos das enérgicas acusações de cabala política contra o PS defendidas com toda a veemência pelos dirigentes de então, como nos recordámos das vicissitudes que rodearam a não pronúncia de Pedroso, bem como da composição do tribunal que o julgaria.
É tendo tudo isto presente, ao analisar o efeito desta decisão, ainda não transitada em julgado, sobre a opinião pública que eu fico muito apreensivo por não ter sido aberto um processo-crime contra o juiz que ordenou a prisão preventiva de Pedroso. De facto, tendo em conta todo o circunstancialismo que rodeou este caso, acima sinteticamente descrito, a opinião pública só ficaria verdadeiramente tranquila se soubesse que estava em curso uma averiguação baseada na suspeita de comportamento doloso do juiz. Na verdade, o que separa, num caso com estes contornos, o erro grosseiro do dolo? Se isso não acontece e, principalmente, se não acontece porque não há juridicamente base para isso, então esta sentença pode ter o efeito perverso de desacreditar ainda mais o sistema de justiça português. As pessoas em geral não vão dizer que se fez justiça, o que as pessoas infelizmente vão dizer é que os poderosos e os influentes não só não são punidos, como ainda por cima recebem uma indemnização, enquanto os fracos e os desprotegidos por muitas injustiças que se lhes faça nunca são reparados.
Um juiz deve acima de tudo ser um homem prudente…por isso tem por função fazer jurisprudência…

ALGUNS DADOS ESTATÍSTICOS RELATIVOS ÀS RELAÇÕES COMERCIAIS UE-RÚSSIA


O QUE FALA MAIS ALTO

A UE exporta para a Rússia 1.238.847 milhões de euros e importa 1.424.424 milhões de euros.
Na Europa, o grande parceiro comercial da Rússia é a Alemanha. Exporta 28.089 milhões de € e importa 27.587 €, seguido de muito longe pela Holanda (6.898 m €/17.989 m €), pela Itália (9.579 m €/14.354 m €), pela Polónia (4.727 m €/10.449 m €) e pela França (5.602 m €/10.437 m €). Um pouco mais abaixo, mas ainda com um grande volume de negócios, estão a Finlândia, a Espanha, o Reino Unido, a Bélgica, a Suécia e outros.
A Rússia vende fundamentalmente produtos primários e importa produtos manufacturados.
A Rússia é terceiro sócio comercial da União Europeia, depois dos Estados Unidos e da China. Dela a UE importa um terço do petróleo que consome e 40% do gás. Por outro lado, a UE é o maior investidor do mercado russo. As companhias petrolíferas alemãs, italianas e até britânicas fizeram grandes investimentos na Rússia. Exactamente por estas óbvias razões é que os patrões alemães da EON, da VW e da BASF, bem como os italianos da ENI e também os ingleses da BP não estão nada de acordo com o clima de confrontação que os americanos teimam em criar com a Rússia. Basta ouvir Berlusconi para se compreender o que está em jogo.
Não deixa por isso de ser espantoso que a imprensa ocidental sempre pronta a acolitar Washington tenha criado um clima de guerra fria e mantenha uma retórica semelhante à existente no tempo da URSS. Ainda agora mesmo, na SIC Notícias, um conhecido jornalista com muitos anos de América e fervoroso apoiante do Partido Democrático continua a falar de URSS em vez de Rússia. Mais do que um lapsus linguae, o que existe é um verdadeiro lapso mental que não lhe permite ver que o que agora existe na Rússia é um regime capitalista igual aos outros, obviamente com tentações imperiais dada a extraordinária dimensão territorial do país.
ADITAMENTO

AS VICISSITUDES DE UM NOME

À noite, no noticiário da SIC Notícias, também Cavaco ao falar na Polónia sobre os resultados da reunião extraordinária do Conselho Europeu, disse que a Europa tomou uma posição firme relativamente à União… e depois, ainda a tempo, antes de dizer Soviética, corrigiu para Rússia.
Durante a ditadura, a direita portuguesa recusava à URSS o direito ao nome e sempre lhe chamava Rússia, quer para acentuar o que consideravam ser o modelo colonial russo (vejam-se as lições universitárias dos professores que à época leccionavam o direito colonial), quer para desvalorizar, para o nível da ficção e da propaganda, a federação então existente.
Curiosamente, depois da extinção da URSS, essa mesma direita frequentemente toma a Rússia pela URSS e não consegue tirar da cabeça uma realidade que já não existe!

AS DUAS PRIMEIRAS JORNADAS DA LIGA PROFISSIONAL DE FUTEBOL

NADA DE MUITO NOVO ACONTECEU

O Porto continua forte, apesar de ter perdido quatro jogadores influentes. Se nada de anormal acontecer, o plantel de que dispõe será suficiente para revalidar o título, embora não tenha um grande guarda-redes, nem centrais de grande nível. Mas, em princípio, chega. Mais de duas dezenas de anos depois de muito trabalho nocturno de Pinto da Costa e de Reinaldo Teles, a acumulação primitiva assim conseguida permite ao clube funcionar na perfeição, agora em plena luz do dia.
O Sporting começou bem e está mais sincronizado do que o ano passado, embora seja ainda muito cedo para antever como se irá comportar nos períodos críticos do campeonato. Certa, apenas a capacidade para fazer reverter em proveito próprio os eventuais erros de arbitragem que o desfavoreçam, como ainda ontem se viu em Braga ao não ser assinalada uma gp por carga de Postiga a Meyong na área.
O Guimarães, depois do empate em casa e da derrota em Basileia, acabou por ganhar na Madeira, embora com alguma felicidade. A possibilidade de repetir o feito do ano passado vai depender mais do demérito de terceiros do que de mérito próprio.
Finalmente, o Benfica está igual a si próprio. De novo apenas a pungente e confrangedora incapacidade física evidenciada por quase todos os jogadores no jogo contra o Porto. Tenho para mim que estar ligado profissionalmente ao futebol durante muitos anos ou até durante toda a vida não significa necessariamente que se perceba de futebol. O Benfica deixou há muito de ser uma equipa atractiva para jogadores de categoria ou para técnicos credenciados na plenitude de funções. No plano puramente técnico, a maneira mais segura de o regenerar passaria pela contratação de treinadores jovens, ambiciosos, desejosos de fazerem carreira no futebol europeu. O mesmo se devendo fazer relativamente aos jogadores. A contratação de jogadores acomodados, ricos, com falhanços sucessivos nos últimos anos, depois de um promissor começo de carreira, é um erro crasso. Ou seja, o Benfica, em vez de contratar jogadores com Rolls Royces e outras máquinas do género, deveria antes contratar jogadores habituados a andar a pé, para, ao menos, ter a garantia de que aguentam um jogo de futebol a correr!

UMA PERGUNTA PERTINENTE

ESTÃO OS COMBUSTÍVEIS NA BOMBA AO PREÇO A QUE ESTAVAM QUANDO O BARRIL DO PETRÓLEO ESTAVA A 105 DÓLARES?

A pergunta é essa mesma: estão os combustíveis nos postos abastecedores ao mesmo preço a que estavam quando o barril de petróleo andava entre os 104 e os 105 dólares?
A subida sucessiva e quase diária do preço dos combustíveis quando o preço internacional do petróleo não cessava de subir criou em todo o mundo, e também em Portugal, uma sensação de pânico que levou os consumidores a reagirem dos mais diversos modos.
Certamente que o aumento do preço do petróleo originou consequências nefastas a vários níveis. Todavia, do ponto de vista psicológico, mais grave do que os pequenos aumentos que regularmente se iam sucedendo era a convicção de que se estava a entrar numa espiral sem fim. Com a descida do preço internacional do petróleo, esse efeito desapareceu e com ele o pânico. Fica agora muito mais fácil para os donos dos castelos de Notingham manter os preços ao consumidores desfasados dos preços de compra, certos de que nenhum Robin dos Bosques (que, de resto, nunca existiu) os incomodará.

A CONVENÇÃO REPUBLICANA, O GUSTAVO E A GRAVIDEZ

A ESCOLHA DE SARAH PALIN E O OPORTUNISMO POLÍTICO

A Convenção republicana deixou de ser o que se esperava para se transformar numa grande operação de (propaganda) apoio às populações afectadas pelos locais previsíveis da passagem do furacão Gustav, a que desde logo chamaram o furacão do século, uma espécie de pai de todos os furacões.
A administração republicana tem, aliás, curriculum invejável em matéria de furacões. Bush e a sua equipa assistiram placidamente à passagem devastadora do Katrina por Nova Orleães sem mexerem uma palha em defesa das populações atingidas. O furacão fez milhares de vítimas e pôs a nu uma América pobre e terceiro-mundista que a propaganda tinha até então encoberto sob a capa do “very tipical french quartier”. O que se passou então, e cujos efeitos em larga medida perduram até hoje, ombreia com o que costuma acontecer em África, nos países mais atrasados, aquando da ocorrência de catástrofes naturais.
Por isso, certamente muito se sensibilizarão os bravos americanos ao verem o seu ilustre presidente em mangas de camisa e o benemérito Dick Cheney operacionalmente ocupados em acções de assistência humanitária e, mais ainda, ao terem conhecimento que as senhoras Laura Bush e Cindy McCain têm sido incansáveis no apoio às vítimas dos pobres estados afectados, todos governados pelos republicanos.
Entretanto, a senhora escolhida por John McCain para figurar na lista dos republicanos como candidata a vice-presidente, Sarah Palin, uma desconhecida, que desde a semana passada entrou para o estrelato da política e passou desde então a ficar conhecida pelas suas excelsas virtudes de mãe de família - cinco filhos, anti-abortista, defensora da abstinência sexual e de mais algumas virtudes que não vem agora ao caso enumerar -, tem uma filha de dezassete anos grávida de sete meses. Nada que não possa acontecer a qualquer um, salvo seja, mas que Mccain só teve conhecimento bem depois de formalizado e divulgado o convite. Pior ainda, alguns bloguistas maledicentes afiançam que o filho mais novo de Sarah, de poucos meses, afinal é seu neto…
Assim, se faz campanha eleitoral na América. E, mais grave ainda, como Obama não descola, se ganham eleições…

CAVACO NO LESTE EUROPEU EM TEMPO DE CRISE

PARTIDOS DE ESQUERDA REJEITAM CONVITE PARA INTEGRAR COMITIVA


Cavaco está no leste europeu em viagem oficial. Na Polónia e na Eslováquia. Na Polónia, há alguns negócios de empresários portugueses. Na Eslováquia, nem tanto. É também para estes dois países que se deslocalizaram algumas empresas que laboravam antes em Portugal. Cavaco viaja pouco. Menos que os seus antecessores. Os critérios específicos da escolha conhece-os ele. Se viajasse muito, não teria que justificar-se…
Significativamente, os partidos de esquerda e a CGTP, por esta ou aquela razão, declinaram o convite para o acompanhar nesta viagem. Creio que pela primeira vez. Aparentemente, por motivos de agenda. Realmente, porque Cavaco não faz o pleno de representação. Os dois últimos antecessores de Cavaco exerciam o lugar de modo a que todos se sentissem representados nem que fosse por via do mínimo denominador comum. Com Cavaco isso não acontece. Há coisas que marcam: o dia da raça, o veto do novo regime do divórcio e, acima de tudo, o passado…

UMA NOTÍCIA PREOCUPANTE, EMBORA PREVISÍVEL

IRÁ BUSH ATACAR O IRÃO ATÉ AO FIM DO MANDATO?

O Der Telegraaf de Amesterdão, a partir de fontes ligadas à espionagem holandesa, prevê um ataque aéreo dos Estados Unidos contra as instalações nucleares e de mísseis do Irão nas próximas semanas. O Irão, por intermédio do vice-chefe das forças armadas, já reagiu e advertiu que um ataque ao Irão desencadearia a terceira guerra mundial.
A notícia é, de facto, muito preocupante, embora, como neste blogue por mais de uma vez já se disse, seja perfeitamente admissível que os Estados Unidos, directamente ou por intermédio de Israel, ataquem as instalações nucleares do Irão antes do fim do mandato Bush.
De Bush, Dick Cheney e demais membros da camarilha pode esperar-se tudo. A questão, portanto, não está em saber se eles terão a ousadia de desencadear um ataque contra o Irão. A esta pergunta já eles responderam sobejamente durante os últimos oito anos. A questão está em saber se eles o conseguirão fazer com um mínimo de êxito. Por outras palavras: as instalações são destruíveis com armas convencionais? E terá o Irão alguns meios de retaliação suficientemente fortes para desencorajar o ataque? E o que fará a Rússia? Aproveitará para acabar com a Geórgia, reaver a Crimeia, pôr os bálticos em sentido e pregar um grande susto aos polacos e aos checos?
Uma coisa é certa: Israel não quer perder a supremacia estratégica na região e actual Administração americana tudo fará para que ela se mantenha intacta.

A UE SUSPENDEU AS NEGOCIAÇÕES DO ACORDO DE COOPERAÇÃO E ASSOCIAÇÃO COM A RÚSSSIA

QUE CONSEQUÊNCIAS?

A União Europeia decidiu ontem, em reunião extraordinária ao mais alto nível, suspender as negociações (ou, apenas adiar) as negociações do Acordo de Cooperação e Associação com a Rússia até que sejam cumpridos os seis pontos do acordo de cessar-fogo negociado em Agosto pelo Presidente Sarkozy com ambos os contendores.
O acordo está, no essencial, a ser cumprido, com excepção do ponto quinto acerca do qual existem interpretações divergentes. Diz este ponto que “as forças militares russas terão de retirar-se para as linhas anteriores ao início das hostilidades”, acrescentando ainda que “forças de pacificação russas implementarão medidas adicionais de segurança, até que se acorde um mecanismo internacional”.
Como se sabe, a Rússia mantém tropas nas regiões separatistas, cuja independência acaba de ser reconhecida por Moscovo, e em vários pontos-chave do território georgiano, nomeadamente portos e cidades.
A União Europeia, pese embora o bom senso que o Presidente francês tem demonstrado como mediador deste conflito, vai ter muita dificuldade em demonstrar à Rússia que o acordo não está ser cumprido. As tropas sediadas nas regiões separatistas são tropas de pacificação e as que ocupam alguns outros pontos do território georgiano representam as tais medidas adicionais de segurança que a presença em Tblissi de alguém com Saaskashvili, no entender dos russos, exige.
O mais que a UE poderá conseguir é uma redução da presença russa, mas nunca a retirada. A Rússia foi para ficar…
Por outro lado, a suspensão das negociações do acordo acabará por afectar muito mais, do lado da UE, aqueles países que dependem energeticamente das exportações russas, como é o caso de quase todos os ex-membros do Pacto de Varsóvia, do que os que têm grandes relações comerciais com a Rússia em ambos os sentidos, como é principalmente o caso da Alemanha, da Itália, da Holanda e da França, que continuarão a resolver, tranquilamente, no plano bilateral os seus problemas.
No jornal “Público” de ontem há dois excelentes artigos sobre a crise do Cáucaso ou, o mesmo é dizer, das relações do chamado Ocidente com a Rússia. Um da autoria de Oleg Shchedrov, que nos dá a perspectiva de Moscovo ante o cerco e a arrogância com que a Rússia tem sido tratada pelos Estados Unidos acolitados, com mais ou menos, convicção pelos europeus; outro, de Eduardo Lourenço, muito cáustico sobre a atitude da Europa relativamente a um conflito que não contende com os seus interesses.
De facto, não se compreende em homenagem a que supremos interesses a Europa aceita marginalizar a Rússia e alinha covardemente numa política de cerco a um país que é tão europeu como muitos outros que tem assento na União, que nem pelo seu passado, nem pela sua política são exemplos recomendáveis. Que esse possa ser o interesse do imperialismo americano, pelas razões aqui várias vezes referidas, ou do próprio Reino Unido no seguimento das suas concepções geopolíticas mais ancestrais, compreende-se. O que não se compreende é que esse interesse seja partilhado pelos grandes países da Europa continental. Como diz Eduardo Lourenço, sem a Rússia a Europa não passará de um pequeno cabo da Ásia.
E isso ver-se-á mais cedo do que se crê. Com a cada vez mais previsível derrota da NATO no Afeganistão, a Europa vai ter que repensar-se…