quinta-feira, 11 de setembro de 2008

CAVACO REPREENDE MINISTRO

O MINISTRO ESTAVA A PEDI-LAS

Num gesto inédito, Cavaco Silva fez publicar um comunicado para rejeitar qualquer responsabilidade no atraso da transferência de militares da GNR para funções operacionais.
O comunicado visa responder a Rui Pereira, que tinha atirado as culpas do atraso à demora na entrada em vigor da lei.
O ministro deve saber que o exercício dos poderes constitucionais do Presidente, bem como o exercício de quaisquer outros direitos, nunca pode ser invocado como desculpa do que quer que seja. Afinal, Rui Pereira é jurista ou economista?
Cavaco ao reagir como reagiu demonstrou mais uma vez que não está disposto a abdicar de nenhum dos seus direitos. Nada a opor.

EVO MORALES EXIGE A RETIRADA DO EMBAIXADOR AMERICANO DE LA PAZ


EMBAIXADOR ACUSADO DE INSTIGAR PROTESTOS CONTRA O GOVERNO

O Presidente da Bolívia acusou o embaixador americano, Philip Goldberg, de conspirar contra a democracia.
Na véspera de um aniversário tragicamente simbólico para toda a América Latina, Evo Morales toma providências enquanto é tempo. Apesar de tudo, hoje os tempos são outros, e o Império, por mais poderosos que sejam os seus meios, já não pode pôr e dispor como antigamente na América Latina.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A DERROTA DA SELECÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL


O HOMEM NOVO COMEÇA MAL

Carlos Queirós, o homem novo do cavaquismo dos idos de oitenta/noventa, perdeu o primeiro jogo a sério da selecção portuguesa. Enquanto o homem novo de Stalin, Stakanovich, como personalidade física, relevava do domínio da ficção, como mais tarde se veio a apurar (não obstante o “Homem de mármore”, de Andrzej Wajda), o homem novo de Cavaco era uma realidade bem palpável com a qual agora temos de nos defrontar.
Queirós perdeu, como já em muitas outras ocasiões importantes tinha acontecido, tanto no Sporting e Real Madrid, como na selecção portuguesa ou sul-africana. Queirós é uma espécie de Freitas do Amaral do futebol. A derrota surge, depois de teórica e cientificamente estar assegurada a vitória.
Queirós tem, porém, boa imprensa. Pelo que ouvi, a derrota foi imerecida, foi azar. Nada mais enganador. A Dinamarca jogou bem durante todo o jogo, nunca se deu por vencida e, como os seus jogadores são técnica e animicamente superiores, não falharam nos momentos decisivos.
Essa conversa dos comentadores portugueses insistindo na superioridade técnica dos nossos jogadores é uma pura falácia. Com excepção de Deco, realmente um extraordinário jogador, os demais falham frequentemente por falta de técnica. Basta comparar o desempenho dos nossos jogadores no momento do remate com a classe e a superioridade técnica com que foi marcado o primeiro golo da Dinamarca. E ainda a pujança física expressa no segundo. Portugal, pelo contrário, marcou um golo partindo de uma posição off-side e um outro de penalty, que tanto poderia ter sido marcado como não.
Sofrer três golos a cinco minutos do fim não abona nada a favor da equipa nem de quem a dirige.

PAULO PEDROSO JÁ FALA



PARA DEFENDER O BLOCO CENTRAL


Não deixa de constituir alguma surpresa a intervenção de Paulo Pedroso reproduzida no telejornal das 13 horas.
Pedroso tem manifestamente tendência para pisar caminhos difíceis, se não mesmo melindrosos. Numa altura em que as eleições gerais estão a mais de um ano de distância e relativamente às quais o PS acalenta a esperança de alcançar a maioria absoluta, não parece fazer muito sentido vir dizer que o PS pode governar coligado com o PSD.
Que pretende Pedroso? Perfilar-se como homem de diálogo, aberto ao compromisso, por contraposição a Sócrates a quem acusam de autoritário e arrogante? Se esse for o seu objectivo, temos de concordar que a jogada é arriscada. Não apenas por ser uma jogada contra Sócrates, mas também por provir de quem esteve submetido a uma longa quarentena. Alguém que terá de reganhar a confiança dos seus colegas de partido, antes de tentar seduzir os seus putativos parceiros de bloco central.
Por outro lado, a intervenção de Pedroso, na medida em que se demarcou claramente da esquerda, serve também para pôr definitivamente fim à ilusão de que o PS tem uma ala esquerda e de que Pedroso pertencia a essa ala. Pedroso, tal como Vieira da Silva, e outros, é igual a todas as demais personalidades do PS. São gente de centro, que advogam e praticam uma política económica de direita, com um entendimento algo diferente dos demais sectores de direita relativamente a certas questões sociais.
Mesmo aqueles que mais frequentemente criticam certas políticas, ou melhor, certas medidas da governação socialista, como é o caso de Alegre e ultimamente de Soares, posto que num registo diferente, servem na perfeição aquele objectivo e ajudam com as suas intervenções, sempre posteriores às medidas que criticam, a segurar uma franja do eleitorado que poderia fugir para os partidos de esquerda.
Em conclusão: não há razão para que os eleitores que, no plano económico, preferem uma política de direita, deixem de votar no PS, não fazendo por isso sentido, pelo menos neste momento, apelar ao bloco central como instrumento indispensável de governabilidade. Ora, como Pedroso não interveio como analista, já que não é de admitir que quem pediu ao Estado uma onerosa indemnização por ter sido privado (temporariamente, presume-se…) de ascender às mais altas funções do Estado, actue naquela qualidade dias depois de ter regressado ao Parlamento, é muito provável que, no interior do PS, alguém se veja forçado a recordar-lhe que os processos em que está envolvido ainda não terminaram…

LANCE ARMSTRONG REGRESSA AO TOUR

O GRANDE DESAFIO

Lance Armstrong, o maior ciclista de todos os tempos, vencedor sete vezes consecutivas da volta à França, anunciou hoje que regressaria ao Tour no ano que vem para ganhar.

A ENTREVISTA DE GORBACHEV



OS AMERICANOS NÃO CUMPRIRAM A PALAVRA


Sobre a crise do Cáucaso e as relações da Rússia com a União Europeia e com os Estados Unidos ver a interessante entrevista de Gorbachev ao EL PAÍS.
O último dirigente da URSS confirma que os americanos (Clinton e Bush) não respeitaram a palavra dada aquando da reunificação da Alemanha: não expansão da NATO a leste. E responsabiliza pela actual situação os dois últimos presidentes americanos a quem acusa de terem aberto novas linhas de divisão no continente, embora não isente de culpas a Alemanha que “cumpriu os tratados bilaterais com a URSS, mas apoiou a expansão da NATO a leste”.
Depois de oito anos de Administração Bush, há na Europa certos sectores identificados com o centro-esquerda que tendem a responsabilizar o actual presidente americano por todos os desmandos com que actualmente o mundo se debate. Esta análise, porém, só muito parcialmente corresponde à verdade. Quem iniciou a política de desrespeito pelo direito internacional, com os mais diversos pretextos, foi Clinton. Foi também Clinton que introduziu o FMI na Rússia – uma das maiores vergonhas da história contemporânea – e quem iniciou o alargamento da NATO aos antigos países do Pacto de Varsóvia, desrespeitando os compromissos assumidos pelo seu antecessor (diga-se a propósito que o primeiro Bush não tem no seu mandato nenhuma mácula semelhante às imputadas aos seus sucessores).
Clinton bombardeou a Jugoslávia à margem do direito internacional, pretensamente com o fim de defender direitos humanos e bombardeou o Iraque acima da linha de segurança estabelecida pela ONU, bem como o Sudão, com base em pretextos fúteis, numa verdadeira manobra de diversão quando internamente estava sendo seriamente acossado pelas razões que se conhecem (Monica Lewinsky).
Por estas e outras razões é que a outra esquerda europeia saudou a derrota de H. Clinton nas primárias, ciente de que a sua eventual vitória nas presidenciais não traria nada de novo, nem de bom no domínio das relações internacionais. Obama tem, no mínimo, a seu favor o benefício da dúvida.


terça-feira, 9 de setembro de 2008

O ACORDO SARCOZY (UE) - RÚSSIA


A AMÉRICA FICOU A FALAR SOZINHA

No post que ontem escrevi sobre a crise do Cáucaso há uma incorrecção que convém corrigir.
As tropas russas não abandonam a Ossétia e a Abekázia, como erradamente referi, mas sim a Geórgia, segundo um calendário aprovado entre dois presidentes (Rússia e França).
Assim, dentro de uma semana abandonarão as posições entre o porto de Posi e Senaki e, em um mês, retirarão das zonas adjacentes à Ossétia do Sul e Abekázia para as posições anteriores ao começo das hostilidades, depois que nestas zonas tomem posição os observadores da UE, num mínimo de 200.
A retirada dos cinco postos compreendidos entre Posi e Senaki é feito sob garantia de que a Geórgia não voltará a usar a força no Cáucaso, tendo a França ficado “fiadora” da palavra do presidente Saaskashvili.
Finalmente, em 15 de Outubro terá lugar em Genebra uma conferência internacional para discutir as questões de segurança na Ossétia do Sul e na Abekázia.
O presidente francês na conferência de imprensa referiu todos os pontos relevantes do acordo acima transcritos e, além disso, reiterou a condenação do reconhecimento da independência daqueles dois territórios pela Rússia, ao que Medvedev respondeu que a decisão da Rússia sobre essa matéria era “definitiva” e “irrevogável”.
Por outras palavras, a ausência no acordo de qualquer referência à integração das regiões separatistas na Geórgia significa, pelo menos para um número considerável de Estados da UE, que esse é um assunto por agora arrumado. De resto, o princípio da integridade territorial cede perante o princípio da autodeterminação.
O acordo ontem alcançado representa uma vitória para a Europa – a Europa dos Urais a Cascais – e nesse sentido deve ser entendido por todos os europeus que preservam a paz no continente.
Toda a gente sabe que há no seio da União Europeia países a quem este entendimento não interessa e que essa divergência de pontos de vista é aproveitada e amplamente estimulada por Washington para manter a Europa dividida e enfraquecida.
É assim, desde logo, no caso da Inglaterra (Reino Unido) à qual convém por razões geoestratégicas ancestrais ligadas à sua insularidade manter a Europa continental divida e enfraquecida. É assim também com os recém-Estados independentes que antes integraram a União Soviética (Estónia, Letónia e Lituânia) ou que pertenceram ao Pacto de Varsóvia (Polónia, principalmente) e sempre tiveram uma história muito atribulada. Enquanto no primeiro caso pesam fortes razões geoestratégicas, neste segundo grupo de países prevalecem razões traumáticas do foro psicanalítico difíceis de debelar.
Pacientemente, os Estados que querem construir na Europa uma arquitectura de segurança europeia vão ter que lidar com este problema e contê-lo. O caso da Inglaterra é paradoxalmente mais simples. Está muito identificado e a sua larga experiência diplomática não deixa antever nenhum tipo de conduta cujos efeitos não possa controlar. Não assim nos demais casos, pois a própria natureza do mal que os afecta não põe Europa a salvo de uma qualquer conduta demencial do tipo da recentemente ensaiada por Saaskashvili.

MÁS NOTICIAS PARA OBAMA


SONDAGEM DE USATODAY /GALLUP DÁ A McCAIN UMA VANTAGEM DE 4 PONTOS

Em duas sondagens divulgadas ontem, os dois candidatos presidenciais estão empatados. Todavia, a sondagem do USA TODAY/GALLUP dá a McCain uma vantagem de 4 pontos.
A conclusão que se retira destas sondagens é a de que a Convenção Republicana trouxe mais vantagens a McCain do que a Democrata a Obama. O segredo parece ter sido Sarah Palin.
Ou seja, as relativas meias tintas do candidato republicano não estavam entusiasmando as hostes. Com a chegada de Palin o discurso mudou radicalmente, e os eleitores reaccionários e conservadores viram-se finalmente representados.
A convenção do Partido Democrático, contrariamente ao que se disse, foi em grande medida uma falhanço. Salvou-se o discurso emocionado de Kennedy, feito nas trágicas circunstâncias que se conhecem. Depois, houve o número dos Clinton, que não engana ninguém, e que só pode ser valorizado por quem não queira ver a realidade. Nada neles indiciava sinceridade.
Joe Biden também não trouxe nada de novo e é uma má escolha. Obama perdeu grande parte do seu fulgor e ainda não percebeu que o centro, cuja conquista ele desesperadamente busca, é muito mais sensível a um discurso forte e convicto, mesmo quando as convicções expressas não coincidem com as suas, do que a discurso ideologicamente titubeante.

PS MANTÉM LEI DO DIVÓRCIO



CAVACO TERÁ DE PROMULGAR A LEI APROVADA NO PARLAMENTO


Foi com algum alívio que ouvimos Alberto Martins afirmar nos telejornais que o parlamento manterá a lei do divórcio vetada por Cavaco Silva.
Impunha-se este comportamento da parte dos partidos que votaram a lei. A fundamentação do veto de Cavaco indicia que ele interveio como legislador. Ora, como esta competência não é sua, mas da Assembleia da República, esta, para não deixar margem a dúvidas nem abrir precedentes indesejáveis, apenas tem que reiterar o seu voto. Assim o esperamos.
Sendo a lei vetada aprovada por maioria absoluta dos deputados em efectividade de funções, o Presidente da República deverá promulgar o diploma no prazo de oito dias a contar da sua recepção.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

VIVA O CAPITALISMO NEOLIBERAL!



PRIVATIZAÇÃO DOS LUCROS, SOCIALIZAÇÃO DOS PREJUÍZOS



O Secretário de Estado do Tesouro americano anunciou ontem a intervenção do Estado nas duas grandes empresas de crédito hipotecário – a Fannie Mae e a Freddie Mac.
A Fannie Mae é filha do new deal rooseveltiano e foi privatizada em fins dos anos sessenta quando na América já começavam a soprar os ventos neoliberais; a Freddie Mac foi criada nos anos setenta para impedir a monopolização do mercado pela primeira. Elas são hoje responsáveis por cerca metade das hipotecas norte-americanas e controlam cerca de 90% do ”secondary mortgage market”.
Para as salvar da falência, os contribuintes vão ter de lhes entregar 200 mil milhões de dólares, cerca de 140 mil milhões de euros, tanto é o montante que o Tesouro americano nelas injectará. Com a mesma tranquilidade com que no passado sempre advogaram a não ingerência do Estado na economia, Henry Paulson, Secretário de Estado do Tesouro, e Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal, que correu a apoiar a medida, consideram agora que a intervenção do Estado é absolutamente indispensável para que os mercados se recuperem.
A actuação do Estado norte-americano, na esteira aliás de outras noutros países que advogam a defesa os princípios neo-liberais, não tem que nos espantar, nem sequer pela magnitude das quantias envolvidas. Só os ingénuos não sabem em que consiste o neoliberalismo….
Muito mais do que a intervenção, que até pode ser indispensável para salvar o mundo de males maiores, o que está em causa e em colapso é princípio ideológico, que os Borges deste mundo nos tentam vender, de que os privados são sempre mais eficientes.

A EUROPA SEGUE O SEU CAMINHO NA RELAÇÃO COM A RÚSSIA


AS PRIMEIRAS FISSURAS


Os Estados Unidos estão fazendo tudo o que está ao seu alcance para isolar a Rússia.
Dick Cheney andou a prodigalizar promessas e ameaças no Cáucaso, onde verdadeiramente só colheu o apoio a cem por cento do “cadáver político” Saaskashvili – como lhe chama Medvedev -, e procura agora trazer para o seu campo a Itália de Berlusconi, o qual, por força dos negócios que tem com a Rússia e da relação pessoal com Putin, se tem recusado a alinhar com os americanos.
Entretanto, o ministro das Relações Exteriores de Espanha, Miguel Ângel Moratinos, na entrevista que hoje concede ao El País, deixa claro que não é do interesse da Europa uma política seguidista da dos Estados Unidos. Na linguagem diplomática própria de quem exerce a sua função diz expressamente que “devemos evitar que nos coloquem de novo uma agenda de guerra fria” e fala na criação de um grande espaço geopolítico pan-europeu, abrindo assim a porta para a discussão da proposta de Medvedev sobre uma nova arquitectura de segurança europeia. Enfim, toda a sua intervenção vai no sentido de manter e aprofundar a relação com a Rússia, sendo inclusive sintomático que, no decurso da entrevista, tivesse revelado que, no último Conselho Europeu extraordinário, houve chefes de Estado e de Governo que recordaram que as hostilidades no Cáucaso foram abertas pela Geórgia. Finalmente, deixa uma crítica muito marcada relativamente aos países antes pertencentes ao Pacto de Varsóvia ou que integravam a URSS: “O problema é que alguns dos antigos membros da URSS e actuais da UE não avaliam os seus vizinhos russos com os mesmos critérios de relação serena e positiva que todos desejaríamos”.
Hoje mesmo, no Kremlin, a missão chefiada por Sarkozy parece ter chegado a acordo com Medvedev sobre a retirada das tropas russas da Ossétia do Sul e da Abekázia, depois de aquele ter recebido garantias de que a Geórgia não voltaria a atacar aquelas regiões. Moscovo manterá o reconhecimento e continuará a patrulhar áreas adjacentes àquelas duas regiões.
Enfim, a Europa, com mais ou menos dificuldades, continuará a fazer o seu caminho na relação com a Rússia. Um caminho que os interesses europeus impõem diferente do dos Estados Unidos.
Certos sectores da nossa comunicação social, curiosamente os mesmos que ainda não digeriram a derrota de Savimbi, vão ter muita dificuldade em compreender isto e vão continuar, diariamente, a envenenar a opinião pública.

AS ELEIÇÕES EM ANGOLA

E, AGORA, O QUE DIZEM OS DETRACTORES?

As eleições em Angola traduziram-se numa esmagadora vitória do MPLA, porventura acima das previsões mais optimistas.
O MPLA ganhou, como se esperava, de nada tendo valido a histérica contra informação dos portugueses do costume, antes e durante o acto eleitoral.
Ainda tentaram dizer que as eleições não representavam a “verdadeira” vontade popular - vontade de que, pelos vistos, eles são os verdadeiros intérpretes – mas à medida que o escrutínio avançava e os resultados se iam impondo não tiveram outro remédio que não fosse o de “meter a viola no saco”.
Esta gente que em Portugal mantém uma permanente guerrilha contra Angola – colonialistas, ex-pro-chineses de todos os matizes, savimbistas inconsoláveis, etc. – deveria reflectir um pouco sobre os resultados eleitorais e passar a dedicar-se a outra actividade.
Não sei se a “rapaziada” do Eixo do Mal também se ocupou das eleições em Angola – não vejo o programa há mais de dois meses – mas acho que, depois de tudo o que já disseram, só lhes resta pedir a dissolução do povo angolano!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A VIAGEM DE DICK CHENEY AO CÁUCASO

A GRADUAL MUDANÇA DA OPINIÃO PÚBLICA EUROPEIA

Dick Cheney está hoje na Ucrânia, depois de ter visitado o Azerbaijão e a Geórgia. Simultaneamente, em Moscovo os líderes da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC), composta pela Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Rússia davam o seu apoio “ao papel activo da Federação Russa para contribuir para a paz e a cooperação e garantir uma sólida segurança na Ossétia do Sul e na Abekázia”.
A Ucrânia, a braços com uma grave crise política e com o Presidente pró-americano em crescente perda de popularidade (as sondagens não lhe atribuem mais de 10%), é a chave da crise no Cáucaso. Tudo se joga lá. Se houver mudança na Administração americana – hipótese que a muitos parece cada vez mais remota – as forças ucranianas que se opõe a uma relação conflituosa com a Rússia (forças francamente maioritárias) vão ter oportunidade de reverter a actual situação.
Se na América tudo continuar na mesma – e com McCain tudo ficará na mesma ou até pior –, a Ucrânia será palco de um grave conflito.
Curiosamente, na Europa Ocidental (ocidental geograficamente falando) são cada vez mais as vozes, pertencentes a todos os quadrantes políticos, que defendem a inexistência de interesses comuns com a América na relação com a Rússia.
De facto, de nada vale aos novos arautos da guerra-fria continuarem diariamente a esgrimir nos jornais com argumentos ideológicos, quando toda a gente já percebeu que o que os americanos pretendem é assegurar, em exclusivo proveito próprio, a supremacia no Cáucaso e na Ásia Central.
A Europa nada tem a ganhar com esta política americana. Os interesses da Europa vão noutro sentido: no estabelecimento de uma relação dinâmica e segura com a Rússia, dada a grande interdependência já existente entre estas duas partes da mesma Europa.
Se os governantes políticos europeus não compreenderem isto, acabarão por ser responsáveis por um trágico hara kiri. A política prudente que o governo português tem até ao presente seguido nesta matéria deve ser saudada como um gesto de sabedoria política.

A HEROICIDADE DE JOHN McCAIN


OU A FORÇA DO PODER IDEOLÓGICO

John McCain, filho de uma família de militares, nascido na Zona do Canal do Panamá, cedo seguiu também a carreira militar, tendo participado na Guerra do Vietname como piloto aviador da marinha. No Vietname participou activamente na agressão desencadeada pelos norte-americanos contra o Vietname do Norte, nos famosos bombardeamentos a alvos civis, com napalm, tendo o seu avião sido derrubado quando o agora candidato à presidência dos Estados Unidos executava a sua 23.ª missão.
Atingido o avião que pilotava, McCain conseguiu salvar-se, ejectando-se em pára-quedas, que acabou por aterrar no lago Truc Bach. Quando se aproximava da margem, ferido nos braços e numa perna, foi capturado por civis norte-vietnamitas.
Tratado, pelos vietnamitas, no hospital nas 6 semanas seguintes, McCain esteve preso durante 5 anos. Logo após a prisão, os vietnamitas, tendo tido conhecimento de que o prisioneiro era filho do oficial general que então comandava o Pacífico, propuseram a sua libertação, mas McCain recusou-a, caso a medida se não estendesse a todos os prisioneiros.
Durante o tempo de prisão, chegou a confessar nos interrogatórios que cometera crimes de guerra, mas, posteriormente, negou-se a reconhecer outras incriminações.
Bertrand Russel na análise que fez da guerra do Vietname considerou-a uma guerra racista. Uma guerra onde as atrocidades que se cometiam contra os civis só eram possíveis porque aqueles que as sofriam eram considerados um povo inferior. Seja assim ou não, a verdade é que o ódio das populações civis durante a guerra do Vietname era fundamentalmente dirigido contra os ataques assassinos da aviação americana. Evidentemente, que no sul também havia massacres, como os de Mai Lai, e outros dirigidos contra populações civis. Todavia, o combate era mais nobre. A infantaria americana aerotransportada tinha de ir ao objectivo e sofria nessas suas incursões seriíssimos reveses. Nada disto se passava no Norte. Para as populações do Norte, a guerra movida pelos americanos era uma guerra covarde. Por isso, todo o mundo se comovia com o sofrimento dos vietnamitas e enaltecia a nobreza de carácter das suas populações por pura e simplesmente não liquidarem sumariamente os pilotos derrubados.
Numa guerra injusta e cruel, o povo vietnamita deu ao mundo uma grande lição de heroicidade. E por isso saiu vencedor, derrotando a potência mais poderosa alguma vez existente à superfície da terra.
McCain, como tantos outros que participaram em guerras semelhantes, como é o caso das guerras coloniais da segunda metade do séc. XX, foi capturado em combate e tratado como prisioneiro de guerra. Acabou por ser libertado, sem ser julgado, no fim da guerra. Quantos vietnamitas nas mesmas condições se poderão vangloriar de idêntico fim?

A SRA RICE EM LISBOA

O KOSOVO E O CÁUCASO


Acabo de assistir ao resumo de uma conferência de imprensa conjunta da Sra Rice e de Luis Amado.
Perguntada sobre se o reconhecimento do Kosovo não abriu a porta à Rússia para o reconhecimento das regiões separatistas do Cáucaso, Rice deu as esfarrapadas explicações do costume e disse que não podia ser feito qualquer paralelo entre as duas situações (como, de resto, Cavaco já também tinha dito na Polónia).
Pelo contrário, Luis Amado numa excepcional demonstração de independência relativamente à diplomacia americana, concordou que aquele paralelismo poderia ser feito.
Já aqui por mais de uma vez sublinhei e demonstrei as diferenças na política externa portuguesa em relação ao passado. Continuo a pensar que isso se deve a Sócrates, muito mais pragmático e menos ideológico nestas matérias.
ADITAMENTO
A gente lê e não acredita. Diz o Correio da Manhã que o "Grande Aliado" mandou a Sra Rice a Lisboa para convencer José Sócrates a desistir de concorrer ao contrato de manutenção dos C 130 da Líbia. Um negócio de 100 milhões de euros. Com aliados destes um pequeno país como Portugal não precisa de inimigos. Viva a relação transatlântica!

A AMÉRICA NO BOM CAMINHO



O DISCURSO DE SARAH PALIN


Para que não haja dúvidas, John McCain escolheu (ou foi obrigado a escolher) Sarah Palin para candidata a vice-presidente. Não que McCain se distinga assim tanto de Bush. Terá votado com ele em 90% dos casos. Mas sempre poderia dizer que discordou de Guantánamo, da tortura, das escandalosas vantagens fiscais concedidas aos ricos. Com Sarah Palin tudo fica claro. É o partido dos neo-conservadores que está presente. Basta ouvir o discurso dela na Convenção, escrito – para que não haja qualquer dúvida – pelo writer de Bush – Matthew Scully.
E como muita gente acredita que, por uma outra razão, o Vice-presidente acabará por governar em algum período dos próximos quatro anos, a escolha de Palin não poderia ser mais judiciosa…

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

AS ELEIÇÕES EM ANGOLA

A RECUSA DE VISTOS À IMPRENSA HOSTIL

Vai um grande alarido na SIC e Companhia (a companhia é o Expresso, o Público e a Visão) por o Governo angolano não ter concedido vistos aos jornalistas daqueles meios de comunicação social para cobrirem as eleições de amanhã.
Conceder ou não conceder vistos é atributo de soberania. Ninguém tem de se admirar por um país não conceder visto a um estrangeiro. Lembro alguns casos paradigmáticos: as democratíssimas Holanda, Bélgica, França, Itália, Reino Unido, entre outros, não concederam, por mais de uma vez, visto a Humberto Delgado para visitar os respectivos países. Delgado, se lá quis ir, teve de o fazer com passaporte falso e sujeitar-se a ser preso. E o interesse “nacional” desses países era o de proteger a ditadura salazarista!
Há no mundo actualmente algum país que levante mais obstáculos à concessão de vistos que os Estados Unidos? Mais: violam vários e importantes direitos, com a cumplicidade activa de todos os países da União Europeia, sempre que alguém lá quer ir a partir de um país da UE.
E ninguém protesta, nem se fazem mesas redondas sobre o assunto.
Os órgãos de comunicação acima referidos desenvolvem desde sempre uma linha editorial hostil a Angola. Muitas e muitas vezes caluniosa. Deturpam frequentemente a verdade dos factos e estão, como em tantos outros domínios, cheios de ideias pré-concebidas. Ainda muito recentemente alguns deles deram azo a que nos seus respectivos espaços se cometessem crimes (sim, crimes: a calúnia, a injúria, etc. são crimes) contra várias personalidades angolanas.
Provavelmente, se fossem a Angola, seriam incomodados. Não, certamente, por falsearem a realidade; não, seguramente, por não aceitarem a independência de Angola; não, verdadeiramente, por não terem ainda digerido a derrota de Savimbi; mas, muito provavelmente, por razões semelhantes às acima referidas.
É, por isso, do interesse comum, de Angola e de Portugal, que eles lá não vão. Sem hipocrisias: como Portugal não os poderia impedir, acaba por ser positivo que Angola o tenha feito

ASSIM VAI A DEMOCRACIA NA UCRÂNIA


AMEAÇA DE NOVAS ELEIÇÕES

Vítor Iuschenko, o presidente pró-americano, ou quase americano, da Ucrânia sofreu novo revés no Parlamento. A sua antiga aliada Iulia Timoshenko aliou-se ao Partido da Regiões e a coligação governamental caiu.
A coligação governamental no poder, composta pelo partido de Timoschenko, pela Nossa Ucrânia e Auto Defesa Popular, gozava de uma maioria de apenas dois votos. Com a aliança de Timoshenko ao Partido das Regiões, o partido do Presidente (Auto-Defesa Popular, o nome fala por si…), que tem apenas 14,9% dos votos, afastou-se da coligação por discordar de umas leis aprovadas por 331 votos num parlamento de 450 deputados !!!
Pois bem, Iuschenko, grande democrata, muito saudado pelos países da NATO, tem uma forma simples de resolver o assunto. Desengane-se quem supõe que ele pediu ao partido mais votado para formar uma nova coligação que lhe permita governar. Nada disso, o que ele fez foi conceder à Primeira-ministra um prazo de 30 dias para refazer a coligação; se o não conseguir, haverá eleições antecipadas, pela segunda vez em ano e meio! E eleições continuará a haver até que obtenha uma maioria…
Logo por coincidência, amanhã, Dick Cheney estará em Kiev. E conta com uma vanguarda de 15% do eleitorado ucraniano para assegurar a aliança com os Estados Unidos. Os americanos andam a brincar com o fogo. Alguém se vai queimar…

AINDA CAVACO NA POLÓNIA

OS BONS SENTIMENTOS

O Presidente da República é uma pessoa de bons sentimentos e aproveita para os manifestar bem longe da Pátria. Certamente por modéstia. A Polónia, grande exemplo de democracia, é o local ideal para o fazer.
Cavaco faz votos para que as eleições em Angola sejam livres e justas. Grande sentimento este, capaz de nos comover. E para as eleições americanas não faz esses votos? Que votos para a eleição que Bush “ganhou” há oito anos na Florida? E que dizer das vitórias republicanas nos pobres estados do sul de maioria negra e de grande “maioria” branca nos cadernos eleitorais? E, para fim de conversa sobre este assunto, não guardo na minha memória de antifascista qualquer tipo de preocupação semelhante de Cavaco Silva sobre as “eleições” de Salazar e Caetano.
Mas Cavaco não se ficou por aqui. Foi a Cracóvia para homenagear João Paulo II, que é dali perto, e lá foi bispo. Sentiu-se emocionado pelo papel desempenhado pelo falecido Papa na Europa Central e do Leste. Apreciou muito a mensagem do Papa na sua primeira viagem à Polónia: “Não tenhais medo!”. E ficou comovido. Aqui na nossa terra também era preciso não ter medo. E também não me consta que alguma vez Cavaco tenha ficado comovido com os que não tiveram medo…
ADITAMENTO

Dias depois de ter escrito este post, ao finalizar a leitura da biografia do General Humberto Delgado, deparo-me com estas palavras do General Sem Medo: “Não tenhais medo, porque se não o tiverdes, será o tirano que terá medo!”

AFINAL, OS COMBUSTÍVEIS SUBIRAM!


ENTÃO, NÃO É ÓBVIO QUE O ROBIN DOS BOSQUES NUNCA EXISTIU?

A desfaçatez das gasolineiras não tem limites. O petróleo desce mais de 40 dólares por barril e o preço dos combustíveis ao consumidor sobe.
Então, não é verdade que o Robin dos Bosques nunca existiu? De facto, o que existe é o xerife de Notingham. O xerife deixa que os donos dos castelos saqueiem o povo e os ajudantes do xerife, numa manobra simultaneamente de diversão e de solidariedade ideológica de classe, estão é preocupados com a mais que hipotética recuperação do poder de compra dos funcionários públicos. Que fiquem na mesma ou, se possível, ainda pior.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

OS "PRIVILÉGIOS" DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS


O ATAQUE AO ESTADO

Os funcionários públicos perderam nos últimos oito anos cerca de 11,2% em poder de compra, ou seja, 112 euros por cada mil de salário, diz o Correio da Manhã de hoje.
Ora aqui um bom exemplo dos privilégios de que os funcionários públicos gozam e que os acólitos do governo tão denodadamente se têm esforçado em combater.
Na verdade, o ataque ao modelo social vigente passa em primeira linha pela degradação das condições de vida dos funcionários, e logo depois pelo desprestígio da função. E tal acontecerá porque o governo quer menos Estado? Não, nada disso. O que o governo quer é outro Estado…

CAVACO EM VARSÓVIA

CAVACO PREOCUPADO COM OS DIREITOS DA GEÓRGIA

Cavaco disse ontem em Varsóvia que “a União Europeia enviou uma mensagem muito firme e muito clara para a Rússia em defesa da integridade territorial da Geórgia” e finalizou, sentenciando: “a UE quer cooperação, mas com respeito”.
Como Cavaco estava a falar na presença do Presidente polaco só poderia estar a falar para ele, já que para os portugueses tinham falado aqueles que participaram no Conselho Europeu extraordinário. E tantos os portugueses como o Presidente polaco sabem muito bem que a mensagem não foi forte, nem firme. Foi o que podia ser. Por isso, é bom que o PR de um pequeno país não se ponha se ponha a falar grosso para um país como a Rússia, não somente porque é ridículo fazê-lo, mas também porque apenas aqueles que actuam como correias de transmissão de Bush e C.ª ousam ter esse comportamento.
Era bom que Cavaco e os seus assessores lessem o que se tem publicado por essa Europa fora sobre o conflito georgiano e sobre os verdadeiros interesses da Europa. Se passados estes anos todos ainda há quem fale para a Rússia vendo nela a URSS, termos de reconhecer que essas pessoas vivem num mundo imaginário do qual não conseguem libertar-se.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A INDEMNIZAÇÃO CONCEDIDA A PAULO PEDROSO


EFEITOS DE UMA SENTENÇA JUDICIAL

Os telejornais da noite abriram com a notícia de que um tribunal judicial de primeira instancia havia concedido uma indemnização a Paulo Pedroso por, em consequência de erro grosseiro, ter estado indevidamente preso.
Toda a gente tem presente as condições em que se verificou a prisão de Pedroso, então dirigente do PS e das acusações na mesma altura lançadas sobre outros dirigentes do partido, com particular destaque para o então secretário-geral. Igualmente nos recordámos do clima apoteótico que rodeou a sua libertação e da recepção emocionada que os seus colegas de partido lhe fizeram na Assembleia da República, no próprio dia em que foi libertado.
Igualmente nos lembrámos das acusações que os jornais veicularam de pretensas pressões exercidas por altos dignitários para que a prisão não tivesse lugar ou para que se lhe pusesse termo o mais rapidamente possível.
De igual modo nos recordámos das enérgicas acusações de cabala política contra o PS defendidas com toda a veemência pelos dirigentes de então, como nos recordámos das vicissitudes que rodearam a não pronúncia de Pedroso, bem como da composição do tribunal que o julgaria.
É tendo tudo isto presente, ao analisar o efeito desta decisão, ainda não transitada em julgado, sobre a opinião pública que eu fico muito apreensivo por não ter sido aberto um processo-crime contra o juiz que ordenou a prisão preventiva de Pedroso. De facto, tendo em conta todo o circunstancialismo que rodeou este caso, acima sinteticamente descrito, a opinião pública só ficaria verdadeiramente tranquila se soubesse que estava em curso uma averiguação baseada na suspeita de comportamento doloso do juiz. Na verdade, o que separa, num caso com estes contornos, o erro grosseiro do dolo? Se isso não acontece e, principalmente, se não acontece porque não há juridicamente base para isso, então esta sentença pode ter o efeito perverso de desacreditar ainda mais o sistema de justiça português. As pessoas em geral não vão dizer que se fez justiça, o que as pessoas infelizmente vão dizer é que os poderosos e os influentes não só não são punidos, como ainda por cima recebem uma indemnização, enquanto os fracos e os desprotegidos por muitas injustiças que se lhes faça nunca são reparados.
Um juiz deve acima de tudo ser um homem prudente…por isso tem por função fazer jurisprudência…

ALGUNS DADOS ESTATÍSTICOS RELATIVOS ÀS RELAÇÕES COMERCIAIS UE-RÚSSIA


O QUE FALA MAIS ALTO

A UE exporta para a Rússia 1.238.847 milhões de euros e importa 1.424.424 milhões de euros.
Na Europa, o grande parceiro comercial da Rússia é a Alemanha. Exporta 28.089 milhões de € e importa 27.587 €, seguido de muito longe pela Holanda (6.898 m €/17.989 m €), pela Itália (9.579 m €/14.354 m €), pela Polónia (4.727 m €/10.449 m €) e pela França (5.602 m €/10.437 m €). Um pouco mais abaixo, mas ainda com um grande volume de negócios, estão a Finlândia, a Espanha, o Reino Unido, a Bélgica, a Suécia e outros.
A Rússia vende fundamentalmente produtos primários e importa produtos manufacturados.
A Rússia é terceiro sócio comercial da União Europeia, depois dos Estados Unidos e da China. Dela a UE importa um terço do petróleo que consome e 40% do gás. Por outro lado, a UE é o maior investidor do mercado russo. As companhias petrolíferas alemãs, italianas e até britânicas fizeram grandes investimentos na Rússia. Exactamente por estas óbvias razões é que os patrões alemães da EON, da VW e da BASF, bem como os italianos da ENI e também os ingleses da BP não estão nada de acordo com o clima de confrontação que os americanos teimam em criar com a Rússia. Basta ouvir Berlusconi para se compreender o que está em jogo.
Não deixa por isso de ser espantoso que a imprensa ocidental sempre pronta a acolitar Washington tenha criado um clima de guerra fria e mantenha uma retórica semelhante à existente no tempo da URSS. Ainda agora mesmo, na SIC Notícias, um conhecido jornalista com muitos anos de América e fervoroso apoiante do Partido Democrático continua a falar de URSS em vez de Rússia. Mais do que um lapsus linguae, o que existe é um verdadeiro lapso mental que não lhe permite ver que o que agora existe na Rússia é um regime capitalista igual aos outros, obviamente com tentações imperiais dada a extraordinária dimensão territorial do país.
ADITAMENTO

AS VICISSITUDES DE UM NOME

À noite, no noticiário da SIC Notícias, também Cavaco ao falar na Polónia sobre os resultados da reunião extraordinária do Conselho Europeu, disse que a Europa tomou uma posição firme relativamente à União… e depois, ainda a tempo, antes de dizer Soviética, corrigiu para Rússia.
Durante a ditadura, a direita portuguesa recusava à URSS o direito ao nome e sempre lhe chamava Rússia, quer para acentuar o que consideravam ser o modelo colonial russo (vejam-se as lições universitárias dos professores que à época leccionavam o direito colonial), quer para desvalorizar, para o nível da ficção e da propaganda, a federação então existente.
Curiosamente, depois da extinção da URSS, essa mesma direita frequentemente toma a Rússia pela URSS e não consegue tirar da cabeça uma realidade que já não existe!

AS DUAS PRIMEIRAS JORNADAS DA LIGA PROFISSIONAL DE FUTEBOL

NADA DE MUITO NOVO ACONTECEU

O Porto continua forte, apesar de ter perdido quatro jogadores influentes. Se nada de anormal acontecer, o plantel de que dispõe será suficiente para revalidar o título, embora não tenha um grande guarda-redes, nem centrais de grande nível. Mas, em princípio, chega. Mais de duas dezenas de anos depois de muito trabalho nocturno de Pinto da Costa e de Reinaldo Teles, a acumulação primitiva assim conseguida permite ao clube funcionar na perfeição, agora em plena luz do dia.
O Sporting começou bem e está mais sincronizado do que o ano passado, embora seja ainda muito cedo para antever como se irá comportar nos períodos críticos do campeonato. Certa, apenas a capacidade para fazer reverter em proveito próprio os eventuais erros de arbitragem que o desfavoreçam, como ainda ontem se viu em Braga ao não ser assinalada uma gp por carga de Postiga a Meyong na área.
O Guimarães, depois do empate em casa e da derrota em Basileia, acabou por ganhar na Madeira, embora com alguma felicidade. A possibilidade de repetir o feito do ano passado vai depender mais do demérito de terceiros do que de mérito próprio.
Finalmente, o Benfica está igual a si próprio. De novo apenas a pungente e confrangedora incapacidade física evidenciada por quase todos os jogadores no jogo contra o Porto. Tenho para mim que estar ligado profissionalmente ao futebol durante muitos anos ou até durante toda a vida não significa necessariamente que se perceba de futebol. O Benfica deixou há muito de ser uma equipa atractiva para jogadores de categoria ou para técnicos credenciados na plenitude de funções. No plano puramente técnico, a maneira mais segura de o regenerar passaria pela contratação de treinadores jovens, ambiciosos, desejosos de fazerem carreira no futebol europeu. O mesmo se devendo fazer relativamente aos jogadores. A contratação de jogadores acomodados, ricos, com falhanços sucessivos nos últimos anos, depois de um promissor começo de carreira, é um erro crasso. Ou seja, o Benfica, em vez de contratar jogadores com Rolls Royces e outras máquinas do género, deveria antes contratar jogadores habituados a andar a pé, para, ao menos, ter a garantia de que aguentam um jogo de futebol a correr!

UMA PERGUNTA PERTINENTE

ESTÃO OS COMBUSTÍVEIS NA BOMBA AO PREÇO A QUE ESTAVAM QUANDO O BARRIL DO PETRÓLEO ESTAVA A 105 DÓLARES?

A pergunta é essa mesma: estão os combustíveis nos postos abastecedores ao mesmo preço a que estavam quando o barril de petróleo andava entre os 104 e os 105 dólares?
A subida sucessiva e quase diária do preço dos combustíveis quando o preço internacional do petróleo não cessava de subir criou em todo o mundo, e também em Portugal, uma sensação de pânico que levou os consumidores a reagirem dos mais diversos modos.
Certamente que o aumento do preço do petróleo originou consequências nefastas a vários níveis. Todavia, do ponto de vista psicológico, mais grave do que os pequenos aumentos que regularmente se iam sucedendo era a convicção de que se estava a entrar numa espiral sem fim. Com a descida do preço internacional do petróleo, esse efeito desapareceu e com ele o pânico. Fica agora muito mais fácil para os donos dos castelos de Notingham manter os preços ao consumidores desfasados dos preços de compra, certos de que nenhum Robin dos Bosques (que, de resto, nunca existiu) os incomodará.

A CONVENÇÃO REPUBLICANA, O GUSTAVO E A GRAVIDEZ

A ESCOLHA DE SARAH PALIN E O OPORTUNISMO POLÍTICO

A Convenção republicana deixou de ser o que se esperava para se transformar numa grande operação de (propaganda) apoio às populações afectadas pelos locais previsíveis da passagem do furacão Gustav, a que desde logo chamaram o furacão do século, uma espécie de pai de todos os furacões.
A administração republicana tem, aliás, curriculum invejável em matéria de furacões. Bush e a sua equipa assistiram placidamente à passagem devastadora do Katrina por Nova Orleães sem mexerem uma palha em defesa das populações atingidas. O furacão fez milhares de vítimas e pôs a nu uma América pobre e terceiro-mundista que a propaganda tinha até então encoberto sob a capa do “very tipical french quartier”. O que se passou então, e cujos efeitos em larga medida perduram até hoje, ombreia com o que costuma acontecer em África, nos países mais atrasados, aquando da ocorrência de catástrofes naturais.
Por isso, certamente muito se sensibilizarão os bravos americanos ao verem o seu ilustre presidente em mangas de camisa e o benemérito Dick Cheney operacionalmente ocupados em acções de assistência humanitária e, mais ainda, ao terem conhecimento que as senhoras Laura Bush e Cindy McCain têm sido incansáveis no apoio às vítimas dos pobres estados afectados, todos governados pelos republicanos.
Entretanto, a senhora escolhida por John McCain para figurar na lista dos republicanos como candidata a vice-presidente, Sarah Palin, uma desconhecida, que desde a semana passada entrou para o estrelato da política e passou desde então a ficar conhecida pelas suas excelsas virtudes de mãe de família - cinco filhos, anti-abortista, defensora da abstinência sexual e de mais algumas virtudes que não vem agora ao caso enumerar -, tem uma filha de dezassete anos grávida de sete meses. Nada que não possa acontecer a qualquer um, salvo seja, mas que Mccain só teve conhecimento bem depois de formalizado e divulgado o convite. Pior ainda, alguns bloguistas maledicentes afiançam que o filho mais novo de Sarah, de poucos meses, afinal é seu neto…
Assim, se faz campanha eleitoral na América. E, mais grave ainda, como Obama não descola, se ganham eleições…

CAVACO NO LESTE EUROPEU EM TEMPO DE CRISE

PARTIDOS DE ESQUERDA REJEITAM CONVITE PARA INTEGRAR COMITIVA


Cavaco está no leste europeu em viagem oficial. Na Polónia e na Eslováquia. Na Polónia, há alguns negócios de empresários portugueses. Na Eslováquia, nem tanto. É também para estes dois países que se deslocalizaram algumas empresas que laboravam antes em Portugal. Cavaco viaja pouco. Menos que os seus antecessores. Os critérios específicos da escolha conhece-os ele. Se viajasse muito, não teria que justificar-se…
Significativamente, os partidos de esquerda e a CGTP, por esta ou aquela razão, declinaram o convite para o acompanhar nesta viagem. Creio que pela primeira vez. Aparentemente, por motivos de agenda. Realmente, porque Cavaco não faz o pleno de representação. Os dois últimos antecessores de Cavaco exerciam o lugar de modo a que todos se sentissem representados nem que fosse por via do mínimo denominador comum. Com Cavaco isso não acontece. Há coisas que marcam: o dia da raça, o veto do novo regime do divórcio e, acima de tudo, o passado…

UMA NOTÍCIA PREOCUPANTE, EMBORA PREVISÍVEL

IRÁ BUSH ATACAR O IRÃO ATÉ AO FIM DO MANDATO?

O Der Telegraaf de Amesterdão, a partir de fontes ligadas à espionagem holandesa, prevê um ataque aéreo dos Estados Unidos contra as instalações nucleares e de mísseis do Irão nas próximas semanas. O Irão, por intermédio do vice-chefe das forças armadas, já reagiu e advertiu que um ataque ao Irão desencadearia a terceira guerra mundial.
A notícia é, de facto, muito preocupante, embora, como neste blogue por mais de uma vez já se disse, seja perfeitamente admissível que os Estados Unidos, directamente ou por intermédio de Israel, ataquem as instalações nucleares do Irão antes do fim do mandato Bush.
De Bush, Dick Cheney e demais membros da camarilha pode esperar-se tudo. A questão, portanto, não está em saber se eles terão a ousadia de desencadear um ataque contra o Irão. A esta pergunta já eles responderam sobejamente durante os últimos oito anos. A questão está em saber se eles o conseguirão fazer com um mínimo de êxito. Por outras palavras: as instalações são destruíveis com armas convencionais? E terá o Irão alguns meios de retaliação suficientemente fortes para desencorajar o ataque? E o que fará a Rússia? Aproveitará para acabar com a Geórgia, reaver a Crimeia, pôr os bálticos em sentido e pregar um grande susto aos polacos e aos checos?
Uma coisa é certa: Israel não quer perder a supremacia estratégica na região e actual Administração americana tudo fará para que ela se mantenha intacta.

A UE SUSPENDEU AS NEGOCIAÇÕES DO ACORDO DE COOPERAÇÃO E ASSOCIAÇÃO COM A RÚSSSIA

QUE CONSEQUÊNCIAS?

A União Europeia decidiu ontem, em reunião extraordinária ao mais alto nível, suspender as negociações (ou, apenas adiar) as negociações do Acordo de Cooperação e Associação com a Rússia até que sejam cumpridos os seis pontos do acordo de cessar-fogo negociado em Agosto pelo Presidente Sarkozy com ambos os contendores.
O acordo está, no essencial, a ser cumprido, com excepção do ponto quinto acerca do qual existem interpretações divergentes. Diz este ponto que “as forças militares russas terão de retirar-se para as linhas anteriores ao início das hostilidades”, acrescentando ainda que “forças de pacificação russas implementarão medidas adicionais de segurança, até que se acorde um mecanismo internacional”.
Como se sabe, a Rússia mantém tropas nas regiões separatistas, cuja independência acaba de ser reconhecida por Moscovo, e em vários pontos-chave do território georgiano, nomeadamente portos e cidades.
A União Europeia, pese embora o bom senso que o Presidente francês tem demonstrado como mediador deste conflito, vai ter muita dificuldade em demonstrar à Rússia que o acordo não está ser cumprido. As tropas sediadas nas regiões separatistas são tropas de pacificação e as que ocupam alguns outros pontos do território georgiano representam as tais medidas adicionais de segurança que a presença em Tblissi de alguém com Saaskashvili, no entender dos russos, exige.
O mais que a UE poderá conseguir é uma redução da presença russa, mas nunca a retirada. A Rússia foi para ficar…
Por outro lado, a suspensão das negociações do acordo acabará por afectar muito mais, do lado da UE, aqueles países que dependem energeticamente das exportações russas, como é o caso de quase todos os ex-membros do Pacto de Varsóvia, do que os que têm grandes relações comerciais com a Rússia em ambos os sentidos, como é principalmente o caso da Alemanha, da Itália, da Holanda e da França, que continuarão a resolver, tranquilamente, no plano bilateral os seus problemas.
No jornal “Público” de ontem há dois excelentes artigos sobre a crise do Cáucaso ou, o mesmo é dizer, das relações do chamado Ocidente com a Rússia. Um da autoria de Oleg Shchedrov, que nos dá a perspectiva de Moscovo ante o cerco e a arrogância com que a Rússia tem sido tratada pelos Estados Unidos acolitados, com mais ou menos, convicção pelos europeus; outro, de Eduardo Lourenço, muito cáustico sobre a atitude da Europa relativamente a um conflito que não contende com os seus interesses.
De facto, não se compreende em homenagem a que supremos interesses a Europa aceita marginalizar a Rússia e alinha covardemente numa política de cerco a um país que é tão europeu como muitos outros que tem assento na União, que nem pelo seu passado, nem pela sua política são exemplos recomendáveis. Que esse possa ser o interesse do imperialismo americano, pelas razões aqui várias vezes referidas, ou do próprio Reino Unido no seguimento das suas concepções geopolíticas mais ancestrais, compreende-se. O que não se compreende é que esse interesse seja partilhado pelos grandes países da Europa continental. Como diz Eduardo Lourenço, sem a Rússia a Europa não passará de um pequeno cabo da Ásia.
E isso ver-se-á mais cedo do que se crê. Com a cada vez mais previsível derrota da NATO no Afeganistão, a Europa vai ter que repensar-se…

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

PUTIN ACUSA EUA DE ORQUESTRAREM CONFLITO NA GEÓRGIA


OBJECTIVO? BENEFICIAR UM CANDIDATO PRESIDENCIAL

Em entrevista à CNN, o Primeiro-ministro russo acusou hoje os Estados Unidos de orquestrarem o conflito na Geórgia para beneficiarem um candidato presidencial.
Evidentemente que só por ingenuidade se pode pensar que Saakashvili actuou por conta própria. Como este cenário é completamente inverosímil, alguns (ou algumas) dizem que ele “caiu que nem um patinho” nas provocações da Ossétia do Sul, outros, mais elaborados, são de opinião que ele conhecia perfeitamente os riscos, mas quis com o seu gesto forçar a entrada na NATO, outros…
Insisto: nada disto faz sentido. Depois do que se passou nos tempos mais próximos (independência do Kosovo; declarações de Putin na CEI sobre o reconhecimento do Kosovo; a intervenção de Putin na Conferência da NATO em Budapeste, etc.) sabia-se de antemão qual seria a reacção da Rússia à intervenção na Ossétia. Faz, portanto, todo o sentido supor que Saakashvili actuou escudado em alguém da Administração Bush. E embora o objectivo imediato pudesse ter sido o favorecimento de um candidato, a razão de fundo vai muito para além desse facto. Aguardemos até Novembro para vermos o que ainda vai acontecer…

A CRISE NO CÁUCASO


AJUDA HUMANITÁRIA EM NAVIOS DE GUERRA?


A imprensa e a televisão portuguesas completamente submersas pela crise securitária nem sequer se dão conta do que acontece no mundo. A comunicação social defende-se dizendo que lida com factos e alija qualquer tipo de responsabilidade pelo clima criado. É verdade que a comunicação social lida com factos, pelo menos uma parte dela, embora acima de tudo lide com a escolha dos factos….
Vem isto a propósito de a anunciada ajuda humanitária dos Estados Unidos à Geórgia estar a ser prestada em navios de guerra. Ou seja, nas zonas do mundo onde se justificaria a prestação de ajuda humanitária por meios militares, isso nunca ocorre, acabando parte dela por ir parar a mãos erradas. Na Geórgia, onde não existe qualquer conflito interno entre refugiados ou deslocados, a América usa meio radicais.
Com navios de guerra americanos no Mar Negro e com Dick Cheney por perto tudo pode acontecer. Por isso, insisto em dizer que esta é uma das mais graves crises que o mundo vive desde a segunda guerra mundial.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

AGUDIZA-SE O CONFLITO NO CÁUCASO

A RÚSSIA RETALIA KOSOVO E RECONHECE A OSSÉTIA DO SUL E A ABEKÁZIA

Já por diversas ocasiões tive oportunidade de analisar a crise do Cáucaso, a expansão a leste da NATO e a política americana relativamente à Rússia, por via da sua política na Europa do leste, no Cáucaso e na Ásia central. Hoje, o Presidente da Rússia, depois da recomendação unânime do Parlamento, reconheceu a independência da Ossétia do Sul e da Abekázia.
Este episódio, que é mais um passo na escalada que os americanos aventureiramente provocaram, vai ter efeitos muito duradoiros na política internacional. Ele vai acelerar a corrida aos armamentos, vai agudizar o conflito de Israel com os seus vizinhos, nomeadamente com o Irão e vai condicionar negativamente o futuro da União Europeia nos tempos mais próximos.
Num sentido muito coincidente com os pontos de vista aqui defendidos, leia-se, no El País de hoje, o artigo de Norman Birnbaum, professor catedrático da Universidade de Georgetown. Sublinho, com particular agrado, o reconhecimento da continuidade (apenas insinuada) das políticas externas de Clinton e W. Bush, uma vez que essa tem sido também umas das constantes da minha análise. De facto, a escalada imperial da potência hegemónica para espaços nunca antes dominados começa com Clinton e desenvolve-se despudoradamente com W. Bush, agora ideologicamente apoiada numa irresistível e cruzadística procura do BEM … e do petróleo.

AS TELEVISÕES PORTUGUESAS E O QUE SE PASSA NO MUNDO

A OBSESSÃO SECURITÁRIA

As televisões portuguesas sem excepção abriram os seus telejornais das 8 horas da tarde com uns pequenos assaltos ocorridos em estações de serviço. Depois de muita conversa, lá se ficam a conhecer outras notícias de importância nacional: uma gravidez mal concluída em Viseu e o estado da menina timorense recém-operada. E por aí adiante. É este o nosso mundo. Um mundo pequenino.
Mais tarde, muito mais tarde, lá para o fim dos telejornais ou para lá do meio, consoante os casos, fica a saber-se, sem qualquer emoção, que a Rússia terá reconhecido a independência de umas províncias da Geórgia e que num estado do sudoeste americano terá havido uma convenção do Partido Democrático para nomear o seu candidato às próximas eleições presidenciais. Enfim, coisas pequenas que resvalam na couraça da indiferença das nossas televisões…

domingo, 24 de agosto de 2008

O CAMPEONATO AINDA NÃO COMEÇOU, MAS O SPORTING JÁ PRESSIONA OS ÁRBITROS


PAULO BENTO AO ATAQUE


O futebol português não tem emenda. O Sporting foi, juntamente com o Guimarães, a equipa mais favorecida da ultima liga. Beneficiou de mais grandes penalidades do que os concorrentes directos juntos. Foram-lhe perdoadas outras tantas. Beneficiou ainda de erros clamorosos ocorridos noutros campos. Pois não obstante tudo isto, já o treinador do Sporting nas primeiras declarações da época vem dizer que o Sporting nunca beneficiou de uma penalidade marcada por um juiz de linha, para assim contestar o penalty assinalado a favor do Porto na final da supertaça e exigir que, além dos penalties que os árbitros generosamente lhe têm marcado, outros sejam assinalados pelos liners.

ADITAMENTO

Por razões alheias à minha vontade não foi possível publicar este post na sexta-feira. Sai agora, apesar de o Sporting, segundo li na net, se poder queixar de um penalty mal assinalado por a falta ter sido cometida fora da área. Se assim é, “o capital de queixa” sportinguista vai ser devidamente empolado até que a compensação esteja assegurada em termos amplos…

CAVACO E A LEI DO DIVÓRCIO


A ARGUMENTAÇÃO ERRADA DE UM VETO RETRÓGADO

Supor que Cavaco poderia estar à altura de Afonso Costa era tão absurdo como admitir que eu pudesse bater o campeão jamaicano numa corrida de 100 metros. Agora, o que não se supunha era que a argumentação usada num veto político assentasse em pressupostos jurídicos ridículos e errados, destinados a esconder uma opção sociológica muito retrógrada.
O veto de Cavaco assenta numa opção legislativa, sendo certo que essa competência não é sua. Não sei se o entendimento dos poderes constitucionais que o veto pressupõe é constitucional, mas sei que o PS e os demais partidos que votaram a lei se pretendem cortar cerce qualquer entendimento dos poderes presidenciais contrários à Constituição têm que reafirmar a lei sem mais delongas.

A IMPARCIALIDADE DOS MEDIA OCIDENTAIS


A RÚSSIA NA GEÓRGIA E OS EUA NO IRAQUE: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Depois de, em vão, ter tentado intervir no Iraque ao abrigo de um mandato do Conselho de Segurança, com base no argumento de que Saddam possuía armas de destruição massiva, os Estados Unidos, juntamente com o Reino Unido e mais alguns (poucos) incondicionais apoiantes, invadiu e ocupou o Iraque. Para justificar a agressão, a América fabricou uma série de mentiras, que o tempo se encarregou de trazer à superfície.
A invasão do Iraque, a subsequente ocupação e a agressão que tal acto consubstancia, constitui uma das mais graves violações ocorridas depois da segunda guerra mundial. Meio-mundo, literalmente meio-mundo, lavrou nas ruas dos cinco continentes o seu protesto. Saddam vivia à época num regime de soberania limitada em consequência das sanções que lhe foram impostas pela ONU, depois da tentativa de anexação do Kuwait. Não obstante aquele generalizado protesto, a acção de George Bush passou a gozar, se não com o apoio, pelo menos, da compreensão da imprensa ocidental. No fundo, Bush tinha como objectivo promover o Bem: livrar o Iraque de um ditador e implantar a democracia no país. Os resultados são os que se conhecem: Bush mergulhou o país no caos, fomentou o terrorismo, deu novo alento à Al Qaeda e transformou o Iraque num enorme atoleiro para os Estados Unidos, apesar das vantagens materiais que a ocupação trouxe a sectores empresariais próximos da Casa Branca, nomeadamente no plano energético.
Ninguém na imprensa pede hoje a retirada dos americanos; o candidato às presidenciais americanas que começou por a advogar foi considerado insensato, os jornalistas acham-na normal e a NATO, fiel ao carácter belicista da organização, nem lhe passa pela cabeça qualquer recriminação aos americanos.
Depois da desagregação da URSS e da retoma da soberania das repúblicas que a integravam, a Geórgia não conseguiu assegurar de facto a sua soberania sobre duas regiões que recusaram a integração no novel Estado. Houve guerra e acordos de paz, garantidos pelos russos. Desde então essas duas regiões – Ossétia do Sul e Abekázia -, que já manifestaram por mais de uma vez, em referendo, que querem ser independentes ou integrar-se na Federação Russa, têm vivido com autonomia absoluta face a Tblissi. A maior parte dos seus habitantes tem passaporte russo.
Na noite de sete de Agosto deste ano, o Presidente da Geórgia, aliado incondicional dos Estados Unidos (tinha 2 mil homens no Iraque), interveio militarmente na Ossétia do Sul, praticando violências sem conta contra a população civil.
A Rússia, face à violação dos acordos de 1992, interveio militarmente com toda a força. Derrotou o exército georgiano nas regiões autonomistas e ocupou parcialmente a Geórgia. Os apelos da imprensa ocidental para que a Rússia abandone a Geórgia são diários e cada vez mais contundentes. Ninguém nomeia as causas da intervenção russa e toda comunicação social de ampla difusão tende a mostrar a Rússia como potência ocupante.
Também quase ninguém contextualiza com rigor a situação. O cerco militar que a NATO, por iniciativa e impulso dos Estados Unidos, montou à Rússia é tido como normal e a sua ampliação a áreas de tradicional influência da Rússia é deixada sem comentários, embora toda essa mesma imprensa tivesse achado plenamente justificado que os Estados Unidos se tivessem proposto agir pela força para desmontar um cerco parcialmente semelhante, como o que aconteceu com a instalação das plataformas para o lançamento de mísseis em Cuba, nos idos de 1962!
Hoje é cada vez mais claro que as palavras de parceria e de boas relações que a América usou para com a Rússia, depois da desintegração da URSS e da derrota do socialismo real, não passam de uma profunda hipocrisia. Certamente que a América aceitava essa parceria com uma Rússia dependente, humilhada e derrotada, mas não com uma Rússia verdadeiramente independente. Basta recordar o que se passou nas duas últimas administrações americanas. Com Clinton, foi a intervenção na Jugoslávia à margem do direito internacional e a constituição de um protectorado sobre o Kosovo; com W. Bush, foi a denúncia do tratado sobre a limitação de mísseis; a não ratificação do tratado de proibição de ensaios nucleares e das alterações de SALT II com vista ao desarmamento atómico; o alargamento da NATO a leste e a instalação de radares e de escudo anti - mísseis junto às fronteiras da Rússia.
Na última reunião da NATO, terça-feira passada, os Estados Unidos, sempre apoiados pelos países Bálticos, pela Polónia e pelo Reino Unido, foram os que mais pugnaram por um endurecimento das relações com a Rússia. O jogo está assim cada vez mais claro: aos Estados Unidos interessa manter um clima de alta tensão internacional no quadro de um hipotético conflito de altíssima intensidade justificador das enormes despesas militares insaciavelmente reclamadas pelo complexo militar industrial representado elo Pentágono. Além deste objectivo, os EUA com esta posição (e ai coincidem com os ancestrais interesses britânicos) dividem a Europa e dificultam, ou inviabilizam mesmo a consolidação da democracia na Rússia, tornando muito mais fácil no plano ideológico a defesa das suas posições. O próximo presidente americano, seja ele quem for, herdará esta pesada herança…

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

NOVA LUZ SOBRE OS ACONTECIMENTOS DE 11 DE FEVEREIRO EM TIMOR-LESTE

AFINAL, QUEM ATIROU SOBRE RAMOS-HORTA?

Depois das revelações ontem feitas pelo The Australian, é hoje a vez de um outro jornal australiano The Age, pela pena do seu correspondente em Dili, Lindsay Murdoch, afirmar que há provas que contrariam a tese amplamente difundida de que Ramos-Horta teria sido atingido por um elemento do grupo do Major Reinado.
O mistério pouco a pouco começa a desvendar-se. Reinado e gente da sua confiança teriam sido atraídos à residência de Ramos-Horta, supostamente para conversações (de resto, não inéditas entre ambos), onde, segundo The Australian, foram executados. Entretanto, alguém, com uniforme diferente do dos homens de Reinado, disparou sobre o Presidente. Simultaneamente, ter-se-ia registado um atentado falhado contra Xanana Gusmão.
O homem a quem é imputado a autoria material dos disparos nega que os tenha feito e Ramos Horta não reconhece nele o seu atacante.
A Fretilin e algumas personalidades políticas de Timor-Leste pedem uma investigação independente. Xanana resiste e até ao presente ainda não a viabilizou.
A histérica emoção que se apoderou da maior parte da sociedade portuguesa a propósito da situação de Timor-leste, por razões que não interessa aqui analisar, e para a qual contribuíram, em partes iguais, tanto as autoridades públicas como os media em geral, não permitiu uma análise serena da situação e muito menos dos protagonistas timorenses. Esqueceram-se episódios passados, daqueles que marcam definitivamente o percurso político dos seus intervenientes, construíram-se heróis e embarcou-se num voluntarismo totalmente irracional, a ponto de o então Primeiro-Ministro português ter afirmado que com Timor se gastaria tudo o que fosse necessário, sem limites!
Mais lúcidos, sem emoção, os australianos compreendem Timor muito melhor do que os portugueses e paulatinamente vão contribuindo para a nossa compreensão de Timor-Leste. Enfim, mais vale tarde…

BARACK OBAMA DESCE NAS SONDAGENS, McCAIN SOBE E FICA À FRENTE

O PREÇO DAS “MUDANÇAS”

Há uma grande diferença entre o Obama das primárias e o que agora está a disputar com McCain a eleição de presidente dos Estados Unidos da América. Desde que a sua nomeação se tornou certa, o discurso alterou-se, e candidato jamais conseguiu descolar nas sondagens. Pelo contrário, foi-se cristalizando uma pequena diferença, muito próxima do empate técnico, e hoje a Reuters publica uma sondagem onde, pela primeira vez, McCain aparece à frente com cinco pontos de vantagem.
Os estrategas da campanha de Obama não se têm mostrado impressionáveis com as sondagens a nível nacional. Consideram que o importante é vencer em quatro ou cinco estados decisivos, que nas últimas eleições têm sido favoráveis aos republicanos. E é nesses que têm apostado tudo, convencidos de que nos tradicionais bastiões democráticos a tendência se manterá, não obstante as alterações do discurso muito viradas para aquele objectivo.
Em Novembro saberemos se os estrategas de Obama têm razão ou se, pelo contrário, este novo discurso, claramente mais à direita, não lhe será fatal. O esfusiante entusiasmo dos seus apoiantes, que marcou decisivamente o seu percurso nas primárias, assentava acima de tudo na mudança e na diferença relativamente a tudo o que tinham conhecido nas últimas décadas. Com a “mudança” de discurso, Obama corre o risco de perder o entusiasmo dos seus apoiantes e não ganhar o respeito dos seus adversários.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A DESFAÇATEZ DA SRA RICE


COMO É POSSÍVEL QUE A AMÉRICA DE BUSH SE ARVORE EM GRANDE DEFENSORA DO DIREITO INTERNACIONAL?

De facto, não há palavras para comentar a desfaçatez da Sra Rice. Primeiro, como conselheira do Conselho Nacional de Segurança, com uma posição na hierarquia semelhante à de Kissinger, quando este exercia o mesmo cargo, depois, como Secretária de Estado, a Sra Condoleezza Rice participou como co-autora ou, na melhor das hipóteses, como cúmplice, em todas as barbaridades da Administração Bush. De facto, esta Administração espezinhou o direito internacional, fez da força o direito do mais forte, transformou o mundo numa selva, fez regredir a comunidade internacional ao estado de natureza, para usar uma linguagem hobbesiana, e vêm agora uma das suas mais destacadas personalidades, com aquele ar de virgem pudica, queixar-se da Rússia.
Esta gente da administração Bush, entre a qual se conta Dick Cheney como grande agente do mal – para usar a linguagem dele –, seria implacavelmente julgada por um tribunal penal internacional, se houvesse um tribunal verdadeiramente independente ou, mesmo com o que existe, se pertencesse a um pobre pais africano ou mesmo a um europeu, desde que derrotado.
Como pode a administração Bush falar na reputação perdida da Rússia, se ela própria, pelos actos que praticou e pelas posições que assumiu, é responsável pelas maiores violações do direito internacional, desde o nazismo? Do direito internacional não apenas como direito regulador das relações entre os Estados, mas também como protector dos direitos dos indivíduos!
À medida que o tempo passa cresce a convicção de que a América – as forças que dominam a América –, desde que assumiu o estatuto de super potência e, depois, a partir do momento em que se transformou em potência hegemónica, tem uma extrema dificuldade em viver em paz com os demais países, exactamente por não admitir manter relações paritárias com os Estados cujos interesses conflituam com os seus.
A América e todos aqueles que ela acirra contra a Rússia são os grandes responsáveis pela actual crise internacional, que é uma crise grave, porventura a mais grave que o mundo vive desde a segunda guerra mundial e que poderá ter consequências trágicas, já que de nenhum dos lados da barricada há um projecto de futuro baseado em ideias suficientemente elevadas para as impedir.
A América está perdendo gradualmente o estatuto de potência hegemónica, embora a sua actuação na cena internacional seja a de quem se não apercebeu completamente da nova situação existente no mundo ou de quem a não aceita. E isso poderá ser trágico. O atoleiro em que o Iraque se transformou, as grandes dificuldades no Afeganistão, que apontam mais para uma derrota do que para uma vitória, a impossibilidade de resolver a seu favor o conflito com o Irão e o clamoroso fracasso em que se tornou a independência do Kosovo, demonstram isso mesmo. E a questão que se põe é: vai a América aceitar a nova situação ou cometer uma loucura para forçar a sua reversibilidade?

OS ACONTECIMENTOS DE 11 DE FEVEREIRO EM TIMOR-LESTE

O MISTÉRIO PERSISTE

Bem pode o Procurador-geral da República de Timor-Leste desmentir as notícias australianas, que sugerem a execução do Major Reinado e do seu companheiro Exposto, que nem por isso a dúvida se desvanece ou a suspeita de que algo de muito estranho aconteceu naquela fatídica manhã.
Se o major Reinado, apesar da situação em que se encontrava, mantinha relativamente boas relações e contactos com Ramos-Horta por que razão teria ele decidido assassiná-lo?
Para quem, como eu, nunca entrou em histeria por Timor, nem justificou o apoio à intervenção da NATO na Jugoslávia como mal necessário para a libertação de Timor-Leste (de facto, entre as duas situações não existia qualquer semelhança), os acontecimentos de 11 de Fevereiro, como outros, uns mais antigos, outros mais recentes, ocorridos naquele país, sempre estiveram envoltos na opacidade e na completa falta de lógica. Os resultados da autópsia que o jornal de Sydney, The Australian, divulgou adensam ainda mais aquele mistério e as suspeitas que lhe andam ligadas, na medida em que indiciam a execução de Reinado e do seu companheiro.
É caso para dizer que até agora quem tem tido muita sorte é o actual Primeiro-ministro que escapou ileso a um atentado que, nas condições em que se diz ter sido executado, normalmente não falha.

sábado, 16 de agosto de 2008

DEVERIA A RÚSSIA TER TOMADO TBLISSI ANTES DA CHEGADA DE SARKOZY A MOSCOVO?

TERÁ COMETIDO A RÚSSIA UM GRAVE ERRO ESTRATÉGICO?

Estando a comunidade internacional no estado em que Bush a colocou com a ajuda objectiva dos fundamentalistas islâmicos, ou seja, sem respeito pelo direito internacional e sujeita à lei do mais forte, com uma arrogância que se não conhecia desde o tempo da ascensão do nazismo, é caso para perguntar se a Rússia não terá cometido um grave erro estratégico ao deixar Saakashvili no poder.
Com o presidente georgiano no poder as provocações vão seguramente continuar, sendo cada vez mais difícil e perigoso responder-lhes. De facto, não é crível que os americanos o deixem cair agora. E se a intenção do Washington é fomentar um clima de alta tensão internacional para alimentar o complexo militar industrial que o Pentágono representa, o mais natural é que o exército georgiano seja reorganizado pelos americanos, que estes assumam um papel cada vez mais relevante e visível na Geórgia e que o país dentro de pouco tempo acabe por pertencer à NATO. As eventuais objecções europeias acabarão por sucumbir, como é hábito, face às pressões americanas.
Por tudo isto, é legítima a questão de saber se a Rússia não deveria ter tomado Tblissi e instalado um governo “amigo” que pusesse por largo tempo cobro às aspirações americanas na região.
Creio que a Rússia quis agir tomando por paradigma a Sérvia e o Kosovo. Proteger da limpeza étnica georgiana as regiões autonomistas da Ossétia do Sul e da Abekázia, rechaçar o agressor dos direitos humanos para dentro das suas fronteiras e preparar a independência daquelas duas regiões.
Esqueceu-se, porventura, de que, com a máquina de propaganda e contra-informação que os americanos e o ocidente em geral têm ao seu dispor, os custos políticos da intervenção acabam por ser os mesmos. O que se ouve nas televisões e se lê nos jornais são as declarações grandiloquentes de Bush e da sua camarilha erigidos em grandes defensores da democracia, dos direitos humanos, da integridade territorial dos Estados e da sua soberania, como se estes últimos vinte anos, e particularmente os últimos oito, tivessem sido um modelo de virtudes que todos devemos seguir e respeitar.
O Ocidente, ao contrário da Rússia, tem meios ideológicos suficientes para fazer passar aqueles motivos como sendo os que realmente determinam a sua acção. Só quando a situação é particularmente escandalosa, como aconteceu no caso do Iraque, é que se poderá assistir a uma reacção da opinião pública, embora, mesmo neste caso, a situação tenda, com o tempo, a ser desvalorizada, primeiro, e esquecida, depois, com o argumento muito em voga em situações semelhantes: “O que está feito, está feito, e o que agora temos de fazer é agir em conjunto para evitar um mal maior”. E os que institucionalmente tiveram a ousadia de reagir mais fortemente são ostracizados pelo agressor, com a complacência dos demais, como aconteceu com Zapatero.
Por isso, é que faz todo o sentido perguntar se a Rússia não deveria ter tomado por paralelo o Iraque. Sem o dramatismo que antecedeu a invasão americana do Iraque e sem os problemas que se seguiram à invasão, os russos teriam desalojado do poder Saakashvili em poucos dias, instalariam um governo provisório baseado na forte oposição interna ao presidente e selariam a paz com um “pacto de não agressão e amizade” entre os dois países. A comunidade internacional e os americanos, em particular, não teriam outra alternativa, que não fosse a de protestar e aceitar. A Rússia ficaria sujeita à reprovação temporária de largos sectores da comunidade internacional, tal como os americanos nestes últimos anos, mas ganhava o respeito dos seus aliados e o temor dos seus inimigos. Assim, tendo ficado a meio caminho, vão ter de suportar todos os incomoda, sem verdadeiramente beneficiar dos comoda.
Quando, no tempo da guerra fria, se lutava por ideias, principalmente os mais fracos, uma acção como a dos americanos no Iraque – supondo que ela era possível – ou como seria a da Rússia na Geórgia estigmatizaria por lado tempo o bloco que a tivesse levado a cabo. Hoje, esse problema não se põe. Entre os oligarcas de Moscovo e os capitalistas que apoiam e beneficiam com a política agressiva de Washington não há diferenças assinaláveis. O que conta é saber se queremos um mundo unipolar ou multipolar.
Se este último, como tudo indica, for mais vantajoso para a humanidade no seu conjunto, pelos equilíbrios que cria e pelos constrangimentos que impõe a quem está habituado a usar a força para impor a sua vontade, deveremos apoiar as acções que vão nesse sentido e rechaçar as demais. Apoiar criticamente, pois é lamentável que se tenha de recorrer a processos pouco ortodoxos para o conseguir. Mas – e a questão é essa - que fazer quando uma potência que não aceita perder a sua hegemonia monta um cerco a uma antiga potência rival, disfarçando a sua profunda agressividade com palavras de boa vizinhança e cooperação, mas na realidade inclui numa aliança militar todos os países que antes estavam sob a influencia daquela e, além disso, instala em dois desses países um sistema militar anti-mísseis que potencia aquele cerco?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

AINDA A GUERRA NO CÁUCASO


O ENIGMA PERSISTE: QUEM AUTORIZOU O ATAQUE À OSSÉTIA?

A viagem de Condoleezza Rice a Tblissi vai seguramente contribuir para esclarecer o enigma. Washington, tal como as repúblicas bálticas, a Polónia e a Ucrânia, não concorda com o plano de cinco pontos negociado por Sarkozy. Condoleezza Rice vai à Geórgia dizer isso mesmo, se é que não o disse já a Sarkozy. Mas como rever um texto que ambas as partes acordaram e no qual se baseia o cessar-fogo? Apenas há uma forma de o fazer: levando a Rússia a violar ostensivamente o cessar-fogo. E isso poderá conseguir-se com algumas provocações da Geórgia, se não mesmo dos Estados Unidos.
Se tal acontecer – e em breve o saberemos – fica praticamente desvendado o enigma que, na maior parte dos media ocidentais, tem sido dado como resolvido praticamente desde a primeira hora. Ou seja, têm-se aceitado como boas as informações veiculadas pela Casa Branca que pretendem fazer crer que Saakashvili actuou à revelia de Washington ou até contra as suas instruções. Curiosamente, informações semelhantes já começaram a circular a propósito de um hipotético ataque de Israel ao Irão.
Esta tese, que é possível, é porém pouco provável e faz pouco ou nenhum sentido. Será Saakashvili tão irresponsável a ponto de se lançar num ataque suicidário convencido de que a sua aliança com os Estados Unidos inibiria a Rússia de actuar? Em abono desta tese poderá dizer-se que Saddam Hussein também ocupou o Kwaite convencido de que beneficiaria da neutralidade americana (ponto de vista de Pierre Sallinger).
Mais provável é que Saakashvili se tenha aconselhado previamente com gente da administração Bush, próxima da Casa Branca. Como o passado recente revela à saciedade, aventureiros é o que não falta na entourage de Bush. Aventureiros ou, pior do que isso, gente capaz de cometer qualquer infracção por mais grave que seja.
Se Saakashvili actuou por sua conta e risco, cometeu um erro fatal, e, tal como Saddam, mais cedo que tarde está condenado a desaparecer da cena. Se, pelo contrário, contou com a prévia compreensão de gente da Administração americana – e as palavras de Dick Cheney sobre a actuação da Rússia não deixam de ser muito elucidativas – então a crise está para durar e assistiremos a novos (e perigosos) desenvolvimentos nos tempos mais próximos.
Perante este cenário, seria do interesse dos europeus que a UE tivesse a coragem suficiente para marcar as suas diferenças relativamente a Washington. Não é, porém, nada crível que tal venha a acontecer. Aquilo que os MNE dos países que mantêm uma falsa ambiguidade não tiveram coragem de dizer na reunião da UE, irão dizê-lo os ministros da defesa desses mesmos países na reunião da NATO da próxima terça-feira.
Faltam cinco escassos meses para terminar a Administração Bush ou apenas três, se se tiver em conta a eleição do próximo presidente. Aparentemente, pouco se poderá fazer, além do que já se fez nos últimos oito anos. Todavia, a aposta na tomada do poder pelos neo-conservadores foi tão forte, penetrou tão profundamente o Partido Republicano e o seu fanatismo está tão profundamente enraizado em amplas camadas da classe política americana que não é de rejeitar a hipótese de tudo continuar a ser feito até ao último minuto para condicionar a acção do próximo presidente e, directa ou indirectamente, manter o poder, continuando a empurrar a América para o confronto e aventureirismo político.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PORTUGAL E O CONFLITO NO CÁUCASO


AS AMBIGUIDADES DE UMA POLÍTICA EXTERNA


Para o conflito da Geórgia é absolutamente irrelevante a posição de Portugal, mas poderá não ser indiferente para a defesa dos interesses nacionais a posição da diplomacia portuguesa.
Com Sócrates de férias, embora certamente contactável, cabe a Amado gizar a posição portuguesa relativamente àquele conflito. Depois do que se ouviu sobre o Kosovo, era de admitir que o MNE tivesse relativamente à Ossétia do Sul e à Abekázia uma posição semelhante. Ou seja, considerar que a intervenção de Saakashvili contra aquele território autónomo, etnicamente diferenciado e com a esmagadora maioria da sua população (mais de 90%) a desejar a sua integração na Federação Russa, representava uma agressão inadmissível dos direitos humanos, se não mesmo um genocídio, do povo ossetiano e legitimava a intervenção de uma força de paz internacional para conter as manifestações belicistas da Geórgia, com vista á preparação de um referendo, internacionalmente observado, para em definitivo se definir o destino daquelas regiões autónomas.
Mas não, não ouvimos nada disso. O que ouvimos foi uma declaração relativamente ambígua que, se em alguns passos não prima pela ambiguidade, é exactamente por deixar uma censura à intervenção russa. Depois da aposta, muitas vezes defendida pelo Primeiro-ministro, numa diplomacia virada para os grandes países emergentes, como potenciais mercados das empresas portuguesas, além de grandes fornecedores de energia, supúnhamos que iríamos ver o MNE defender uma posição mais consentânea com aqueles interesses e mais coerente com as posições anteriores sobre situações semelhantes. Mas não foi isso o que aconteceu: nem defesa dos tais interesses económicos, nem coerência com posições assumidas anteriormente.
A coerência que parece existir é de outra natureza: defender uma tese que não conflitue com a posição de Bush e que dela se aproxime tanto quanto possível. Se Amado estivesse mais atento e mais empenhado na defesa de uma linha política própria, posto que harmonizável com as iniciativas em curso da UE, teria reparado que até Obama disse que a Geórgia se deveria abster de usar a força na Ossétia do Sul e na Abekázia.
Enfim, nuances que a diplomacia portuguesa dispensa…

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A UNIÃO EUROPEIA E A GEÓRGIA

A IMPOSSIBILIDADE DE UMA POLÍTICA EXTERNA COMUM

Sarkozy, presidente de turno da UE, foi, em nome da União, a Moscovo e a Tblissi com um plano de paz para fazer cessar as hostilidades no Cáucaso. Segundo as agências noticiosas, o plano teria sido aceite pelas duas partes, embora declarações posteriores atribuídas ao Presidente da Geórgia façam crer que o último ponto do plano não teria sido aceite por este. Se tal acontecer, as hostilidades vão seguramente continuar.
O quinto ponto é o que prevê o início de discussões internacionais sobre o estatuto e as modalidades de segurança nas regiões da Ossétia e da Abekázia, ou seja, por outras palavras, manter indefinidamente o status quo saído da guerra.
A proposta da UE, da iniciativa Sarkozy, aparentemente representa a convergência possível entre as posições dos 27 sobre o conflito. Mas só aparentemente, pois é sabido que tanto a NATO – a estrutura militar da NATO – como os EUA estão longe de se ver representados em tal proposta. Por isso é que os representantes da “nova Europa”, Polónia, Ucrânia, Letónia, Estónia e Lituânia, se apressaram a ir a Tblissi manifestar a sua solidariedade ao aliado incondicional dos Estados Unidos.
Esta viagem, diga-se dela diplomaticamente o que se disser, é a constatação óbvia de que, para lá das ambiguidades que já existiam na Europa a 15, existem agora, na política externa europeia, duas linhas políticas claramente definidas: a representada pela França e pela Alemanha (apesar das aproximações democratas-cristãs às teses de Washington), e também pela Espanha quando é governada pelos socialistas, a que se associam ambiguamente a Itália (quando governada pela direita), Portugal e alguns outros, e a representada pelos que assumem sem reservas a posição americana (países bálticos, Polónia, República Checa, Eslováquia e ainda e sempre, mas com as devidas distâncias, o Reino Unido).
Esta divisão, que não é tão radical como por vezes se pretende, tem porém o condão de irritar as grandes potências fundadoras por não lhes permitir apresentar com alguma credibilidade e força uma linha política com nuances e especificidades relativamente à americana. Mais tarde ou mais cedo esta questão vai ser resolvida, já que não é crível que a França ou a Alemanha, quando se dispõem a desempenhar o papel de mediadores num conflito europeu, possam admitir que um grupo de países da União manifeste a uma das partes a sua inequívoca solidariedade, mediante a presença na capital desse país de cinco chefes de estado e de governo. Enfim, a questão já estaria resolvida se a Grã-Bretanha estivesse mais próxima das teses continentais.
Sem menosprezar as diferenças apontadas, a verdade é que, mesmo sem elas, ainda estaríamos muito longe de uma política europeia mais próxima da actual correlação de forças a nível mundial. Depois da queda do muro e da desagregação da URSS, a União Europeia, tão inebriada quanto Washington pela vitória, reforçou o seu “complexo” eurocêntrico, paradoxalmente numa época que marcava como nenhuma outra o seu declínio. Convencida por força do triunfalismo americano da época de Clinton que estavam relançadas as condições para a criação de um mundo unipolar, sob a égide dos Estados Unidos, a Europa teve e tem alguma dificuldade em se aperceber do mundo que entretanto ia surgindo e que aos poucos se consolidava. Por um lado, a força de poderosos países emergentes, com ou sem armas nucleares, e por outro a dificuldade de impor pela força as chamadas “posições ocidentais”a regiões ou a países que antes as aceitavam sem dificuldade, desde que situados na sua área de influência.
Muitos exemplos, nestes últimos trinta anos, poderiam ser dados. Porém, o que se passa nas relações com a Rússia é paradigmático: derrotada a União Soviética, a Rússia não deixou desde então de ser humilhada pelos Estados Unidos, sempre com a cumplicidade da Europa, salvo algumas distâncias marcadas por Chirac e Scheröder. Primeiro, foi a vergonhosa intervenção do FMI na economia russa, sob Yeltsin; depois, a intervenção na Jugoslávia à margem do direito internacional e o posterior reconhecimento do Kosovo; a seguir, o alargamento da Aliança Atlântica até às suas fronteiras, quando já nada justificava (nem justifica) a sua existência; e ainda a colocação de um escudo antimísseis na República Checa e na Polónia; finalmente, como se tudo isto não bastasse, a “eleição” de vários presidentes da república ou primeiros-ministros americanos ou de longa vivência na América como governantes de países que antes pertenceram à URSS, de que é exemplo mais chocante o actual presidente da Geórgia.
Teria a Europa interesse nesta política? Em que é que a Europa poderia lucrar com a criação de um inimigo poderoso a algumas centenas ou a poucos milhares de quilómetros das suas capitais e do qual em grande medida depende energeticamente? Não se vislumbra deste lado de cá da Europa qualquer interesse que possa justificar tal política. Não assim do lado americano. Acabada a guerra-fria, o complexo militar industrial representado pelo Pentágono, apesar dos múltiplos conflitos militares de intensidade diversa em que desde então se envolveu, tinha e tem absoluta necessidade de manter um estado de tensão que justifique os fabulosos investimentos em armamento que somente uma “ameaça” de outra envergadura poderia justificar. E hoje, tal como ontem, somente a Rússia estava em condições de desempenhar esse papel. Daí as persistentes e humilhantes provocações de Washington, nas quais a Europa se deixou pouco a pouco enredar. A guerra da Geórgia seria uma boa ocasião para marcar distâncias, mas, como já se viu, a Europa parece não estar em condições de o poder fazer.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

POR QUE VIOLOU A GEÓRGIA OS ACORDOS DE 1992?


A RESPOSTA À INDEPENDÊNCIA DO KOSOVO

A única dúvida que legitimamente se pode colocar é saber se Saakashvili é estúpido ou se é um provocador nato.
Por obra e graça de Estaline, a Ossétia do Sul faz parte da Geórgia, apesar de étnica e geograficamente nada a distinguir da Ossétia do Norte, que integra a Federação Russa. Depois das graves desavenças havidas com Lenine sobre a forma de se relacionar com os comunistas georgianos, Estaline, com Lenine já no fim da vida, deve ter achado que a questão territorial da Geórgia não era suficientemente importante para justificar uma análise aprofundada da questão ossetiana. No fundo, que diferença fazia que a Ossétia a Norte integrasse a Federação Russa e a Sul a Geórgia, se tanto o norte como o sul, a Rússia e a Geórgia iriam ficar sujeitos ao mesmo comando político?
E, de facto, nada de muito relevante aconteceu na área durante a existência da URSS. Com a desagregação desta em 1991, logo no ano seguinte a Ossétia do Sul manifestou a sua inequívoca vontade de integrar a Federação Russa. Houve guerra (o mesmo se passou na Abekázia, um pouco mais a noroeste) acabando por ser firmado um acordo de paz, garantido pela Rússia, que assegurava à Ossétia do Sul um ampla autonomia que lhe permitia viver numa situação de independência de facto relativamente à Geórgia.
Mais ou menos contrariada, a Geórgia conviveu pacificamente com a situação até à chegada ao poder do “americano” que agora a governa – Mikail Saakashvili. Depois de várias tentativas de integração da Geórgia na NATO, e a promessa obtida este ano de que a integrará, Saakashvili sentiu-se suficientemente forte para, sem qualquer provocação, romper os acordos de 1992 e invadir uma região cuja população na sua esmagadora maioria não quer integrar a Geórgia e tem, além disso, passaporte russo.
Perante esta situação, e tendo principalmente em conta o antecedente do Kosovo (aliás, um dos grandes fracassos da diplomacia dita ocidental), que se esperava que a Rússia fizesse? A dúvida nunca esteve em saber o que a Rússia faria, mas em conhecer as razões que ditaram o comportamento de Saakashvili: jogador arriscado e, no fundo, estúpido ou provocador? E, neste caso, por iniciativa própria ou a soldo? Ou seja, provocador nato ou provocador da NATO?

sábado, 9 de agosto de 2008

CHINA ABRE OS JOGOS COM POMPA E CIRCUNSTÂNCIA, ALÉM DE MUITA BELEZA


QUEM FICOU A VER PELA TELEVISÃO, PODENDO LÁ ESTAR, ENGANOU-SE NA AGENDA

Os jogos olímpicos abriram hoje em Pequim com uma cerimónia extraordinária. Presentes, como convidados de honra, representantes de todos países, entre os quais muitos chefes de estado e de governo.
Aqueles que há uns meses atrás anunciaram a sua ausência, por motivos de agenda, convencidos de que os grandes deste mundo iriam boicotar a cerimónia de abertura, enganaram-se redondamente. Ficaram a ver pela televisão os que lá marcaram presença. Bem feito! Para a próxima esqueçam a agenda, que é assim uma desculpa que fica a meio caminho entre a displicência e a covardia, e tenham a coragem de dizer que não vão pelas razões que dizem querer defender ou então esperem que os outros digam a última palavra antes de tomarem uma decisão.

EANES CONCORDA COM CAVACO

CAVACO DEVE FALAR DIRECTAMENTE AOS PORTUGUESES, DIZ EANES

Eanes concorda com tudo que cheire a bonapartismo, por isso não admira que, a propósito dos Estatutos dos Açores, que é uma questão entre o Presidente da República e o Parlamento, ele concorde em que o Presidente se dirija directamente ao povo, em vez de o fazer a quem tem competência e legitimidade para alterar a lei.
Conhecemos bem os limites da democracia representativa e do mandato incondicionado. Por isso, achamos que se tornam cada vez mais necessários mecanismos que permitam aos representados (ao povo) controlar o exercício do mandato, para que os seus representantes, durante o seu exercício, respeitem a vontade popular.
Este controlo, exercido de baixo para cima, é um controlo democrático, amplamente desejável. Ele nada tem a ver com os apelos directos ao povo feitos de cima para baixo. Tais apelos são frequentemente anti-democráticos e prestam-se a todo o tipo de demagogias. Por isso, são amplamente indesejáveis.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O BOAVISTA E OS ELOGIOS À CAPACIDADE DE GESTÃO DOS LOUREIROS


O TRISTE PAPEL DOS COMENTADORES DESPORTIVOS


Desde há muito que entendo que a corrupção no futebol não é apenas da responsabilidade dos dirigentes desportivos e dos árbitros, mas dos demais agentes desportivos em geral, com excepção, até ver, dos jogadores.
Vem isto a propósito do que está acontecendo ao Boavista, uma das maiores fraudes desportivas dos últimos anos. O Boavista, ano após ano, foi ganhando jogos de forma mais que duvidosa e até um campeonato ganhou. Um campeonato de futebol, apesar de para qualquer observador atento mais parecesse um campeonato de luta livre.
Nesse ano não faltaram os elogios dos comentadores desportivos, principalmente dos que em nomes dos respectivos clubes comentam semanalmente os jogos. Lembro-me de um conhecido comentador do Sporting, cujo “metier” é adivinhar o futuro, se ter desdobrado em elogios sobre a capacidade de gestão dos Loureiros, exemplo acabado de saudável gestão desportiva.
Dizia o dito adivinho, incapaz contudo de perceber o passado e compreender o presente, que o Boavista era um exemplo a seguir: vende caro, valoriza os jogadores como ninguém e compra barato.
O que se passou depois é do conhecimento público: o antepenúltimo presidente do Boavista está suspenso por vários anos; o penúltimo (e muito breve) garantiu que o clube não mais seria uma lavandaria; o actual viu o clube despromovido à segunda divisão por batota e o estádio nomeado à penhora, além de estar impossibilitado de inscrever jogadores, o que, a manter-se, relegará o clube para os distritais.
Ora ai está o exemplo de uma grande gestão!!!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

OS JORNAIS EM FÉRIAS



A SRA TERESA DE SOUSA, SANTANA LOPES, CAVACO E OUTROS MAIS

A gente abre os jornais em férias, convencida de que vai haver uma pausa, mas eles não nos dão descanso.
É a Sra. Teresa de Sousa que, sob a forma de notícia, nos deixa em duas longas páginas o seu velado protesto e a sua amargura pelas relações que Portugal mantém com a Venezuela de Chavez, com a Angola de José Eduardo dos Santos, com a Rússia de Putin e com a Líbia de Kadafi. Se ainda fosse com Bush, homem respeitador do direito internacional, grande democrata e acérrimo defensor dos direitos humanos, ainda vá, mas agora com aquela gente…francamente. A China escapou-lhe, acto falhado de um grande passado democrático emeerre.
Depois vem Santana Lopes, a propósito da intervenção presidencial, avisar que levem Cavaco a sério. Se o homem falou no “regular funcionamento das instituições”, não o fez inadvertidamente. Quererá dizer, segundo Santana, que se não lhe atendem o “pedido”, e deixam ficar tudo como está, poderá, em caso de derrota do (mais que provável) veto político, dissolver o Parlamento.
Esta advertência de Santana Lopes faz todo o sentido. Quando comentei a intervenção de Cavaco, sem ter lido o acórdão do Tribunal Constitucional, supus, como toda a gente, creio, que Cavaco tinha levantado a questão da constitucionalidade perante aquele tribunal e que ela não tinha sido atendida. Qual não foi o meu espanto, quando, dois dias depois, constato que Cavaco não tinha levantado o assunto. E aí senti-me enganado pelo Presidente da República. Como é possível que o mais alto magistrado da nação (como se dizia no tempo de Salazar) tenha feito uma intervenção daquelas sem de imediato ter esclarecido esta questão? Cavaco deveria ter actuado de outro modo. Deveria ter-se dirigido à Assembleia da República - e não ao povo português, que nada, neste momento, tem a ver com aquele assunto – e humildemente reconhecido que, por lapso seu (ou dos seus brilhantes assessores jurídicos), não havia solicitado a apreciação preventiva da constitucionalidade daquelas disposições; porém, como, em sua opinião, elas eram manifestamente inconstitucionais, pedia agora a Assembleia da República que as alterasse no sentido da sua conformidade constitucional. Este era o comportamento normal e digno de um grande político. Fazendo o que fez - quaisquer que tenham sido as suas conversas com Sócrates sobre o assunto –, Cavaco mais uma vez deixou muitas dúvidas sobre se tem condições psicológicas para um dialogo democrático mais intenso. Autoritário por natureza, pouco dado a compromissos, habituado a impor a sua vontade por força das maiorias absolutas que outrora alcançou, Cavaco continua a entender a política como um jogo de resto zero. O que um ganha é o que o outro perde. Só que a política democrática não é isso. Por isso, repito, a advertência de Santana Lopes, que o conhece bem, deve ser levada a sério. Isto é, deve fazer-se frente ao autoritarismo…
A seguir vem o DN dizer-nos, como aliás o fizeram as agências noticiosas, mas não, sintomaticamente, o Público, que Mugabe poderá entregar o poder aos oposicionistas no quadro de um acordo que passa pela imunidade e manutenção de alguns poderes simbólicos. Pois é, em Portugal houve quem esperasse, em vão, durante 48 anos por um acontecimento do mesmo género e nada. Afinal, os ditadores não são todos iguais… E quando a gente tiver dúvidas pergunta aos ingleses que eles esclarecem logo…
Por falar em ditadores, a grande notícia de Agosto é abertura de um processo em Madrid, na Audiência Nacional, pelo juiz Petraz, contra altos comandos militares e políticos chineses, por crimes diversos perpetrados contra o povo tibetano. Esta mania das grandezas dos nuestros hermanos deixa-nos quase sem palavras. Então vão-se dar ao trabalho de investigar - e, antes disso, de justificar a competência dos tribunais espanhóis - crimes cometidos a uma tão grande distância e a uma tão alta altitude, quando, durante mais de duas décadas, tiveram lá em casa gente que cometeu crimes contra a humanidade e crimes de direito comum aos milhares sem nunca ter sido processada?