terça-feira, 7 de junho de 2011

ISTO COMEÇA MAL, A COMEÇAR POR PASSOS

REVISTA DO DIA
Passos diz que cumprirá acordo e irá mais além

Dizem que é bom rapaz, que é uma pessoa comum, um tipo igual a tantos outros – os jornalistas, comentadores e apaniguados, encarregados de fazer a imagem para o grande público, dizem muita coisa, principalmente coisas que marquem a diferença em relação a Sócrates, o que nenhum deles diz é que Passos Coelho pense pela sua cabeça e menos ainda que o seu polifónico discurso prime pela coerência e pela concisão.

Hoje numa entrevista à Reuters, uma entrevista para o estrangeiro, manifestamente encomendada pelos seus spin doctors, Passos Coelho disse, por outras palavras, que iria governar contra os portugueses para ganhar a confiança dos mercados, ou, se preferirem, que o governo poderia ir além das medidas acordadas com a troika, pois não quer nem mais um dia, nem mais um segundo, que Portugal seja um peso para os seus parceiros europeus.

Se Passos Coelho continuar a ouvir e a fazer o que lhe dizem os economistas do seu partido, os tais que prometeram um programa mais radical que o da Troika, pode ter a certeza de que terá vida curta, por mais consistente que pareça ser o acordo que vai assinar com o CDS.

As declarações de Passos Coelho são desprovidas de qualquer racionalidade e assentam na crença irracional de que os programas de ajustamento estrutural geram confiança, tanta mais quanto mais radicais forem, acabando por essa razão por dar um contributo decisivo para o relançamento da economia. Isto supondo que está de boa fé, o que não é manifestamente o caso dos que, dizendo o mesmo, apenas estão interessados na defesa dos grandes interesses que representam.

Mas a putativa boa fé não tira que essa crença na “fada da confiança” não seja completamente tonta, pois não há nenhum “mercado”, desses para os quais ele fala, que não alicerce a confiança em materialidades, ou seja, em crescimento económico, em capacidade objectiva para solver os compromissos assumidos. Que confiança pode resultar de uma economia em recessão que tem como única perspectiva a certeza de mais recessão?

Fada por fada prefiro acreditar na que deixa um presente à minha neta sempre que ela perde um dente de leite e o coloca cuidadosamente à noite debaixo do travesseiro para que a fada o leve  no silêncio da noite e em troca deixe o presente, mesmo quando a incompetência do avô se esquece de entregar o dente à fada pondo assim em perigo o resultado da próxima visita…

Mas não é só Passos Coelho que começa mal. Portas está inchado de autoridade que nem um soba e possuído de um acacianismo confrangedor. Que escárnio as suas palavras não provocariam ao jovem director do Independente. Além do mais toda a gente sabe o que ele quer: importância e dinheiro, ou, dizendo de outro modo, peso no governo e ministérios com verba!

Ainda é cedo para falar do PS, mas não seria de estranhar que entregassem para a degola um jovem cordeirinho a quem vão exigir que na rua se coloque ao lado de quem protesta para não deixar o campo livre ao PC e ao Bloco e simultaneamente apoie no Parlamento as medidas que o governo não pode tomar sem a participação activa do PS. Só mesmo um novato de quem quase nada se saiba e não tenha opinião sobre a maior parte das coisas poderá desempenhar este papel, findo o qual será substituído pelo verdadeiro sucessor de Sócrates. Ponto é saber os danos que esta suposta estratégia causaria ao PS e se eles serão reparáveis…


Uma nota sobre o Bloco: há por aí muita crítica à Coordenadora, principalmente a Louçã, por o partido ter perdido metade dos deputados; e apontam-se causas: apresentação da moção de censura, recusa de falar com a troika, imitação do PCP, enfim coisas do género; por aí nunca chegarão lá. Antes de perguntarem por que razão o Bloco desceu têm de saber muito bem por que razão o Bloco subiu.

Finalmente, mesmo para quem esteja por algum tempo confinado aos quatro canais da televisão e não tenha de ouvir a toda a hora o Relvas, nem de escutar o Crespo e a maior parte dos seus insuportáveis convidados, há novidades que não podem ser omitidas. O cheiro a carniça trouxe pelo segundo dia consecutivo o execrável Moniz para o prime time da RTP, que agora até dá notas e critica com veemência o sufocante controlo imposto por Sócrates à comunicação social.

Bem vistas as coisas não há que estranhar: Moniz, além de não ter qualquer vergonha na cara, está a posicionar-se para a privatização e a RTP, citando Castrim, é uma velha prostituta que serve com idêntico fervor os sucessivos “clientes”…


domingo, 5 de junho de 2011

EPISÓDIOS DA NOITE ELEITORAL


O ESPECTÁCULO DAS ELEIÇÕES




Tão importante como os resultados, acabou por ser a declaração de José Sócrates. Como se previa dificilmente Sócrates resistiria a uma derrota e menos ainda a uma derrota situada abaixo dos trinta por cento. E assim aconteceu. Sócrates despediu-se e quis na despedida marcar a diferença. O contraste entre as suas palavras e as declarações rancorosas e mesquinhas de Cavaco na hora da derrota são por demais evidentes.

Outro episódio interessante é a declaração de Portas. Para além do aliciamento ao PS, com que já se contava, o mais interessante é Portas com 23 deputados falar como um soba. Que faria ele se um dia tivesse uma maioria? Diz Portas: “Não quero euforias!” e acrescenta: “Amanhã é dia de trabalho”. E como ainda não está satisfeito agradece aos de dentro e aos de fora o resultado que lhe deram! Quando ele trata assim os de dentro, imagine-se como não tratará os de fora…

Depois a análise de Rebelo de Sousa: “Sócrates deveria ter encerrado a sua declaração sem direito a perguntas. Assim, perdeu-se todo o efeito”… Com professores destes, o ensino está garantido no próximo quadriénio

Finalmente, de Passos Coelho recorda-se o Hino e a vontade de marchar contra os canhões. Ora bolas, se ainda fosse contra os credores…


ELEIÇÕES LEGISLATIVA 2011



MAIS OU MENOS O QUE SE ESPERAVA
José Sócrates demite-se da liderança do PS

A única diferença entre o que está a verificar-se e o que se previa que pudesse verificar-se é a queda acentuada do PS. À parte isso, tudo normal.

No entanto, o grande derrotado destas eleições é o povo: antes de mais o povo que trabalha em condições mais difíceis, o povo que vive do seu exíguo salário ou da sua magra pensão. Mas também o povo que não costuma ser chamado a sacrificar-se em prol dos grandes interesses sai derrotado destas eleições – o povo dos salários médios, o povo da agricultura familiar e o povo das pequenas e média empresas. Por razões não completamente coincidentes também este povo sairá derrotado destas eleições.

Os grandes vencedores são antes de mais os credores estrangeiros, os agiotas do capital financeiro e especulativo, os seus fiéis representantes internos, a começar pela banca, mas também os grandes interesses construídos à custa da espoliação do património público e da isenção de impostos, e, obviamente, as cliques partidárias que se preparam para repartir entre si o que restar do que têm de entregar lá fora.

A democracia representativa dos nossos dias que já é em si uma caricatura de democracia, pelas múltiplas razões que a degeneraram e que não interessa a todo o momento repetir, constitui, principalmente nos momentos de grave crise económica, política e social, a melhor prova de que o povo só faz avançar a história quando é devidamente “iluminado”. Não quer isto dizer as que “trevas” resultem necessariamente de uma falta de escolaridade ou de uma menor capacidade para compreender a complexidade da situação sobre que cada um é chamado a decidir, mas antes do profundo domínio ideológico que envolve, condiciona e constrange a sociedade dos nossos dias.

É certo que esse domínio ideológico sempre existiu em todas as sociedades, mas nunca teve a força que hoje tem, nem nunca foi por si só suficiente para assegurar a estabilidade dos outros poderes – o económico e o político. Frequentemente estes tinham que recorrer à força para impor o seu domínio. Isso hoje, nas sociedades desenvolvidas dos nossos dias, acontece menos e é exactamente por acontecer menos que o status quo é tão forte e por ser aparentemente tão consensual é que se torna difícil derrotá-lo sem uma radical alteração do domínio ideológico.

Hoje, a dificuldade em derrotar a hegemonia da direita no plano ideológico resulta da falta de perspectivas, da ausência de uma ideia força de mudança pela qual valha a pena lutar, como houve em tantas outras épocas históricas. Infelizmente, estamos a viver o tempo resultante de uma grande derrota, cujas consequências ainda estão longe de se terem verificado por inteiro. De facto, não basta ter consciência da irracionalidade da vida económica e financeira dos nossos dias, nem dos múltiplos exemplos que a prodigalizam, como por exemplo o BCE emprestar nos últimos três anos dinheiro aos bancos a 1% e negá-los aos Estados que se endividaram para os financiar ou, quando se predispõe a fazê-lo, emprestá-lo a juros várias vezes superiores. Não basta isso – é também preciso ter interiorizada uma ideia de mudança radical em que se acredite, uma ideia que se propague e pela qual muitos estejam dispostos a lutar quaisquer que sejam as consequências.

Isto hoje não existe e como não existe acaba por ser normal que os partidos da “troika” somem a maioria esmagadora dos votos do eleitorado, embora com a penalização circunstancial dos que governaram em último lugar.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

O "DAY AFTER" DO PS

COMO VAI O PS DECIDIR?


Continuando a ter como certo que o PSD ganhará as eleições e deixando para domingo o modo como se vão distribuir os votos entre os “partidos da troika”, a grande questão que se coloca é como vai o PS posicionar-se depois destas eleições.
Na hipótese pouco provável de a maioria absoluta no Parlamento apenas se poder fazer com os votos do PSD e do PS, poucas ou nenhumas seriam as possibilidades de o PS resistir a uma coligação. Pressionados pelos credores estrangeiros e pelo capital financeiro nacional, os dois partidos estariam condenados a entender-se apesar de estas não serem as condições desejadas pelo PSD para formar governo. Este entendimento, tendo em conta tudo o que se passou, pressupunha o prévio afastamento de Sócrates e a sua substituição por alguém que o PSD não rejeite (e no PS não faltam não rejeitáveis) e que simultaneamente nesta campanha eleitoral tenha manifestado uma sincera disposição para colaborar na execução do programa da Troika, seja quem for o primeiro-ministro.
Com Sócrates fora, tantas e tão fortes seriam as pressões internas e externas para que se retirasse, na linha sucessória estariam, por esta ordem, Costa, Assis e, mais remotamente, Seguro.
Na outra hipótese, muito mais provável, de o PSD fazer maioria com o CDS, a presença do PS no governo continuará a ser exigida, tanto dentro como fora do partido, só que neste caso Sócrates tem muitas mais condições para se manter como secretário-geral, salvo se tiver uma votação humilhante. O mais provável, neste contexto, é que Sócrates queira manter o partido de fora e aceitar fazer apenas alguns acordos pontuais, porém da máxima importância, como é o caso da revisão de certas normas constitucionais.
E esta hipótese, apesar das pressões que vêm sendo feitas noutro sentido, é a que acabará por defender melhor os interesses do próprio partido.
Em primeiro lugar, é a solução que mais convém a Sócrates que assim evita uma reforma prematura da vida política.
Mas não só: depois da entrada em vigor da Constituição, o PS nunca participou no governo como partido minoritário, servindo ostensivamente de muleta da direita.
O PS já fez coligações com essa mesma direita, primeiro com o CDS e depois com o PSD, mas sempre como partido maioritário.
Mais: o PS no governo sempre tem feito uma política de direita - fê-lo ostensivamente nos três governos chefiados por Mário Soares para o qual os grandes adversários sempre foram a esquerda e aqueles que dentro do próprio partido ou mesmo no governo queriam dar uma feição mais socializante ou social-democrata à governação (como era o caso de Arnault e de Zenha); lançou as bases para a consolidação de uma política neoliberal nos dois governos de Guterres com as privatizações em cadeia e a desregulamentação de amplos sectores da vida económica; e concluiu esse serviço com Sócrates, privatizando o que restava, proporcionando ao grande capital financeiro e da construção civil múltiplos e rendosos negócios à custa do contribuinte e, por fim, atacando o trabalho e os direitos laborais bem como certos sectores específicos do que resta do estado social, tudo na linha daquilo que são hoje os grandes objectivos que a direita se propõe alcançar para regressar, nas presentes condições, a uma situação político, económica e social semelhante à que existia antes da difusão das ideias socialistas no mundo desenvolvido e da respectiva consolidação de muitas das conquistas por elas directamente influenciadas.
Só que para um partido como o PS, com o eleitorado em que se apoia e com os militantes que o compõem, uma coisa é ser ele próprio a fazer aquela política, sempre com nuances que a distinguem da dos outros e com um discurso justificador, ora a defesa impositiva do interesse nacional, ora a melhor maneira de assegurar o essencial – e também com a possibilidade de dentro do partido haver uma meia dúzia de vozes discordantes, que lavam a sua alma protestando, mas que acima de tudo mantêm no imaginário do militante a ideia de um partido-outro que um dia se concretizará – e outra, completamente diferente, era aceitar participar num governo como força minoritária, ostensivamente como “muleta” da direita sem máscara.
Seria o começo do fim do PS como grande partido eleitoral e também o fim de muitas ilusões, indispensáveis à construção do tal imaginário que envolve e caracteriza o partido, sem a sobrevivência das quais passaria pura e simplesmente a ser avaliado pelos actos que pratica.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

PORTAS ENCARECE PARTICIPAÇÃO NO GOVERNO



UM COMPLETO BLUFF



No Diário de Notícias de hoje, Portas marcou diferenças relativamente ao PSD e encareceu a participação do CDS no governo. O que Portas quer toda a gente percebe, até Passos Coelho, daí que talvez não tenha sido uma boa ideia o modo como ontem se exprimiu.

Portas não quer o PS no Governo. Quer obviamente o voto do PS na revisão constitucional e eventualmente noutras matérias a decidir no Parlamento, mas sabe que a presença do PS no governo o fragiliza. Por outro lado, sabe que o eleitorado de direita (PSD/CDS) prefere uma coligação do PSD com o CDS a qualquer outra. E como o PSD, se ganhar, precisa de fazer um governo maioritário, sendo o CDS o seu aliado natural, Portas trata de vender caro a sua participação de modo a evitar uma distribuição dos Ministérios, em quantidade e em qualidade, proporcional ao peso eleitoral dos dois partidos, como de certo modo aconteceu com a coligação feita com Barroso.

Desta vez Portas, sentindo o PSD ”entalado” entre a necessidade de negociar uma coligação e a obrigação de chegar a um resultado muito rapidamente, aposta numa participação mais onerosa para o PSD na convicção de que os negociadores “laranja” não teriam grande margem de manobra para a recusar as suas propostas nem para protelar as negociações, dada a urgência, face aos compromissos assumidos, de ter o governo o mais rapidamente possível em funcionamento.

Não deixa de ser uma aposta arriscada, mais ainda vindo de quem tudo tem feito para ser governo, desta vez com a estabilidade que da outra faltou a partir do momento em que Barroso se pôs a andar.

Claro que o PSD reagiu como se esperava, pedindo mais votos para si e menos no CDS, enquanto o PS procurou tirar o partido possível desta putativa situação de conflito.

Porém, tudo vai depender de Sócrates. Se Sócrates ficar, Portas pode ter êxito na manobra que desde o princípio da campanha vinha pondo em prática e que hoje ficou clara. Mas se Sócrates se for embora, Portas que se cuide, já que há guardres probabilidades de a sua eventual participação no governo ficar muito desvalorizada…

Sabe-se lá, aliás, que acordos já não existem. Alguém se lembra do contexto em que foram disputadas entre o PS (Mário Soares) e o PSD (Mota Pinto) as eleições subsequentes à queda, já na fase Balsemão, da “Aliança Democrática”?

AS SONDAGENS E O RESTO


COMO VAI SER COM O PS?

Desde há dias que as sondagens começam a manifestar uma clara tendência para a vitória da direita (PSD/CDS), desde que se começou a abrir um pequeno fosso entre o PSD e o PS e se consolidou, simultaneamente, uma subida do CDS relativamente às eleições de 2009. Por outro lado, a estabilidade da CDU, ou uma ligeira subida, não é suficiente para compensar a queda do PS e menos ainda a do Bloco que, como se previa, também descerá.  

Se as urnas confirmarem as tendências que as sondagens manifestam, PSD e CDS terão maioria absoluta. Isto quer dizer antes de mais que Sócrates não conseguiu impedir na ponta final da campanha a subida do PSD, apesar de todas as “gafes” de Passos Coelho e das prestações, muito criticadas, de alguns dos seus apoiantes. O que, por outras palavras, significa que não será Passos Coelho a ganhar as eleições mas Sócrates a perdê-las.  

E muito dificilmente não seria assim. Desde logo, porque reina entre o eleitorado volátil (que em Portugal é muito significativo) um grande descontentamento com muitas das medidas ultimamente tomadas pelo Governo; depois, porque os eleitores cansam-se com facilidade de quem está no poder há vários anos. Mas para além dessas causas, há uma óbvia campanha nos media (RTP, incluída) contra Sócrates e a favor da direita, que ao fim de tanta insistência acabou por produzir efeitos, além de que alguns dos apoios que Sócrates recebeu durante a campanha, como os de Soares e de Seguro, favoreceram mais o adversário do que propriamente o apoiado e outros, porventura mais sinceros – se é que são – primaram pela falta de entusiasmo, como os de Costa e de Assis, principalmente.

Sócrates deu sempre a impressão de ser um homem só…ou mal acompanhado.

O próprio CDS tirou partido desta situação, crescendo também ele à custa do PS e um pouquito do Bloco, que parece não ter perdido para o PS tanto quanto se esperava. A CDU, em princípio, manterá o resultado de há dois anos ou melhorá-lo-á ligeiramente.

Perante este quadro, que, a fazer fé nas sondagens, é o que começa a consolidar-se, a direita já pede mais do que uma simples maioria absoluta PSD/CDS. Quer o apoio do PS para as políticas que vai pôr em prática, receosa que está de não conseguir controlar a rua. Mas não só: há alterações constitucionais a fazer que serão muito mais fáceis de levar a cabo se o PS estiver dentro do que se estiver fora. Daí as múltiplas vozes que nesse sentido já se fizeram ouvir tanto do lado do PSD, como do PS. Portas, temendo perder com esta aproximação, não dá sinais de sequer a encarar. Pelo menos, para já…

É evidente que esta pretendida solução tem uma dificuldade: Sócrates. Para que essa aproximação se consume é necessário afastar Sócrates. Irá Sócrates aceitar acabar a sua carreira política a seguir a estas eleições, como parece ser o desejo de certos barões do PS ou estará ele disposto a continuar na luta, mantendo-se à frente do partido? E terá, para isso, apoios suficientes?

terça-feira, 31 de maio de 2011

A GRÉCIA: NOVO SAQUE À VISTA







DEPOIS DO SAQUE DO PATRIMÓNIO HISTÓRIO E ARTÍSTICO

A Grécia, pátria fundadora da nossa civilização, depois das maravilhas artísticas, literárias e filosóficas com que dotou a cultura ocidental, foi-se tornando com o passar do tempo num lugar privilegiado para predadores de toda a espécie. Primeiro foram os romanos, porventura mais interessados em colonizar o saber do que em conquistar a terra, depois Bizâncio, e a seguir os otomanos que sem compreenderem bem a magnitude da ofensa que estavam praticando transformaram o Partenon num paiol de pólvora facilitando com a sua incúria e insensibilidade ao belo o desfecho perpetrado pelos canhões venezianos já então mais interessados, tal como hoje, em impor o domínio do dinheiro do que em preservar as grandes criações do espírito humano. A seguir vieram os “civilizados”, os netos e os bisnetos da cultura ali gerada, já muito mesclados de cristianismo, fazer a razia dos bens patrimoniais históricos, muitos dos quais hoje exibidos como coisa própria nas três grandes capitais europeias (Londres, Paris e Berlim), mas existentes um pouco por todo lado tal a magnitude do saque sofrido pela pátria helénica.
Entretanto, a Grécia penosamente voltou à história. No começo do século XIX (1822), depois de múltiplas vicissitudes, em que ao contrário do que hoje acontece não faltou na Europa de então, naquilo a que com propriedade se poderia chamar a Europa dos cidadãos, quem com ela se quisesse identificar e solidarizar (Lord Byron é, entre muitos outros, um exemplo conhecido) na reconquista da sua independência. É verdade que os gregos, alcançado o objectivo, como de costume, não se entenderam. Mas esse é um problema deles…embora, na altura, já com a Alemanha de permeio
Não interessa saber se os gregos de agora são os mesmos da era de Péricles ou se o ADN dos actuais tem alguma coisa a ver com os que na Ágora ateniense ou na academia de Platão dissertaram tão doutamente sobre a natureza humana a ponto de o interesse pelas suas palavras suscitar hoje o mesmo entusiasmo e interesse com que eram ouvidas há mais de dois mil anos ou mesmo se as virtudes guerreiras e o estilo de vida dos espartanos deixaram alguma influência nos que hoje habitam o Peloponeso. Isso não interessa – essa questão da filiação genética dos actuais nos ancestrais verdadeiramente só interessa aos judeus em Israel. O que interessa é que os gregos que hoje habitam a Macedónia, as ilhas jónicas, as do Mar Egeu ou as da Ásia Menor ou os que habitam a Ática e o Peloponeso, habitam os mesmos lugares sagrados onde outrora floresceu uma civilização e se gerou uma cultura ímpares na história da humanidade.
E é essa mesma Grécia que hoje é humilhada pelos donos do dinheiro com a arrogância e a brutalidade própria dos bárbaros. Não lhes basta não reconhecer a falência completa das políticas de austeridade que lhe impuseram para continuarem a alimentar com dinheiros públicos a ganância dos bancos. Querem mais: querem a Grécia vendida aos pedaços sob a supervisão de uma agência externa que ficaria encarregada de entregar aos credores os bens públicos gregos sob o disfarce de um processo de privatizações em larga escala.
As opções com que a Grécia se defronta – e com que outros a muito curto prazo igualmente se defrontarão - são difíceis. Mas entre dois males deve sempre escolher-se aquele que mais dano causa ao nosso inimigo. Entre continuar na União Europeia como um protectorado do directório, dominado pela Alemanha, fazendo sacrifícios sem conta nos próximos dez anos para no fim se ficar porventura pior do que se está hoje ou rejeitar-se completamente os diktats de Bruxelas com todas as consequências que isso acarreta, deixando os credores à mercê do devedor e encetando uma vida nova com sacrifícios, mas com futuro, é muito provável que esta segunda via venha a ser a escolhida pelos povos que entraram de boa fé no grande embuste europeu sem sequer se terem dado conta da gravidade da decisão que tomaram.
Agora é que o Dr. Mário Soares deveria publicar uma compilação dos slogans demagógicos com que enganou o povo quando lhe vendeu a “Europa connosco”, como paraíso escondido atrás da porta, fazendo tábua rasa ou ignorando os oito séculos de história que antecederam esta nefasta aventura!
Esta Europa, não! E outra não há…

REQUIEM PELA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA



DEPUTADOS REPRESENTAM QUEM?

Nunca como nestas eleições foi tão patente a agonia em que está mergulhada a democracia representativa. Embora a democracia representativa seja alvo de múltiplas críticas, principalmente naqueles sistemas eleitorais, como o nosso, em que os deputados são eleitos em listas fechadas cuja composição é, em última instância, da exclusiva responsabilidade do aparelho partidário, maxime das suas cúpulas, nunca terá havido uma tão grande distância entre o eleitor e a maior parte dos eleitos como seguramente vai haver em consequência destas eleições

De facto, a situação que se está a viver, além das limitações e distorções próprias da democracia representativa, tem contra si o facto de a maior parte dos que vão ser eleitos irem decidir medidas sobre que não falaram uma única vez aos eleitores e de tais medidas terem sido previamente acordadas com carácter vinculativo à margem de qualquer intervenção institucional dos órgãos legítimos do Estado português.

Não só tais medidas são tacticamente silenciadas pelos seus futuros executores, como o compromisso que delas resulta foi assumido por quem não tinha qualquer legitimidade para o fazer. E todavia vinculam o futuro parlamento e o futuro governo.

As medidas são de tal modo gravosas para Portugal e para os portugueses que algumas delas até vão exigir a alteração da Constituição. Os partidos que aparentemente se guerreiam (PS/PSD/CDS) para cativarem o voto popular são os mesmos que se puseram de acordo, à margem dos órgãos legítimos do Estado, para a futura implementação das medidas que agora escondem e que resultam das “negociações” que, nas costas do povo, andaram a fazer com a troika (FMI/BCE/UE).

Muitas dessas medidas não têm nada a ver com a crise financeira em que o país está mergulhado em consequência do movimento especulativo incidente sobre a sua dívida pública. São antes medidas revanchistas, de natureza ideológica, impostas por uma direita reaccionária que vê na presente conjuntura político-económica uma excelente ocasião para fazer cair todos os pequemos entraves que ainda poderiam existir à expansão e exploração do capital privado.

E a situação já é tão escandalosa que conhecidos simpatizantes da ditadura fascista que governou Portugal durante mais de quarenta anos já vêm a público, despudoradamente, pedir limitações ou quase eliminação do direito à greve, eliminação das fontes financeiras da segurança social e a ampla revisão das leis laborais, tudo com vista a tornar o trabalho numa mercadoria que possa ser comprada por um preço irrisório.

De facto, ainda hoje Ferraz da Costa, na SIC N, acompanhado com prazer por Crespo, no seu melhor estilo de apoiante salazarista “explicava” o que tem de ser feito e depressa.

Alguém vai ter que dizer aos intérpretes desta fúria revanchista e aos seus lacaios o que vai acontecer quando as coisas mudarem – e elas hão-de mudar. Depois que não venham falar em direitos humanos nem em direitos adquiridos!


sexta-feira, 27 de maio de 2011

EPISÓDIOS DA CAMPANHA



O INTERESSE DO DESINTERESSE

 Embora a campanha eleitoral, substantivamente falando, não tenha qualquer interesse, tantos são os faits divers que os seus principais intervenientes inventam para desviar as atenções do essencial, nem por isso o desinteresse por ela gerado deixa de ter episódios com algum interesse.

Passos Coelho, que já renunciou completamente à pretensão de captar votos no centro-esquerda, tão radical é o seu programa económico – mais radical que o da troika, segundo o seu principal conselheiro –, tenta agora desesperadamente crescer à custa do CDS investindo sem pudor nas coutadas dos “centristas”. Portas que foi construindo ao longo dos anos os seus “nichos eleitorais de mercado” sem ser muito incomodado nas áreas onde privilegiadamente incidia a sua propaganda, vê-se agora atacado pela sua direita pelo preferente aliado. Mas sem qualquer êxito para os atacantes, como se verá. As incursões de Passos Coelho na “lavoura”, quando já se perdeu na voragem dos tempos a memória dos generosos subsídios com que o PSD, principalmente o de Cavaco, brindava os “lavradores”, estão por natureza votadas ao fracasso. Portas tem essa coutada segura, pelo menos nos “lavradores” sem Range Rover.

Patética é também a “conversa” sobre o aborto com que Passos Coelho abriu ontem o dia de campanha. Ele, que até votou “sim”, prestou-se a mais um triste espectáculo de ter de desdizer à tarde o que disse de manhã e de ter posto os principais candidatos do partido a interpretá-lo e a corrigi-lo durante todo o dia.

Há aqui sem dúvida um misto de incompetência e um mal disfarçado mimetismo “sarkoziano” , aliás mal compreendido. A tentativa de “pescar” em águas alheias, uma das “mais-valias” de Sarkozy nas últimas eleições presidências, não é tarefa que possa ser levada a cabo por amadores. Ela pressupõe um grande domínio da retórica política em todos os campos e exige concessões, mesmo que falsas, que a rigidez política de Passos Coelho não está em condições de comportar.

Do lado do PS, aquilo a que assistimos por parte de alguns dos seus “bonzos sagrados” é, por um lado, perfídia, e, por outro, a mais completa inabilidade política que alguma vez já se viu. Soares não perde uma oportunidade para complicar a vida a Sócrates e AlmeidaSantos, sempre que lhe dão oportunidade, não precisa de fazer qualquer esforço para “enterrar” aqueles que aparentemente pretende defender.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DSK – UMA PEQUENA NOTA



PARA CONFORTO DAS ALMAS SENSÍVEIS



 
Dominique Strauss-Kahn que tantas preocupações tem trazido às nossas almas mais sensíveis, indignadas com as múltiplas acusações de que é alvo baseadas no depoimento de uma pobre mulher de limpeza da África Ocidental, emigrante na América, a que se contrapõe a palavra de um homem poderoso, casado com uma mulher rica, que durante anos encantou os franceses ao domingo à noite nas suas bem desenhadas camisolas de angorá, está instalado, com as limitações que se conhecem, num dos mais famosos e luxuosos bairros de New York, numa casa de 632 m2, com quatro quartos, outras tantas casas de banho, um imenso salão, uma sala de desporto, uma sala de cinema, um jacuzi e um terraço.
Se for condenado, vamos todos sentir ainda muito mais pena por ficar reduzido a uma pequena cela, porventura com más companhias, capazes de todas as malfeitorias, inclusive sexuais, com que costumam assinalar o “baptismo” dos recém-chegados.

BERNARDINO SOARES – UM KO IMPIEDOSO




NO FRENTE A FRENTE DA SIC NOTÍCIAS


Aguiar Branco teve a infelicidade de encontrar pela frente Bernardino Soares no debate diário promovido pelo Mário Crespo na SIC Notícias e de ter suposto que poderia discutir com ele da mesma forma que debate com Assis, circunscrevendo a discussão à personalidade política de José Sócrates.
Bernardino Soares desmontou completamente essa diabolização do líder socialista em detrimento da análise concreta das políticas defendidas por ambos os partidos e demonstrou que a política do PSD só distingue da do PS por ser ainda pior. Colocado perante as múltiplas situações trazidas à discussão por Bernardino Soares, Aguiar Branco não foi capaz de uma única réplica minimamente convincente. Pelo contrário, quanto mais falava, mais se afundava.

Bernardino Soares é hoje o deputado mais brilhante do parlamento português. Tudo nele tem consistência, rigor, firmeza e clareza argumentativa.  Ele será, em pouco tempo, a grande estrela do PCP. Os que advogavam o fim do Partido Comunista ainda vão ter muito que esperar…

COMO VAI A CAMPANHA



QUEM PERDER SAI



É difícil falar da campanha e mais ainda acompanhá-la. Os assuntos que realmente interessam não são discutidos, num pacto tácito de silêncio entre os partidos da troika. Quando algum jornalista mais afoito ou mais desalinhado traz à discussão o memorandum assinado com o FMI/BCE/UE e tenta evidenciar as suas inevitáveis consequências, logo o político interpelado responde com ar definitivo: “Portugal não é a Grécia”. E se for necessário acrescenta: “E também não é a Irlanda”.

E assim fica resolvida a questão…Eliminados os assuntos principais, que o BE e o PCP tentam colocar na agenda, mas sem êxito ao nível do grande público, por força da ensurdecedora “barreira sonora” levantada pelos media a qualquer tentativa que vise distrair a atenção do público dos tais assuntos de lana caprina com que o PS e o PSD se entretêm, resta como tema principal de campanha o destino dos respectivos protagonistas, escrutinados que sejam os resultados eleitorais.

E é disso que neste momento se trata, mais do que os interesses, os grandes interesses, que sempre estão presentes neste tipo de eleições. De facto, os grandes interesses não se deram nada mal com o PS, nem sequer estão dispostos a arriscar exageradamente uma mudança com os graves e até custosos inconvenientes que ela teria. A substituição do pessoal de serviço por outro, certamente igualmente solícito, acarretaria custos, implicaria perda de tempo em habituação aos novos interlocutores e porventura até a substituição de algumas prioridades já estabelecidas com prejuízo para todos. Salvo um ou outro conhecido “caceteiro”, os grandes interesses estão bem como estão.

Depois há essa enorme cáfila de pequenos e médios interesses, a que o cosmopolitismo do PS tem dificuldade em atender e que se sentem muito mais à vontade com o ruralismo e o suburbanismo do PSD, interesses que certamente pesam na eleição, mas não são definitivos, tanto mais que já em eleições anteriores estavam com o PSD e nem por isso o quadro eleitoral se alterou.

Restam as clientelas partidárias que, essas sim, apesar de impossibilitadas de discutir o essencial, nem por isso deixam de conduzir uma luta de morte pela sua sobrevivência. Desde logo as do PS, que instaladas vai para quinze anos, já nem sequer saberiam como seria a vida afastada do poder. Muita coisa importante está em jogo para elas nessas eleições…

Do lado do PSD, apesar de afastadas do poder praticamente desde o cavaquismo, nem por isso a presente contenda deixa de representar uma luta de vida ou de morte. Depois de derrotas sucessivas dos anteriores quatro dirigentes máximos do partido, Passos Coelho assentou a sua estratégia na erosão causada pelo poder e pela crise a José Sócrates, esperando que o dito lhe caísse nas mãos como uma maçã madura. Só que as suas clientelas, ávidas de poder – de “aceder ao pote” – forçaram-no a desencadear uma crise numa altura em que as sondagens já pareciam desenhar uma tendência irreversível.

Afinal, por razões de vária ordem entre as quais intervêm a astúcia de Sócrates e a inabilidade e até a inexperiência dos principais arautos do partido, o que parecia simples, complicou-se e obrigou o PSD nesta parte final da campanha a ter de recorrer a todos os meios ao seu dispor para tentar segurar o que cada vez está mais periclitante. Desde a lisonja aos hipotéticos sucessores de Sócrates, inclusive com a cumplicidade destes, passando pelo aproveitamento das vinganças de Soares, até aos ataques mais soezes, tudo vale para não perder uma oportunidade que, se falhar, para muitos deles não se voltará a repetir nos anos mais próximos.

Sim, ninguém duvide que se Passos Coelho perder ou se não conseguir formar governo com maioria absoluta, mesmo perdendo, a sua carreira política acaba no dia das eleições. E, apesar da sua extrema volubilidade, o mesmo se passa com a maior parte das suas clientelas, já que o processo de tribalização em curso no PSD desde há vários anos não permite agora passar de grupo para grupo com a mesma facilidade com que isso se faz noutros partidos – há ódios e ressentimentos que somente a vitória atenuaria.

Do lado do CDS, capitaliza-se. Portas acha hoje que pode pelo menos dobrar no próximo governo a influência que teve no de Durão Barroso. E como o CDS não brinca em serviço, já pelo Caldas se antevêem pastas muito mais rendosas do que a da defesa e a do turismo, pastas com orçamento a sério, que permitam finalmente ao seu dirigente máximo e à sua gente ocupar-se de assuntos que vão muito para além de uns simples sobreiros ou de uma triste parelha de submarinos!

A esquerda vai ter de multiplicar as “acampadas” para, juntamente com o poder dos votos, estar  presente em força no momento – que não será muito longínquo – em que se torne bem evidente a inviabilidade desta política…

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NETANYAHU DERROTA OBAMA NO CONGRESSO



ISTO VAI ACABAR MAL
Netanyahu saluda a los senadores


O Primeiro Ministro de Israel, depois de ter recusado, na Casa Branca, o plano de paz proposto por Obama no fim da semana passada (negociação com base nas fronteiras de 1967), foi ontem recebido apoteoticamente no Congresso dos Estados Unidos, em reunião conjunta das duas câmaras.

Sentindo-se porventura até mais forte do que em Israel, Netanyahu começou por dizer que estava disposto a fazer “concessões dolorosas” para alcançar a paz, mas logo a seguir se percebeu que tal expressão não passava de uma figura de retórica que apenas o mais profundo cinismo poderia sustentar, já que tais concessões excluíam qualquer negociação sobre Jerusalém, não afectariam a presença militar israelita no Jordão (na parte oriental da Cisjordânia) nem os colonatos nos territórios ocupados e afastavam qualquer hipótese de regresso dos refugiados palestinianos aos seus lugares de origem. Ou seja, Benjamin Netanyahu limitou-se a repetir aquilo que Georges W. Bush já tinha dito numa conferência de imprensa na presença de Ariel Sharon – “que não era realista pensar numa retirada para as fronteiras de 67”.

Aplaudido 26 vezes, Netanyahu ridicularizou a proposta de paz de Obama – que aliás o próprio Obama no seu bem conhecido estilo pusilânime nem sequer por 24 horas tinha mantido – e demonstrou urbi et orbi que tem muito mais poder sobre o Congresso americano do que o pobre inquilino da Casa Branca.

Os palestinianos e a comunidade internacional ficaram assim a saber que a Palestina apenas poderá existir como uma espécie de bantustão de Israel ou então continuar como está.

Escusado será dizer que isto vai acabar mal. Não se sabe quando, mas vai. E também não será necessário dizer que, por mais bin ladens que os americanos matem, nunca conseguirão ser tão eficazes a matá-los como Israel a “fabricá-los”!

terça-feira, 24 de maio de 2011

TROIKA: UMA CAMPANHA DE MENTIRAS E OMISSÕES COMO NUNCA SE VIU



O INEVITÁVEL VAI ACONTECER

A campanha eleitoral para as legislativas de 5 de Junho dos três partidos com hipóteses de constituírem governo decorre em Portugal sob o signo da mentira e da inconsciência. Como nunca se viu depois do 25 de Abril. Nem mesmo quando Soares, Sá Carneiro e Freitas se proclamavam socialistas aconteceu algo de semelhante, já que nessa altura, a maior parte dos votantes dos respectivos partidos, assustada com o que se estava a passar, pelo menos sabia que o “socialismo” deles era para acabar com o socialismo dos outros. Mas agora não. Agora as pessoas sabem que o PS, o PSD e o CDS deram o seu acordo a um programa de austeridade imposto pela UE/BCE/FMI, mas não fazem a menor ideia como esse programa vai ser aplicado nem quais vão ser as consequências da sua aplicação.
O PS e o PSD divertem-se com acusações recíprocas sobre assuntos de lana caprina (para utilizar uma expressão latina que os economistas eruditos do nosso tempo traduziram por palavras mais consentâneas com o tal saber económico de que fala Cavaco) e nem sequer abrem a boca sobre o programa de austeridade que já em Julho começarão a pôr em prática. Enquanto o CDS, vogando entre a nova atitude responsável do chefe e as questões da lavoura, vai tentando capitalizar ao máximo as consequências daquela falsa guerrilha. Mas sobre o essencial nem uma palavra.
É claro que as presentes eleições estão marcadas pela questão da continuidade ou não da carreira política de Sócrates, o que sendo um assunto com alguma importância política – uma importância que vai inclusive para além do interesse do directamente visado - nem por isso deixa de ser uma questão colateral. De facto, a importância política só poderá resultar de uma hipotética vitória de Sócrates, que parece agora mais difícil de alcançar, já que da sua derrota resultaria o que está à vista de todos: a sua demissão de Secretário Geral do PS e negociação das condições em que o PS se disporia a integrar ou a apoiar o novo governo. O que, diga-se, assumirá contornos muito diferentes consoante haja ou não maioria absoluta PSD/CDS.
E é uma questão colateral, porque o novo governo, com Sócrates ou sem Sócrates, não vai ter qualquer hipótese de pagar a dívida tal como ela agora está estruturada, nem os tais fundos de resgate aportados pelas três instituições acima referidas vão ter qualquer efeito positivo sobre a economia portuguesa. Pelo contrário, a situação só pode piorar tal como está a acontecer com a Grécia.
E o que é espantoso é que nesta União Europeia, dominada pela Alemanha, com a complacência da França (que estupidamente vê no “rigor teutónico”a salvação dos seus bancos), não haja uma única voz, dentre as vozes que têm acesso ao governo dos Estados, capaz de erguer-se contra esta loucura, esta política económica de vistas curtas, que pretende evitar o inevitável. É bom que se perceba que não há qualquer hipótese de recuperar com estes programas de austeridade, assentes numa crença – uma crença tão irracional como as demais –, erros estruturais sem simultaneamente se assumir a responsabilidade pelas consequências dos erros cometidos.
E esses erros, contrariamente ao que supõem os economistas cavaquistas, e muitos outros ligados ao PS, conjunturalmente mais silenciosos por conveniência política, mais do que imputáveis aos devedores, decorrem fundamentalmente do modo como foi estruturada a zona euro e dos actuais credores que, dotados ao longo de mais de uma década de reservas de liquidez aparentemente inesgotáveis, trataram de fazer a sua aplicação lá onde o dinheiro faltava, sem curarem de saber como, na espiral de endividamento que eles próprios estavam a criar, poderiam os devedores ter condições para restituir o que então estavam a receber.
Omitir estas questões, fazer de contas que elas não existem, ou supor que o “resgate”, aplicado com rigor e cumprido à risca o seu condicionalismo, resolve as nossas dificuldades é uma irresponsabilidade apenas comparável à ignorância dos que acreditam nestas soluções. Os credores internacionais não podem receber todo o dinheiro que emprestaram – têm de suportar o risco da sua própria incompetência – nem podem manter-se os prazos nem os juros actualmente em vigor. Uns têm de ser alargados e outros descidos para níveis consentâneos com uma política económica de recuperação que permita gerar emprego e crescimento, criando assim condições para o pagamento do que for devido. E internamente há que escrutinar com rigor as dívidas por obras ou serviços prestados de modo a torná-las compatíveis com uma retribuição razoável do capital investido. Taxas de retribuição do capital como as actualmente em vigor para a maior parte das parcerias público-privadas terão de ser drasticamente reduzidas para níveis aceitáveis, de acordo com o interesse público.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

CAVACO IGUAL A SI PRÓPRIO




É PRECISO TER LATA!

Cavaco foi hoje ao Instituto Superior de Economia e Gestão comemorar os 100 anos da Instituição. E como é um homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas (atributos indiscutíveis de um verdadeiro cientista) passou parte da sua intervenção a citar-se, lendo extensos trechos da oração de sapiência que ali proferiu em 1982. Entre as pérolas com que brindou a assistência, vale a pena sublinhar esta: "E entendia então, tal como hoje continuo a entender, que cabe aos economistas “convencer os políticos e outros decisores da sua utilidade”; ou seja, “que a decisões económicas baseadas nos seus conhecimentos têm mais possibilidade de acertar do que as decisões baseadas na ignorância”.
Ou seja, é caso para nós dizermos agora: em cerca de trinta anos Cavaco não aprendeu nada.
Se Cavaco tivesse a humildade de dizer, como ainda recentemente disse J. Bradford Delong, ex- secretário adjunto o Tesouro americano e actual professor de economia na Universidade de Berkeley: “Assusta-me a magnitude da catástrofe, mas assusta-me ainda mais a aparente incapacidade da ciência económica académica para adoptar as medidas necessárias com vista a preparar-se para o futuro”; ou ainda “necessitamos mais de historiadores do pensamento económico do que de construtores de modelos”.
Mas tudo isto são questões que a Cavaco não se põem. As infalíveis certezas de Cavaco apenas nos garantem a certeza das suas limitações.

GRANDE DERROTA DOS SOCIALISTAS EM ESPANHA




AGUENTARÁ ZAPATERO ATÉ 2012?

As eleições regionais e municipais de ontem, em Espanha, traduziram-se numa pesadíssima derrota para os socialistas, praticamente varridos do mapa político espanhol. Nas autonómicas, perderam Castilla la Mancha, que era a “ilha da Madeira” deles, Aragão, Astúrias, e Canárias; podem manter a Estremadura, apesar de terem perdido as eleições para o PP, mas somente em coligação com a IU, e o que se passou nas municipais em Andaluzia não deixa nenhuma esperança quanto à possibilidade de manutenção de um dos seus mais importantes “feudos” nas próximas autonómicas.
Nas municipais perderam Sevilha, Barcelona, Zaragoza, além de muitas outras cidades mais pequenas.
Depois da derrota na Catalunha, esta segunda rodada de autonómicas consagrou a rejeição inequívoca da política de Zapatero, tanto à esquerda, como à direita.
A direita espanhola tem a seu favor um passado próximo – os anos de Aznar – de grande prosperidade económica. Entre os seus "troféus" estão a descida acentuada da inflação (como, então aconteceu em todos os países que vieram a integrar a zona euro) e do emprego, a descida dos impostos e o aumento generalizado das prestações sociais. O clima económico que permitiu esta “façanha”, praticamente única – já que a um abaixamento de impostos corresponde quase sempre uma diminuição das prestações sociais -, é sem qualquer espécie de dúvida o que agora leva a este grande volte face do eleitorado, num claro saudosismo pelos anos dourados da economia espanhola, muito potenciado pela crise, mas é também, paradoxalmente, o que em grande medida constitui a causa da crise espanhola – a “borbulha imobiliária”.
Zapatero, que continuou esta mesma política no primeiro mandato, soçobrou completamente no segundo em consequência da crise. Primeiro, não a reconheceu (contrariamente ao que por cá dizem os comentadores e os economistas de serviço) e depois, quando ela já atingia implacavelmente a economia espanhola, aplicou as medidas neoliberais da praxe numa completa subordinação aos ditames ortodoxos do “governo económico” da União Europeia, o mesmo é dizer, da Alemanha e do Banco Central Europeu.

Zapatero e o PSOE, pelo peso da economia que representam, estavam numa situação ímpar para forçar uma política diferente na zona euro, não fosse dar-se o caso de os governantes de Espanha, sejam de direita ou de esquerda, continuarem no seu imaginário político a ter como paradigma Carlos V e Filipe II! A “grandeza de Espanha” não lhes permite fazer frente comum com os pequenos!
Importante também o resultado nas municipais da esquerda abertzale, que altera completamente o panorama politico no país basco. E demonstra, como aqui frequentemente se referiu, que as últimas eleições autonómicas na região não reflectiam a verdadeira vontade popular. Agora que a esquerda pôde concorrer, sob a designação de Bildu, o PSOE foi remetido para terceiro lugar, tendo à sua frente o PNV, com 30% dos votos, e o dito Bildu, com 25%. Bildu confirmou, como também já se sabia, a sua superioridade em Guipuzcoa, com dezenas de maiorias absolutas, enquanto o PNV mantém o seu tradicional domínio em Vizcaya.
O pior, porém, está para vir. Todos os indícios apontam para que, “resolvido o problema português”, se siga a Espanha. E vai Zapatero poder afrontá-lo nas frágeis condições políticas em que se encontra?
Finalmente, é bom não esquecer que, à margem das eleições e da euforia dos vencedores, uma nova força se ergue por toda a Espanha exigindo mudanças profundas, mudanças que nem os actuais nem os futuros governantes estão em condições de realizar…

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A CONVERSA DE MERKEL




JÁ TUDO PARECE NORMAL

Merkel acha que os mediterrânicos têm férias em excesso e que atingem cedo a idade da reforma. E cita os nomes das “províncias do sul” a que se refere para que não haja dúvidas: Portugal, Grécia e Espanha.
Como consequência da inoperacionalidade dos órgãos da ainda chamada União Europeia, tudo passou a ser permitido aos mais fortes, na realidade à Alemanha, sem que se esboce o mais pequeno sinal de protesto por parte daqueles que são mais frequentemente atingidos por este permanente atropelo às regras em vigor.
Quando a União Europeia funcionava exclusivamente com base num orçamento anual e nos fundos plurianuais constituídos pelos Estados Membros para diversos fins, a Comissão, como executora da política comunitária, tinha espaço para desempenhar um papel correspondente ao previsto nos tratados.
Com o alargamento, ou, dito de outro modo, com a queda do comunismo a leste, tudo mudou radicalmente. Posteriormente, o Tratado de Lisboa e a crise financeira internacional encarregar-se-iam de fornecer o contexto adequado para a mudança. De facto, o alargamento e a crise são as causas próximas da completa subalternização dos órgãos institucionais – o alargamento, apesar de todas as protecções institucionais de que os grandes se dotaram para impedir aos pequenos qualquer tipo de veleidade decisional, constituiu um excelente pretexto para que a União Europeia passasse a ser “governada” por um pequeno directório dominado pela Alemanha, e a crise financeira facilitou a subalternização dos órgãos executivos que, sem meios para fazer face aos desafios da presente situação, foram pura e simplesmente relegados para um papel secundaríssimo por aqueles que por serem os detentores do dinheiro se julgam no direito de subverter todas as regras e princípios, inclusive os secularmente consagrados pela prática entre os Estados soberanos.
Como as deficiências da zona euro são evidentes – tão evidentes quanto as consequências a que a sua criação já deu lugar – e como existe da parte dos mais fortes a manifesta intenção de resolver no curto prazo os graves desequilíbrios por ela gerados à custa da pauperização dos países economicamente mais fracos, Merkel não tem qualquer problema em publicamente interferir nos assuntos internos dos outros Estados e ditar-lhes, a partir de Berlim, o comportamento que têm de adoptar, certa como está de que conta sempre nesses países com a colaboração de zelosos servidores, quais gauleiters de serviço, que logo se aprestam a reproduzir internamente as receitas vindas de fora, como se fossem próprias!
É óbvio que isto não pode continuar. Esta prepotência sem freios que os governantes alemães permanentemente exibem, convencidos como estão de que há gente no sul a viver à custa do trabalho do povo alemão – conversa recorrente entre os teutónicos – vai seguramente dar mau resultado e gerar reacções complicadas. Bom seria que a esquerda se antecipasse nesta inevitável contestação e a orientasse no melhor sentido. Para que não haja dúvidas era a situações como esta que ontem nos referíamos quando lamentávamos a insuficiência das “contestações circunstanciais”.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O DEBATE DE ONTEM



O QUE FICOU POR DIZER

O debate de ontem não trouxe nada de novo. Dito de outra maneira: trouxe aquilo que se esperava. E, todavia, havia muito para dizer, principalmente da parte de Jerónimo de Sousa.
Sócrates faz o seu papel e já concluiu que o modo como o desempenha lhe traz benefícios, por isso não é de estranhar que o seu guião se não altere quer quando fala para a sua direita ou para a sua esquerda. O seu objectivo é, por um lado, manter o maior número possível de votos dos eleitores oscilantes entre o PS e o PSD e, por outro, fazer regressar ao PS parte dos que migraram para o BE. Consequentemente, faz o discurso da esquerda da direita, que é onde verdadeiramente o PS se situa: promete manter o estado social tal como ele hoje é entendido, sem excepções, por todos os partidos socialistas e social-democratas da Europa, e atemoriza os oscilantes de direita com as consequências do radicalismo neoliberal do PSD.
Sócrates assenta o seu discurso em três pressupostos muito fáceis de enunciar.
O primeiro é a crença acrítica nas virtualidades da União Europeia, quaisquer que sejam e tenham sido as profundas modificações ocorridas no seu seio nestes últimos anos – a “Europa” é um dado incontornável em que não se mexe, nem se discute!
O segundo assenta na aceitação igualmente acrítica de uma política económica que produz resultados diametralmente opostos aos enunciados com base numa crença que os factos já demonstraram não ter qualquer possibilidade de êxito, sendo bem mais provável, pelos exemplos que se conhecem, que leve antes ao desastre mais completo – esta incapacidade de atender à realidade dos factos só é politicamente entendível por quem assenta a actuação política em pressupostos irracionais com completo desprezo pelas mais elementares regras do pensamento científico, ou seja, a política deixa de ser a “arte do materialmente possível” para se transformar no “resultado de uma vontade”.
O terceiro assenta na defesa do “estado social”, tal como ele necessariamente resulta dos dois pressupostos anteriores, que obviamente o descaracterizam, a cada ano que passa, e o limitam até se tornar numa espécie de programa assistencial de contenção das consequências mais gravosas da pobreza – ou seja, o estado social deixou de ser um complemento fundamental de uma política de redistribuição de rendimentos para se tornar gradualmente numa espécie de bolsa assistencial das situações socialmente mais graves. Dito de outro modo: a redistribuição de rendimentos imposta pelo capitalismo neoliberal leva necessariamente à destruição do “estado social”, não apenas por opção política, mas por impossibilidade material de o sustentar.
É óbvio que contra isto a esquerda tem respostas, mas essas respostas não podem ser circunstanciais nem iludir relativamente a cada assunto a posição de fundo que tem de ser adoptada e das quais decorrerão as soluções alternativas que sem medo, e devidamente explicadas, têm de ser apresentadas ao sufrágio popular. Os habituais métodos de actuação já se revelaram insuficientes e ineficazes: o eleitorado das “propostas circunstanciais” tem uma elasticidade limitada que, em circunstâncias excepcionais, pode rondar os vinte por cento, mas que em caso algum os ultrapassa. E com vinte por cento, para quem aposte na via institucional, não se chega a lado nenhum, ainda por cima divididos por dois partidos.
Também é evidente que não compete ao dirigente político apresentar o seu programa com base em detalhadas análises político-económico-filosóficas, mas as propostas que apresentar têm de estar estribadas nessas análises sob pena de o eleitorado as rejeitar por não encontrar nelas uma base coerente confiável.
Em conclusão: os pressupostos do actual discurso político têm de ser desmontados e simultaneamente reconstruídos num sentido completamente diferente do actual. Actuar de outro modo é “navegar” na periferia dos limites estabelecidos pelo discurso dominante.

STIGLITZ DIZ QUE ESTÁ EM CURSO UMA VIRAGEM NO FMI





O FUTURO O DIRÁ

Em artigo publicado no suplemento Negocios do El País de domingo, Stiglitz, absolutamente insuspeito de qualquer simpatia pelas políticas do FMI, diz que está em curso, com Dominique Strauss-Kahn, uma viragem na política do FMI, nomeadamente no que respeita a intervenções destinadas a limitar as consequências da liberalização do mercado de capitais e ao fortalecimento da política de emprego em detrimento da habitual flexibilização do mercado de trabalho.
O FMI que tem sido, no plano económico-financeiro, um dos grandes baluartes do imperialismo ocidental nunca será, na actual correlação de forças, apesar de diferente da de há vinte anos, uma instituição capaz de protagonizar uma mudança contrária aos interesses do grande capital financeiro. Pode haver tentativas, mais ou menos voluntaristas, ditadas por circunstâncias muito particulares, mas todas elas estarão, a bem ou a mal, votadas ao fracasso.
Dominique Strauss-Kahn tem um conhecido calcanhar de Aquiles que, tal como o do mítico herói aqueu, o fragiliza completamente nos momentos determinantes do combate. Com a diferença de que o seu, ao contrario do de Aquiles, é conhecido por toda a gente. E sabe-se o que acontece na “guerra” quando as fragilidades são conhecidas.
Sem um Pátroclo que faça as suas vezes e vá à frente explorar o terreno, DSK caiu que nem um patinho perante a seta de Páris. E Anne Sinclair, tal como Tétis, não obstante a sua inconfundível beleza, também não foi capaz de tornar o corpo do seu amante invulnerável às tentações colaterais dos sentidos…
Entretanto Carla Bruni engravida para fazer a campanha eleitoral e Elena Salgado, enfim liberta do fantasma Berlusconi, pôde finalmente fazer hoje em Bruxelas, o que há cerca de dois anos não foi capaz de fazer na Sardenha quando, ao lado de Zapatero, ouvia em silêncio, o relato das façanhas do Primeiro Ministro italiano, contadas pelo próprio em conferência de imprensa…

domingo, 15 de maio de 2011

RETOMANDO A CONVERSA



COMO ÍAMOS DIZENDO ...

Depois de uma ausência de quase três semanas, confirma-se à chegada o que se ia intuindo à distância: há muito nervosismo para as bandas de S. Caetano à Lapa e não só…
E compreende-se: a nova equipa do PSD, devidamente infiltrada por gente do Cavaco, tinha como certa a vitória nas urnas e o fim da carreira política de Sócrates. Afastado Sócrates, por impossibilidade de qualquer entendimento com ele, os “patriotas” do PS – Seguro, Assis e outros, todos com o beneplácito de Soares – alinhariam, com subalternos, num alargado governo PSD/Cavaco, com o CDS como apêndice, destinado a assegurar um “grande consenso” que permitisse pôr em prática um amplo programa neoliberal capaz de ultrapassar pela direita o próprio programa da “troika”. Nesse governo, o PS desempenharia a ilusória tarefa de conter e controlar o descontentamento das “massas populares” mais afectadas pelas “reformas”, nome dado, como se sabe, às novas formas de exploração capitalista, destinadas a reforçar a acumulação primitiva muito danificada e afectada nas economias periféricas pelas consequências em cascata da crise financeira de 2008.
Afinal, parece que as coisas não vão ser bem assim, não, evidentemente, do ponto de vista dos resultados a alcançar, mas dos executores encarregados de os concretizar.
Sócrates, que joga o seu futuro político nas próximas eleições, não só logrou estancar a queda continuada e progressiva do PS, como conseguiu inverter o sentido de voto de muitas dezenas de milhares de eleitores, descontentes com a actuação inconsequente e a várias vozes do PSD ou receosos das consequências de uma aceleração neoliberal proposta pelo PSD. Os primeiros são eleitores do “bloco central”, que perante a inconsistência dos novos actores preferem ficar com os que já conhecem e que, no seu íntimo, até admiram, e os segundos são eleitores da “esquerda” do PS, que em épocas de “grande prosperidade eleitoral” tinham rumado mais à esquerda para tranquilizar a consciência política revoltada pela duplicidade política de Sócrates (conversa de meia-esquerda, prática de inteira direita) e que agora, em situação de emergência, regressam a “casa” para impedir a transferência de poder para outras mãos.
Sócrates, tendo em seu desfavor um imenso passivo, que, em princípio, arrasaria qualquer outro dirigente político, conseguiu, com êxito, imputar ao PSD uma crise política cujo momento para a desencadear ele próprio escolheu, responsabilizar e de certa forma marginalizar Cavaco, culpando-o ostensivamente pela sua inactividade e sibilinamente pelo seu arreigado partidarismo e tentando aparecer aos olhos de muitos eleitores da esquerda como o único político capaz de, em tempos de crise, salvaguardar o essencial do que resta do “estado social”.
Do lado do PSD, ficou demonstrado à saciedade que a política com recurso ao teleponto não funciona quando ao leme não está alguém minimamente preparado: os habituais ”leitores” do teleponto, com este por longe, confundem-se, contradizem-se e revelam uma incapacidade confrangedora quando solicitados a actuar no quadro interligado das matérias complexas a tratar, enquanto os “autores materiais” do teleponto, impossibilitados de assumir publicamente uma liderança política correspondente à importância da sua “liderança de facto”, vão-se sentindo cada vez mais desesperados com o evoluir dos acontecimentos e cometem, eles também, erros de toda a ordem, inclusive ao nível da linguagem comunicacional, revelando um estado de espírito muito próximo do dos treinadores de futebol que acabam de perder um jogo que antecipadamente tinham por ganho.
Do lado da esquerda, as duas vias propostas, irreconciliáveis, no essencial, embora aparentemente próximas em múltiplas questões concretas, têm-se revelado incapazes de apresentar um discurso susceptível de mobilizar os largos sectores do eleitorado cujos interesses coincidem com os pontos de vista por elas defendidos e consequentemente criarem as condições capazes de pressionar o PS a adoptar uma política mais próxima do centro-esquerda. Embora na presente situação, em que fundamentalmente se discute a escolha dos executores do programa de governo imposto pela troika, com a cumplicidade, em graus diversos, do PS, PSD e CDS, o papel da esquerda esteja mais orientado para uma acção de resistência popular cuja amplitude tenderá a ser superior ao peso eleitoral dos respectivos partidos, nem por isso deixa de ser importante a obtenção de um bom resultado eleitoral, único índice seguro, para quem governa, do descontentamento popular.

sábado, 7 de maio de 2011

A COMUNICAÇÃO DE CAVACO





A PROPÓSITO DO PROGRAMA FINANCEIRO APROVADO PELA TROIKA




Marcelo Rebelo de Sousa desta vez tem razão. A comunicação de Cavaco é um veemente apelo à substituição de José Sócrates. A insistência na mudança só pode ser interpretada nesse sentido: se continuarmos na mesma – isto é, se continuarmos com Sócrates – ficaremos pior.
O mais grave, porém, é que a comunicação de Cavaco revela as suas limitações e a sua incapacidade para analisar a situação portuguesa em toda a sua complexidade. Ela não constitui uma análise serena e objectiva da situação. É antes a intervenção de um líder partidário, apenas capaz de analisar as coisas pelo prisma estreito dos interesses que defende e da limitada visão do mundo que o cerca.
E como tal não escapa à demagogia, por vezes ofensiva para os portugueses de parcos recursos que, com os seus sacrifícios, têm suportado o essencial da crise. Não é todavia claro que este pendor demagógico de muitas das intervenções de Cavaco, mais do que as razões eleitoralistas de curto prazo, que ele não dispensa, não seja acima de tudo seja ditado pelas suas limitações. Limitações políticas, nomeadamente na área da política externa, limitações de análise económico-financeira e até limitações de mundividência.
Cavaco não questiona o status quo, por mais aberrante que ele seja. A zona euro tal como foi concebida, os seus desenvolvimentos posteriores, a crise financeira internacional, as grandes manobras do capital financeiro e especulativo, coadjuvadas pela acção intrusiva das agências de rating, constituem para Cavaco um contexto inquestionável e indiscutível. As coisas são assim, porque alguém mais poderoso e mais forte do que nós assim o decidiu. Questionar tal contexto apenas servirá para atiçar ainda mais a acção daqueles que devemos respeitar …e se possível imitar.
Esta típica atitude pequeno-burguesa, de inveja e respeito pelo mais forte, esta profunda convicção de que pela discrição do nosso comportamento e pelo respeito pelos poderosos poderemos alcançar os nossos objectivos e até concitar a sua simpatia, leva Cavaco a subestimar a complexidade da situação em que o país se encontra, reconduzindo-a ou reduzindo-a quase a uma questão de carácter e de competência de quem governa.
Com uma pessoa parecida com Cavaco, que defenda as mesmas ideias, que possa por ele ser permanentemente acompanhada na governação – e Cavaco tem essa pessoa, aliás já em franca actividade – tudo seria diferente e seria então possível encaminhar o país na senda do desendividamento e do progresso.
E é aqui – nas “receitas” - que intervém a demagogia, por vezes injuriosa, de Cavaco. Como sair, então, da presente situação? Cavaco responde com a aparente simplicidade do homem comum para tornar a sua mensagem mais atractiva: “Não podemos gastar acima das nossas possibilidades”.
Mas quem é que gasta acima das suas posses: são aqueles que ganham pouco e sucumbem, muitas vezes por necessidade, aos apelos da sociedade neoliberal de consumo que, depois de instaurar uma grande desigualdade na distribuição dos rendimentos, teve de baratear o crédito para garantir a sua própria subsistência e o seu permanente desenvolvimento ou aqueles que ganham muito acima daquilo que o seu trabalho realmente produz, ou os que recebem reformas milionárias por trabalho que não prestaram e descontos que não fizeram, ou os que, actuando no negócio do dinheiro, se endividam no estrangeiro para o emprestarem internamente a quem muitas vezes não está em condições de pagar tudo o que pede emprestado, ou ainda aqueles que constroem por todo o lado grandes superfícies, verdadeiros templos de despesismo e de consumo, que, na profusão com que existem, apenas servem para aumentar o endividamento, as importações e eliminar por completo qualquer hipótese de poupança interna?
A quem se refere Cavaco? A estes últimos não, certamente, pois são empresas, dirá Cavaco com um P bem labial, que concorrem para a prosperidade nacional.
Depois vem a conhecida conversa das exportações, como se os países, estejam ou não integrados em grandes espaços de comércio livre, pudessem viver fundamentalmente de exportações e como se a faculdade de exportar fosse independente dos múltiplos factores que a condicionam, entre os quais o próprio valor da moeda.
E daqui, de toda esta conversa que a prática cavaquista se encarregaria de pôr em obra, resultaria, como recompensa atribuída a quem se porta bem, a reconquista da “confiança dos mercados”. Quase valeria a pena perguntar: Mas confiança dos mercados para quê, se as “receitas” apresentadas visam exactamente acabar com o endividamento?

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O PROGRAMA DO FMI/BCE/UE E OS SEUS EXECUTORES



HÁ ALGUMAS DIFERENÇAS , MAS MUITAS MAIS SEMELHANÇAS

Mesmo sem os ouvir, treslendo-os de longe, percebe-se o que PS e PSD pretendem depois de conhecido o “programa do FMI/BCE/EU”, imposto a Portugal para pagamento aos credores, nas condições e nos termos por estes estabelecidos.
O PS tendo dito repetidas vezes, pela voz de Sócrates, que não estava disponível para governar com o FMI, tinha de criar um cenário que lhe permitisse voltar com a palavra atrás sem grande dano, dando simultaneamente a entender que, sem a sua “participação activa” nas negociações, tudo seria incomparavelmente pior. Para isso nada melhor do que deixar livremente circular notícias (outros dirão, posto a circular notícias) que apontavam para sacrifícios verdadeiramente insuportáveis, nomeadamente traduzidos em diminuições directas dos salários e reformas.
É sabido que a psicologia popular reage muito mais emotivamente a sacrifícios directos do que a indirectos. Os directos sentem-se imediatamente e atingem por igual aqueles sobre que incidem; os indirectos sentem-se a posteriori e, embora possam até ser mais graves, não atingem por igual nem ao mesmo tempo aqueles sobre que recaiem.
Tendo-se criado por acção dos media a antecipação de uma situação que acabou por não acontecer, é obvio que o partido que mais directamente participou nas negociações vai procurar tirar vantagem de não ter acontecido aquilo que nunca esteve para acontecer, mas que generalizadamente se supunha que iria acontecer.
O PSD, por seu turno, estando convencido de que vai ganhar as eleições, fez todo o possível para que no “programa dos credores” figurassem todas as medidas com as quais concorda para não ter que suportar a impopularidade de as defender (o que certamente não faria, pelo menos, às claras) e, principalmente, de as executar como obra sua.
Embora tenha conseguido muito do que pretendia, não conseguiu tudo – os lobbies que a direcção do PSD representa gostariam de ter assegurado a privatização imediata da CGD, a reforma da segurança social no sentido da sua privatização, a hegemonia do ensino privado sobre o público, um outro conceito de SNS, etc. Como, porém, não poderia ter uma acção pública totalmente orientada para a defesa dos “grandes interesses”, acabou também por cantar vitória relativamente às pequenas diferenças entre o actual “programa” e o PEC IV, no que respeita a sacrifícios directos incidentes sobre os mais baixos rendimentos.
As semelhanças que existem entre ambos, PS e PSD, são contudo muito mais importantes do que as diferenças.
Em primeiro lugar, tanto um como outro aceitam sem pestanejar um programa de recessão para a economia portuguesa, sem sequer questionarem os verdadeiros fundamentos dessa opção. Ou seja, ambos continuam a defender uma política europeia anti-patriótica, contrária aos interesses nacionais, na mais estrita obediência a interesses estrangeiros, na vã esperança de que tal comportamento acabará por trazer vantagens futuras.
Depois, tanto um como outro, aceitam passar para as mãos do capital privado, a preços de saldo, empresas públicas, prestadoras de serviços públicos essenciais, com o mesmo colaboracionismo de que, um e outro, já deram provas no passado.
Finalmente, nem um nem outro, ousam pôr em causa a grande “roubalheira” representada pelas parcerias público-privadas. Pudera, se foram eles que as criaram! Realmente, ninguém é tão reiteradamente incompetente. A reincidência só pode ter outras causas…

quarta-feira, 4 de maio de 2011

NOTAS MUITO SOLTAS - II



COMENTÁRIOS MUITO BREVES

I - Geronimo, nome de código? Ódio velho não cansa, dirão os agora chamados “native american people”, realmente os índios de sempre…
II- O FMI/BCE/UE já concluíram o programa de governo para a próxima legislatura com o qual concorrem às próximas eleições o PS e o PSD; entretanto, o PSD está cada vez mais empenhado na demonstração de que defende melhor os credores estrangeiros do que o PS e até apresenta provas…para já apenas indiciárias. Aliás, se os tecnocratas do PSD com os seus “mix” estão cada vez mais convencidos que os romanos aprenderam a falar latim a partir o inglês, por que não haviam de estar convencidos de que os portugueses preferem os que defendem os credores estrangeiros?
III – A grande vitória do dia é sem dúvida a que põe os reformados e os desempregados a pagar a crise. Os “mexias” deste país podem continuar a dormir descansados…

segunda-feira, 2 de maio de 2011

NOTAS MUITO SOLTAS




COMENTÁRIOS BREVES

À distância, muito à distância, não é fácil captar com exactidão o que se vai passando …Mas percebe-se que há muito nervosismo no ar.
I - Começando pelos assuntos domésticos: Cavaco vai multiplicando as declarações, em directo e nas redes sociais, tendentes a assegurar uma maioria ao PSD, na esperança de que, directamente ou por interposta pessoa, possa finalmente aplicar as receitas que levem à salvação do país.
O mais lamentável é que tanto do lado o PS como do lado do PSD não apareça ninguém a fazer uma análise minimamente aceitável da situação do país e suas principais causas. O PS vai imputando à crise financeira e ao comportamento do PSD o que se está a passar, enquanto do lado o PSD até já se ouve dizer, com o mesmo rigor com que costuma fazer as análises económicas, “Chamem a polícia!”, ou “Haja alguém que leve o Sócrates a tribunal”.
Mas tudo isto não passa de “fumaça”. Na hora da verdade vão-se entender…E desta vez o entendimento até vai passar pela descaracterização do regime constitucional…
Enquanto isto, o Banco Central Europeu prepara-se para nova subida da taxa de juro, em Julho, actuando como se fosse o Bundesbank, com total desprezo pela situação dos países em crise. É esta a “Europa” que o PS e o PSD continuam a defender…
II – Aguarda-se confirmação de milagre de João Paulo II para poder ascender à santidade. Para já fica no estágio inferior: beato. Mas se Henry Kissinger foi prémio Nobel da Paz por que razão não há-de João Paulo II ser santo, se, como notável político que foi, tem a ser favor grandes vitórias que mudaram a face do mundo, com a vantagem de nunca ter patrocinado um golpe como o do Chile?
III – A NATO continua na Líbia a sua gloriosa campanha de “Defesa dos Direitos Humanos”, assassinando crianças e dirigentes políticos no melhor estilo terrorista dos nossos tempos!