REVISTA DO DIA
Dizem que é bom rapaz, que é uma pessoa comum, um tipo igual a tantos outros – os jornalistas, comentadores e apaniguados, encarregados de fazer a imagem para o grande público, dizem muita coisa, principalmente coisas que marquem a diferença em relação a Sócrates, o que nenhum deles diz é que Passos Coelho pense pela sua cabeça e menos ainda que o seu polifónico discurso prime pela coerência e pela concisão.
Hoje numa entrevista à Reuters, uma entrevista para o estrangeiro, manifestamente encomendada pelos seus spin doctors, Passos Coelho disse, por outras palavras, que iria governar contra os portugueses para ganhar a confiança dos mercados, ou, se preferirem, que o governo poderia ir além das medidas acordadas com a troika, pois não quer nem mais um dia, nem mais um segundo, que Portugal seja um peso para os seus parceiros europeus.
Se Passos Coelho continuar a ouvir e a fazer o que lhe dizem os economistas do seu partido, os tais que prometeram um programa mais radical que o da Troika, pode ter a certeza de que terá vida curta, por mais consistente que pareça ser o acordo que vai assinar com o CDS.
As declarações de Passos Coelho são desprovidas de qualquer racionalidade e assentam na crença irracional de que os programas de ajustamento estrutural geram confiança, tanta mais quanto mais radicais forem, acabando por essa razão por dar um contributo decisivo para o relançamento da economia. Isto supondo que está de boa fé, o que não é manifestamente o caso dos que, dizendo o mesmo, apenas estão interessados na defesa dos grandes interesses que representam.
Mas a putativa boa fé não tira que essa crença na “fada da confiança” não seja completamente tonta, pois não há nenhum “mercado”, desses para os quais ele fala, que não alicerce a confiança em materialidades, ou seja, em crescimento económico, em capacidade objectiva para solver os compromissos assumidos. Que confiança pode resultar de uma economia em recessão que tem como única perspectiva a certeza de mais recessão?
Fada por fada prefiro acreditar na que deixa um presente à minha neta sempre que ela perde um dente de leite e o coloca cuidadosamente à noite debaixo do travesseiro para que a fada o leve no silêncio da noite e em troca deixe o presente, mesmo quando a incompetência do avô se esquece de entregar o dente à fada pondo assim em perigo o resultado da próxima visita…
Mas não é só Passos Coelho que começa mal. Portas está inchado de autoridade que nem um soba e possuído de um acacianismo confrangedor. Que escárnio as suas palavras não provocariam ao jovem director do Independente. Além do mais toda a gente sabe o que ele quer: importância e dinheiro, ou, dizendo de outro modo, peso no governo e ministérios com verba!
Ainda é cedo para falar do PS, mas não seria de estranhar que entregassem para a degola um jovem cordeirinho a quem vão exigir que na rua se coloque ao lado de quem protesta para não deixar o campo livre ao PC e ao Bloco e simultaneamente apoie no Parlamento as medidas que o governo não pode tomar sem a participação activa do PS. Só mesmo um novato de quem quase nada se saiba e não tenha opinião sobre a maior parte das coisas poderá desempenhar este papel, findo o qual será substituído pelo verdadeiro sucessor de Sócrates. Ponto é saber os danos que esta suposta estratégia causaria ao PS e se eles serão reparáveis…
Uma nota sobre o Bloco: há por aí muita crítica à Coordenadora, principalmente a Louçã, por o partido ter perdido metade dos deputados; e apontam-se causas: apresentação da moção de censura, recusa de falar com a troika, imitação do PCP, enfim coisas do género; por aí nunca chegarão lá. Antes de perguntarem por que razão o Bloco desceu têm de saber muito bem por que razão o Bloco subiu.
Finalmente, mesmo para quem esteja por algum tempo confinado aos quatro canais da televisão e não tenha de ouvir a toda a hora o Relvas, nem de escutar o Crespo e a maior parte dos seus insuportáveis convidados, há novidades que não podem ser omitidas. O cheiro a carniça trouxe pelo segundo dia consecutivo o execrável Moniz para o prime time da RTP, que agora até dá notas e critica com veemência o sufocante controlo imposto por Sócrates à comunicação social.
Bem vistas as coisas não há que estranhar: Moniz, além de não ter qualquer vergonha na cara, está a posicionar-se para a privatização e a RTP, citando Castrim, é uma velha prostituta que serve com idêntico fervor os sucessivos “clientes”…
















