SE FÔSSEMOS, TUDO PODERIA SER DIFERENTE
Quem escreve regularmente nos blogues ou na imprensa e tem a preocupação de tentar dizer algo de novo dificilmente poderá escapar à sensação de que já está tudo dito relativamente à grave crise em que está mergulhada a esmagadora maioria dos trabalhadores e da classe média dos chamados Estados desenvolvidos, apesar de ela se manifestar diferentemente nos Estados Unidos e na Europa e de nesta não atingir por igual todos os países.
Nos últimos dias surgiu com alguma insistência a ideia de que afinal também somos gregos como rejeição tardia a um slogan que há mais de dois anos vinha sendo repetido por quase toda a gente como a coisa mais natural deste mundo: “Nós não somos a Grécia!”. Ou, pior ainda, como quem quer deixar a garantia perante terceiros da inexistência de contágio da terrível doença que atingiu a Grécia.
Esta mudança de atitude é positiva, mas insuficiente, antes de mais porque nós, infelizmente, não somos como os gregos. Somos politicamente acomodatícios, subservientes, incapazes de tentar resolver pelos nossos próprios meios os nossos problemas, entregando com facilidade a estranhos a solução de questões que somente a nós deveria caber procurar.
Certamente que como cidadãos de um país integrante da zona euro não poderá deixar de nos interessar o que se passa em Estados com problemas semelhantes ao nosso ou em Estados onde a esmagadora maioria das pessoas está sofrendo, tal como cá, as consequências das políticas restritivas impostas pelo capital com vista à eliminação daquilo a que usualmente se chama o “Estado social”. Esse conhecimento permitir-nos-á antecipar, como de facto já permitiu, o que por cá se passará e assim tentar preparar com outras possibilidades de êxito a resposta a este movimento aparentemente avassalador que parece insaciável nos seus objectivos e propósitos.
Antes de mais é preciso compreender que, dentro da lógica do capital, tal movimento, que está sendo levado a cabo por toda a parte com assinalável êxito, faz todo sentido, já que o dito “Estado social” não passava de uma concessão táctica conquistada numa conjuntura política desfavorável ao capital em que este se viu obrigado a fazer as cedências necessárias para salvaguardar o essencial. Alterado o quadro de fundo e a correlação de forças que ditaram aquela situação, o capital, apoiado por uma campanha ideológica aparentemente convincente – assente na ideia de que não se pode “viver acima das possibilidades” –, tem conseguido com impressionante facilidade eliminar uma pós outra todas as conquistas sociais fazendo reverter a seu favor de uma forma quase directa as vantagens económicas resultantes daquela eliminação.
Esta campanha ideológica embora assente numa falsidade é convincente porque as pessoas, muito despolitizadas pela sociedade de consumo, que sofrem as consequências daquelas políticas, tendem a tomar a tomar a parte pelo todo e por isso a reconhecer ou até mesmo a aceitar com relativa facilidade que as vantagens de que beneficiam estão para além daquilo que os seus rendimentos poderiam suportar. Ou seja, as pessoas não entram em linha de conta com os rendimentos globais gerados pela economia nem com o modo de distribuição da riqueza imposta pelo neoliberalismo. Nunca como hoje se gerou tanta riqueza e nunca como hoje nos tempos modernos ela foi tão desigualmente distribuída. Nem nos “anos dourados” do capitalismo anteriores à Primeira Guerra Mundial a distribuição da riqueza foi tão desigual como hoje. Daí que a tal ideia de não “viver acima das possibilidades” tenda a ser acolhida como evidência incontornável, não obstante a falsidade em que assenta.
Perante uma situação que não pára de desenvolver-se e que no dia seguinte à eliminação de direitos históricos já está preparando nova investida com vista à completa desregulamentação do que resta das mais elementares relações sociais de incidência económica - facto que, obviamente, terá como consequência a fragilização política da maior parte da população -, será ingénuo tentar encontrar uma resposta dentro do quadro institucional vigente. Como ingénuo será procurar numa pretensa solidariedade europeia de classe a solução para os males que nos apoquentam.
Não que essa solidariedade não fosse bem-vinda e não permitisse alcançar mais facilmente os objectivos da luta nos respectivos quadros nacionais. Só que as coisas não se passam assim, mas antes exactamente ao contrário. Primeiro porque a Europa, a tal “Europa connosco” do Dr. Mário Soares ou outra ainda mais mítica do que esta, realmente não existe como a presente situação se tem encarregado de demonstrar à saciedade. E depois porque, por mais sérias que fossem as vontades nesse sentido, a impossibilidade prática de conjugação de esforços e estratégias arrastaria o desfecho da luta para fases já muito adiantadas de consolidação do actual statu quo, tornando muito fácil a sua defesa.
Somente o êxito da luta no quadro nacional poderá ter um efeito mobilizador além-fronteiras e contagiar pelo seu exemplo movimentações idênticas em países com problemas semelhantes. Esse terá de ser o caminho, o qual, como todos os caminhos, para se formarem, precisam primeiramente de ser calcorreados pelos pioneiros.
Os que agora descobriram tão tardiamente que afinal não somos assim tão diferentes dos gregos – descoberta que levou tanto tempo… - deveriam antes empenhar-se numa acção semelhante à dos gregos, lutando com todos os meios ao seu dispor contra este projecto de dominação capitalista de que a Alemanha e os seus satélites, com a cumplicidade dos governos nacionais, se aproveitam para dar corpo a um projecto hegemónico de dominação política.
A solidariedade platónica com os gregos não leva a nada, nem aqui nem na Grécia!





