sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

QUAL É A PRESSA?


 

SUBSTITUIR-TE, PÁ!

António José Seguro foi ontem surpreendido com um pedido de convocação de um congresso antes das autárquicas, feito por Silva Pereira em nome da oposição interna do PS. É claro que Silva Pereira apresentou a questão de outra maneira como não poderia deixar de ser. Disse que tendo o Secretário Geral reconhecido a grande probabilidade de emergência de uma crise política e simultaneamente assegurado estar o PS à altura de assumir as suas responsabilidades (e até pediu uma maioria absoluta na “coligação” que pretende fazer com os portugueses) seria de todo o interesse que o PS se preparasse com tempo, convocando um congresso antes das autárquicas para pôr à discussão dos militantes as grandes linhas da sua futura governação.

Silva Pereira deixaria a “cauda de fora” qualquer que fosse o seu pedido, mas aquela de ter frisado com tanta insistência o “antes das autárquicas” deixou-a, por assim dizer, à vista de toda a gente.

A probabilidade de o PS ganhar as autárquicas quem quer que seja o seu Secretário Geral é muito alta. E se o Secretário Geral à época ainda for Seguro, é também óbvio para toda a gente que já ninguém mais tem legitimidade para o tirar de lá até às legislativas, ocorram elas no fim da legislatura ou antes. Portanto, como o que Silva Pereira e os seus amigos querem é substituir Seguro, impõe-se que o façam o mais rapidamente possível.

E toda a gente igualmente percebeu que o candidato de Silva Pereira é António Costa o qual, como também é óbvio, deixou a marcação da data do congresso à consideração do Secretário Geral.

Dito isto, impõe-se em primeiro lugar analisar a probabilidade de vitória desta “manobra” e em segundo lugar tentar perceber por que razão o PS quer substituir Seguro.

A probabilidade de vitória da proposta de Silva Pereira é muito escassa mesmo que Seguro aceitasse realizar o Congresso antes das autárquicas (e muito provavelmente não aceitará). Primeiro, porque Seguro tem o aparelho consigo. Aquele aparelho hoje constituído por pessoas que fora do PS ninguém conhece, mas que partidariamente têm muito poder. E em segundo lugar, porque, como se tem visto, tem havido uma renovação acentuada dos dirigentes do PS. As pessoas que hoje aparecem a falar institucionalmente em nome do partido pertencem a uma nova geração que anda entre os 35 e os 45 anos e que, salvo raras excepções, ainda não tinha tido até agora oportunidade de ocupar lugares de relevo. Toda essa gente preferirá ficar com Seguro do que alinhar com um membro de uma geração mais velha (António Costa) onde tudo para eles será mais incerto por a concorrência ser muitíssimo maior.

Apesar de com esta resposta ficar eliminada a necessidade de responder à segunda questão, sempre se dirá a razão fundamental por que existe agora toda esta movimentação no PS para substituir Seguro. Muito simplesmente por não o considerarem suficientemente credível perante o eleitorado. De facto, eles vêem aquilo que toda a gente vê: Seguro esforça-se muito, ultimamente até parece que ameaça…mas não convence. E não convencendo não só corre o risco de perder, como, pior ainda, não concorre para a eclosão de uma crise política que a simples existência de um líder forte à frente do PS poderia potenciar e acelerar.

E não concorrendo para este efeito também não dá à oposição interna do PSD, constituída por notáveis muito influentes junto da opinião pública, a segurança suficiente para, pelo seu lado, acelerar a crise.

Sim, porque ninguém tenha ilusões. Esta manobra que certos sectores do PS estão levando a cabo não tem em vista fazer chegar o Partido Socialista ao governo para governar sozinho nem tão pouco cortar radicalmente com as políticas de ajustamento impostas pela troika. Tem em vista uma coligação com os sectores oposicionistas do PSD e eventualmente com o CDS ou com gente da área do CDS, consoante essa coligação ocorra antes ou depois de eleições. É isto o que se depreende das teorizações dos principais opositores a Seguro - António Costa, Francisco Assis, Silva Pereira, Vieira da Silva, entre outros.

E já agora que dizer disto, desta tentativa? Embora à esquerda toda a gente reconheça sem dificuldade que era preciso muito mais do que isto – era necessário uma mudança radical de política, também todos nós sabemos que isto está tão mau, tão mau e a continuação no poder deste bando de fundamentalistas é capaz de causar tanto sofrimento a tanta gente, de destruir tantas vidas, de afundar o país por muitos e muitos anos que qualquer coisa que venha em sua substituição será sempre melhor do que aquilo que agora existe. Estamos a pensar nas dezenas e dezenas de milhares de funcionários públicos e de trabalhadores das empresas públicas que vão ser mandados para o desemprego; estamos a pensar nas centenas de milhares de reformados que vão passar o resto da vida que lhes resta na angústia de perderem a reforma ou de a verem drasticamente diminuída; estamos a pensar nos milhares de empresas que vão continuar a falir e do cortejo de desempregados que isso acarreta; estamos a pensar nos milhares de jovens preparados que vão deixar o seu país em busca de trabalho no estrangeiro ou que por cá vão ficar na expectativa de arranjar um emprego que os fará mergulhar para sempre na espiral da precariedade, da insegurança e da exploração. Estamos a pensar no sofrimento de milhões de pessoas.

E será que tudo isto vai ser resolvido? E será que esse sofrimento vai desaparecer completamente?Claro que não. Mas se houver uma mudança será impossível continuar tudo na mesma. Alguma coisa necessariamente mudará.

Não se trata de apoiar, nem nada que se assemelhe, esta hipotética coligação. Trata-se apenas e só de ver as diferenças…

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O REGRESSO AOS MERCADOS


 

A CHANTAGEM DOS BANQUEIROS

 

O Governo festejou com tal entusiasmo o “regresso aos mercados”, ou seja, aos empréstimos, que quem estivesse menos atento até era capaz de supor que o país alcançou uma vitória capaz de alterar do dia para a noite a vida dos portugueses. E, todavia, não é nada disso o que se passa. Nada de muito diferente vai acontecer -  e o que acontecer até será para pior -  se a actual política não for radicalmente alterada.

Este “regresso aos mercados” de um país mergulhado numa espiral recessiva, com quase um milhão de desempregados, com milhares de falências anunciadas para juntar aos milhares que já tiveram lugar e com taxas de decrescimento económico cada vez mais assustadoras, tanto no ano que passou como no que agora começa, também serve para demonstrar quão irracionais são esses ditos “mercados”. É certo que eles têm o lamiré deixado pelo BCE de que aceita, mediante o cumprimento de certas condições, garantir, em última instância, os títulos da dívida pública dos Estados da zona euro. E é também óbvio que a quantia hoje arrecadada constitui uma gotícula quando comparada com a capacidade de “absorção” do BCE, mas nem por isso deixa de ser óbvio que um país que está a decrescer economicamente e que praticamente não cresceu nos últimos doze anos jamais terá capacidade para pagar uma dívida que atingirá durante os próximos dez anos números incomportáveis.

E esse é que é o grave problema de Portugal. Ir aos “mercados” mas continuar a agravar as condições de vida dos portugueses pode ser muito sedutor para os bancos mas não será certamente a solução que o país espera.

Dizem os apoiantes do Governo que este é o primeiro passo para uma inversão da situação. Nada na política do Governo aponta nesse sentido. Pelo contrário, tudo vai no sentido de um maior agravamento das condições de vida dos portugueses resultante de milhares de despendimentos anunciados na função pública, de novos cortes nos salários e nas pensões, de drásticas reduções no serviço nacional de saúde e no ensino, bem como nas prestações sociais. Ora nada disto constitui uma vitória dos portugueses, como eles agora dizem. É uma derrota, uma grande derrota, que exige uma desforra à altura. 

Esta política é a política dos banqueiros e dos credores. Não é seguramente a política que interessa ao comum das pessoas. Prova disso é o entusiasmo que o FMI não é capaz de disfarçar ao analisar o que se passa em Portugal e nos demais países em crise quando, apesar do desemprego, da recessão e das suas graves repercussões sobre a generalidade das pessoas comuns, deixa escapar o seu contentamento dizendo que o optimismo paira no ar como o demonstram os mercados financeiros. Sim, é isso mesmo: foram os “mercados” que geraram a crise e foram esses mesmos mercados financeiros que mais lucraram com ela, ficando em consequência dela numa situação nunca antes acontecida na história do capitalismo - mais ricos, mais poderosos, mais dominadores do que antes. Antes, as crises do capitalismo arrastavam para a falência as empresas que as causavam ou obrigavam-nas um a um longo período de recuperação. Hoje, dada a hegemonia do capital financeiro e o seu completo domínio sobre o aparelho de Estado, acabam por ser os contribuintes a restaurar e a fortalecer ainda mais as empresas financeiras mediante transferências brutais de rendimentos do trabalho para o capital financeiro. 

Depois da satisfação que o FMI não conseguiu esconder, nada melhor para avaliar o contentamento deste “regresso aos mercados” do que as declarações sincronizadas dos banqueiros portugueses. Desde Mira Amaral, cujo banco que dirige foi recentemente prendado pelo Estado com um negócio de favor, passando pelo BANIF e pelo BCP, até ao Espírito Santo de Salgado todos eles vieram pôr “o povo em guarda” contra qualquer hipótese de crise política. Ou seja, vieram chantagear os portugueses deixando pairar a ideia de que uma crise política acarretaria consequências terríveis para o seu futuro.

Esta crise e este tempo que vivemos são muito diferentes de todos os demais. É uma crise que não se resolverá com pequenas medidas nem com retoques de circunstância. Este constante aprofundamento do fosso entre uma ínfima minoria que arrecada a maior parte do produto e a esmagadora maioria que vê, a todos os níveis, continuamente degradada a sua situação só se resolve com mudanças profundas que atinjam o centro do poder económico. Impossível? Também era impossível acabar com o absolutismo real na Europa e acabou-se. Também era impossível acabar com o nazismo na Alemanha ou, mais impossível ainda, derrotar Hitler e derrotou-se. E os exemplos poderiam multiplicar-se.

Esta crescente desigualdade que o moderno capitalismo financeiro e o neoliberalismo vêm consolidando desde há mais de trinta anos encerra em si e nas suas múltiplas consequências todas as condições para gerar profundas convulsões sociais nos países desenvolvidos. A situação económica da imensa maioria está continuamente a agravar-se na América, tem-se agravado imenso nos países periféricos da Europa e acabará também por atingir os mais ricos, como já está a acontecer no Reino Unido. A “machadada” que, de uma forma ou de outra, todos eles se preparam para dar no Estado Social – que é o essencial do pacto que tem assegurado a paz interna e evitado a confrontação entre os países – vai necessariamente gerar consequências que "eles" supõem estar em condições de evitar. Mas não estarão. É certo que tudo isto leva tempo a interiorizar, mas depois de a mecha pegar fogo ninguém mais o vai conseguir extinguir.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DIÁRIO DA GUINÉ



 
UM LIVRO DE ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU
 
 
Vem a propósito do quadragésimo aniversário da morte de Amílcar Cabral falar num livro publicado há cerca de seis anos mas de que somente há dias tive conhecimento – Diário da Guiné, escrito por António Abreu, entre Junho de 1972 e Abril de 1974, quase dia por dia o tempo da minha comissão de serviço na Guiné, em Bissau, na secção de Justiça do Comando da Defesa Marítima.
Para além da enorme diferença que à época representava ser colocado em Bissau ou no mato, há ainda uma outra porventura não menos negligenciável: fazer o serviço militar na Marinha ou no Exército. A diferença era sob todos os aspectos abissal.
 
António Abreu foi mobilizado para a Guiné com 23 meses de tropa cumpridos em Portugal, tendo sido sucessivamente colocado em Canchungo (antiga Teixeira Pinto), Mansoa e Cufar. Ou seja, quanto mais a comissão se aproximava do seu termo mais perigoso era o local para onde o mandavam.
 
Tendo muito presente as grandes datas dos dois últimos anos de guerra e as ocorrências que tragicamente as assinalam, segui, como se estivesse a reviver esses mesmos tempos, esta narrativa contada por quem viveu de muito perto esses mesmos acontecimentos.
O livro de António Abreu é, a vários títulos, um testemunho notável do que foram os dois últimos anos de guerra na Guiné não apenas no plano militar, mas também no plano das relações entre os milicianos e os soldados, do comportamento das chefias militares mais próximas, do estado de espírito dos combatentes, do relacionamento dos soldados com a população, das dificuldades correntes do quotidiano que se agravavam dramaticamente quanto mais perigoso era o teatro de operações, da filosofia de vida com que se encarava a inevitabilidade de uma comissão de 22 ou 24 meses, da incerteza sobre o dia seguinte, a partir de certa altura, do minuto seguinte…
Tudo isto António Abreu conta numa prosa elegante, sempre com muita grandeza de espírito e notável humanismo. O modo como salpica a narrativa com alguns episódios burlescos acontecidos no dia-a-dia da guerra e a fina ironia com que os trata fazem lembrar alguns dos melhores gags de Chaplin. Por outro lado, o equilíbrio das suas apreciações e o sentido de justiça sempre presente, mesmo nas condições mais difíceis, fazem com que ele seja capaz de apreciar as qualidades e até as virtudes daqueles de cuja acção discorda. A suposta ingenuidade com que aceita o inevitável, mantendo-se sempre íntegro e igual a si próprio, e a sua vasta cultura contribuíram certamente para que tenha saído sem traumatismos de uma guerra que se ia tornado mais violenta à medida que se ia aproximando fim.
Das muitas leituras sobre a Guerra Colonial, desde as narrativas de militares até à obra de ficcionistas consagrados, passando pela obra dos historiadores, tenho na minha modesta capacidade de apreciação literária o “Diário de Guerra” de António Abreu como uma das obras mais interessantes que sobre o tema já li.


AMÍLCAR CABRAL


 

A GUINÉ DEPOIS DE 1973

 

Há quarenta anos foi notícia no mundo inteiro – e por maioria de razão na Guiné – a morte de Amílcar Cabral, assassinado na véspera, à noite, em Conacri.  

Seria interessante a esta distância reler o modo como a imprensa portuguesa deu a notícia, nomeadamente a ligada ao regime fascista. Como alguns se recordarão imediatamente se insinuou a existência de uma grande divisão no seio do PAIGC, entre guineenses e cabo-verdianos, que teria estado na origem da morte do grande nacionalista e revolucionário africano. Chegou inclusive a apontar-se o nome do sucessor, Dr. Vítor Monteiro, ex-quadro da CUF, como então foi identificado.

O contexto em que a notícia foi inserida não tinha nada de novo quando comparada com as notícias das mortes de Humberto Delgado e de Eduardo Mondlane. Também nestes dois casos os assassínios de Delagado e de Mondlane eram atribuídos a divergências internas dos que lutavam contra a ditadura ou mais genericamente contra o colonialismo.

A quem então cumpria serviço militar na Guiné a notícia causou profunda apreensão. Admitiam-se retaliações em grande escala ou talvez pior do que isso a condução da guerra por parte do PAIGC em moldes diferentes dos que até então tinham ocorrido. De facto, havia a convicção generalizada entre os que cumpriam o serviço militar na Guiné, como uma inevitabilidade a que somente com uma alteração radical dos planos de vida se poderia escapar, que Cabral conduzia a guerra com ética.

Tanto assim que mesmo depois da falhada operação “Mar Verde”, o PAIGC continuou a fazer a guerra do mesmo modo sem retaliações específicas.

A morte de Cabral, ao contrário do que admitiam os que dela, secretamente, se vangloriaram, não enfraqueceu o PAIGC, nem alterou o rumo da guerra de libertação. Pelo contrário, desde então até ao colapso do colonialismo o PAIGC não deixou de somar vitórias na Guiné.

A primeira vitória do PAIGC foi a substituição pacífica e consensual do líder morto. Depois foi a declaração da Independência em Madina do Boé em 23 de Setembro de 1973 da nova República da Guiné-Bissau, reconhecida pouco depois por várias dezenas de países. Mais do que aqueles com que Portugal mantinha relações diplomáticas.

As grandes vitórias militares ocorreram, porém, antes. Primeiro com introdução dos mísseis terra-ar SAM-7, conhecidos como Strela, que abateram dois jactos bombardeiros FIAT G 91 e dois Dornier (DO) – um terceiro foi atingido mas conseguiu regressar à base - que praticamente neutralizaram a acção da Força Aérea na Guiné ; e depois com as violentas ofensivas no Norte contra Guidage e no sul contra Guileje e Gadamael, cujas regiões, principalmente a sul, passaram a ser um verdadeiro calvário para a tropa portuguesa.

As derrotas do PAIGC e da Guiné-Bissau ocorreram, infelizmente, muito mais tarde, depois da independência. Embora os primeiros grandes responsáveis pelo descalabro a que a Guiné-Bissau chegou sejam antes de mais os seus dirigentes que não souberam estar à altura da herança de Cabral, a verdade é que Portugal poderia ter feito mais, muito mais, para impedir que a Guiné-Bissau caísse no atoleiro em que agora está mergulhada.  

Sobre a morte de Amílcar Cabral escreveram entre outros Oleg Ygnatiev – “Três tiros da PIDE, quem, porquê e como mataram Amílcar Cabral” e José Pedro Castanheira – “Quem mandou matar Amílcar Cabral”.

No início de Janeiro de 1973 esteve na Guiné Alpoim Galvão, comandante da Operação Mar Verde (1970), entretanto colocado em Lisboa, salvo o erro no início de 1972. Alguns dos que à época prestavam serviço militar na Guiné, na Marinha, ou no Comando Chefe (Amura), terão conhecimento deste facto. Há relativamente poucos anos, já neste século, Otelo referiu-se a esta estadia… apesar de ela não figurar nos anais da guerra colonial portuguesa.

Na recente biografia de Alpoim Calvão – “Uma Quase Biografia – Alpoim Calvão, Honra e Dever” - de Rui Hortelão, Luís Sanches de Baena e Abel Melo e Sousa, não consta qualquer referência desta viagem de Alpoim Calvão à Guiné, embora nela se reconheça que Calvão continuava empenhado na guerra da Guiné, no quadro de um plano por ele denominado “Dragão Marinho”, o qual implicaria conversações com altos dirigentes da guerrilha, Cabral e irmão, entre outros – factos nunca confirmados pelo PAIGC nem sequer alguma vez referidos onde quer que fosse. O que terá havido, bastante mais tarde, mas dessas diligências Calvão estava completamente à margem, foram diligências exploratórias em Londres, conduzidas por diplomatas portugueses, com vista ao estabelecimento de negociações com o PAIGC. Isto, porém, numa altura em que a guerra já estava completamente perdida.

Nesse mesmo mês de Janeiro de 1973 o que a biografia refere é uma guerra de Alecrim e Manjerona entre Alpoim Calvão, então Comandante da Polícia Marítima do Porto de Lisboa e o Comandante da Guarda Fiscal para saber qual das duas instituições (ou ainda a PIDE) deveria ficar com uns caixotes com livros que a bordo de um cargueiro dinamarquês seguiam para o MPLA. Os ofícios ou notas de Alpoim Calvão transcritos no livro estão datados (2 e 12 de Janeiro); os da Guarda Fiscal não estão. Enfim…

 

sábado, 19 de janeiro de 2013

O DEBATE SOBRE A REFORMA DO ESTADO

 "REFUNDAR O ESTADO" OU RENEGOCIAR A DÍVIDA?
 
Com as esperadas participações de conhecidos representantes do “Bloco Central” e de outros que no Outono da vida se têm aproximado das posições de direita numa trajectória que acima de tudo os envergonha e lhes deixa uma mácula que o tempo já não está em condições de limpar, a direita encenou um simulacro de debate sobre a “Refundação do Estado” no seio da sociedade civil, representada pelos “Bentos” e pelos “Nabos” do costume, mais os tais que agora se acolheram na trincheira do colaboracionismo, supondo que assim asseguraria a legitimidade para as conclusões que o Moedas já trazia debaixo do braço quando abriu a conferência.
 
Puro engano. Ninguém de boa-fé poderá aceitar as conclusões de um falso debate fundado num Relatório elaborado pelo FMI com a colaboração do Governo, representado por Portas e Gaspar, mais os seus jovens turcos, em que o Fundo para além dos muitos epítetos com que tem sido mimoseado no seu papel de impulsionador e depois guardião do neoliberalismo desempenhou agora o de barriga de aluguer, apondo, a troco de dinheiro, a sua chancela num documento cujas grandes linhas o Governo havia previamente definido.
 
Se esta actuação do Governo – a tal tentativa de adesão da “sociedade civil” ao Relatório e a sua pretensa elaboração por uma entidade internacional - serve para ilustrar a falta de legitimidade que os factos demonstram o Governo já não ter, ela serve também, ou acima de tudo, para pôr a claro até onde o Governo está disposto a ir no louco fundamentalismo que anima a sua actuação. Desemprego de milhares de pessoas a juntar ao quase um milhão de desempregados, cortes brutais nos salários e nas pensões, aumento desmedido das taxas moderadoras na saúde, propinas mais caras são apenas alguns exemplos de medidas que o Governo se propõe de ânimo leve pôr em prática sem a menor preocupação pelos efeitos socialmente devastadores resultantes da sua aplicação.
 
Dizem os representantes bem-pensantes da direita plutocrática que o facto de Governo revelar falta de jeito para tratar destes assuntos nos não deve impedir de discutir um problema sério que existe na nossa sociedade, a saber: a existência de um Estado exagerado incomportável pela nossa economia que urge reajustar ao tamanho das nossas possibilidades.
 
Esta é como se sabe a conversa sobre o “vivermos acima das nossas possibilidades”. Primeiro, começou por aplicar-se a nós, aos cidadãos, impondo-nos cortes nos salários e nas pensões, desemprego em massa e aumento de impostos, para justificar a recapitalização dos bancos, mas também para pagar as rendas escandalosas concedidas às empresas energéticas, bem como as não menos escandalosas prestações das parcerias público-privadas tanto no domínio das obras públicas como no da saúde, além de todos os escandalosos negócios que o capital financeiro e as grandes empresas de construção civil pressionaram o Estado a fazer, para já não falar na vigarice dos banqueiros do BPN e nas múltiplas asneiras de política económica que os diversos governos foram cometendo depois da adesão à “Europa” quase sempre a troco de vantagens oportunistas que em regra se esvaziavam mal se produzia o efeito eleitoral que tinham em vista alcançar.
 
Agora é essa mesma conversa aplicada ao Estado. Também o “Estado vive acima das suas possibilidades”, gastando mais do que aquilo que recebe. Sem esquecer que, nesta conversa, somente os lucros das grandes empresas, os salários e os prémios dos executivos e os honorários dos grandes escritórios de advogados “amigos do Relvas”, como outrora já foram amigos de outros, “vivem dentro das nossas possibilidades” e convivem bem com centenas de milhares de desempregados, pensionistas de miséria e o empobrecimento imparável de uma frágil classe média, é bom que se perceba que não se pode participar num debate falseado à partida por assentar em pressupostos criados, ou fortemente amplificados, por uma política que visa exactamente a situação a que se chegou para assim ter uma base material pretensamente objectiva que lhe permita completar a execução do programa que o PSD e o CDS esconderam dos portugueses durante a campanha eleitoral, ludibriando-os com falsas promessas.
 
 
A recusa de participar discussão da “Refundação do Estado” nas bases e no contexto fixados pelo Governo não resulta tanto da falência técnica do Relatório manifestamente assente em alguns dados de facto errados ou de uma errada e tendenciosa interpretação dos factos que lhe servem de base, nem sequer de as suas conclusões terem sido previamente encomendadas pelo Governo. Resulta fundamentalmente do facto de não se poder participar numa discussão que já tirou as conclusões antes da discussão se iniciar e que assenta num contexto propositadamente criado para propiciar e favorecer as conclusões cuja execução o Governo encara como única saída possível para a superação da crise em que o país está mergulhado.
 
Trata-se, portanto, de uma discussão assente em pressupostos tidos por inalteráveis quando o que está em causa é exactamente o questionamento desses pressupostos e a necessidade urgente da sua alteração. Ou seja, o que interessa ao país é antes de mais inverter a actual política, fomentando uma política de crescimento que rapidamente o permita regressar a um patamar de riqueza, no mínimo, equivalente àquele que existia antes da imposição das políticas de austeridade. E em segundo lugar, o que interessa a Portugal e aos portugueses não é o aprofundamento das desigualdades que desde há uns anos a esta parte se tem acentuado na sociedade portuguesa quer por via da deflação salarial e do desemprego quer em consequência da redução ou mesmo da eliminação dos direitos sociais. O que interessa aos portugueses é exactamente o contrário. E é nesse sentido que tem de ser orientada qualquer discussão que tenha por objecto a saída da crise. Essa saída terá de passar não com uma diminuição das despesas com o Estado social mas por um substancial embaratecimento do serviço da dívida. A dívida e o seu custo, que tiveram uma subida exponencial com a crise e, principalmente, com as políticas recessivas impostas pela Troika, serão a curto prazo insustentáveis. E a única forma de tornar a dívida sustentável sustentável no interesse de todos, dos portugueses e dos credores, é renegociá-la, cancelando-a parcialmente e indexando o pagamento da parte restante ao crescimento da procura externa.
 
Ora este relatório como tantos outras acções da Troika e do Governo visa exactamente o contrário e insere-se numa ofensiva contra o Estado social, deixando em sua substituição um Estado assistencial com o cortejo de misérias, de desigualdades e da ausência de direitos que lhe andam associados, bem como contra os direitos do trabalho e contra partes significativas da procura interna com vista a criar um Estado neoliberal “bacteriologicamente puro”.
 
A “Refundação do Estado” que o Governo e o FMI têm em vista consiste, portanto, na substituição do actual Estado por um Estado mínimo que deixe ao capital privado campo livre no plano económico e social de modo a que as funções antes exercidas pelo Estado nestes domínios se transformem agora numa fonte de lucro, quer sob a forma de apropriação dos respectivos meios de produção, quer sob a forma, porventura mais grave, de contratos de gestão ou concessão por via dos quais o Estado se obrigue a pagar ao capital as funções que este passará a desempenhar em sua substituição.
E isto os portugueses não podem aceitar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

AINDA O RELATÓRIO DO FMI


 
O MAIS PREOCUPANTE

 

Preocupante é antes de mais o conteúdo do “relatório do FMI”. Mas ainda mais preocupante que o seu conteúdo é a possibilidade da sua execução. E esta possibilidade existe - é essa como se sabe a vontade do Governo -, apesar da rejeição com que foi recebido por larguíssimos sectores da sociedade portuguesa.

O relatório encerra um programa de governo, pronto a executar no curto prazo, que Passos Coelho e Gaspar se preparam para pôr em prática, se a oposição a este atentado contra o Estado social se limitar à oposição parlamentar e aos meios institucionais que as forças políticas orgânicas consigam ou queiram mobilizar.

De facto, há fundadas razões para temer que, com base na estafada, mas sempre eficaz, argumentação da ausência de alternativa e com a concordância implícita dos que no fundo a reconhecem, embora publicamente queiram dar a impressão que a negam, o Governo e as forças ultra-reaccionárias que o apoiam consigam desde logo paralisar o Presidente da República e a UGT/João Proença (o que, diga-se, nem sequer é um feito de registo), bem como, no quadro de uma retórica enganadora, o próprio PS. E o que sobra, sendo politicamente muito importante, é orgânica e institucionalmente insuficiente para impedir a concretização daquele programa.

Por outro lado, não pode esperar-se, nem tal facto deve ser minimamente valorizado na luta política, que os atritos no seio da coligação levem ao colapso do Governo. Isso não acontecerá, pelo menos tão cedo, e se porventura, mais tarde, vier a acontecer as razões que poderão estar na base da dissolução da aliança nada tem a ver com divergências de fundo quanto ao sentido da governação mas prender-se-ão antes com razões de natureza puramente eleitoral e de oportunismo político.

Na verdade, o CDS, com excepção do agravamento dos impostos (na medida em que esse agravamento possa atingir os mais ricos), está substancialmente de acordo com as medidas constantes do relatório, nomeadamente com as relacionadas com o corte da despesa, sendo mesmo um dos grandes inspiradores desse programa. Aliás, são da sua responsabilidade principal algumas das medidas já em vigor que mais afectam os portugueses de menores recursos, de modo que com a falsa atitude que vem mantendo perante a comunicação social apenas pretende tirar vantagens políticas da interpretação que os comentadores e o próprio PS têm feito da farsa que tem sabido representar de oposição interna ao Governo.

Como aqui já foi dito e tem de se repetir uma vez mais, Paulo Portas apenas estava interessado em estancar uma corrente noticiosa prejudicial relacionada com a sua anterior passagem pelo governo que ele sabe ter origem em Relvas. Uma vez alcançado esse objectivo, a farsa baixou de tom e o CDS passou a alinhar cada vez com mais convicção no “combate pela diminuição da despesa”, ou seja, como parceiro privilegiado do FMI.

Outro dos equívocos deste debate político que tem claramente confundido o PS e até, às vezes, as forças políticas de esquerda, detectável em certos deslizes de linguagem, tem a ver com o papel do FMI. Se já não vale a pena falar no inacreditável Proença que se faz de muito ofendido mas que na realidade somente espera um pequenino sinal do Governo para concordar com ele, sinal que o Governo vai adiando para que seja cada vez mais pequena a cedência que acabará por lhe fazer, já vale a pena insistir no desconhecimento profundo que os políticos do PS mais em evidência nesta liderança de Seguro têm revelado acerca comportamento do FMI enquanto guardião e aplicador implacável da ortodoxia neoliberal.

O que na Europa há de relativamente novo quanto a anteriores actuações do FMI noutros continentes como representante e defensor dos credores são as consequências económico-financeiras da existência de uma moeda única, bem como os específicos problemas que esse facto levanta. Mas vistas bem as coisas nem sequer isto é completamente novo já que na América Latina na década de noventa (parte final) e começo do novo milénio o Fundo teve de se defrontar com uma situação sensivelmente idêntica como foi o caso da dolarização de algumas economias, nomeadamente as do Equador e da Argentina.

É certo que as situações são diferentes e a prova disso é que esses países puderam unilateralmente resolver os seus problemas de outra maneira, como aconteceu no Equador, e como poderia também ter acontecido com sucesso na Argentina, não fosse dar-se o caso de a Argentina continuar a ser, infelizmente sempre, um caso muito especial.  

Mas o que com esta digressão por anteriores experiências do FMI se pretende dizer é que num quadro monetário relativamente semelhante ou num quadro de autonomia da moeda nacional o comportamento do FMI foi sempre o mesmo: impor a aplicação de medidas recessivas, privilegiar as exportações, de preferência de matérias-primas, com vista a assegurar o pagamento integral dos credores mesmo que à custa do empobrecimento global do país e do desemprego em massa, principalmente dos sectores que não contribuam directamente para aquele objectivo. Na última década do século passado durante a crise asiática, da Rússia e da América Latina foram cometidas nos países que se sujeitaram às "receitas" do FMI autênticas barbaridades que Stiglitz (mas não só) nos vários livros que escreveu sobre o assunto relata com a acutilância crítica que tais situações merecem.

Outro factor de profunda preocupação, embora as duas questões estejam intimamente ligadas, tem a ver com a ausência de uma firme rejeição, por parte de sectores da oposição, da transformação de Portugal num protectorado de organizações internacionais representativas dos credores e do capital financeiro. É uma situação tão escandalosa a que se vive em Portugal neste domínio e há uma tal promiscuidade entre aquelas organizações e o governo-fantoche do Estado português que causa espanto como tal situação pode ser encarada como relativamente normal por uma parte muito significativa da oposição institucional. Governo-fantoche do ponto de vista da soberania nacional, entenda-se, mas não fantoche no zelo e na extrema eficiência com que sujeita o povo português à disciplina imposta do exterior!

Perante estas graves questões o PS de Seguro – e será só o de Seguro? – mantem-se cautelosamente nas franjas de uma oposição que na realidade não impedirá que a execução do programa do programa do Governo se venha a consumar. De facto, parece tratar-se de uma oposição que visa apenas e só assegurar, no tempo certo, a transferência do poder agora na posse do PSD/CDS para o Partido Socialista. E o tempo certo é aquele que permita ao actual Governo fazer tudo o que de mais importante tem a fazer na execução daquele programa – destruição do Estado social e desmantelamento do actual modelo económico com vista ao ressurgimento de um modelo que, dadas as condições económicas portuguesas, só poderá ser de tipo terceiro-mundista.

E por que é que isto acontece? Por que razão não faz o PS uma oposição à altura da gravidade da situação? Por que razão se mantém relativamente às questões essenciais numa oposição de meias-tintas? Porque o PS não é portador de uma verdadeira alternativa. O PS transporta na sua oposição uma pequena mala de cosméticos que, à parte a crença numa salvífica solução vinda da Europa, nada alteraria de muito significativo relativamente ao que de mais grave Passos Coelho tem feito. Esta é que é a terrível verdade.

Uma verdade que não corresponde aos interesses nem à vontade da esmagadora maioria do seu eleitorado, mas que o PS se recusa a rever porventura mais por uma questão de identidade partidária, como aqui já foi explicado, do que propriamente por convicção política.

De facto, só um ataque à questão central da despesa do Estado permitiria enveredar por um caminho capaz de relançar o crescimento. E a questão central da despesa do Estado é a dívida, ou mais correctamente: o serviço da dívida. Portugal não pode hipotecar o seu futuro nem o dos portugueses de hoje e de amanhã ao pagamento de uma dívida que quanto mais se ataca com medidas de austeridade mais cresce.

Portugal tem de eliminar uma parte significativa da sua dívida externa (a dívida interna terá de ter outro tratamento) e condicionar o pagamento da dívida sobrante a uma percentagem do crescimento das exportações. Se isto se não fizer e enquanto se não fizer o empobrecimento adquirirá uma dinâmica imparável.

Este programa inevitável pressupõe repensar a Europa, o Euro e as alianças. Mas não se pense que o que se passa com Portugal é caso único. No ano em curso a Espanha vai ter de pedir, em média, para cima de 600 milhões de euros por dia assegurar o serviço da dívida, aumentando esta de várias dezenas de milhares de milhões de euros no fim do ano!

Assim sendo, o que sobra para impedir que a tragédia se consume é um levantamento nacional, como de certo modo já aconteceu a 15 de Setembro contra a TSU. Só que os levantamentos inorgânicos ou insusceptíveis de serem enquadrados por forças organizadas correm sempre o risco de tornar efémeras as vitórias alcançadas, como se viu com levantamento de 15 de Setembro. O Governo recuou na TSU, mas replicou com um ataque fortíssimo nos demais domínios como o actual Orçamento sobejamente comprova, assegurando uma das maiores transferências de sempre de rendimentos do trabalho para o capital. Portanto, esse levantamento é indispensável mas tem de ser subsequentemente institucionalizado pelas forças que lhe saibam dar expressão política…

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A GRANDE ESCALADA MAL COMEÇOU



 
SE NADA FIZERMOS O PIOR ESTARÁ PARA VIR
 
 
Só mesmos os ingénuos e, digamo-lo abertamente, os ignorantes poderiam supor que o FMI representaria no seio da Troika o parceiro mais estimável daquela famigerada tríade. O FMI, pelo contrário, é o líder ideológico da escalada neoliberal em curso desde meados da década de oitenta do século passado e que somente estabilizará quando destruir não apenas o Estado social, bem como os direitos laborais, culturais e sociais que lhe estão associados, mas também o Estado de direito na concepção com que hoje é entendido nas democracias representativas de tipo ocidental.
Pelas razões que a seguir se desenvolverão, em épocas de crise – e é sempre em épocas de crise que o FMI desfere os seus pérfidos e letais ataques - o ataque ao Estado social é mais fácil de levar a cabo do que o ataque descarado ao Estado de direito, embora seja neste duplo sentido que já se caminha, mais ou menos abertamente, nos países menos desenvolvidos do grupo dos mais desenvolvidos, afectados pelas crise, como é o caso da Grécia, de Portugal e da Irlanda, que estão desempenhando relativamente àquele grande objectivo um papel de cobaias muito semelhante (no sentido de equivalente) ao que, no século passado, os países subdesenvolvidos da África e da Ásia e mais tarde da América Latina desempenharam no lançamento da sociedade neoliberal globalizada dos nossos dias. Também nestes o FMI actuou, sob a direcção do capital financeiro, com o apoio das grandes organizações internacionais, não apenas as de natureza económica, a partir de uma situação de crise – crise da dívida criada, tal como a actual, pelo capital financeiro.
O ataque ao Estado social, com o objectivo único de transferir para a empresa privada, isto é, para o lucro, as funções agora desempenhadas pelo Estado nos domínios da educação, da saúde e da segurança social, vem sendo feito com recurso a argumentos demagógicos que a situação de crise torna susceptíveis de colher o apoio, se não mesmo o aplauso, de camadas da população cujos interesses, aparentemente, não estão cobertos por aquela acção protectora ou que se julgam perdedoras por lhes ser exigida uma contribuição superior às vantagens e benefícios que dela retiram. Simultaneamente, e com o mesmo objectivo, ao desferimento deste ataque contra as funções do Estado assiste-se a uma escalada contra os direitos laborais, sociais, económicos e culturais das classes trabalhadoras, ou mais genericamente, dos trabalhadores por conta de outrem, com vista a desonerar o Estado do pagamento de despesas cujos recursos serão integralmente transferidos para o capital privado, principalmente para o capital financeiro.
Em poucas palavras é este, para começar, o projecto que o FMI tentará pôr em prática em Portugal para “refundar o Estado”.
Mas o ataque neoliberal não se fica por aqui. É preciso também destruir o Estado de direito nalgumas das manifestações mais eminentes dos princípios que dele decorrem. É neste sentido que devem ser interpretadas as intervenções dos “novos fascistas” (terminologia que doravante utilizaremos para caracterizar os corifeus deste ataque bem como os seus apaniguados e que um dia tentaremos fundamentar teoricamente para que o termo não pareça uma simples aberração retórica) contra a Constituição, relativamente a questões que nada tem a ver com o Estado social, nomeadamente a propósito da eventual ou hipotética declaração de inconstitucionalidade de normas orçamentais.
Quando se ataca a previsível fundamentação do Tribunal Constitucional e simultaneamente se afirma que o país não pode viver com esta Constituição, o que no fundo se quer dizer é que o princípio da igualdade, o princípio da protecção da confiança dos cidadãos e da segurança jurídica, o princípio da proibição do excesso e o princípio da proporcionalidade, entre outros, devem ser banidos da Constituição. O que os novos fascistas pretendem é que, sob a sua égide, haja um poder sem barreiras, prepotente e incontrolável.
Claro que isto não pode ser feito nem defendido com a boçalidade com que os novos fascistas têm atacado a Constituição neste plano. Primeiramente há-de alguém começar por dizer que o conceito de Estado de direito não é um conceito estático nem pode ficar cristalizado no tempo. Que foi um conceito elaborado pela doutrina numa época em que o Estado desempenhava funções muito distintas das que desempenha hoje (supondo que entretanto já foi mandado para o caixote do lixo o Estado social) e que, portanto, os princípios que o enformam embora continuem os mesmos têm de ser adaptados na sua interpretação e aplicação aos novos tempos. E mais isto e mais aquilo e depois lá estarão, como sempre, os juristas para fazer o resto ou não fossem eles historicamente os grandes sacerdotes do poder ideológico – o poder que dá consistência e confere estabilidade aos poderes económico e político.
É isto uma fatalidade? Seguramente não, apesar de esse ser o programa em vias de concretização do poder económico. A luta vai ser muita dura e muito vai depender da posição que o PS assumir. Se o PS/UGT do Proença e de tantos outros dirigentes socialistas mantiver o posicionamento político que têm tido desde que começou a crise tudo será mais difícil. Infelizmente, a experiência diz-nos que só marginalmente se poderá contar com o PS para este combate. Mas isso não significa que ele esteja à partida perdido.
A vitória dos novos fascistas vai depender muito de nós, da maior parte de nós...


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A RESSACA DA PRIVATARIA FALHADA


O DIA SEGUINTE
 
Os portugueses não puderam deixar de saborear com ironia e muita satisfação o acto falhado de mais uma ruinosa privataria que o governo de Passos e Relvas se preparava para consumar.
Embora toda a gente compreenda sem hesitações, a começar por Eframovitch, as verdadeiras razões da decisão que o Conselho de Ministros se viu ontem obrigado a tomar sobre um negócio que já estava fechado, não deixa de ser interessante olhar retrospectivamente para as explicações que o Governo e os seus conhecidos porta-vozes foram dando, ao longo da noite, sobre a razão de ser da decisão.
Para começar, ninguém do Governo propriamente dito apareceu a falar, a dar a cara sobre o que se passou. Mandaram os “ajudantes”, para usar uma expressão cara a Cavaco Silva, muito jovens, cheios de convicção, tentar convencer os portugueses que foi por causa de um desentendimento quanto a datas sobre a prestação de umas ridículas garantias que o negócio – um bom negócio, como eles diziam – não se realizou.
Depois, uns minutos mais tarde, lá apareceram os porta-vozes oficiosos da maioria para complementar as explicações. Foi um exercício penoso. Uma jovem deputada do PSD em debate com João Galamba não foi capaz, durante a cerca de meia hora que lá esteve, de dizer outra coisa que não fosse que a decisão demonstrou que o processo afinal era transparente e que a privatização da TAP foi inscrita no Memorando por iniciativa do PS.
Pouco depois, apareceu Marques Mendes, noutra estação, com uma explicação pateta, a insultar a inteligência dos portugueses. Marques Mendes deveria ter vergonha do ridículo papel que foi ontem fazer na televisão, principalmente depois de ter chamado “chico-esperto” ao Ministro das Finanças por este ter tentado aldrabar os portugueses com justificações estúpidas apresentadas depois do episódio da “extensão a Portugal das novas condições estabelecidas para o pagamento da dívida grega”. Marques Mendes ainda fez pior: para ele tudo não passou de equívoco quanto a datas entre o potencial vendedor e o potencial comprador. Marques Mendes tem de crescer em capacidade argumentativa para continuar a comentar em televisão.
Não obstante as esfarrapadas explicações da maioria terem constituído o prato forte da noite, não se deve silenciar a posição assumida pelo PS sobre um tema que tanto interessa aos portugueses e sobre o qual nem sequer há dúvidas acerca da solução que eles verdadeiramente apoiam. Com excepção de João Galamba, que infelizmente conta muito pouco, a nomenklatura do PS que se manifestou – Zorrinho, António Costa, Seguro – estava muito mais interessada na desqualificação de Passos Coelho (o que já parece desnecessário…) do que na defesa de uma solução para a TAP verdadeiramente conforme ao interesse nacional. António Costa até chegou ao ponto de se distanciar claramente do juízo de suspeição que, segundo ele, Pacheco Pereira estava fazendo daqueles que no Governo têm conduzido na sombra – isto é, sem a competência institucional adequada – os processos de privatização.
É bom que os grandes responsáveis do PS não andem sobre esta matéria a tentar enganar os portugueses, fazendo-os crer que um processo de privatização da TAP conduzido com lisura (que é um substantivo que, por definição, dificilmente se ajusta ao conceito de privatização…) poderia salvaguardar todos os interesses estratégicos, políticos e afectivos ligados à existência de uma companhia aérea de bandeira detida pelo Estado. Isto não é possível, nem sequer é exigível que o seja para quem estiver disposto a comprar pelo justo preço uma empresa como a TAP.
A opção não é apenas entre um negócio conduzido por vigaristas e um negócio conduzido por gente relativamente séria, a opção – a única opção que efectivamente existe – é entre uma empresa privada com tudo o que isso significa e uma empresa pública capaz de conciliar os interesses estratégicos de natureza político-económica do país com uma gestão racional e eficiente. Uma empresa privada, qualquer que seja o caderno de encargos, é uma empresa que terá, como não pode deixar de ser, o lucro como seu principal interesse estratégico, estando a defesa de outros interesses subordinada e dependente daquele objectivo principal. Interesses secundários só serão prosseguidos se e enquanto servirem o objectivo principal. Se é assim que actuam todas as empresas por que admitir ou fazer crer que neste caso se passaria o contrário?
Além de que a posição que o PS tem vindo a defender – insistindo apenas na questão da transparência – abre a porta e deixa o caminho aberto à tese defendida pelas Finanças: ver-se livre da dívida da TAP, entregando a empresa a quem a assumir a por inteiro. Foi isto o que ainda ontem a Secretária de Estado deixou evidente quando afirmou que este, se pudesse ter sido feito – e a gente sabe porque não foi –, seria um excelente negócio, não pelo que o Estado receberia do comprador (realmente nada, tanto assim que a ausência dessa ridícula verba não afecta as contas deste ano), mas pela desoneração implicaria no plano da dívida pública.
Este raciocínio, típico de um burocrata das finanças incapaz de compreender o que vá para além de um simples cálculo contabilístico, ficou agora potenciado pelo facto de a primeira tentativa ter sido abortada. E é contra isto, contra este tipo de soluções, que tem de ser mantida a luta contra a privatização da TAP, explicando, por um lado, que ela leva necessariamente à descaracterização da empresa e, por outro, demonstrando que é perfeitamente possível jurídica, económica e politicamente recapitalizá-la de modo a mantê-la completamente na órbita do Estado.
Que quem no PS e no próprio CDS (como, por exemplo, Ribeiro e Castro) defende esta posição não tenha receio de se bater por ela  contra as direcções partidárias na certeza de que terá a seu lado a maioria do povo português e de todos os portugueses espalhados pelo mundo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A PRIVATARIA DE PASSOS E RELVAS NÃO PASSOU


MAS AINDA É CEDO PARA CANTAR VITÓRIA
 
 
Um dos mais escandalosos negócios da história da democracia portuguesa esteve a milímetros de se concretizar. De momento o negócio foi inviabilizado, mas ainda é cedo para cantar vitória.
Dentro do próprio Governo, na sociedade portuguesa, na oposição e até em sectores influentes do estrangeiro, tanto de portugueses como de estrangeiros, um coro de reprovações e de protestos impediu que o que já estava “acordado com todos os pormenores” acabasse por não vingar.
Mas “eles” continuam lá e não vão desistir com facilidade. É certo que nem sequer tiveram coragem de vir dar a notícia, tal o estado de prostração em que se encontram. Mandaram os juniores dar as explicações. Mas o povo percebeu o que se passou.
Também não pode haver dúvidas de que as forças que advogam a privatização, embora sem os processos imaculados defendidos por Relvas e Passos, continuarão apostados em fazê-la rapidamente, de preferência dentro da União Europeia.   Muito provavelmente vão contar doravante com a oposição daqueles que já tinham “tudo acordado”. E dessa luta fratricida entre os defensores dos processos imaculados e outros, os que acima de tudo se querem ver livres da dívida (e que desempenharam um importante papel na inviabilização da operação) podem tirar partido todos aqueles que na sociedade portuguesa querem manter a TAP no domínio público.
Na defesa deste objectivo, além dos múltiplos sectores da sociedade portuguesa que se manifestaram contra a privatização e dos partidos de esquerda que a ela se opõem, desempenhará um papel decisivo o PS.
Sobre o PS recai a responsabilidade maior de advogar sem reticências a natureza pública da TAP, defendendo a sua viabilidade e a recapitalização da empresa nos mesmos termos em que outros países o têm feito na União Europeia relativamente a sectores estratégicos da economia de cuja propriedade ou controlo o Estado não abdica. Nada no direito comunitário o impede, por maiores que sejam as dificuldades levantadas ou a levantar pelos sectores (hegemónicos) da ortodoxia neoliberal da Comissão Europeia.
É para este combate que o PS tem de estar preparado se quiser ter uma actuação conforme ao reclamado pelo sentimento popular.
E tem de estar preparado não apenas para fazer face às dificuldades levantadas pela Comissão Europeia, mas também cá dentro àqueles que já “tinham tudo acordado”. E nem sequer será necessário indicar nomes para imediatamente se perceber qual ou quais, além dos que no Governo defendiam a "venda" imediata da empresa, os representantes do sector financeiro altamente interessados na realização do negócio agora abortado por via de uma conjugação muito heterogénea de forças. Esse ou esses sectores financeiros sempre muito empenhados, tal como Relvas, em processos imaculados de negócios tudo farão, tudo continuarão a fazer, para relançar as bases de um negócio que também já davam por concluído.
Finalmente, pode dar-se o caso – tudo vai depender de desenvolvimentos futuros – que esta enxovalhante derrota marque o princípio do fim (próximo) do Governo de Relvas e Passos Coelho!

A PRIVATARIA DE PASSOS E RELVAS


E TUDO, TUDO SE VAI…

A fúria privatizadora de Passos e Relvas, com a cumplicidade de Portas e de Cavaco, doutrinariamente apoiada por Gaspar, não pode ser analisada apenas a partir da ideia hoje muito difundida e praticamente consensualizada de que interessa ao Governo acima de tudo agradar aos credores e actuar nos mais diversos campos da política de acordo com os ditames impostos do exterior na convicção de que esse comportamento acabará por render frutos. Esta análise, apesar de assentar em factos incontroversos que diariamente se repetem e que podem ser confirmados até pelo observador menos atento, não é porém suficiente para explicar tudo o que se está a passar.
 
De facto, as "privatizações iminentes", no plano das receitas, não vão render ao Estado nada ou quase nada e, no da dívida, terão efeitos praticamente irrelevantes dada a ténue incidência da sua (eventual e, pelos vistos, até problemática) transferência para o comprador no cômputo global da dívida pública; por outro lado, as desvantagens decorrentes da perda regular de receitas significativas (lucros) e a aleatoriedade a que doravante fica sujeita a venda de importantes serviços ao exterior (exportações), desde logo por uma parte significativa desses serviços poder passar a ser contabilizada noutro ou noutros países, configuram no puro plano económico as "privatizações iminentes"  como um negócio ruinoso para o país, dificil de conceber por mais incompetente que seja a gestão dos interesses nacionais.  E nem sequer em sua defesa se poderá alegar, dentro da habitual lógica de subserviência aos intereses estrangeiros, a pressão dos credores já que os presumíveis novos proprietários dessas empresas nem sequer são oriundos dos países credores.
 
Assim, se do ponto de vita económico-financeiro as "privatizações iminentes" (ANA, TAP, RTP) constituem um verdadeiro desastre poderão elas justificar-se no plano puramente ideológico por parte daqueles que perfilham a tese de que tudo o que é do Estado é por definição mau e de que não há nada pior no plano da racionalidade económica do que a apropriação colectiva de qualquer tipo de bens, principalmente dos bens de produção?
 
É indiscutível que há hoje no moderno capitalismo neoliberal uma fortíssima corrente ideológica disposta a sacrificar todo e qualquer interesse colectivo, defendido e assegurado pelo Estado, à pureza do princípio que tudo manda apropriar privadamente. Basta dizer que muitas, talvez até a maior parte, das proibições do moderno capitalismo desregulado (parece um paradoxo, mas não é…) assentam em concepções ideológicas tão rígidas (como a famigerada proibição das “ajudas de Estado”) que quase fazem parecer inócuas muitas das que existiam no “socialismo real” e que eram alvo da chacota dos que agora defendem essas mesmas “ortodoxias” com o mesmo afinco com que aquelas eram levadas à prática. Basta dizer que é por razões puramente ideológicas que se levantam hoje obstáculos à capitalização da TAP pelo Estado, não obstante os incalculáveis benefícios que tal investimento poderia trazer. Razão, todavia, não suficiente para impedir que Estados fortes da União Europeia, como, por exemplo, a França e Alemanha capitalizem empresas nacionais estratégicas sempre que entendem corresponder tal investimento ao interesse nacional dos respectivos países.
 
Serão então razões ideológicas, aliadas à fraqueza de quem docilmente se submete aos ditames do exterior, que levarão Passos e Relvas a serem tão insensíveis não apenas aos efeitos económicos mas também aos efeitos políticos devastadores dessas mesmas privatizações facilmente depreendíveis das unânimes reacções que todos os dias se ouvem de cidadãos anónimos na comunicação social?
 
Apesar de Passos, pela sua incultura e inexperiência, ser em grande medida prisioneiro da vulgata neoliberal, muita facilitada pela presente conjuntura, não parece ser essa neste caso a verdadeira razão da sua actuação. Primeiro, porque no partido, quanto mais não seja por instinto de sobrevivência política, não falta quem se oponha, mesmo entre os próximos do Governo, a estes desvarios neoliberais, principalmente naqueles casos em que os seus efeitos são duradoiramente nocivos e inapagáveis na memória colectiva por atingirem, no imaginário popular, interesses e bens identitários cuja perda ficará para sempre ligada à governação do PSD. E depois porque ninguém, absolutamente ninguém, vê Relvas a bater-se pela defesa de um interesse puramente ideológico.   
 
Tem de haver, portanto, outras razões. Perguntar-se-á: mas se houver outras razões, o que justifica a passividade de Portas e de Cavaco. Portas, como já se percebeu pelas pseudo-crises que protagonizou neste último quadrimestre do ano, não tem “liberdade de acção”. Portas está enredado nas teias em que se enleou, ele o seu partido, na sua anterior passagem pelo governo. Ele sabe que o PSD de Relvas & C.ª conhece muito bem o seu percurso político e o mais que Portas conseguiu nas tais falsas crises em que interveio foi estancar a torrente noticiosa de certas “agências de informação”. Por outro lado, todo o percurso político de Portas perderia sentido se renunciasse ao único governo em que tem possibilidade de estar.
 
E Cavaco, por que não actua? Cavaco não actua por covardia política e também porque jamais praticaria qualquer acto que fosse no sentido de favorecer os seus inimigos e adversários políticos, mesmo que essa actuação, a seu juízo, lhe fosse ditada pela defesa do interesse nacional.


Portanto, quando nós ouvimos o Ministro Miguel Relvas enaltecer, com ar de extrema felicidade, a transparência das privatizações e o processo imaculado que tem sido seguido, todos nós, quase sem excepção, somos levados a a pensar que é exactamente nessa “alvura” de processos e procedimentos que tem de ser encontrada a razão para o cumprimento escrupuloso do "calendário das privatizações", custe o que custar.
 
Mas se Relvas empresta a qualquer processo em que participe a marca imaculada da sua acção, poder-se-á dizer o mesmo de Passos Coelho? O tempo da inocência terminou. Passos Coelho é igual a Relvas. A mesma “alvura”, a mesma  imaculada conduta é de esperar dele ou não fosse ele o grande defensor de Relvas.
 
Passos Coelho e Relvas são duas almas gêmeas. Os interesses de um coincidem com os interesses do outro.
 
Passos chega mesmo a ir mais longe do que Relvas na defesa do interesse nacional. Atente-se nas palavras que proferiu no passado fim de semana, entre a juventude do PSD, sobre os cortes nas reformas. Alguém com responsabilidades políticas neste país seria capaz de com tanta eloquência explicar à juventude a extorsão que os mais velhos estão a fazer do trabalho das actuais gerações laboriosas? Alguém com as mais altas responsabilidades políticas teria a sageza para sibilinamente apelar no plano político a uma revolta dos mais novos contra os mais velhos ou no plano pessoal ou doméstico a criar um clima capaz de favorecer os devidos ajustes de contas? Não, certamente não há entre nós muitos políticos com virtudes comparáveis às do nosso excelso primeiro ministro. Por isso, distingui-lo de Relvas é uma injustiça que Passos não merece.

A privataria de Passos e Relvas é a palavra de ordem do governo português!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

MARCELO REBELO DE SOUSA



NUNCA SE VIU TANTO EMPENHO
 

 

Que Marcelo é um dos nomes fortes e mais influentes da direita já todos sabemos há muito tempo. O que desconhecíamos no seu trajecto político, apesar de todo o seu habitual intervencionismo nas lides político-partidárias, era a sua disponibilidade para se envolver tão intensamente na defesa de um governo, como está a fazer com este governo de Passos Coelho. Pode mesmo dizer-se, sem ironia, que a sua envolvência com o governo em funções é maior do que a que ele tinha consigo próprio quando era líder do PSD.

Se bem nos recordarmos, Marcelo tem, desde o 25 de Abril, por razões diversas, mantido uma atitude crítica relativamente a todos os governos de direita, sem prejuízo de os ter apoiado, mas nunca com o fervor com que agora defende o actual, desde as coisas mais comezinhas até às mais importantes.

Com Sá Carneiro na chefia do governo, Marcelo embora reconhecendo, como toda a direita, quão importante era a chegada do PSD ao poder quatro anos depois da Revolução, nem por isso deixou de marcar algumas distâncias relativamente ao "líder fundador", a ponto de, juntamente com mais dois conhecidos políticos de direita, ter apresentado uma espécie de alternativa chamada, salvo erro, “Jovem Esperança”.

Depois, por morte de Sá Carneiro, veio Balsemão. E os ataques de Marcelo, como subdiretor do Expresso (propriedade de Balsemão), ao governo e ao Primeiro Ministro foram de tal ordem que Balsemão para se livrar da perversidade do seu empregado jornalista o convidou para Ministro, para o ter mais próximo e controlado. Mas sem qualquer sucesso, já que foi exactamente nesse lugar desse atarantado governo da “AD dois” que Marcelo mais conspirou contra o Primeiro Ministro.

Mais tarde veio Cavaco por dez anos e apesar de toda a força e influência de Cavaco apenas terá mudado o tom das críticas e às vezes a falta de oportunidade para as fazer. Mas sempre que essa oportunidade aparecia lá estava Marcelo a deixar a sua ferroada na nova e indiscutível liderança.

Passou-se uma boa meia dúzia de anos até que a direita voltasse ao poder com Barroso como Primeiro Ministro. Pois apesar de Marcelo estar psicologicamente em baixo – tinha perdido a liderança do partido para o actual presidente da comissão europeia – nem por isso a sua veia crítica perdeu entusiasmo ou esmoreceu. Depois seguiu-se Santana Lopes e então foi um verdadeiro “fartar vilanagem” como nunca se tinha visto antes, a ponto de alguns terem interpretado aquela cruzada contra o antigo companheiro da “Jovem Esperança” como um acto de indisfarçável despeito por Santana ter chegado, embora nas específicas condições em que chegou, às funções que Marcelo, desde outro Marcello, tanto ansiava para si.

Tem que haver, portanto, uma explicação para esta defesa tão intransigente e tão militante do Governo de Passos Coelho. Com excepção das críticas a Relvas – mas Relvas não conta porque realmente não há quem o possa defender – tudo o mais Marcelo defende desde o que tem pouca importância até ao que realmente é muito importante. Marcelo defende as privatizações – as escandalosas privatizações da RTP, da ANA, da TAP assim como defendeu a da EDP -, defende a subserviência de Passos perante a Europa, defende o Orçamento, como antes defendeu todas as medidas que nele estão inscritas ou que Passos gostaria de lá inscrever, defende a descaracterização do Estado social, justifica os maiores disparates do Governo como “falhas de comunicação”, enfim, desempenha o papel de um porta-voz de luxo reinterpretando e recriando as mais incríveis decisões do governo com vista a fazê-las passar como actos razoáveis e necessários face à “grave situação que o país atravessa”.

E tudo isto porquê? Tem de haver uma explicação. Nos dias que correm a explicação mais corrente para compreender fenómenos como este assenta na ideia de que “não há almoços grátis” ou de que “ninguém corre de graça”. Não parece todavia que seja o caso, nem mesmo na hipótese de a recompensa (ou a “contraprestação”) consistir num futuro apoio a uma candidatura a Presidente da República. Pela razão simples de que muita água daqui até lá passará por baixo das pontes, não sendo nada seguro saber-se a esta distância quem nessa altura “mandará” no PSD”. Embora esta questão da Presidência da República não esteja ausente das suas preocupações, a verdadeira razão para o entusiasmo com que Marcelo quase todos os dias aparece a defender o governo parece ser outra.

Marcelo percebeu, como toda a gente, que este é, desde o 25 de Abril, o governo mais à direita que Portugal teve. Um governo que está levar à prática aquilo com que a direita sempre sonhou desde o 25 de Abril mas que nunca até hoje tinha tido condições para concretizar: a desforra. E é essa desforra, esse desmantelamento do que de mais importante foi conquistado com a Revolução, que entusiasma verdadeiramente Marcelo.

Marcelo também sabe que essa desforra não pode incidir, pelo menos para já, sobre as chamadas “liberdades formais” da democracia representativa, mas sabe também que se os direitos económicos e sociais de quem trabalha forem verdadeiramente atacados, precarizados, fragilizados estarão criadas as condições para que “em democracia” a direita possa fazer quase tudo o que fazia em ditadura. Essa a razão do entusiasmo de Marcelo.

Enganam-se aqueles que pensam que Marcelo tinha tudo para uma grande carreira política mas que por força das suas “traquinices” e perversidades tudo tem deitado a perder. Sim, Marcelo aspirava, na sequência e na continuidade do marcelismo, a uma grande carreira política que o 25 de Abril traumaticamente impossibilitou. Hoje, ao ver parcialmente recriadas aquelas condições, Marcelo voltou a acreditar que tem hipóteses. Mas para isso é preciso reforçar quotidianamente a defesa do governo para que este possa concluir a tarefa a que meteu mãos.  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SUBSERVIÊNCIA DESCARADA


 
MAIS UM CASO

O que se passou a propósito da extensão a Portugal (e à Irlanda) da chamada “suavização” das condições impostas à Grécia pelo Eurogrupo e pelo FMI é mais um triste exemplo da ausência de um Governo digno desse nome à frente dos destinos do país.

Nem sequer importa aqui discutir se as novas condições da Grécia vão ou não resolver os problemas com que os gregos se deparam. Quem não está intoxicado pela “ausência de alternativa” sabe perfeitamente que a decisão do Eurogrupo/FMI mais não foi do que um simples paliativo destinado a tentar esbater as dramáticas consequências de uma política sem saída, imposta pelos credores, que agrava drasticamente as condições de vida do povo grego. Uma política cuja responsabilidade recai fundamentalmente sobre a Alemanha mas também sobre todos aqueles que, por subserviência ou cálculo político, a apoiam, quaisquer que tenham sido as responsabilidades iniciais dos governantes gregos.

O que importa sublinhar é que do ponto de vista daqueles que acreditam que a “suavização” concedida à Grécia pelo Eurogrupo/FMI pode traduzir-se num relativo alívio das medidas de austeridade e das políticas restritivas que têm sido impostas aos devedores, se justificava a sua extensão a Portugal e à Irlanda. E foi isso que Jean-Claude Juncker começou por afirmar à saída do Eurogrupo, tendo logo a seguir Victor Gaspar dito mais ou menos o mesmo.

Umas horas depois o ministro alemão da economia, Schäuble, veio dizer exactamente o contrário logo secundado pelo seu homólogo francês. Ainda o eco destas palavras se não tinha esbatido na Europa, já Passos Coelho em Cabo Verde se apressava a concordar com a posição alemã.

Este triste episódio só ganha importância por representar com muita fidelidade o que é hoje a União Europeia.

Juncker, que diz ter muita simpatia pelos portugueses, provavelmente por ter ao seu serviço como empregada doméstica alguma nossa concidadã, faz frequentemente o papel de “polícia bom”, sem nunca se esquecer de a hora da verdade obedecer caninamente à voz do chefe. E Victor Gaspar que, apesar de todo o seu dogmatismo, começou por reclamar igualdade de condições para os “países de programa”, também não teve qualquer problema em mudar de opinião mal pressentiu que aquele não era o caminho indicado pela ortodoxia dominante. Por seu turno, a França de Hollande, em quem os nossos socialistas depositavam tantas esperanças, depois da aparente arrogância inicial, tem cada vez mais saídas de sendeiro, recebendo como recompensa dos alemães o pseudo estatuto de par privilegiado, farsa em que os franceses participam convencidos de que é esse o estatuto que os demais lhe atribuem. Finalmente, Passos Coelho é o exemplo acabado da subserviência política, capaz de tudo sacrificar a uns elogios de ocasião e a umas palmadas nas costas dadas com o ar paternal de quem conta com uma obediência submissa.  
E pode um Governo destes continuar a governar?