quinta-feira, 4 de julho de 2013

ANATOMIA DE UMA CRISE


 
CAVACO NO CENTRO DO CIRCO
A presente crise política pode transformar-se numa das mais importantes derrotas da direita ocorridas depois de iniciada a contra-revolução neoliberal nos anos oitenta do século passado, se o povo português tiver a coragem e a determinação suficientes para pôr em marcha um processo que interrompa as políticas de austeridade e para impor uma política de crescimento que aposte na produção nacional e na profunda diversificação das relações económicas portuguesas.
A política que estava a ser posta em prática em Portugal desde há dois anos representava uma experiência pioneira de desmantelamento do modelo social existente nos países da Europa ocidental, com apreciáveis diferenças entre eles, é certo, mas também com muitos pontos de contacto, nomeadamente no plano da afirmação de princípios que se julgavam adquiridos como verdadeiras conquistas civilizacionais.
O Governo ainda em funções teve aparentemente tudo pelo seu lado para concluir com êxito esta ingente tarefa apadrinhada pelo grande capital nacional e internacional e monitorizada impositivamente pelas instituições europeias e internacionais que o representam e cujos interesses defendem tanto mais ameaçadoramente quanto mais fraco é o alvo dos seus ataques. 
Mas não só no plano internacional o Governo contava com o apoio inequívoco de todos aqueles que olhavam para Portugal como o país ideal para pôr em prática essa experiência radical. Também internamente, no plano institucional, o Governo contou com o apoio activo e empenhado do Presidente da República, que nunca teve qualquer problema em negar com a sua prática política o juramento constitucional que proferiu perante os portugueses, contou também com a passividade do Partido Socialista, muito traumatizado pela governação Sócrates tentando expiar os “pecados” do passado com a sua quase permanente abstenção perante os actos do Governo tendentes à concretização daquele objectivo e contou ainda com a acção permanente de uma enorme matilha de comentadores que diariamente ia fazendo a cabeça dos portugueses levando-os a acreditar que as políticas em curso se destinavam a salvar os seus empregos, os seus salários e as suas reformas.
O êxito desta política era, e continua ser, internacionalmente proclamado e aplaudido pelos representantes do grande capital que insistentemente incitavam o Governo a continuá-la, solicitando-lhe, por cada passo dado e conquistado, a imposição de novas medidas que tornassem realmente irreversíveis “as reformas” que vinham sendo adoptadas. Apesar de todos este apoios e do coro de elogios de que os media se faziam eco, a realidade ia desmentindo diariamente aqueles propósitos e confirmando a caminhada imparável para a concretização de uma política radical cada vez mais empenhada na destruição dos direitos sociais e na liquidação das conquistas laborais acumuladas ao longo de mais de um século de lutas contra o capital.
A política do Governo, assente na mentira e na dissimulação dos objectivos que de facto pretendia atingir, começou a claudicar quando o povo português se foi consciencializando que os objectivos (redução do défice e da dívida) em nome dos quais lhe eram exigidos os sacrifícios não só não estavam sendo alcançados como, pelo contrário, se agravavam a cada trimestre e, acima de tudo, compreendido também que aquela política, numa espiral imparável, lhe roubava direitos, lhe destruía o emprego e lhe ameaçava seriamente as reformas.
Chegados a este ponto, não obstante os aplausos do exterior, não obstante o incondicional apoio de Cavaco, completamente colado ao Governo, a coligação, por óbvias razões eleitorais, começou a perder coesão e passou a ser cada vez mais evidente a tentativa de o CDS se demarcar publicamente das medidas mais gravosas que no seio do governo apoiava ou deixava passar
É este estado de espírito da população, exuberantemente demonstrado nas múltiplas manifestações de luta ocorridas nos últimos nove meses, que levou o todo-poderoso Ministro das Finanças a demitir-se e a reconhecer publicamente a falência de uma política que ainda ontem se não cansava de elogiar. Falência que não representa, todavia, reconhecimento de qualquer erro ou auto-crítica pela acção desenvolvida, mas simples impossibilidade prática de levar a cabo o projecto em que se empenhou.
Passos Coelho, fanático neoliberal, inebriado e obscurecido pelo apoio que externamente lhe é dispensado pelos representantes dos credores e do grande capital, não tendo percebido o que realmente se está a passar, substituiu Gaspar por uma subalterna do ex-ministro que tem como única a particularidade de realce a irmanação com o Primeiro Ministro no fanatismo neoliberal e a incapacidade, tal como ele, de reconhecer a falência de um projecto por completa rejeição dos seus destinatários.
Portas, acusado por Gaspar de minar a coesão governamental, posto perante este passo arriscado da coligação, temendo eleitoralmente as inevitáveis consequências que resultarão desta afronta do Primeiro Ministro ao povo português e vendo neste gesto do PM uma excelente oportunidade para reforçar o seu poder na coligação, numa típica manifestação de homem de direita que voga acima e por cima do seu partido, resolveu demitir-se irrevogavelmente duas horas antes de a nova ministra das Finanças tomar posse.
Cavaco, herdeiro de uma formação salazarenta de que, por incultura e limitada capacidade intelectual, nunca conseguiu libertar-se, acolheu favoravelmente as propostas de Coelho, incitando-o a renegociar com Portas. Entendendo a estabilidade política como a simples manutenção em funções do governo, exerça ele ou não as funções que lhe competem, desestabilize ele ou não as respectivas áreas sociais em que políticamente intervem, sentindo as eleições como uma aberração a que só por imposição da moda dos tempos que correm se não pode furtar, Cavaco recusa-se a ouvir a voz do povo fora dos prazos em que por obrigação constitucional não pode deixar de o fazer e, num espectáculo caricato, dá posse a uma ministra que o parceiro de coligação publicamente rejeita.
A manobra de Portas é uma manobra arriscada. Conhecedor profundo dos meandros da direita e das razões que a movem, Portas sabe bem que o que a direita menos deseja é ser apeada do poder. E é esse objectivo que ele igualmente tem em vista: reforçar o seu poder no Governo. A uma manobra de alto risco terá de corresponder um ganho substancial de poder. Do poder que está ao alcance da sua mão e não do que resulta da vontade do povo português…. que ele nunca teve em mente auscultar.
Não menosprezando as divergências de projecto dentro da príopria direita, o que neste momento está em causa tanto por parte de Cavaco como por parte de Coelho e de Portas é a conservação do poder, posto que distribuído de modo diferente entre os seus actuais titulares. O que agora os une é a vontade comum de fecharem a porta a uma qualquer hipótese que possa fazer o poder mudar de mãos. Por isso, não seria nada surpreendente que de novo voltassem a entender-se, os três, com Cavaco como grande mandarim da direita.
Está nas mãos dos portugueses barrar o caminho a esta manobra. Como? Fazendo o mesmo que os egípcios, os brasileiros, os turcos e todos aqueles que não deixam em mãos alheias a defesa dos seus direitos.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

BARROSO E OS FRANCESES


 

UNIÃO QUÊ?

O recente episódio que opôs Durão Barroso aos franceses, ou vice-versa, e o tipo de linguagem utilizada apenas servem para demonstrar que a dita União Europeia tal como utopicamente continua a ser considerada pelos nossos (e outros) europeístas não existe mais, tendo desde há anos degenerado numa nova forma de opressão sobre os mais fracos, que inadvertidamente entraram nessa aventura e hoje não sabem como sair dela, mesmo que sinceramente o desejem.

Toda a gente já percebeu que na dita União Europeia as regras deixaram de ser iguais para todos. As regras que hoje a regem devem favorecer, em primeira linha, a Alemanha e aquele pequeno núcleo de países tradicionalmente a ela ligados. Por razões puramente políticas, seguramente de natureza táctica, a Alemanha tende a juntar a este grupo a França, apesar de nenhuma razão puramente objectiva o justificar. De facto, a França defronta-se com problemas muito semelhantes aos da Espanha e da Itália, embora não decorrentes das mesmas causas, mas como a União Europeia sem a França deixaria de existir, a Alemanha sente necessidade de associar a França àquele núcleo, pelo menos enquanto ela própria não decidir algo de mais radical quanto ao seu relacionamento futuro com a “Europa”.

Depois há um segundo núcleo de Estados, no qual se integra a Espanha e a Itália, que tem um tratamento desigual no sentido de as medidas adoptadas relativamente a eles não serem decididas com o objectivo de resolver os seus problemas, como aconteceria se porventura fosse a Alemanha a debater-se com dificuldades, embora possam ser considerados num contexto que não ponha em causa o favorecimento dos mais fortes. Por outras palavras, os problemas da Itália e da Espanha podem ser atendidos contanto que não prejudiquem os interesses da Alemanha.

Finalmente, há um terceiro núcleo, no qual se inclui Portugal, a Grécia e outros, que não conta rigorosamente nada, cabendo aos respectivos Estados obedecer às políticas que lhes são impostas não apenas para prevenir o chamado “risco moral”, mas também como cobaias de uma experiência que secretamente se sonha generalizar, quaisquer que sejam as consequências que tal imposição acarreta.

Ora bem, no seio da Comissão, desde que esta mudança se começou a operar e a consolidar, deixaram também de contar as hierarquias que nela teoricamente existem, bem como as competências que os tratados lhe conferem. A gestão da dita União Europeia passou a ser de natureza puramente intergovernamental, sendo os membros da Comissão olhados como um simples prolongamento dos Estados de que são oriundos.

Se provêm do primeiro círculo de Estados têm poderes e são respeitados; se pertencem ao segundo, as suas opiniões podem eventualmente transformar-se em directivas se não atingirem os interesses da Alemanha ou as “linhas vermelhas” por ela estabelecidas nomeadamente em política monetária; se fazem parte do terceiro grupo não têm qualquer tipo de poder nem sequer exercem qualquer influência positiva ou moderadora sobre a acção das instituições europeias nos países que os indicaram, tendo como única forma de se fazerem ouvir o alinhamento acrítico com as posições da Alemanha.

É neste contexto de profunda degradação das instituições comunitárias que devem ser interpretadas as desavenças públicas entre Barroso e os Franceses, convindo acrescentar-se ao dito contexto o “jogo político” de Barroso com vista ao seu próximo futuro político.

Ou seja, a França nunca teria respondido a Barroso com a arrogância e a virulência com que o fez se ele fosse oriundo de um país do primeiro círculo ou mesmo do segundo, nem Barroso teria invectivado os franceses nos termos em que o fez se não estivesse consciente da degradação das instituições europeias e não estivesse exactamente por essa razão já a tratar noutro lado do seu futuro político.

A “Europa” que hoje temos é isto mesmo que todos vemos. Não adianta estar agora a encontrar bodes expiatórios que possam ser responsabilizados pela situação a que se chegou. Responsáveis são todos. Todos os que na Europa transformaram a União Europeia numa entidade que esqueceu as pessoas para atender aos mercados, numa entidade que luta contra os direitos conquistados pelas massas trabalhadoras para aumentar descaradamente o lucro do capital e que acima de tudo defende o grande capital com prevalência do capital financeiro para cuja salvaguarda e consolidação se orientam, no presente momento, todas as políticas e se exigem todos os sacrifícios.

terça-feira, 25 de junho de 2013

TRAIÇÃO OU AFIRMAÇÃO DE CIDADANIA?


 

EM DEFESA DOS QUE LUTAM PELA DEMOCRACIA

A segurança nacional levada ao extremo põe em causa a segurança dos outros Estados e acaba por violar frequentemente os direitos dos próprios nacionais. Se todos os Estados prosseguissem obsessivamente a segurança nacional, de modo a que cada um se sentisse cem por cento seguro, os conflitos multiplicar-se-iam e o mundo viveria em permanente estado de guerra.

Felizmente, tal não acontece embora não necessariamente pelas melhores razões. A obsessão pela segurança muito comum à generalidade dos Estados só não assume as proporções que tornariam insuportável a vida à superfície da terra por razões financeiras. De facto, nem todos os Estados têm meios para garantir tão completamente quando possível a sua segurança, mas quando têm, como acontece com as grandes potências, a obsessão pela segurança nacional constitui um perigo permanente para paz internacional. Mas não só: essa obsessão acaba também por violar frequentemente, e nos tempos que correm cada vez mais intensamente, os próprios direitos dos cidadãos nacionais.

Hoje, assiste-se à violação frequente dos direitos em nome da segurança nacional. Desde os mais elementares até aos mais altamente colocados qualquer que seja a escala de valores por que são avaliados, como a integridade física e a própria vida. Sabe-se como essa violação começa e as razões que aparentemente a justificam, mas nunca se sabe até onde vai chegar nem as proporções que vai atingir

Denunciar esta obsessão e exibir publicamente a duplicidade de critérios daqueles que se arvoram em grandes defensores dos direitos humanos mas que na prática são os que mais frequentemente os violam, a ponto de o assassínio se ter transformado numa arma corrente de “defesa da segurança interna”, constitui um acto de coragem que deve ser saudado onde quer que ocorra e qualquer que seja o seu contexto.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

BRASIL E TURQUIA VERSUS EUROPA


 

O QUE AÍ AINDA VEM

 O que parece óbvio: um país de velhos, sem esperança e sem futuro, que além do mais empobrece a cada dia que passa, não é um país capaz de gerar movimentos sociais de revolta. Aceita passivamente o que lhe impõem como se de uma fatalidade se tratasse.

Aqui e noutros lugares iguais a este nada de significativo acontecerá. Os governos destes países têm carta branca para avançarem até ao ponto limite que eles próprios estabeleceram. O nosso e o de outros iguais a nós ainda não estão atingidos. Provavelmente, só daqui a dois anos exactamente para que o ajustamento se complete no ponto mais baixo do ciclo.

Com os “cortes” feitos e assegurada a subtracção dos rendimentos directos e indirectos dos trabalhadores e dos reformados, esbatidos e quase aniquilados os direitos sociais e económicos de uns e de outros, começará então a outra fase: a da consolidação da transferência maciça dos rendimentos para o grande capital.

E então sim o Memorando da Troika estará cumprido. Daí para a frente basta impedir que ele regrida, que volte para trás. Mas isso dificilmente acontecerá. Está montado um rigoroso policiamento que impedirá qualquer tentativa de regressão. É o outro pacto…igualmente aprovado e assinado pelos três.

domingo, 16 de junho de 2013

AS ELEIÇÕES ALEMÃS


 

OU A APOLOGIA DA BATOTA

Tem-se aqui falado vezes sem conta sobre a “democracia representativa”. Sobre os seus defeitos, sobre as suas limitações, enfim, sobre a sua falência.

O mandato incondicionado do deputado, a desconformidade cada vez mais frequente entre a proposta eleitoral e a execução do mandato, faz o eleitor descrer deste tipo de democracia que realmente não controla e relativamente à qual se sente indefeso quando o seu “representante” age exactamente ao contrário das promessas que jurou cumprir.

Nos tempos que correm o descaramento já é de tal ordem que se aceita como vantagem eleitoral a capacidade que cada um dos candidatos revela de fazer passar uma mensagem eleitoral contrária à política que subsequentemente vai pôr em prática. A capacidade de enganar está quase unanimemente transformada numa mais-valia eleitoral.

 Vem tudo isto a propósito das eleições federais alemãs do próximo dia 22 de Setembro. É frequente ouvir entre os comentadores dos partidos do “arco da governação” – ou seja, daqueles que vem desacreditando a democracia – e entre os políticos desse mesmo “arco” abordar as eleições alemãs numa perspectiva que só pode ser considerada como a fraude da década. Dizem eles, até às eleições Merkel não pode fazer isto nem aquilo, digamos, aceitar parcialmente os eurobondes, permitir um papel mais interventivo do BCE, autorizar a flexibilização das metas dos países em crise, etc., mas depois das eleições tudo será diferente.

Ou seja, tanto aqueles que por puro oportunismo político criticam o actual Governo, como o próprio Governo, acham perfeitamente normal que Merkel engane os seus eleitores, quer fazendo uma coisa diferente da que prometeu, quer omitindo uma proposta política que se tivesse sido apresentada teria merecido a rejeição desses mesmos eleitores. Uma “democracia” como esta que assenta na mentira, na falsidade e no desrespeito pelos eleitores é uma democracia sem futuro.

E quem supuser que isto tem a ver com o Príncipe é porque não percebe nada, absolutamente nada, de Maquiavel!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

ESGOTARAM-SE AS PALAVRAS


 
O QUE FAZ FALTA!

 

Há dias, na Aula Magna, o Reitor da Universidade de Lisboa, António da Nóvoa, referindo-se à situação portuguesa, à crise em que os portugueses estão mergulhados há vários anos, disse com toda a clareza: “Esgotaram-se as palavras. Está tudo dito!”.

É exactamente isso o que a maioria dos portugueses sente. Não há mais nada a dizer sobre o que se passa em Portugal. É preciso mudar radicalmente o que se passa em Portugal.

Já ninguém tem mais paciência para escutar as justificações do Governo, as suas mentiras, o seu comportamento doloso, sua completa indiferença sobre o sentir da esmagadora maioria do povo português e sobre o seu sofrimento.

Já ninguém tem mais paciência para escutar Cavaco Silva, o seu desavergonhado apoio ao Governo, a sua cobardia política, a sua ausência de apego aos valores democráticos, os seus mesquinhos jogos de bastidores no apoio a instituições internacionais malfeitoras contra instituições internacionais malfeitoras, tentando fazer crer aos portugueses que a resolução dos seu problemas depende dos outros em vez de dependerem da sua própria acção, a começar pela dele.

Já ninguém tem mais paciência para ouvir as falsas e hipócritas autocríticas do FMI ou as pretensas boas intenções de uma Comissão Europeia, completamente lacaia dos grandes interesses económicos e inteiramente subjugada à vontade dos “patrões” da Europa, uns e outros apenas empenhados em servir o mais diligentemente possível os interesses do grande capital, nomeadamente o financeiro, com completo desprezo pelos direitos e a vontade dos povos que tentam escravizar com as suas políticas.

Já não há mais paciência para ouvir a “Troika” do PS sobre os prazos que o Governo encurta para despedir, espoliar milhões de portugueses que deram a Portugal o melhor do seu esforço na nobre missão de defender o Estado contra os malfeitores que de vários lados o atacam e descaradamente o roubam a começar, sempre, pelos governos que desde há anos a esta parte têm tido como objectivo primeiro do seu programa transferir ilicitamente para os grandes interesses privados o esforço coletivo de várias gerações. Já não há paciência para ouvir essa Troika do PS falar do acessório para propositadamente escamotear o essencial.

Já não há paciência para continuar assim por mais tempo. Temos que restaurar e recriar a democracia, sendo agora absolutamente necessário, como há décadas, fazer algo de muito novo e surpreendente para acabar com este estado de coisas.

 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A AULA MAGNA, A INCOMODIDADE DO PS E A REACÇÃO DA DIREITA


O QUE PRETENDE SOARES

A direita pela voz dos seu principais comentadores “independentes”, dos sectores mais reaccionários do CDS e dos militantes do PSD próximos do Governo não se tem poupado a esforços para atacar Mário Soares pelo seu papel na realização da conferência “Libertar Portugal da Austeridade” e de elogiar Seguro pelas distâncias que soube manter relativamente a um evento de duvidosa credibilidade.

Soares é atacado por ter tentado e de algum modo conseguido reunir a Esquerda (PS, PCP, BE, centrais sindicais e personalidades independentes) contra a política de austeridade, mas é acima de tudo atacado por ter defendido a tese de que o Governo em funções, suportado por uma maioria parlamentar regularmente eleita, não é legítimo, devendo, por isso, ser derrubado, sem simultaneamente deixar de responsabilizar o Presidente da República por tudo o que possa acontecer por omissão de exercício dos poderes constitucionais que lhe permitem, por uma dupla via, pôr termo a este Governo.

Seguro, pelo contrário, é muito elogiado por não ter estado presente, bem como os dois outros membros da Troika do PS, por ter sabido desgraduar a representação do partido, fazendo-o representar por uma personalidade política pouco conhecida do grande público a quem terá incumbido de proferir um discurso baço e descomprometido.

Soares é um político muitíssimo experimentado a quem a idade, em princípio vulnerável aos afectos, e a saúde, debilitante da vontade, não retiraram um pingo de frieza na acção política, actuando hoje como sempre actuou nos “anos dourados” da sua intervenção partidária. Soares percebeu, para lá de todas as críticas que possa fazer a Cavaco, que o grande “responsável” pela manutenção em funções do Governo de Passos Coelho…é o Partido Socialista.

Se o Partido Socialista se não afirmar como uma verdadeira alternativa ao Governo em funções, se não apresentar uma proposta credível aos olhos dos portugueses, se pelas ideias que vai expondo não gerar no seio da sociedade portuguesa a convicção de que algo substancialmente diferente se vai passar a seguir, o PS não será agora nem mais tarde um partido em que os portugueses confiem para suceder ao PSD/CDS. E Soares sabe que numa situação destas dificilmente se poderá esperar que um Presidente da República como Cavaco, timorato no exercício das funções e muito ligado à direita, demita o Governo se não tiver a certeza de o resultado das eleições lhe trazer uma situação significativamente diferente da que agora existe.

Ora, parece ser isto o que Mário Soares pensa do seu partido e da sua liderança, paternal e simpaticamente, qualificada de frouxa e hesitante. E por também não acreditar que, sem pontes à esquerda, o PS esteja em condições de liderar uma verdadeira rejeição da austeridade, propõe-se ele próprio fazer aquilo que antecipadamente sabe não poder ser feito pela direcção do seu partido.

Mas Soares sabe mais. Sabe que o namoro que a Troika do PS – Seguro, Assis e Costa - tem feito à direita, nomeadamente ao CDS, seria, em tempo de crise, fatal para o futuro do partido se se viesse a concretizar.

Para evitar semelhante desfecho, Soares sob a capa de falsos elogios tem tentado desacreditar Portas, quer pela via da corrupção, quer pela via da ausência de coragem política, quer ainda evidenciando a duplicidade do político que toma iniciativas condizentes com as medidas mais nocivas do Governo ou em cuja execução colabora com entusiasmo e simultaneamente tenta fazer crer que delas discorda para desse modo manter a sua base de apoio eleitoral.

Quererá isto dizer que Soares preconiza uma aliança à esquerda? O que parece claro é que Soares quer rejeitar a política de austeridade, não sendo evidente o percurso que pretende seguir para lá chegar e quer a todo o custo evitar que antecipadamente se crie no eleitorado a convicção de que o PS pretende governar coligado com a direita.

No bom estilo de Soares, o que vem depois logo se verá. Por agora o que é preciso é derrubar o Governo, rejeitar a política de austeridade e criar uma dinâmica que leve o povo a acreditar que isto é possível. Por outras palavras, o que é preciso é tentar insuflar no PS uma alma que ele manifestamente não tem.

O PS, a Troika do PS, ao contrário de Soares, o que verdadeiramente quer é começar por fazer umas “cócegas” à austeridade, mantendo-a no essencial presente, bem como os instrumentos e as políticas que a suportam, aguardando que uma mudança na Europa venha a abrir um caminho que por agora está fechado. E sabem, o PS e a sua Troika, que a este “programa mínimo” o CDS se não oporá, mantendo-o portanto em reserva para uma eventual aliança, sem sequer sopesar as consequências da rejeição desta hipótese pelos elementos mais reaccionários do CDS menos dados a jogos tácticos, como Nuno Melo e outros… 

Em resumo: Soares pretende criar uma dinâmica que leve ao derrube do Governo. Sabe que essa dinâmica tem de assentar no PS, mas sabe também que essa dinâmica só poderá existir se tiver na Esquerda a sua base propulsora. Tem ainda por certo que a convergência necessária para a criação dessa dinâmica é a luta contra a austeridade. Como será a seguir, isso se verá depois…

 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O ACORDO ORTOGRÁFICO



A DIVISÃO DAS ÁGUAS

Fui contra o acordo ortográfico desde o princípio. Mas só a partir do momento em que se tornou praticamente inevitável a sua entrada em vigor, ou seja, depois da publicação do Segundo Protocolo Modificativo é que “fui à luta” no Politeia, há cerca de quatro anos, publicando sobre o assunto três ou quatro textos.

Analisei a questão no plano político, jurídico e da língua, apesar de este último ser aquele em que naturalmente me sentia menos à vontade. Tinha, porém, a meu favor o facto de conhecer razoavelmente o Brasil, a sociedade brasileira, alguma coisa da sua literatura, do seu movimento editorial e acima de tudo o português que lá quotidianamente se fala na rua, na televisão e na rádio, bem como o que diariamente se escreve nos jornais. E por isso me aventurei a falar de um domínio que não era o meu.

Simultaneamente, na direita intelectual mais reaccionária, como é o caso de Graça Moura, ia-se travando uma intensa batalha contra o Acordo Ortográfico, cujo ponto alto me parece ser o livro do autor acima citado – Acordo Ortográfico, A Perspectiva do Desastre. Entretanto, a reacção contra o Acordo foi-se estendendo a outros sectores da sociedade portuguesa, não conotados com a direita, embora à medida que o protesto engrossava fossem escasseando os argumentos que verdadeiramente o justificava, pontificando muito claramente a partir de determinada altura uma perspectiva puramente conservadora que em si não serve para justificar absolutamente nada.

O próprio Graça Moura, que no princípio tanto se esmerou na busca de argumentos para a rejeição do Acordo, inclusive de natureza jurídica, chegou mais tarde a dizer num artigo no DN – creio que já este ano ou no fim do ano passado – que o Acordo era uma traição aos nossos clássicos!

Enfim, como Graça Moura quando fala politicamente frequentemente raia o absurdo, tal o fundamentalismo dos seus argumentos, nem sequer vale a pena responder a esta “brilhante” objecção.

Também me não seduziu o recente texto de outro brilhante intelectual da direita – Pedro Mexia, politicamente muito mais ágil que Graça Moura – e que tão badalado tem sido nas redes sociais e até replicado por muita gente de esquerda. Claro que o texto – O Aleijão - está bem escrito, como todos os textos de Mexia, é aparentemente sedutor, relativamente irónico, mas a mensagem fundamental que dele se extrai é uma mensagem claramente conservadora, embora disfarçada pela tal agilidade política do autor que tem a manifesta preocupação de deixar claro que uma língua muda “espontânea, inevitável e constantemente”, tentando por esta via atenuar o conservadorismo da mensagem, apesar de ele saber muito bem quão difíceis e lentas são essas mudanças nos tempos em que vigora a norma ortográfica. Por outro lado, no texto de Mexia perpassa difusamente um certo sentimento de suserania perdida, apenas denunciado pelas escassas palavras que acabam o por o trair: “E agora ainda passámos pela humilhação de ter o oficioso “Jornal de Angola”a lembrar-nos que o “étimo latino” ajuda a compreender o percurso de uma palavra”.

É um pouco por estas razões, e também pelo facto de em política a direita nunca ser uma boa companhia que sistematicamente me tenho recusado a “juntar a minha voz” à voz dos intelectuais da direita, numa causa dita transversal.

De facto, o Acordo Ortográfico é politicamente uma imbecilidade (as razões aduzidas neste domínio para o justificar são confrangedoramente medíocres), é juridicamente uma aberração (na medida em que viola o princípio segundo o qual os acordos multilaterais restritos só entram em vigor depois de ratificados por todos os que o assinaram) e constitui no plano puramente linguístico um acto inútil, arbitrário e desigual. Realmente, como muito bem sabe quem conhece com alguma profundidade o português do Brasil, se algum ponto de contacto ele tem com o português de Portugal esse ponto é a grafia e depois a fonética. Em tudo o mais diferem radicalmente. Por isso, terá tanto ou tão pouco sentido negociar um acordo para uniformizar a grafia como teria a negociação de um acordo para uniformizar a fonética!

Por último, nesta luta contra o Acordo Ortográfico seria injusto não recordar o primeiro que em Portugal denunciou as suas arbitrariedades e, simbolicamente, o rasgou no Parlamento da primeira vez que o texto lá foi para aprovação – Jorge Lemos, ex-deputado do PCP.

 

 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

PORTUGAL É UMA HISTÓRIA DE SUCESSO



OU A HISTÓRIA DE UMA TRAIÇÃO
 

 

Estas palavras foram proferidas esta manhã em Berlim pelo Ministro Alemão da Economia, Wolfgang Schäuble, numa conferência conjunta com Vítor Gaspar, depois de uma reunião a dois na capital alemã.

Deixando, por agora de lado, a vergonha que é a generalidade do jornalismo português, mais uma vez demonstrada numa conferência de imprensa onde não houve um único jornalista que na presença do “patrão” de Gaspar tivesse a coragem de o confrontar com a situação político-económica portuguesa e com as responsabilidades que pessoalmente lhe são assacadas, inclusive em meios próximos do Governo, pela calamitosa situação de Portugal, o que interessa agora sublinhar é que a suspeita muito generalizada entre nós de que Gaspar é o principal defensor da política económica do Governo junto dos credores estrangeiros, na qual só vê virtudes e êxitos, recusando-se a apresentar a real situação do país para poder renegociar objectivos e metas impossíveis de cumprir sem a destruição do que resta da economia nacional e sem a marginalização de mais umas centenas de milhares de portugueses, está agora plenamente confirmada pela declarações de Schäuble.

De facto, seria impensável, salvo num cenário de extrema provocação, que o primeiro responsável pela política económica europeia, tivesse a coragem de declarar na presença do Ministro das Finanças português que o “ajustamento em Portugal é uma história de sucesso” se esse mesmo ministro lhe tivesse traçado um quadro minimamente objectivo da situação económica portuguesa.

Esta conferência de imprensa demonstra mais uma vez que Gaspar não desempenha funções no Governo ao serviço do seu país, nem tão pouco está interessado na defesa dos interesses portugueses.

A posição de Gaspar não é apenas a consequência das suas opções ideológicas fundamentalistas nem do desprezo a que vota os seus concidadãos, nem mesmo da completa ausência de elementares valores humanistas, jamais contemplados na sua folha de Excel, ela é também a expressão de uma traição ao povo português que não pode ficar impune hoje, como nunca ficou outrora na longa e velha história deste país.

terça-feira, 21 de maio de 2013

ESTES TIPOS TÊM DE SER JULGADOS


 
A IMPUNIDADE A TODOS PREJUDICA

Pelas vozes mais insuspeitas surge a confirmação de que os partidos que compõem este Governo provocaram a intervenção da Troika em Portugal como meio adequado para pôr em prática um programa de Governo que noutro contexto não teria qualquer possibilidade de execução.

Depois de negociado o Memorando, que confirma e a estabelece as bases de intervenção da Troika, sabe-se igualmente, sem margem para dúvidas, que o Governo, com o pleno assentimento dos partidos que o compõem, por várias vezes declarou que era preciso ir além da Troika. E assim o fez impondo medidas que não constavam do Memorando e que tiveram um efeito devastador sobre o emprego, as empresas, a economia no seu todo e sobre a vida das pessoas em geral.

Há ainda sérias suspeitas de que algumas das medidas mais gravosas decorrentes da última avaliação foram sugeridas pelo Governo e não impostas pela Troika, apesar da brutalidade dos efeitos que tais medidas necessariamente provocam.

Finalmente, há uma coincidência objectiva entre os interesses dos credores e dos principais mandantes da Troika e o comportamento do Governo português que na sua actuação, em dois anos de governação, jamais demonstrou, antes pelo contrário, a menor preocupação pela defesa dos interesses dos portugueses duramente atingidos pela crise, sistematicamente violentados por medidas cada vez mais gravosas numa espiral agressiva que parece não ter fim. Não interessa para este efeito averiguar se os principais responsáveis do Governo actuam deste modo por convicção ideológica ou até por pura perversidade, o que importa é concluir que aquela coincidência objectiva entre os interesses de terceiros e a actuação do Governo é passível de juízo de censura susceptível de tornar essa actuação subjectivamente culposa.

Desta actuação do Governo resultou um gravíssimo dano para a economia portuguesa no seu conjunto, que vai precisar de muitos anos para se recuperar da devastação de que foi alvo, dano esse traduzido em quebras brutais da produção nacional e na consequente falência e destruição milhares de empresas, no desemprego de quase um milhão de pessoas e na miséria de uma parte já muito apreciável da população residente em Portugal.

Por outro lado, este Governo praticou vários actos contra o Estado de Direito cujos princípios dolosamente viola com frequência e tem também, juntamente com alguns dos seus mais conhecidos apoiantes, levado a cabo uma campanha sistemática destinada à abolição desses mesmos princípios, tentando inclusive pela chantagem e pela pressão ilícita impedir os tribunais de os aplicar regularmente.

O Governo pôs também em prática uma política de destruição sistemática dos direitos laborais para que os trabalhadores participem na relação de trabalho despidos dos mais elementares direitos individuais e colectivos de modo a torná-los presa fácil do arbítrio e da exploração desenfreada.

Finalmente, o Governo e os seus principais apoiantes têm levado a cabo uma acção conjugada, apoiada em manipuladoras campanhas de opinião pública, de destruição do Estado e da administração pública em todos os domínios. Esta acção, traduzida num violento ataque contra os funcionários públicos e os reformados da função pública, vítimas de um tratamento arbitrário consubstanciado numa escalada sem fim de espoliação de direitos e de expropriação de salários e de reformas, embora aponte para os funcionários públicos como alvos prioritários, o que verdadeiramente visa é a destruição do Estado, com particular evidência nos sectores de maior incidência social.

Esta devastadora acção governativa, sadicamente executada nestes últimos dois anos, tem autores morais, executantes materiais, cúmplices, “receptadores” e encobridores. Todos sem excepção têm de ser responsabilizados e julgados pelos actos que praticaram.

As manobras de diversão, tipicamente vigaristas, que alguns responsáveis políticos têm tentado pôr em prática exactamente nos momentos em que há um recrudescimento dos ataques e se prepara uma nova e devastadora acção contra a economia nacional, atingindo qualitativamente níveis ainda há bem pouco tempo impensáveis, não podem nem devem confundir-nos, sendo antes elas próprias um elemento importante da acção dolosa do Governo que procura, pela sua exibição pública, desviar as atenções do essencial e refrear a rejeição popular das medidas que se prepara para adoptar.

Também não ajuda à compreensão do que se está a passar continuar a insistir na viabilidade de uma solução europeia diferente daquela que realmente existe e que todos os dias é politicamente confirmadapelos "patrões" da União Europeia.  Dizer que a política de austeridade já não tem alunos nem professores é uma mistificação que a realidade quotidinamente desmente. O que há na Europa, como ainda ontem se viu, pelas declarações do Governador do Bundesbank, é uma reafirmação dos méritos da política de austeridade em toda a linha, sendo inclusive de esperar que a actual política do BCE, de relativo abaixamento da taxa de juro dos países intervencionados, de facto ou de direito, bem como dos que se debatem com “défices excessivos”, venha a ser alterada por uma política que deixe as taxas de juro flutuar de acordo com a capacidade creditícia de cada país, exactamente para evitar que se crie a falsa ilusão de que há dinheiro barato para quem já está exageradamente endividado! E é muito mais provável que isto aconteça do que o contrário. O contrário só poderia suceder no quadro de uma profunda ruptura europeia que, de acordo com os dados que se conhecem, está muito longe de poder acontecer. Ou dito ainda de outro modo: “por cima” nada de diferente acontecerá nesta Europa neoliberal e hayekiana. Se alguma coisa de novo acontecer, isso virá necessariamente “de baixo”. E nesse caso estarão os que confiam na Europa dispostos a integrar essas consequências no seu futuro programa de governo?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

CAVACO E THOMAZ


 

SE CAVACO APENAS ESTIVESSE PASSADO…
 

Depois das invocações da Senhora de Fátima, de “como a minha mulher me chama”, de S. Jorge e dos “cidadões” é normal que nas redes sociais ou, comentadores mais arrojados, nos media institucionais se questione a saúde mental de Cavaco e as consequências que daí poderiam constitucionalmente retirar-se.

Todavia, com o Tribunal Constitucional debaixo de fogo e com uma Procuradora Geral da República escolhida pela Ministra da Justiça pelo “seu amor” ao Ministério Público, não é de que por esse lado se chegue a algum resultado, tanto mais que aquela que pela sua proximidade poderia prestar o testemunho mais convincente é, tanto quanto se sabe, a inspiradora dos últimos grandes pensamentos do Presidente, como ele orgulhosamente tem referido.

 E não adviria grande mal ao mundo se Cavaco apenas estivesse “um pouco passado”. O pior é que ele faz parte daquele grupo de pessoas, e tem nele um papel cada vez mais activo, decididamente empenhado na destruição da economia e da democracia.

E é por isso que a comparação com Thomaz se torna inevitável, mesmo para aqueles que o julgavam inimitável.

De facto, apesar das diferenças – Thomaz não dava calinadas no português típicas de uma quarta classe mal feita, as suas eram quase sempre ligadas ao realce de uma efeméride ou de uma coincidência: “É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive”; “O Chefe de Estado pela primeira vez vem pela segunda vez à feira de Santarém”; “Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei”; “Manteigas é uma terra bem interessante, porque estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude”; “Comemora-se em todo o país a promulgação do despacho número Cem, um texto de grande importância para a Marinha Mercante de Portugal, e a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriormente promulgados”- há muitas semelhanças.

Para usar uma terminologia do Governo, Cavaco está cada vez mais em linha com Américo Thomaz. A malta mais nova não conviveu com Thomaz, mas a mais velha sabe perfeitamente que quanto mais os portugueses se riam dele e das suas imbecilidades, mais decisiva era a sua influência na condução política do país.

Por isso, o importante é evitar que a História, sempre que tem condições para se repetir, não seja necessariamente uma farsa…

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A FINAL DE AMANHÃ


 

ENTRE O BENFICA E O CHELSEA

Por muito que os jornais e as televisões nos tentem convencer que a final de amanhã entre o Benfica e o Chelsea é um jogo muitíssimo importante para qualquer das duas equipas, todos sabemos que a grande final do futebol europeu só terá lugar de amanhã a oito dias.

A final da Liga Europa é muitíssimo importante para equipas sem aspirações na Liga dos Campeões, mas para as equipas grandes, com história naquela grande competição, a vitória na Liga Europa não passa de um prémio de consolação.

E é o que se vai passar amanhã entre as equipas que em Amesterdão se vão defrontar. Consolação para o Chelsea que não vai vencer o campeonato, que foi eliminado da Liga dos Campeões e que não tem ainda garantido o acesso directo à grande prova europeia. Consolação também para o Benfica que foi eliminado da Champions na fase de grupos, apesar de estar integrado num grupo acessível, e consolação ainda por ter praticamente perdido o campeonato.

Portanto, a final de este ano, para além daquilo que ela sempre representa, é também a final dos desiludidos. Evidentemente, nenhum dos dois contendores a quererá perder, mas engana-se quem supuser que a vitória terá o condão de apagar as desilusões da época. Não tem.

 

 

CAVACO IGUAL A SI PRÓPRIO OU EM DECADÊNCIA?



AS PREOCUPAÇÕES DE CAVACO

Muitas pessoas se interrogam sobre se Cavaco estará na plena posse de todas as faculdades. Provavelmente não, mas há outros factores a ter em conta.

Quando reina a maior confusão, seja ela encenada ou verdadeira, sobre aquilo a que o Governo se comprometeu perante a Troika e promete pôr em prática, Cavaco convoca um Conselho de Estado para tratar da situação do país “no pós Troika”. Independentemente do que possam dizer alguns elementos da matilha que logo apareceram a enaltecer a clarividência do Presidente e de a agenda do Conselho de Estado divulgada por Cavaco não corresponder à anunciada pelo porta-voz oficioso do Governo/PR, não deixa de ser inacreditável que, no preciso momento em que a maioria esmagadora dos portugueses está sob fogo cerrado da Troika, das suas organizações de combate ideológico, como a OCDE, e dos que internamente representam os interesses dos credores (Governo, Bancos, EDP, Galp, rendeiros usurários das PPP, comentadores a soldo, etc.) e simultaneamente se aproveitam para potenciarem e maximizarem a exploração e os lucros, o Presidente da República represente aos portugueses como suas preocupações essenciais a "situação pós Troika" e a publicidade sobre as alegadas divergências entre os parceiros da coligação.

Cavaco não está minimamente preocupado com a situação dos portugueses, nem tão pouco sobre o que as alegadas divergências poderiam representar politicamente, mas tão-somente com o facto de elas serem do conhecimento público! É esta atitude ultra reaccionária, anti-moderna, de quem entende a política como algo que deve ser tratado nas costas e no silêncio daqueles a quem ela se dirige que faz de Cavaco o maior problema político dos portugueses no tempo que passa.

Urge por isso aproveitar todas as ocasiões, como as que na próxima semana certamente ocorrerão, para pedir a renúncia de Cavaco. Cavaco é hoje o grande problema político dos portugueses. Sem Cavaco estariam criadas as condições para que as coisas passassem a ter um começo de solução.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

É URGENTE FAZER QUALQUER COISA



QUALQUER COISA MUITO IMPORTANTE
 

Quando tudo já é tão grave tende a perder-se a noção das proporções e o próprio espírito crítico fica inundado por uma avalanche de acontecimentos sem saber bem em quais se fixar.

Ainda Portas não tinha acabado a sua trampolinice e já um tal Hélder Rosalino, interpretando e concretizando as palavras de Passos Coelho, estava a comunicar aos portugueses um corte de dez por cento nos pensionistas da Caixa Geral de Aposentações com efeitos retroactivos. Ainda o Álvaro não tinha deitado para o caixote do lixo o Memorando sobre o Crescimento e o Emprego e já o mesmo Rosalino anunciava o despedimento de mais de trinta mil funcionários públicos.

No meio de tudo isto, Gaspar, em Bruxelas, dizia textualmente: “É muito mais bonito quando se olha para o ajustamento de Portugal” e dias depois concluía que o “regresso aos mercados foi um enorme sucesso”.

Críticas? Para quê? Temos necessariamente que dar um passo em frente e encarar outras formas de actuação. É que não se dá apenas o caso de Portugal estar a ser destruído e as pessoas estarem a ser lançadas na miséria. É mais do que isso o que se passa. Portugal está a ser governado por psicopatas perigosos que não têm qualquer problema em praticar friamente crimes da maior gravidade, deleitando-se com o resultado dos próprios actos que praticam.

É preciso retirar esta gente de cena. De qualquer modo. Para bem de todos.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

8 DE MAIO DE 1945


 

RENDIÇÃO DA ALEMANHA

Não interessa agora evocar a efeméride para sobre ela tecer considerações. Já tudo terá sido dito, quer sobre o 8 de Maio, quer sobre o 7, quer mesmo sobre as bolsas de resistência que se mantiveram aqui e ali por mais algum tempo.

O que interessa mesmo é o “fait divers”. Esse é que ainda hoje pode ser interessante. Vamos então a duas notinhas muito simples.

Já depois de Hitler se ter suicidado e de a guerra estar irremediavelmente perdida, Himmler ainda acreditava que Eisenhower não poderia passar sem ele. A conversa que manteve com Speer quando este vinha da sua última visita ao “bunker” é surreal. Cada um procurava enganar o outro sobre o futuro governo da Alemanha ambos convencidos de que seria um deles a chefiá-lo.

Só mesmo quando foi preso, depois de várias tentativas para chegar à fala com Eisenhower, é que Himmler percebeu que o seu fim tinha chegado e suicidou-se.

Já Speer manteve essa ilusão por muito mais tempo, praticamente até ir para a prisão de Nuremberga. Também ele acreditava que a reconstrução da Alemanha não se faria sem ele. É certo que os ingleses tiveram nisto alguma culpa, mas Speer já acalentava essa esperança muito antes de contactar os ingleses.

E ambos eram muito inteligentes. Speer era mesmo considerado um génio e todavia…

A que propósito vem isto? Numa altura em que por toda a Europa se agravam as medidas de austeridade e em que aos países do sul todos os dias são exigidos mais sacrifícios e mais cortes com tudo o que isso implica há por aí uns pândegos a dizer que a austeridade tem os dias contados e que o bom senso vai acabar por prevalecer em toda a Europa.

Mas se a Alemanha, mesmo derrotada, tem dificuldade em aceitar a realidade como se pode esperar que vitoriosa mude de rumo?

terça-feira, 7 de maio de 2013

A GRANDE MISTIFICAÇÃO


 

A VELHA TÁCTICA

 

Quanto mais brutal é a ofensiva mais necessidade há de a disfarçar através de manobras de diversão variadas, todas elas engendradas com o objectivo claro de distrair as atenções do essencial de modo a evitar uma rejeição espontânea e unânime como a que ocorreu em 15 de Setembro do ano passado com a TSU.

Na passada sexta-feira Passos Coelho anunciou as linhas programáticas, mais ou menos concretizadas, da incidência do brutal corte de despesa pública que o Governo se prepara para pôr em prática, indo mais uma vez muito além do muitíssimo que já era exigido pela Troika.

Para atenuar o efeito psicológico desta verdadeira declaração de guerra aos portugueses, feita em nome e na defesa dos interesses dos credores estrangeiros e daqueles que cá dentro mais têm beneficiado da austeridade – Bancos, EDP, Galp, usurários das PPP, etc. –, o Governo, seguramente assessorado pelos profissionais das agências de manipulação, pôs em prática, antes, simultaneamente e logo a seguir ao anúncio daquelas medidas, três tipos de acções todas elas destinadas ao mesmo objectivo: desviar as atenções do essencial e fazer crer às pessoas que está a chegar um tempo novo, diferente do que elas infelizmente conhecem.

Primeiro, foi o programa de crescimento do Álvaro, encenado com tanto cinismo que até o próprio Álvaro parecia convencido da sua veracidade e viabilidade.

Depois, foram os comentários dos ex-presidentes do PSD, logo seguidos por uma matilha que obedientemente lhes fareja o rasto, tentando fazer crer que a influência maléfica de Gaspar sobre a economia tinha os dias contados. É preciso de facto uma grande "lata" para no preciso momento em que Passos e Gaspar voltam a anunciar mais um brutal ataque contra os portugueses e a economia nacional haver quem diga que a política vai mudar. E o descaramento destes comentadores é tanto mais revoltante quanto é certo eles saberem que não se trata de um ataque pontual, destinado a vigorar este ano ou no ano que vem, mas de um ataque estrutural, para ficar.

Finalmente, a rábula de Portas objectivamente ao serviço da mesma encenação. Não se vai ao ponto de afirmar, como alguns fazem, que se trata de uma manobra combinada com o parceiro de coligação, porque isso significaria dar trunfos a um concorrente eleitoral, posto que situado na mesma área. Mas trata-se indiscutivelmente de uma manobra eleitoralista, cujos efeitos na consistência da coligação e na sua política estão milimetricamente calculados. De facto, Portas concorda com o essencial, em cuja definição política aliás colaborou intensamente, estando apenas disposto, pelas razões indicadas, a limitar alguns dos exageros mais gritantes das propostas da dupla Passos/Gaspar. E mesmo assim vamos ter que esperar para ver até onde vai essa “fronteira” de que ele falou. Uma coisa, porém, é certa, a intervenção de Portas serve, tal como os comentários de Marcelo/Marques Mendes, os objectivos essenciais da política de austeridade e visa, tal como aqueles comentários, diminuir a resistência popular às medidas anunciadas com cuja concretização concorda em mais de 85%! Portas quer tanto ou mais que o PSD que a coligação se mantenha e tudo o que até agora tem feito, sob a capa da pseudo divergência, visa aquele objectivo que ele logra alcançar de uma forma, digamos, mais inteligente.

Perante isto, o PS bem pode continuar a “bater” nas divergências entre o PSD e o CDS e na falta de consenso entre os parceiros de coligação. Eles podem bem com isso, apesar de alguns danos colaterais que este “jogo” lhes causa. Mas que importância tem os danos colaterais face àqueles que de outro modo atingiriam, com as consequências que se conhecem, o próprio Governo na sua essência?

Compreende-se que o PS faça a sua luta na periferia do essencial, já que a sua margem de manobra é muito escassa: por um lado, defende uma política que não depende de si, mas de terceiros, e, por outro, aceitou aprovar um tratado que coloca em pé de igualdade com as ideologias proibidas – fascismo, racismo, etc., - o neokeynesianismo na condução das políticas económicas públicas! É muito…

sábado, 4 de maio de 2013

VAMOS LUTAR PELA RENÚNCIA DE CAVACO



A BEM DE PORTUGAL E DOS PORTUGUESES

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Cavaco é hoje o grande problema com que os portugueses se defrontam. Sem Cavaco não haveria Passos nem Gaspar, o Governo já teria sido demitido e ter-se-ia certamente encetado um esforço sério para inverter o caminho de ruina e de descalabro que tem vindo a caracterizar a vida político-económica portuguesa desde há cerca de dois anos. Contrariamente ao que parece suceder com o país político, partidos de esquerda e PS, que tendem a ver em Cavaco um simples comparsa dos que estão no poder ou, no caso do PS, o grande responsável pelo derrube do último governo socialista, o povo anónimo que se manifesta nas ruas, nas antenas abertas e nas redes sociais tem uma ideia muito mais precisa da responsabilidade de Cavaco na crise portuguesa e do obstáculo que ele representa para a sua superação.
Cavaco Silva é o primeiro Presidente da República eleito por sufrágio universal que tem contra si a esmagadora maioria dos portugueses, além de nunca ter reunido a sua simpatia, mesmo durante o primeiro mandato. Os portugueses não confiam em Cavaco nem acreditam que ele esteja à altura das exigências da função. Os portugueses compreenderam que Cavaco é parcial e que sob a falsa capa de político apolítico coloca permanentemente os interesses partidário-pessoais acima dos interesses nacionais, como aliás sempre fez durante os mandatos em que exerceu as funções de Primeiro Ministro.
Com um passado político de escasso apego aos valores democráticos, Cavaco é também o primeiro Presidente da República saído do 25 de Abril que não pode, como cidadão, exibir no seu curriculum um único gesto ou atitude que o tivesse demarcado da ditadura, facto tanto mais notado quanto é certo ter vivido numa época em que essa era a norma da geração estudantil a que pertenceu.
Essa difícil convivência com os valores genuinamente democráticos teve mais tarde plena confirmação quando, surpreendentemente, desempenhou durante dez anos o cargo de Primeiro Ministro, em cujas funções pautou politicamente a sua conduta por um propositado afastamento dos princípios que regem a vida política em democracia. Cavaco desprezava o Parlamento, de cuja maioria se serviu como simples caixa de ressonância do governo, fazendo-a aprovar acriticamente as medidas que por imposição constitucional não poderiam deixar de ai ser aprovadas, assim como desprezava as oposições e os seus deputados tanto em ostensivas manifestações de ausência como em arrogantes e prepotentes demonstrações de poder sempre que, também por impositivo constitucional, se não podia furtar à presença no Parlamento.
Esta recusa de diálogo com os seus opositores políticos e de indisfarçável desprezo pela função parlamentar são a marca de uma atitude, herdada do salazarismo, que pretende fazer passar a ideia junto do povo apolítico ou insuficientemente politizado de que o verdadeiro chefe tem coisas mais importantes a fazer do que gastar inutilmente o seu tempo a discutir com os deputados da oposição.
Autocrata por convicção, mesquinho por formação e vingativo por temperamento, Cavaco era, a todas as luzes, dos políticos portugueses aquele que menos condições políticas e emocionais reunia para o desempenho do cargo de Presidente da República. 
E se logo no primeiro mandato Cavaco deu provas seguras dessa incapacidade de suportar a crítica e a divergência, absolutamente normais na vida política, transformando pequenos e insignificante episódios em verdadeiros casus belli, foi no segundo mandato, primeiro perante a fragilidade do Governo em funções e depois na convivência com um governo do seu partido, que Cavaco teve e tem tido a oportunidade de se exibir tal qual é.
Depois da triste figura que fez nas comemorações oficiais do 25 de Abril, colando-se aberta e declaradamente a um governo que não dá tréguas na sua obstinada caminhada para a destruição do país, ao serviço e em obediência a interesses estrangeiros, Cavaco prepara-se para aceitar, sem críticas ou com críticas de circunstância de circunstância, mas sempre falsas e despidas de consequências, o demolidor ataque que o Governo hoje à noite anunciou contra Portugal e os portugueses.
Na ausência de entidades que institucionalmente os defendam do descalabro e da ruina e de instituições capazes de assegurar a dignidade nacional, os portugueses, no estado de calamidade pública em que se encontra o país, têm o direito de exigir alterações radicais na superestrutura política com vista à viabilização das políticas que necessariamente se impõem.
Como Cavaco não está à altura das exigências do país, os portugueses devem exigir a sua renúncia com o mesmo empenho e determinação com que exigem a demissão do Governo.
A renúncia do Presidente da República e a demissão do Governo são exigências impostas pela sobrevivência de Portugal como país ao serviço dos portugueses!