A PROPÓSITO DO ORÇAMENTO DE 2012

Como muita gente se recordará, Seguro levou o PS a defender a
abstenção ao primeiro orçamento do Governo PSD/CDS – a chamada “abstenção
violenta” –, posição que caiu muito mal em certos sectores do partido e
seguramente em muitos dos seus votantes que contavam com uma atitude mais enérgica
do Partido Socialista face ao que se antevia como o começo de uma feroz
escalada da direita encabeçada pela dupla Passos Coelho/Paulo Portas. Seguro
foi inclusive mais longe: não deu a sua anuência à impugnação da
constitucionalidade de algumas das mais gravosas medidas daquele orçamento por
entender que esse não era o terreno de luta política do Partido Socialista
deveria pisar. O pedido de apreciação sucessiva da constitucionalidade dessas
medidas acabaria, todavia, por ser requerido pela esquerda parlamentar com a
adesão de um conjunto de deputados do PS que actuaram a título individual e
aparentemente contra a linha oficial do partido.
As posições de Seguro são obviamente criticáveis pela
esquerda, mas são claras. Seguro entendeu que o PS estava comprometido com a política
do Memorando assinado com a Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e
Fundo monetário Internacional), tanto mais que o Memorando, embora também
tivesse sido assinado pelo PSD e pelo CDS, havia sido negociado pelo Governo do
Partido Socialista. Pareceu-lhe, mal ou bem, mas foi isso o que lhe pareceu,
que a oposição do PS a um orçamento destinado a alcançar os objectivos fixados
naquele documento, pelos meios nele previstos e impostos, constituiria um insustentável
acto de demagogia.
O Memorando, como se sabe, traça objectivos, fixa metas e
prescreve em múltiplas circunstâncias os meios que devem ser adoptados para os
alcançar. A política neoliberal que o Governo pôs em prática é política imposta
pelo Memorando. Quem a ele se vinculou não poderia esperar outra coisa e se mais tarde realmente pretendia outra coisa a primeira atitude a tomar deveria ter sido o repúdio do
Memorando.
Mas isso o PS nunca o fez, nem nunca nenhum dos seus mais influentes
representantes sequer fez menção de o insinuar.
A política de Seguro é de direita, mas é clara. Ele não
discorda do essencial. O que pretende é limar certas arestas. Atenuar a
brutalidade de certas políticas, acreditando piamente que, mais tarde ou mais
cedo, a “Europa” acabará por defender algo de semelhante.
Com Seguro as coisas são, portanto, relativamente claras e previsíveis. Com
Costa, não. Contrariamente ao que alguns agora pretendem fazer crer quem no PS
fez explicitamente a apologia do “Bloco Central” foi António Costa. Foi essa
durante meses e meses a sua linha de actuação na “Quadratura do Círculo”,
porventura com base na salvífica esperança de que um dia, não muito distante, o
PSD viesse a ser governado por alguém que interpretasse tão semelhantemente
quanto ele o “interesse nacional”.
Mesmo com Passos Coelho à frente do
PSD e no contexto de uma coligação PSD/CDS, Costa não se coibiu de afirmar, em jeito
de teorização, que os dois grandes partidos nacionais (PSD/PS) deveriam reciprocamente
oferecer-se condições de governabilidade em tudo o que fossem "instrumentos fundamentais" de governação sempre que um deles estivesse no poder
sem maioria absoluta, sem prejuízo da oposição na especialidade a medidas relativamente
às quais não tivesse sido possível chegar a um entendimento pela via negocial.
Por outras palavras: a mensagem de Costa era clara e
ultraconservadora (mesmo para amplos sectores do PSD): “isto da governação é um
assunto nosso; nós é que temos de criar reciprocamente as condições de governabilidade;
quem ganhou as eleições deve poder acabar a legislatura; em casos excepcionais de
grave crise nacional deve inclusive ir-se mais longe: um compromisso válido por
vários anos”.
A “doutrina de Costa” era, nas suas próprias palavras,
aplicável aos orçamentos, às moções de censura e às moções de confiança – os tais
instrumentos fundamentais da governação por via dos quais se assegura a “governabilidade”.
Esta doutrina visa, como é óbvio, excluir da governação as
franjas, mesmo que essas “franjas” representem cerca de trinta por cento do
eleitorado, circunscrevendo-a ao grande e amplo consenso PSD/PS.
Todavia, Costa apercebeu-se a breve trecho que esta “doutrina”
não tinha pés para andar. Não somente ela era maioritariamente rejeitada pelo
PS na oposição (outra coisa é o PS no governo, onde tudo muda de figura e tudo se
justifica com o argumento de que é necessário impedir por todos os meios o
regresso da “direita” mesmo que para isso seja necessário imitá-la…), como
também pelo próprio PSD de Passos Coelho que realmente precisava do PS para
muito pouco. Ou seja, aquilo que ele pretendia do PS era alcançável sem
concessões…por as posições que lhe tornavam cómoda a governação fazerem parte
da própria matriz socialista, já que quanto ao resto, independentemente da
retórica, o mais indicado era não entrar em nenhum tipo de compromisso, que, a
fazer-se, só poderia comprometer a “pureza” dos objectivos que ele, Passos
Coelho, pretendia alcançar no quadro da mais pura ortodoxia com a cumplicidade
covarde do CDS.
E como Costa se apercebeu de que aquela sua "doutrina" não
tinha viabilidade com Passos Coelho, passou a defender, primeiro, que o PS
deveria demarcar-se na especialidade das propostas com as quais não concordava,
para mais tarde já aceitar que o PS deveria “dar um sinal claro de que está
contra as opções políticas do Orçamento”.
Costa foi portanto modelando a sua posição não apenas em função
da intransigência ideológica de Passos Coelho, mas também da própria opinião
pública, sem porém jamais apresentar uma inequívoca proposta de mudança. A sua
luta circunscreveu-se, por um lado, à exigência de defesa do passado recente do
partido por parte da actual direcção, sem que ele alguma vez se tenha
pessoalmente empenhado nessa tarefa mais do que o indispensável, e, por outro,
à difusão da mensagem de que, com ele à frente do Partido Socialista, estariam
criadas as condições para congregar uma ampla frente capaz de apoiar um “projecto
de mudança” sem contudo jamais exibir uma única proposta ou sequer aceitar
questionar alguns dos temas incontornáveis à tão propalada mudança de política (dívida,
défice, Europa, euro, etc….).
Em resumo: a escolha dos militantes e simpatizantes do PS
pode ser puramente emocional, mas a dos portugueses que realmente lutam por uma
mudança terá de ser racional…


