segunda-feira, 8 de junho de 2009

A "COISA" DE SARAMAGO


A COISA NA POLÍTICA ITALIANA

A memória política e na política obriga-nos a algum comedimento. Nunca fui favorável à utilização de argumentos ou até de expressões que já tenham sido usados para exprimir realidades completamente diferentes das que agora se criticam, principalmente quando umas e outras se situam em planos políticos muito diferentes.
Coisa foi o nome que os dirigentes do Partido Comunista Italiano atribuíram ao partido depois de terem decidido a sua transformação numa entidade diversa, após a implosão da União Soviética. No espaço que mediou entre a sua extinção e a subsequente transformação, foi-lhe, por Acchille Occhetto, filosoficamente atribuído o nome de Coisa!
Para um partido de tão nobres tradições na luta anti-fascista e democrática, aquela “filosófica” denominação chocou todos os que anteviram que a Itália jamais seria mesma sem o seu PCI!

OS RESULTADOS ELEITORAIS


A DERROTA DO PARTIDO SOCIALISTA

Escrutinados quase todos os votos, ouvidos os comentários dos líderes partidários e respectivos cabeças de lista, fica a certeza que o PS registou uma das maiores derrotas eleitorais da sua história, apenas superada pelo catastrófico resultado de Almeida Santos em 1985.
Para essa derrota contribuíram as políticas anti-populares de Sócrates durante quatro anos e a desastrada prestação do cabeça de lista durante a campanha eleitoral. Se as políticas de Sócrates, sempre acompanhadas de actos de pura propaganda e, com o aproximar das eleições, de algumas medidas de raiz demagógica, ainda, a acreditar nas sondagens, se mostravam capazes de aguentar, dentro de limites politicamente aceitáveis, a onda de contestação ao Governo, já o mesmo se não passou com a prestação do cabeça de lista que, com a sua actuação, contribuiu decisivamente para que essa contestação atingisse números antes inimagináveis.
Como aqui dissemos na hora, a escolha de Vital Moreira para cabeça de lista do PS às europeias foi um acto que desafiava a mais imaginativa das compreensões. Que terá levado Sócrates a fazê-lo é ainda hoje para muita gente um mistério, já que não é de acreditar que um líder partidário seja politicamente tão ingénuo que se torne incapaz de avaliar a mais-valia eleitoral de um candidato. Já são mais fáceis de compreender as razões que levam alguém com pretensões políticas a aceitar o desempenho de um papel para o qual não está capacitado. A vaidade é grande inimiga do homem. Do homem comum e do homem inteligente. Infelizmente, atinge-os por igual, mesmo quando se metamorfoseia em falsa modéstia, o que manifestamente não é o caso.
Para o PS a derrota é muito grave tanto pelo que ela representa hoje como pelo que representará no futuro. Não parece quer o PS tenha, nestas eleições, perdido o centro-direita ou sequer a direita que costuma votar nele. O que o partido perdeu foi aquele eleitorado que, ingenuamente, ou por falta de alternativa, acreditava que o PS também era uma força de esquerda capaz de pôr em pratica uma política democrática relativamente distributiva sem concessões àquilo que interiorizou como “dogmas comunistas”. Acontece que esse eleitorado está profundamente decepcionado e descrente na real capacidade de o partido realizar tal política. Por isso, se refugiou na abstenção ou votou no Bloco, cujo crescimento tem sido fundamentalmente alcançado à custa do voto jovem urbano e do eleitorado socialista.
E há fortes motivos para preocupação futura, porque este eleitorado é de muito difícil recuperação. Causticado por decepções sucessivas, e intuindo que a chamada ala esquerda do PS não passa de uma fantasia, este eleitorado tenderá a engrossar o Bloco de Esquerda, logo que seja capaz de romper a barreira psicológica da fidelidade partidária ou de voto. O PS tenderá, por isso, a ser, cada vez mais, um partido de centro com uma forte incidência de centro-direita. O percurso político pessoal de todos – todos, sem excepção! – os seus militantes politicamente intervenientes, oriundos de forças de esquerda, que num passado já remoto ou até mais próximo, contestaram as políticas de direita do PS, tem sido no sentido da sua aproximação às teses de direita que o partido põe em prática, principalmente no campo económico, no social com repercussões económicas e no entendimento da própria democracia política. Quer isto dizer que não há dentro do partido qualquer força política organizada ou organizável capaz de inverter ou, no mínimo, equilibrar a acentuada viragem á direita da nomenclatura socialista.
Por seu turno, a vitória de Rangel está muito longe de constituir a vitória que a direcção do PSD apregoa. A vitória de Rangel acontece, apesar do PSD, por mérito próprio e demérito do seu principal opositor. Não é em termos numéricos uma grande vitória. Pelo contrário, ela confirma o PSD como partido incapaz de encontrar por si uma solução governativa. Nesta vitória pesou muito o facto de Rangel ter aparecido só. Uma campanha com Ferreira Leite será um verdadeiro desastre, por mais que daqui até às eleições os intoxicadores da opinião pública façam um grande esforço de distorção da realidade.
O Bloco tem todas as condições para continuar a subir, embora vá seguramente perdendo em radicalismo aquilo que ganhar em eleitorado.
A CDU é hoje uma força estável, com tendência para alargar a sua influência a outras áreas geográficas, além das tradicionais.
O crescimento das duas forças de esquerda vai ainda depender muito do modo como reciprocamente interpretarem os respectivos papéis. O sectarismo, o triunfalismo ou qualquer tipo de tentação hegemónica ser-lhes-ão fatais. E por isso a esquerda portuguesa, que não milita activamente, mas que inequivocamente dá o seu apoio a uma política de esquerda e espera finalmente poder colher os seus benefícios, nunca perdoaria que razões menores pudessem pôr em causa aquilo que cada vez mais se apresenta como a possibilidade de concretização de legítimas expectativas.
Finalmente, o CDS tem razão para se sentir agastado com as sondagens. Prova de que a vitória de Rangel não é a vitória que o PSD já canta, é o resultado alcançado pelo CDS em condições muito difíceis (principalmente, políticas e económicas), e que muito se deve à boa prestação de Nuno Melo, tanto no Parlamento, como na campanha.
O crescimento do BE, CDU e CDS – os verdadeiros vencedores destas eleições – fará, daqui até Outubro, aumentar o discurso da ingovernabilidade, destinado a preparar, se não houver uma oposição muito firme, susceptível de ser levada às últimas consequências, o clima político para uma reforma do sistema eleitoral patrocinada pelo Bloco Central – PS e PSD.

domingo, 7 de junho de 2009

A DECLARAÇÃO ANTIDEMOCRÁTICA DE VITAL MOREIRA





O PRIMEIRO COMENTÁRIO



O comentário ao resultado das eleições será feito mais logo. Agora apenas cabe sublinhar o comentário antidemocrático do cabeça de lista do PS. Nada que não se esperasse.
Vital Moreira apresentou como facto negativo a votação nos partidos de esquerda, querendo com essa sua afirmação sublinhar o mesmo que qualquer vulgar reaccionário normalmente pensa: a esquerda pode existir, desde que não governe nem constitua uma força capaz de influenciar a governação. Mas pior do que tudo isso é o que veio a seguir, ou seja, o alarme já lançado sobre a alegada fragmentação do sistema partidário. O que isto, por outras palavras, quer dizer é que Vital Moreira já se candidatou para fazer a teorização de uma reforma do sistema eleitoral que leve à aprovação de uma lei que privilegie os dois partidos por agora mais votados, através da criação de falsas maiorias, e marginalize os restantes.
ADITAMENTO
Ouvida a intervenção de Jardim, apraz registar a sua consonância com Vital Moreira. Também ele considera sintoma de "doença democrática"o somatório da votação BE/CDU. É preciso mudar o sistema, diz.

AINDA O DISCURSO DO CAIRO


UMA BREVE NOTA

Não tendo feito, na altura própria, o comentário que o evento justificava, aqui fica uma brevíssima nota sobre a importância do discurso de Obama.
O que o discurso tem de verdadeiramente inovador na política americana desde Reagan, talvez mesmo desde Carter (deixando sempre um hiato para Bush pai, um político realista da velha escola) é a afirmação, sob a forma de princípio, de que a crença nos nossos valores e a convicção com que os defendemos não nos atribui o direito de os impormos aos outros. Traduzindo: a democracia não se exporta. “So let me be clear: no system of government can or should be imposed upon one nation by any other”.
O quarto tema do discurso de Obama, a Democracia, rompe com um dogma do pensamento neoconservador que influenciou decisivamente a política americana nestes últimos trinta anos. Ou seja, que a natureza interna dos regimes influencia o seu comportamento externo e que o poder (americano) deve ser usado para fins morais. Por outras palavras, as sociedades liberais democratas têm o dever de lutar pela mudança dos regimes que não defendem os mesmos valores e devem colocar esse objectivo como uma prioridade da sua política externa, tanto mais que o direito internacional se revelou demasiado fraco para garantir a segurança colectiva.
Esta negação da legitimidade do direito internacional, logo do multilateralismo, a afirmação do papel quase messiânico atribuído ao poder americano na busca do bem geral e a imposição do direito de lutar pela mudança dos regimes que se fundamentam em princípios diferentes dos das sociedades liberais democratas – ou seja, o travejamento basilar do pensamento neoconservador em política externa foi inquestionavelmente posto em causa pelo discurso do Cairo. Verdadeiramente, houve uma ruptura. Veremos se a prática política americana vai estar à altura do significado profundo deste discurso. Veremos também como reagirá, principalmente nas universidades, a grande intelectualidade americana a esta revolução coperniciana da política externa.
Evidentemente, que o pensamento neoconservador estava muito longe de recolher a unanimidade do pensamento político americano, principalmente depois do desgaste que a prática de George Bush lhe causou. Todavia, engana-se quem pensar que há uma parte significativa da intelectualidade americana (e, obviamente, da própria sociedade) imune à influência do pensamento neoconservador. Isso não se passa na América, nem tão-pouco se passa em alguma esquerda europeia, cujas raízes ideológicas não andam, de resto, muito longe da génese ideológica do neoconservadorismo americano.

sábado, 6 de junho de 2009

POLÍTICA INTERNA: TEMA FORTE DE TODAS AS CAMPANHAS



POR QUE NÃO SE DISCUTE POLÍTICA EUROPEIA?

É um facto inquestionável que, em toda a Europa, o grande tema de debate das eleições para o Parlamento Europeu foi a política interna dos respectivos países. Perante um facto tão notório, repetido por todo o lado, com mais ou menos intensidade, não adianta entrar no discurso recriminador, acusando os candidatos, nomeadamente as oposições, de aproveitarem estas eleições para ajustar contas com os respectivos governos. Se os cidadãos sentissem realmente as questões europeias como problemas seus, nada impediria a discussão destes temas e que o seu debate acalorado se fizesse entre os candidatos. Se isso não acontece e se, por todo o lado, em vez de assuntos europeus se privilegia a discussão das questões internas, o que sensatamente terá de fazer-se é perguntar por que razão isso acontece.
A principal razão desta situação parece ser a falta de legitimidade da União Europeia. Mesmo sem grandes elaborações teóricas, nem especiais conhecimentos na matéria, os eleitores sentem que estas eleições servem para muito pouco ou mesmo para nada, como parece ser a opinião da maioria.
A União Europeia regula-se à revelia das mais elementares regras da democracia vigente na maior parte dos Estados membros e as pessoas sabem isso. Sabem que há na UE órgãos políticos a mais e órgãos verdadeiramente representativos a menos e que, em última instância, quem acaba por ser responsável pelo que lá se passa são os respectivos governos nacionais. Mas, se é assim, para que discutir política europeia nestas eleições? Mais: que sentido têm estas eleições?
Neste modelo de construção europeia, atípico e imperfeito, é caso para perguntar se não faria mais sentido que os membros do parlamento de Estrasburgo saíssem dos parlamentos nacionais, mediante uma eleição que respeitasse a proporcionalidade existente na câmara.
Não se trata de defender menos democracia. Trata-se, pelo contrário, de garantir mais transparência e menos mistificação. Se o Parlamento não tem os poderes normalmente atribuídos a um órgão parlamentar para quê elegê-lo directamente? E se o Conselho, cada vez mais poderoso, não responde realmente perante ninguém, a não ser, indirectamente perante as opiniões públicas nacionais, que sentido faz eleger directamente o Parlamento?

AS BASÓFIAS DE QUEIROZ


O JOGO DE LOGO, CONTRA A ALBÂNIA

Ao contrário do que vai dizendo a maior parte dos comentadores, o jogo de logo à tarde da selecção contra a Albânia não é decisivo. Decisivos foram os seis jogados até hoje e a magríssima pontuação neles alcançada. Uma hipotética vitória apenas adiará, por mais algum tempo, um desfecho esperado e inevitável.
Pois, não obstante este triste quadro, o seleccionador nacional continua a “basofiar” (“Se fosse albanês…”) naquele estilo tão típico dos fracos, com total impunidade da imprensa portuguesa, desportiva ou não.
Mas já não falta muito para saber se, apesar de Queiroz, os jogadores conseguem ganhar à Albânia.

BALANÇO DA CAMPANHA


QUEM GANHA E QUEM PERDE

É opinião quase unânime que a CDU e Paulo Rangel fizeram uma boa campanha. O CDS, apertado no seu raio de acção pelo PSD, e sem querer abrir hostilidades contra Rangel, fez o que pôde. O Bloco, cujas expectativas com que parte, ou que outros lhe criam, dificilmente se confirmam, teria estado mais à vontade se a discussão tivesse incidido mais sobre Europa e menos sobre política interna. Finalmente, o PS que, no decurso da campanha, passou da depressão à euforia, provavelmente exageradas tanto uma como outra, acabou-a com a convicção de que dificilmente alcançará um nível de votação que lhe permita aguentar o desgaste governativo daqui até às legislativas.
Na campanha do PS pesaram decisivamente a crise e o cabeça de lista. Ambos pelas piores razões. Por mais que se tivesse esforçado, o PS não conseguiu desligar a sua governação da maior parte das consequências da crise, se não mesmo de algumas causas e isso pesará no resultado final. O modo como durante quatro anos fustigou amplos sectores da sociedade e como agravou as desigualdades sociais, em homenagem a um pretenso valor (redução do défice) que, uma vez alcançado, logo se desvaneceu com a rapidez de um relâmpago, nunca lhe permitiu ter uma campanha fácil e antecipadamente vitoriosa. Contudo, o estado de permanente guerrilha interna em que o PSD iniciou a campanha permitir-lhe-ia acalentar certas esperanças de vitória. Porém, esta possibilidade, mais por demérito do concorrente directo do que por mérito próprio, foi relativamente inviabilizada pela infeliz campanha do seu cabeça de lista.
De facto, saiu-se mal tanto na defesa da política comunitária, como na da política interna. Tendo começado por afirmar que apenas queria discutir Europa, viu-se batido no primeiro frente-a-frente com os demais candidatos quando não foi capaz de responder convincentemente aos argumentos de uma Europa alternativa, nem às repercussões internas da política europeia. Voltou a sair-se mal na política europeia, quando trouxe para a discussão uma proposta muito mal preparada (criação de um imposto europeu), quase de conversa de café, vendo-se obrigado a recuar tanto por pressão das críticas dos concorrentes, como de pressões internas. Perante o agravar da situação, Sócrates e outros notáveis do PS tiveram de intervir na campanha, subalternizar o candidato, para criar no eleitorado a convicção de que a hegemonia eleitoral estava restabelecida. Com este objectivo relativamente conseguido e supondo-o razoavelmente consolidado, as altas figuras do PS voltaram a afastar-se da campanha, deixando novamente o candidato entregue a si próprio. É então que, por iniciativa deste, se assiste a uma reviravolta no discurso eleitoral, doravante apenas preocupado com questões de política interna, para responder mais incisivamente ao principal adversário eleitoral – o PSD. É neste novo quadro que o cabeça de lista abre uma nova frente, ligando o PSD ao BPN, sem ter em conta as repercussões desse discurso no contribuinte, que, por força de uma decisão pouco esclarecida do PS, sabe que vai ter de pagar os onerosíssimos estragos causados no BPN por administrações ruinosas, sempre com o silêncio e a complacência da autoridade reguladora.
Rangel, que andou quase sempre só, aproveitou o debate sobre temas nacionais para tirar toda a vantagem da discussão. Acabou por capitalizar o facto de não beneficiar abertamente do apoio de ninguém importante dentro do partido, mostrando-se como o novo rosto do PSD. Pode não ter tido banhos de multidão, laboriosamente organizados pelas estruturas partidárias, pode não ter feito comícios previamente encenados com cânticos, bandeirinhas e outras coreografias, mas apesar de ter andado sempre só nunca deu a imagem de ser um homem isolado. Pelo contrário, é nele que o militante desenfeudado e o votante anónimo do PSD confiam para fazer ressurgir o partido. Pode não ganhar, mas andará lá muito perto.
O CDS, com Portas e Nuno Melo, fizeram um grande esforço para encontrar um espaço de afirmação numas eleições onde o partido já defendeu quase todas as posições possíveis relativamente à Europa. Nesta campanha privilegiaram a política interna, realçaram os méritos da sua actividade parlamentar de oposição ao governo, nomeadamente a vigorosa denúncia e posterior investigação da complacência culposa da entidade reguladora das actividades financeiras, embora muito provavelmente nada disso impeça que o CDS venha a ser o grande sacrificado do voto útil (que nestas eleições até nem tem razão de existir) e o principal prejudicado do ressurgimento do PSD. Se conseguir eleger um deputado, poderá dar-se por feliz.
O Bloco, que começou muito bem na discussão das questões europeias, opondo-se com vantagem ao que parecia ser o ponto mais forte do candidato do PS, acabou por fazer uma campanha tipicamente de questões internas, num estilo muito próximo do que tem sido a matriz do partido desde que foi criado. O seu êxito vai fundamentalmente resultar da mobilização do voto urbano jovem. Provavelmente duplicará a sua participação no PE.
A CDU fez desde o princípio ao fim uma campanha muito forte, coerente e sem falhas. Vendo a Europa como mais um palco de luta pela defesa dos interesses nacionais, tal como os interpreta, a CDU não tem que se defrontar com alguns dos problemas atinentes à construção europeia com que os outros partidos se defrontam. Por outro lado, continuando a ser a força social mais consistente, com maior capacidade de luta e de reivindicação, a CDU, numa eleições como estas, poderá captar o voto de todos aqueles que entendem ser benéfico para a democracia a existência de um partido relativamente forte capaz de se opor com tenacidade e persistência aos desvarios de um governo que não hesita em passar por cima dos interesses da maioria em nome de uma mirífica e nunca alcançada vantagem futura. Ponto é saber se, não obstante toda essa imensa capacidade de luta, aumentará o número de deputados.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

AINDA A CAMPANHA DO PS E O BPN


O QUE TODO O MUNDO PERCEBE

A sondagem de hoje, da Católica e a de ontem, da Marktest, demonstram que algo vai mal na campanha do PS. Mais correctamente: que algo piorou, desde que a campanha começou.
Toda a gente sabe que o PS partia para estas eleições em condições difíceis. Pela ordem natural das coisas, se o PSD estivesse minimamente unido e não constituísse um partido tão próximo de um reino feudal como na realidade constitui, o PS perderia as eleições. Com o PSD na situação em que está, a vitória do PS parecia assegurada sem dificuldades de maior.
Certamente que o PS e o PSD têm, à escala nacional, uma quota-parte de responsabilidade na crise internacional actual. Tanto um partido como outro tudo fizeram, enquanto governaram, para colocar o país a la page com o que de mais “moderno” se passava lá fora em matéria de liberalização da economia, desregulamentação, diminuição do papel do Estado, entrega dos sectores estratégicos da economia à ganância do lucro privado, discriminação do trabalho como força social e secundarização das classes trabalhadoras no processo produtivo. O discurso de ambos os partidos foi e continua a ser um discurso completamente orientado para as empresas, no qual, sem pudor, como a coisa mais natural do mundo, se concebe e se defende o Estado como instituição ao serviço exclusivo do capital. E no que respeita ao processo de construção europeia, a sintonia ainda é maior. Teoricamente, não haveria portanto razões para beneficiar um partido em detrimento de outro já que ambos são por igual responsáveis pelo que se passa na sociedade portuguesa, servindo as bravatas que aqui e ali eclodem entre os seus dirigente apenas par disfarçar a grande consonância existente entre ambos sobre tudo o que é essencial. Esta grande convergência de propósitos não significa que não haja, como na realidade há, uma luta intensa pelo exercício do poder de que as bravatas sobre questões menores constituem o exemplo mais significativo.
Evidentemente que a grande força do poder ideológico, que se manifesta em todos os domínios da sociedade e sem o exercício e os efeitos do qual não seria possível manter a coesão social, faz com que as coisas sejam vistas de forma muito diferente daquilo que na realidade elas são pela generalidade dos eleitores. E é esse poder que, no fundo, assegura a alternância entre o PS e o PSD.
Exactamente por isso é que certo tipo de bravatas não cabem neste jogo e quando são usadas por uma das partes elas acabam por ter um efeito completamente diferente do esperado perante aquelas pessoas – e são a larga maioria – que, apesar de sujeitas ao tal poder ideológico - que não lhes permite ver a realidade como na realidade ela é -, nesses casos não se deixam enganar tal a evidência dos factos em questão.
Assim aconteceu, se bem interpreto, com a tentativa de ligação do caso BPN ao PSD. Certamente que o que se passou no BPN releva do gangsterismo financeiro e também é verdade que muitos dos que lá estavam desempenharam papéis importantes no PSD. Só que nestas matérias o eleitor sabe que comportamentos igualmente reprováveis são comuns a gente do PS e que essa gente se aproveitou ou aproveita do aparelho de Estado, a qualquer nível, para colher vantagens pessoais. E sabe também que as tais situações de gangsterismo financeiro somente foram possíveis porque quem fiscalizava fechou completamente os olhos a todas as práticas ilícitas e duvidosas. No mínimo, fê-lo por negligência grosseira, já que o dolo eventual, nestas circunstâncias, é muito difícil de provar. Mas já não é difícil provar que havia, por parte da entidade reguladora, uma predisposição sociológica e política, reiteradamente manifestada ao longo dos anos, de protecção do capital financeiro em detrimento dos utentes do sistema, que fez com que situações igualmente graves tivessem acontecido noutros bancos e possam inclusive estar ainda a ocorrer noutras instituições.
A incapacidade de aceitação das responsabilidades, contra toda a evidência dos factos, por parte da entidade reguladora demonstrou que ela não está em condições de se auto-regenerar e demonstrou também que a protecção que o governo dela fez e faz apenas se compreende por via de uma cumplicidade empenhada na defesa do mesmo tipo de interesses.
Por estas razões e porque a generalidade das pessoas finalmente percebeu que vão ser elas, enquanto trabalhadores e contribuintes, a pagar o gangsterismo de uns e a incúria de outros, é que a bravata trazida para a campanha eleitoral pelo cabeça de lista do PS se virou contra o próprio partido e fez com que, juntamente com outros dislates menores, tivesse havido uma reviravolta nas intenções de voto. Que pode não ser suficiente para a derrota, mas que anda lá muito perto.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

ELEIÇÕES EUROPEIAS: ÚLTIMA SONDAGEM


AFINAL, QUEM VAI À FRENTE?

Caiu como uma bomba nas hostes socialistas o resultado da sondagem da Marktest para a TSF e o Jornal de Negócios, que prevê um empate técnico, com vantagem de dois pontos para o PSD.
Se outras sondagens, a publicar nos próximos dias, confirmarem os resultados desta, isso significará que o PS e a maior parte dos órgãos de comunicação se enganaram redondamente sobre a marcha da campanha eleitoral. Depois de um começo verdadeiramente desastroso, o PS acreditou que, com a descida de Sócrates ao terreno, havia invertido o rumo da campanha e assegurado uma vitória tranquila aos seus candidatos. E a tal ponto esta convicção se deve ter instalado no seio do estado-maior socialista, que até os “candidatos clandestinos” receberam autorização para se mostrar e intervir na campanha.
Pelo contrário, Rangel, que foi fazendo a campanha muito isolado ou com apoios indesejáveis, pode passar de candidato derrotado a candidato vitorioso. Se isso acontecer, tal situação não deixa de constituir uma estrondosa derrota para o PS e para a auto-suficiência do seu cabeça de lista. De facto, em muitos momentos da campanha, Rangel mais parecia uma daquelas equipas que jogam sem treinador e com os vencimentos em atraso, tal a solidão que frequentemente o acompanhava mesmo nas tradicionais praças-fortes do PSD.
Os meios materiais de que o PS dispõe e que faustosamente exibiu durante toda a campanha justificariam uma vantagem folgada. Se a não alcançar, como se espera, estas eleições, se para outra coisa não servirem, teriam pelo menos o mérito de pôr termo à arrogância socialista e à sua incapacidade para aceitar pontos de vista diferentes dos seus por mais razoáveis que sejam.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

ISRAEL E AL QAEDA: A GRANDE CONVERGÊNCIA



OBAMA AMANHÃ NO CAIRO


Barack Obama iniciou hoje uma importante visita aos dois países árabes aliados dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Egipto, com o objectivo declarado de dar um passo muito importante no processo de reconciliação dos Estados Unidos com o Islão. É, por isso, aguardado com expectativa o discurso que o Presidente americano amanhã pronunciará na Universidade do Cairo, num acto também patrocinado pela Universidade Al Azhar, uma das grandes referências históricas do pensamento muçulmano.
Ciente de que o conflito israelo-palestiniano é a chave para a resolução da maior parte dos problemas internacionais com que a América se defronta, esta administração tem-se mantido firme na exigência de dois Estados e no desmantelamento dos colonatos. Até ao presente as autoridades judaicas sabiam que as anteriores administrações americanas, nomeadamente as últimas, quando formulavam idênticos propósitos não eram para ser levadas a sério. E a concordância de princípio que as autoridades judaicas condicionalmente exprimiam era do mesmo modo interpretada pelas autoridades americanas. Uma dupla reserva mental subjazia à política americana do Médio Oriente.
Desta vez os judeus estão conscientes de que algo mudou. A ponto de os EUA poderem deixar de apoiar incondicionalmente Israel nas Nações Unidas como sempre tem vindo a fazer desde a Guerra dos Seis Dias. Essa razão por que Israel tudo fará para que a política americana de aproximação aos árabes em particular e ao Islão em geral fracasse. Nesse sentido, Israel trabalhará no terreno e o lobby judaico, na América, onde, é bom não esquecer, Israel continua a ter um grande peso, tanto no capital financeiro (actualmente em crise profunda) como na política, principalmente no Senado.
Pelo seu lado, a Al Qaeda, a quem esta viagem claramente incomoda, faz o possível por alcançar um resultado semelhante ao pretendido por Israel, a ponto de Bin Laden ter emitido uma nova mensagem de mobilização dos combatentes islâmicos contra o grande Satã.

OS PRISIONEIROS DE GUANTÁNAMO E PORTUGAL


POR FAVOR, PEÇAM-NOS PARA OS RECEBERMOS

Cerca de cinco meses depois de empossada a administração Obama, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português vai, finalmente, ser recebido na próxima sexta-feira pela sua homóloga, Hillary Clinton.
Luís Amado considera que já há suficiente harmonização entre os países da União Europeia para que, doravante, os que assim o desejarem, possam responder favoravelmente aos pedidos americanos de recepção dos detidos de Guantánamo. E que Portugal só espera uma solicitação concreta e directa dos Estados Unidos para poder considerá-la.
Não tínhamos dado conta que, não obstante as insistências de Amado, haja no quadro comunitário uma posição comum. Pelo contrário, o que tem resultado das várias vezes em que o assunto já foi tratado é uma grande divergência de posições entre os Estados membros, com a agravante de, no âmbito do espaço Shengen, a decisão tomada por um Estado afectar necessariamente os demais. O que o Ministro talvez tenha querido dizer é que não havendo possibilidade de acordo, cada um assumirá as suas responsabilidades.
Para além desta questão prévia, não pode deixar de estranhar-se que este assunto constitua uma prioridade para o Governo português nas negociações de sexta-feira, em Washington. O Ministro com um afã de mostrar serviço aos “queridos aliados” começou por voluntariar-se, sem sequer ter ouvido os parceiros comunitários e sem, internamente, ter ouvido outras entidades, nomeadamente o Presidente da República. Passados vários meses, sem que os americanos tenham apresentado qualquer solicitação, o Ministro continua a voluntariar-se e a oferecer-se, quase pressionando os americanos para que lhe peçam o translado de prisioneiros para Portugal.
É uma “diplomacia” difícil de compreender e seria muito mais avisado da parte do Ministro, em vez de andar a tentar prestar um serviço que ninguém lhe pediu e que os portugueses seguramente rejeitam, interrogar-se sobre as razões que têm levado os americanos a não desejar esse favor de Portugal…

A AGENDA ANTI-BARROSO DE SOARES


EM QUESTÃO A PRESIDÊNCIA DA COMISSÃO EUROPEIA

Depois de várias ameaças e outras tantas críticas ao putativo candidato indigitado à Comissão Europeia, Mário Soares, na esteira de Ana Gomes, conseguiu finalmente lançar entre os notáveis um pequeno movimento de contestação ao apoio que certos chefes de governo socialistas já concederam a Durão Barroso para mais um mandato à frente da Comissão Europeia.
Este movimento poderá fazer todo o sentido enquanto movimento de natureza puramente clubista: apoiar um “nosso” em vez de apoiar um dos “outros”, embora politicamente se não perceba muito bem que diferença possa haver entre um presidente socialista e um presidente como Durão Barroso. Afirmar que tal apoio constitui um “verdadeiro suicídio político” para os socialistas é manifestamente um exagero e é apenas mais uma das típicas demagogias dos socialistas que tendem sempre a vincar as diferenças do que é acessório para escamotearem a consonância de posições com a direita sobre tudo o que é essencial.
É caso para perguntar a Mário Soares e aos demais socialistas que se juntaram ao apelo contra Barroso quem governou maioritariamente a União Europeia a 15, quem ainda hoje a governa maioritariamente a 28, isoladamente ou em coligação, e quem foi, portanto, responsável pela implementação do programa neoliberal que indiscutivelmente constitui a sua matriz. É caso até para dizer que as maiores objecções à construção neoliberal vieram sempre da França, cujas posições eram muito desdenhadas em Bruxelas pelos socialistas.
Se Mário Soares e outros socialistas portugueses estão realmente empenhados numa agenda política de combate ao neoliberalismo devem começar pela própria casa e não lhes faltarão certamente bons motivos para se manterem activos.
E se apelo tem como causa remota o apoio concedido por Barroso à guerra do Iraque não deixa de ser espantoso que ele esteja também assinado por Aleksander Kawaniewski, ao tempo presidente a Polónia, grande apoiante, com tropas, da invasão do IRaque!

O A330 DA AIR FRANCE


UM ACIDENTE SEM EXPLICAÇÃO


Causou uma enorme comoção o acidente com o moderníssimo Airbus da Air France ao largo de Fernando Noronha. Quem frequenta com regularidade aquela rota sabe bem, qualquer que seja a época do ano, que praticamente não há viagem sem turbulência exactamente na zona onde se presume que o avião caiu.
Se a viagem é feita de dia, como normalmente acontece no sentido Europa-Brasil, é muito frequente verem-se naquelas paragens nuvens gigantescas, assustadoras, que os pilotos contornam para fugir às consequências danosas das tempestades. Quem desde há muito viaja para o hemisfério sul também sabe, ou pensava saber, que os aviões estão equipados com radares meteorológicos que lhes permitem detectar com a devida antecedência as rotas perigosas. Creio que esta tecnologia já existe há muitas décadas, embora tenha vindo a ser cada vez mais aperfeiçoada com os extraordinários progressos técnicos proporcionados pela informática.
O A330 é o “supra-sumo” da Airbus e certamente que a última coisa que um passageiro experiente admitiria é que um avião daquela gama e com a sua extraordinária tecnologia poderia cair depois de atingida a altitude e velocidade cruzeiro.
Das muitas explicações que se aventam, insusceptíveis de confirmação se as caixas pretas não forem encontradas, resta sempre a dúvida sobre se o erro humano não é o principal responsável pelo que de outro modo não tem explicação.
Nos muitos depoimentos prestados, nas televisões nacionais e estrangeiras, por pilotos de várias nacionalidades, não pode deixar de sublinhar-se a segurança e a lucidez das respostas prestadas pelos pilotos da TAP.

terça-feira, 2 de junho de 2009

ISRAEL CRITICA EXIGÊNCIAS AMERICANAS



GOVERNO ISRAELITA GARANTE QUE NÃO DESMANTELARÁ COLONATOS


A poucos dias do esperado discurso de Barack Obama no Cairo, cresce a tensão entre o governo israelita e a administração americana, não apenas pelas divergências relativas à situação dos colonatos, mas também por começar a haver do lado judaico a convicção de que Obama quer ganhar a simpatia dos árabes e muçulmanos em geral à custa de Israel.
Membros do governo israelita de extrema-direita já não fazem segredo em demonstrar publicamente o seu descontentamento face à administração Obama, acusando-a de pender para o lado palestiniano.
Torna-se agora mais claro que a Israel só interessa uma paz que resulte de um diktat. Na verdade, Israel nunca aceitou o princípio dos dois Estados (ainda há dias tive oportunidade de ler a primeira conversa de Golda Meir com Nixon - numa altura, portanto, em que o trabalhismo governava Israel sem que ninguém lhe fizesse frente – durante a qual ela disse abertamente ao presidente americano que os dois Estados já existiam – Israel e Jordânia – e que teria de ser no território jordano que os palestinianos teriam de se acantonar), assim como também nunca aceitou o princípio de desmantelamento dos colonatos, nem da proibição de construção de novos colonatos. A distinção que eles fazem – e que a actual administração americana não aceita – entre colonatos “legais” e colonatos “selvagens”, era claramente uma distinção para “americano ver” e seguramente destinada a fazê-los aceitar, sem mais discussão, os “legais”, como parece ter resultado com W. Bush.
A agravar a situação, há ainda o facto de a administração americana não estar a actuar contra o Irão com a “firmeza” que Israel reclama.
Do ponto de vista americano, a política que esta administração está a tentar levar à prática no Médio Oriente é inequivocamente a que melhor serve os seus interesses. Mas não vai ser fácil implementá-la. Ela vai ser boicotada, vai ser vítima de vários “golpes”, além fazer correr a Obama riscos pessoais graves.

DUAS NOTAS SOBRE UM ARTIGO DE RUI TAVARES


OS HISTORIADORES E INDEPENDÊNCIA

No artigo de 2.ª feira, dia 1, publicado no jornal “Público”, Rui Tavares diz que a nossa época contém uma tal abundância e diversidade de fontes documentais que a tornará no futuro um verdadeiro deleite para os historiadores. E, mais à frente, a propósito das eleições europeias confessa que gostaria que Portugal fosse um país tão obcecado com a liberdade como é com a independência.
Tenho algumas dúvidas sobre a assertividade destas considerações. Ou dito de uma forma porventura mais correcta: não tenho a mesma opinião sobre os dois temas abordados.
Quanto aos historiadores, eu não irei dizer que o sonho deles é poderem actuar como um arqueólogo: descrever uma época a partir da descoberta de um utensílio doméstico, mas tanto quanto me parece das muitas leituras na área, o que verdadeiramente os deleita é a colmatagem lacunas através da formulação de hipóteses; é a formulações de "previsões" sobre o passado; o excesso de fontes enerva-os e frequentemente confunde-os.
Também não creio que os portugueses sejam obcecados pela independência. Portugal não sei se é obcecado, mas os portugueses creio que não são. O sentimento mais frequente entre os portugueses é o de protecção. A busca de protecção paternalista: de um poderoso, seja ele um sujeito em nome individual, uma empresa ou, muito mais frequentemente, o Estado. Passa-se isso nas relações sociais, onde as manifestações de independência são raríssimas e também no plano político. Se bem aprofundarmos, esta paixão pela NATO e pelos americanos que a maior parte da nossa classe política e seus acólitos tão frequentemente exibem nada tem a ver com sentimentos de independência, mas antes de protecção. De protecção paternalista.
Essa ideia de que os portugueses são obcecados pela independência resulta fundamentalmente das relações com a Espanha, embora quem generalize esse sentimento tenda a esquecer que essa independência foi conseguida ou mantida, nos momentos mais críticos, à custa de humilhações sem conta da Inglaterra. Além de que a Espanha não é verdadeiramente uma nação. O que sempre foi uma boa razão para não depender dela!



sábado, 30 de maio de 2009

O CASO BPN E A INTERVENÇÃO DE VITAL MOREIRA

O QUE ESTÁ EM CAUSA: O DITO E O OMITIDO

Vamos lá ver se nos entendemos e se podemos pôr algum cobro na onda de demagogia que por aí já começa a circular sobre a “corajosa intervenção” de Vital Moreira a propósito do caso BPN.
Que o caso BPN é um verdadeiro escândalo nacional, ninguém contesta. Que aquela gente praticou negócios ruinosos, ao que tudo indica, em proveito próprio, também é comummente aceite. Que a maior parte daquela gente é oriunda do cavaquismo, gente importante do PSD e que o actual Presidente da República também teve negócios com o BPN, como certamente muitos outros portugueses, também ninguém se atreve a contestar. Que Dias Loureiro, para falar apenas num dos mais conhecidos, foi um dos grandes beneficiários daquilo a que, na mesma época, em Espanha e no quadro de idêntico clima político, se chamava a cultura do “pelotazo” - que, segundo um dos melhores dicionários de língua espanhola, significa: golpe dado por uma “pelota”; trago de uma bebida alcoólica; negócio de duvidosa legalidade com o qual se ganha muito dinheiro de maneira rápida – também não há qualquer dúvida. Que Dias Loureiro, não obstante, merecia (e não sei se continua a merecer) a confiança pessoal e política do PR, também é inquestionável.
Que o caso BPN é apenas um exemplo, porventura o mais emblemático, da promiscuidade entre política e negócios, já é assunto que não goza de tão amplo consenso. De acordo está o povo em geral e a esquerda. A direita, o bloco central e maior parte dos comentadores e políticos comprometidos com os interesses exprimem reservas e apresentam várias justificações para fazer múltiplas distinções. Que esta gente, a que exprime reservas, está com ou no PS e no PSD e também, à sua pequena dimensão, com ou no CDS/PP, é um facto empiricamente comprovável.
Que a pouca-vergonha ocorrida no BPN, para além da perícia criminosa dos seus autores, só foi possível no quadro de uma supervisão completamente complacente com os interesses do capital financeiro e devido a um comportamento, no mínimo, grosseiramente negligente do órgão regulador, é assunto que também não goza de genérica aceitação: o PS não tem dado tréguas na defesa de Vítor Constâncio e na audição parlamentar a que este foi sujeito nada, absolutamente nada, fez para averiguar a verdade; pelo contrário, procurou evitar a sua averiguação.
Que o governo PS partiu para uma nacionalização do BPN de maneira politicamente irresponsável, comprometendo grave e onerosamente o erário público em milhares de milhões de euros é também um facto que o tempo se encarregará de demonstrar, apesar de o PS e o seu governo continuarem a negá-lo.
Que o grande prejudicado pela “roubalheira” de que falou o cabeça de lista do PS será e já é o contribuinte português também é certamente um facto demonstrável, apesar de o PS e o seu governo se recusarem a reconhecê-lo.
Que o que hoje se sabe sobre a pouca-vergonha do BPN e do papel da supervisão se deve fundamentalmente à acção do CDS/PP, do BE do PCP, bem como do papel desempenhado na Comissão Parlamentar de Inquérito pelos deputados Nuno Melo, João Semedo e Honório Novo é também um facto que o PS e o PSD relutam em reconhecer, desde logo pela escassa colaboração prestada na averiguação da verdade.
Dito isto, terá de concluir-se que a declaração de Vital Moreira, cabeça de lista do PS às eleições europeias, seria corajosa se fosse completa. Ela limita-se a reproduzir muito parcialmente as conclusões a que outros laboriosamente chegaram sem a colaboração ou até com a disfarçada oposição do PS e do PSD. Vital Moreira não está a falar em nome próprio. Está a falar em nome do PS. E nesta qualidade a sua declaração omite parte do essencial e procura apenas tirar partido da outra parte na “guerrinha eleitoral” que vem travando como PSD!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

ROUBALHEIRA? MAS QUEM É ROUBADO?


O BPN NA CAMPANHA DO PS

Ontem à noite, na campanha do PS, o cabeça de lista, discursando sobre o BPN disse que o que se passou no banco foi uma autêntica roubalheira, que economia foi utilizada para efeitos criminosos, salientando o facto de toda aquela gente ou a maior parte dela ser constituída por figuras gradas do PSD.
A seguir houve logo muito ruído: uns, com amigos no Banco ou na SLN, demarcaram-se, porque não gostaram da linguagem (ou seja, não se manifestam sobre se houve ou não roubalheira, agora o que não concordam é que, se porventura houve, se chame roubalheira ao acto de roubar organizada e continuadamente); outros ainda, choca-lhes a displicência de quem dentro do PS se não revê naquela linguagem; e, finalmente, a gente do PSD, a começar pela sua presidente, exprime a sua indignação pela indignidade das palavras proferidas e exigem que Sócrates se demarque.
Para além de outras questões menores, que podem ser abordadas à parte, como a condução da campanha do PS, o que verdadeiramente sobressai de toda esta incrível conversa é a extraordinária falta de pudor de todos eles. Dos que lá estavam dentro e fizeram o que se sabe, e dos que estavam cá fora e que na hora da verdade acudiram aos que estavam lá dentro à custa de milhares de milhões a pagar pelos contribuintes!
Então, se é tudo uma roubalheira como se compreende que o Governo, em nome do Estado, vá lá meter o nosso dinheiro para tapar os buracos deixados pela roubalheira?
Estas frases sonantes, desligadas de quaisquer consequências práticas, proferidas depois de consumados os actos, não querem realmente dizer nada e somente servem para enganar os incautos que de boa fé acreditam que a denúncia tem o efeito prático de fazer reverter para os cofres do Estado o que lá já foi enterrado.

ELEIÇÕES EUROPEIAS: O DESCRÉDITO DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA


O QUE CONTAM OS ELEITORES?

Mais por intuição política do que certamente baseados numa elaborada construção teórica, os eleitores chamados a votar no próximo dia 7 de Junho nas eleições europeias vão seguramente, pela abstenção, deixar uma mensagem muito forte ao sistema político sobre o modo como encaram a democracia representativa, na modalidade cada vez mais difundida de soberania partidária.
Se nas eleições legislativas nacionais, a escolha dos candidatos e a sua responsabilização perante o eleitorado já são quase politicamente inexistentes, com o consequente desprestígio da função parlamentar e a completa perda de independência dos deputados eleitos, inteiramente subjugados aos directórios partidários, nas eleições europeias este mesmo fenómeno atinge proporções de tal modo desresponsabilizantes que ninguém verdadeiramente sabe para que elege um deputado europeu.
É que, apesar de nas eleições nacionais, nomeadamente naquelas, como é o nosso caso, em que os deputados são eleitos em listas fechadas segundo o método proporcional, não haver a possibilidade de durante o mandato controlar o seu exercício, dada a natureza incondicionada do mesmo, sempre haverá, no fim do dito, a possibilidade, se o eleitor tiver memória política e não se deixar enganar, de avaliar a consonância entre o que foi prometido e o realizado para daí retirar as consequências políticas adequadas. É um controlo a posteriori, de fraca intensidade, falível, mas apesar de tudo um controlo.
Nas eleições europeias nada disto se passa. Os deputados eleitos, em círculo nacional único, em listas igualmente fechadas, segundo o método proporcional, pertencem a um colectivo partidário transnacional no qual se integram mal chegam a Bruxelas e actuam a partir daí completamente à revelia do eleitor, o qual, aliás, na altura da votação não faz a mínima ideia do programa eleitoral do partido em que se vão integrar os deputados que constam da lista partidária por ele escolhida. Aqui não só não há controlo durante o exercício do mandato, nem posteriormente à sua execução, como nem sequer há conhecimento prévio do programa que os eleitos se propõem realizar.
E esta grave falha democrática presta-se, como se está vendo, a todas as demagogias. Um diz que é favorável (favorável? Mas isto na política é assim? É favorável ou vai propor?) a um imposto europeu; outro deixa subentendido que vai criar um Eramus para o primeiro emprego. Tudo isto dito completamente à revelia do programa eleitoral do partido transnacional em que se integram e de acordo com as directrizes do qual votarão na maioria esmagadora das vezes.
Pior todas estas razões, que contendem com a essência da democracia, os eleitores que, não obstante este estreito condicionalismo, mesmo assim resolvam votar devem-no fazer nos partidos nacionais que contestam esta Europa.

UMA MÁXIMA AMBÍGUA


ACUMULAÇÃO DE EMPREGOS

O meu Amigo João Vasconcelos Costa, sempre muito atento ao que se passa na blogosfera, chamou-me a atenção para este texto de Ana Gomes, do qual destaco a seguinte grande máxima: “Nunca acumulei, não acumulo, nem acumularei cargos, nem nunca misturei ou misturarei funções políticas com actividades profissionais privadas”.
O texto parece referir-se a Paulo Rangel. Ficamos todavia sem saber se se trata de uma máxima categórica e absoluta - eu politicamente só trabalho assim e apenas colaboro com quem assim trabalha – ou, se pelo contrário, não passa de uma máxima integrada no relativismo cultural dos nossos dias - eu trabalho assim, mas estou disposta a colaborar politicamente com quem entende as coisas de modo muito diferente. É que no PS os princípios nunca são o que parecem ser…

quinta-feira, 28 de maio de 2009

ASSIM VAI A CAMPANHA ELEITORAL


O BLOCO CENTRAL E AS MANOBRAS DE DIVERSÃO


A campanha eleitoral para as eleições europeias está sendo dominada por questões sem importância, esgrimidas pelos dois principais partidos, para conscientemente escamotearem o essencial.
Enquanto em tempos de crise intensa o Partido Socialista distribui comida nos comícios para assegurar assistência e reclama a presença assídua do Secretário-Geral para salvar a campanha e tentar ganhar as eleições, o PSD, satisfeito com a prestação de Rangel, esconde Ferreira Leite, ciente de que a sua presença só por mero acaso não provocaria danos irreparáveis.
E então, uns e outros, vão falando destas coisas, atribuindo-lhes um sentido exactamente oposto ao que elas efectivamente têm e, na ausência de outros temas, uns e outros, têm o desplante de trazer para a campanha questões da responsabilidade comum, como a educação, passando aos eleitores um verdadeiro atestado de menoridade, por tal discussão ter pressuposta a ideia de que ambos nada têm a ver com que o que nesse domínio se passou nos últimos 33 anos!
As questões que poderiam ter interesse, como as que têm a ver com a construção europeia – estas eleições servem ou deveriam servir para isso – ou pura e simplesmente não são tratadas, ou, quando são afloradas, relevam de uma chocante superficialidade, como foi o caso do imposto europeu proposto pelo cabeça de lista do PS, naquela que deve ter sido a sua última intervenção autónoma nesta campanha.
É evidente que a questão dos recursos financeiros é uma questão crucial do debate europeu. O processo assimétrico de integração europeia não pode ser abordado, nem superado, sem uma reforma profunda do orçamento comunitário e de outros fundos indispensáveis à construção de uma Europa coesa e solidária. Obviamente, que esta discussão só faz sentido se tiver por pressuposto um projecto de construção europeia, que o PS verdadeiramente nunca explicitou para além do existente, nem tão-pouco estará em condições de o fazer por tal projecto relevar da competência do PSE, em que ele, como ramo nacional, está integrado. Por outras palavras, o projecto dos socialistas é o Tratado de Lisboa. Exactamente por isso se não compreende a intervenção do cabeça de lista do PS sobre o “imposto europeu”. Além de vaga e confusa, e de inintegrável na estratégia partidária da lista a que pertence, a proposta releva de uma ingenuidade política pouco recomendável num sexagenário! Certamente por isso a presença de Sócrates, o grande controleiro, passou a ser indispensável na campanha.