POR QUE NÃO VOTO PS
Como nas redes sociais encontrei quatro declarações de voto no
Partido Socialista de pessoas que muito prezo, mas com as quais não concordo, justificadas
com o argumento de que embora discordem em muitos aspectos da prática política e
de pontos fundamentais do programa eleitoral do Partido Socialista, mesmo assim
vão votar PS por o regime saído do 25 de Abril estar em risco com a
continuidade do governo de direita.
Vou deixar de parte considerações de ordem política por uma
questão de respeito pelas opções daquelas quatro pessoas e vou fazer incidir a
minha argumentação em aspectos puramente aritméticos.
Então vejamos: aquelas 4 pessoas, quatrocentas, quatro mil ou
quarenta mil que porventura pensem da mesma maneira não vão retirar um único
voto à coligação de direita, porque o voto delas, se não fosse para o PS, iria
para um partido de esquerda. Ou seja, a direita manterá rigorosamente os mesmos
votos que tinha antes desta opção.
E, então, uma de três coisas pode acontecer, embora duas sejam
altamente improváveis.
A primeira situação que poderia verificar-se era o PS em
função desta transferência de votos ganhar com maioria absoluta. Hipótese
praticamente impossível. De facto para que essa maioria se verificasse seria
necessário uma transferência em massa de mais de metade dos votos da CDU e do
BE. Isso é impossível, como toda a gente sabe. A única maioria absoluta da história
do PS foi ganha indo buscar os votos a outro lado, como todos muito bem
sabemos.
A segunda situação que poderia resultar da aplicação prática
do raciocínio que levará aquelas quatro pessoas a votar no PS seria uma vitória
do PS com maioria relativa. Hipótese igualmente improvável, dada a sitação actual, já que ela
significaria uma votação no PS da ordem dos 40, 41%, o que, pelas razões
anteriormente expostas, corresponderia uma
transferência de votos da CDU e do BE da ordem dos quarenta por cento. Alguém
acredita nisto?
Terceira hipótese, a mais provável: a coligação ganhará com
uma maioria relativa, mas o PS, a CDU e o BE terão maioria absoluta.
Neste contexto, a hipótese altamente provável é que Cavaco
indigite Passos Coelho para formar governo, mesmo sabendo que aquelas três
forças políticas vão apresentar uma moção de rejeição ou mesmo que o PS venha a
ter mais deputados que o PSD mas menos que a coligação.
Só que este governo será rejeitado e o PR por mais
reaccionário que seja não tem outra solução que não seja convidar Costa a
formar governo, sob pena, se o não fizer, de desrespeitar gravemente a
Constituição e estar mesmo a protagonizar um golpe de Estado.
Este cenário só não ocorrerá se o PS não cumprir a palavra
dada ou se meia dúzia de deputados do PS não respeitarem a orientação de voto
do partido ou se pura e simplesmente se ausentarem na hora da votação. Interrogações
a que somente poderão responder as pessoas que resolveram votar PS. A nós cabe
apenas pô-las…
Continuando: convidado Costa a formar Governo, o PS apresentará
o seu programa de Governo que passará, porque mesmo que a coligação resolva
retaliar e apresentar uma moção de rejeição, ela não seria aprovada (a
aprovação é por maioria absoluta dos deputados em efectividade de funções –
116) por seguramente não contar com os votos favoráveis da CDU e do BE, que
obviamente se absteriam (alguém duvida?).
Se outras razões não houvesse seria por estas, puramente aritméticas,
que não trocaria a minha convicção por um voto no PS, já que o resultado
fundamental que eu tinha em vista (manter o 25 de Abril) poderia ser alcançado
por uma via que não me obrigaria a violentar, por pouco que fosse, a minha
consciência ou, mesmo que não me violentasse, me evitaria as dúvidas hamletianas sobre o que fará o PS com o meu voto.