quarta-feira, 19 de novembro de 2014

COMISSÕES PARLAMENTARES DE INQUÉRITO


 

PARA QUE SERVEM?

Para que servem as Comissões Parlamentares de Inquérito? Aparentemente para inquirir, investigar e concluir politicamente sobre os factos apurados, sem prejuízo de os depoimentos que nela se prestam poderem ter no plano judicial alguma utilidade.

Todavia, ninguém acredita que elas sirvam para investigar o que quer que seja. E basta assistir a três sessões de perguntas para não ficar com muitas dúvidas sobre a capacidade ou utilidade investigatória das ditas.

E aqui todos são culpados. Os deputados perdem-se em amplas e desnecessárias divagações, às vezes mesmo insuportáveis, sobre os factos que aparentemente pretendem investigar, fazendo com o que o papel do inquirido deixe de ser alguém obrigado a colaborar na descoberta da verdade para se transformar num parceiro com o qual se trocam ou se disputam opiniões políticas.

Talvez os deputados portugueses tivessem algo a ganhar se assistissem ao funcionamento de certas comissões parlamentares de inquérito noutras partes do mundo.

Em vez de se perderem nas tais longas e fastidiosas considerações sobre os factos que alegadamente pretendem ver esclarecidos, seria de toda a conveniência que os deputados interrogassem os inquiridos sobre factos que interessam ao esclarecimento da verdade mediante a formulação de perguntas concisas, despidas de toda a inútil retórica, e numa segunda parte indagassem da opinião dos inquiridos sobre o contexto em que actuaram.

Assim, seria possível apurar os factos que interessam à comissão e simultaneamente conhecer a opinião dos principais intervenientes sobre o contexto (político, jurídico, etc.) da sua intervenção.

E no fim, então sim, cada grupo parlamentar, em sessão pública, analisaria politicamente todo o material recolhido e tiraria as respectivas conclusões.

O procedimento que está sendo usado por todos os deputados, independentemente da manipulação que a maioria possa fazer da matéria apurada, retira logo à partida credibilidade às comissões de inquérito e transforma-as num exercício de debate parlamentar que nada acrescenta aos debates que regularmente têm lugar no Parlamento sobre o mesmo ou outros temas.      

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A LEGIONELA E O NEOLIBERALISMO


 
ASSIM VÃO AS COISAS EM PORTUGAL

Num país, mais correctamente, num sistema económico em que as pessoas tendem a ser desvalorizadas na sua individualidade e são olhadas como simples instrumento ao serviço das empresas, em que se lhes exige que “não sejam piegas”, que aceitem os despedimentos como consequência normal da maximização da taxa de lucro e suportem o aumento de impostos e o corte nas despesas sociais para pagar os prejuízos dos especuladores, num país e num sistema económico onde todas as benesses são concedidas às empresas, desde a baixa de impostos até à violação das mais elementares regras de conduta ambiental, sem nada lhes ser exigido em troca, na ânsia desenfreada de lhes “dar músculo”, é perfeitamente natural que nele exista o maior surto de legionela alguma vez registado no mundo e já com sequelas nos quatro cantos do planeta.

Essa a ligação entre a doença do legionário e o neoliberalismo no seu estado mais puro!

domingo, 9 de novembro de 2014

SOBRE A HEGEMONIA AMERICANA

A INTERVENÇÃO DE PUTIN EM SOCHI
 


 
Vale a pena ler a intervenção de Putin em Sochi, no dia 24 de Outubro, na última sessão do Club Internaciomal de Valdai, sobre a situação política internacional, aqui transcrita da Internationalnews com a devida vénia (tradução para português no fim do texto francês):
 
 

Le 24 octobre, au cours de la dernière séance du Club international de discussion Valdaï à Sotchi (lieu des Jeux Olympiques d’hiver 2014), le président russe Vladimir Poutine est intervenu pour énoncer, avec fermeté, la position de la Russie. Son discours de grande envergure aura une résonance dans les années à venir, notamment auprès des Etats-Unis auxquels il signale clairement, la fin du monde unipolaire qui est, selon le chef d’Etat, « l’apologie de la dictature des peuples et des Etats ».

Le thème de la discussion porte le titre suivant : « nouvelles règles du jeu ou un jeu sans règles ». Selon le président russe, « la Russie ne prétend à aucun leadership mondial et la thèse selon laquelle la Russie prétendrait à l'exclusivité est complètement fausse. » C’est pourquoi, il a appelé à mettre en place un « système explicite d'engagements et d'accords mutuels », afin de prévenir l'anarchie mondiale.
Le système actuel est, selon Vladimir Poutine, « sérieusement affaibli, morcelé et déformé. Les institutions internationales et régionales de coopération politique, économique et culturelle traversent une période difficile. Les Etats-Unis, qui se sont proclamés vainqueurs de la guerre froide, ce que je trouve assez présomptueux de leur part, ont estimé qu'aucune réforme n'était nécessaire », a déclaré le chef de l’Etat russe. « Au lieu de mettre en place un nouvel équilibre des forces apparaissant comme la condition indispensable de l’ordre et de la stabilité, les démarches qui furent entreprises, accentuèrent radicalement le déséquilibre », poursuit le président russe.
« Lorsque le système actuel des relations internationales, le droit international et les contrepoids en place font obstacle à leurs objectifs, ce système est déclaré sans valeur et obsolète. […] L’objectivité et l’honnêteté ont été sacrifiées à l’opportunisme politique. Les normes juridiques ont été remplacées par des interprétations arbitraires et des estimations biaisées. Alors que simultanément le contrôle total des systèmes mondiaux d’information permettait, selon leurs souhaits, de vendre le blanc comme étant du noir et inversement. […] Les ambitions de ce groupe [Etats-Unis et leurs alliés, ndlr] ont grandi démesurément, au point que les approches définies dans ses officines sont présentées comme celles de la communauté mondiale, ce qui n’est pas la réalité », affirme Vladimir Poutine.
Le président russe poursuit son intervention avec la notion de « souveraineté nationale » qui, « pour la majorité des Etats, est devenue relative » car « plus l’allégeance au centre principal d’influence est forte, plus la légitimité de tel ou tel régime sera forte. Ceux qui oseront s’opposer à la politique de ce groupe, subiront des pressions économiques, la propagande et l’intervention dans leurs affaires intérieures. […] Les gouvernements qui ne conviennent pas, seront mis à l’écart. Il est prouvé qu’ils recourent au chantage, à l’égard de certains dirigeants. Ce n’est pas pour rien que celui que l’on appelle "Big Brother" dépense, sans compter, des milliards de dollars pour la surveillance du monde entier et de ses alliés proches ! »
La question que nous devons nous poser, selon Vladimir Poutine, est de savoir si nous sommes heureux de vivre dans ce monde, si le leadership des Etats-Unis est un bienfait pour nous et si leurs interventions répétées dans les affaires du monde apportent la paix, le bien-être, le progrès, le développement et la démocratie. « Je me permettrai de dire que ce n’est pas le cas, ce n’est pas du tout le cas », répond le président russe.
« Le diktat unilatéral et l’imposition de leurs propres modèles apportent le résultat contraire : au lieu de régler des conflits, c’est l’escalade et au lieu d’avoir des Etats souverains et stables, c’est l’expansion du chaos, et en lieu et place de la démocratie, c’est le soutien à des populations douteuses : des purs néo-nazis aux islamistes radicaux », note le président russe.
« En Syrie, comme par le passé, les Etats-Unis et leurs alliés ont entrepris de fournir directement des armes et de financer des combattants, de renforcer leurs rangs de mercenaires originaires de différents pays. Permettez-moi de vous demander d’où ces combattants tiennent-ils l’argent, les armes et les spécialistes militaires ? D’où cela provient-il ? Comment se fait-il que ceux qu’on appelle l’EI ["Etat islamique", ndlr] se soient transformés en une réelle et puissante armée ? », s’interroge Vladimir Poutine avant de conclure :
« Nous comprenons bien que le monde est entré dans une ère de changement et de profondes mutations et que nous avons tous besoin d’un certain niveau de prudence pour éviter les démarches insensées. Dans les années qui ont suivi la guerre froide, les intervenants de la politique mondiale ont un peu perdu ces qualités. Le temps est venu de s’en souvenir. Dans le cas contraire, l’espoir d’un développement stable apparaitra comme une dangereuse illusion et les secousses actuelles seront les prémisses de la chute de l’ordre mondial ! »


Tradução


No dia 24 de Outubro, no decurso da última sessão do clube internacional de discussão Valdai, em Sochi (sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014), o Presidente russo Vladimir Putin interveio para enunciar, com firmeza, a posição da Rússia. O seu discurso de grande envergadura terá ressonância nos anos futuros, nomeadamente nos Estados Unidos relativamente aos quais ele assinala com clareza o fim do mundo unipolar, que é, segundo o Chefe de Estado russo, “a apologia da ditadura dos povos e dos Estados”.

O tema da discussão tem o seguinte título: “novas regas do jogo ou jogo sem regras”. Segundo o Presidente russo, “A Rússia não pretende a liderança mundial, sendo completamente falsa a tese segundo a qual a Rússia pretendia a exclusividade”. É por essa razão que ela se bate por um “sistema explícito de compromissos e acordos mútuos”, a fim de evitar a anarquia mundial.

O sistema actual está, segundo Vladimir Putin, “seriamente enfraquecido, fragmentado e deformado. As instituições internacionais e regionais de cooperação política, económica e cultural atravessam uma fase difícil. Os Estados Unidos que se proclamaram vencedores da Guerra Fria, o que me parece bastante presunçoso da sua parte, consideraram que nenhuma reforma era necessária. Em vez de institucionalizar um novo equilíbrio das forças emergentes como condição indispensável da ordem e da estabilidade, deram passos que acentuaram radicalmente o desequilíbrio”.

"Sempre que o sistema actual de relações internacionais, o direito internacional e os contrapoderes institucionalizados obstaculizam os seus objectivos, o sistema é declarado sem valor e obsoleto (…).A objectividade e honestidade são sacrificadas ao oportunismo político. As normas jurídicas são substituídas por interpretações arbitrárias e por subterfúgios. Simultaneamente o controlo completo dos sistemas mundiais de informação permite, segundo os seus interesses, vender o branco por preto e inversamente (…). As ambições deste grupo (Estados Unidos e seus aliados) aumentaram desmesuradamente a ponto de os objectivos por eles estabelecidos serem apresentados, falsamente, como sendo os da comunidade internacional".

O Presidente russo prosseguiu a sua intervenção com a noção de “soberania nacional”, que, “para a maioria dos Estados se tornou relativa”, porque “quanto mais forte for a subserviência ao principal centro de influência maior será a legitimidade deste ou daquele regime. Aqueles que ousam opor-se à política deste grupo sofrerão pressões económicas, a propaganda e ingerência nos seus assuntos internos (…) Os governos que não convém serão postos à margem. Está provado que eles recorrem à chantagem relativamente a certos dirigentes. Não é por acaso que aquele a que se chama “Big Brother” gasta, sem problemas, milhares de milhões de dólares para vigiar o mundo inteiro e os seus aliados mais próximos!”

A questão que devemos colocar, segundo Vladimir Putin, é de saber se nós estamos felizes por viver neste mundo, se a liderança dos Estados Unidos constitui um benefício para nós e se as suas repetidas intervenções nas questões mundiais nos trazem a paz, o bem-estar, o progresso, o desenvolvimento e a democracia. “Eu me permito dizer que não é o caso, de maneira nenhuma é o caso”, respondeu o Presidente russo.

“O diktat unilateral e a imposição dos seus próprios modelos conduzem ao resultado contrário: em lugar de contribuírem para regular os conflitos, levam à escalada e em vez de Estados soberanos e estáveis, é a expansão do caos, e em vez da democracia é o apoio a grupos duvidosos: desde os puros neo-nazis aos radicais islâmicos”, sublinha o Presidente russo.

“Na Síria, como no passado, os Estados Unidos e os seus aliados tomaram a iniciativa de fornecer directamente armas e de financiar os combatentes, de reforçar as suas fileiras com mercenários originários de vários países. Permitam-me perguntar-vos donde recebem estes combatentes o dinheiro, as armas e os especialistas militares? Donde provém tudo isso? Como é que aconteceu que aquele a que se chama EI (Estado islâmico) se tenha transformado numa real e verdadeira potência armada?” Interrogou-se Vladimir Putin antes de concluir;

“Nós compreendemos bem que o mundo entrou numa era de mudança e de profundas mutações e que todos tenhamos de ter um certo nível de prudência para impedir passos insensatos. Nos anos que se seguiram à Guerra Fria os intervenientes na política mundial perderam estas qualidades. É chegado o tempo de nos voltarmos a lembrar delas. Caso contrário, a esperança de um desenvolvimento estável aparecerá como uma perigosa ilusão e as graves perturbações actuais serão o prelúdio da queda da ordem mundial!”

 

 

 


sábado, 8 de novembro de 2014

TRÊS NOTAS SOLTAS


 

ZORRINHO E OS LADRÕES

 

Carlos Zorrinho deputado europeu do PS acha que um bom especulador pode ser um bom regulador. Daí que Juncker possa, não obstante o seu passado, ser útil. Esta tese de um ladrão reunir as condições ideais para ser polícia deixa-nos muito tranquilos quanto ao futuro político que nos espera…


 
LOUREIRO DOS SANTOS E O MURO
 



Para o General Loureiro dos Santos é motivo de grande preocupação uma potência procurar recuperar o poder perdido, embora já seja absolutamente normal outra guardar o poder conquistado.

O mais grave é que as coisas nem sequer são bem assim. A Rússia não tem condições para recuperar, qualquer que seja o domínio (político, militar, territorial, etc.), o poder da União Soviética. O que a Rússia obviamente pretende é, primeiro, não ser cercada por potências hostis, agressivas e expansionistas; em segundo lugar, ser respeitada de acordo com o seu poder e a sua história milenar; e, em terceiro lugar, obstar a uma visão unipolar do mundo.

A NATO, pelo contrário, é expansionista, tem uma política agressiva e funciona hoje como aliança militar do neoliberalismo económico de dominante financeira.

A NATO e o neoliberalismo são hoje as duas faces da mesma moeda. E onde a NATO não chega, chega o PENTÁGONO, embora politicamente seja mais aprazível fazer actuar a NATO como nos últimos anos tem acontecido.


 

CAVACO EM CAMPANHA ELEITORAL ANTECIPADA

Cavaco, como homem de partido, faccioso e sectário, recusa eleições legislativas antecipadas, mesmo no caso de essa antecipação se limitar a fazer coincidir o termo da legislatura com o seu período normal de duração - quatro anos. Recusa, porque o partido a que pertence, e em nome do qual sempre actuou nestas trinta e tal anos que leva de vida pública, precisa desses meses a mais para campanha eleitoral facilitada pelo exercício do poder.

Mas Cavaco não está apenas preocupado com as legislativas. Ele quer também escolher o seu sucessor. Ter sobre esse evento a última palavra. Inclusive contra o Governo, porque, em última instância, quem interpreta o que interessa ou não interessa ao partido é ele e não Passos Coelho.

Descartada pelo aparelho a hipótese Marcelo, Cavaco quer lançar Durão Barroso para impedir que Santana tenha a veleidade de se apresentar. E Barroso, agindo concertadamente com Cavaco, está obviamente de acordo.

É com esse sentido que deve ser entendida a recente encenação da condecoração de Durão Barroso com a Grande Cruz do Infante Dom Henrique. Encenação em que a oposição não participou, nem tinha que participar, como espectáculo partidário que era.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO



FOI HÁ 97 ANOS

7 DE NOVEMBRO, pelo calendário gregoriano, 25 de OUTUBRO, pelo calendário juliano, é uma data incontornável da História da Humanidade e seguramente o acontecimento mais relevante da época contemporânea

A tomada do Palácio de Inverno, sede do Governo Provisório, pelos bolchevistas simboliza a vitória da Revolução de Outubro.

Instituído o Conselho dos Comissários do Povo e a democracia dos sovietes, as medidas marcantes da Revolução de Outubro são:

O Decreto sobre a Paz, que propõe a todos os povos em guerra e aos seus governos conversações imediatas com vista a uma paz democrática e equitativa;

O Decreto sobre a Terra, que aboliu a grande propriedade sem qualquer indemnização e entregou o seu controlo aos comités agrícolas distritais e aos sovietes provinciais de camponeses;

O Decreto sobre o Controlo Operário, que entregou a direcção e o controlo da produção fabril aos operários;

O Decreto sobre as Nacionalidades, que estabeleceu o princípio da igualdade de direitos de todos os povos do Império Russo, incluindo o direito à auto-determinação e o direito ao livre desenvolvimento das minorias nacionais


Estava criado um novo modelo de organização económica, social e política que iria marcar todo o século XX e pela primeira vez intentar materializar o sonho utópico da igualdade entre os homens de acordo com a máxima de cada segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

AINDA SOBRE TIMOR LESTE



DUAS FORMAS DE ANALISAR O CONFLITO

 

Com o passar dos dias e o conhecimento dos factos, o conflito gerado pela decisão de Timor Leste de expulsar os magistrados portugueses está a passar gradualmente de um conflito diplomático entre Estados originado na prática de um acto inamistoso e inesperado, para um conflito de natureza sócio-política, em que intervêm considerações corporativas, baseado em factores de valoração ético-política de vocação pretensamente universal.

Esta metamorfose, além de ser a que mais convém ao Governo Português, é também aquela que menor legitimidade pode colher junto daqueles que consideram a soberania como um dos valores supremos das relações entre Estados e por extensão do Direito Internacional.  

É a que mais convém ao Governo português porque com esta nova configuração do conflito (que adiante explicitaremos mais em pormenor) ele pode apresentar-se com vítima inesperada e indefesa de uma grave violação dos princípios ético-jurídicos que “universalmente governam o mundo”. Ninguém indagará por que razão um acto tão inamistoso e peremptório foi praticado de forma tão ostensiva e unilateral contra o Estado Português, já que todos virarão o seu olhar acusador para o violador dos tais “princípios universalmente aceites”.

Por outro lado, esta transformação da natureza do conflito fá-lo perder legitimidade perante todos os defensores da soberania.

De facto, desde ontem passou a correr na imprensa portuguesa a “verdadeira” justificação para a expulsão ordenada pelas autoridades timorenses – os magistrados portugueses estavam a investigar casos suspeitos de corrupção envolvendo um ou vários ministros do Governo de Timor Leste de cuja investigação poderia resultar a prisão dos implicados. Para evitar esta eventual ou provável consequência, as autoridades timorenses cortaram o mal pela raiz: expulsaram os magistrados estrangeiros e entregaram o processo ou os processos a magistrados timorenses para (subentende-se) os arquivarem.

A questão posta nestes termos ganha uma nova dimensão e adquire uma nova natureza.

Ganha uma nova dimensão porque ela vai muito para além do que sobre o assunto possa pensar ou defender o Estado português, para passar a compreender também o que pensam sobre o assunto os magistrados portugueses e os seus órgãos hierárquicos e representativos, eventualmente os magistrados de outros países, e também todos os cidadãos e os media em geral que legitimamente se sentem no direito de opinar sobre o que se passa noutros países.

Adquire uma nova natureza porque de acto inamistoso e inesperado para com um Estado, ela passa a ser encarada como uma violação grosseira de “princípios universais” sobre cuja qualificação todos os que contra ela se manifestam se sentem legitimados para a afirmar com base na natureza absoluta dos “valores” alegadamente violados ou ofendidos.

E aqui é que bate o ponto. Esta nova maneira de encarar o problema pode ser da maior importância para os timorenses ou mais incisivamente para o povo de Timor Leste. Mas é também uma questão que têm de ser eles a resolver. E sobre a qual a interferência dos outros Estados assume a natureza de ingerência. Daí que o Governo de Timor Leste, com base em razões e em factos que apenas ao povo de Timor compete controlar, se sinta legitimado para interferir no exercício da justiça desempenhada por estrangeiros (embora constitucionalmente legitimados, presume-se…) num domínio politicamente muito sensível, interna e internacionalmente, por entender que os magistrados a cargo de quem o processo estava não têm, pela sua nacionalidade, o conhecimento suficiente nem a sensibilidade necessária do contexto sócio-cultural em que estão a actuar.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

TIMOR LESTE E PORTUGAL



O AFUNDAMENTO GRADUAL DE PORTUGAL NO MUNDO

 

Não sei o que ditou a expulsão dos juristas portugueses em Timor Leste nem o que terá levado este país a dispensar apressadamente os magistrados portugueses que lá prestavam serviço.

Machete, pelos vistos, também não sabe já que continua à espera de explicações do governo timorense.

Também nunca fui minimamente permeável àquela onde passional que na segunda metade da década de 90 do século passado emocionou Portugal como se de um problema do mais estreito círculo familiar se tratasse. Por isso também não me sinto traído por ingratidão. O meu problema é outro.

A independência das pessoas e dos países é uma dura luta, constante, persistente e penosa que não se compadece com essa compaixão falsa ou verdadeira com que hoje se pretende substituir o sacrifício pela dádiva. Portugal era até há bem pouco tempo um exemplo de quão difícil é num quadro completamente adverso manter a independência. Um objectivo que exige muita luta e sacrifícios de toda a ordem apenas compensados pelo prazer de caminhar de cabeça erguida sem subserviências nem servilismos.

Pois bem. Os exemplos que hoje diariamente nos chegam da posição de Portugal no mundo infirmam por completo este trajecto durante séculos calcorreado com tantos sacrifícios.

A ligação de Portugal à Europa, primeiro como panaceia para todos os nossos males, e depois à Europa do euro, com o servilismo que desde há cerca de 5 anos se começou a evidenciar aos olhos de todos, constituem a razão profunda da situação de decadência em que nos encontramos.

Um Estado que saiba garantir na cena internacional um mínimo de dignidade não é tratada com o desprezo e arrogância com que Timor Leste tratou os representantes de Portugal.

Esta ligação à Europa que nos sufoca e nos destrói como povo e como Estado não pode continuar. Portugal é hoje um país muito mais fraco e vulnerável do que era antes de se ter enleado nesta teia de normas e comportamentos impostos de fora que nos retiram espaço para uma política autónoma e digna.

Que é que isto tem a ver com Timor? Tem tudo a ver. Portugal, por força da situação em que se encontra na Europa, como simples protectorado do capital financeiro e especulativo, é hoje um Estado desprestigiado e sem qualquer peso que ninguém desde o Brasil a Timor Leste, passando por África, verdadeiramente respeita.

O PS NUM DILEMA ...OU NEM ISSO?




ANTÓNIO COSTA UM MÊS DEPOIS DE ELEITO
É cada vez mais evidente aos olhos de qualquer observador atento que o PS de Costa não tem nada de diferente a apresentar aos portugueses do PS de Seguro, como este também não tinha, como todos nos lembrámos, nada de substancialmente diferente do PSD de Passos Coelho.
E isto não acontece por acaso. É que apesar de o PS e o PSD não serem partidos antagónicos, como a governação destes últimos quase quarenta anos amplamente comprova, a verdade é que há diferenças entre os dois partidos que, embora não sejam muito marcadas, sempre dariam para os distinguir nesta fase da vida política portuguesa.
Se essa distinção não é possível então temos de procurar as causas deste “fatalismo” político em algo que esteja para além e acima das pequenas divergências ideológicas que os separam, pelos vistos insuficientes para os distinguir relativamente à sua relação com a Europa e à política que, por força desta, tem vindo a ser seguida em Portugal. E ao dizer-se isto imediatamente se evidenciam as causas dessa identidade de propostas de um e outro partido: o PS e o PSD perfilham os mesmos princípios relativamente à política europeia e estão por isso sujeitos aos mesmos constrangimentos.
E os princípios que perfilham em comum são os que constituem as traves institucionais e estruturais da União Europeia e da moeda única. Daqui decorrendo os constrangimentos que, na prática, lhes não permitem fazer uma política muito diferente ou apenas diferente da que hoje é seguida em toda a Europa do euro.
António Costa quis alimentar a ilusão (ou estava mesmo iludido…) de que era possível, respeitando as regras comunitárias, fazer na Europa uma política diferente da que Passos Coelho pôs em prática nestes últimos três anos.
Esta ideia que tem vindo a defender, primeiro para consolidar internamente a sua oposição a Seguro, agora para marcar distâncias relativamente Passos, assentava em várias crenças (tem de se lhes chamar crenças por não decorrerem de uma análise racional da realidade) que o tempo se tem encarregado de renegar.
Costa acreditava (ou fazia que acreditava ou continua a acreditar, o que ainda é pior) que, embora o peso da dívida seja um constrangimento de vulto, seria possível sem a sua reestruturação negociar na UE um compromisso que permitisse alcançar um efeito equivalente ao da sua reestruturação.
Só que a realidade desmente esta crença. Mesmo que se tenha estado desatento às palavras de Schäuble (não contem com a Alemanha para financiar investimentos nem para se endividar …) ou às de Sigmar Gabriel sobre o que a Alemanha estaria disposta a fazer, é preciso ter uma grande fé na Europa para acreditar que austríacos, finlandeses e demais estariam dispostos a transferir verbas para o sul destinadas a evitar a reestruturação da dívida dos países periféricos. A restruturação directa ou indirecta da dívida na Europa do euro é assunto tabu. De todos os lados há a sensação de que "a casa vem abaixo" se esse assunto passar a ser discutido com um mínimo de credibilidade. Quem se endividou que pague e seja austero quanto baste até pagar - esse o lema da Europa.
Costa também acreditou que a política europeia de eliminação do défice e de redução da dívida seria atenuada com carácter geral mal essas imposições passassem a pesar sobre grandes economias igualmente deficitárias, mas com outro peso político, como as da França e da Itália. Todavia, bastou ver o que se passou a semana passada com estes dois países, governados por partidos congéneres do socialista, para que também esta esperança se desvanecesse.  A Alemanha não abriu mão de qualquer facilidade e tanto Renzi como Hollande, este por intermédio de Valls, tiveram de continuar a agravar as políticas de austeridade mediante cortes orçamentais ainda mais significativos do aqueles que já tinham proposto.
Outra fezada de Costa tem a ver com o papel do BCE. Costa acreditava (e não há notícia de que tenha mudado de crença) que o BCE para salvar o euro acabaria por fazer uma política monetária destinada a fomentar o crescimento e o emprego. Todavia, também aqui o realismo se impõe: o BCE não poderá ir muito além do que os seus estatutos permitem (estabilidade dos preços…), sob pena de engendrar um conflito sério com os alemães. Mas mesmo que fosse e actuasse semelhantemente à Reserva Federal americana (o que nunca acontecerá nas mesmas proporções), também está hoje provado – e Mario Draghi já o disse expressamente – que a política monetária tem limites. Ou dito de outra maneira, não basta uma política monetária levada ao extremo para combater a deflação e as suas consequências.
Pelas suas últimas intervenções Costa parece agora depositar as suas derradeiras esperanças no investimento com os recursos do Quadro Comunitário Apoio. Passos já “gozou” com Costa apelidando este debate – o do investimento para o crescimento – de “infantil”.
Independentemente das limitações tanto do investimento público, por via dos constrangimentos orçamentais, como do privado, por via da ausência de recursos e, principalmente, do clima de pessimismo existente nos meios económicos, seria preciso demonstrar que aquilo que falhou nos últimos quinze anos iria agora ter sucesso.
De facto, não pode deixar de atentar-se no que se passou em Portugal no passado recente e tentar perceber por que razão o efeito que agora se dá como certo não foi alcançado nas anteriores governações socialistas, já que recursos financeiros para investir foi o que não faltou desde a introdução do euro até 2010!
E aqui é que bate o ponto. Está por provar que no actual contexto económico o investimento público em grande escala gere os mesmos resultados que gerou no pós guerra. O keynesianismo, como se sabe, entrou em crise por ocasião do primeiro choque petrolífero quando um dos seus principais “dogmas” deixou de verificar-se: o aumento do investimento público e privado, por via da redução das taxas de juro, teria como consequência o aumento do emprego e da procura. Todavia, aquilo a que se assistiu no início dos anos 70 foi à coexistência da inflação com o desemprego e a estagnação.
Esta situação abriu o campo à “contra-revolução monetarista” que desde então até hoje não deixou de ganhar terreno. A hegemonia das correntes monetaristas e adopção em larga escala do liberalismo económico não resultam, ou não resultam somente, da capacidade de sedução teórica das novas doutrinas económicas, mas do contexto político em que passaram a actuar, nomeadamente a partir de meados da década de 80, e de a própria realidade ter deixado de confirmar as teses keynesianas.
É certo que os neokeynesianos têm empreendido um vigoroso esforço teórico no sentido de demonstrar que o essencial da doutrina de Keynes continua actual, limitando a intervenção do Estado àquelas áreas menos atractivas para o capital privado, mas a verdade é que não têm tido o êxito esperado sempre que têm podido pôr em prática essas doutrinas nos países desenvolvidos.
Portanto, o drama com que o PS se debate é duplo: por um lado os constrangimentos decorrentes da adopção da moeda única e as suas consequências sobre a política orçamental e de crédito e, por outro, a incapacidade já demonstrada de o investimento público em larga escala gerar o crescimento esperado, além de que está por demonstrar onde iria o Estado angariar novos recursos financeiros para investir sem se endividar ainda mais.
Perante este quadro, ao PS só restam duas hipóteses: ou diz a verdade, e explica aos portugueses que a manutenção no euro tem custos muito pesados que não está na sua mão atenuar, por mais que continue a acreditar (e predispondo-se a lutar por isso) que mais tarde ou mais cedo a União Europeia acabará por encontrar um mecanismo de compensação desses desequilíbrios; ou pura e simplesmente faz o que tem feito até aqui: omite a verdadeira situação em que o país se encontra e deixa que os portugueses continuem iludidos sobre a superação da crise por via da sua (do PS) acção governativa, acrescentando todos os dias mais um ingrediente que os leve a convencerem-se que dessa governação resultará a saída da situação em que se encontram.
Não parece realmente possível encarar outras hipóteses de saída para uma futura e hipotética governação socialista. De facto, está fora de questão que o PS se proponha resolver o problema da dívida com as inevitáveis consequências que a solução desse problema pressupõe ou que igualmente se predisponha a superar pela via socialista os constrangimentos que hoje inequivocamente pesam sobre uma visão neokeynesiana da economia.
Essas políticas terão de ser encontradas por outra via, que não a dos partidos herdeiros da velha social-democracia, hoje em acentuada decomposição, não apenas em Portugal, mas também nos demais países periféricos do sul. E o menos que se pode dizer é que esse objectivo já esteve mais longe de ser alcançado. É porém natural que, pelo seu atávico conservadorismo, Portugal, para lá chegar, tenha de constatar mais uma vez a falência das políticas “socialistas”.