O QUE INTERESSA TER EM
CONTA
Em 13 de Outubro de 2011, cerca de
três anos antes de se tornar Secretário Geral do PS, António Costa disse, na
Quadratura do Círculo: “Para haver condições de governabilidade em Portugal, acho que
existência de Blocos Centrais não são (é) saudáveis (saudável) ”, e acrescenta “o PS e o
PSD devem se oferecer condições recíprocas de governabilidade, abstendo-se em
instrumentos fundamentais de governação [.…] independentemente do conteúdo dos
orçamentos”.
Posteriormente,
quando já era Secretário Geral, em plena campanha eleitoral, António Costa
garantiu que não votava um Orçamento de Estado apresentado pelo PAF.
Como tenho o
Costa por pessoa séria, no sentido de que até hoje disse muito direitinho tudo
o que ia fazer, não enganou ninguém, embora houvesse muita gente que se tivesse
querido enganar, não vejo razões para não levar à letra aquilo que ele disse,
embora haja entre a sua actuação como comentador e como máximo responsável político
do PS uma viragem de 180 graus. Mas nem todas as viragens serão más,
nomeadamente se corresponderem a uma maneira mais iluminada de ver as coisas.
Por outro lado,
também há uma diferença política e jurídica entre rejeitar o governo e votar contra
o orçamento. O primeiro voto implica a demissão do governo, enquanto a não
aprovação do orçamento, teoricamente, apenas implica a apresentação de um outro
que possa ser aprovado.
Dada, porém, a
força expressiva da declaração de Costa é legítimo supor que o que ele queria
dizer é que a seguir a essa reprovação tomaria as medidas adequadas para pôr
fim ao governo (moção de censura ou não aprovação de uma moção de confiança apresentada
pelo Governo, embora seja pouco provável que a direita enverede por este
procedimento quando está em minoria).
Todavia, mesmo
que a vontade de Costa fosse uma “vontade férrea” ela poderia sempre deparar-se
com factores incontroláveis por quem fez a proposta – não obediência da
disciplina de voto de um certo número de deputados (os suficientes para o
governo passar) ou a costumada ausência na hora da votação do tal número de
deputados necessário à não rejeição do programa.
O mais provável,
porém, é que nada disto aconteça. O mais provável, nomeadamente se o PS tiver
menos mandatos do que o PSD, é que Costa não tenha condições para continuar à frente
do partido.
Desencadear-se-á no seio do PS uma luta fratricida entre os que
acham que se deve viabilizar o Governo, negociando acordos, quem sabe até
fazendo parte dele (para mal dos pecados de Portas) e os outros, os que se
opõem a Cavaco, como César, que até terá neste episódio um papel relativamente
importante, os que estão com Sócrates e a tal vaga esquerda que nestas ocasiões
não conta nada.
Independentemente
das consequências futuras (e serão devastadoras) que esta situação trará ao PS,
quem conhece minimamente o modo de actuação do Partido Socialista não terá dúvidas
acerca o seu desfecho. O PS não inviabilizará o Governo de direita. O que virá depois
logo se verá…
A outra
hipótese, a de o PS ter mais deputados que o PSD – hipótese cuja probabilidade
não estou em condições de avaliar – levará praticamente às mesmas
consequências.
Por um lado
Cavaco e a coligação farão sobre o PS uma tal pressão que o PS não terá condições
para a suportar. A dinâmica da vitória – falsa vitória, já que a maioria absoluta
é contra o PAF -, o anátema lançado sobre os "socialistas usurpadores" que tendo
perdido as eleições pretendem governar com o apoio de comunistas e bloquistas,
o eco de tudo isto na Europa – as Merkels, os mercados, os Draghi, etc – farão uma
tal pressão sobre o PS que seria mais fácil aos meus leitores sair-lhes o euro
milhões do que o PS ter condições para resistir a isto. Mesmo neste cenário, aparentemente melhor que o anterior, Costa teria poucas condições para continuar. De vários lados se levantariam vozes exigindo alguém capaz de "unir o Partido".
Em conclusão: a probabilidade de Costa formar Governo, perdendo as eleições, é quase nula, apesar de a vontade maioritária dos portugueses ser contra um governo do PAF.
Meus amigos, as
coisas são como são. Ou se ganha porque se tem um programa eleitoral sério
capaz de convencer as pessoas, ou se tem um programa eleitoral que esquece as
pessoas e apenas pretende fazer passar a mensagem de que se é um partido bem
comportado, e perde-se!