NÓS E A ALEMANHA
Algumas décadas mais tarde, os ministros das Finanças de
Cavaco e de Guterres – todos, sem excepção – bem como os governadores e os
técnicos superiores do Banco de Portugal, encararam a entrada na moeda única
europeia, o euro, como uma grande vitória de Portugal. Importante era estar no
pelotão da frente, como eles então diziam.
Ao reler hoje as páginas escritas por muitos desses
especialistas percebe-se como as grandes opções de política económica, não
apenas em matéria de moeda, mas em todos os domínios, nada tem de racional e
muito menos de científico. São acima de tudo ditadas por considerações de ordem
ideológica. E pelas múltiplas fantasias que a partir delas se concebem.
E na altura até havia dados empíricos muito recentes,
decorrentes da crise monetária de 1992/93 e do posterior colapso do SME, que
numa análise prudente levariam exactamente à conclusão oposta. Mas nada disso
foi tomado em conta, apesar dessa crise monetária ter tido consequências em
Portugal, traduzidas em desvalorizações do escudo, aliás sobreavaliado pela
política monetária de Cavaco.
Quem não se lembra de uma entrevista de Miguel Beleza,
ex-Ministro das Finanças de Cavaco, exultando com a adesão de Portugal ao euro,
por assim se poder concretizar, dizia ele, um “dos grandes desígnios” (eles
gostam muito da palavra, talvez por cheirar a Providência Divina) do Prof.
Cavaco Silva, que era o de Portugal poder contrair empréstimos no mercado internacional
ao mesmo juro da Holanda!
Acreditava-se, à revelia das experiências históricas conhecidas, que a adesão à moeda única integrava rapidamente as economias, com diferentes graus de desenvolvimento e de competitividade, pertencentes ao mesmo espaço económico quando na realidade as afasta, tanto mais quanto mais inexistentes forem os mecanismos de compensação. E mais grave ainda, o facto de realmente se tratar de várias economias e não de uma única economia com estadios e ritmos de desenvolvimentos diferentes, acaba por empurrar as menos competitivas para insustentáveis situações de endividamento.
Pois bem, a adesão ao euro deu no que se está a ver. Mas não
só. O euro, como toda a gente hoje (parece que já) percebeu, é uma moeda alemã, criada à imagem e semelhança do deutsche Mark, para vigorar
numa União Monetária constituída por economias profundamente desiguais e
dirigida por um banco central que obedece às mesmas regras que antes regiam o
Bundesbank. Uma moeda de que a Alemanha hoje se serve para oprimir as economias
europeias que com ela integram a mesma união monetária.
O euro, apesar da crise que o afecta e que está sendo
relativamente superada à custa de sacrifícios brutais impostos pela Alemanha às
demais economias da zona monetária comum, mais exactamente, a todas as
economias que não fazem parte do chamado núcleo do deutsche Mark - Áustria,
Holanda e Finlândia – o euro, dizíamos, não obstante a crise que o afecta,
continua a valorizar-se face ao dólar.
Segundo a Morgan Stanley, a Alemanha pode suportar uma taxa
de câmbio de 1,53 dólar, embora segundo o Deutsche Bank essa taxa pudesse
subir, sem risco para os interesses alemães, até 1,94 dólar. Economias muito mais fortes
do que a portuguesa, como, por exemplo, a francesa, já começam a ter grandes
dificuldades quando a taxa de câmbio ultrapassa 1,23 dólar.
E por que razão a Alemanha suporta o euro forte e os outros
não?
Como a Alemanha exporta produtos de alta gama, a questão do
preço desses produtos no mercado internacional, embora não seja despicienda,
não assume a mesma importância que assume em economias como a portuguesa, cujos
produtos se forem caros podem facilmente ser substituídos por outros
equivalentes mais baratos. Mesmo as economias com produtos de gama média, como
a francesa, ressentem-se profundamente com a valorização cambial do euro.
É esta política vantajosa para a Alemanha? Sabe-se que uma
velha aspiração alemã, conhecida desde o início do seculo XX, era a
desindustrialização da Europa, reduzindo-a a zonas de produção agrícola e de
recreio - assim uma coisa à moda do que Portugal está sendo hoje -,
hegemonizando ela a grande produção industrial.
Dir-se-á: mas essa política é ruinosa para a Alemanha que tem
na zona euro o seu principal mercado. Certamente. O euro forte, pelos efeitos
que provoca nas demais economias europeias, acabará por ser prejudicial à
Alemanha, da mesma forma que as políticas recessivas que a Alemanha está
impondo à Europa também acabarão por lhe ser prejudiciais. E todavia…a Alemanha
não muda, nem mudará de rumo enquanto se mantiver como potência económica
hegemónica.
É que para a Alemanha as coisas não são assim tão claras como
a nós nos parecem. Basta olhar para o passado. Indo ao mais recente: o modo
como a Alemanha conduziu a última guerra tanto no plano político como militar;
como tratou os povos dos territórios conquistados, principalmente os Untermenchen; como pretendeu “resolver o
problema dos judeus”, entre tantas outros exemplos que poderiam ser apontados,
são a prova de uma profunda irracionalidade. E todavia…tudo foi feito até ao
fim.
É bom nunca esquecer que para os alemães “tudo
o que é real é racional…”
Por isso, perante este dramático quadro em que a adesão
europeia e a moeda única nos enredaram, nós encontramo-nos numa situação muito
difícil.
Uma situação em que ficar onde estamos significa a degradação sucessiva e
acentuada da nossa soberania, da nossa dignidade, em suma, do nosso futuro. Hoje
os mais jovens ainda vão tendo capacidade para emigrar em condições muito diferentes
das da década de sessenta do século passado e de outros períodos da nossa
história, porque estudaram, porque se prepararam tão competentemente como os
demais; amanhã, cada vez serão menos os que terão acesso a essa educação superior
e indiferenciados é tudo o que a globalização não precisa.
Mas é também uma situação em que sair (deste quadro em que estamos
inseridos e do modo como estamos inseridos) significa regressar a um ponto anterior
ao ponto de partida. De facto, não obstante todos os progressos havidos em vários
domínios, não podemos perder de vista que muitos deles não são sustentáveis e
outros servem hoje mais quem está fora do que quem está dentro. Seria preciso,
portanto, começar de novo em todas aqueles domínios em que a destruição de que
fomos vítimas não causou danos irreparáveis. É uma via difícil, mas é a única
com futuro, a única que assegura um futuro às gerações vindouras.
E teria uma vantagem indiscutível cujo efeito ninguém pode
prever em toda a sua extensão: a vantagem de afrontar a hegemonia alemã sobre a
União Europeia. Algo que fatalmente vai acontecer na Europa e que só ainda não
aconteceu porque a Inglaterra está fora da moeda única.



