sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O EURO E NÓS


 

NÓS E A ALEMANHA

  Continuo a supor que, se nos longínquos anos de meados da década de sessenta do século passado, na prova escrita de Moeda, tivesse sido perguntado aos alunos do terceiro ano da Faculdade de Direito de Coimbra, que vantagens e desvantagens decorreriam para Portugal, no plano estritamente económico, sem entrar em linha de conta com considerações de ordem política, da adopção do dólar americano, em substituição do escudo, como moeda corrente na “Metrópole e Ilhas adjacentes”, a resposta seria seguramente negativa porque todos estavam em condições de perceber, depois do que tinham estudado e dos debates havidos nas aulas sobre a então ainda hipotética mas muito falada desvalorização da libra no governo de Harold Wilson, que as desvantagens dessa alteração monetária seriam ruinosas para a economia portuguesa.
Algumas décadas mais tarde, os ministros das Finanças de Cavaco e de Guterres – todos, sem excepção – bem como os governadores e os técnicos superiores do Banco de Portugal, encararam a entrada na moeda única europeia, o euro, como uma grande vitória de Portugal. Importante era estar no pelotão da frente, como eles então diziam.
Ao reler hoje as páginas escritas por muitos desses especialistas percebe-se como as grandes opções de política económica, não apenas em matéria de moeda, mas em todos os domínios, nada tem de racional e muito menos de científico. São acima de tudo ditadas por considerações de ordem ideológica. E pelas múltiplas fantasias que a partir delas se concebem.
E na altura até havia dados empíricos muito recentes, decorrentes da crise monetária de 1992/93 e do posterior colapso do SME, que numa análise prudente levariam exactamente à conclusão oposta. Mas nada disso foi tomado em conta, apesar dessa crise monetária ter tido consequências em Portugal, traduzidas em desvalorizações do escudo, aliás sobreavaliado pela política monetária de Cavaco.
Quem não se lembra de uma entrevista de Miguel Beleza, ex-Ministro das Finanças de Cavaco, exultando com a adesão de Portugal ao euro, por assim se poder concretizar, dizia ele, um “dos grandes desígnios” (eles gostam muito da palavra, talvez por cheirar a Providência Divina) do Prof. Cavaco Silva, que era o de Portugal poder contrair empréstimos no mercado internacional ao mesmo juro da Holanda!
Acreditava-se, à revelia das experiências históricas conhecidas, que a adesão à moeda única integrava rapidamente as economias, com diferentes graus de desenvolvimento e de competitividade, pertencentes ao mesmo espaço económico quando na realidade as afasta, tanto mais quanto mais inexistentes forem os mecanismos de compensação. E mais grave ainda, o facto de realmente se tratar de várias economias e não de uma única economia com estadios e ritmos de desenvolvimentos  diferentes, acaba por empurrar as menos competitivas para insustentáveis situações de endividamento.
Pois bem, a adesão ao euro deu no que se está a ver. Mas não só. O euro, como toda a gente hoje (parece que já) percebeu, é uma moeda alemã, criada à imagem e semelhança do deutsche Mark, para vigorar numa União Monetária constituída por economias profundamente desiguais e dirigida por um banco central que obedece às mesmas regras que antes regiam o Bundesbank. Uma moeda de que a Alemanha hoje se serve para oprimir as economias europeias que com ela integram a mesma união monetária.
O euro, apesar da crise que o afecta e que está sendo relativamente superada à custa de sacrifícios brutais impostos pela Alemanha às demais economias da zona monetária comum, mais exactamente, a todas as economias que não fazem parte do chamado núcleo do deutsche Mark - Áustria, Holanda e Finlândia – o euro, dizíamos, não obstante a crise que o afecta, continua a valorizar-se face ao dólar.
Segundo a Morgan Stanley, a Alemanha pode suportar uma taxa de câmbio de 1,53 dólar, embora segundo o Deutsche Bank essa taxa pudesse subir, sem risco para os interesses alemães, até 1,94 dólar. Economias muito mais fortes do que a portuguesa, como, por exemplo, a francesa, já começam a ter grandes dificuldades quando a taxa de câmbio ultrapassa 1,23 dólar.
E por que razão a Alemanha suporta o euro forte e os outros não?
Como a Alemanha exporta produtos de alta gama, a questão do preço desses produtos no mercado internacional, embora não seja despicienda, não assume a mesma importância que assume em economias como a portuguesa, cujos produtos se forem caros podem facilmente ser substituídos por outros equivalentes mais baratos. Mesmo as economias com produtos de gama média, como a francesa, ressentem-se profundamente com a valorização cambial do euro.
É esta política vantajosa para a Alemanha? Sabe-se que uma velha aspiração alemã, conhecida desde o início do seculo XX, era a desindustrialização da Europa, reduzindo-a a zonas de produção agrícola e de recreio - assim uma coisa à moda do que Portugal está sendo hoje -, hegemonizando ela a grande produção industrial.
Dir-se-á: mas essa política é ruinosa para a Alemanha que tem na zona euro o seu principal mercado. Certamente. O euro forte, pelos efeitos que provoca nas demais economias europeias, acabará por ser prejudicial à Alemanha, da mesma forma que as políticas recessivas que a Alemanha está impondo à Europa também acabarão por lhe ser prejudiciais. E todavia…a Alemanha não muda, nem mudará de rumo enquanto se mantiver como potência económica hegemónica.
É que para a Alemanha as coisas não são assim tão claras como a nós nos parecem. Basta olhar para o passado. Indo ao mais recente: o modo como a Alemanha conduziu a última guerra tanto no plano político como militar; como tratou os povos dos territórios conquistados, principalmente os Untermenchen; como pretendeu “resolver o problema dos judeus”, entre tantas outros exemplos que poderiam ser apontados, são a prova de uma profunda irracionalidade. E todavia…tudo foi feito até ao fim.
É bom nunca esquecer que para os alemães “tudo o que é real é racional…”
Por isso, perante este dramático quadro em que a adesão europeia e a moeda única nos enredaram, nós encontramo-nos numa situação muito difícil.
Uma situação em que ficar onde estamos significa a degradação sucessiva e acentuada da nossa soberania, da nossa dignidade, em suma, do nosso futuro. Hoje os mais jovens ainda vão tendo capacidade para emigrar em condições muito diferentes das da década de sessenta do século passado e de outros períodos da nossa história, porque estudaram, porque se prepararam tão competentemente como os demais; amanhã, cada vez serão menos os que terão acesso a essa educação superior e indiferenciados é tudo o que a globalização não precisa.
Mas é também uma situação em que sair (deste quadro em que estamos inseridos e do modo como estamos inseridos) significa regressar a um ponto anterior ao ponto de partida. De facto, não obstante todos os progressos havidos em vários domínios, não podemos perder de vista que muitos deles não são sustentáveis e outros servem hoje mais quem está fora do que quem está dentro. Seria preciso, portanto, começar de novo em todas aqueles domínios em que a destruição de que fomos vítimas não causou danos irreparáveis. É uma via difícil, mas é a única com futuro, a única que assegura um futuro às gerações vindouras.
E teria uma vantagem indiscutível cujo efeito ninguém pode prever em toda a sua extensão: a vantagem de afrontar a hegemonia alemã sobre a União Europeia. Algo que fatalmente vai acontecer na Europa e que só ainda não aconteceu porque a Inglaterra está fora da moeda única.

POLITEIA - V ANIVERSÁRIO

A LUTA CONTRA A DEGENERAÇÃO DA DEMOCRACIA
 
 
Faz cinco anos que a Politeia nasceu - o tempo de uma licenciatura à moda antiga. Tem sido um tempo difícil, marcado pela acentuada degeneração da democracia, que gradualmente se vai transformando numa triste e perigosa caricatura daquilo que realmente é.  
Este blogue tem pautado a sua linha de actuação contra essa degeneração da democracia em todos os domínios da vida pública.
O nosso alvo é o poder instituído. O poder que desde há décadas se apropriou da democracia, baseado numa insuficiente, porém excludente, legitimidade procedimental, para a corromper e degradar, fazendo dessa apropriação o instrumento privilegiado de defesa de interesses particulares.
O nosso objectivo é contribuir por pouco que seja para a restauração dos princípios democráticos; o nosso objectivo é participar na luta por um governo para o Povo!
 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O PS E A LEI DAS RENDAS


 

O QUE QUER REALMENTE O PS?
Manifestação, junto ao ministério da agricultura, da Associação dos Inquilinos de Lisboa para pedir a revogação da lei do arrendamento



O líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, anunciou hoje que o seu partido iria pôr a debate na próxima semana uma proposta de alteração da Lei das Rendas.

É bom que se perceba com clareza o que pretende o PS. As informações prestadas por Zorrinho à comunicação social estão longe de ser concludentes.

Quando Zorrinho diz que o PS quer repor um período de transição de 15 anos (que era, pelos vistos, o que constava do programa eleitoral do PSD e do programa de governo) de que é que Zorrinho está a falar? Do chamado período de transição que consta da lei, estendendo-o de 5 para 15 anos?

Se é isto mais vale que o PS esteja quietinho. Como aqui neste blogue já se demonstrou não há nenhum período de transição na lei em vigor. Há, no essencial, para os arrendamentos para habitação anteriores a 1990, dois regimes consoante o rendimento bruto do agregado familiar (RABC) do inquilino é superior ou inferior a cinco retribuições mínimas anuais nacionais (RMNA), qualquer que seja a sua idade ou o seu grau de deficiência.

O período de cinco anos previsto na lei não constitui por si só um verdadeiro regime de transição, porque, para os inquilinos com rendimento bruto do agregado familiar superior a 5 RMNA, ele terá pouquíssimas hipóteses de ser aplicado em virtude de a sua aplicação elevar o montante da renda para valores incomportáveis com aumentos da ordem dos 400, 500 e até 1000%! Não há com esta configuração nenhum regime jurídico que possa ser apelidado de transição! É um regime inovador, perversamente chamado de transição, bem ao estilo da governação do CDS e dos seus ministros.

Mas o regime também não é de verdadeira transição para os inquilinos cujo rendimento bruto do agregado familiar seja inferior a 5 RMNA, porque os aumentos de renda a que ficam sujeitos, nomeadamente – mas não só – os rendimentos superiores a 1500 € mês, são igualmente incomportáveis, atingindo frequentemente 50, 60%, ou até mais, do rendimento líquido das famílias, em virtude dos brutais cortes e da onerosíssima carga fiscal incidente sobre os ordenados e as pensões.

Portanto, se a ideia do PS é aumentar para 15 anos o período de 5 anos previstos na lei, como pareceu já ter sido essa a sua vontade na fase de discussão e votação no Parlamento da proposta de lei, teremos, mais uma vez, o PS no seu melhor.

É o PS sócio da Troika que em nada se distingue, no essencial, do PSD e das suas políticas. Muita conversa, muita abstenção violenta, mas na hora da verdade o que realmente fica é a imagem de uma tosca maquilhagem feita com produtos de barata demagogia.

Se o PS realmente quer estabelecer um período de transição digno desse nome e em consonância com os princípios estruturantes do Estado de direito democrático, a primeira coisa que tem a fazer é propor, na ausência de acordo entre as partes, a fixação legal da renda em 3%, o máximo 3,5%, do valor patrimonial tributário do locado a atingir num período de 15 anos, mediante aumentos escalonados ao longo desse período (sobre os quais incidiria, em cada ano, o coeficiente de aumento das rendas) e continuar a admitir a atribuição de subsídios (directamente entregues aos senhorios) para os rendimentos abaixo de certo montante.

E mesmo assim ficaria por resolver uma questão importante: a influência do grau de conservação do locado na fixação da renda.

Se alguém interessado quiser fazer chegar este post e o anterior ao Grupo Parlamentar do PS, enfim, seria pelo menos suficiente para doravante se saber que o PS não actuou por ignorância…



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O ÊXITO CONTINUA


 
 
É A VERTIGEM DO SUCESSO!
 
Gaspar anunciou no Parlamento o que qualquer pessoa minimamente informada já sabia. Melhor: Gaspar começou a anunciar o que vai acontecer. Porque o que vai acontecer não é o que Gaspar comunicou. A recessão não vai ser em 2013 o dobro da prevista. Vai ser muito maior. No mínimo, o triplo, ou seja, 3%, mas é provável que vá além.
Porquê? Porque depois do ataque que eles fizeram à procura interna este ano, superior ao que fizeram no ano passado, acompanhado da recessão na Europa, principalmente em Espanha, nosso principal cliente, a recessão só poderá aumentar.
Os gauleiters da Merkel estão a destruir este país. Temos de correr com eles. É uma exigência da democracia.
Justifica-se uma reflexão, de preferência à escala europeia, no mínimo à escala nacional, sobre o papel da Alemanha nesta crise. Uma reflexão que tome na devida conta a história da Alemanha no relacionamento com os outros povos, principalmente no século XX.
Por agora ficamos aqui, na certeza de que esta não é uma questão menor.

A DIATRIBE DO SR. SANTOS SILVA (AUGUSTO)


 

TENHA VERGONHA!
 

 Para o sr. Santos Silva (Augusto) a democracia é um jogo, um joguinho floral, que se pratica ali para os lados de S. Bento: ora dizes tu, ora digo eu (ai que interessante fomos, ai que bem nos saímos…) e logo à noite encontramo-nos todos no Gambrinos ou no Procópio, mesmo que em mesas diferentes.
Mas para os professores que perderam o emprego e a casa, para os estudantes que não podem estudar porque não têm dinheiro para pagar a estadia e as propinas, para os velhos que a Cristas vai despejar, para os doentes que não vão ao hospital porque não têm dinheiro para o co-pagamento e para tantos e tantos outros que os “relvas” deste país marginalizaram e remeteram para uma vida sem futuro, a democracia não é um joguinho. É a vida. E pela vida luta-se com as armas que temos na mão!

O RELVAS E CERTOS COMENTADORES DO PS


 

DUAS CONCEPÇÕES DE DEMOCRACIA
Estudantes obrigam Relvas a abandonar conferência

 

É difícil não dizer, com muita mágoa nossa, que o Relvas esteve melhor nas vaias de ontem e de hoje do que alguns responsáveis do PS que as comentaram (Santos Silva e Proença).
 
Relvas, mal ou bem, com aquela cara sem vergonha que Deus lhe deu, lá foi dizendo que eram ossos do ofício aquilo por que passou e que estava preparado para continuar a passar. Não interessa o que ele estava a pensar nem o que provavelmente vai tentar fazer. Interessa o que ele disse.

Mas para Santos Silva (Augusto) e Proença (UGT) foram actos antidemocráticos que empobrecem e envergonham a nossa democracia.

Felizmente, os estudantes responderam com toda a propriedade a todos aqueles que lhes perguntaram se os protestos não teriam sido exagerados.

Responderam bem. Democraticamente, enumerando os exageros e a violência do Governo.

Há aqui duas concepções de democracia: a do Governo e a dos responsáveis do PS que entendem que tudo o que o Governo faz é legítimo…porque foi eleito, independentemente de eles concordarem ou não com a governação. E a dos estudantes – que é também a nossa - que é uma concepção substantiva de democracia: se é preciso ser eleito para governar, não basta ser eleito para que todos actos de governação sejam legítimos.

Por favor, não desmobilizem. Mantenham-se violentamente abstencionistas, mas não desmobilizem!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

LEI DAS RENDAS – AS MENTIRAS DA MINISTRA CRISTAS



AS VERDADES QUE A MINISTRA ESCONDE

Sobre a lei das rendas – novo regime do arrendamento urbano, Lei n.º 31/2012 de 14 de Agosto – tem havido muita contra-informação, muitas mentiras que tentam esconder o verdadeiro regime da lei elaborada pela Ministra Cristas - certamente com a colaboração da Ministra Von Hafe, pelo menos em matéria de despejo -  que o Parlamento aprovou, sob proposta do Governo.

A lei, apesar de complexa e redigida de forma confusa, quase incompreensível para a generalidade daqueles que têm de suportar as consequências mais dramáticas da sua aplicação, pode com algum trabalho de síntese ser explicada em termos simples.

Não é bem isso que vamos fazer neste post por este blogue não ser um lugar de comentário jurídico; vamos apenas enunciar, em termos compreensíveis por toda a gente, as grandes linhas do regime jurídico previsto na lei, nomeadamente no que se refere aos arrendamentos para habitação anteriores a 1990 (arrendamentos de pretérito).

A primeira conclusão que se pode tirar da leitura da nova lei é que ela consagra em toda a linha os princípios neoliberais que tem norteado a política económica do Governo, agravando e precarizando a posição do inquilino, tratando-o como uma espécie de intruso tolerado com o qual se pode “correr” à menor contrariedade. É bom que se diga que, com excepção dos arrendamentos anteriores a 1990, o contrato de arrendamento desde há muitos anos deixou de estar sujeito em Portugal à chamada legislação vinculística, contrariamente ao que por aí é veiculado, quando se pretende imputar à legislação pré-existente a ausência de um mercado de arrendamento. Nos termos da legislação agora em vigor, a grande diferença relativamente ao regime dos arrendamentos posteriores a 1990 é o agravamento da posição contratual do inquilino, precarizando-a, a ponto de se poder dizer que neste tipo de contrato, porventura mais do que em qualquer outro, salvo o contrato de trabalho, a lei desequilibra impositivamente as obrigações e os direitos de cada uma das partes tornando-as ainda mais desiguais do que realmente seriam se a lei as considerasse iguais – esta a verdadeira essência do neoliberalismo!

Se esta é a caracterização jurídica dos arrendamentos posteriores a 1990, pode afirmar-se sem receio de errar que o regime jurídico a que ficam sujeitos os arrendamentos anteriores a 1990 ainda é mais grave. De facto, no estabelecimento do novo regime a lei fez tábua rasa dos grandes princípios constitucionais estruturantes do Estado de direito. Quando a direita em Portugal clama contra a Constituição, como se nela residissem os males que afligem o país, o que verdadeiramente pretende atacar é o Estado de direito e substituir os conhecidos princípios da igualdade, da proibição do excesso, da proporcionalidade, da confiança e da segurança jurídica, entre outros, pelos “princípios” da arbitrariedade e da prepotência legislativa. É por essa prática se ter tornado cada dia mais evidente que igualmente se torna mais imperdoável o comportamento de certos constitucionalistas que, depois de se terem arvorado nos grandes arautos do Estado de direito democrático, se refugiam agora em complexas “problematizações da problemática” com que o Governo se defronta, tentando com essas pretensas teorizações encontrar ou deixar implícita uma via de justificação para o que está sendo feito em todos os domínios da vida pública portuguesa.

Indo agora directamente à explicação do regime legal:

1 - No que respeita aos arrendamentos de pretérito, a lei estabelece um pseudo regime de transição de 5 anos para os inquilinos com idade igual ou superior a 65 anos; com deficiência comprovada superior a 60% de incapacidade física; e com um rendimento bruto do agregado familiar (RABC) inferior a cinco retribuições mínimas nacionais anuais (RMNA).

É um pseudo regime de transição por duas razões: primeiro, porque não é um regime de transição, é um regime novo – inovador sob todos os aspectos, alterando profundamente o regime anterior; e depois, porque poucos serão os inquilinos que terão possibilidade de manter as casas que actualmente habitam durante os próximos cinco anos.

2 - Por outro lado, é igual falso que a lei proteja especialmente os mais velhos e os deficientes. Estas características na prática não induzem a aplicação de um regime legal diferente do que é aplicado aos inquilinos com menos de 65 anos e sem deficiência física relevante, nem levam ao cálculo de uma renda distinta da exigida a estes. Tanto a uns como a outros acaba por aplicar-se o regime imposto por lei que fixa uma renda equivalente a 1/15 avos do valor patrimonial tributário do prédio, calculado nos termos do art.º 38.º do Código do Imposto Municipal sobre Imóveis (CIMI), ou seja, uma renda estratosférica traduzida na esmagadora maioria dos casos em aumentos de 300, 400, 500 e até 1000%!

3 - A única diferença juridicamente relevante é a que se baseia no rendimento bruto do agregado familiar do inquilino (RABC), consoante ele for superior ou inferior a cinco retribuições mínimas nacionais anuais (RMNA). Enquanto no primeiro caso a renda acaba por ser estabelecida por referência ao valor patrimonial tributário do prédio, no segundo ela será fixada por referência ao rendimento bruto do agregado familiar – 10% para o rendimento bruto mensal inferior a 500 €; 17% para o rendimento bruto mensal inferior a 1500 €; e 25% para o rendimento bruto mensal superior a 1500 €.

O facto de existir esta diferença de regime com base no rendimento - a única na prática verdadeiramente relevante – não significa que haja uma verdadeira protecção para os rendimentos inferiores a cinco retribuições mínimas nacionais anuais. Primeiro, porque se trata do rendimento do agregado familiar e depois porque o rendimento que se toma em conta é o rendimento bruto. Ora, considerando os brutais “cortes” que têm sido feitos nas pensões e nos vencimentos do sector público, bem como os impostos que incidem sobre o rendimento em geral, o montante da renda a pagar nada terá a ver com as percentagens anunciadas, podendo antes ir nos rendimentos superiores a 1500 € a mais de 50% ou 60% do rendimento líquido!

4 - É também falso que a indemnização prevista na lei por denúncia do contrato por parte do senhorio, equivalente a 60 meses do valor médio da proposta inicial do senhorio e da contraproposta do inquilino, seja na prática operativa. De facto, nenhum senhorio no quadro deste regime legal vai denunciar o contrato para reaver o prédio mediante o pagamento de uma indemnização quando tem à sua disposição um meio alternativo que lhe assegura o mesmo resultado ou, não sendo esse o caso, uma retribuição óptima do local arrendado. Na verdade, a alternativa que a lei lhe concede – fixação da renda em 1/15 do valor patrimonial do locado – torna a renda incomportável para mais de 90% dos inquilinos. Por que pagar o que pode obter de graça?

5 - Finalmente, é preciso acrescentar que a renda é fixada sempre nos mesmos termos qualquer que seja o grau de conservação do imóvel. Tanto vale que o locado se encontre em péssimas condições como razoavelmente conservado. Por outro lado, o modo de fixação da renda que a lei prevê pressupõe uma amortização em 15 anos do valor patrimonial do locado, ou seja, cerca de 6,7% ao ano, o que não deixa de ser um negócio “tipo BPN”!

6 - Comentários finais - É como se vê uma lei extremamente perversa, elaborado por uma mente pérfida, bem à imagem do que é o CDS, os seus ministros e Paulo Portas. Para além da campanha que Mota Soares tem feito contra os pobres, limitando-lhes os subsídios sociais, deixando-os na maior indigência, encarando-os como um fardo que importa alijar, veio agora a Cristas bem na linha do seu partido arremeter contra os velhos, criando juridicamente todas as condições para que possam ser postos na rua da casa onde habitam há várias décadas. Como convém acabar com esta “fonte de despesa” para o Estado que são os pobres, os deficientes e os velhos, o CDS usa os meios adequados consoante a época. Se tivesse governado na década de trinta do século passado teria usado outros…Como estamos na época do neoliberalismo, usa os económicos...

Esta lei não foi aprovada para “liberalizar” o mercado de arrendamento como eles cinicamente dizem. Esta lei foi aprovada exclusivamente para despejar os inquilinos dos arrendamentos mais antigos. Esse o seu único objectivo. É uma lei onde o racismo social de que o CDS é o principal intérprete na governação está sempre presente. É uma lei contra os velhos, contra os deficientes e contra os pobres.

Para concluir uma palavra sobre Cavaco. Cavaco nada fez para impedir que as arbitrariedades e iniquidades desta lei entrassem em vigor. Aceitou sem pestanejar o regime que ela consagra de imediato e contentou-se relativamente ao que possa acontecer daqui a 5 anos (e daqui a 5 anos para a maior parte das pessoas não acontecerá nada, porque o que tinha que acontecer já aconteceu antes) com uma declaração pessoal da Cristas prometendo-lhe que até lá tomará providências! Contado não se acredita…mas como está escrito tem de se acreditar. Mas acredita-se com mais facilidade se nos lembrarmos que Cavaco é aquela pessoa que trocou com alguém ligado à SLN uma moradia por um terreno…tendo-lhe depois aparecido no sítio do terreno uma moradia nova bem melhor do que a anterior ou que comprou à dita SLN um lote de acções que pouco tempo depois revendeu a essa mesma SLN, por ajuste directo, com um lucro de 140%!

Em Portugal tudo é possível, portanto! Até ver…

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O QUARTO MANDATO CONSECUTIVO


BATOTA AUTÁRQUICA
 
 

 

A Associação Transparência e Integridade vai pedir a declaração de ilegalidade das candidaturas autárquicas que estão sendo anunciadas por candidatos que já desempenharam três mandatos autárquicos consecutivos como presidente de câmara.

De facto, nem se percebe como é possível a apresentação de candidaturas de pessoas que se encontram naquelas condições.

É que tanto infringe a lei o comportamento de quem a viola directamente (o que aliás é o caso) como aquele que a frauda, isto é, que contorna uma disposição legal, tentando chegar por caminhos diversos ao resultado que a lei proibiu.

A distinção que certos políticos – e certos partidos políticos - pretendem fazer entre a mesma autarquia e uma autarquia diferente para depois concluírem que a proibição só se refere à mesma autarquia não passa dum batota que nem sequer pode ser considerada uma variante interpretativa errada da letra e do sentido do texto legal.

Se é certo que o velho princípio romano “ubi lex non distinguit, nec nos distinguere debemus” deve ser aplicado com cautela em matéria de interpretação das leis, também não é menos verdade que qualquer interpretação tem de partir das próprias palavras da lei. E as palavras da lei, salvo algumas situações que no caso em apreço se não verificam, devem ser interpretadas de acordo com o seu sentido comum e corrente já que é aos cidadãos que a lei se dirige e, portanto, deve entender-se que ela reflecte tanto quanto possível aquele sentido.

Contudo, os vocábulos utilizados pelo legislador para exprimir o seu pensamento raramente são unívocos e envolvem frequentemente múltiplos sentidos, como aliás acontece com a linguagem em geral. Pois bem, a interpretação verdadeira e própria, ou se se preferir, a interpretação stricto sensu, é aquela que cabe no sentido literal possível dos vocábulos utilizados. Por exemplo, se a lei diz que determinada situação se aplica aos filhos, poderemos discutir a abrangência deste conceito na linguagem comum e corrente, sendo certo que ele abrange situações diversas, algumas delas até relativamente distantes daquilo a que se poderia chamar o “núcleo” do conceito, mas que por caberem no seu domínio marginal fazem parte do seu sentido literal possível.

E de todos esses sentidos teremos de partir para, na sequência de um processo interpretativo mais ou menos complexo, se concluir qual o sentido com que a lei se deve aplicar. Para esse feito a teoria jurídica da interpretação da lei dispõe de múltiplos instrumentos a que o intérprete deve recorrer para saber, no exemplo dado, se a lei apenas se aplica aos filhos no sentido jurídico-biológico do termo, ou se também abrange os adoptados, mas não já porventura os enteados, os pupilos e os cônjuges dos nossos filhos, todos eles englobáveis no sentido literal possível do conceito.
Mas o que está fora de qualquer dúvida é que no conceito de filhos caibam os irmãos ou mesmo os netos. Uma busca de sentido que vá para além do sentido literal possível já não é interpretação, mas modificação do sentido da lei. Não quer dizer que isso não seja possível, que ao juiz esteja vedada a possibilidade de ir além do sentido literal possível, mas aí já estaremos no domínio do desenvolvimento judicial do direito, ou seja, no domínio da integração de lacunas, patentes ou ocultas, estas por via daquilo a que os juristas chamam “redução teleológica”, ou, nos casos extremos, no domínio daquilo a que se chama o desenvolvimento do Direito superador da lei.

Se a integração de lacunas ainda cabe no domínio da interpretação lato sensu, embora a sua constatação e consequente colmatação estejam subordinadas à verificação de pressupostos muito estritos, já o desenvolvimento judicial do direito superador da própria lei é uma actividade excepcional, muito excepcional mesmo, que somente em casos muito contados poderá ser utilizada pelo juiz sob pena de se subverter o princípio da separação de poderes e a própria legitimidade democrática.

Pois bem, no caso da Lei n.º 406/2005 o problema de saber se um presidente de câmara pode exercer quatro mandatos consecutivos nem sequer se põe. Não é preciso ser jurista para perceber a lei, basta ter a 4.ª classe, como diz o Paulo Morais!

De facto, para que pudesse prevalecer o sentido daqueles que entendem que a mesma pessoa pode desempenhar quatro, seis, doze mandatos, enfim, uma vida, como presidente de câmara, desde que fosse mudando de câmara de três em três anos era preciso que houvesse uma lacuna na lei. E não há lacuna nenhuma. A lei é clara. Três mandatos consecutivos é o máximo que a lei permite. Não há quarto mandato consecutivo previsto na lei, seja qual for a câmara. 

Para os que falaciosamente dizem que a lei se refere ao órgão e não à pessoa que o integra, enfim, o mínimo que se poderia dizer é que então a maior parte das câmaras tinha de ficar com o órgão vago…porque já tinha sido preenchido três vezes consecutivas.

Em conclusão: a recandidatura ao quarto mandato é uma ilegalidade e acima de tudo uma batota de partidos e de candidatos para quem a lei não passa de um pequeno obstáculo sempre transponível!

 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VOOS DA CIA


 

A COLABORAÇÃO PORTUGUESA ENTRE 2002 E 2006

O relatório ontem publicado em Nova York pela investigadora Amrit Singh da Open Society Foundation não diz nada que antes se não soubesse sobre os voos da CIA, apenas confirma, agora com mais provas, o que já se sabia ser o envolvimento de 54 países, entre os quais Portugal (115 escalas em território português), em detenções à margem da lei realizadas pela CIA em diversos países.

O que se passou em Portugal só se pode ter passado com o conhecimento e a autorização do governo português. De vários governos portugueses, nas datas que se tornaram do domínio público depois que foi conhecido o envolvimento de Espanha.

Como aqui se referiu em múltiplos posts, ninguém acreditaria, por mais irrelevante que fosse o Estado “colaborante”, que os voos da CIA tivessem usado aeroportos portugueses e cruzado o espaço aéreo português sem autorização do Governo.

Todos aqueles que no Parlamento negaram veementemente o seu próprio envolvimento e o envolvimento de Portugal estavam a mentir. Mas isso também já se sabia a partir do momento em que se tornaram públicos telegramas da Embaixada americana em Lisboa versando o assunto.

A administração americana, principalmente a de Bush, contava com amigos muito íntimos no seio do Governo português. Como eles lutaram pelo “reforço da relação transatlântica” …e agora a América, sem mais, retira-se praticamente das Lajes, fecha-lhes comandos em Oeiras, em suma, vira-lhes as costas e volta-se para o Pacífico. Coitados, em menos de trinta anos ficaram órfãos duas vezes: primeiro da Guerra Fria que era a razão de ser da sua existência política e agora da relação transatlântica. Ainda vão ter de emigrar para as ilhas Salomão para colaborarem no fortalecimento da “relação transpacífica”.

Lamentável a actuação da Procuradoria Geral da República que nada viu, nada soube, nada descobriu…

Quem se habitua a desprezar e a desrespeitar os direitos dos outros acaba mais tarde ou mais cedo por ver desrespeitados os seus próprios direitos…

A REPORTAGEM DA SIC SOBRE O BPN


 

A INDEPENDÊNCIA DOS REGULADORES

A reportagem da SIC sobre o BPN, que hoje começou a ser apresentada, é a prova evidente da promiscuidade que existe no mundo financeiro entre os reguladores e o capital financeiro, bem como entre estes e os chamados auditores externos, constituídos por conhecidas multinacionais que operam em todo o mundo.

O que se diz dos reguladores do capital financeiro pode dizer-se de quaisquer outros reguladores cuja pretensa acção fiscalizadora incida sobre actividades apenas ao alcance do grande capital, como a energia, os combustíveis, as telecomunicações, etc.

Todos eles são realmente independentes da democracia e do poder democrático, ao qual não prestam contas de nenhuma espécie, não obstante da sua actuação resultarem para os cidadãos em geral consequências tão ou mais importantes do que as que resultam da actuação dos governos e dos parlamentos. Mas dependem em todo o lado, tanto na Europa como na América, daqueles cuja acção eles têm por função fiscalizar. Só podem ser nomeados para os respectivos lugares se tiverem a aquiescência dos “regulados” e as decisões que vierem a tomar estão sujeitas ao prévio controlo ou são mesmo induzidas pela vontade real ou presumida do "regulados", que os reguladores, por pertenceram ao mesmo meio, conhecem perfeitamente.

O caso do BPN é a todos os títulos paradigmático: Oliveira e Costa, o banqueiro, já tinha pertencido à supervisão do Banco de Portugal e Constâncio, o regulador, era e é um homem desde sempre ligado ao capital financeiro.

Por que haveria de actuar Constâncio se o essencial do que o BPN fazia era praticamente o mesmo que todos os demais bancos estavam fazendo?

No caso BPN - e isso não deveria dar lugar a dúvidas - não há maus e bons. São todos iguais: os que o geriram, os que o fiscalizaram, os que o nacionalizaram e os que o venderam.

O grande erro foi ter-se começado a dizer que o BPN era um “caso de polícia”. Não é isso o que o distingue. O que o distingue é a incompetência dos seus gestores, que não souberam apresentar como um “negócio financeiro normal” a actividade do banco e a voracidade de um conjunto de ladrões recém-saídos da pobreza ou de uma situação remediada que quiseram em muito pouco tempo acumular grandes fortunas pessoais, coisa que nos bancos com tradição tem outro ritmo e outro tempo de concretização. Essa a especificidade do BPN.

 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A MINI REMODELAÇÃO DOS “AJUDANTES”






 
O MINISTÉRIO DA ECONOMIA
 
A remodelação dos secretários de Estado do Ministério da Economia significa politicamente o reconhecimento da falência da acção política do ministério. Como Passos Coelho e Relvas não podem mexer no Ministro, rodearam-no de gente sua na esperança de que daqui para a frente as coisas possam ser um pouco diferentes.
Não podem mexer no Ministro porque a sua substituição traria imediatamente à tona os apetites do CDS pelo ministério, para cuja pasta se perfilam desde o início dois conhecidos “gabirus” intimamente ligados ao grande capital e à alta finança. E essa “prenda” era tudo o que Passos e Relvas jamais dariam ao CDS na presente conjuntura política.
No Ministério da Economia manteve-se o homem do Relvas, ligado às privatizações, feitas ou a fazer, na área da sua competência. É também por intermédio dele ou sob a sua influência que se contratam para “acompanhar” as privatizações os escritórios de advogados de gente do PSD politicamente íntima de Relvas. Para além do dinheiro que esses escritórios ganham na “nobre tarefa” de que são incumbidos, em regra uma tarefa para o desempenho da qual as Finanças já lá tinha os seus, eles ficam também a saber tudo o que se passa nas respectivas empresas e sobre as respectivas empresas. E esse conhecimento é muito importante…pois permite à gente do Governo que os recomendou ficar muito “habilitada” para as conversas que costuma ter com os potenciais compradores, conversas, como eles reconhecem, indispensáveis para a realização de um “bom negócio”. As coisas ainda se tornam mais interessantes quando por um daqueles acasos em que a vida é fértil existe uma ligação estreita entre os que assessoram o Governo e os que assessoram os potenciais compradores…
Entre os novos, lá vem o homem da SLN. Uma escolha na qual é impossível não ver a mão de Relvas e do seu “irmão siamês”, Passos Coelho….bem como daqueles que estando afastados lhes são próximos. Todavia, o Álvaro pode não estar completamente inocente na escolha de Franklim Alves. A “Viseu connection” é muito provável que tenha desempenhado aqui algum papel, dado a importância que teve e continua a ter na SLN, bem como no PSD. Mas esta escolha é também um aviso e um xeque-mate a Cavaco. Como Cavaco tem por resolver aquela questão das acções da SLN, eles acharam que o poderiam formalmente co-responsabilizar pela nomeação, já que lhe faltava autoridade para formular qualquer objecção, mesmo em jeito de conselho paternal.
O comentário do Prof. Marcelo sobre a conversa que teve com Franklim é uma boa explicação …mas apenas para aquelas aulas das disciplinas que o Relvas frequentou para se licenciar….
Por explicar fica a substituição da Secretária do Estado do Turismo. Provavelmente alguma questão interna do CDS. Quanto ao do Emprego, é um “rebuçado” à UGT que juntamente com o Álvaro muito tem feito pela “reforma” do trabalho…
Para terminar: é óbvio que o que se passa no Ministério da Economia em matéria de “crescimento” não tem nada a ver, ou tem pouquíssimo a ver, com a inoperância do Álvaro. O Álvaro tem feito, com a colaboração da UGT, o que lhe é pedido na destruição da regulamentação laboral e nessa medida tem cumprido integralmente. Seria difícil ir mais longe. Mas quanto ao resto, por muita capacidade que ele tivesse, nada poderia fazer. Posto perante uma política de deflação salarial em grande escala, que ele continua a ajudar a pôr em prática, de cortes maciços no investimento público, com vista à brutal retracção da procura interna, como iria ele promover o crescimento? Com incentivos à exportação? Isso até já se fez em muito maior escala no governo anterior. Mas não chega. Embora os resultados sejam relativamente favoráveis, não se pode perder de vista que num país com uma estrutura económica como a do nosso as exportações serão sempre insuficientes para relançar o crescimento. Mas  já teriasido possível, se as coisas não estivessem a ser tratadas no domínio do mais obcecado fundamentalismo, promover o crescimento da produção interna com vista à substituição ou, pelo menos, à redução das importações, em sectores importantes da economia portuguesa. Só que disso o Governo não cura, convencido como está de que uma fénix acabará por renascer das cinzas resultantes da destruição do modelo económico herdado.
E assim se vai afundando o país para níveis anteriores ao 25 de Abril, como já acontece com o consumo de cimento! Nenhum país pode aspirar a um nível razoável de bem-estar sem uma robusta procura interna por mais pequeno que seja o seu mercado no contexto mundial. A arte está em saber direccioná-la para a produção nacional, ou de grande valor acrescentado nacional, nos domínios onde tal seja possível. E isso o Governo não faz, nem quer fazer.


ALEMANHA ESCONDE OBRAS DE ARTE ROUBADAS PELOS NAZIS


 

UMA REPORTAGEM DER SPIEGEL

 

Numa extensa reportagem de dez páginas Der Spiegel acusa a Alemanha de esconder as obras de arte roubadas pelos nazis.
Ver aqui, num artigo do ABC de Espanha, ou em Spiegel online international, um resumo da reportagem publicada por Der Spiegel – O relógio de Hitler, o segredo da Alemanha.
 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

STALINGRADO


 

HÁ 70 ANOS
 

No dia 2 de Fevereiro de 1943, nas ruínas da fábrica de tractores, rendeu-se o último grupo combatente de soldados do VI Exército alemão.

Por mais que revejam a História e tentem agora transformá-la no que ela não foi, Stalingrado ficará para sempre como uma das mais memoráveis batalhas da História. Como disse Yeremenko, comandante da Frente de Stalingrado, os defensores de Stalingrado obtiveram uma vitória moral sobre o inimigo. Foi a defesa heróica da cidade durante quatro meses, de fins de Agosto a meados de Novembro de 1942, que permitiu ao Exército Vermelho iniciar a grande operação de cerco das tropas alemãs que levou à rendição de von Paulus, comandante do VI exército alemão.

 Estalinegrado foi uma grande vitória dos povos da União Soviética contra o nazismo. Uma vitória que alterou o curso da guerra, abrindo caminho à vitória final de todos os que no leste e no oeste combatiam a bestialidade nazi.

Na fotografia, Vassily Tchuikov, comandante do 62.º Exército, mais tarde 8.º Exército da Guarda, que haveria de comandar a contra-ofensiva soviética pela Bielorrússia e a Polónia até Berlim!

Ficou célebre a resposta dada por Tchuikov a Yeremenko e a Khrushchev (comissário político da Frente de Stalingrado) quando lhe perguntaram se compreendia bem a tarefa de que estava incumbido. Ele respondeu: “Vamos defender a cidade ou morrer, tentando-o!”

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A ILUSÃO DO REGRESSO AOS MERCADOS


 

O QUE REALMENTE SE ESTÁ A PASSAR

Depois da propaganda da semana passada sobre o “regresso aos mercados” mantém-se para o português comum a triste realidade em que o Governo o mergulhou com uma política exclusivamente orientada para satisfazer o interesse dos credores e a voracidade dos banqueiros.

E a triste realidade é esta: aumenta todos os dias o número de desempregados, cresce continuamente o número de falências, subsiste a recessão económica ou pode mesmo agravar-se se o Governo levar à prática apenas algumas das várias medidas que se propõe concretizar no quadro da pretensa reforma do Estado e, finalmente, aumenta para números insustentáveis a dívida pública.

A dívida pública já ultrapassa os duzentos mil milhões de euros e o próprio PIB em mais de vinte por cento. Esta situação, que nunca seria confortável, e em caso algum dispensaria a análise das causas que lhe deram origem, não seria tão grave quanto está sendo nas suas consequências imediatas nem nos seus desenvolvimentos futuros se o país estivesse a crescer, se houvesse alguma inflação (moderada) e se os juros fossem idênticos aos praticados até à crise financeira de 2008.

Mas nenhuma destas condições se verifica, nem está em vias de se verificar por mais optimistas que sejam as previsões daqueles que vêem sinais de mudança no panorama europeu.

De facto, a imposição de políticas altamente restritivas da procura interna, a deflação salarial e a forte restrição do crédito, o controlo da inflação pelo BCE como primeira prioridade em detrimento do crescimento e do emprego bem como a ausência de uma política monetária e de crédito verdadeiramente virada para as necessidades dos cidadãos e das empresas produtivas impedem que o país cresça agora e nos tempos mais próximos.

Diz a propaganda do Governo que a situação mudou positivamente nos últimos meses e que a partir de agora estão criadas as condições para relançamento de um crescimento “sustentado”. Nada na política do Governo aponta nesse sentido, podendo apenas dizer-se que a única diferença relativamente à situação vivida há uns meses atrás consiste numa certa estabilização dos “mercados financeiros”, não por terem voltado a ser o que foram nos anos subsequentes ao nascimento do euro, mas por ter sido estancada a espiral especulativa que assolou os mercados a partir da crise grega e da indisponibilidade da Alemanha para, no quadro da zona euro, colaborar eficazmente na adopção de medidas que rapidamente a solucionassem.

Portanto, a mudança que existe é apenas esta e nenhuma outra. Nada no panorama da política europeia e da política monetária e creditícia do BCE aponta para o regresso a uma situação anterior à crise. Pelo contrário, consolida-se cada vez mais a ideia de que o Euro deixou de ser uma moeda comum para se tornar uma moeda a “várias velocidades” num jogo de resto zero. O que uns ganham contraindo empréstimos a juros baixíssimos ou até negativos é o que outros perdem no seu famoso regresso aos mercados com juros várias vezes superiores às possibilidades das suas economias.

 E se esta situação que agora existe pode parecer aceitável, por ocorrer na sequência de uma escalada especulativa absolutamente insustentável, aparentemente ou transitoriamente estancada, ela revelar-se-á a igualmente a breve trecho incomportável pelas diferenças que potencia e pelas desigualdades que gera.

Dito de uma forma mais clara: uma união monetária entre territórios economicamente muito desiguais, deixados na sua actividade económica ao puro jogo do mercado, não integra com equidade as respectivas economias, antes as afasta aprofundando diferenças de competitividade e de riqueza quer entre as partes que a compõem quer dentro de cada uma das unidades individualmente consideradas. Estas desigualdades tendem a consolidar-se e a profundar-se tanto mais depressa quanto mais distante era o ponto de partida entre as partes integrantes dessa união monetária.

E ainda sobre a cessação (ver-se-á dentro de pouco tempo se temporária ou com alguma consistência) da escalada especulativa convém dizer que ela abrandou por duas razões: primeiro porque o BCE deu a entender que agiria como garante de última instância se os países que estavam a ser vítimas dessa escalada especulativa continuassem a tomar as medidas necessárias ao cumprimento dos programas de ajustamento e em segundo lugar porque a Troika tem velado e continuará a velar para que por via daqueles programas se transfiram regularmente para os credores as somas em dívida.

Ou seja, a Troika e as instâncias com responsabilidades na condução da política europeia têm todas as razões para se sentirem satisfeitas com o Governo português porque o Governo tem sabido pôr os interesses dos credores e do capital financeiro acima, muito acima, dos interesses dos portugueses. E é isso o que realmente está a acontecer: os bancos estão a regressar aos grandes lucros com ajudas quase gratuitas do Estado e do BCE e os credores vão tendo a garantia da Troika de que o Estado português se propõe cortar nas despesas sociais, nos salários e nas pensões para lhes continuar a assegurar o pagamento da dívida.  

Esse tem sido o “mérito” do Governo português. Mas não haja ilusões, esta política de progressivo empobrecimento não tornará a dívida sustentável. A espiral recessiva em que está mergulhada a economia portuguesa agrava progressivamente a dívida cujo peso se vai tornando mais insustentável a cada dia que passa. Basta olhar para o seu crescimento exponencial em termos absolutos e em relação ao PIB bem como atentar no seu serviço nos próximos oito anos para imediatamente se perceber como são falaciosas e completamente destituídas de fundamento as “vitórias” do Governo.

Nem mesmo a crença do Governo no surgimento de um novo modelo económico gerado pelas políticas que estão sendo levadas a cabo alteraria minimamente a actual situação dos portugueses em geral. Esse modelo, a implantar-se, assente em baixos salários, desregulamentação laboral e ausência de direitos sociais universais, pontualmente substituídos por um assistencialismo de circunstância, geraria uma distribuição de rendimentos muito mais desigual do que aquela que hoje já existe e somente mediante uma super exploração do trabalho permitiria continuar a pagar nos prazos previstos o serviço da dívida. Ou seja, a situação dos portugueses degradar-se-ia ainda mais em benefício dos mesmos de sempre – credores e capital financeiro.

Esta via não tem qualquer hipótese de concretização nem pode ter qualquer sucesso, apesar do banqueiro Ulrich admitir com toda a franqueza que se os sem-abrigo aguentam a situação em que estão também o português comum aguentará a austeridade mesmo que reduzido a um ordenado de miséria. Ulrich tem o mérito de dizer com clareza o que Passos e Gaspar escondem. Mas a sua bestialidade é também ilustrativa da situação a que já se chegou a Portugal. Uma situação na qual o capital financeiro arrogante e poderoso já se permite tratar os portugueses com um desprezo de tipo colonial certo de que nada impedirá no futuro a sua marcha ascensional com vista ao completo domínio da economia.

 Mas para contrariar esse futuro que os “Ulrichs” deste país e da Europa têm por certo é preciso que se saiba que também não terão sucesso aqueles que propõem uma via pretensamente alternativa, assente na base matricial da política do Governo, muito centrada na esperança de que os desenvolvimentos subsequentes das “palavras de Draghi” acabarão por levar o BCE, e por via dele da própria União Europeia, ao desempenho de um papel salvífico das economias em crise. Esta ideia que às vezes parece estar subjacente a certas propostas políticas, aparentemente alternativas à política do governo, não tem fundamento nem resiste à análise dos factos. A actuação do BCE na crise da dívida e do euro, mesmo quando aparentemente se afastou do seu papel estatutário de controlador do nível geral dos preços, nunca se orientou, quer sob a direcção de Jean-Claude Trichet, quer sob a direcção de Draghi, no sentido de defender o crescimento e do emprego. A sua exclusiva preocupação foi a de salvar os bancos e o sistema financeiro sem prejuízo de as medidas tomadas para este efeito acabarem, reflexamente, por ter efeitos na escalada especulativa sobre a dívida pública.

O comportamento dos principais bancos centrais dos países desenvolvidos na crise financeira de 2008 e nos seus desenvolvimentos posteriores, principalmente na Europa, sejam eles a Reserva Federal americana, o Banco de Inglaterra ou o Banco Central Europeu, orientou-se prioritariamente para a defesa dos bancos e do capital financeiro. A famosa independência dos bancos centrais apenas é verdadeira no sentido de que eles são cada vez mais independentes da democracia e do escrutínio dos eleitores, apesar de as medidas que diariamente tomam condicionarem a vida dos cidadãos tanto ou mais do que as medidas dos governos. Mas de forma alguma é verdade que eles sejam independentes do capital financeiro já que a sua própria composição e acção, como, aliás, a dos restantes reguladores, é impensável sem o prévio assentimento ou uma actuação consonante com a defesa dos grandes interesses que, teoricamente, têm por missão regular. 

É isso o que demonstra por toda a parte, e não apenas na Europa, a história da escolha das equipas que constituem as direcções das entidades reguladoras bem como a enumeração e análise das medidas que vão tomando no desempenho das suas funções. E é isso que igualmente se passa, porventura com mais zelo ainda, nos bancos centrais cuja missão fundamental é defender o capital financeiro.

Hoje no moderno capitalismo financeiro globalizado podem garantir-se lucros fabulosos sem qualquer preocupação de democraticidade na distribuição dos rendimentos. A evolução da situação americana que desembocou na crise financeira de 2008, bem como a crise europeia demonstram isso mesmo. E a situação portuguesa já é um bom exemplo do que se caba de afirmar. Maior desigualdade do país relativamente aos mais ricos, maior desigualdade internamente na distribuição dos rendimentos, mais pobreza, perda acentuada de rendimentos das classes médias e lucros muito maiores do capital financeiro.  

 

 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O DESLIZE DE LOBO XAVIER




 
UM EPISÓDIO DA QUADRATURA DO CÍRCULO
 
Ontem, na Quadratura do Círculo, António Costa e Pacheco Pereira não tinham dúvidas de que o famoso “regresso aos mercados” tinha sido feito com muitos apoios e devidamente apadrinhado pelo BCE sem a garantia do qual ninguém teria comprado os títulos.
Lobo Xavier que durante todo o programa se não cansou de fazer a propaganda do Governo sempre naquele estilo de quem não está a fazer a defesa por encomenda mas a explicar aos néscios o que eles não conseguem ver, apesar de ser evidente, disse, embora não necessariamente  pelas palavras a seguir transcritas, o seguinte:  
A garantia do BCE só serve para os credores "institucionais" (na gíria dos "mercados" os “institucionais” são os bancos e as demais empresas financeiras), não para os outros credores. Ora, o que se sabe é que o empréstimo que Portugal pôs no mercado só numa pequeníssima parcela foi subscrito pelos bancos. A maior parte foi subscrita por credores não institucionais de vários continentes! E estes não podem ir ao BCE reclamar o pagamento dos títulos.
Os outros dois calaram-se, apesar da natureza pueril do argumento. Como é que as coisas realmente se passam? É assim: Se tudo estiver a correr bem, os credores vão recebendo os juros e mais tarde o capital na data prevista. Se as coisas correrem mal, ou se eles suspeitarem que poderão correr mal ou ainda se precisarem do dinheiro antes do vencimento, o que obviamente vão fazer é vender esses títulos aos “institucionais”, ou seja, aos bancos. Por que preço? Certamente pelo preço do mercado que será naquelas circunstâncias um preço inferior ou até muito inferior ao valor nominal dos títulos. E os bancos não terão qualquer problema em fazer este negócio com o qual ganharão seguramente muito dinheiro. Porque como o BCE garante esses títulos, os bancos quando pedem dinheiro emprestado ao Banco Central, ao juro que todos conhecemos (cerca de 1%), poderão dar como garantia do empréstimo concedido  esses títulos da dívida pública portuguesa que compraram no mercado secundário.
E como os compraram por um preço inferior ou muito inferior ao seu valor nominal acabam por  receber um juro muito superior  àquele por que foram postos no mercado primário, e além disso terão a certeza de que no vencimento o Estado Português terá dinheiro para os amortizar…ou não estivesse lá o BCE a garantir esse pagamento.
E assim se vê como são pueris e falaciosos os argumentos daqueles que pretendem fazer crer que a confiamça dos "mercados" é tanta que a maior parte dos títulos até foi comprada por quem os não pode descontar no BCE. De facto, quer os títulos sejam comprados no mercado primário por investidores "não institucionais", quer sejam comprados por instituções financeiras é sempre muitíssimo importante para o "sucesso" da operação saber que o BCE está por trás, apesar de os "não institucionais" não poderem descontar os títulos directamente no Banco Central. Poderá o banco que a seguir os comprar e ..fará certamente um bom negócio.
E este simples exemplo serve também para demonstar que, tal como as coisas estão hoje, quem no fim acaba sempre por ganhar é o capital financeiro!