segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A ANTECIPAÇÃO DO FUTURO

UMA EXPERIÊNCIA AMARGA

A antecipação do futuro pode ser uma experiência amarga. Se é certo que o homem dificilmente poderia viver em sociedade sem um mínimo de segurança sobre como será o amanhã – esse o papel das normas – também não é menos certo que dificilmente o homem conviveria com um futuro permanentemente antecipado. Aliás, deixaria de haver futuro, já que a sua antecipação mais não seria do que uma permanente extensão do presente.
Vem tudo isto a propósito da experiência por que ontem passei numa tasquinha de Matosinhos, onde, quando estou na zona do Porto, costumo ver os jogos do Benfica. Encontrei-a por acaso num dia em que procurava um local público para assistir a um jogo de futebol. A partir desse dia fiquei freguês, não apenas porque sempre lá vi o Benfica ganhar, mas também porque o dono e a generalidade da clientela eram benfiquistas.
Como ontem estava por aquelas bandas, não hesitei muito na escolha. Algo, porém, desde início correu mal: o dono e a mulher estavam ausentes e duas pessoas que eu desconhecia estavam agora de serviço ao balcão.
Timidamente perguntei se a pessoa que eu conhecia (cujo nome desconheço) ainda era o proprietário do estabelecimento. Com poucas palavras, disseram-me que sim. Um pouco depois voltei a insistir, indagando se estava tudo bem com ele. Com a mesma concisão disseram-me que sim.
Ainda hesitei lá continuar…porque nestas coisas do futebol, tudo conta…
Na assistência, um pescador de tez escura, causticada pelo sol, envergava uma camisola do FCP e um cachecol. O resto tudo muito neutro. São do Sporting, pensei. Talvez do Leixões.
Não me senti em casa, mas fiquei. Pouco depois de o jogo começar, o tal pescador do FCP que assistia, tal como os restantes espectadores, ao jogo em silêncio, disparou que nem uma bala em direcção à porta e gritou: “Golo do Pooooorto , Gooooolo do Porto”.
Olhámos uns para os outros como se o homem estivesse com alucinações. O homem, sem mais explicações, regressou ao seu lugar, sentou-se e ficou a aguardar que o anunciado se cumprisse. E assim aconteceu, tudo isto talvez com uma diferença de vinte segundos entre a sua inicial explosão de alegria e a confirmação via TV do que ele havia anunciado.
Só então reparei, que ele tinha nas orelhas uns pequenos headphones que lhe permitiam escutar pela rádio, em tempo real, o que se estava a passar no campo.
A partir desse momento nunca mais me concentrei no jogo, mas no homem, sempre à espera que um gesto de grande contrariedade preanunciasse um golo do Benfica. Mas qual quê? Passado mais uns minutos, a mesma cena. Um pouquinho depois, outra vez…
No intervalo, hesitei, fico, vou embora? Resolvi ficar. Não ganhei nada com isso. Apenas por uma vez o ouvi dizer grande defesa e bater palmas. Um pouco mais tarde, ouviu-o gritar: “Até que enfim que expulsam esse…”. Lá mais para o fim gritou “penalty!” e o resto. E depois outra vez golo.
Foi uma experiência inesquecível. Pior do que perder por cinco, foi saber antecipadamente por quantos ia perder

domingo, 7 de novembro de 2010

O PAPA EM ESPANHA COMO CRUZADO

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UM PAPA MEDIEVAL


Não vale a pena perder muito mais tempo a escrever sobre Ratzinger. Já em muitos outros posts se disse o essencial.A sua recente viagem a Espanha, a Santiago de Compostela e a Barcelona, confirma que Ratzinger é um Papa para quem a Reforma e o Iluminismo não existiram. É um Papa medieval. Como tal, foi a Espanha em cruzada. Tal como Bin Laden também ele não aceita a infidelidade ao seu Deus. Daí que seja de esperar a Contra-Reforma e a Inquisição. Quem sabe , aliado ao Tea Party...

CONSELHOS A OBAMA


NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES INTERCALARES

As eleições americanas despertam um inegável interesse nos quatro cantos do mundo. Nos últimos anos esse interesse tem-se intensificado de tal modo que, desde as eleições presidenciais, passando pelas eleições para o congresso, governadores, até às eleições ditadas por vacatura de algum cargo (naqueles caso em que o sucessor é determinado por eleição), tudo é comentado ao pormenor, às vezes com mais paixão e interesse do que uma eleição nacional.
Não se sabe se isto acontece como consequência da globalização da informação, hoje disponível em tempo real, ou se por uma espécie de premonição subconsciente de que há uma hegemonia que já não é o que era, ou talvez até já esteja a ser gradual e consolidadamente conquistada por outros.
Prova desse interesse entre nós é a existência de blogues que apenas têm por objecto a política americana e de comentadores especializados que nos dão, uns e outros, regularmente as suas opiniões como se nos estivessem a dar uma aula de ciência política.
Tenho para mim que a política de um país só pode ser verdadeiramente compreendida, nas suas múltiplas nuances, por quem lá viva.
Já experimentei e reconheço a diferença. Mas também há quem lá viva e nada compreenda, mesmo quando a sua missão é compreender para explicar e informar.
Como nem todos, infelizmente, estão em condições de poder viver naqueles países cuja política influencia a do resto do mundo, vamos ter de nos contentar com as análises feitas a partir de cá, quase sempre bastante generalizantes para não incorrer em erros muito evidentes, com base nas fontes colhidas lá.
Vem tudo isto a propósito da derrota de Obama e do Partido Democrata nas eleições intercalares.
Sucedem-se os conselhos a Obama sobre como actuar para não ser um presidente de um só mandato, repetindo o “feito” de Bush (pai) e de Carter, bem como as previsões sobre o que espera.
Antes de mais, é preciso dizer que perder as eleições intercalares constitui a regra. Desde 1932 (eleição de Roosevelt) até hoje só Roosevelt as ganhou em 1934 e W. Bush em 2002, no clima emocional que seguiu ao ataque ao WTC. Todos os demais as perderam, por mais ou menos margem.
Desta vez a derrota foi muito badalada por duas razões, aliás interligadas: em primeiro lugar, por as duas anteriores vitórias dos democratas, nomeadamente a de 2008, terem sido muito expressivas; e em segundo lugar, por ter havido uma fortíssima reacção da extrema-direita a esta última vitória num país que já estava muito polarizado e relativamente ao qual se supunha que a direita já havia atingido nos últimos anos o limite máximo de extremismo admissível pelo sistema. Pelos vistos não: há sempre a possibilidade de um novo reaccionário ser ainda mais reaccionário do que o anterior.
Dentre os conselhos prodigalizados pelos media, ouve-se com frequência dizer que Obama deve tentar encontrar pontos de convergência com os republicanos, abdicar de alguns dos seus projectos e tentar trabalhar com os adversários. E foi um pouco neste sentido o seu primeiro discurso depois da derrota.
Todavia, o discurso dos republicanos, sejam eles do Tea Party ou não, é muito claro. Dizem eles: da mesma forma que a nossa política nos primeiros dois anos foi obstruir tudo o que vinha do lado deles, também agora o nosso grande objectivo é fazer dele um Presidente de um só mandato. E revogar tudo o que foi feito na primeira parte do mandato.
Tanto o líder (Mitch McConnell) da minoria no Senado, como o líder (John Boehner) da (nova) maioria na Câmara de Representantes se expressaram neste sentido, além, claro, de Sarah Palin e seus acólitos.
Mas também não falta quem, do outro lado, chame Obama à razão e lhe faça ver que com gente desta não adianta contemporizar. Quanto mais se encolher mais eles vão atacar. O que tem é de ser convincente e explicar ao povo americano quem eles são, como fez Roosevelt.
Robert Reich, ministro do trabalho de Bill Clinton, é muito claro: “Obama deveria inspirar-se em Roosevelt, que no seu tempo denunciava os republicanos como sinónimo de “monopólios industriais e financeiros, de especulação, de bancos irresponsáveis…” e não desamparar o seu próprio terreno, tentando aproximar-se do centro”.
Diz Reich: “Nos próximos dois anos, os republicanos tentarão retratar Obama como um liberal, defensor de um Estado intervencionista, desligado da América real, e torná-lo responsável pela persistência das dificuldades económicas.
Obama não poderá ganhar este debate aproximando-se do centro, apresentando-se como um moderado, defensor de um Estado modesto. Isso apenas contribuiria para fortalecer as teses dos republicanos que defendem que a questão central é da dimensão do Estado, hoje sobredimensionado, e que a situação económica só poderá melhorar se o Estado diminuir o seu papel.
(Lutando) Sobre o terreno definido pelos republicanos, só eles poderão ganhar

O resto do artigo, muito interessante, pode ser lido aqui.
Mas não é só Reich a aconselhar Obama, também Jonh Podesta, que foi chefe de gabinete de Bill Clinton e é agora Presidente do Fundo de Acção para o Progresso Americano, embora admita e defenda o diálogo, estabelece de forma muito clara os limites inegociáveis.
Finalmente, a candidatura de Nancy Pelosi a líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes deixa compreender que o tempo que se segue vai ser de duro combate sem falsas tréguas.
Pode ser que Obama aprenda...

sábado, 6 de novembro de 2010

NOTAS DE FIM DE SEMANA


DE CAVACO À UNIÃO EUROPEIA

1 - Um grupo de jovens foi ao Palácio de Belém fazer uma qualquer homenagem a Nuno Álvares Pereira. Cavaco, frugal e hirto, terminada a sessão, comunicou aos jovens que em tempos de austeridade só tinha para lhes oferecer um copo de sumo de laranja, presume-se do fabricado sem laranja com aditivos vários de sabor a ácido cítrico, e um pastel de Belém.
De facto, não havia melhor exemplo, em tempos de crise que o de Nuno Álvares Pereira. Para ficar do lado de Portugal contra Castela exigiu ao Mestre um “património tão vasto que alguns contemporâneos alegavam que cobria metade do reino”.

2 – Pacheco Pereira no Público de hoje relata uma espécie de sonho (ele chama-lhe ficção utópica) que coincide com a minha “Premonição sobre a política doméstica”. Há, porém, entre os dois textos uma diferença de vulto: enquanto a minha premonição é, digamos, impressionista, porque deixa aos intervenientes e aos leitores grande margem de manobra e de imaginação, o “sonho” de Pacheco Pereira é detalhado, minucioso e quem nele entra não tem outro remédio senão aceitá-lo por inteiro ou “cair fora”.
Enfim, duas concepções muito diferentes do “centralismo democrático”.

3 – Os blogers e a imprensa portuguesa em geral dão muito pouco atenção, com excepção de um ou dois cronistas, ao que se passa em Bruxelas. Por isso, passou praticamente despercebido o último Conselho Europeu, bem como a votação sobre quem deveria contribuir para a constituição do tal “fundo de resgate” em teoria destinado a apoiar os “países em crise”. Em causa estava a participação dos bancos privados naquele fundo, além, evidentemente, dos Estados da União e do FMI. Quem votou contra? Portugal, a Grécia, a Espanha e o BCE, obviamente.
Sobre as diferentes concepções de afrontar a crise, nem uma palavra. Vale em toda a linha a posição da Alemanha, “negociada” com Sarkozy em Deauville, com total desprezo pelos demais membros do Conselho, da Comissão, do Parlamento e do próprio Presidente do Conselho, que não passa de um triste burocrata.
Ou seja, o que em Bruxelas não foi discutido, conforme aqui sugeríamos no postQue políticos temos nós?”, vai ser certamente tratado na próxima cimeira do G20, na qual a posição da Europa acabará por ser a da Alemanha, secundada pelos governos, também de direita, da França e do Reino Unido.
Sim, a “Europa” acabou, hoje o que há um directório de dois países, dominado pela Alemanha, em tudo que diga respeito à zona euro e que, nos demais assuntos, se basta com a abstenção da Inglaterra.
Só os tontos não vêem o que se passa. Em Portugal, infelizmente, a maior parte deles está no Parlamento Europeu….

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A DERROTA DOS DEMOCRATAS NA AMÉRICA



QUEM SÃO OS VENCEDORES

O Estado, mínimo. Dirigidos por aqueles que mais se parecem com os cidadãos. Não por quem sabe. Inactivo ante as desigualdades. Insensível ante os desfavorecidos. Dedicado a castigar rapidamente os delinquentes, dentro e fora do país. Se possível, sem impostos. Também sem funcionários, salvo nas prisões e nas esquadras de polícia. O mesmo no mundo: Com menos diplomatas, quanto menos melhor e, contrapartida, com tantos soldados quantos os necessários. E, claro, também nas fronteiras e nas alfândegas. Para travar o passo às hordas estrangeiras que se dispõem invadir e a desnaturalizar a fibra íntima e autêntica desta nação que se sente excepcional, eleita por Deus. Para destruir os terroristas, claro, os islâmicos, que desafiam o poder americano e tentam destruir o seu domínio.
E, logo a seguir, o mais difícil: política sem políticos, parlamento sem autênticos parlamentares. Com homens e mulheres intrépidos, dispostos a resistir às elites governantes, defensores da lei e da ordem, armados até aos dentes para defender os direitos individuais, iluminados pela inspiração da sua divindade particular, completamente rendida à sua causa.
Esta é a força que venceu as eleições na América a meio-mandato
”. Se gostou, leia aqui o resto desta crónica de Lluís Bassets, no El País de hoje.
Sim, foi esta gente que ganhou as eleições na América. Esta força tão elogiada por Vargas Llosas, pela cronista do Público Esther Mucznic, e por tantos outros que entre nós se escondem por detrás do politicamente correcto para afirmar que estes são os “valores fundacionais” da América.
Felizmente, que a derrota não atingiu as proporções que se chegaram a anunciar, apesar da perda de muitos lugares (pelo menos, 70) na Câmara de Representantes e de lugares importantes (7) no Senado, onde a maioria, pela diferença mínima, se outros lugares não forem ganhos, continua cirurgicamente pouco homogénea (Liebman e Joe Manchin).
A democracia americana, desde há muito debilitada pelo papel que nela exerce o dinheiro, está mais que em qualquer outro momento da sua história seriamente ameaçada pelo domínio, quase absoluto, dos media pelos sectores mais reaccionários e pelas gigantescas doações que o capital plutocrático despeja às catadupas, anonimamente, em cima dos seus candidatos, encarregados da missão de combater por todos os modos quem faça tenção de impedir a expansão livre e desregulada do "mercado".
Ainda é cedo para tirar conclusões empíricas sobre a derrota, mas os dados conhecidos apontam, como tendência, do lado dos democratas, para a derrota dos candidatos democráticos mais conservadores (blue dogs) e a vitória dos mais radicais, o mesmo se passando do lado republicano: derrota dos (poucos) candidatos centristas e vitória dos mais extremistas.
De facto, só mesmo por sectarismo vesgo se pode afirmar que são todos iguais, que, bem-feitas as contas, é indiferente que ganhem uns ou outros. No fim, vai sempre dar ao mesmo. O sectarismo que não deixa ver as diferenças, que tudo uniformiza, nunca é, nem será um bom conselheiro.
É evidente que uma coisa é a força do sistema, outra muito diferente, lá como em qualquer outro lado, é o papel daqueles que dentro dele lutam e agem por um mundo diferente.
Comparando com o que se passa na Europa, a começar por Portugal, não será difícil constatar muita da gente eleita pelo Partido Democrata não teria cá lugar num partido como PS, a não ser, fazendo o trocadilho, como “red dogs”.
Na hora da derrota, uma palavra de muito apreço para essa grande progressista que nos últimos quatro anos desempenhou as funções de Speaker da Câmara de Representantes - Nancy Pelosi!

O ORÇAMENTO E O RESTO


E O RESTO É O MAIS IMPORTANTE

A política portuguesa tem estado muito focado na discussão do orçamento. E esta discussão, tanto no Parlamento como fora dele, tem incidido sobre a despesa e sobre a receita: deve cortar-se na despesa ou deve aumentar-se a receita?
Também se tem discutido a responsabilidade pela situação a que se chegou, têm-se apontado os erros de governação e tudo o mais que não pode ser levado à conta de erro, mas antes de verdadeiros assaltos aos dinheiros públicos para satisfação de interesses privados, muitos dos quais até ilícitos.
Tudo isto é, sem dúvida, muito importante, mas não esgota o problema, nem sequer o situa no seu devido lugar.
Certamente que é importantantíssima a decisão sobre se a redução do défice se vai fazer à custa da diminuição da despesa ou do aumento da receita.
Como toda a gente sabe, a direita e esquerda têm posições diametralmente opostas sobre estas matérias. Em tempo de crise, a esquerda entende que não se deve cortar na despesa que possa criar procura, investimento, etc. (não da despesa “despesista”, obviamente), porque, de acordo com a experiência, é pelo lado da procura que se sai da crise e não pelo lado da oferta.
Mas não é somente por esta razão que a esquerda defende esta via. Defende-a porque ela é a que, apesar de tudo, assegura mais justiça social e uma mais equilibrada distribuição dos sacrifícios (quem tem mais, contribui com mais; quem tem menos, com menos).
Além de que a experiência também ensina que a redução de impostos em tempo de crise não tem por efeito o relançamento da economia, contribuindo, quando muito, para aumentar o aforro. E também se sabe que, nos países altamente endividados que actuam em mercado aberto, a diminuição de impostos até tem, na maior parte das vezes, por consequência o crescimento da dívida
A direita tem uma visão completamente diferente destas questões. Entende que, em tempos de crise, a despesa deve reduzir-se drasticamente (no Reino Unido, a direita conservadora de Cameron, aliada aos liberais, imputou 80% do ajustamento agora feito à despesa e 20% à receita, isto é, ao aumento dos impostos), devendo os impostos ser mantidos ou até reduzidos, já que só mediante esta dupla actuação se libertam os fundos necessários para relançar o investimento e as exportações.
Escusado será dizer que a defesa deste ponto de vista assenta numa concepção ideológica que vê a despesa do Estado, seja ela de natureza social ou de investimento em infra-estruturas, como uma limitação ao desenvolvimento de todas as potencialidades inerentes ao capital privado, bem como um entrave à eficiência do mercado.
O desemprego que tal política possa gerar, contanto que não atinja proporções catastróficas, é considerado salutar pela direita, não só porque permite pagar salários mais baixos, mas também porque assegura maior competitividade à economia à custa de um nivelamento por baixo do preço da força de trabalho.
É claro que esta conversa só faz sentido se as posições em confronto na discussão do orçamento assentarem nos pressupostos acima explicitados, ou, pelo menos, os respeitarem tendencialmente.
Ou seja, se o que se estiver a discutir for um aumento dos impostos directos assente na progressividade, e/ou um aumento dos indirectos sobre os grandes consumos e sobre o que em época de crise se poderia chamar consumos de luxo, impostos sobre as grandes fortunas e sobre a especulação financeira, numa palavra, sobre quem mais pode e mais responsabilidade tem pelo estado a que se chegou.
E se, do lado da despesa, houvesse a clara preocupação de manter, com o rigor adequado à conjuntura, as despesas sociais e se as demais, especificamente destinadas a relançar a economia, fossem mantidas pelas vantagens económicas dos projectos e não como uma mera forma de transferir dinheiros públicos para o capital privado, nem que seja a troco da manutenção de uns tantos postos de trabalho.
Como se sabe, não é nada disto o que se passa. A discussão entre o PS e o PSD assenta praticamente nas mesmas premissas – redução das despesas sociais e dos salários (diminuição da despesa) e aumento dos impostos indirectos.
As divergências porventura existentes – investimentos em infra-estruturas de problemático efeito reprodutivo e eliminação de algumas deduções fiscais – não são do modo nenhum suficientes para marcar qualquer tipo de contraste decorrente de posições marcadamente divergentes sobre as questões acima tratadas.
O caso mais escandaloso de convergência entre os dois partidos (e também do CDS) é a aceitação dos cortes nas despesas sociais e a redução dos salários da função pública e afins (veremos ainda como, quanto a estes últimos).
De facto, a diminuição directa dos salários é sempre o último recurso em qualquer plano de ajustamento. Todavia, tanto um partido como outro, assim como CDS, aceitaram-no sem grandes justificações como se de um caso de emergência nacional se tratasse (por exemplo, uma gravíssima catástrofe natural afectando todo o território nacional). Mas se fosse esse o caso nunca seria a via escolhida, que é uma via altamente discriminatória, o meio adequado para o fazer. Se uma situação de emergência nacional o justificasse então todos os salários acima de certo montante deveriam ser atingidos, progressivamente, mediante a aplicação de um imposto extraordinário que isoladamente os considerasse. E não foi isso o que se fez. O que se fez foi erigir os funcionários públicos e afins em bodes espiatórios das políticas irresponsáveis que nos têm governado. Por outras palavras, mais uma vez são razões puramente ideológicas, de cariz tipicamente neoliberal, que levam ao sacrifício dos funcionários públicos. É preciso atacar o Estado!
Tal como é importante discutir as receitas e as despesas, também é importantíssimo apurar a responsabilidade pela presente situação e exibir os múltiplos atropelos que PS e PSD (quase sempre acompanhado pelo CDS) foram fazendo durante as respectivas passagens pela governação, para que o povo português fique a conhecer quem o governa e como.
É importante que saiba como foi gasto o dinheiro do Estado e por que se endividou muito para além das suas possibilidades. Por que foram negociadas parcerias público-privadas escandalosas, por que foi nacionalizado um banco falido, por que continuam a ser gastos milhões para pagar pareceres e estudos a gabinetes que poderiam na maior parte dos casos ser elaborados no seio da própria Administração.
Tudo isto é importante, importantíssimo. Mas, tal como as coisas estão, não vai ser pela via dos programas de austeridade aprovados que vamos encontrar a solução para os problemas com que nos defrontamos.
Um défice como o nosso não pode ser combatido em três anos. O corte radical da despesa e o aumento indiscriminado de impostos terão efeitos recessivos inevitáveis. E sem crescimento da economia também a dívida não pode ser reduzida. Pelo contrário, não parará de aumentar dramaticamente. Como se tem visto, pela evolução dos juros da dívida, não apenas em Portugal, mas também na Grécia, na Irlanda e na Espanha, a evolução dos juros depende muito mais de outros factores do que propriamente dos programas de austeridade aprovados. Tais programas, como se já viu com a Irlanda, a terem efeitos sobre os juros, é no sentido exactamente oposto ao divulgado pelos economistas do establishment. Quanto menos a economia cresce, ou dito de forma mais realista, quanto mais a economia decresce, mais os juros sobem.
Portanto, e antes de mais nada, é preciso lutar em Bruxelas por prazos diferentes para a redução do défice, em grande medida resultante da crise financeira internacional, ou, contraído no contexto desta.
É também preciso lutar em Bruxelas por uma política de combate à especulação financeira sobre a dívida soberana.
Por outro lado, a política monetária seguida pelo BCE, a mando da Alemanha, vai agravar ainda mais as economias menos competitivas, sem deixar de ter efeitos negativos em quase todas.
Num mundo em que se antecipa uma próxima “guerra de divisas”, aliás já em curso, a manutenção de um euro fortíssimo relativamente às demais moedas importantes do comércio internacional, mas principalmente em relação ao yuan, ao yen e ao dólar, tem efeitos catastróficos sobre a actividade exportadora e aumenta exponencialmente as importações.
Enquanto a China continua a recusar a valorização da sua moeda, salvo dentro de margens estreitíssimas, e os Estados Unidos se preparam para pela via de um programa de compra da dívida pública produzirem um efeito de desvalorização do dólar, o BCE mantém-se inflexível na sua política de controlo da inflação e do euro forte. E mesmo as tímidas “injecções de liquidez” que ultimamente têm praticado, mediante a compra de títulos da dívida pública, já estão sendo asperamente criticadas por Axel Weber, governador do Bundesbank, e previsível próximo presidente do BCE.
Enquanto estas questões não forem atacadas em Bruxelas, enquanto se continuar a permitir que a Alemanha imponha as suas leis à União Europeia, principalmente à zona euro, enquanto se não alterarem as regras que actualmente regulam a moeda única, as medidas que o governo português e outros vão impor traduzir-se-ão em sacrifícios sem sentido, já que delas só pode resultar um agravamento da actual situação em todos os planos.
Os países endividados se continuarem sujeitos à mesma política vão ter de suspender os pagamentos, produzindo-se a partir daí uma série de efeitos em cadeia de consequências imprevisíveis.
Portanto, o caminho tem de ser outro. O caminho tem de passar pela renegociação da dívida, pelo alargamento dos prazos para restabelecer um défice aceitável, pela alteração da política monetária do BCE e pela alteração substancial das regras reguladoras da moeda única no sentido de um verdadeiro “governo económico da União”, algo que nada tem a ver com a farsa com o mesmo nome inspirada nos diktats alemães, aplicável aos Estados da União.
Certamente que não é fácil alcançar qualquer um destes objectivos, mas muito mais difícil para o futuro de todos será deixar as coisas como estão, sem luta.

PREMONIÇÃO SOBRE A POLÍTICA DOMÉSTICA


AMADO E CAVACO

Ao ouvir hoje à tarde as declarações de Luis Amado sobre o comportamento dos deputados e dos partidos na Assembleia da República seria levado a pensar quão pudicos são os ouvidos de certos políticos portugueses, não fora o facto de já estarmos em crise de pré-pós-socratismo, com cada um dos contendores a lutar pela próxima pole position.
Mais tarde, ao tomar conhecimento do desprestígio que tais discussões acarretam para os políticos, Cavaco dixit, achei que é isso que mais tarde ou mais cedo vai acontecer.
Mas achei também que a questão é um pouco mais entaramelada do que parece. Eu vejo as coisas assim:
Cavaco quer governar. Não directamente, mas por interposta pessoa. Não tem confiança pessoal, nem política em Sócrates. Quer substituí-lo, mas não quer eleições. Porque também não tem confiança, nem a mínima consideração por Passos Coelho, nem pela sua gente.
Todo este imenso enredo à volta da aprovação do orçamento demonstra isso. Demonstra que Cavaco se substituiu a Passos Coelho nessa negociação, tendo para tanto jogado, com habilidade e argúcia, em dois tabuleiros. Se a negociação falhasse, ele acabaria por impor a sua solução; se não falhasse, ficava demonstrado que Passos Coelho não manda nada e Cavaco apressar-se-ia, como apressou, a recolher os louros do entendimento alcançado.
Encurralados, Sócrates e Passos Coelho tiveram de aceitar. Passos Coelho, que julga estar por cima, sentiu-se desautorizado e ordenou à sua gente que fizesse, na terça-feira passada, aquele número no Parlamento.
E voltou a levar nas orelhas, juntamente com Sócrates.
Próximo episódio, mas já em curso: Cavaco, depois da reeleição, vai arrumar com Sócrates, pondo o PS perante a seguinte alternativa: ou o substituem, ou convoco eleições (Cavaco não quer eleições, mas vai ameaçar…).
Entre deixar o poder, e continuar, com outro timoneiro, o PS, ou uma parte considerável do PS, vai optar pela substituição de Sócrates.
Só que esta solução pressupõe que seja Cavaco a escolher o Primeiro-Ministro e que este constitua uma espécie de governo de “salvação nacional”, sem gente marcadamente partidária, um "governo de homens bons da Pátria portuguesa", com alguém da confiança pessoal de Cavaco nas Finanças.
Este governo, sem ser de coligação, contará com o apoio de uma grande parte da bancada do PSD.
O PS tem gente para desempenhar este papel e o PSD também. O sagrado interesse nacional fará o resto…

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"EUROPA" OU O DESLUMBRAMENTO PEQUENO-BURGUÊS


A EUROPA E A CRISE

Começando pelo princípio: a crise financeira rebentou na América, mas ela tem a sua causa no capital financeiro e especulativo, qualquer que seja a sua nacionalidade, melhor dizendo, qualquer que seja o território nacional em que actue.
Esta crise pôs a nu outras crises, igualmente da responsabilidade dos bancos, em todos os países europeus - nuns mais do que noutros -, sinteticamente reconduzidas à crise da dívida.
Por um lado, o profundo desequilíbrio entre países sujeitos às mesmas regras dentro de um espaço económico comum fez com que os menos desenvolvidos e menos competitivos tivessem de refugiar-se preferentemente em actividades que ficavam a coberto da concorrência dos mais fortes; por outro lado, a ausência de uma forte oposição laboral, muito favorecida pelo fim da Guerra Fria e, principalmente, das condições em que esta terminou, levou a que se acentuasse, progressivamente, a desigual distribuição dos rendimentos, entre o trabalho e o capital, a ponto de se ter regredido para situações que só têm paralelo com o que se passava há mais de um século.
Estas duas situações levaram, por imposição do próprio sistema, a um colossal endividamento privado. Endividamento dos que se financiam junto dos bancos para poderem actuar nas tais áreas menos sujeitas à concorrência; endividamento também dos consumidores em geral para, face às expectativas e às falsas necessidades geradas pelo sistema, poderem colmatar, pela via do crédito, a falta de rendimento de que os novos critérios de distribuição os privara.
Simultaneamente, sobre estes endividamentos, os bancos, actuando à rédea solta, foram especulando, de todas as formas e feitios, em operações de altíssimo risco.
Quando os pagamentos cessaram – um dia teriam fatalmente de cessar – rebentou a crise. Para acudir à dita, os bancos centrais, ou sejam, os Estados, transferiram biliões de dólares e de euros para os bancos em crise (umas vezes dados, pura e simplesmente, outras, a custo zero ou quase), além de os próprios Estados terem assumido gigantescas dívidas privadas para evitar a falência do sistema bancário.
A crise económica, gerada pela crise financeira, levou, por outro lado, a que os Estados se endividassem ainda mais com despesas sociais e programas de estímulo de toda a ordem (à indústria, à agricultura, aos serviços, enfim, a toda a economia), dinheiro que os Estados, mesmo os que tinham superavides, tiveram que pedir emprestado àqueles mesmos bancos que antes haviam salvado da falência. Com a diferença de que agora, tais empréstimos eram contraídos a preços do “mercado”, sendo o “mercado” uma entidade aparentemente abstracta que impõe condições variáveis em função do devedor!
Como é que a Europa “resistiu” a esta crise? A Europa, como tal, não existiu. Cada Estado foi fazendo o que lhe parecia adequado segundo os seus padrões de governação (ora nacionalizando os bancos falidos e transferindo para a dívida pública a respectiva dívida privada, ora pedindo dinheiro emprestado para com programas de estímulo acudir à economia em crise, tentando relançá-la).
Estas medidas não foram coordenadas, cada Estado actuou por si, a ponto de os efeitos de algumas delas se terem repercutido em países diferentes daqueles para os quais foram postas em prática. Se tivesse havido coordenação, se tivesse havido um verdadeiro governo económico preocupado com a obtenção de resultados solidários nas diversas partes do todo, as consequências teriam sido outras e a Europa estaria certamente numa situação muito diferente da que agora se encontra.
Mas já houve “Europa”, quando se tratou de salvar os bancos. Aí o Banco Central Europeu (BCE) pôs e continua a pôr à disposição dos bancos centenas de milhares de milhões de euros. Quando se trata de Estados, a música, porém, é outra.
Como acima se disse, esta crise financeira pôs a descoberto e potenciou todas as crises larvares ou ocultas existentes no sistema. E uma delas é a crise do euro, fundamentalmente resultante da criação de uma moeda única em economias muito diferentes, com níveis diversos de desenvolvimento e de competitividade, “regulada” por um conjunto de injunções completamente desligadas da realidade económica de cada país e entregando, no mais, a sorte futura da moeda ao livre jogo do mercado.
O resultado ficou à vista com aquilo a que se chama impropriamente a “crise grega”, e depois com as “crises” portuguesa, espanhola, irlandesa e outras. Estas economias para pagar as dívidas resultantes dos factores atrás expostos tiveram, e têm, de recorrer ao mercado de capitais, que se torna tanto mais exigente e mais caro, quanto maiores são as dificuldades de quem pede.
Mais uma vez, não houve qualquer “Europa”, uma Europa que solidariamente se preocupasse com as partes do todo como se do próprio todo se tratasse. O que houve foi a extrema preocupação de reembolsar rapidamente os credores e de impor, em prazos curtíssimos, medidas restritíssimas que levarão as respectivas economias à recessão, e milhões de cidadãos europeus ao desemprego e à fome!
Medidas contras as quais, mais tarde ou mais cedo, os povos se revoltarão, porque elas são, na sua essência, impossíveis de cumprir e ditadas pela agiota preocupação de satisfazer os poderes dominantes na União Europeia, os verdadeiros beneficiários desta situação.
Não é apenas Paul Krugman, esse perigoso “esquerdista”, ao serviço de uma indecifrável União Soviética, que o diz. Dizem-no todos os economistas sensatos. Nourriel Roubini, o homem que antecipou a crise financeira diz: “A obsessão do BCE com a inflação é um desastre para a Europa”, o qual acrescenta ainda que, o facto de Portugal, no próximo ano, ter de se financiar com 40 mil milhões de euros para pagar os seus compromissos, ou seja, quase um quarto de toda a riqueza produzida, o colocará numa situação inimaginável.
Mas também Carmen Reinhart, cubana de origem, hoje universitária, depois de ter passado por Wall Street e pelo FMI, que diz: “A Alemanha está jogando com a deflação de forma muito perigosa. Os seus erros condenam a Europa a graves problemas: complicam a situação europeia, sem crescimento nem inflação, e com uma combinação de dívida pública e privada como nunca antes se viu nesta escala”.
Christina Romer, catedrática da Universidade da Califórnia (Berkley), ex-presidente do conselho de assessores económicos de Obama, referindo-se aos Estados Unidos e à Europa, também diz: “Este não é o momento para reduzir o défice”.
Todos estes, e outros, economistas coincidem em que a situação dos países afectados pela chamada “crise do euro” é muito grave e mais grave ainda se tornou em consequência das imposições da Alemanha. Todos eles são também de opinião que a “realidade” acabará por impor-se e que tais países, a manter-se esta política, vão entrar em ruptura de pagamentos e terão de reestruturar as suas dívidas. Por outro lado, igualmente consideram que as actuais políticas, a continuarem, gerarão uma recessão por muitos anos.
Só mesmo a selvajaria neoliberal, como a de Robert Lucas, Prémio Nobel da Economia, em 2005, opina em sentido oposto ou seja, no sentido da liquidação do estado social, da diminuição de impostos para os ricos e dos cortes salariais como remédio para a saída da crise.
Assim, só mesmo por precoce cegueira intelectual ou típico deslumbramento pequeno-burguês, de quem identifica como seus os interesses do patrão, se pode admitir que haja hoje quem, entre nós, lidando de perto com estas matérias, afirme que a defesa do euro (de situações como a da crise grega) passa pela correcção pontual dos tratados (que a Alemanha quer fazer), ou ainda que tal revisão deva fazer-se o mais rapidamente possível, isto é, nas costas do povo, ou, pior que tudo, tenha o desplante de afirmar que o Tratado de Lisboa soube resistir galhardamente aos efeitos devastadores da crise financeira ou ainda que a UE passou com êxito o teste da mais dura provação da sua história! Esta mentalidade que identifica como seus os interesses dos suseranos e que confunde “governo económico da União” com os diktats alemães é um triste exemplo do Portugal que temos hoje. De um Portugal a que muito rapidamente temos de pôr termo!

ELEIÇÕES AMERICANAS


PIOR SERIA DIFÍCIL

Está prestes a consumar-se, com as eleições de hoje, 2 de Novembro, uma verdadeira hecatombe eleitoral para o Partido Democrático.
Depois das muitas esperanças suscitadas pela categórica vitória de Obama de há dois anos, contra um adversário que, apesar de tudo, até nem representava aquilo que o Partido Republicano tem sido desde Reagan, e pela não menos importante vitória nas duas Câmaras do Congresso - na Câmara de Representantes, por 255 lugares contra 178, e no Senado, por 60 contra 40 (actualmente 59 contra 41, em virtude da eleição intercalar de Massachusetts, por morte de Ted Kennedy) -, seria difícil imaginar, dois anos depois, maior frustração do que a que actualmente reina nas hostes do partido democrático e da maioria da população americana.
As expectativas eram grandes, os resultados não poderiam ser piores. Com maioria no Congresso, em ambas as câmaras, terá de concluir-se que o balanço destes dois anos é tão negativo para o Presidente como para o partido que o apoia.
Na política externa, nem Obama, nem os congressistas e senadores que o apoiam conseguiram convencer os americanos, a maioria dos americanos, de que a segurança da América passava por um acordo no conflito israelo-árabe, aceitável pelos palestinianos, pelo Hamas e pela Fatah, e não apenas por esta. Enredado pelo lobby judaico na América e pela intransigência de Israel, Obama perdeu a face por mais de uma vez, foi desrespeitado pela extrema-direita israelita, e mantém o conflito no mesmo estádio em que se encontrava há dois anos ou, porventura, até com mais baixas expectativas de resolução.
No Iraque, e em tudo o que lhe está associado, só simbolicamente as promessas foram cumpridas. Muitas dezenas de milhares de soldados americanos continuam no Médio Oriente e lá ficarão por muito mais tempo. Guantánamo não foi, nem muito provavelmente será, desmantelado. Os presos não serão transferidos para território americano (a transferência para a famosa prisão da alta segurança em Illinois está cada vez mais longe de obter consenso no Senado) e, portanto, continuarão, como no tempo de Bush, a ser julgados por “comissões militares” ou pura e simplesmente a permanecer presos por tempo indeterminado.
É certo que esta era uma herança muito pesada, mas o incumprimento das promessas apresentadas com tanta convicção durante a campanha eleitoral deixaram nos americanos, mais do que a frustração pelo desrespeito pela palavra dada, a convicção de que o Presidente era um homem impreparado, sem o real conhecimento dos problemas com que se iria defrontar.
No Afeganistão, que cada vez se aproxima mais de um Vietname da era moderna, não evidentemente pelos propósitos que animam os talibãs, mas pelos resultados da guerra para os americanos, a política de Obama também fracassou, tanto junto da esquerda, como da direita. Obama parece ter optado pela pior via: incrementou o esforço militar, bem como o envolvimento americano e dos seus aliados e simultaneamente estabeleceu um prazo para a guerra acabar, dando a entender que os resultados pretendidos teriam de ser alcançados dentro de datas pré-estabelecidas. Como as guerras não se fazem com prazos marcados, os objectivos propostos estão longe de ser alcançados, pouco mais restando aos americanos do que um sempre crescente envolvimento ou uma saída tanto menos honrosa quanto mais tardia for.
No que respeita ao Irão, Obama conseguiu, melhor: tem conseguido, impedir o que seria uma verdadeira catástrofe para a humanidade, sem simultaneamente lograr alcançar um verdadeiro acordo do Irão com a comunidade internacional, representada pelo ONU ou por aqueles que maioritariamente a representam. Assim, há todas as razões para supor que o pior ainda está para vir, nomeadamente a partir da primavera do próximo ano. A pressão de Israel e dos círculos belicistas americanos vai ser terrível, constituindo neste momento uma incógnita aquela que virá a ser a decisiva reacção do Presidente americano. Como muito provavelmente jogará parte da sua reeleição neste conflito, tudo pode acontecer…
Em conclusão, o conflito na Palestina envenena as relações da América com o mundo árabe, o conflito no Afeganistão agrava a “guerra”com os muçulmanos, um e outro dão força ao fundamentalismo iraniano e a América, não obstante o “discurso do Cairo”, não está hoje, neste complexo xadrez em que está envolvida,em melhor posição do que estava quando Bush se foi embora, sendo até convicção do povo americano mais permeável à propaganda da direita belicista que os Estados Unidos são hoje um país mais vulnerável do que há dois anos.
Na Europa, pelo contrário, as relações melhoraram substancialmente, tanto com a generalidade dos aliados da NATO, como com a Rússia. Não obstante os progressos realizados, Obama corre o risco de não ver ratificados pelo Congresso os acordos que negociou com a Rússia, repetindo-se o que aconteceu nos tempos da Guerra Fria.
Na frente interna, que é sempre a mais decisiva para o resultado das eleições, os progressos foram escassos. Com maioria nas duas câmaras, até com uma super maioria no Senado durante largos meses, Obama não foi capaz de fazer aprovar a reforma do sistema de saúde que tinha prometido na campanha eleitoral. Enredou-se demasiado tempo na busca de um entendimento com os republicanos, cujo único objectivo era boicotar o projecto, deixou consolidar as posições dos congressistas e senadores democratas conservadores e, pior do que tudo, deixou criar numa parte considerável da opinião pública, inclusive naqueles a quem a reforma mais favorecia, a ideia de que reforma do sistema sanitário era um gigantesco desperdício de dinheiros públicos. Enfim, a reforma acabou por fazer-se, mas muito ao gosto das seguradoras.
A tentativa, de que parece não estar curado, de se entender com a direita republicana, nesta como noutras matérias, foi-lhe fatal. A ele e ao partido. De facto, é difícil compreender como se pode esperar que um partido que ataca o Medicare e o Medicaid, com os quais só ainda não acabou por falta de força, possa viabilizar algo parecido com um sistema nacional de saúde!
O mesmo se diga relativamente à regulamentação do sistema financeiro. Aquilo que parecia óbvio, quando a crise financeira rebentou, acabou por tornar-se um exercício extremamente complicado, a ponto de os republicanos terem conseguido passar para a opinião pública a ideia de que a reforma visava salvar os grandes bancos à custa do dinheiro dos contribuintes! Também nesta matéria, os grandes visados, ou seja, Wall Street, acabaram por sair relativamente confortáveis da contenda.
Mais uma vez Obama desagradou à esquerda e não ganhou nada à direita, tendo até involuntariamente contribuído para a radicalização das posições mais conservadores, de que o Tea Party é um eloquente exemplo.
No plano do emprego e do crescimento, os resultados também não são nada animadores. O desemprego mantém-se a níveis muito altos (superior a 10%), e a economia, apesar do programa de estímulo, cresceu pouco, vivendo-se neste momento sob o receio de uma nova recessão.
O desencanto está bem expresso nas palavras daquela mulher do povo que na região dos Grandes Lagos dizia um dia destes a Obama: “Presidente, desde que o Senhor foi eleito, não parei de o defender. Mas a verdade é que ainda não ganhei nada com isso. E estou a ficar cansada!”
Há um paralelo que não pode deixar de ser feito e que na América é frequentemente invocado, tanto pelas camadas instruídas, como pelo povo inculto. Esse paralelo é Roosevelt. Tal como Obama, também Roosevelt, em 1932, chegou à presidência com o país mergulhado numa profunda depressão. Com as medidas corajosas que implementou, genericamente consubstanciadas naquilo a que se chama o New Deal, a América voltou a ganhar confiança em si e foi saindo gradualmente da crise em que estava mergulhada, não obstante o retrocesso ocorrido em 1936.
Roosevelt foi corajoso, afrontou os grandes interesses estabelecidos e lançou as bases de uma nova América que foi sendo progressivamente melhorada até Reagan.
Obama, até agora, não tem estado à altura do seu notável antecessor. E vai pagar por isso. Já hoje!

domingo, 31 de outubro de 2010

DILMA ROUSSEFF, PRESIDENTE DO BRASIL


COMO CONTINUAR LULA

Com 96% votos apurados, Dilma Rousseff tem 55,7% dos votos e José Serra 44,3%. Dilma Rousseff vencerá e será a primeira mulher Presidente do Brasil.
De acordo com os votos contados, Dilma ganhou no Sudeste (S. Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo); no Norte (Pará, Amazónia, Randónia, Roraima, Acre, Amapá e Tocantins); no Nordeste (Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, e Maranhão); perdeu no Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul); e, provavelmente, perderá no Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal).
Por estados, Dilma perdeu no Acre, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondónia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo, tendo ganho nos restantes quinze, bem como no Distrito Federal.
A região Norte representa 45,2% do território brasileiro, porém a sua população anda apenas pelos 14 milhões de habitantes; o Centro-Oeste, com cerca de 19% do território, tem à volta de 12 milhões de habitantes; o Sudeste, representando pouco mais de 10% do território, é a região mais povoado do país: 77 milhões de habitantes; segue-se o Nordeste, com 50 milhões de habitantes e 18,2 % do território nacional; finalmente, o Sul, com 26 milhões de habitante e 6,8% do território nacional.
Com os votos quase todos contados, salvo no Nordeste e no Norte (cerca de 90% dos votos apurados), pode dizer-se que, do primeiro para o segundo turno, Dilma progrediu em número de votos e em percentagem, portanto, em termos absolutos e relativos, em todas as regiões, apesar de ter perdido no Sul e no Centro-Oeste, aqui por escassa mrgem, pouco mais de 100 mil votos..
À primeira vista, parece que os votos de Marina Silva se dividiram pelos dois candidatos, apesar de a abstenção ter aumentado em todas as regiões.
A candidata escolhida pelo actual presidente para representar o PT na eleição presidencial tem a seu cargo a difícil missão de continuar Lula. Continuar Lula significa, não apenas erradicar definitivamente a pobreza de um dos mais prósperos Estados do mundo, mas acabar de vez com o país dual herdado por Lula, depois de quase duzentos anos de domínio oligárquico e mais três séculos de colonização.
Para que isso aconteça, a riqueza vai ter que ser redistribuída, ou, pelo menos, distribuída, a partir de agora, segundo critérios muito diferentes daqueles que secularmente têm vigorado no Brasil.
Não vai ser fácil. Aquilo a que chamam as elites possidentes do Brasil associadas aos seus aliados ideológicos - e são muitos, como a presente campanha demonstrou – tudo farão para inverter o rumo iniciado por Lula.
Saber se Dilma vai estar à altura deste combate, apesar de tudo mais difícil de vencer do que a consolidação do Brasil na cena internacional como grande potência, com interesses próprios e política autónoma, não subordinada aos grandes interesses norte-americanos e europeus, é o grande desafio que Dilma tem pela frente nos próximos quatro anos.
A única coisa certa que a História nos ensina é a de que todas as conquistas que nestes domínios se fizeram ou venham a fazer são sempre muito difíceis de manter e extremamente fáceis de perder.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A NEGOCIAÇÃO DO ORÇAMENTO E OS SEUS CONTORNOS



O QUE ESTÁ EM JOGO

Continua a não ser muito fácil falar sobre o que se está passando a propósito da aprovação do orçamento.
Há dois dias os negociadores trocaram palavras duras e acusações. Parecia que o rompimento era definitivo.
Entretanto, Cavaco, que nestes últimos trinta anos se tem dedicado intensamente à vida política, mas ainda com tempo para ir fazendo outras coisas e acumular as correspondentes reformas, insinua que não é político, deixando a pairar no espírito dos portugueses a ideia de que é com imenso sacrifício e em cumprimento de deveres superiores que resolveu recandidatar-se à Presidência da República.
Simultaneamente, cobre-se de auto-elogios, fundados em substantivos abstractos cuja densificação ele subjectivamente concretiza convencido de que a partir daí se torna verdade objectiva universal, e adianta que se as coisas não estão muito pior a ele se deve, bem podendo estar muito melhor se os seus conselhos e recomendações tivessem sido seguidos. Dito de outra maneira. Tudo estaria melhor se tivesse sido ele a governar.
E depois acrescenta, para se perceber bem o que quer dizer, que no próximo mandato vai exercer uma “magistratura activa”.
Logo a seguir, quase em simultâneo com o anunciado rompimento das negociações, Cavaco convoca o Conselho de Estado sendo de esperar que os seus conselhos se dividam entre os apelos ao entendimento e a uma mais efectiva intervenção do Presidente da República.
Um dia depois, os responsáveis máximos do PS e do PSD coincidem em Bruxelas, a propósito da realização do Conselho Europeu, e apresentam-se com uma linguagem diferente da utilizada na véspera pelos negociadores de ambas as partes.
Algo, entretanto, se passou. Pressões em Bruxelas, dizem uns. Certamente que sim. Mas será tudo? A verdade é que se eles se entenderem Cavaco fica sem grande margem de manobra. Pelo menos, durante meio ano. Se não se entenderem, Cavaco pode começar desde já a exercer a tal “magistratura activa”.
Uma análise fria, racional, aponta para este entendimento das coisas. Parece ser isto o que está em jogo para os grandes intervenientes em todo este processo e simultaneamente os grandes responsáveis pelo estado a que isto chegou.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

CAVACO, ORÇAMENTO E AS NEGOCIAÇÕES


O QUE SE PASSA?

Não é muito fácil perceber com clareza o que se está a passar.
No plano dos princípios, o que o PSD quer fazer com o orçamento, a gente compreende: basta a ler o seu projecto de revisão constitucional para imediatamente se perceber que o PSD quer em matéria de despesa pública e de receita.
E também se sabe, pela prática destes anos e pela proposta de orçamento apresentada no Parlamento, o que o PS quer. Quer o que lá está. Ou seja, o que o preocupa não é tanto o resultado, que tem por indiscutível, mas o modo como a ele se chega.
Logo, há uma grande aproximação entre os pontos de vista dos dois partidos. Tão grande que parece que a diferença que os separa do acordo anda pelos quatrocentos e tal milhões de euros num orçamento de mais de 70 mil milhões.
À primeira vista, esta divergência por maior que seja o seu ”peso ideológico” – e não o terá – não justifica aos olhos do cidadão comum, minimamente informado, uma razão para ruptura. Tem de haver outras razões. E é normal que se pense em jogada política, no sentido pejorativo do termo. Uma ou mais, quem sabe, independentes umas das outras.
Eduardo Catroga, negociador do PSD, depois de ter insistido que interveio na negociação como técnico e independente – embora toda a gente pergunte como é possível negociar tecnicamente o instrumento político mais importante da sessão legislativa (mas isto será assunto para outros desenvolvimentos) – foi o primeiro a lançar a suspeita sobre a “jogada política”, quando deu a entender, ou praticamente o afirmou, que a negociação com Teixeira dos Santos estava quase fechada, mas que tudo se alterou depois de uma longa (tão longa, que E. Catroga até abandonou o local das negociações) conversa com Sócrates.
Assim, a primeira tese é a de que Sócrates não quer o acordo, não se importando de arriscar um “chumbo” do orçamento. Ou então, é um jogador nato, e aposta na hipótese de obrigar o PSD a vergar-se à sua vontade. Mas não é muito provável que nesta fase Passos Coelho possa recuar, sob pena de perder completamente a face.
Como Sócrates e Silva Pereira já disseram que o Governo sem orçamento se demitirá, e não sendo crível que Sócrates queira ficar em gestão até que possa haver novas eleições, o “chumbo” do orçamento obrigaria Cavaco a nomear outro Primeiro Ministro, mesmo antes das eleições presidenciais.
E então aqui entra em jogo a hipótese de outra “jogada”. O pressuposto é muito simples: é muito fácil, em qualquer negociação, arranjar um pretexto para a inviabilizar. Só a título de exemplo: Mário Soares, nos governos que dirigiu, principalmente nos dois primeiros, boicotou todas as negociações com Angola e Moçambique, apesar de algumas delas versarem sobre temas amplamente consensuais.
No lado do PSD, se há personalidades que se têm amplamente batido pela aprovação do orçamento, outras há que frequentemente têm dito que a não aprovação do orçamento “não seria o fim do mundo”, ou seja, que não seria grave. Ou seja ainda, que preferem esse resultado a um orçamento com o qual não concordam. Curiosamente, Cavaco também já deu a entender que o assunto não é tão grave como o pintam. Não disse por estas palavras, mas foi isto o que ele quis dizer. E não será difícil igualmente adiantar que Cavaco, se mandasse, aprovaria outro orçamento, ou dizendo de modo mais correcto: se mandasse, teria outro governo para executar o orçamento aprovado dentro dos limites impostos pelo directório que governa a UE.
Na actual conjuntura, tendo em conta o clima de medo propositadamente criado, Cavaco teria todas as condições, por maiores que fossem os nossos protestos, para nomear um governo dirigido por uma pessoa da sua confiança até à realização de eleições. Eleitoralmente não perderia nada. Pelo contrário, ganharia, porque em Portugal os que falam de presidencialismo, desde a Sra Campos Ferreira até muitos outros comentadores, intelectuais, inclusive, confundem presidencialismo com caudilhismo. De facto, o presidencialismo está longe, muito longe, de atribuir tantos poderes ao presidente como um semi-presidencialismo deturpado. E é isso que estão pedindo a Cavaco. E Cavaco já ontem entreabriu a porta quando disse que, no próximo mandato, iria ter uma “magistratura activa”!
Bem, mas há uma terceira hipótese. Que é a Passos Coelho querer demonstrar a Cavaco que é ele e não o PR que manda no PSD. Esta hipótese pressupõe que alguém foi enganado.
Depois, ao colocar à disposição do público as proposta que foram rejeitadas – se as vier a colocar, como prometeu – o PSD conta dar um passo importante para responsabilizar Sócrates pelo sucedido. Como até agora o PSD tem estado sob a pressão de ser o responsável pelas consequências da não aprovação do orçamento, poderá agora passar ao ataque se conseguir convencer a opinião pública de que afinal é o PS que não quer negociar.
Vantagens? Imputar a Sócrates tudo o que de grave possa suceder até à realização de eleições. Apesar de o que está em jogo para o PSD não ser apenas a vitória eleitoral, mas uma vitória por maioria absoluta, nem que fosse com a colaboração de Portas, esta jogada posta em prática a uma tão longa distância sempre seria muito arriscada.
Por isso é que não é muito fácil perceber o que se passa. O mais provável é que se trate de mais um episódio de uma luta inconsequente pelo poder entre dois partidos que tanto têm prejudicado o país, mas aos quais, incompreensível e infelizmente, a maioria dos portugueses continua a dar o seu voto.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

AINDA SOBRE A BIOGRAFIA POLÍTICA DE SALAZAR



A PROPÓSITO DE UM ESCLARECIMENTO DE RIBEIRO DE MENESES

Li no DN de 26/10/10 uma carta de Ribeiro de Meneses, respondendo a um artigo de Fernanda Câncio, no qual esta se insurge contra o facto de autor de "Salazar: Uma Biografia Política" ter qualificado o ditador português como “democrata-cristão”.
Ribeiro de Meneses na dita carta, da qual infelizmente não consigo fazer link, defende-se afirmando que a “citação se refere a um primeiro período da carreira de Salazar, que era membro do Centro Católico Português: partido que se definia como democrata-cristão e que como tal era tido pela igreja católica e por outros partidos europeus semelhantes” E conclui dizendo que “neste período a democracia cristã virou mais à direita ainda, devido à revolução russa e que Salazar acompanhou essa viragem. É claro que depois da II Guerra Mundial a democracia cristã mudou de rumo e que Salazar não a acompanhou”.
A explicação é pior do que a afirmação, por duas razões, tão sucintamente expressas quanto possível, apesar de o tema merecer largos e mais profundos desenvolvimentos.
Em primeiro lugar, o A, na obra acima citada, insiste em qualificar Salazar como democrata-cristão depois da sua entrada para o governo, quer durante o período da Ditadura Nacional, quer posteriormente à aprovação da Constituição de 33, e não apenas quando era membro do CCP. Quando Meneses biografa Salazar na época do fascismo italiano e do nazismo alemão, digamos, em termos gerais, na década de 30, um dos argumentos que recorrente usa para distanciar o ditador de Santa Comba Dão dos ditadores italiano e alemão é o de que Salazar é democrata-cristão. Mas diz mais: quando defende o afastamento ideológico de Salazar relativamente a Hitler, além daquele argumento, usa outro muito mais controverso: o de que Salazar, além de democrata-cristão, era um defensor do estado de direito!
Portanto, não é verdade que o A tenha muito contextualizadamente qualificado Salazar como democrata-cristão. Definiu-o assim tendo em conta a sua praxis política como governante.
Em segundo lugar, creio que o A está muito mal informado sobre o movimento democrata-cristão na Europa, desde que o conceito foi utilizado pela primeira vez até hoje.
Deixando agora de parte a evocação que o bispo de Lyon terá feito em 1971 na Assembleia Legislativa (mais no sentido de fraternidade cristã do que propriamente num sentido de acção política organizada), parece não haver dúvida de que o conceito só começa muito mais tarde, em meados do século XIX, a ser usado por um catolicismo de índole liberal, que vê na democracia o fundamento do poder, e procura por meio dela pôr em prática uma doutrina social da Igreja.
Esta ideia não era à época acolhida pela Igreja oficial, ainda muito ligada ao ancien regime, à monarquia e à origem divina do poder. Só muito mais tarde com Leão XIII, na Rerum Novarum, e depois com a Inter Sollicitudines, é que a Igreja aceita a República e advoga a intervenção social dos seus membros na vida comunitária. Mas é ainda o próprio Leão XIII que vem, cerca de dez anos depois, opor a democracia cristã à democracia social, voltando a aproximar-se daqueles que, dentro da Igreja, se mantinham mais ligados às posições tradicionais.
Interessaria também acrescentar que esta intervenção político-social dos católicos foi depois desautorizada, se não mesmo condenada, por Pio X (1910) numa célebre carta dirigida ao episcopado francês.
Um pouco mais tarde, durante e depois da Grande Guerra, Bento XV, nas suas acções em prol da paz, tenta aproximar os cristãos dos Estados beligerantes em nome da doutrina e dos valores da Igreja, sendo por esta altura que começam verdadeiramente a surgir os partidos políticos de inspiração cristã. Também é por esta altura que aparecem Konrad Adenauer, De Gasperi e Robert Schuman, os quais, de resto, mantêm contactos entre si.
O combate da democracia cristã europeia desta época é um combate pela paz. E é também verdade que os líderes da democracia cristã entre as duas guerras, não obstante a posição sempre muito ambígua da Igreja de Roma, encontram como ponto comum da sua acção a recusa de todos os totalitarismos.
Da Segunda Guerra Mundial para a frente, a história da democracia cristã é mais conhecida, bem como o seu papel à frente de muitos governos europeus, sendo apenas de sublinhar que, no plano dos princípios, a Igreja Católica jamais ousou contestar a partir dessa data a origem democrática do poder, apesar de ter convivido intimamente com as ditaduras peninsulares…
Portanto, e para terminar, que a conversa já vai longa, Salazar nunca foi um democrata cristão, nem nunca aderiu aos ideais da democracia cristã, nem antes nem depois da sua entrada para o governo. Apesar da relativa heterogeneidade do pensamento político cristão, sempre houve na matriz do movimento alguns princípios que Salazar nunca respeitou: a natureza democrática do poder, a solidariedade social apoiada em políticas sociais distributivas, enfim, a liberdade.
A única coisa que Salazar concedeu, já na década de 20, foi pôr a questão do regime entre parênteses e lutar pelos direitos da Igreja na República: mas os direitos da Igreja pelos quais Salazar lutava, nada tinham a ver com os ideais da democracia cristã, que, como se percebe pela exposição antecedente, sempre foi durante o século dezanove, nos primórdios do século XX, durante a Primeira Guerra e entre as duas guerras, apesar - insisto - da sua relativa heterogeneidade, um movimento circunscrito aos sectores mais progressistas da Igreja.
Obviamente, que Salazar não era um ditador igual a Hitler, nem a Mussolini, não obstante as simpatias que por eles nutria. Salazar era um autocrata atrasado e retrógrado que sempre teve como única preocupação política a conservação do poder, para, por seu intermédio, orientar, condicionar e dirigir a sociedade atrasada que nos legou . Tudo o resto era instrumental!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

PÚBLICO: UM JORNAL REACCIONÁRIO DE REFERÊNCIA


A PROPÓSITO DA VISITA DE CHÁVEZ

Se hoje em Portugal alguém quiser saber o que pensa a direita sobre qualquer assunto da actualidade política lê o Público. Nas notícias ou nos artigos de opinião (com uma ou duas excepções) lá está a posição da direita. Da direita em geral e da portuguesa em especial, que é uma direita atrasada, retrógrada, totalmente avessa a qualquer ideia de solidariedade social.
Por isso, o Público é, a justo título, um jornal de reaccionário de referência.
Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas não vale a pena gastar muito tempo a denunciar o que todos sabem. Vale, todavia, referir o tratamento das relações portuguesas com a Venezuela.
Um dos grandes défices da diplomacia portuguesa (entre outros) era a quase ausência de relações comerciais com os nossos principais fornecedores de petróleo e de gás natural. Na área porventura mais sensível e estratégica da nossa economia, que é a da energia, o país estava e está numa posição altamente desequilibrada relativamente aos fornecedores. Que nada nos compravam para compensar o muito que nos vendiam.
Como aqui tenho referido, uma das vertentes mais importantes da política externa de Sócrates tem sido a atenção dedicada a estes países, não para equilibrar a balança comercial, que isso não será fácil, mas para atenuar o nosso défice.
A Venezuela é um desses países, mas não é o único: idênticos esforços se têm feito no norte de África e noutros Estados, nem todos com o mesmo êxito.
Chávez é um dos políticos do mundo que mais vezes se submeteu a eleições. Até há quem diga (Lula), que, quando as não tem, as inventa.
Pois bem. A direita reaccionária não gosta de Chaávez. A direita reaccionária não gosta de ninguém que distribua, que atenue as diferenças sociais, que conceda cidadania aos “metecos”. Não gosta. Do que gosta é dos príncipes da Arábia Saudita, dos emires do Golfo e de um ou outro sultão que venda petróleo. Desses gosta. Gosta também da sra Merkel, que é muito democrática, tão democrática que até se dá ao trabalho de dispensar a opinião, sobre assuntos de interesse comum, da maior parte dos Estados que com que ela fazem parte da mesma “agremiação” …porque já votou por eles antecipadamente…
E gosta também dos “mercados” para os quais a democracia nem um estorvo chega a ser, já que se estão rigorosamente nas tintas para a opinião ou o voto daqueles a quem os suas imposições se aplicam
Desta democracia o Público gosta e respeita-a; e os seus opinadores, como o Sr. Lomba, também!
E, se dúvidas houvesse, lá estava o Público para as dissipar: na rubrica “Blogues em papel”, em seis recolhas sobre a visita de Chávez tem seis opiniões exactamente coincidentes.
Portanto, que fique claro: o Público é, com todo o merecimento, um jornal reaccionário de referência!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MITOS IBÉRICOS DO TEMPO DAS DITADURAS





A PROPÓSITO DA REUNIÃO DE HENDAYA DE 23 DE OUTUBRO DE 1940

Como muita gente, também estou um pouco cansado das sucessivas manipulações da História, principalmente as que se referem aos períodos mais recentes e que nos dizem directamente respeito.
Há mitos na Ibéria, criados e amplificados no tempo das ditaduras espanhola e portuguesa, que, por estranho que pareça, se mantêm hoje, acriticamente, mas quase nunca inocentemente.
No dia passado dia 23 deste mês de Outubro cumpriu-se o 70.º aniversário do célebre encontro de Hendaya entre Hitler e Franco
Um dos mitos mais celebrados da ditadura franquista, que ainda hoje perdura entre os seus sequazes ostensivos ou escondidos, é o que atribui ao génio e à astúcia de Franco a não entrada da Espanha na guerra ao lado das potências do Eixo
Depois, segue-se, como não poderia deixar de ser, a exploração doméstica do feito, exaltando a clarividência do Caudilho, que, tendo sabido resistir às pressões do ditador alemão, defendeu os interesses nacionais e soube preservar a Espanha de uma catástrofe.
Do lado de cá da fronteira, a tese é outra, igualmente amplificada pelos defensores do regime, a começar pelo próprio Salazar e depois defendida até hoje por muitos historiadores com foros de “verdade científica”: foi Salazar, com o seu génio de brilhante estadista, que impediu a entrada da Espanha na guerra, pela influência que soube exercer sobre o seu colega ditador espanhol.
Salazar, já caquéctico e sem preocupações diplomáticas, disse numa linguagem simples aquilo que, noutro estilo, sempre veiculou durante a sua governação: “O Hitler veio até Hendaya, mas não se atreveu a atravessar a Península. Franco, servido da minha opinião, convenceu Hitler a não entrar em Espanha. Convenci Franco de que a Inglaterra entraria imediatamente em Portugal seu aliado, e ele não se poderia opor. Houve umas coisas aborrecidas com os ingleses, mas nós, servindo-lhes vinho do Porto, conseguíamos deles algumas coisas”.
Começando pela Espanha. O “caderno de encargos” que Franco apresentou a Hitler para entrar na guerra – ajuda militar indispensável à preparação do Exército franquista, reincorporação de Gibraltar na Espanha e cedência de territórios em África – não constituía, no entender do ditador espanhol, uma exigência impossível de cumprir , mas antes o razoável que a sua megalomania considerava exigível para a participação da Espanha numa empresa de interesse comum.
Franco não percebeu a importância estratégica do Armistício que os alemães tinham acabado de celebrar com a França, nem o papel que "Vichy" poderia desempenhar em África, o que desde logo cortava cerce qualquer possibilidade de satisfazer as suas pretensões territoriais no norte de África à custa da França.
Depois, feitas as contas, analisadas as vantagens e desvantagens da entrada da Espanha na guerra, os alemães concluíram (aliás, já tinham concluído antes da reunião de Hendaya) que tinham mais a perder do que a ganhar com a beligerância espanhola. O exército de Franco, apesar de vitorioso na Guerra Civil, era “una mierda”, a Espanha não tinha combustíveis e a sua entrada na guerra, não obstante a hegemonia - ou talvez por isso mesmo – de que a Alemanha desfrutava em toda a Europa continental, acabaria por ser contraproducente para os interesses alemães.
Em conclusão, a não entrada da Espanha na guerra deve-se muito mais a Hitler do que a Franco.
Quanto a Portugal: é evidente que Salazar tinha interesse na neutralidade espanhola. Apesar das suas inegáveis simpatias pelos Estados do Eixo – facto que hoje alguns historiadores se esforçam por negar –, Salazar sabia bem que a entrada da Espanha na guerra, ou mesmo a passagem de tropas alemãs pelo seu território, implicaria, mais tarde ou mais cedo, a invasão de Portugal pela Inglaterra. E como para Salazar, no bom estilo clássico, o mais importante do poder é a sua conservação, fácil seria concluir que a entrada de Portugal numa convulsão militar com a amplitude da que estava ocorrendo na Europa, qualquer que fosse o seu desfecho, não lhe asseguraria nada de bom no futuro.
Por isso, foi defendendo uma neutralidade manhosa, variável, não apenas em função das suas simpatias ideológicas, mas também da correlação de forças no teatro de operações.
Sendo esta a verdade, não deixa de constituir uma megalomania a ideia amplamente difundida de que Salazar foi determinante na neutralidade espanhola. Franco olhava para Portugal e para Salazar numa dupla perspectiva: procurando, por um lado, tirar deles todas as vantagens, a começar por a que lhe poderia oferecer a própria situação geográfica do país e, inclusive, nos momentos de maior aperto, a sua relação com a Inglaterra; e, por outro, como um “pedaço” que nem a geografia, nem a história justificavam – bastava olhar para o mapa da Península, como dizia o Cuñadíssimo (Serrano Suñer), para imediatamente se perceber que Portugal era uma aberração. Tal como o “lobo” da fábula, também Franco apenas esperava a ocasião ou o pretexto para engolir o “cordeiro”.
Basta este enquadramento que a História inequivocamente confirma para se perceber até que ponto é fantasiosa a tal ideia da influência determinante.
Por isso, não deixa de ser lamentável, que Filipe Ribeiro de Meneses, na sua biografia sobre Salazar, continue a defender a mesma tese, com algumas cautelas e alguns “mas”, perdendo um tempo infinito na descrição das conversas de sacristia entre Salazar e Pedro Teotónio Pereira, sem fazer a menor referência à reunião de Hendaya e ao Protocolo nela assinado entre Hitler e Franco, a não ser a acima citada num contexto que tem exactamente em vista fazer prevalecer a tese salazarista.
Aliás, Salazar, governante, é tratado com extrema benevolência e compreensão por Meneses, como um homem defensor do estado de direito e da democracia cristã, rodeado por gente da extrema-direita, fascistas e nazis, que ele se esforça, com êxito, por neutralizar.
Pelo menos, até ao fim da Segunda Guerra Mundial (e mais não li) é esta a imagem que ele nos deixa do ditador de Santa Comba Dão.
A biografia tem, como não poderia deixar de ter, um breve apartado relativo à repressão, exactamente concebida como um apartado. A repressão não é tratada como um elemento estruturante do regime, sem a qual ele perde todo sentido, mas como um tema que pode ser tratado isoladamente ao lado de outros de menor importância.
Enfim, como se já não nos bastasse o presente, ainda temos de suportar as manipulações do passado!

VARGAS LLOSA - O ELOGIO DO TEA PARTY




NEM OUTRA COISA SERIA DE ESPERAR
O recém galardoado com o Prémio Nobel não deixa os seus méritos por mãos alheias. Como seria de prever, faz o elogio do Tea Party num artigo de opinião, publicado no El Pais de hoje.
O ultra-neoliberal peruano, que elegeu a Espanha como sua pátria e Nova York como sua residência, começa por fazer a defesa da tese peregrina – hoje desmentida pelos factos – de que o advento do Tea Party pode constituir uma espécie de bênção para o Partido Democrático, pelas complicações e divisões que o movimento pode causar nas hostes do Partido Republicano.
Se nos primórdios do lançamento do Tea Party ainda seria lícito pensar assim, hoje a defesa de tal ponto de vista não tem a menor consistência. Os neocons entenderam-se com o Tea Party na maioria dos estados e raros são os casos em que os candidatos do Partido Republicano não são apoiados por uns e por outros.
Muito mais grave do que um erro de apreciação, voluntário ou involuntário, é o elogio feito ao movimento em nome de algo muito saudável, realista, democrático e profundamente libertário, vindo do interior das suas entranhas, como que fazendo reviver o que de mais profundo e valioso existe nos fundamentos da nação americana.
Claro que o novel Prémio Nobel tem que se distanciar, nem que seja pelo emprego das conhecidas figuras de estilo, de algumas das maiores bestialidades do Tea Party, como a de garantir que Obama é um muçulmano clandestino empenhado na instauração do socialismo na América (só falta mesmo dizer que é em nome do Islão!), da convivência de Christine O’Donnell com bruxas, da criação do virus da SIDA pelos homossexuais, da imposição do criacionismo bíblico nas escolas, ou da incultura de Sarah Palin ou de Glenn Beck. Advogar tais pontos de vista ficaria mal a um Senhor tão cosmopolita como LLosa que teve o azar de nascer no Peru.
Mas já é perfeitamente normal para esse mesmo Senhor afirmar que o espírito libertário que levou os emigrantes europeus a fugir para o outro lado do Atântico, para escapar às guerras religiosas que por cá existiam com a ferocidade que se conhece, se mantém vivo na América dos nossos dias, quando todos sabemos o que está acontecendo na cosmopolita Nova York com a hipótese de construção de uma mesquita no “ground zero”, ou, muito pior, não haver hoje a menor hipótese de alguém naquele país ser eleito para um cargo público se se declarar ateu ou não religioso. Tem de pertencer a uma confissão religiosa, de preferência cristã.
E depois vem a conhecida conversa de que o Estado toma hoje conta da pessoa, desde que nasce até à morte – e ele diz isto, sem corar, a propósito da América -, impedindo o cidadão de fazer as suas livres escolhas e de ser o primeiro responsável pelos seus êxitos ou fracassos! E conclui vaticinando o envilecimento da democracia se não houver uma grande mudança que afaste de vez este poder invisível que impede o homem de ser autónomo!
É preciso ter lata! O Senhor Llosa não sabe, para continuarmos a faltar da América, que só há uma hipótese de alguém se candidatar pelo Partido Republicano se não for apoiado pelos neocons ou pelo Tea Party? É ser muito rico, riquíssimo, como acontece com Bloomberg em Nova York ou com a agora candidata (Meg Whitman) a governadora da Califórnia. E porquê? Porque as fundações dos neocons e outras “beneméritas” organizações de fins não lucrativos, como a Câmara do Comércio ou a American Crossroads, de Karl Rove (o rei do jogo sujo), inundam com dinheiro os seus candidatos, não deixando nenhuma margem aos que dentro do mesmo espectro político se lhes opõem.
Não vale a pena dizer mais nada: os factos falam por si. As desigualdades sociais não páram de aumentar nos países capitalistas avançados de há mais de vinte ano a esta parte, exactamente por o Estado ter sido tomado sem partilha pelos grandes senhores do capital. Mas o Senhor Llosa, saudoso do domínio oligárquico durante séculos exercido nas terras latino-americanas onde nasceu, não está satisfeito: quer mais.
Quer que a democracia dos banqueiros e da plutocracia, a tal que diz aos próprios Estados o que eles tem de fazer ou o que não podem fazer, se estenda a todos os domínios da vida em sociedade.
Além do mais é fazer dos outros estúpidos acusar o Estado americano de despesismo em matéria social, quando toda a gente sabe que a sua gigantesca dívida e o seu volumoso défice advêm das guerras imperialistas em que se meteu (onde torturou, matou e praticou toda a série de violações dos direitos que hipocritamente diz defender) e da crise financeira em que os libérrimos bancos americanos mergulharam o mundo ou uma grande parte dele.
Ora bolas, para um Prémio Nobel tão vulgar!
ADITAMENTO
Ainda bem que alguém me acompanhou. O artigo de Carlos Fuentes, no El País de 31 de Outubro, não é mais do que uma resposta a Vargas Llosas. Sem nunca o citar, é a ele e não ao Tea Party (que toda a gente instruída sabe o que é), que Carlos Fuentes quer atingir.

domingo, 24 de outubro de 2010

QUE POLÍTICOS TEMOS NÓS?



DE QUE TRATAM, O QUE DISCUTEM?

Quando uma pessoa pára para pensar e tenta perceber que tipo de políticos temos nós não pode deixar de chegar a conclusões decepcionantes. Já não estou a pensar nas parcerias público-privadas e na roubalheira que elas representam (tema a que voltarei), nem mesmo neste folclore entre o PS e o PSD sobre o orçamento visando saber qual dos dois é capaz de fazer recair mais sacrifícios sobre quem nada tem a ver com a situação por eles criada. Estou antes a pensar em questões fundamentais da política económica europeia, ou mesmo da política mundial, que alguém discute e decide por nós sem nos dar cavaco.
Salvo o erro no próximo fim-de-semana, o Conselho Europeu vai discutir e decidir sobre o chamado “governo económico da União” com base num acordo franco-alemão, melhor dizendo, com base nas imposições alemãs aceites pelo hiperactivo e inconsequente Presidente francês.
A Senhora de Além-Reno quer inclusive que os mais altos representantes dos Estados assumam o compromisso de rever, em tempo record, o Tratado de Lisboa para que nele passem a figurar as imposições que o Presidente francês já aceitou – sanções de toda ordem: multas, perda de direitos políticos e mais uma quantidade de coisas.
Que sabem os portugueses disto? Os portugueses apenas sabem que o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros era favorável à constitucionalização dos limites do défice e da dívida, conselho quase imperativo que os alemães puseram a circular na UE. O que se passou nas negociações que estão precedendo aquele Conselho? O que é que os Ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros já aceitaram em nome de Portugal? O que vai lá dizer e que posição vai defender Sócrates no próximo fim-de-semana?
Os portugueses não sabem, mas sabem que Portugal não tem feito nada, absolutamente nada, para tentar alterar o estado de coisas reinantes na União Europeia.
Não temos força”, dirão. Isso é o que sempre diz quem, por falta de coragem ou covardia, desiste de lutar. Há vários países na mesma situação que nós. Da mesma forma que a “Patroa” da Alemanha se reúne com Sarkozy para fazer passar com mais facilidade as suas imposições, por que é que os países por elas afectados se não reúnem igualmente para tentarem concertar uma estratégia comum?
Estes políticos que nós temos ainda não perceberam que eles (os que impõem as suas decisões) estão em guerra connosco, procurando tirar partido da nossa fragilidade para “engordarem” ainda mais os detentores do capital financeiro e especulativo. E não perceberam, porque fazem recair sobre o povo, o povo que vive do seu trabalho (e não da exploração do trabalho alheio), o ónus daquelas políticas.
Mas há mais. O G20 está discutindo em Gyeongju (Coreia do Sul), ainda ao nível dos Ministros da Economia e das Finanças, assuntos que são do máximo interesse para nós, como a questão da desvalorização competitiva das moedas e a regulação do desequilíbrio das contas correntes. Percebe-se por aquela linguagem de trapos que eles utilizam para simular que houve acordo que não chegaram a nenhum consenso, salvo porventura o respeitante à reforma da participação dos países emergentes no FMI. Mas a verdade é que a única voz que do lado da Europa se fez ouvir foi a da Alemanha. É certo que Portugal, por razões óbvias, não participa neste forum (antidemocrático e ilegítimo), mas a União Europeia está lá representada. O que diz ela? Por que é que os países da UE a quem estas questões interessam num sentido divergente ao da Alemanha e de outros não discutem estes assuntos em Bruxelas ou entre si?
A resposta é sempre a mesma: não podemos dar um passo maior do que a perna. Pois é, mas o Vietname derrotou os Estados Unidos…
Estas são algumas, apenas algumas, das nossas “fatalidades”. Fatalidades nas quais colaboram aqueles que nos governam. Mas, a esses mesmos, se por acaso lhes forem pedir para fazer um frete político aos americanos, aí põe-se logo na primeira fila, julgam-se grandes e dissertam sobre a “relação transatlântica” como se estivessem no Pentágono.
Esta nossa “imensa pequenez” de que falava o O’Neill cada vez é maior!

sábado, 23 de outubro de 2010

LEIRE PAJÍN - EM ESPANHA É ASSIM!




A DIREITA AO NATURAL




É assim, sem tirar nem pôr, que o Alcaide de Valladolid, Francisco Javier Léon de la Riva, se referiu à nova Ministra da Saúde de Zapatero, Leire Pajín.
Lá, ao menos, a direita machista e sexista não engana ninguém. Quem gosta, gosta, quem não gosta, fica a saber com o que conta…

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A BOLINHA DE PAPEL


A MANIPULAÇÃO IMPUDICA

A manipulação dos media é hoje um verdadeiro caso de polícia. Vale a pena denunciá-la, vale a pena utilizar este extraordinário instrumento que é a internet para consegui ter voz onde antes só havia solilóquio.
Já não parece que tenha tanto êxito, ou que sequer valha a pena, as petições enviadas aos manipuladores pedindo pluralismo, isenção e coisas do género. É uma ingenuidade. O esforço que se despende nesse tipo de actividades pode ser mais eficazmente canalizado para outros tipos de luta.
Ainda há dias assistimos no Brasil a um espectáculo lamentável, quase obsceno, relacionado com a campanha eleitoral.
Na zona Oeste do Rio de Janeiro, o candidato José Serra, num confronto sem consequências entre os seus apoiantes e os de Dilma, levou com uma bolinha de papel na cabeça quando caminhava pela rua. A passeata do candidato continuou normalmente, sem que o próprio se tivesse verdadeiramente apercebido do que se passara, tão insignificante havia sido o “impacto”.
Cerca de vinte minutos depois, Serra recebe um telefonema e leva a mão à cabeça. Mais uns minutos e aparece uma ambulância. É transportado para uma clínica. Algum tempo mais tarde um “médico” explica a agressão “no parietal esquerdo” e fala em “tonteiras”. Tem, porém, que reconhecer que não existe qualquer ferimento visível e que os exames que ele afirma o candidato ter feito não revelam qualquer lesão.
A Globo, o Estadão e a Folha falam em violência e em agressão. O Público, em Portugal, sempre ao serviço da reacção, fala num rolo de autocolantes…Pouco tempo depois a SBT mostra as imagens e desmonta por completo a manipulação! As redes sociais e os blogues ridicularizam a campanha de Serra e encenação que imediatamente foi montada.
Moral da história: se actuarmos conjuntamente, se fixarmos os objectivos correctamente, se soubermos desprezar o acessório e atacar o essencial, poderemos vencê-los! Sim, estou a falar da mudança de Governo em Portugal e da luta que também tem de iniciar-se nas ruas a partir da próxima greve geral.
Se acreditarmos e lutarmos, venceremos!