sexta-feira, 13 de março de 2009

AS CONTAS DA EDP


O QUE TODA A GENTE SABE E O QUE SÓ ALGUNS
SABEM


O Público de hoje titula na primeira página que um auditor interno da EDP pediu a demissão por ter considerado que houve manipulação dos lucros. Dito de forma simples: contabilizou-se nas contas da empresa como lucro aquilo que o não era. A quantia em questão está longe de ser despicienda, já que ela representa mais de 37% dos lucros anunciados. Sem aquela quantia, os lucros a EDP teriam registado uma queda de 24%.
Directamente relacionado com os lucros estão a distribuição de dividendos pelos accionistas e as remunerações variáveis dos gestores de topo.
A EDP não esteve disponível para prestar esclarecimentos sobre o assunto.
Isto é o que toda a gente percebe. Depois, entra-se naquela fase só acessível a alguns. Saber se a quantia em questão (405 milhões de euros) deve ser contabilizada como lucro ou como capitais próprios é algo que escapa ao comum dos mortais.
Como seguramente escapou ao comum dos mortais o meandro das operações Madoff, embora as pessoas que lá puseram o dinheiro soubessem perfeitamente em que consistia o negócio que estavam a fazer com o financeiro americano. Assim como escapa ao comum dos mortais os meandros do subprime e operações associadas, embora as pessoas que pediram dinheiro aos bancos para comprar casa soubessem perfeitamente em que consistia o negócio que estavam efectuar.
Também todos nós temos uma noção muito clara, palpável, quase física, do que é um lucro Nenhum de nós, enquanto administradores dos nossos rendimentos domésticos, tem sobre o assunto a menor dúvida. Pelos contrário, no capitalismo dos nossos dias elas existem…,

IBARRETXE MANTÉM QUE O PNV CONTINUARÁ A LIDERAR EUSKADI "ONDE QUER QUE SEJA"


ENQUANTO PSE-EE E PP SE ENTENDEM


Insisto no tema País Basco apenas para sublinhar quão importante continua a ser, por todo o lado, o fenómeno nacional. Durante a ascensão do neoliberalismo, ouviu-se com muita frequência a ideia de que o Estado nação estava em crise e que em breve soçobraria ante os avanços inevitáveis da globalização. Isto, apesar de por todo o lado, depois da desagregação da União Soviética, se estar a assistir exactamente ao contrário. Outros, seguramente mais lúcidos, diziam que o Estado nação era pequeno demais para tratar dos grandes problemas mundiais e grande demais para se ocupar dos problemas que afligem quotidianamente as pessoas.
Embora esta segunda afirmação tenha muito de verdadeiro, ela não significa o desaparecimento do Estado nação, nem a erradicação do nacionalismo como fenómeno político e cultural.
Aqui bem perto de nós, o País Basco é um bom exemplo do que se acaba de afirmar. Do lado espanhol, o acordo entre o PSE-EE e PP quer significar, independentemente das profundas divergências que separam os dois partidos e inclusive dos ódios que os dividem, que a integridade territorial de Espanha está acima de qualquer diferença. Do lado basco, a exclusão do PNV do governo de Euskadi nas condições em que o foi e a sua substituição por um governo PSE-EE apoiado pelo PP são entendidas como uma espécie de dominação colonial ou, talvez mais correctamente, ocupação estrangeira.
Do lado de Madrid, principalmente a imprensa, tanto a de centro esquerda como a de direita e a monárquica, esforça-se por demonstrar que o governo PSE-EE tem legitimidade democrática e que o acordo com o PP se circunscreve a três questões fundamentais: defesa da Constituição, do Estatuto de Guernica (Estatuto do País Basco); e deslegitimação social da ETA. Quanto ao resto, o PP será uma oposição contundente.
Só esta forma de pôr a questão demonstra quão profunda é a distância que separa os espanhóis dos nacionalistas bascos. Aqueles três temas são exactamente o que estes contestam e que o plano soberanista de Ibarretxe (inviabilizado judicialmente) queria pôr em causa.
Rajoy, depois de ter aguentado o ataque feroz dos duros do partido (eufemismo para designar a ala franquista do PP, capitaneada por Aznar) e de ter substituído em Euskadi Maria San Gil por Basagoiti, muito mais moderado, conseguiu fazer regressar Zapatero ao “Pacto anti-terrorista”, nos termos por ele defendidos, e inviabilizar assim qualquer tipo de diálogo com a ETA. Em consequência, aumentou para níveis semelhantes ao de Aznar, embora com um discurso diferente de Zapatero, a intervenção judicial no País Basco, de modo a retirar aos nacionalistas qualquer possibilidade de vitória eleitoral. O que efectivamente veio a acontecer, nas eleições de 1 de Março.
Não auguro grande futuro a esta estratégia. Qual venha a ser a posição da esquerda Abertzale, não será difícil de prever. Quanto ao PNV, as declarações de Ibarretxe, citadas em título, deixam entender uma clara inclinação do partido para a linha mais nacionalista. Os espanhóis não vão ter vida fácil no País Basco nos próximos ano. De vitória em vitória em vitória…

quinta-feira, 12 de março de 2009

OS DEBATES NA TV - SEMPRE ENTRE OS MESMOS

ABUNDÂNCIA OU ESCASSEZ?

As televisões, mais agora com um novo canal noticioso, estão aparentemente cheias de debate. Mas estarão realmente?
A gente sabe que é por razões comerciais, que esta aparente inflação tem lugar e não por homenagem ao princípio de que da discussão nasce a luz. Pelo contrário, da maior parte deles não nasce luz nenhuma, qualquer que seja o domínio sobre que incidem. Nenhum daqueles comentadores é capaz de nos surpreender com as suas intervenções. Já antecipadamente sabemos o que cada um vai dizer. E cada um deles também já sabe o que o outro vai dizer.
Toda a gente acaba por ficar prejudicada: os que ouvem, que não aprendem nada; os que debatem, que, não tendo que intervir sobre o que não esperavam, acabam por não desenvolver as suas eventuais capacidades.
O que se ganha então? Ganha-se pensamento único, com nuances…e assim se assegura a hegemonia.
Esta democracia eu não gostaria de exportar…

"A GUERRA", DOCUMENTÁRIO DE JOAQUIM FURTADO

FACTOS SÃO FACTOS

Nem sempre estive de acordo com os “critérios jornalísticos” de Joaquim Furtado na I série do documentário “A Guerra”, de nove episódios, entre 1961-64, embora reconheça que se tratou de um trabalho interessante que deu a conhecer ao grande público, principalmente ao que não viveu a Guerra Colonial, factos e contextos que lhe eram desconhecidos.
Esta segunda série, ontem iniciada, de onze episódios, entre 1964-67, vai incidir sobre o fim do salazarismo e sobre uma fase da guerra que o regime já não conseguia fazer passar por vitoriosa, como aconteceu nos três primeiros anos (em que se chegou a falar de simples acções de polícia…). É também durante este período, posterior à morte de Kennedy, que se atenua ligeiramente a pressão dos americanos sobre o regime, politicamente absorvidos pela guerra do Vietname e simultaneamente se agrava o seu isolamento internacional em relação ao então chamado “terceiro mundo”. Na Europa Ocidental, a posição das democracias oscila entre o apoio a Portugal, disfarçado de abstenção (França, Alemanha, Grã-Bretanha, Bélgica, Itália) e a hostilidade dos nórdicos que passaram apoiar ostensivamente a guerrilha, embora sem fornecimento de material militar, a cargo da União Soviética e demais países socialistas.
A série que ontem se iniciou começa com dois depoimentos, muito interessantes, destinados a situar o telespectador, desde o início, no ambiente de guerra e só depois tem lugar o genérico. Através deles pretende-se que o telespectador perceba que as regras que regem a conduta humana em guerra são diferentes das que regem essa mesma conduta em tempo de paz. Não se está a falar de qualquer atropelo à legalidade internacional, ou sequer à moral, mas pura e simplesmente a dizer-se que a guerra tem as suas leis.
Os demais depoimentos são, em geral interessantes, embora prestados por pessoas que já participaram na primeira série. Há, porém, dois aspectos que não podem passar em claro: um diz respeito ao assassinato de Humberto Delgado, outro à posição da oposição sobre a guerra e o colonialismo.
Sobre o primeiro, não compreendo que interesse pode ter pôr a circular, ainda por cima sem contraditório, a versão do autor material do crime. De facto, é inadmissível, insinuar que houve uma espécie de excesso de legítima defesa, não somente por hoje haver fundadas razões para crer que Casimiro Monteiro, assassino profissional, foi admitido na pide para assassinar Humberto Delgado, mas também por se saber que a brigada Rosa Casaco levava por incumbência aquele assassinato.
Sobre a segunda questão, é certo que a Oposição Democrática se manifestou contra o colonialismo e a guerra nos termos que constam do documento lido por Mário Soares, mas também é verdade que já muito antes o PCP tinha tratado o assunto, pela primeira vez, no III Congresso, 1943, salvo o erro, no capítulo “Aliança com os povos coloniais” (“não é livre um povo que oprime outros povos”); no IV Congresso, 1946, no qual acusa a ditadura de exploração colonial, escravatura, saque das pequenas explorações indígenas, castigos corporais, difusão do ódio racial; no V Congresso, em 1957, em que advoga “o reconhecimento incondicional do direito dos povos das colónias dominadas por Portugal à imediata e completa independência”; e, finalmente, no VI Congresso em 1965, no qual, entre os oito objectivos fundamentais da revolução antifascista, figurava: “reconhecer e assegurar aos povos das colónias portuguesas o direito à imediata independência”, com soluções diferenciadas para Macau (integração na China) e Timor (autodeterminação e independência).
É verdade que o tema Ultramar não era unanimemente entendido pela Oposição e que a mais tradicional, herdeira da I República, continuava a ter muita dificuldade na aceitação da autodeterminação e independência das colónias. O próprio General Humberto Delgado, como se diz na série, manifestava reservas à independência; porém, com o tempo e principalmente o contacto no exílio com nacionalistas africanos – e isto não se diz na série – a sua posição mudou.
É, porém, minha convicção, não obstante todas as manifestações acima referidas, que somente a partir do fim da década de 60, e inequivocamente nos primeiros anos de 70, passou a haver um forte sentimento anti-colonial entre os portugueses, cansados de uma guerra sem fim à vista. Sentimento que se manifestava mais intensamente entre os mobilizados para a guerra colonial e suas famílias, e que acabou por influenciar decisivamente os próprios oficiais de carreira, nomeadamente os mais jóvens, sujeitos a sucessivas comissões de serviço no teatro das operações.

CAMPO DAS LETRAS APRESENTOU PEDIDO DE INSOLVÊNCIA



UMA TRISTE NOTÍCIA


Uma das melhores editoras portuguesas não resiste á crise e está em vias de desaparecer. Como é possível? Tudo é possível nesta economia de mercado. Desde logo, é possível que nas principais livrarias do país, ou melhor, supermercados de livros, se não encontre com facilidade livros da Campos das Letras, apesar da sua qualidade e, quando existem, nunca em lugar de destaque. Ou seja, esta liberdade que o “mercado” tem de não apresentar certos produtos, não porque não tenham venda, mas por “opção comercial”, aliada a uma política de distribuição dominada pelos grandes grupos, é que constitui a matriz da "nossa democracia mercantil".
Por isso tanto me insurgi contra as críticas do Bloco de Esquerda a Angola. É esta democracia que o Bloco quer exportar?

O PÚBLICO, AS PORTAGENS E A LUSOPONTE

O QUE O EDITORIALISTA DO PÚBLICO DESCONHECE



Somente agora li o editorial (apenas acessível a assinantes) do Público de quarta-feira. JM Fernandes, pelos vistos, desconhece as alterações ao contrato inicial entre o Estado e a Lusoponte, bem como o relatório da auditoria do Tribunal de Contas.
Para não me estar a repetir, remeto para o post em que tratei do assunto. E nele se verá que o Ministro das Finanças está interessado na manutenção do status quo, ilegal, à luz do direito comunitário, porque o Estado assumiu perante a Lusoponte o risco fiscal (i.e., o encargo decorrente de uma alteração dos impostos). Essa a razão pela qual o Ministro quer que o IVA incidente sobre portagens de travessias de rios seja taxado a 5%. Se se mantiver actual regime (que Portugal não está a aplicar nas travessias do Tejo), o Estado vai ter de pagar a diferença!

INGLESES DOMINAM A CHAMPIONS LEAGUE

MOURINHO ELIMINADO

É muito difícil ver futebol em Portugal pela televisão, nos canais portugueses, mesmo que o futebol seja do melhor, como normalmente acontece na Liga dos Campeões, a partir dos oitavos de final.
Os comentadores são simplesmente insuportáveis. Ou não percebem o que se está a passar, ou fazem os comentários na perspectiva do adepto, ou são provincianamente "patrioteiros" sempre algum luso está em jogo, no campo ou fora.
Enfim, fazem o possível para que a gente não veja o jogo. Que saudades da ESPN Brasil e dos comentários do competentíssimo PVC.
Se a Sport TV, num dos seus canais, transmitisse os jogos apenas com som ambiente, seguramente que a audiência cresceria. Eu sei que isto pode fomentar o desemprego, mas aqueles comentadores são incorrigíveis. Quando se vai ao campo, também não se tem ninguém a comentar o jogo…
Mourinho, como de costume, joga feio e estrutura o jogo das suas equipas a partir de uma boa organização defensiva, a que junta um atacante de eleição a quem cabe quase exclusivamente o jogo ofensivo: no Chelsea, Drogba; no Inter, Ibrahimovic. Como se viu, não chega…
O Porto passou e, segundo a imprensa espanhola, bem, porque, no conjunto dos dois jogos, foi melhor, apesar de o trabalho do árbitro lhe merecer reparos.
Quanto ao mais, o esperado. Seria uma pena que o Liverpool e o Manchester tivessem de se defrontar antes da final…

quarta-feira, 11 de março de 2009

OBAMA ANUNCIA GRANDE REFORMA NA EDUCAÇÃO

PELA DEMOCRACIA, PELA CIDADANIA E PELA COMPETITIVIDADE

Obama anunciou ontem uma grande reforma na Educação, para fazer frente ao fracasso cada vez mais evidente do sistema público de ensino norte-americano.
São três as razões fundamentais que levam o presidente americano a lutar por uma reforma que não vai ser fácil de executar: a democracia, a cidadania e a competitividade da economia.
Um dos pontos críticos da reforma vai ser certamente o que aponta para a remuneração dos professores em função do resultado escolar dos alunos. Presentemente, os professores na América são pagos em função de dois factores: tempo de serviço e tempo lectivo.
O presidente já disse que aos professores se exigirá maiores responsabilidades na melhoria do ensino e os melhores, em função dos resultados, serão mais bem pagos. Haverá mais dinheiro para as escolas públicas, programas de formação de professores e exames mais exigentes.
Aos professores serão dadas oportunidades para melhorarem a qualidade do ensino, mas se ao fim de um, duas, ou três oportunidades tudo continuar na mesma, “não há desculpas para que essa pessoa continue ensinando. Recuso um sistema que recompense o fracasso”, disse.
Parece haver um relativo consenso político na América sobre a necessidade de uma reforma no sistema educativo, tal o estado em que o ensino se encontra, embora se aguarde com expectativa a reacção dos poderosos sindicatos de professores.

UM TEXTO DE ALAN GREENSPAN

ACABADO DE PUBLICAR

Acabado de publicar no Huffington Post, um texto de Alan Greenspan

AS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E ANGOLA

UM PERCURSO DIFICIL E ACIDENTADO

A visita oficial de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola, a Portugal constitui um importante acontecimento da política externa portuguesa.
Quem conheça a história das relações entre os dois países, desde 11 de Novembro de 1975, data da independência de Angola, sabe que, apesar de sempre ter havido um estreito relacionamento entre as pessoas dos dois países e de nunca se ter quebrado o intercâmbio económico e comercial, as relações políticas passaram por momentos muito difíceis.
Para além dos sectores de esquerda que sempre mantiveram boas relações com Angola, é justo recordar aqueles que ao longo dos anos nunca esmoreceram na construção de uma relação normal com aquele país. Primeiro que todos, os militares do MFA, a começar por Rosa Coutinho, a quem Angola muito deve e também Costa Gomes que, com o apoio do Conselho da Revolução, reconheceu a independência de Angola, contra a vontade de Soares, Sá Carneiro e Freitas. Mas depois, também Eanes, como Presidente da República, soube resistir à permanente pressão do PS de Mário Soares contra um estreitamento de relações com Angola. Mais tarde, mas ainda durante a guerra-fria, Cavaco e Durão Barroso foram, no plano institucional, os grandes obreiros da normalização das relações políticas entre os dois países.
Contra a pressão dos americanos, que continuavam a apoiar Savimbi, contra Mário Soares e os seus amigos, que acima de tudo estavam contra quem fosse apoiado pelos “comunistas de Moscovo”, Cavaco e Durão Barroso não somente não desistiram de buscar a paz em Angola, embora sem êxito, como souberam construir uma relação de confiança com os dirigentes de Angola, de que agora se está colhendo os frutos.
Depois da derrota do apartheid sul-africano em Kuito-Kuanavale, nessa memorável batalha que mudou o curso da história na África Austral, e de que tão pouco se fala por cá, a paz em Angola seria uma questão de tempo. Com a morte de Savimbi, cujo fim provavelmente terá sido apressado pelos seus anteriores apoiantes, Angola recuperou finalmente a paz depois de mais de 40 anos de guerra.
Ainda antes da morte de Savimbi, mas já com o destino de Angola traçado, o Governo Guterres estreitou as relações com Angola, e o próprio Jaime Gama, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, não hesitou, em mais uma disputa de Soares com os dirigentes angolanos, em desvalorizar o assunto para não prejudicar as relações entre os dois países, facto que lhe valeu até hoje a inimizade de Soares.
A seguir, novamente com Barroso, agora como Primeiro Ministro, e depois com Sócrates, as relações foram-se estreitando cada vez mais e com elas aumentando o intercâmbio e a cooperação entre os dois países.
Para além das “viúvas de Savimbi”, hoje quase circunscritas a João Soares e a Maria Antónia Pala, somente o Bloco de Esquerda experimenta dificuldades numa relação normal com Angola. Curiosamente, até o Público, do qual, durante a visita, alguns esperavam manchetes bombásticas ou algum editorial demolidor, optou pela normalidade jornalística e por editoriais versando sobre outros temas.

ALEGRE VÍTIMA DA SUA PRÓPRIA "ESTRATÉGIA"

E AGORA, O QUE LHE RESTA?
Não há dúvida de que o discurso do PS em relação a Alegre mudou. Mais tarde ou mais cedo teria de acontecer, era apenas uma questão de tempo. Sócrates pode não ter lido os clássicos e pode não conhecer em pormenor as cisões, divergências e outras minudências que acompanham certa gente de esquerda no seu relacionamento com outra gente de esquerda, mas depressa compreendeu que Alegre caminhava para um beco sem saída. Por isso, deixou-o ir, deixou-o seguir o seu caminho. Aqui e além ainda vestiu a pele de bom samaritano, para partido ver, certo de que quanto mais condescendente fosse com Alegre mais ele se afastaria. E assim aconteceu.
Os “profissionais da política” logo que perceberam que Alegre, na sua contestação ao partido, não actuava em consonância com uma estratégia previamente traçada, mas antes subordinado a uma espécie de apelo moral, ditado por uma consciência de esquerda, que, se não se basta com o simples facto de se manifestar contra, fica, pelo menos, consideravelmente apaziguada.
Hoje, a ideia com que se fica é a de que Alegre, politicamente, está muito só. Dificilmente o Bloco o aceitará como independente nas suas listas, a menos que seja num distrito por onde não meteu ninguém. Mesmo assim, a inclusão de Alegre nas listas do Bloco causaria turbulência. Por outro lado, a possibilidade de Alegre arrancar com um partido é quase nula. Alegre não é um organizador e a colaboração de Roseta para esse efeito é insuficiente. Toda a gente do aparelho, ou não, que há quatro anos o apoiou, no PS, contra Sócrates, está hoje, mais do que nunca, com o secretário-geral. E não havendo a possibilidade de candidaturas à Assembleia da República promovidas por grupos independentes de cidadãos, as hipóteses de Alegre são quase nulas.
Quanto à Presidência…Bem, ninguém em Portugal, à esquerda, lá chega sem o apoio do PS.
Como se vê, o que está a passar-se não anda muito longe do que prevíramos aquando da realização do Forum das Esquerdas.

terça-feira, 10 de março de 2009

ANGOLA: O QUE PRETENDE O BLOCO PROVAR?

HÁ ATITUTES QUE NÃO SE COMPREENDEM

Depois de declarações jocosas de alguns elementos do Bloco, principalmente em blogues, sobre dirigentes angolanos e de outros ataques no passado, dos mesmos elementos, que aqui foram denunciados, esperava-se que a direcção do partido manifestasse uma atitude diferente durante a visita do Presidente de Angola a Portugal.
Não o fez. E face às declarações públicas justificativas da atitude assumida no Parlamento, fica-se sem perceber se o Bloco se quer juntar às “viúvas de Savimbi” na denúncia de ausência de democracia em Angola ou se pretende antes converter em valor absoluto o conceito de democracia representativa, tal como ele é entendido pelos guardiões da “ortodoxia ocidental”.
É bom que o Bloco se explique melhor, para ficarmos a saber se a legitimidade se esgota nos procedimentos, ou, visto o assunto ao contrário, se a liberdade de imprensa, de cuja falta o Bloco se queixa, está assegurada pela via da concentração dos meios de comunicação social e pelos “critérios jornalísticos” que apenas amplificam a voz de quem já a tem. E o mesmo se poderia dizer relativamente a direitos humanos, entendidos no sentido amplo que o conceito não pode deixar de ter
Acho que o Bloco com a acusação de “caricatura de democracia” se meteu num grande sarilho, pois, a menos que aceite a vigente como forma acabada de “governo do povo”, vai daqui para a frente ter muito que repudiar, muito que contestar, muito que auto-marginalizar-se, se quiser manter a coerência.
A defesa do estreitamento das relações com Angola e o diálogo com os seus dirigentes não deveriam ser qualificados pela esquerda como uma atitude oportunista, ou entendidos como uma espécie de pragmatismo sem princípios, mas antes como um facto normal, no quadro das relações internacionais. Pelo contrário, certas atitudes é que correm o risco de ser interpretadas como ressentimentos passados, ainda não superados pelo devir da história. A exigência em excesso relativamente a quem está ou esteve mais próximo é uma forma disfarçada de paternalismo.

A LIGA DOS CAMPEÕES

AH, LEÕES!

Depois da paupérrima presença do Benfica na fase de grupos da Taça UEFA, o Sporting, sempre em despique com o seu eterno rival, conseguiu bater mais um record, muito difícil de igualar nos tempos mais próximos.
É mesmo caso para perguntar se uma equipa que é eliminada, na alta-roda do futebol europeu, por 12 a 1, não deveria sofrer uma espécie de penalização que a impedisse de participar na prova por alguns anos…
Numa situação parecida ficou o Real Madrid, que só não foi derrotado por números semelhantes aos de Munique, porque tem na baliza um guarda-redes chamado Casillas.
De tudo o que foi visto, fica a extraordinária exibição do Liverpool, sem paralelo em competições a eliminar.

A DISCUSSÃO NA UE DA REDUÇÃO DO IVA E A LUSOPONTE



O QUE PORTUGAL PRETENDE

Os jornais têm noticiado que Portugal vetará na União Europeia um acordo sobre a redução do IVA em certas transacções comerciais se nele não for incluída (certamente em termos genéricos) uma redução para 5% da taxa de IVA aplicável às portagens cobradas para a travessia sobre o Tejo.
Ao que parece a União Europeia não estará pelos ajustes e Portugal, que já foi condenado pelo Tribunal de Justiça da UE, por cobrar naquelas travessias uma taxa inferior à devida, vai ter de repor, caso não consiga incluir aquela redução no acordo, a taxa de IVA normal, além de se arriscar a pagar pesadas multas por incumprimento da sentença.
Perguntar-se-á: o que é que o Estado Português perde com aplicação da taxa devida? Aparentemente nada, já que serão os utentes que terão de suportar um custo mais elevado pela travessia, pois, como será normal, a Lusoponte fará repercutir no preço da portagem o aumento do IVA. Digamos que somente o Governo nestes tempos de crise perderia…politicamente.
Isto é o que parece. A realidade, porém, é outra. O Estado Português perderia, e muito – o mesmo é dizer os contribuintes portugueses – porque em consequência das gravosas alterações ao modelo inicial da concessão, o Estado transferiu para si o risco resultante do aumento dos impostos (risco fiscal). E, portanto, se em vez da actual taxa de 5% passar a incidir sobre as portagens uma taxa de 20% quem suporta, por inteiro, a diferença é o Estado português.
Mas este é apenas um exemplo, já que a concessão à Lusoponte do exclusivo das travessias do Tejo, recheada, como está, de iniquidades bem difíceis de explicar, principalmente depois das alterações resultantes dos denominados “1.º acordo de reequilíbrio financeiro” e do “novo acordo global de 2000”, constitui o exemplo mais marcante do que são as parcerias público-privadas.

segunda-feira, 9 de março de 2009

E ESTA? AVIGDOR LIEBERMAN MINISTRO DOS ESTRANGEIROS DE ISRAEL

ISRAEL GOVERNADO PELA EXTREMA-DIREITA

E agora, o que vai fazer a Europa? E Obama, como vai agir? Tudo aponta para que o novo governo de Israel tenha Lieberman como Ministro dos Negócios Estrangeiros e que o turismo, segurança pública e infra-estruturas nacionais fiquem também nas mãos de gente de Israel Beiteinu.
Os trabalhistas sairão do governo e o Kadima também.
A vida não está mesmo nada fácil para Obama: em casa, os republicanos querem que os bancos e a General Motors vão para a falência; cá fora, na casa do “grande aliado”, é o que se vê.

PAÍS BASCO: O PSE-PP VAI MESMO FORMAR GOVERNO COM APOIO DO PP

ZAPATERO NA ENCRUZILHADA

O PSE-EE ganhou mais um deputado, ficando agora com 25, e pode dispensar o incómodo apoio de Rosa Diez, que, como se sabe, vem de uma cisão do PSOE, fundada num forte sentimento de nacionalismo espanhol.
Mesmo com 25 deputados, o PSE-EE será apenas o segundo partido mais votado, depois do PNV, com 30.
O PNV continua a resistir à formação de um governo PSE-EE, mas percebe-se que a resistência não é a mesma em todos os sectores do partido. Há sectores nacionalistas muito moderados no PNV, como parece ser o caso do seu presidente, Iñigo Urkullo, que embora mantenha um discurso de contestação à formação de um governo PSE-EE com apoio parlamentar do PP, dá alguns ténues sinais de poder vir, mais tarde, a atenuar aquela contestação.
De nada adianta o Secretário-geral do PSE-EE afirmar que o governo que formará com independentes não ficará refém de ninguém, porque toda a gente sabe que para ser empossado precisará do apoio efectivo do PP. E mesmo que o PP de imediato não exija mais do que a presidência da Câmara basca, certamente o fará mais tarde, para que possam passar no parlamento as iniciativas do governo. E, como forma de pressão, nem sequer necessita de se aliar negativamente com os seus arqui-inimigos; basta abster-se. Portanto, é falso que o PSE não fique refém de ninguém: Para governar tem de se entender agora ou mais tarde com o PP.
Quem fica numa encruzilhada, como já aqui referimos, é Zapatero. De imediato, vai perder o apoio nas Cortes do PNV e, muito provavelmente, do BNG, desfeita que está a aliança da Galiza, com a vitória do PP na região. Para governar, vai necessitar do apoio da CiU, que seguramente não lho venderá barato. Aliás, já nas próximas eleições europeias se verá o resultado desta política. Elas serão um teste à confiança que o Governo inspira em tempos de crise, sendo certo que nessa avaliação não deixará de pesar a “coligação” do Pais Basco, principalmente em regiões decisivas para o governo, como a Catalunha.
Aditamento a propósito: o editorialista do El País, a propósito do julgamento do oligarca russo Mikail Jodorkovski, diz hoje que Putin se serve de uma judicatura dócil para eliminar quem se lhe oponha. É caso para perguntar: E o que se passa no País Basco? Quem impede os partidos de se candidatarem às eleições? E com que fundamento? Um típico fundamento inquisitorial: ou seja, um fundamento baseado numa omissão, não em acções.

A CULTURA DESPORTIVA DAS "EMPRESAS DE EXCELÊNCIA"

ATÉ QUE ENFIM, A RTP PROTESTA!

Aqui está um exemplo de uma “cultura desportiva” que quase nunca vem a público, por medo, cobardia e outra razões semelhantes, mas que todos sabemos que existe.
O próprio treinador há umas semanas já havia advertido um jornalista para que não lhe fizesse certas perguntas. Como alguns jornalistas, incautos, ousam não obedecer, têm de entrar em campo argumentos mais convincentes.
Este é mais um episódio que o neoliberal do Eixo do Mal certamente tomará em conta para qualificar a “excelência” da empresa e para a exaltar as extraordinárias virtudes do Chefe!

domingo, 8 de março de 2009

SÓ DO LADO DO PS HÁ NOTÍCIAS PARA ANIMAR A MALTA

O QUE FAZ FALTA…É FALAR O MENOS POSSÍVEL

Só o PS anima a vida política nacional, ora como partido do governo (para isso lá está Santos Silva), ora como partido de militantes cautelosos em vésperas de eleições… Mas não só.
Há mais: o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, certamente com pouco trabalho no seu ministério, tanto em matéria de emprego, como de solidariedade social, resolveu tirar umas férias para coordenar o processo eleitoral socialista nas europeias, legislativas e autárquicas.
Lello, o fantástico Lello do Boavista, o Lello da nomeação de cônsules acima de qualquer suspeita, o Lello “provocado” na Geórgia, o Lello de Bush e da guerra-fria, acusa Alegre de falta de carácter.
No partido, os mais responsáveis acham que se trata de uma opinião, e como o PS é um partido democrático, cada um tem direito às suas.
Os outros, menos responsáveis, acham, em ano de eleições, que não devem pronunciar-se sobre o assunto. Não vá o diabo tecê-las…
Alegre, entretanto, é uma fonte inesgotável de interpretações para os comentadores, que já disseram quase tudo sobre o que Alegre pretende e não pretende fazer. E se Alegre não tivesse qualquer estratégia consistente? E se Sócrates, muito simplesmente, estivesse a deixar que Alegre avance num caminho de rumo incerto?

A "CANONIZAÇÃO" DE NUNO ÁLVARES PEREIRA NO PARLAMENTO

UM VOTO QUE NÃO COMPREENDO

Não, não estou a referir-me à proposta do CDS – O Portas faz o seu papel; também não me estou a referir ao PSD – se o PSD não existe, por que interrogá-lo; menos ainda ao PS – os anos e a muita experiência de PS antes (pouca, quase não existia) e depois (muita) do 25 de Abril levam-me a não me surpreender com nada que dali venha.
O que eu verdadeiramente não compreendo é que haja quem não vote contra! Por favor, “A luta de classes em Portugal nos fins da Idade Média, pags 105 e ss, Editorial Estampa”, já!

THE GUARDIAN TORNA PÚBLICO UM RELATÓRIO CONFIDENCIAL DA UE SOBRE ISRAEL

CONFIDENCIAL PORQUÊ?


O jornal britânico The Guardian teve acesso a um relatório confidencial da União Europeia sobre programas israelitas de expansão dos colonatos e ocupação ilegal de Jerusalém Oriental, além do mais baseados em políticas de habitação discriminatórias.
Para quem acompanha com alguma regularidade a situação política do Médio Oriente, nomeadamente a política de Israel relativamente à Palestina, não encontrará naquele relatório nada de novo. Toda a gente sabe que Israel conduz uma política de anexação dos territórios ocupados, pratica uma política racista e discriminatória face aos palestinianos e opõe-se firmemente à criação de um Estado palestiniano, tudo fazendo para o inviabilizar. E também toda a gente sabe que estas políticas são defendidas, posto que com matizes tácticos diferentes, por todas as forças políticas relevantes, desde os trabalhistas até à ultra direita laica ou ortodoxa.
O que não se percebe (ou melhor, infelizmente percebe-se) é por que razão aquele relatório era considerado confidencial pela União Europeia e, milagrosamente, deixou de o ser através de uma filtração para o Guardian.
A União Europeia continuando a actuar hipocritamente em matéria de direitos humanos e de legalidade internacional perderá, cada vez mais, a pouca influência que já tem no Médio Oriente, restando-lhe apenas o triste papel de ir pagando a factura que outros lhe vão apresentando para atenuar os efeitos mais dramáticos daquelas políticas.
Por outro lado, este espírito servil (em relação a Bush, guardando o relatório) e bajulador (em relação a Obama, publicando-o, depois das declarações de H. Clinton na Cisjordânia) com que a União Europeia actua - bem à imagem do seu alto representante, o inefável Solana – é altamente desprestigiante para quem faz da dignidade um valor!