DEBATE ENTRE O CANDIDATO COINTRA O ESTADO E O CANDIDATO À PROCURA DE UM GUIÃO
O DEBATE ENTRE O CANDIDATO CONTRA O ESTADO E O CANDIDATO À PROCURA
DE UM GUIÃO
Para começar convém dizer que o debate foi fraco sob vários pontos de vista, tanto do lado dos candidatos como do lado do perguntador - Vítor Gonçalves. Foi fraco, mas muito elucidativo. Vou-me focar no perfil dos candidatos, para se perceber o que poderíamos esperar de um e do outro, se um deles viesse a ser Presidente da República.
Comecemos pelo candidato oriundo
da Iniciativa Liberal. Como Presidente da República, Cotrim oscilaria entre ser
um inimigo do Estado ao serviço exclusivo do capital ou um Presidente da República
lacaio de potências estrangeiras com pretensões hegemónicas sobre o espaço geográfico
em que se situam.
Vamos primeiramente às questões
internas: Cotrim não só não tem qualquer oposição à privatização da TAP, como a
aconselha vivamente. O Estado não deve ser proprietário de empresas aéreas nem
os seus eventuais interesses sobre a manutenção de rotas ligadas a interesses
portugueses ficam prejudicados pela empresa ser privada. E dá exemplos, a Air
France não é do Estado Francês, a Lufthansa não é do Estado alemão, nem a
British Airways é do Estado Britânico, não deixando, por isso, que interesses
desses Estados deixem de ser defendidos.
Sem curar de saber se as
referidas companhias têm ou não participação dos respectivos Estados, o que
interessa é sublinhar é a argumentação usada por Cotrim, para de imediato se
perceber como é que ele encara a defesa de interesses portugueses no contexto
europeu. Cotrim entende que Portugal está no mesmo plano dos Estados acima citados
relativamente à acção das companhias aéreas oriundas desses Estados. Mas disse mais: para replicar a uma pequena
objecção sobre a defesa de certos interesses, Cotrim, do alto da sua arrogância,
esclareceu: Sim, o Estado tem obrigação de manter as ligações entre todo o
território nacional (referia-se às regiões autónomas insulares, como é óbvio)
ou a territórios onde vivam grandes comunidades portuguesas. Mas o Estado não precisa
de ser proprietário de nenhuma companhia de aviação para fazer a defesa desses
interesses. O Estado pode contratar com companhias estrangeiras a manutenção
dessas ligações. Ora, aí temos uma resposta de “mestre”.
Sobre aquilo a que
eufemisticamente se chama as “alterações ao código do trabalho”, eufemísticas
porque na realidade não é disso que se trata, mas da eliminação do “direito do
trabalho”, como categoria jurídica autónoma de natureza especial, Cotrim, com
excepção de duas das mais vergonhosas propostas “alteração”, concorda com tudo o que o
Governo se propõe aprovar, em nome da dinamização da economia, da modernização
das relações de trabalho, com vista ao crescimento da economia e pagamento de
melhores salários. Ou seja, Cotrim está de acordo com o regresso aos primórdios
da “Revolução Industrial”, eliminando do mundo jurídico todos os direitos
laborais, passando a ser a “força de trabalho” uma mercadoria como qualquer
outra sujeita, por um lado, às regras da oferta e da procura e por outro um contrato alheio
à disparidade do peso contratual de cada um dos contraentes. Ou seja, por este
andar até o pagamento de um salário necessário à reprodução da própria força de
trabalho ficaria em causa, se o fluxo migratório a garantisse mesmo que
descontinuadamente.
No plano internacional, Cotrim é
ainda mais categórico e mais evidente é ainda a altivez da sua profunda
ignorância. À pergunta de Gonçalves, sobre que decisão tomaria se a NATO exigisse
a Portugal o envio de tropas de manutenção de paz para a Ucrânia (ou seja, para
combater na guerra da Ucrânia), Cotrim foi ainda mais categórico: somos parte
de um acordo que nos impõe obrigações, se nos mandarem combater na Ucrânia
temos de o fazer, para que se um dia formos atacados também termos quem nos
defenda. (E diz-se por aí que Cotrim estudou em não sei quantos países e em não
sei quantas universidades…). Mas Cotrim não se ficou por aí, Cotrim foi mais
longe: “O que não faz sentido (cito de cor) é que haja países da União Europeia
que não são membros da Nato e países da Nato que não são membros da União Europeia”
(ou seja, algo que dificultaria a defesa europeia), como também não faz sentido
que o comandante das forças da NATO na Europa seja um americano. Tem de ser um
europeu.
Ora bem, com esta Cotrim deu-nos
uma grande lição de geopolítica, certamente aprendida numa dessas grandes
universidades por onde andou. Não vale a pena argumentar, basta perguntar: Faz
Cotrim alguma ideia do que é a Europa? Faz Cotrim alguma ideia do que seria a
NATO sem os americanos? Santa ignorância…
Quanto a Gouveia e Melo cabe
dizer fundamentalmente duas coisas. Primeira, Gouveia e Melo é manifestamente
um candidato à procura de um guião. Ele até talvez o tivesse, quando andou nas
vacinas, mas era muito curto e inexequível. Depois, ao contrário de Pirandello,
que arranjou saída para os seis personagens à procura de um autor, Gouveia e Melo
ainda não conseguiu consolidar um guião a partir das múltiplas propostas que
outros tantos autores lhe propõem.
Mesmo assim, Gouveia e Melo
esteve muito melhor do que Cotrim na questão das alterações à lei laboral,
defendendo o “mínimo ético” exigível, esteve igualmente muito melhor no que
respeita ao “papel do Estado na economia”, defendeu-se razoavelmente quanto ao
envio de tropas para a Ucrânia (depois de já ter dito, quando apenas tinha o
seu guião, que “se nos mandarem, vamos morrer pela Ucrânia”) e deixou positivamente
Cotrim de calças na mão quando em palavras simples lhe explicou o que seria a
Europa se os americanos saíssem da NATO.
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