sexta-feira, 21 de novembro de 2025

CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

 DEBATE ENTRE O CANDIDATO COINTRA O ESTADO E O CANDIDATO À PROCURA DE UM GUIÃO



O DEBATE ENTRE O CANDIDATO CONTRA O ESTADO E O CANDIDATO À PROCURA DE UM GUIÃO

Para começar convém dizer que o debate foi fraco sob vários pontos de vista, tanto do lado dos candidatos como do lado do perguntador - Vítor Gonçalves. Foi fraco, mas muito elucidativo. Vou-me focar no perfil dos candidatos, para se perceber o que poderíamos esperar de um e do outro, se um deles viesse a ser Presidente da República.

Comecemos pelo candidato oriundo da Iniciativa Liberal. Como Presidente da República, Cotrim oscilaria entre ser um inimigo do Estado ao serviço exclusivo do capital ou um Presidente da República lacaio de potências estrangeiras com pretensões hegemónicas sobre o espaço geográfico em que se situam.

Vamos primeiramente às questões internas: Cotrim não só não tem qualquer oposição à privatização da TAP, como a aconselha vivamente. O Estado não deve ser proprietário de empresas aéreas nem os seus eventuais interesses sobre a manutenção de rotas ligadas a interesses portugueses ficam prejudicados pela empresa ser privada. E dá exemplos, a Air France não é do Estado Francês, a Lufthansa não é do Estado alemão, nem a British Airways é do Estado Britânico, não deixando, por isso, que interesses desses Estados deixem de ser defendidos.

Sem curar de saber se as referidas companhias têm ou não participação dos respectivos Estados, o que interessa é sublinhar é a argumentação usada por Cotrim, para de imediato se perceber como é que ele encara a defesa de interesses portugueses no contexto europeu. Cotrim entende que Portugal está no mesmo plano dos Estados acima citados relativamente à acção das companhias aéreas oriundas desses Estados.  Mas disse mais: para replicar a uma pequena objecção sobre a defesa de certos interesses, Cotrim, do alto da sua arrogância, esclareceu: Sim, o Estado tem obrigação de manter as ligações entre todo o território nacional (referia-se às regiões autónomas insulares, como é óbvio) ou a territórios onde vivam grandes comunidades portuguesas. Mas o Estado não precisa de ser proprietário de nenhuma companhia de aviação para fazer a defesa desses interesses. O Estado pode contratar com companhias estrangeiras a manutenção dessas ligações. Ora, aí temos uma resposta de “mestre”.

Sobre aquilo a que eufemisticamente se chama as “alterações ao código do trabalho”, eufemísticas porque na realidade não é disso que se trata, mas da eliminação do “direito do trabalho”, como categoria jurídica autónoma de natureza especial, Cotrim, com excepção de duas das mais vergonhosas propostas “alteração”, concorda com tudo o que o Governo se propõe aprovar, em nome da dinamização da economia, da modernização das relações de trabalho, com vista ao crescimento da economia e pagamento de melhores salários. Ou seja, Cotrim está de acordo com o regresso aos primórdios da “Revolução Industrial”, eliminando do mundo jurídico todos os direitos laborais, passando a ser a “força de trabalho” uma mercadoria como qualquer outra sujeita, por um lado, às regras da oferta e da procura e por outro um contrato alheio à disparidade do peso contratual de cada um dos contraentes. Ou seja, por este andar até o pagamento de um salário necessário à reprodução da própria força de trabalho ficaria em causa, se o fluxo migratório a garantisse mesmo que descontinuadamente.

No plano internacional, Cotrim é ainda mais categórico e mais evidente é ainda a altivez da sua profunda ignorância. À pergunta de Gonçalves, sobre que decisão tomaria se a NATO exigisse a Portugal o envio de tropas de manutenção de paz para a Ucrânia (ou seja, para combater na guerra da Ucrânia), Cotrim foi ainda mais categórico: somos parte de um acordo que nos impõe obrigações, se nos mandarem combater na Ucrânia temos de o fazer, para que se um dia formos atacados também termos quem nos defenda. (E diz-se por aí que Cotrim estudou em não sei quantos países e em não sei quantas universidades…). Mas Cotrim não se ficou por aí, Cotrim foi mais longe: “O que não faz sentido (cito de cor) é que haja países da União Europeia que não são membros da Nato e países da Nato que não são membros da União Europeia” (ou seja, algo que dificultaria a defesa europeia), como também não faz sentido que o comandante das forças da NATO na Europa seja um americano. Tem de ser um europeu.

Ora bem, com esta Cotrim deu-nos uma grande lição de geopolítica, certamente aprendida numa dessas grandes universidades por onde andou. Não vale a pena argumentar, basta perguntar: Faz Cotrim alguma ideia do que é a Europa? Faz Cotrim alguma ideia do que seria a NATO sem os americanos? Santa ignorância…

Quanto a Gouveia e Melo cabe dizer fundamentalmente duas coisas. Primeira, Gouveia e Melo é manifestamente um candidato à procura de um guião. Ele até talvez o tivesse, quando andou nas vacinas, mas era muito curto e inexequível. Depois, ao contrário de Pirandello, que arranjou saída para os seis personagens à procura de um autor, Gouveia e Melo ainda não conseguiu consolidar um guião a partir das múltiplas propostas que outros tantos autores lhe propõem.

Mesmo assim, Gouveia e Melo esteve muito melhor do que Cotrim na questão das alterações à lei laboral, defendendo o “mínimo ético” exigível, esteve igualmente muito melhor no que respeita ao “papel do Estado na economia”, defendeu-se razoavelmente quanto ao envio de tropas para a Ucrânia (depois de já ter dito, quando apenas tinha o seu guião, que “se nos mandarem, vamos morrer pela Ucrânia”) e deixou positivamente Cotrim de calças na mão quando em palavras simples lhe explicou o que seria a Europa se os americanos saíssem da NATO.


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