Translate

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

GUINÉ EQUATORIAL – CPLP


 

 
 
AS COMPLEXIDADES DA POLÍTICA
 
Não estou muito interessado em entrar no debate sobre a adesão da Guiné Equatorial à CPLP exactamente por se tratar de um tema que não me entusiasma, embora haja questões relacionadas com essa adesão que são da maior actualidade.
Um dos pilares fundamentais do neoconservadorismo é o de que a situação interna de cada país deixou de ser uma questão exclusivamente interna desse Estado, coberta pelo princípio da não ingerência (dos outros Estados) – princípio consolidado no Direito Internacional Público saído da II Guerra Mundial, como resposta aos desmandos que as intervenções para defesa de um direito ou baseadas em razões humanitárias haviam causado por toda a parte (basta recordar as anexações ou conquistas da Alemanha nazi (sudetas) e da Itália fascista (Etiópia), mas não só , também as intervenções do Império britânico no Império Otomano, na Rússia bolchevista, etc, etc,) - para se tornar um assunto  que diz respeito a todos (leia-se aos mais fortes).
 
A ideia é esta: a forma como um Estado se comporta internamente é um indício seguro do modo como ele se comportará internacionalmente. Logo, se ele é perigoso para os seus cidadãos também será perigoso para a paz mundial. É preciso, portanto, combatê-lo e se possível derrubá-lo, inclusive pela força…se houver força para tanto.
E foi assim que os americanos, sob a capa da NATO, na presidência Clinton, intervieram na Jugoslávia (ao tempo ainda assim chamada) e mais tarde, com Bush, no Iraque.
Contrariamente ao que muitos supõem esta ideia penetrou profundamente as hostes de certa esquerda um pouco por todo o lado e não apenas em Portugal. Basta ouvir falar Ana Gomes, Daniel Oliveira ou Louçã (para citar apenas os que têm mais protagonismo mediático) para rapidamente se depreender que eles estão proselitamente (não sei se o advérbio existe…) dispostos a defender os “direitos humanos” onde quer que eles estejam ameaçados segundo o seu douto juízo. A Ana Gomes faz apelos directos a intervenções (todas, obviamente, com fins humanitários, como a da Líbia, por exemplo) enquanto os outros dois, provavelmente por falta de meios bélicos adequados, se limitam a votar ao ostracismo os prevaricadores.
Este ponto de vista é perigoso. É sempre perigoso sucumbir politicamente à hegemonia ideológica do inimigo ou do adversário, quaisquer que sejam as roupagens que ela enverga. Por detrás dessas roupagens está sempre presente uma enorme hipocrisia (drones, Israel, fascistas da Ucrânia….).
Por isso, entre combater a NATO por ter assumido sem disfarces a sua natureza belicista e expansionista ou combatê-la por o seu principal membro condenar internamente à morte, em cada ano, várias dezenas de cidadãos não parece que deva haver dúvidas sobre o caminho a seguir.
O Estado, qualquer Estado, deve pautar a sua conduta por critérios políticos. O modo como faz o equilíbrio entre os critérios de acção política e os padrões éticos depende da correlação de forças internacional e do juízo que os seus próprios cidadãos façam desses critérios. E leva tempo até que os povos realmente se emancipem. As “ajudas” que vêm de fora, nomeadamente as institucionais, desajudam mais do que auxiliam. E são sempre ditadas pelo interesse de quem ajuda…
 
Nota explicativaEsta ausência de quase dois meses não se deveu a nada de especial. Apenas uma enorme falta de vontade em grande parte ditada por entender que nada de novo tinha para dizer…o que, de resto, se confirma. Não obstante, agradeço aos leitores que mantiveram a consulta do blogue.


sexta-feira, 30 de Maio de 2014

AINDA OS RESULTADOS ELEITORAIS: A VOTAÇÃO DO BLOCO DE ESQUERDA


 

A CRISE DA AMBIGUIDADE

 

O Bloco de Esquerda está em queda desde as últimas legislativas. O resultado das eleições europeias de domingo consolida essa tendência e deixa fundadas dúvidas sobre o próprio futuro do partido, sabendo-se, como se sabe, que ele assenta num compromisso teórico frágil entre as diversas componentes que o formam e que vinham tendo nos resultados eleitorais em ascensão o seu principal elo aglutinador. 

O Bloco apresentou-se pela primeira vez a eleições legislativas em 1999, tendo obtido 2,44% dos votos e 2 mandatos. Depois, foi subindo gradualmente até 2005, obtendo 2,74% e 2 mandatos nas eleições de 2002 e 6,35% e 8 mandatos nas de 2005. Em 2009 obteve a sua máxima expressão eleitoral – 9,82% e 16 mandatos, suplantando a própria CDU em número de deputados (15) e em votos (7,86%). Em 2011 perdeu metade dos deputados e um pouco menos que metade dos votos. Desde então o Bloco não vem dando de sinais de recuperação nas eleições entretanto realizadas (autárquicas e europeias), havendo, pelo contrário, fundadas razões para supor que entrou num declínio difícil de estancar.

Muitos têm falado num certo radicalismo verbal pouco construtivo (leia-se: susceptível de se entender com o PS) como causa desse declínio tendo em consequência dessa análise alguns militantes conhecidos abandonado o partido nestes últimos três anos. A verdade porém é que foi durante a maioria absoluta de José Sócrates que o partido mais se radicalizou nos ataques ao PS e…simultaneamente mais cresceu. Isto não significa que haja uma relação de causa e efeito entre os dois fenómenos. De facto, não é legítimo afirmar nem uma causa nem outra. A perda da influência eleitoral do Bloco parece antes resultar de outros factores.

Mas antes de analisar essas causas talvez seja conveniente sublinhar que um simples resultado eleitoral, como o verificado em 2009, não chega para afirmar uma tendência. É certo que o Bloco está perdendo influência eleitoral, mas para tirar esta conclusão não há que partir da experiência de 2009 que é uma situação verdadeiramente excepcional e que tem as suas causas no modo como o PS conduziu a governação durante a maioria absoluta e como o próprio eleitorado do PS reagiu a essa governação. E se há razões para explicar a subida vertiginosa do Bloco nas eleições de 2009 também há explicações muito plausíveis para justificar essa “incapacidade” de o Bloco não ter sabido consolidar essa votação. A análise que neste blog foi feita logo a seguir  às eleições de 2011 continua, três anos volvidos, a parecer-nos convincente.

Mas uma coisa é a queda do Bloco para números mais condizentes com a sua real capacidade eleitoral, outra bem diferente é o Bloco estar a desperdiçar aquilo que bem poderia ser a sua real influência eleitoral. Independentemente dessa incapacidade de consolidar os resultados de 2009 -  em grande parte justificada pelo retorno dos votos ao local donde tinham saído, numa conjuntura em que esse partido mais deles precisava para obstar à perda previsível de uma parte considerável dos votos do centro (com que se forjou aquela maioria absoluta) e a consequente entrega do poder à direita (como veio a acontecer) -, há obviamente outras razões que explicam o declínio eleitoral do Bloco.

O Bloco está sofrendo as consequências, por um lado, de ter assentado o seu espaço de intervenção num conjunto de causas que uma vez satisfeitas ou absorvidas por outras forças políticas mais significativas lhe reduziram consideravelmente a margem de mobilização eleitoral, e, por outro, por ter uma posição ambígua quanto à questão fundamental da política portuguesa – a União Europeia.

O Bloco é europeísta, por conversão ou por convicção, consoante a proveniência dos seus fundadores, provavelmente por táctica, acredita ou acreditou que as grandes objectivos sociais por que luta, sejam eles de natureza económica ou não, resultariam da luta conjunta dos “povos europeus” (uma ficção…), devendo, por isso, manter-se fielmente ligado ao ideário comunitário naquilo que ele tem de mais significativo – as “três liberdades” e o euro -, não obstante poder discordar dos fundamentos jurídico-políticos em que assentam algumas das manifestações daquele ideário. Todavia, à medida que a política comunitária se foi tornando a tradução prática da “constitucionalização” dos princípios político-jurídicos entretanto operada pelas forças sociais-democratas e conservadoras, o Bloco foi tendo cada mais dificuldade na afirmação das suas posições relativamente à União Europeia. 

Acérrimo defensor do euro, na esteira de Louçã, o Bloco contesta o Tratado Orçamental e as políticas do Banco Central Europeu, preconizando para Portugal uma política relativamente a estas matérias totalmente incompatível com os princípios fundadores da moeda única e do BCE. A rejeição radical da austeridade e das políticas da Troika, nomeadamente depois da crise da dívida, são incompatíveis com a defesa do euro tal como ele foi criado e depois “constitucionalizado”. O Bloco nunca foi sequer capaz politicamente de fazer uma análise que imputasse ao euro e às suas regras a causa do endividamento, que mais não é do que a consequência da profunda assimetria que o euro criou entre os países do centro da Europa, nomeadamente a Alemanha, e os da periferia.

Por esta razão, as suas posições são ainda mais inconsequentes do que as do próprio PS na medida em que todas elas assentam no pressuposto de que pode haver mudanças radicais unilateralmente impostas mantendo-se simultaneamente o país no seio da União Europeia e da moeda única. É óbvio que o Bloco tem consciência desta sua incongruência e das limitações da sua política, mas mantem-se apegado a elas porque acredita que uma política levada ao limite da chantagem sobre a própria União Europeia a fará ceder para evitar consequências imprevisíveis.

Se esta política ainda poderia ser defendida (com um plano B bem gizado e pronto a entrar em acção) quando a crise do euro atingia o seu auge – ou seja, quando a situação na Grécia parecia social e financeiramente catastrófica e as suas repercussões em Portugal, em Espanha e em Itália perigosamente imprevisíveis – ela deixou de ser viável, sequer como ensaio, a partir do momento em que o Banco Central Europeu passou a comprar sem limitação títulos da dívida pública dos Estados para amortecer( até ver...) os efeitos mais catastróficos da moeda única. Essa a razão por que o Bloco, sempre por intermédio de Louçã, foi mudando gradualmente de posição relativamente à União Europeia e ao euro começando a focar todo o peso da sua intervenção, depois da relativa normalização dos juros, na questão da reestruturação da dívida. Mas mesmo sob este prisma a posição do Bloco continua ambígua: por um lado, Louçã subscreve o Manifesto dos 74 (que é ainda um “Manifesto de regime”) e, por outro, vai adiantando propostas de renegociação que passam pelo repúdio de parte da dívida (a dívida ilegítima) e de moratórias, em última instância, unilaterais que manifestamente contendem com a presença de Portugal no Euro, o que, como não poderia deixar de ser, leva Louçã, reticentemente, a admitir que nesse quadro se pode vir a pôr a continuidade do pais na moeda única, seja por decisão própria ou alheia.

Ora bem, tudo isto é muito complicado para um eleitor que quer acima de tudo propostas claras e ter simultaneamente o convencimento de que elas são politicamente exequíveis. E isso o Bloco não foi capaz de apresentar nas eleições europeias. Por outras palavras, dado o futuro previsível de Portugal nos próximos anos, para não dizer das próximas duas décadas , ou o Bloco torna claro a sua posição sobre o euro e sobre a dívida ou estará condenado ao declínio.

terça-feira, 27 de Maio de 2014

O PS DEPOIS DAS ELEIÇÕES EUROPEIAS


 

A CRISE DA SOCIAL DEMOCRACIA

 

A noite eleitoral de domingo passado começou com uma fantasiosa declaração de Francisco Assis, cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu, sobre os resultados eleitorais. Mais do que a incapacidade interpretativa de simples dados aritméticos o que a declaração de Assis verdadeiramente significa é a sua incapacidade para compreender o que realmente se está a passar relativamente à Europa tanto na sociedade portuguesa como na europeia, em geral, com especial destaque para o eleitorado dos países em crise.

Já a declaração de Seguro, cerca de duas horas mais tarde, proferida numa altura em que os dados oficiais já eram conhecidos nos seus contornos essenciais e a sua interpretação não deixava lugar a dúvidas, deve ser entendida como uma mensagem de tranquilidade dirigida ao aparelho do PS: “Ganhamos e daqui ninguém nos vai tirar”.

Qualquer que seja o futuro próximo da conjuntura política portuguesa – desagregação da coligação no poder em consequência da redução do CDS à mínima expressão eleitoral; substituição de Seguro na chefia do PS (possível mas pouco provável), eleições antecipadas ou não -, o que se perfila no horizonte político é uma coligação do PS com as forças europeístas da direita e do centro direita com vista a garantir a “estabilidade da governação” em Portugal, esteja quem estiver à frente do partido.

Por mais que no PS se comece a discutir os resultados eleitorais e se acentue a sensação de que, afinal, não houve qualquer vitória, o futuro do partido – e o mesmo acontece ou vai acontecer na Europa aos partidos congéneres – é uma acentuada viragem à direita destinada a garantir o cumprimento do Tratado Orçamental, acabando esta estratégia por contribuir para a completa descaracterização dos partidos sociais-democratas ou até mesmo, em alguns casos, para a sua extinção, e porventura para a desagregação da própria Europa que jamais poderá subsistir num clima de crescente desigualdade na distribuição dos rendimentos quer entre os países que a compõem quer no interior de cada país.

No PS português os dados estão lançados e são perfeitamente compreensíveis por qualquer observador minimamente atento. As traves mestras da estratégia do PS assentam numa retórica impossível de levar à prática pelos seus próprios meios. De facto, apontar para a Europa que hoje existe como factor de transformação da política portuguesa constitui uma mistificação em que nem o mais ingénuo dos portugueses pode acreditar. Hoje, toda a gente sabe isso, não há qualquer hipótese de pôr em prática no plano europeu uma política conjunturalmente diferente da que vem sendo seguida desde Maastricht e que se consolidou com os tratados e acordos intergovernamentais subsequentes. Na União Europeia tudo o que é importante está “constitucionalizado”. E as forças dominantes da Europa, integrem-se elas nos partidos sociais-democratas ou conservadores, estão em completa sintonia com as bases fundamentais dessa política, procurando apenas algumas delas no puro plano retórico sugerir a ideia de que é possível limar algumas das arestas mais agrestes dessa política sem pôr em causa o edifício que as suporta.

Pura fantasia! Em Portugal está à vista o que vai acontecer. O PS, se Seguro permanecer à frente do partido, vai continuar a fazer uma política semelhante à que foi feita nestes últimos três anos, porventura com mais radicalismo verbal, mas sem questionar nada do que é verdadeiramente essencial. O mais provável – mas não certo – é quer ganhe as eleições legislativas por escassa margem e acabe por fazer com o PSD, muito provavelmente o PSD de Passos Coelho, uma coligação governamental com as consequência acima assinaladas. A outra hipótese, pouco provável, é que Costa (principalmente depois de saber que Guterres é hipótese para as presidenciais) ou César assumam a chefia do partido e tentem liderar um bloco social constituído pelas forças representativas do “Manifesto dos 74” com vista a alcançar uma maioria absoluta nas legislativas de 2015 que os dispense de uma aliança ostensiva com o PSD. Mas também neste caso o PS caminhará inexoravelmente para um destino idêntico ao do PS francês ou do PASOK já que as políticas que será obrigado a pôr em prática rapidamente conduzirão à desagregação desse “bloco” e à própria desagregação do Governo.

Sem pôr em causa os actuais fundamentos da União Europeia – e pôr em causa significa romper, se necessário – os partidos socialistas e sociais-democratas da Europa não têm qualquer futuro como partidos de esquerda. O seu futuro será o de servirem de muleta às políticas “constitucionalizadas” pela União Europeia que são políticas – é bom não esquecê-lo – cujas bases fundamentais foram institucionalizadas por esses mesmos partidos do mesmo modo que nos Estados Unidos essas mesmas políticas tiveram um impulso decisivo sob a governação Clinton.

Em conclusão, a crise da social-democracia não é de agora nem pode já ser evitada sem profundas rupturas que nenhum desses partidos hoje defende. Ela resulta da destruição do “Pacto Social” e do papel desempenhado nessa destruição, desde há trinta anos e mais acentuadamente desde a década de noventa do século passado, pelos próprios partidos socialistas, trabalhistas e sociais-democratas, que com a sua actuação abriram as portas às políticas hoje vigentes em todos os países capitalistas desenvolvidos. A profunda desigualdade hoje existente nas sociedades ocidentais economicamente desenvolvidas é a consequência evidente da destruição daquele “Pacto” laboriosamente construído entre a Grande Depressão, mais abrangentemente depois da II Guerra Mundial, e o primeiro choque petrolífero. E a destruição desse pacto social, no qual as forças “socialistas” colaboram, alicerça-se na expulsão da democracia de amplos domínios da vida política, nomeadamente na maior parte das matérias de natureza económico-financeira, bem como daquelas em que estas mais intensamente se repercutem, como a saúde, o ensino e a segurança social.

Portanto, e em conclusão, a “vitória” do PS (31,45%) nas eleições de domingo passado não constitui uma fragilidade de Seguro da mesma forma que os resultados eleitorais dos partidos socialistas francês, espanhol e grego não representam uma fragilidade de quem os lidera, mas eles são antes antes o resultado da interiorização que por toda a Europa os eleitores sociais-democratas fazem hoje dos partidos que os representam, ou seja, de partidos que claudicaram na defesa desses interesses para abertamente se colocarem ao lado dos interesses do grande capital, nomeadamente do capital financeiro, com base na desculpa mil vezes repetida de que não há alternativa viável às politicas dominantes. Por outras palavras, o resultado eleitoral do PS mais não é do que antevisão da sanção, ainda mais contundente, que o eleitorado lhe irá infligir quando as suas políticas começarem efectivamente a ser postas em prática.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

NOTAS MUITO SOLTAS


 

A POUCOS DIAS DOS 40 ANOS
 

 

Mota Soares – O jovem Ministro do CDS continua implacável na sua luta contra o Rendimento Social de Inserção – tolerância zero. Com Mota Soares no Governo todos podemos estar seguros de que não será com o dinheiro do seu Ministério que os abastados moradores do Bairro das Fontainhas, da Quinta Grande ou da Boavista irão comprar um palacete na Lapa. 

Paulo Portas – O irrevogável Paulo Portas, homem de assertivas palavras e de muitas feiras, nos intervalos em que não viaja, está empenhado numa reforma do Estado cujos contornos só ele conhece. Fora esta ingente tarefa, vai emulando com a “Múmia das Necessidades” sobre quem sabe fazer melhor a diplomacia económica, principalmente a que vende combustíveis refinados em Sines. Despojado de ministério e dos seus afazeres quotidianos, liberto, enfim, das funções de negociador privilegiado da Troika, Portas pode finalmente dedicar-se a tempo inteiro às duas grandes tarefas que o fizeram ouvir o “apelo pátrio” imperativamente sussurrado pelos seus colegas de partido nas horas críticas da vida do CDS – viajar e negociar o que outros já decidiram.

Emigração – Saiu há dias um livro – A ditadura de Salazar e a Emigração – de Victor Pereira que deixa muito mal tratada a Embaixada de Portugal em Paris pelo inexcedível zelo com que um conhecido Embaixador da década de sessenta do século passado, fiel servidor de Salazar, se dedicava à colaboração com a PIDE em tudo quanto pudesse dizer respeito à nefasta influência que sindicatos e partidos pudessem vir a ter sobre o desgraçado trabalhador português do bidonville. Mais zeloso e empenhado do que Salazar ou até a própria PIDE, cujas propostas de maior envolvência politica junto da emigração portuguesa deixara frequentemente cair por não se justificarem face à situação existente, o Embaixador nos muitos anos em que esteve em posto em Paris nem por um minuto esqueceu a função repressiva que considerava intrinsecamente ligada às funções (diplomáticas) que desempenhava. Importante também conhecer o papel do adido Militar que funcionava relativamente à PIDE como um verdadeiro oficial de ligação. 

Inconseguimento – Chega a ser deprimente o papel a que se prestam altas figuras do Estado quando resolvem exibir-se na comunicação social com gestos e expressões corporais condizentes com as atabalhoadas e descabidas palavras de que se servem para dar conta aos portugueses dos seus pensamentos mais profundos. Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, é quem mais vezes incorre nesse triste papel quer quando faz gala de uma cultura possidónia citando a despropósito as reflexões de pensadores que sofreram a barbárie nazi para registar o desagrado que lhe causa um pequeno reboliço ocorrido nas galerias, quer quando responde em estilo varina sem praça ao propósito manifestado pelos Capitães da Abril para usarem da palavra nas comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril.

Durão Barroso – Habituado a servir, Barroso ainda não tem bem compreendido o perfil que Passos genericamente traçou para afastar Marcelo da candidatura à Presidência da República apoiada pelo PSD – caberá nele, não caberá? Nada melhor para nele se ajustar do que promover uma ridícula sessão de propaganda eleitoral a cargo da Comissão Europeia tendo o PSD e o seu Governo como alvos privilegiados dos elogios, acolitada por Cavaco, em pose de Homem de Estado e de “cliente” do BPN nas lucrativas horas mortas, com elogios a quem vinha elogiar num círculo gravitacional onde todos rodam para intentarem manter-se unidos na defesa de interesses recíprocos. Aliás, Barroso, nesse afã de afastar qualquer suspeita ou ligação a nomes grandes do PSD – ainda à solta – a que ele sempre soube dar o lugar merecido e prestar as honras devidas enquanto chefe do partido e de Governo, lançou de imediato sobre Constâncio as responsabilidades pelo acontecido não vá alguém lembrar-se mais tarde de que foi durante o seu curto mandato de PM que foram cometidas as vigarices mais gravosas do BPN. Mas não bastava limpar o caminho percorrido no passado, era também necessário demonstrar relativamente ao futuro igual afã, agora destinado a agradar os extremismos neoliberais de Passos. E assim logo tratou de elogiar a excelência do ensino anterior ao 25 de Abril, elitista e acessível apenas a um pequeno número, abrindo caminho à tarefa que Passos tem pela frente de destruição e desacreditação do ensino público. É assim a vida de um político português em plena maturidade…

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

HÁ QUARENTA ANOS E HOJE


 

BREVES REFLEXÕES

 

Quase quarenta anos depois já muitos têm dúvidas sobre qual o maior pesadelo – se o que se vivia no estertor do marcelismo, se o que se vive agora sob dominação estrangeira com regentes fielmente caninos na defesa de interesses alheios a que está associada uma pequena mas poderosa minoria de portugueses de natureza oligárquica.

Não interessa entrar em comparações simplistas. São tempos diferentes perante os quais as pessoas se posicionam de forma diferente, sendo, portanto, também muito diferentes as respostas que ontem se deram ou as que hoje se esperam.

No marcelismo, tendo-se mantido praticamente intacta a grande herança do salazarismo no essencial consubstanciada na ausência de liberdade política, nas suas múltiplas manifestações e principais consequências (obscurantismo, censura, prisão, tortura), numa guerra colonial sem saída, mas também numa concepção de independência nacional que não facilitava as ingerências externas, tudo se tornava mais simples relativamente à concepção do futuro, embora extremamente difícil na sua execução. Um golpe de estado bem-sucedido, acompanhado ou não de grandes manifestações populares, restauraria as liberdades públicas, negociaria a transferência de soberania sobre as colónias segundo os princípios aceites e assentes pelo direito internacional e permitiria uma reorganização política e económica do país com vista às profundas alterações sociais por que a generalidade da população ansiava. Difícil era executar com êxito, não conceber…

Hoje, quarenta anos depois, apesar de as liberdades públicas serem vividas sem aparentes constrangimentos, tudo parece mais sombrio e de mais difícil realização, quer para quem defenda uma transformação não institucional do regime, quer para quem continue a acreditar que é possível alterar as coisas no quadro institucional existente. De facto, tanto num caso como noutro, o país debate-se com problemas que há quarenta anos se não punham ou se não punham com a mesma intensidade com que hoje se colocam. Desde logo a questão da legitimidade: ninguém há quarenta anos aceitava a legitimidade do poder, nem os que nele estavam instalados, nem os que a ele se opunham. Os primeiros não a reconheciam como algo distinto da força, já que era recorrendo à força com a intensidade justificada por cada situação que o regime se mantinha. E, obviamente, não reconheciam legitimidade aqueles que a esse poder se opunham, por também eles saberem, por experiência própria, que somente o uso ilegítimo e arbitrário da força mantinha o regime e permitia o exercício do poder aos que nele estavam instalados.

Hoje, política e filosoficamente, a questão da legitimidade do poder não se põe para a generalidade das pessoas de modo a justificar uma acção insurreccional ou mesmo uma ruptura profunda ainda que permitida pelo quadro institucional existente. Podem os titulares do poder mentir e enganar descaradamente os portugueses, como de resto fizeram para chegar ao poder os que agora lá estão ou para nele se manter, como continuam a fazer; podem os titulares do poder espoliar, de bens e direitos, a grande massa anónima de portugueses, constituída por reformados, funcionários públicos e trabalhadores em geral, para assegurar vultosas transferências regulares de capitais para os credores nacionais e estrangeiros para pagamento de créditos concedidos no interesse do capital, principalmente do capital financeiro e do ligado às grandes obras públicas, que nem por isso a generalidade dos portugueses aceita como plausível uma saída insurreccional ou a dita ruptura com a política vigente por continuar a supor que, pela via da alternância política democraticamente fundada, acabará com o tempo por se encontrar uma saída para a crise nem que seja faseada e relativamente demorada.

Por outro lado, contrariamente ao que se passava há quarenta anos, o país vive hoje, sob a ficção da interdependência, uma ausência de soberania na maior parte dos domínios relevantes da vida política nacional que a adesão à União Europeia e depois à moeda única agravaram substancialmente. Mas também neste plano a convicção de que se trata de uma solução transitória, superável com mais ou menos esforço, maior ou menor perícia, torna particularmente difícil a busca e a adesão a uma política verdadeiramente alternativa pelo receio das consequências sociais e económicas que um corte abrupto com o passado possa provocar.

Em conclusão, hoje, apesar das liberdades e deste arremedo de democracia regularmente exercitado pela via da escolha entre propostas inalteráveis e em cuja formulação os eleitores não intervêm, os portugueses, quarenta anos depois do 25 de Abril, são muito mais conservadores e muito menos corajosos que os de há quarenta anos. Por isso, hoje, Portugal é um país sem esperança que caminha em decadência constante para a sua irrelevância, enquanto há quarenta anos era um país que se queria libertar da guerra e da ditadura e que encarava a democracia como o advento de uma nova era em cuja construção todos queriam participar.

Ontem, o futuro para quem abandonava Peniche ou Caxias era promissor e estava ali ao virar da esquina; hoje, o futuro – e não apenas para os desempregados - só existe como triste e degradante continuação do presente.

Por isso: comemorar o quê? Apenas a coragem dos que abriram novos caminhos que outros não souberam percorrer e alargar. Aqueles fizeram a parte deles, mas há quem continue com a sua por cumprir.

 

sexta-feira, 28 de Março de 2014

BLOCO INTERPELA GOVERNO



TRÊS NOTAS

 

Três notas sobre a interpelação, desta manhã, do Bloco de Esquerda ao Governo.

Primeira - A jornalista da SIC que acompanha os trabalhos parlamentares passou todo o seu tempo de antena a lamentar que os partidos da oposição não tivessem interpelado Paulo Portas (a quem hoje competia responder pelo Governo) sobre o episódio de ontem do Secretário de Estado da Administração Pública relativo aos cortes permanentes das pensões. Portas, mesmo sem ser interpelado, bem tentou falar do caso, dizendo que foi um tremendo erro político, mas praticamente não obteve resposta.
É óbvio que os partidos da oposição não iam dar de bandeja ao Governo a possibilidade de se defender por via de um seu representante que aparentemente estava “fora da jogada”. Quem a oposição tem de interpelar é a Ministra das Finanças e Passos Coelho, já que foram eles que urdiram a trama que o Secretário de Estado, Leite Martins, começou a pôr em prática segundo as orientações recebidas. Por isso é que será politicamente um erro chamar Leite Martins, que em seguida terá de se demitir, deixando limpa a “honra” de quem lhe encomendou o serviço.

Segunda – Foi interessante ouvir Miguel Frasquilho a reproduzir as teses de Cavaco sobre o pós-Troika. Ou seja, que os credores ficam por cá a mandar até que 75% da dívida esteja paga, deitando assim por terra os esforços de Paulo Portas que, durante todo o tempo de que dispôs antes de Frasquilho falar, tentou fazer crer que nada disso se passaria. Que acabaria em Maio, como ele diz, o “fim do protectorado”.

Terceira – Fazenda, que, da bancada, fez a última intervenção do Bloco, distanciou-se claramente das teses de Louçã quanto ao euro, admitindo a saída de Portugal da moeda única. O que quer isto dizer: que Fazenda já é uma voz isolada no Bloco ou que no Bloco já há quem afronte publicamente as teses de Louçã?

quarta-feira, 26 de Março de 2014

VOLTANDO À UCRÂNIA


 

QUE FUTURO?

Torna-se cada vez mais evidente aos olhos das pessoas informadas, que não se deixam intoxicar pela poderosa imprensa ocidental, que quem manda em Kiev e por extensão em parte da Ucrânia são as milícias fascistas e nazis do Svoboda e do Pravy Sektor com a cumplicidade dos corruptos de Iulia Timochenko.

São estes os aliados do Ocidente: dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra e da Alemanha para citar apenas os que realmente contam. Que a Alemanha esteja do lado dos que governam a Ucrânia, nada a estranhar, porque com Hitler ou sem Hitler os aliados naturais da Alemanha são os mesmos desde há muito: croatas, eslovacos, austríacos, húngaros, letões, ucranianos do ocidente e os finlandeses (se os deixassem). Mas que aqueles que no Ocidente lutaram contra o nazismo, nomeadamente a Inglaterra e os Estados Unidos, já que a França saiu estranhamente vitoriosa de uma guerra que perdeu por duas vezes, estejam hoje do lado dos aliados de Hitler não deixa de ser uma ignomínia para os milhões de soldados que por eles combateram e lutaram gloriosamente e não deixa de ser também a evidência do estado de degradação moral a que desceu o capitalismo que tudo sacrifica ao lucro e à ganância.

Que a “geração neoconservadora” americana, a que Obama também pertence, por mais que se pense o contrário, e a que antes dele já outros altos responsáveis pertenceram, como Bush e a sua gente, os Clinton e Reagan, não compreenda a complexidade da situação europeia, da sua geopolítica, da sua história e das gravíssimas consequências que decorrem dos passos errados que se dêem na Europa, é grave, mas era esperado. Mas já não era de esperar que a Inglaterra, apesar das nefastas reformas introduzidas na educação por esse coveiro do trabalhismo britânico, que foi Tony Blair, também não compreenda e alinhe cegamente com as máximas do capitalismo neoliberal de cariz neoconservador no cerco à Rússia, bem como a França, principalmente a direita francesa, já que os socialistas sempre foram um pau-mandado de Washington e tanto mais quanto mais frouxa e inepta for a sua direcção, como é actualmente o caso, alinhe igualmente neste desvario europeu manobrado pela Alemanha, é de uma gravidade extrema que prenuncia não apenas o fim da União Europeia – o que em si, tal como as coisas estão, até poderia não ser mau – mas principalmente a futura e muito próxima irrelevância política desses dois países na condução da política europeia.

É exactamente tendo por referência um quadro que não andará muito longe deste que a Rússia irá actuar no futuro próximo. A Rússia já percebeu - e quem não perceberia no lugar dela – que a sua integração no espaço europeu e por extensão no espaço ocidental só poderia ter lugar como súbdito, nunca como par. Como súbdito militarmente cercado e economicamente diminuído. E isso a Rússia não vai aceitar certamente. A ofensiva ocidental na Ucrânia irresponsavelmente conduzida pela União Europeia e logo secundada pelo neoconservadorismo americano (que hoje domina praticamente toda a classe política), que não teve pejo em se servir dos maiores escroques do leste para a tentar pôr em prática uma política de facto consumado, retira quaisquer dúvidas a quem porventura na Rússia ainda as tivesse sobre quais os verdadeiros objectivos do Ocidente.

Colocada perante esta evidência, a Rússia anexou a Crimeia, fazendo uso de um simulacro de legalidade, apesar de tudo mais bem urdido do que as técnicas fraudulentas utilizadas pelo Ocidente em situações similares, com a diferença de a Crimeia nunca realmente ter sido ucraniana e de a maioria esmagadora da população estar de acordo com aquele resultado. E está preparando agora a jogada seguinte, obviamente imposta pela razão de Estado, consubstanciada na garantia da sua segurança e na protecção dos seus nacionais.

E a jogada seguinte continuará a passar pelo não reconhecimento do governo de Kiev e dos bandos nazi-fascistas que o integram e por uma de duas soluções: ou uma Ucrânia neutralizada à finlandesa (sem quaisquer veleidades de integrar a NATO) e federalizada com ampla autonomia das componente federadas, nomeadamente as regiões do leste em Donetsk e em Kharkov, ou seja, de forma mais correcta, tudo o que fica para lá do rio Dniepre ou, segunda alternativa, a Rússia ver-se obrigada a ir em auxílio da população russófona ameaçada de marginalização e hostilizada pelas milícias nazi-fascistas de Kiev e da Ucrânia Ocidental, ficando, neste caso, a Ucrânia praticamente circunscrita ao território antes integrado na Polónia entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o começo da Segunda. Um território que ficaria doravante à mercê da cobiça dos alemães (novas técnicas) e dos polacos (velhas técnicas).

Esta segunda alternativa é uma aposta de risco mas que a Rússia muito provavelmente assumirá se a investida Ocidental permanecer e os seus interesses estratégicos continuarem a ser desprezados. E isso levará a que, depois desta crise, ou porventura desde já, a Rússia tenha de reorientar as suas relações, olhando para Oriente e para a América Latina.

Do lado de cá, o capitalismo ocidental, com excepção do entreacto representado pela Revolução de Outubro e suas sequelas no mundo, só tem somado vitórias e isso tem-no levado a olhar apenas para o presente e para o futuro imediato sem qualquer preocupação com uma perspectiva verdadeiramente estratégica que tenha em conta o que possa acontecer a longo prazo. A lógica do lucro é fundamentalmente uma lógica de conjuntura. E a da capital financeiro mais do que a de qualquer outro. Ele vive da ocasião. O que interessa é cavalgar a onda e tirar da força motriz que dela irradia a máxima vantagem. O que possa acontecer depois, logo se verá. O capitalismo adaptar-se-á e voltará a tirar proveito da nova situação. Sempre foi assim, exulta o capitalismo vitorioso!

E de facto, há fundadas razões para recear as consequências desta visão temerária que o capitalismo de hoje tem da política. A diferença que hoje existe relativamente ao passado é que num passado não muito remoto os Estados não se dispensavam de desempenhar o seu papel e tinham frequentemente em conta estratégias destinadas a garantir a sua própria sobrevivência corrigindo e pondo alguma ordem na voracidade do capital em defesa dos seus próprios interesses. Hoje, pelo contrário, os Estados, nomeadamente os Estados ocidentais desenvolvidos, estão completamente nas mãos do capital, principalmente do capital financeiro e especulativo, sendo este e o modo como interpreta os seus interesses que ditam a acção dos Estados, obrigando-os a agir mesmo quando o modo de actuação imposto acaba por causar dano aos seus próprios interesses estratégicos. É por isso que nesta crise não é tão relevante quanto se supõe o papel que determinados sectores políticos, mais ligados a um certo tipo de interesses que privilegia a estabilidade e a consolidação dos fluxos comerciais entretanto criados, possam vir a desempenhar já que a sua acção estabilizadora e de contenção é facilmente suplantada pela fatídica aliança entre o neoconservadorismo arvorado em defensor universal de altos valores morais e a acção rapinadora do capital financeiro.

Por outro lado, como se tem visto, pelos múltiplos exemplos ocorridos nestes últimos vinte anos tanto na Europa como em África e no Médio Oriente, o papel outrora desempenhado pelas massas populares de oposição aos desvarios expansionistas do capitalismo está hoje muito limitado ou é quase inexistente dada a fragilidade do movimento operário, por um lado, e a colonização das consciências pela ideologia dominante, por outro. Tudo isto aponta, infelizmente, para a intensificação de uma situação explosiva na Ucrânia…onde tudo poderá acontecer.

 

segunda-feira, 24 de Março de 2014

SÓCRATES VÍTIMA DE CILADA



REGRAS ALTERADAS COM O JOGO A DECORRER
José Sócrates entrevistado por Rodrigues dos Santos

 

Mal ou bem – e a nosso ver mal – as televisões enveredaram pelo comentário político da autoria de antigos responsáveis políticos que estabelecem a agenda dos assuntos a tratar em cada semana limitando-se o representante da televisão a fazer a passagem de um assunto para o outro com perguntas mais ou menos simbólicas.

No fundo, trata-se de atribuir aos dois maiores partidos, principalmente ao PSD, um assinalável tempo de antena relativamente aos demais, escondendo-se a voz partidária sob a capa de uma pretensa independência de juízo, como se essas personalidades investidas no papel de comentadores adquirissem por essa razão uma distanciação relativamente aos partidos a que pertencem e deixassem no essencial de pensar dentro dos quadros e dos interesses estratégicos dos respectivos partidos. Isso não significa que não possa acontecer – e às vezes acontece - que alguns desses comentadores não tenham divergências com os partidos a que pertencem ou, em alguns casos, não tenham até uma agenda política própria, que os leva naturalmente a marcar as respectivas distâncias relativamente à linha oficial sem contudo deixarem de neles estar inseridos.

Como se sabe, entre os comentadores, que já desempenharam importantes funções políticas e que em solilóquio nos dão semanalmente a sua opinião sobre os assuntos da actualidade, estão: Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Morais Sarmento, Augusto Santos Silva, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Francisco Louçã e José Sócrates. Pelos nomes indicados, também logo se fica a saber como é entendida pelas televisões a pluralidade de opiniões…

Estes comentadores têm um espaço televisivo semanal para, como antes se disse, comentarem os acontecimentos da actualidade. Se eles fossem à televisão para serem interrogados ou entrevistados sobre os actos que praticaram como governantes a sua participação ficaria esgotada ao fim de uma sessão, no máximo de duas e o programa deixaria de ser de comentário político para passar a ser qualquer outra coisa, já que não faria sentido manter vários programas semanais com os mesmos intervenientes para permanentemente  estar a comparar o que cada um deles fez com o que agora defende. Ninguém está agora muito interessado em escalpelizar o que, por exemplo, Bagão Félix fez ou deixou de fazer como Ministro das Finanças para depois comparar o resultado dessa pesquisa com o que ele agora defende. Ninguém excepto porventura o Governo que pode estar interessado em o desacreditar como comentador cotejando permanentemente as posições que agora defende com os actos que praticou ou as posições que defendeu enquanto governante.

A alteração do formato do programa sem aviso prévio, transformando-o numa contundente acusação contra o comentador que passa de um momento para o outro a entrevistado/acusado só pode interpretar-se como um “frete”, um vergonhoso “frete”, que alguém sob a capa de jornalista se propôs fazer ao Governo provavelmente a troco de alguma vantagem, já que não é crível que quem na vida política actue com um mínimo de moralidade, com o "chamado mínimo ético", tome a iniciativa de alterar de uma semana para a outra a natureza de um programa, transformando-o num libelo acusatório contra o comentador, sem que este tivesse sido previamente avisado.

A esta completa ausência de ética na profissão de jornalista, a esta violação do “mínimo ético”, assistiu-se ontem na RTP quando o habitual comentário semanal de José Sócrates foi inopinadamente transformado pelo “entrevistador de serviço” numa permanente acusação à sua personalidade e ao seu carácter.  

Não está de forma alguma em causa a condenação deste “exercício” contra José Sócrates ou contra qualquer outro comentador em espaço próprio. O que está em causa é que se transforme um espaço de comentário político da responsabilidade do comentador num tempo de antena contra o próprio comentador por alteração, à falsa fé, sem aviso prévio, das regras que até então regiam esse espaço, procurando-se mediante a apresentação de declarações políticas avulsas e descontextualizadas colocar o comentador na obrigação de se defender de actos pelos quais até já foi politicamente “julgado”.

Esse frete ao Governo esteve uma vez mais a cargo de um conhecido porta-voz da direita reaccionária que ainda há bem pouco tempo teve oportunidade de demonstrar os “critérios jornalísticos” que guiam a sua acção na RTP. Ele é exactamente o mesmo que ainda há dias na Ucrânia apoiou o bando nazi-fascista que domina o poder em Kiev, branqueando a natureza política do poder em exercício, escamoteando factos essenciais à compreensão da situação e dando uma imagem propositadamente deturpada da realidade política ucraniana.

O episódio ontem ocorrido na RTP não é relevante pelos incómodos que possa ter causado ao comentador, já que ele tem experiência política suficiente para não se deixar enredar pelas artimanhas do “pivot”, mas apenas e só pela personalidade perversa que indiscutivelmente revela – a mesma personalidade que antes da reaparição de Sócrates nos écrans de televisão apresentou em peça autónoma, passada imediatamente antes da entrevista, um longo e faccioso libelo acusatório contra o entrevistando e a mesma personalidade que ainda recentemente, sob a capa de falso repórter, pretendeu transmitir aos portugueses durante vários dias uma imagem deturpada da situação política ucraniana. E poderia ainda acrescentar-se a mesma personalidade que nunca na televisão perdeu a oportunidade de bajular os político de direita ou os "seus patrões" sempre que lhe cabe a vez de os entrevistar.

quinta-feira, 20 de Março de 2014

A SUPREMA HIPOCRISIA OCIDENTAL


 
 
AINDA A UCRÂNIA

Há pouco mais de quarenta anos o mundo Ocidental escandalizou-se profundamente por um grupo de trabalhadores ter assumido a direcção de um jornal em Portugal. Não houve noticiário radiofónico ou televisivo que de Bona a Madrid e de Londres a Roma não tivesse como notícia de abertura a ocorrência do Bairro Alto. O comportamento daquele punhado de trabalhadores foi imediatamente identificado com o fim da liberdade de imprensa e o prenúncio da instauração de uma terrível ditadura. Uma poderosa campanha varreu a Europa de Ocidental de Norte a Sul e de Leste a Oeste impondo a milhões de pessoas a sua verdade sobre o que se passava em Portugal.

Agora, na Ucrânia um bando de nazis e de fascistas entra na televisão ucraniana, agride o seu director e obriga-o a assinar o pedido de demissão debaixo de uma chuva de socos e de insultos e nós apenas sabemos disto pelas imagens que alguém, num acto furtivo, colocou no You Tube. Não há notícias nos jornais, não há imagens nas televisões. Nada. O silêncio…

quarta-feira, 19 de Março de 2014

UCRÂNIA

EM POUCAS PALAVRAS
 

O que interessa agora saber é quem vai ficar a ganhar – se a Rússia ou a União Europeia (leia-se: Alemanha) e os Estados Unidos. Aparentemente ganhou a Rússia. Mas somente o tempo dirá se foi realmente uma vitória e se a estratégia de Putin foi bem sucedida. Tal como as coisas se apresentam, é bem provável que Putin tenha ganho a Crimeia (que nunca foi ucraniana) e tenha perdido a Ucrânia (que quase sempre foi russa). E se esse for o resultado, Putin sofrerá outras perdas no Cáucaso e na Moldávia. Se assim vier a suceder, o desfecho do conflito não será um bom negócio para a Rússia nem para quem teme o expansionismo neoliberal. Mas ainda é cedo para fazer previsões…

MEDEIROS FERREIRA


 

UMA RARA INTELIGÊNCIA POLÍTICA
 

 

Medeiros Ferreira não conseguiu concretizar um dos seus maiores sonhos: traduzir em acção política corrente o seu pensamento político. Dono de uma invejável auto-estima, mas não tendo manifestamente vocação para liderar um partido político que o pudesse guindar aos mais altos lugares da política nacional, apaixonado pela política, muito independente e convencido dos seus méritos pela capacidade de antecipação que sempre manifestou dos fenómenos políticos e a subsequente constatação de que o devir lhe dava razão, Medeiros Ferreira “gostava que lhe batessem à porta”, mas esqueceu-se talvez ingenuamente que os líderes partidários, os chefes políticos, não nutrem um especial apreço por quem pensa. Podem estimar o pensamento político alheio desde que seja para dele se apropriarem, em discursos, em proclamações solenes, enfim, o pensamento político de quem esteja fora e se proponha servi-los de fora, mas em regra recusam o acompanhamento de quem privilegie o pensamento político estratégico na acção política corrente. Essa a razão por que Medeiros Ferreira nunca ocupou na política portuguesa um grande cargo ou, se o chegou a ocupar, foi por pouquíssimo tempo.

O último livro de Medeiros Ferreira – Não há mapa cor-de-rosa A História (Mal)dita da Integração Europeia  - reflecte melhor, muito melhor, que qualquer outro texto sobre a actualidade política nacional a angústia de quem vê o futuro do país numa encruzilhada de difícil saída. Um país que durante séculos, embora de modo porventura mais intenso desde o último quartel do século XIX até ao terceiro quartel do século XX, viveu o mito do Império e se viu depois obrigado a construir à pressa um outro mito que pudesse dar sentido a uma nação centenária - o mito da Europa, construído nos últimos quarenta anos. O mito imperial de que a nação portuguesa durante tantos séculos se alimentou e que desesperadamente tentou estender para além do tempo que politicamente o poderia sustentar esgotou-se simbolicamente, na sua formulação originária, no 25 de Abril, tendo surgido pouco depois, embora de uma forma tantas vezes postiça e canhestra, o mito da Europa – que Medeiros Ferreira tanto criticou reclamando-se de uma visão tratadística, contratualista entre Estados e cidadãos - que “globalizou” o pensamento pátrio enquanto houve dinheiro a rodos e o clube europeu era pequeno – “passaram a ser europeístas com o mesmo fervor com que antes eram colonialistas”. Criticando a ausência de orientação estratégica na condução política externa de integração de Portugal na Europa desde logo reflectida na deficiente negociação dos grandes instrumentos comunitários, em que tão insensatamente Portugal se reviu, apoiando-os numa formulação contrária aos interesses nacionais, Medeiros Ferreira não chegou nunca a afastar-se da Europa, mas apenas – e isso já não era pouco – a tentar vê-la tal como ela realmente é, principalmente a partir do alargamento a Leste e da introdução do euro como expressão máxima da União Económica e Monetária, a propor as medidas indispensáveis à democratização do conjunto europeu e também a traçar as vias alternativas de uma política externa portuguesa. Essa incapacidade de a política portuguesa compreender as profundas mutações ocorridas na Europa desde há mais de vinte anos constituem sem dúvida uma das maiores angústias políticas de Medeiros Ferreira para quem o papel de “bom aluno de maus mestres” vem sendo desde há muito – e não apenas desde agora - um dos maiores problemas da nossa política externa.

Na política interna talvez seja de sublinhar entre tantas intervenções cujo mérito é diferentemente avaliado, a rara inteligência política com que antecipou, com vários anos de antecedência, as consequências nefastas para o PS e para a esquerda portuguesa em geral de dois dos maiores erros políticos de Sócrates: ter desprezado a importância política das presidenciais de 2006 e não ter tido a coragem de afrontar Cavaco nas presidenciais de 2011. Em ambas as situações o tempo deu-lhe razão. O fim de Sócrates, vaticinou Medeiros Ferreira em 2006, começaria em 2010 e o seu afastamento do poder, disse Medeiros Ferreira em finais de 2010, iria ter lugar bem antes do termo da segunda legislatura. E assim foi com as consequências que estão à vista…

domingo, 16 de Março de 2014

EM DUAS PALAVRAS


 

A PROVA DE QUE PORTUGAL PERDEU A INDEPENDÊNCIA
 
 
 
A prova de que Portugal perdeu a independência é tão óbvia, é uma prova que cai em cachoeira, como dizem os brasileiros, que até se torna penoso evidenciá-la de tão evidente que ela é.
O PSD e o CDS, ou seja, Passos Coelho e Paulo Portas, não põem em prática nenhuma política que eles possam deixar de aplicar, o que não quer dizer que não estejam de acordo com as políticas que aplicam. Estão. Mas todas lhes são ditadas pela União Europeia e agora também pelo FMI, embora o que verdadeiramente conte sejam as imposições da UE. A todas as questões a que não podem fugir, e incapazes de invocar argumentos habituais de quem está fazendo as coisas por sua iniciativa, respondem dizendo que tem de ser assim ou porque é o que está no Memorandum ou porque são essas as obrigações decorrentes dos tratados aprovados ou dos regulamentos comunitários ou das deliberações do Conselho Europeu.

Por outro lado, o PS não apresenta nenhuma proposta política, absolutamente nenhuma, cuja exequibilidade dependa da vontade do próprio partido. Todas as propostas apresentadas por Seguro, Assis ou pelos que se empenham na busca de novos caminhos nos “Novos rumos” dependem da União Europeia. Da sua aceitação ou aprovação pela União Europeia.

Ora, um estado cujo governo não dispõe politicamente de meios para pôr em prática as políticas que quer aplicar ou que não está em condições de aplicar outras políticas senão aquelas que lhe ditam, não é um estado independente ou, tendo-o sido, deixou de o ser!

 

AINDA SOBRE O MANIFESTO
 
 
 
 
 
Relativamente à dívida, o establishment actua dividido e tenta pôr em prática duas tácticas diferentes.

O Governo está antes de mais interessado em consolidar uma agenda ideológica que somente o endividamento e a dependência externa lhe permitirão levar até ao fim. Mas o Governo sabe perfeitamente que a dívida é insustentável. Quanto ao seu pagamento, a táctica do Governo, embora não pareça, também é óbvia. Quer fazer tudo o que estiver ao seu alcance para parecer credível aos olhos dos credores para numa segunda fase, coincidente com a segunda legislatura, evidenciar a insustentabilidade, negociando uma reestruturação ou pura e simplesmente beneficiando do precedente entretanto aberto para a Espanha ou para a Itália ou para ambos.

Do lado dos subscritores do Manifesto, a ideia que os guia é antes de mais impedir a consolidação da agenda ideológica do Governo e romper com o unanimismo existente à volta da sua política. Subsequentemente tentar abrir uma clareira no seio da União Europeia por onde possa abrir-se caminho à renegociação da dívida, embora saibam que as propostas que apresentaram são insuficientes. São insuficientes, mas são importantes como começo. O resto virá depois.

Neste contexto quem fica francamente mal colocado é o PS oficial e os seus apoiantes oficiais e oficiosos. Porque ou não dizem nada ou quando abriram a boca foi para dizer que o timing escolhido para debater este assunto era inapropriado.