COMO SAIR DISTO?
A reafirmação pelo
Governo das políticas que vinha seguindo e o anúncio ameaçador do seu
agravamento na sequência da decisão do Tribunal Constitucional bem como a
confirmação de que o PS não tem nenhuma política verdadeiramente alternativa
colocam Portugal numa situação muito difícil e de desfecho imprevisível.
A crise, aparentemente sem
saída, em que o país se encontra não está apenas patente no plano económico,
financeiro e social, está também muitíssimo presente no plano puramente
institucional.
Antes de mais Portugal
não tem um governo seu. Portugal tem um governo ao serviço de interesses
estrangeiros, inclusive com representantes desses interesses em lugares chave
da governação, o qual, com excepção do apoio que lhe presta uma matilha de
comentadores mercenariamente a soldo desses mesmos interesses, não goza da
mínima aceitação popular nem tão-pouco a generalidade dos cidadãos acredita na
sua capacidade para atenuar a crise, sendo antes convicção corrente a de que a
situação portuguesa se agravará tanto mais quanto mais dilatada for a sua permanência
em funções.
Por outro lado, o Governo
abriu um grave querela institucional com o Tribunal Constitucional, fazendo
recair sobre este, demagógica e desonestamente, as funestas consequências das
suas políticas. Colocando-se em conflito aberto com o órgão encarregado de
velar pelo cumprimento da Constituição e tentando assim impedir o regular
funcionamento das instituições, o Governo deu de facto um passo sem recuo no sentido
de uma governação à margem das instituições.
Mais grave ainda é a
actuação conjugada do Governo com os inimigos externos de Portugal e dos
portugueses num crescendo de ameaças e de pressões absolutamente inaceitáveis e
que nenhum Estado por mais fraco que seja pode aceitar, mesmo quando posto
perante um ameaça militar iminente.
Do lado do Presidente
da República também nada se poderá esperar com vista à reposição da normalidade
democrática não apenas por Cavaco Silva se encontrar politicamente envolvido
com as opções do governo, mas também por neste preciso momento histórico, para
azar e infelicidade dos portugueses, a Presidência da República estar ocupada
por uma personalidade que em décadas de vida pública nunca demonstrou uma
genuína compreensão dos valores democráticos.
Hoje, para os
portugueses, o Presidente da República é um problema mais grave do que o
próprio Governo, já que a permanência em funções de Cavaco Silva garante ao Governo
via aberta para continuar a destruir Portugal durante os próximos dois anos.
Cavaco Silva, uma
personalidade votada à defesa de interesses menores, de natureza pessoal ou
institucional, não está à altura do lugar nem tem a grandeza política necessária
que o momento exigia, o que faz com que neste tempo trágico da vida dos
portugueses não haja uma forte voz institucional que lute contra a governação de
Portugal a partir do estrangeiro e frontalmente se oponha à humilhação de um
país que nunca precisou de se hipotecar à Europa para existir e que continuará
a existir sem ela, ou mesmo contra ela, se os portugueses estiverem à altura das
circunstâncias. E estar à altura das circunstâncias é antes de mais lutar sem
tréguas contra o colaboracionismo dos banqueiros, do grande capital monopolista
e oligopolista e acima de tudo contra aqueles que ocupando lugares cimeiros do
Estado colaboram no plano institucional na destruição do país.
Portugal tem saída e a
primeira saída que Portugal muito rapidamente vai ter que pôr na ordem do dia é
a saída do euro.
Essa luta, que aqui se
tem vindo a travar há mais de dois anos por há muito se ter tornado evidente não
ser possível qualquer solução para a situação portuguesa no contexto da moeda
única, precisa de ser aprofundada não quanto ao resultado final – a saída é
inevitável- mas quanto ao tempo certo e ao modo de o fazer.
Quanto mais tempo
Portugal permanecer nesta situação catastrófica em que se encontra, cujo
agravamento tende a acelerar-se com a passagem do tempo, pior será o modo de o
fazer.
Se o PS não aderir
muito rapidamente a uma posição que admita que a recusa europeia a uma política
verdadeiramente alternativa tem como consequência inevitável a saída do euro, o
mais certo é que essa saída venha a ocorrer à margem das instituições
existentes.
Infelizmente, pelas
razões aqui tantas vezes apontadas, o PS dificilmente trilhará esse caminho não
apenas por a “Europa connosco” fazer parte do seu código genético, mas também
por a defesa do euro corresponder ao tipo de mentalidade e interesses
dominantes no seio e na clientela do partido. De facto, além da orfandade que atingiria o partido se advogasse a saída do euro, a sua defesa está em
consonância com o tipo de interesses que o PS representa. Os interesses da
pequena burguesia urbana ainda relativamente imune à crise que encontra no euro a possibilidade de “fazer coisas”
que com outra moeda não poderia fazer ou não poderia fazer com a regularidade com que o faz.
Obviamente que a saída
do euro não traz qualquer problema para quem não tem euros, como também não trará
dentro de um prazo razoável, depois das naturais oscilações iniciais, para os
trabalhadores por conta de outrem e até para os reformados. O mesmo se diga relativamente
à maior parte dos empresários, com excepção daqueles que ao longo destes
últimos quinze anos têm vindo a agravar o défice da balança de bens e serviços
com compras desregradas de produtos estrangeiros, endividando perigosamente o
país.
Mais complexa é a situação
dos bancos que carece de uma resposta técnica e politicamente correcta norteada
acima de tudo pelo interesse nacional rectamente entendido.