domingo, 21 de junho de 2009

IRÃO: AS GRANDES DÚVIDAS


QUEM FALA VERDADE?

Aparentemente, conviria ao Irão uma direcção política menos conservadora para poder tirar partido da conflitualidade que ameaça instalar-se entre Washington e Israel. Uma liderança mais aberta, menos agressiva, poderia tirar vantagem da intransigência israelita e estabelecer uma relação de relativa confiança com a América, tendo em conta as características da actual administração.
Mas também pode pensar-se de outra maneira. Se na América há uma administração que quer dialogar e em Israel governa uma coligação que aposta na destruição da eventual futura capacidade nuclear do Irão, o melhor é manter em Teerão um governo firme e duro, que vá dando a Washington alguns sinais de aproximação, mas que simultaneamente aproveite a relutância americana numa intervenção militar ou em autorizá-la, para, entretanto, tornar irreversível aquele objectivo estratégico.
Esta segunda opção do Líder Supremo – que designa cerca de 2 000 mil cargos entre os quais o chefe das forças armadas, o presidente da rádio e da televisão, o presidente da magistratura e o conselho de discernimento - poderia tê-lo levado a “decidir” o resultado das eleições. Para isso seria necessário montar à escala nacional uma operação de grande envergadura que no dia das eleições funcionasse sem hesitações. Esta operação tinha, todavia, um inconveniente: dificilmente poderia escapar a uma denúncia prévia. E a verdade é que os relatos da imprensa internacional, apesar de a campanha ter sido animada, dão como natural, no dia seguinte ao das eleições, a vitória de Ahmadinejad, por onze milhões de votos de diferença.
Não há fraudes desta dimensão organizadas no dia. Além de que tais fraudes pressupõem a completa ausência de liberdade dos opositores.
Ensaiemos então pensar de outro modo. Os “reformistas”, para usar uma expressão consagrada, entendem que este é o momento adequado, nacional e internacionalmente, para provocar uma mudança. E esperam alcançá-la pela via eleitoral, mas logo que intuem que tal não será possível (não esquecer que Musavi anunciou a vitória antes de os votos estarem contados) arriscam com base no descontentamento das populações urbanas mais intervenientes, que indiscutivelmente advogam um país mais aberto e mais relacionável com o mundo ocidental, um levantamento popular a partir da palavra de ordem de “eleições fraudulentas”. E como acreditam que a correlação de forças lhes será favorável, porque, à parte as milícias e os combatentes de Deus, os demais apoiantes de Ahmadinejad fazem parte da maioria silenciosa rural, que agora, como noutras ocasiões, não tem decidido o rumo da história no Irão, põem os seus apoiantes na rua dia após dia exigindo novas eleições.
Os reformistas exibem um documento, que estranhamente a imprensa ocidental não publicou, dirigido pelo ministro do interior ao Líder Supremo, que confirma a preferência deste pelo candidato Ahmadinejad, em que lhe dá conta dos verdadeiros resultados eleitorais. Dão também a conhecer que o órgão correspondente à comissão nacional de eleições terá comunicado telefonicamente a Musavi a vitória eleitoral, facto que estaria na origem da declaração por este feita pouco depois de encerradas as urnas. E explicam que o discurso da vitória não pôde fazer-se, porque, logo a seguir àquela comunicação, Musavi terá tido um encontro com os chefes militares que pura e simplesmente lhe disseram que não aceitariam os resultados eleitorais e que Ahmadinejad continuaria no cargo. Segundo aquele documento, foram os seguintes os resultados eleitorais: Musavi 19.036.078 votos; Karrubi 13.387.104 votos; Ahmadinejad 5.698.417 voos; Rezai 3.754.218 votos; e 38.216 nulos.
Evidentemente, que ninguém, deste lado de cá, está em condições de atestar a veracidade deste documento e daquelas comunicações. É, porém, muito provável que uma das duas situações acima descritas se tenha passado no Irão. Ainda é cedo para saber a verdade e para saber quem vai ganhar. Ou até se por força do confronto acabaremos por ter um resultado que não seja de resto zero (mais difícil, dada a magnitude do que está em jogo…). Há trinta anos, a revolução foi sempre num crescendo e acabou por arrastar até aquelas forças que normalmente se não manifestam. Em 1953, no golpe da CIA contra Mossadegh, foi tudo muito mais rápido. E em 2009, como acabará?

sábado, 20 de junho de 2009

ANDA E SEMPRE A REVOLUÇÃO DE ABRIL

UM TEXTO DE MANUELA CRUZEIRO


Ainda e sempre sobre a Revolução de Abril, um belíssimo texto de Manuela Cruzeiro: "Vasco e Otelo - A atracção dos opostos", publicado em "Caminhos da Memória".

OS NOSSOS ECONOMISTAS NÃO SE MANCAM

O MANIFESTO DOS ECONOMISTAS

Se há, em Portugal, classe profissional que menos tem contribuído para o bem comum e mais vantagens tem tirado da profissão que desempenha, essa classe é a dos economistas. Os economistas têm sido nestas últimas décadas os pontífices que todos escutam e a que todos recorrem para saber “o que fazer”. Eles intervêm em todos os domínios e opinam sobre todas as matérias depois de instalada a ideia de que todos os assuntos – todos! - são, em última instância, económicos.
O resultado desta tacanhez de espírito está vista, no plano mundial. Eles lançaram o mundo numa das maiores crises dos tempos modernos, com tudo o que isso tem de desumano para que tem de sofrer em primeira linha as suas consequências. Essa visão economicista do mundo, aliada a uma idolatria do mercado, não trouxe prosperidade, nem felicidade à maior parte. Trouxe angústia, dívidas (muitas dívidas!) e desemprego. E permitiu “roubalheiras” sem conta por todo o lado: legais e ilegais. Consequência: os gigantescos ”buracos” deixados pela sua acção política vão ter que ser “tapados”, por muitos anos, com o dinheiro dos contribuintes, como sempre com o sacrifício dos mais numerosos e de menores recursos.
Mas, se é assim um pouco por todo o lado, em Portugal, acresce a tudo isto, o facto de essa governação económica da política ter tido os piores resultados. No quadro da União Europeia, Portugal ostenta infelizmente os piores índices em muitas das matérias que têm a ver com o bem-estar das pessoas e caminha, cada ano que passa, para uma situação pior do que a do anterior. Há erros gravíssimos em todos os domínios, com graves reflexos na situação geral das pessoas, e há erros de política económica só possíveis pela incompetência dos economistas que, directa ou indirectamente, nos tem governado. Normalmente são incultos, conhecem umas tretas da vulgata económica (uma espécie de Politzer do neoliberalismo), são filosoficamente analfabetos, desconhecem as ciências sociais, desprezam o método científico e encaram a economia como uma ideologia. Por isso, não estão capacitados para compreender o presente. Para o analisar. E ainda se atrevem a prever o futuro. No qual evidentemente nunca acertam!
Agora, uma legião deles, que vai dos “idiotas úteis” até aos reaccionários de sempre, passando por ex-vanguardistas da revolução proletária, vem dizer-nos, na esteira de Cavaco e de Ferreira Leite, que o Estado não deve investir. Obviamente, que não está em causa a análise ponderada de certos investimentos, sem justificação político-económica, como o novo aeroporto de Lisboa. O que está em causa é a competência desses senhores para se pronunciarem sobre o que interessa ou não interessa à comunidade. De facto, eles não enxergam a inconveniência ou impropriedade do seu próprio comportamento, ou seja, não se mancam!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

AS DEPUTADAS DO PS AO PARLAMENTO EUROPEU


E SE ESTIVESSEM CALADAS?

Com que então, Elisa Ferreira compromete-se, magnanimamente, a renunciar ao lugar de deputada no Parlamento Europeu, se ganhar as eleições para a Câmara do Porto!
E depois queixem-se da “malta”... Da “malta” que não acredita nos políticos. O que eu estava à espera de ouvir é que a ilustre deputada tivesse dito que renunciava ao mandato de deputada para ir disputar a Câmara do Porto. Mas isso digo eu que não percebo nada de “política”…
Por seu turno, Ana Gomes insurge-se por Rangel, se ganhar as eleições, admitir a hipótese de renunciar ao Parlamento Europeu para integrar o governo. Será que não estou a compreender bem? Então a norma de todos eles, Ana Gomes incluída, não é a de só trocar o certo pelo certo? Com a diferença de que Rangel, que se saiba, não vai disputar eleitoralmente qualquer outro lugar, enquanto elas parece que vão….

BARROSO COMOVIDO


MAS NADA ESTÁ RESOLVIDO


Ao jantar, o Conselho Europeu concedeu a Barroso o apoio político unânime para um segundo mandato. Entendamo-nos, em linguagem comunitária, isto quer dizer que ninguém se opôs à continuação de Barroso como Presidente da Comissão e que todos os Estados lhe concederam apoio para continuar no cargo. Não houve, obviamente, qualquer votação. Portanto, Barroso não foi juridicamente designado pelo Conselho para Presidente da Comissão e, enquanto não for, não poderá submeter-se ao voto parlamentar.
Aparentemente, Barroso está hoje mais próximo de ser Presidente da Comissão do estava ontem de manhã. Mas só aparentemente. Os imbróglios na União Europeia estão longe de estar resolvidos. A Irlanda continua a exigir um Protocolo juridicamente vinculante (isto é, ratificado por todos os Estados-membros) que integre as garantias por ela consideradas necessárias para assegurar a vitória do sim no novo referendo, enquanto a maior parte dos Estados apenas está na disposição de elaborar um protocolo com mero valor político. Outros ainda, como o Presidente da República Checa, para tornar as coisas mais difíceis, entendem que se as garantias são concedidas por via de protocolo, é necessário que elas sejam ratificadas por todos. Enquanto isto, a designação do Presidente da Comissão terá de fazer-se pelo Tratado de Nice. Paralelamente, os socialistas e os verdes, pelas vozes de Rasmussen e Cohen Benedit, fazem o possível por evitar a nomeação do português, tendo o "homem do Maio 68" já confidenciado que “Sarkozy não se vai matar por Barroso…”.
Tanto os amigos como os inimigos de Barroso sabem que o jogo ainda não terminou. Uma coisa porém é certa: como não há politicamente, em matéria de construção e gestão europeia, qualquer diferença entre um socialista e Barroso, é preferível, por razões óbvias, que o lugar fique para ele…

quinta-feira, 18 de junho de 2009

CARLOS CANDAL


UMA VITÓRIA PIONEIRA

Carlos Candal faz parte do meu imaginário académico. Quando cheguei a Coimbra, no rescaldo da crise académica de 1962, já Candal estava a estagiar em Aveiro. Mas acontece que foi ele, depois de muitos anos de domínio da direita, que ganhou as eleições para a Associação Académica de Coimbra, em 1960/61. E a partir daí o ambiente académico de Coimbra jamais seria o mesmo. No ano seguinte, a vitória já foi mais fácil e a esquerda nunca mais perdeu as eleições até ao 25 de Abril. Foi reprimida, compulsivamente transferida de universidade ou expulsa, instaladas comissões administrativas nomeadas pelo fascismo, dirigidas por “respeitáveis democratas” da II República, mas sempre que houve eleições, a esquerda ganhou!
E Candal, na Coimbra do meu tempo, beneficiava dessa auréola. O homem capaz de convencer as freiras a deixar votar as meninas que elas aprisionavam mal o sol se punha. O “diplomata”capaz de captar o voto de quem ainda não queria verdadeiramente opor-se ao salazarismo. Depois, a luta académica evolui muito e rapidamente. Radicalizou-se. A guerra colonial ajudou. Mas Candal deixou escola: cerca de dez anos mais tarde, a direcção de Alberto Martins é a continuação do mesmo estilo numa outra época.
Em Coimbra nunca vi Candal. Conheci-o, em 1969, no Segundo Congresso Republicano de Aveiro. Muitos anos mais tarde, numa recepção oferecida por Mário Soares, comentei com ele jocosamente o “Manifesto anti-Portas em português suave”, que acabara de publicar…

BARROSO: RESISTIRÁ?

O CONSELHO EUROPEU QUE TUDO VAI ADIAR

Não se percebe muito bem se por ingenuidade ou se para forçar a vontade política de quem não a tem, indigitação de Durão Barroso pelo Conselho Europeu que hoje se iniciou era, até há uns dias atrás, dada como certa tanto por políticos como por jornalistas. Nos vários posts que já dedicámos ao assunto, de há muito que vínhamos alertando para as reticências, primeiramente muito ténues, mas depois cada vez mais ostensivas, que vários governantes, alguns deles de grande peso, vinham levantando ao “calendário” proposto pelos apoiantes de Barroso para a sua indigitação. E como sempre acontece nestas coisas começaram a esgrimir com argumentos jurídicos – os famosos constrangimentos legais – que são sempre os argumentos por detrás dos quais se esconde uma razão política, quando ainda não é chegado o momento de a apresentar frontalmente.
Apesar de a direita governar em quase todos os 27 Estados-membros, não há dúvida de que estamos muito longe da conjuntura que há cinco anos atrás levou Barroso à presidência da Comissão Europeia. Se Barroso, mesmo assim, conseguir continuar, teremos de nos vergar à sua enorme capacidade para sobreviver politicamente. Mas vai ser difícil. A ratificação do Tratado de Lisboa, mesmo depois de um eventual sim da Irlanda, vai continuar a trazer problemas, já que se não vê que eficácia, ou até validade, possam ter as garantias dadas aos irlandeses se elas não forem ratificadas pelos demais Estados-membros. E com o Tratado de Nice a regular a vida comunitária, as hipóteses de Barroso serão bem menores.
A estratégia de quem, sendo da família, não quer Barroso, passa mais pela criação de condições que levem à desistência do candidato do que propriamente à sua rejeição.

BENFICA: ELEIÇÕES VICIADAS


O QUE ESPERA VIEIRA

As eleições no Benfica já estão viciadas, mesmo antes de contados os votos. Um dos hipotéticos candidatos diz que não se candidata porque nem sequer tem tempo para formar uma equipa; o outro diz que está a estudar a hipótese de interpor uma providência cautelar para suspensão do acto eleitoral com base em ilegalidade.
Haja ou não eleições no dia três de Julho, e provavelmente haverá, Vieira tem os dias contados. O golpe virou-se contra o golpista. Ninguém mais no Benfica vai aceitar os seus desaires desportivos, depois de Moniz ter deixado claro que aceitaria candidatar-se noutras circunstâncias. Pior do que uma derrota, que é acto que se esgota no resultado de uma eleição, é ter permanentemente a “cabeça a prémio” durante o mandato. E é isso o que vai acontecer a Vieira.
Os benfiquistas deveriam perguntar-se por que razão Vieira, que é sócio do Porto e também já foi do Sporting, e que nem sequer é certo que seja adepto do Benfica, quer continuar como presidente, depois de amplamente demonstrada a sua incompetência desportiva. E talvez na resposta que derem encontrem uma boa razão para o despedirem já.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O TGV E A DIREITA

O ISOLAMENTO EUROPEU

Muitos séculos de história não se derrubam em décadas. Há, goste-se ou não, uma tradição portuguesa de isolamento e alheamento relativamente à Europa continental, pese embora a inevitabilidade da adesão europeia. Historicamente esta adesão ocorre a seguir a uma época de desmantelamento do “Império” e no fim de um ciclo de guerras coloniais que deixaram no imaginário nacional uma memória traumática muito forte.
Não obstante, uma parte muito significativa da intelectualidade portuguesa assume aquele isolamento com naturalidade e sempre que a ocasião o permite, como acontece em épocas de crise, lá está ela a dizer-nos que o nosso futuro está no mar, no além-mar. Seja esse mar o Brasil ou a África, seja, por razões de protecção, o Atlântico Norte.
Curiosamente, esta posição, embora com mais peso na direita do que na esquerda, atinge tanto uma como outra – da Jangada de Pedra de Saramago e de uma certa recusa da União Europeia às teorizações de Franco Nogueira e de Adriano Moreira ela está presente.
Acho que ela está presente também na recusa do TGV pela direita. Portugal fora da rede de alta velocidade europeia fica mais longe da Europa e mais isolado. Isso agrada à direita.
Evidentemente, que não é só isso que a motiva. Motiva-a igualmente uma visão anti-keynesiana no combate à crise. A direita continua a recusar o papel do investimento público no relançamento da economia por razões puramente ideológicas.
Não deixa de ser estranho que essa mesma direita, a começar pelo Presidente da República, não manifeste idêntica recusa relativamente à construção do novo aeroporto. Esse sim, completamente desnecessário nos tempos mais próximos como eloquentemente ilustram as estatísticas referentes ao aeroporto da Portela. Só que aí ergue-se o interesse de empresas que a direita não pode contrariar, bem como a privatização da ANA, empresa lucrativa que a direita quer ver o mais rapidamente possível nas mãos do capital privado.

AS ELEIÇÕES NO BENFICA

A CONTRATAÇÃO DE TREINADOR POR UMA DIRECÇÃO EM GESTÃO CORRENTE

Parece que a direcção do Benfica (em gestão corrente) não vai conseguir, apesar do seu golpe, evitar a concorrência no acto eleitoral. Certamente que os candidatos oposicionistas partem em desvantagem, mas mesmo assim eles podem reunir condições para, nos poucos dias que têm à sua frente, despedir Vieira e a sua gente.
Não se compreende que uma direcção demissionária, em gestão corrente, pratique actos susceptíveis de influenciar, se forem válidos, a vida do clube nos próximos anos. A contratação de um treinador nestas circunstâncias é uma irresponsabilidade. Mas irresponsabilidade maior é contratá-lo por dois anos, quando o actual presidente já demonstrou que não tem capacidade para aguentar um treinador por mais de um ano! É caso para perguntar quem beneficia com as indemnizações.
É pena que um dos movimentos oposicionistas acolha nas suas fileiras um dos grandes responsáveis pela situação a que o clube chegou – Manuel Damásio.

A MOÇÃO DE CENSURA

AS ESTRATÉGIAS DO CDS E DO PS

A moção de censura que o CDS resolveu apresentar nesta parte final da legislatura teve mais em vista a ocupação de espaço no futuro reposicionamento das forças de direita do que propriamente censurar o governo. A censura, que não deixou de ser feita, foi meramente instrumental.
O CDS, depois de ter ultrapassado com êxito o teste das europeias, sente-se com força suficiente para disputar uma parte do eleitorado do PSD. Beneficiando da estabilidade que o outro partido da direita não tem e de deputados mais preparados que os do PSD, o CDS julga-se com capacidade para ser muito mais que um simples apêndice numa futura maioria parlamentar.
O PSD, completamente entalado pela iniciativa política do CDS, entre dois males - abster-se ou votar a moção – optou por este último por o considerar o mal menor.
Da reunião da comissão política do PS, da passada segunda-feira, para além daquelas coisas que sempre se dizem em situações semelhantes, talvez decorra uma estratégia eleitoral, ainda não completamente assumida por todos os que nela participaram, mas que não deverá muito longe da seguinte ideia.
O PS já reconheceu que não reúne agora, nem até Outubro o conseguirá, as condições que há quatro anos lhe asseguraram uma maioria absoluta. E vai ter de optar entre garantir o maior número de votos ao centro e à direita ou tentar recuperar à esquerda o eleitorado que se absteve ou que perdeu para o Bloco e para a CDU, mais para aquele do que para esta.
Perante o acosso do CDS ao PSD, o PS acha que o PSD vai ter que se preocupar muito com o seu eleitorado mais à direita, deixando-lhe um espaço importante ao centro, onde o PS vai investir eleitoralmente. São sintomas desta estratégia a escolha de António Vitorino para a elaboração do programa eleitoral e a designação de Luís Amado para responder em nome do Governo à moção de censura do CDS. Depois tentará, através da habitual cosmética da propaganda eleitoral, captar o voto à esquerda que se absteve nas europeias, seja chamando Alegre a desempenhar um papel junto desses sectores, seja através de frases ocas de sentido, como as do actual Ministro do Trabalho – logo deste! – e futuro director da campanha das legislativas, de que é preciso “demonstrar que se governou à esquerda”, mais uma ou outra mudança relativamente emblemática, como a substituição de Vitalino Canas como porta-voz do partido.
Perante este cenário, com um PS claramente incapaz de atacar “ambos os bordos” com idêntica eficácia, a esquerda vai ter oportunidade de reforçar o seu peso eleitoral com vista ao seu grande objectivo político: quebrar ao hegemonia eleitoral do PS no “espaço da esquerda”.

VASCO LOURENÇO E A REVOLUÇÃO DE ABRIL


“DO INTERIOR DA REVOLUÇÃO”


Já aqui escrevi sobre a acção de Vasco Lourenço antes da constituição do movimento dos capitães. Fazia então tenção de continuar a apreciação crítica da sua narrativa, tanto na preparação do 25 de Abril, como posteriormente, desde o dia do derrube da ditadura até ao requiem pelo processo revolucionário. Entretanto, meteram-se a campanha eleitoral e as eleições, e o tema foi sendo adiado. É agora altura de o retomar.
Para quem viveu intensamente o período que vai de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975, conhece ou mesmo participou em muitos dos episódios descritos, a narrativa de Vasco Lourenço faz novamente vibrar os corações de todos aqueles que acreditaram poder, enfim, mudar o mundo, quanto mais não fosse à escala nacional. Para isso muito contribui o entusiasmo e a convicção com que Vasco Lourenço descreve os grandes momentos da Revolução de Abril.
O que achei mais extraordinário é o facto de cada momento ser descrito com o mesmo estado de espírito com que foi vivido, apesar de a entrevista que levou à edição do livro ter sido concedida muitos anos depois da ocorrência dos factos. Diga-se, a propósito, magistralmente conduzida por Manuela Cruzeiro, a maior especialista portuguesa em “25 de Abril”.
E esse estado de espírito está muito longe de ter sido vivido com o mesmo entusiasmo ao longo dos meses que balizam a narrativa. A luta inicial contra os spinolistas e seus aliados, contra todos aqueles que logo a seguir ao 25 de Abril o quiseram amordaçar, é certamente uma das partes mais belas e mais vibrantes do livro. Depois, a partir do momento em que a Revolução se acelera, aparece-nos um Vasco Lourenço dividido entre o apoio inequívoco a todas as medidas que pudessem contribuir para a real emancipação do povo português e o constrangimento resultante de muitas dessas medidas serem impulsionadas por uma vanguarda que tendia a marginalizar quem não lhe acompanhasse o passo.
Nota-se que há da sua parte uma genuína preocupação de manter a unidade do movimento, a unidade entre todos os militares de esquerda, o que, seguramente, só poderia ser alcançado com cedências que a voracidade dos tempos então vividos de forma alguma permitia.
Se ainda há algum entusiasmo nos primórdios da formação do grupo dos 9, frustradas que foram as tentativas de encontrar uma posição unitária, ele vai-se perdendo gradualmente à medida que o confronto final se aproxima entre, de um lado, gonçalvistas e copconistas, e, do outro, os nove e toda a direita militar e civil e até mesmo a extrema-direita. Nesta fase, que culmina com o 25 de Novembro, o desencanto de Vasco Lourenço já é evidente. Muito do que é importante pela primeira vez lhe passa ao lado. E com o andar dos tempos, cada vez mais. Ele deixa claramente de ser o protagonista para passar a ser apenas mais um. E isso deixa-lhe a mágoa de não ter conseguido pôr de pé a revolução que idealizou.
Em poucas linhas, esta é a minha interpretação da narrativa de Vasco Lourenço. Convém ainda dizer que a interpretação que ele faz dos grandes momentos da Revolução de Abril: o dia 25 de Abril, a rendição de Marcelo Caetano, o papel de Spínola, o Golpe Palma Carlos (mais propriamente, Golpe Sá Carneiro/Spínola), o 28 de Setembro, o 11 de Março, a constituição do Directório, o 25 de Novembro, é muito objectiva e corresponde ao que realmente se passou. Ele não faz a menor concessão às teses da direita, nem às fantasias postas a circular pelo Partido Socialista.
Hoje, à distância de 35 anos, creio que o momento dramático da Revolução de Abril é o que na sequência da queda do IV Governo Provisório consuma a divisão entre os genuínos militares de Abril. E esse momento ocorre quando a seguir à aprovação consensual do PAP (Programa de Acção Política) se consuma a ruptura, por um lado, com a constituição de um directório insuficientemente representativo (faltava-lhe uma “perna”) e, por outro, com a aprovação de documentos que, contrariando aquele, representam uma visão parcial do pensamento político do MFA.
A perda de militares como Vasco Lourenço, Vítor Crespo e de tantos outros a eles ligados, lançados nos braços de um PS que nunca quis nada de substancialmente diferente daquilo que hoje temos, foi fatal para a Revolução e para a implantação de uma democracia avançada. Esta é uma auto-crítica que está por fazer. E fazê-la não significa nem de perto, nem de longe aderir às teses de Soares e Sá Carneiro que, em meu entender, se davam por muito satisfeitos com o resultado das primeiras golpadas de Spínola…se tivessem tido êxito.
Talvez valha a pena contar aqui um episódio em que participei, cujo significado aparente, por ser claramente contraditório com outros (únicos conhecidos), não deixará de ser questionado.
Na altura da formação do V Governo Provisório, quando já se tinham gorado as hipóteses de gente ligada ao PS fazer parte dele (Vasco Lourenço diz desconhecer se o houve essas negociações; posso assegurar que houve e nelas participaram três figuras relativamente importantes do PS, à época – uma já falecida, outra que anos mais tarde se “eclipsou” e, finalmente, uma terceira que continua a nível regional a ser muito influente), Vasco Gonçalves pediu-me par me avistar com um conhecido líder partidário para saber da sua opinião sobre alguns dos nomes que estavam a ser contactados para compor o Governo.
Sobre um desses nomes, para Ministro dos Negócios Estrangeiros, a dita figura política teceu as críticas mais contundentes e disse-me mesmo que a simples indigitação constituía um desprestígio e um descrédito para a Revolução. Sobre outros nomes que estavam sendo encarados para Vice-primeiro-ministros, a resposta que eu ouvi foi a seguinte: “São pessoas respeitáveis, mas não acrescentam nada. O que interessa é lá ter os militares de Abril desavindos. O Primeiro-ministro (Vasco Gonçalves) devia era convidar o Vasco Lourenço, o Vítor Crespo ou o Vítor Alves para Vice-primeiro-ministros. Falar com eles. Levá-los para o governo. De outro modo, o governo não terá base de apoio suficiente e cairá”.
À época, tal proposta, vinda da esquerda, seria impensável.
Desnecessário será narrar a resposta de Vasco Gonçalves.

terça-feira, 16 de junho de 2009

SER OU NÃO SER PAROQUIAL


A OUTRA FORMA DE PROVINCIANISMO


É verdade que as televisões portuguesas concedem um destaque desmedido a pequenos e insignificantes problemas caseiros. É verdade que as grandes questões, as que realmente afectam todo o mundo, portanto também a nós, são acessíveis na sua compreensão apenas a um pequeno número.
Não sei se há explicação para isto. Talvez seja a nossa defesa de não sermos grandes. Talvez ainda o reflexo do profundo trauma de 50 anos de ditadura. Lembro-me de Craveiro Lopes, já em rota de colisão com o regime, dizer: “De manhã, a gente abre o jornal, fica a saber tudo o que se passa no mundo e nada do que se passa em Portugal”. Sabe-se lá se não é este trauma psicológico herdado da memória colectiva que a TVI quer combater quando dá tanto relevo a uma pequena desavença familiar ocorrida em Alguidares-de-Baixo?
Francamente não sei. O que sei é que há uma outra forma de provincianismo disfarçada de cosmopolitismo que pretende prevalecer-se do facto de as grandes questões não serem aprofundadamente abordados para nos fazer passar as versões ideologicamente mais contaminadas desses acontecimentos. Como, por exemplo, afirmar que Netanyhu deu um passo ainda há dias inimaginável, quando na realidade o que ele disse é que queria constituir um protectorado na Palestina; ou afirmar que o nosso futuro se joga nas montanhas do Afeganistão, onde já ingleses por duas vezes e os soviéticos (quando existiam…) já enterraram as suas esperanças de domar um conjunto indomável de tribos montanhesas, para escamotear o erro histórico de proporções ainda indefiníveis de a NATO ter rompido com a sua matriz estatutária para ir fazer uma guerra do outro lado do mundo; ou, finalmente, tomar a nuvem por Juno a propósito do que se passa no Irão (ver quem é Mousavi)

A DESIGNAÇÃO DE BARROSO



VALERÁ A PENA ESTAR A FORÇAR A ALEMANHA E A FRANÇA?

Os deputados socialistas ao Parlamento Europeu continuam muito preocupados com a questão da continuidade de Barroso. Depois de tudo o que disseram na campanha, é um pouco irrelevante o que possam dizer hoje. Além do mais, a designação de Barroso pouco passará por eles.
Desde há vários meses que se detecta no discurso de Sarkozy, bem como no de Merkel, alguma hesitação a propósito da escolha do português. Primeiro, falaram em diferir a designação para depois da ratificação do Tratado de Lisboa pelos 27, ou seja, para depois do resultado do novo referendo na Irlanda. Posteriormente, passaram a falar na apresentação de um programa para a Europa. Segundo eles, não se trataria de escolher um nome, mas de escolher um programa.
Mais importante do que fazer conjecturas sobre se Barroso vai ou não ser escolhido, o que verdadeiramente interessa saber é que tipo de Europa querem hoje a França e a Alemanha. No passado não havia grandes dúvidas de que a Alemanha apostava claramente num projecto transnacional europeu e também é certo que essa forte posição alemã acabou por influenciar a França, principalmente durante a época Mitterrand/Delors, a qual, apesar de herdeira da Europa das pátrias, chegou a admitir poder restaurar naquele projecto parte da grandeza perdida
Hoje, depois da reunificação alemã e do alargamento a leste e a sul, tanto a Alemanha como a França concluíram (pelo menos, é o que parece) que aquele projecto não faz mais sentido. As clivagens que entretanto se criaram, e que a guerra do Iraque apenas evidenciou, a ligação muito estreita dos recém-aderentes do Leste à NATO e aos Estados Unidos, deixavam cada vez menos espaço ao núcleo duro da União para comandar os destinos da Europa, como aconteceu com Kohl/Mitterrand, sob a presidência de Delors.
A perspectiva com que agora a Alemanha e a França encaram a Europa já não será assim tão diferente da do Reino Unido como foi no passado. A Europa é vista também por elas mais como um espaço de afirmação nacional e acima de tudo um amplo mercado livre que encerre em si todas as vantagens da livre circulação de bens e serviços mas que não tenha de suportar os custos das desigualdades entre os seus membros. Esses deverão ser, no essencial, encargos nacionais.
Esta nova perspectiva da França e da Alemanha, que ficou clara na forma como a União Europeia abordou a actual crise económico-social, aponta para um presidente da comissão originário de um país grande e rico. Um presidente vindo de um país meridional e pobre não dará àquele núcleo garantias suficientes de interpretação “correcta” do novo conceito de Europa – uma Europa cada vez mais mercado único e mais intergovernamental no plano político.
Veremos se a França e a Alemanha ainda vão a tempo de pôr em prática esta estratégia no que respeita à escolha do Presidente da Comissão Europeia.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CONSTÂNCIO CONTINUA ARROGANTE

COMO PODE NÃO ASSUMIR RESPONSABILIDADES?

A pergunta continua a ser pertinente: "Quem o defende"? E a resposta também: "É o capital financeiro, com a cumplicidade do Governo".
ADITAMENTO

Voltamos sempre ao mesmo. A arrogância de Constâncio só é possível porque os deputados não têm poder próprio. Eles emanam dos partidos. E Constâncio fala como fala e comporta-se como se tem visto porque verdadeitamente não toma os deputados com represemtantes do povo, mas sim como representantes dos partidos. E isso faz toda a diferença.
ADITAMENTO II
De que práticas fala Constâncio?Boas práticas das entidades de supervisão? Em que mundo vive Constâncio? Será que ele é apenas arrogante? É espantoso que, em 2009, depois de tudo o que se passou no mundo a propósito da "regulação" do capital financeiro, Constâncio continue a falar de boas-práticas, certificadas, entre outros, pelo FMI, um dos grandes responsáveis pela pobreza no mundo, como se a gravíssima crise financeira que desencadeou a actual crise económico-social não tivesse tido a sua origem nas famosas autoridades de supervisão.´
Mas, pior que tudo, Constâncio ameaça com um contra-relatório, como se depois de tudo o que disse, o que se ouviu de outros, e, principalmente, do que se descobriu, ainda houvesse dúvidas sobre a sua, no mínimo,negligência.

UM ARTIGO DE PAUL CRAIG ROBERTS

OBAMA EM VIAS DE SE TRANSFORMAR NUM DICK CHENEY?

Um artigo particularmente violento de Paul Craig Roberts, ex-subsecretário do Tesouro de Ronald Reagan, contra Barack Obama, que, de resto, não se tem cansado de combater a política americana das últimas décadas, como também se pode ler neste outro artigo :"A guerra ao terror é uma mistificação".

AS ELEIÇÕES NO IRÃO E A REACÇÃO OCIDENTAL


UMA VITÓRIA INDESEJADA

É muito difícil escrever sobre as eleições no Irão. A informação não é muita e muita dela é deturpada. Se for para negar a legitimidade da vitória da Ahmadinejad não faltará quem aplauda, seja boa ou má a informação que a sustenta. Se, pelo contrário, for para fazer uma análise tanto quanto possível objectiva não faltará quem a ataque e tenda a ver nela o que realmente se não disse.
Ahmadinejad ganhou e Musavi perdeu. Segundo os resultados oficiais, dois terços dos eleitores votaram no actual presidente e um terço no candidato da oposição. O resultado da eleição não agradou à União Europeia, nem à América e seus aliados mais próximos: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Israel, Arábia Saudita e Egipto. Mas foi recebido com naturalidade pelos grandes países emergentes, pelos aliados árabes (que não são muitos) e por países da América Latina, como a Venezuela, Bolívia e Cuba.
Musavi não aceitou a derrota e queixa-se de fraudes eleitorais. Fraudes que ninguém consegue provar como fundamento da derrota. Irregularidades, como sempre acontece em todas as eleições, terá havido, mas do que se escreve sobre o assunto parece depreender-se que elas pouco ou nada influenciaram o resultado eleitoral. De qualquer modo, os apoiantes de Musavi, a maior parte deles oriundos das áreas urbanas e, portanto, muito mais abertos a mudanças porventura num sentido mais laico da vida política, puseram nesta eleição uma grande expectativa. A derrota frustrou-os e o apelo de Musavi levou-os à rua, onde protestaram com veemência. Apesar de não se assumirem abertamente como anti-sistema, a verdade é que eles puseram em causa a “ordem pública”, e as autoridades iranianas, à semelhança de todas as autoridades que velam pela manutenção da ordem e do “sistema”, reagiram contra os manifestantes.
Esta reacção desagradou aos ocidentais e a avaliar pela ênfase que nela puseram é de admitir que também eles não tenham argumentos mais fortes para contestar a derrota: foi também uma expectativa, posto que mais ténue, que se frustrou.
A nós não nos agrada nenhum tipo de “democracia religiosa”, qualquer que seja a religião. A política é laica e constitui uma grande conquista da nossa cultura o desligamento da política da religião, apesar de tal princípio ser, do nosso lado, frequentemente contestado seja pelas autoridades religiosas, seja pelas políticas. Não obstante, consegue manter-se o essencial.
Todavia, já é muito mais difícil, para não dizer impossível, tanto na nossa democracia, como na iraniana, aceitar a vitória das teses anti-sistema. A liberdade (aparente) com que tais teses se manifestam pode ser diferente num e noutro lado, mas em ambos os lados o poder ideológico do sistema é tão forte que praticamente diaboliza quem se lhe oponha.
Por exemplo, entre nós, uma subida, importante, ainda que modesta dos partidos de esquerda constituiu motivo de alarme em toda a imprensa bem pensante, nos comentadores “encartados” e em todo o establishment que de Aberto João Jardim a Vital Moreira se preocupou mais com esse facto do propriamente com a votação dos partidos a que pertencem. Mas não se trata apenas das reacções pós-eleitorais. Trata-se antes do clima geral permanente existente nos diversos órgãos veiculadores do poder ideológico do sistema que liga a possibilidade de aqueles partidos poderem constituir uma alternativa de governo a uma hipótese verdadeiramente demencial. É, por isso, infelizmente natural que no Irão se passe o mesmo, apesar de os contestantes terem lá ido bem mais longe eleitoralmente do que foram cá.
São estas mesmas razões que levam a dita imprensa ocidental (leia-se os media, em geral) a negarem a legitimidade de governação de Chavez, de Medvedev, de Evo Morales e por ai fora.
As reacções na administração americana, por agora o que mais interessa, ainda não são muito claras e parece até haver alguma dessintonia entre a prudente declaração de H. Clinton e as ásperas palavras de Joe Biden, posto que matizadas pela necessidade de melhor informação. Mas tudo aponta no sentido de os americanos – os grandes responsáveis pela queda de democracia laica em Teerão – terem de suportar por tempo por agora indefinido a democracia religiosa do Irão. E então se verá se o discurso do Cairo é mesmo para levar a sério…

PROTECTORADO NA PALESTINA?


UMA PROPOSTA QUE NÃO É SÉRIA

Cada vez é mais evidente que Israel não aceita a constituição de um Estado palestiniano. Já Golda Meir o tinha dito há muitos anos atrás quando pela primeira vez abordou a questão com Nixon. Depois disso os israelitas gozaram sempre da cumplicidade americana e da covardia europeia para negarem a possibilidade desse Estado, mesmo quando, com reserva mental, admitiam a sua existência, na prática sempre subordinada à aceitação de exigências intoleráveis
A proposta que hoje Netanyahu apresentou, como resposta à posição americana, é mais uma vez uma rejeição da existência de dois Estados, posto que apresentada hipocritamente sob a forma positiva da criação de um protectorado.
Em primeiro lugar, a exigência do reconhecimento de Israel como Estado dos judeus é uma proposta racista. Israel é um Estado dos israelitas, sendo como tal considerados aqueles que à luz do direito da nacionalidade israelita tenham esse estatuto, contanto que este direito não ofenda os princípios do direito internacional sobre a matéria.
E acrescentar depois que a Palestina não terá espaço aéreo (ou seja, um território amputado de um dos seus atributos fundamentais), nem exército, são exigências que colocam o novo “Estado” numa nova categoria de protectorados, muito próxima dos protectorados da época colonial.
Finalmente, recusar-se a aceitar o princípio do congelamento da construção de novos colonatos e negar-se, por maioria de razão, a desmantelar os colonatos construídos em território palestiniano, significa igualmente agravar ou manter um status quo que realmente inviabiliza a existência do novo Estado, como, de resto, claramente o comprova as demolições de casas palestinianas na parte ocupada de Jerusalém.
Bem pode a diplomacia americana, através de um porta-voz do presidente, felicitar-se por ter ouvido na mensagem a admissão do princípio da constituição de dois Estados. Na verdade, o que se ouviu foi a negação desse princípio. E Obama se na verdade quer dois Estados ou, querendo, se tiver força para manter essa exigência, mais cedo do que tarde vai ter de dizer aos israelitas que a proposta de Netanyahu é inaceitável.

domingo, 14 de junho de 2009

ZAPATERO AUMENTA OS IMPOSTOS


A CRISE EM ESPANHA

Zapatero anunciou no fim desta semana o aumento dos impostos (indirectos, sobre a gasolina e o tabaco) para fazer face à diminuição da receita e ao aumento de despesa provocadas pela crise.
Por agora, as previsões apontam para um decréscimo do PIB de 3,6% e para um défice da ordem dos 10%. Admite-se que a recuperação começará em 2011 e que até 2012 haverá mais de 4 milhões de desempregados.
Zapatero tem sido coerente nas suas políticas sociais com a análise que faz das causas da crise. Por mais de uma vez afirmou que a crise não foi causada pelos trabalhadores nem pelos sindicatos. Consequentemente, não deveriam ser eles a pagá-la, mediante a redução dos salários e dos benefícios sociais. Não podendo evitar o desemprego, que, de resto, atinge duramente a Espanha, Zapatero tem-se recusado a satisfazer as exigências dos patrões e até do próprio governador do Banco de Espanha que reclamam maior flexibilidade e menor protecção laboral. Por outro lado, várias têm sido as medidas tomadas, além das institucionalizadas, para atenuar a situação dos desempregados. É por isso natural que a despesa aumente. E Zapatero tinha por várias vezes advertido que não deixaria de prestar apoio social para não aumentar o défice. Só que, além do aumento da despesa, viu-se também confrontado com uma diminuição da receita. Perante este cenário optou pela subida dos impostos indirectos, deixando no ar a possibilidade de haver mais aumentos.
Este facto é notícia, em primeiro lugar, por o governo Zapatero ser o primeiro, em plena crise, a aumentar os impostos. O que nós ouvimos de muitos lados, embora com mais insistência da direita, é que os impostos deveriam baixar, sendo a baixa dos impostos geralmente apresentada como uma medida anti-crise susceptível de relançar a procura. O assunto discutiu-se na América, mas também na Europa.
Na América, os sectores neo-keynesianos mostraram-se contrários a uma baixa dos impostos por entenderem que essa maior receita com que as pessoas ficariam se destinaria ao aforro ou ao pagamento de dívidas, acabando por ter um efeito muito reduzido sobre a procura. Mais eficaz seria aumentar a despesa pública com reflexos imediatos na procura.
Na Europa, a diminuição da despesa pública e a baixa dos impostos reclamadas principalmente pela direita anti-Estado social foi interpretada como uma manobra premeditada para enfraquecer o Estado social, por via da diminuição das receitas.
Aliás, quando se debate a baixa generalizada de impostos é sempre necessário situar o país de que se está a falar. Nos Estados Unidos, onde existe um baixo nível de protecção social, principalmente depois da “guerra” que o pensamento neo-conservador moveu, com êxito, contra os programas de assistência social e contra tudo aquilo a que eles chamam “engenharia social”, a baixa dos impostos contribuiu em alguns casos para estimular o crescimento. Sempre alcançado à custa da precarização do trabalho. Mais tarde, essa baixa de impostos acabou por beneficiar escandalosamente apenas os mais ricos, como aconteceu no tempo de W. Bush, sem que daí tivesse resultado um aumento do crescimento.
Na Europa, a “luta” pela baixa dos impostos e a diminuição da despesa pública estiveram sempre associadas, nas últimas três décadas, a uma fragilização do Estado social. Evidentemente, que os defensores desta tese, embora estivessem a actuar com reserva mental relativamente ao Estado-social, acreditavam que ela poderia contribuir para incrementar o crescimento. Curiosamente, o único país europeu que, desde 1996, conseguiu a “quadratura do círculo” – diminuir os impostos e melhorar ou até aumentar a qualidade das prestações sociais – foi a Espanha. E essa é a segunda razão pela qual é notícia a subida de impostos anunciada na passada sexta-feira!

sábado, 13 de junho de 2009

O MINISTRO DA DEFESA E O AFEGANISTÃO


A PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NA GUERRA


Nada do que venha do Ministro da Defesa nos surpreende, principalmente se estiverem em causa interesses americanos. Severiano Teixeira ainda não compreendeu que a guerra do Afeganistão é uma guerra para perder. E não compreendeu, porque não pensa pela própria cabeça. Se pensasse, compreenderia o que os americanos com responsabilidades na Administração Obama já compreenderam sobre o Afeganistão: que aquela guerra não é para ganhar. E como não é para ganhar, o que se pretende evitar é que ela se transforme numa catastrófica derrota.
É provável que Obama tivesse começado por acreditar que a guerra do Afeganistão era para ganhar. Depois, com o andar dos tempos, principalmente a partir do princípio do ano passado, começou a ficar claro que a guerra estava a ser perdida. Obama que já se tinha manifestado contra a guerra do Iraque, num Congresso que quase por unanimidade a apoiou, que sempre se tinha igualmente mostrado muito reservado quanto ao eventual uso da força contra o Irão, fosse directamente, fosse por interposto Estado, que, enfim, de uma maneira geral se recusou sempre a admitir o uso da força como primeiro argumento para resolver os seus problemas, não podia, numa América belicista, onde o complexo militar-industrial desempenha um papel de peso, manifestar-se, de uma assentada, contra todas as guerras em que a América estava envolvida. Ficou com o do Afeganistão por lhe parecer ser aquela que mais facilmente poderia beneficiar do apoio da opinião pública americana: derrotar os talibãs e apanhar Bin Laden são actos de patriotismo que nenhum americano rejeita apoiar.
Entre nós, muito curiosamente, também já há quem tenha percebido isso. Aqui há uns meses atrás, quando Bush ainda governava, Luís Amado, Ministro dos Negócios Estrangeiros, numa entrevista concedida a Teresa de Sousa (Público) ainda se mostrava muito entusiasmado com a guerra do Afeganistão, mas mais recentemente, numa entrevista ao i, já admitiu que a participação da NATO no Afeganistão foi um erro e deu a entender que Portugal deveria reduzir o seu compromisso.
Pois Severiano Teixeira, exactamente nas vésperas de um Conselho de Estado convocado para discutir o assunto, vem dizer, à saída de uma reunião da NATO, que Portugal está a ponderar várias soluções com vista ao reforço significativo sua presença militar no Afeganistão.
Afinal, nestas questões militares que tem a ver com os Estados Unidos, quem é que manda aqui?

LAGES E GUANTÁNAMO



A SUBSERVIÊNCIA EM POLÍTICA INTERNACIONAL


Os imperadores desprezam os súbditos subservientes. Tiram vantagens deles, mas desprezam-nos.
O Congresso americano recusou a transferência para território nacional dos prisioneiros de Guantánamo que não estão em condições de ser julgados mas continuam a ser considerados um perigo para a segurança da América. Nenhum dos 50 estados americanos se voluntariou para os receber, um que fosse. Na Europa, os países para os quais a dignidade nacional ainda representa um valor, já fizeram saber a Washington que não têm condições para receber prisioneiros de Guantánamo, enquanto a América não der o exemplo, recebendo alguns.
Pelo contrário, as Bermudas, Palau e Portugal aceitam receber prisioneiros qualquer que seja a atitude americana.
Mas há mais. Dentro da linha política de acatamento das pretensões de Washington, o Governo português acabou de dar o seu acordo de princípio à utilização da base das Lages como base de treino dos F22 e dos futuros F35, estando por definir a extensão da área a conceder. Segundo informações veiculadas pela imprensa, os americanos reclamam a concessão de um espaço, a norte da Ilha do Corvo, igual a três vezes a área de Portugal, dizendo-se que do lado português terá sido feita uma oferta menor.
Mais uma vez estamos perante um acto de extrema gravidade, lesivo dos interesses e da independência nacional, levado a cabo por um governo que tem na Defesa e nos Negócios Estrangeiros quem sempre encontre uma boa justificação para atender às solicitações americanas.
Exactamente por isso, porque o interesse nacional tem que ser defendido por outros meios, é que tem de se afirmar sem tibiezas que é a todos os títulos inadmissível que Portugal aceite que um Estado com a extensão territorial dos Estados Unidos venha exigir a um pequeno país a concessão de uma extensa área geográfica para a realização de treinos militares que podem perfeitamente ser realizados no território americano do Atlântico ou do Pacífico, onde, além do Hawai, tem outros territórios e outras bases com condições idênticas às dos Açores para os realizar.
O princípio é aqui exactamente o mesmo de Guantánamo: o que os americanos não querem na sua terra vão tentar fazê-lo na terra dos outros, na esperança de encontrarem um súbdito subserviente que acate o seu “pedido”.
E é igualmente importante que se diga que, se este acordo pudesse ter politicamente alguma justificação – e não tem, salvo dentro do tal quadro de completo acatamento das pretensões americanas de que acima falámos – e se não representasse um perigo para a navegação aérea internacional ou não lhe impusesse sérias restrições – e representa e impor-lhe-á, digam o que disserem os ministérios directamente envolvidos – ele constituiria, nos termos em que está sendo negociado, um verdadeiro atentado aos interesses nacionais. Conceder aos americanos o acordo de princípio para a realização daqueles treinos no espaço territorial dos Açores, sem o condicionar à negociação de um tratado – exactamente, um tratado a ratificar pelo Senado americano – significa dar sem nada receber. Significa conceder no quadro de um eventual “executive agreement”, ou seja, de um acordo subordinado à legislação americana vigente, ficando assim completamente à mercê da chantagem que a Administração americana queira exercer, como tem sucessivamente acontecido com as Lages.
Aqueles que nas recentes eleições e posteriormente em discursos tanto têm expressado as suas preocupação com o futuro, com os ónus e encargos legados às futuras gerações, a propósito de obras como o TGV e auto-estradas (enfim, obras de que as futuras gerações vão beneficiar, sem com isto querer de algum modo legitimar os modelos de financiamento que o Governo se propõe pôr em prática) teriam a propósito desta questão uma excelente ocasião para fazer jus ao seu “acrisolado amor” pelo interesse nacional e pela situação das gerações futuras.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

AINDA O VOO AF 447


A PERGUNTA QUE NINGUÉM FAZ

Apesar de ainda não haver certezas sobre as causas do acidente do Airbus 330 da Air France, começa a ganhar corpo a tese de que uma avaria nos sensores de velocidade pode ter estado na origem da catástrofe. Velocidade a mais durante a turbulência pode levar à desagregação do avião em pleno voo, assim como velocidade a menos pode levar à sua queda. Os destroços recolhidos, bem como o estado dos corpos já resgatados, parecem apontar naquele primeiro sentido. Todavia, nem a Air France, nem a Airbus, confirmam para já as causas do acidente.
Há, porém, uma pergunta que, na imensa informação já publicada sobre o tema, ninguém parece interessado em fazer: por que razão os pilotos do voo 447 da Air France não contornaram a tempestade na chamada zona de convergência intertropical, à semelhança do que fizeram os demais voos que nessa mesma noite por lá passaram?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A TRANSFERÊNCIA DE CRISTIANO RONALDO


COMO SE DETERMINA O PREÇO DA MERCADORIA EM FUTEBOL?

Todas as televisões abriram o telejornal da noite anunciando a transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid por 94 milhões de euros. Como se determinará o preço de um jogador de futebol? Há algum jogador de futebol que possa justificar um preço de venda daquela grandeza? Há algum jogador, cuja actividade profissional possa gerar um retorno ao menos equivalente àquele preço? E se a isto juntarmos os vencimentos que o Real Madrid vai pagar chegaremos certamente a números astronómicos. Dir-se-á, de acordo com aquilo a que se pode chamar a lógica Belmiro de Azevedo, que ninguém tem nada a ver com os preços que as empresas privadas se propõem pagar pelos serviços que lhes prestam. Só que esta argumentação que serviu e serve para defender os extraordinários vencimentos e demais regalias atribuídos aos executivos das grandes empresas é hoje, comprovadamente, uma argumentação falhada. Como a crise desencadeada pelo capital financeiro e especulativo se encarregou de demonstrar, quem, de uma forma ou de outra, acaba sempre por pagar aqueles vencimentos e mordomias é a comunidade, seja pela via do contribuinte, seja pela exploração do consumidor. E se a tudo isto acrescentarmos o facto de esta compra ser feita por uma empresa com um passivo superior a 500 milhões de euros menos justificação ela terá ainda.
Deixando agora de lado as incidências sociais do negócio para atender apenas ao plano desportivo, também não falta quem pense que Cristiano Ronaldo, qualquer que seja o vencimento acordado com o Real Madrid, fará um mau negócio. Já se viu que Ronaldo não é um daqueles jogadores que por si transformem o valor de uma equipa. Tem-se visto isso na selecção nacional, mesmo sob a direcção de Scolari onde primava um espírito de grupo e uma disciplina como nunca houve em selecções portuguesas.
No Manchester, onde se notabilizou, ele teve sempre a seu lado grandes jogadores que privilegiavam acima de tudo a equipa e beneficiou também de um treinador que não admitia qualquer tipo de vedetismo e se fazia respeitar por todos, sem excepção.
No Real Madrid, Ronaldo não vai encontrar nada disto. O que ele lá terá é uma espécie de selecção nacional portuguesa, com melhores jogadores, mas com o mesmo clima de permissividade que por cá existe. Dificilmente, muito dificilmente, alguém no Real Madrid de hoje poderá atingir o nível desportivo que Ronaldo alcançou ao serviço do Manchester United.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

AS PERSPECTIVAS DA ESQUERDA

O ARTIGO DE RUI TAVARES SOBRE O COLAPSO DO CENTRO-ESQUERDA

Sem qualquer pretensão de fazer uma análise aprofundado dos resultados eleitorais e das perspectivas que se abrem à esquerda para além do que aqui já foi dito, acho que se justifica uma palavra sobre o artigo de Rui Tavares, no Público de hoje: “Por que colapsou o centro-esquerda”.
A minha convicção, que somente um estudo aprofundado dos resultados eleitorais poderia confirmar, é que o PS não perdeu votos ao centro, nem à direita que o costuma apoiar eleitoralmente com o sentido estratégico de quem não se engana. Pode, por razões que se prendem com a natureza destas eleições, alguma daquela gente não ter votado. Ter-se abstido por entender que o que estava em causa não justificava o “sacrifício” de votar. Onde o PS teve transferência de voto e abstenção marcadamente penalizadora foi naquele sector de esquerda que vota PS quer para barrar o caminho à direita, quer por não ter sido ainda capaz de se reconhecer em nenhuma outra força de esquerda. Este voto, que é um voto mais definido pela negativa do que pela positiva, está à mercê de quem o saiba cativar e convencer de que há outras alternativas credíveis e viáveis.
Mas há ainda um outro voto numericamente muito importante no PS. Há aquele voto dos que ingenuamente acreditam que o PS é o único partido com capacidade para dar satisfação às aspirações do “povo de esquerda” não comunista. Este voto, ao fim de quase 14 anos de governo PS, seja com amplas maiorias relativas, ou mesmo com maioria absoluta, sente-se hoje decepcionado e até defraudado com os resultados da governação socialista, que, agora por uma razão, ontem por outras, encontra sempre motivos para governar à direita quanto mais não seja com a desculpa de que tudo isso é feito no presente com vista a um próximo futuro redentor…que nunca chega.
Este voto está cansado da sua fidelidade eleitoral, mas ainda não conseguiu romper a barreira psicológica que lhe permita mudar.
É para estes eleitores que a esquerda tem de se voltar. São estes eleitores que a esquerda tem de conquistar se quiser constituir-se numa alternativa credível de governação.
Quem continuar a acreditar que encontra dentro do Partido Socialista os nomes ou as forças capazes de promover a mudança, associando-se a outras forças de esquerda, engana-se redondamente. Mais do que as palavras, por vezes “cirurgicamente” altissonantes, contam os factos. E os factos no PS, como de resto em todos os demais partidos social-democratas europeus, apontam sempre no mesmo sentido. No sentido da aproximação cada vez mais consistente às políticas de direita.
Se a gente de esquerda se continuar a deixar enganar pelas palavras, inclusive daqueles que já tiveram responsabilidades de governação, jamais as propostas que defendem serão concretizadas.
Não faltará quem leia neste texto a marca de algum sectarismo. Só que não adianta ir por aí. O que importa – e isso acontece pela primeira vez em Portugal desde o 25 de Abril – é empreender uma luta que acabe com a hegemonia eleitoral do PS no “espaço da esquerda”. Enquanto essa hegemonia se mantiver, as propostas, realistas e viáveis, de esquerda continuarão a ser uma miragem!

BENFICA: O GOLPE DE VIEIRA E COMPANHIA


PROCEDIMENTOS QUE NÃO SÃO SÉRIOS

Se os órgãos sociais do Benfica, nomeadamente a Direcção e a Mesa da Assembleia Geral, fossem constituídos por benfiquistas que encontram na dedicação ao clube a razão suficiente para o servir, ter-se-iam demitido e não se recandidatariam, pela simples facto de já terem dado provas mais do que suficientes de que são incapazes de alcançar os objectivos que se propuseram atingir.
Mas não foi nada disto o que eles fizeram. Esta gente que o Benfica lá tem hoje, a começar em Vieira e acabar no pobre Vilarinho, apenas está interessada em manter os lugares a qualquer preço, caminhando de derrota em derrota para a degradação cada vez mais acentuada da imagem do Benfica.
Esta gente não quer servir o Benfica, quer manter-se no Benfica, quer tirar vantagem de pertencer aos órgãos sociais de um clube outrora grande, mesmo depois de demonstrada, por eles próprios, a sua completa inépcia para dirigir um clube de futebol. E para isso estão dispostos a tudo, mesmo a recorrer aos procedimentos mais batoteiros.
Fazendo o que fizeram, um verdadeiro golpe destinado a inviabilizar o aparecimento de uma lista opositora com capacidade suficiente para lhes disputar o lugar, eles demonstraram que são gente, sem escrúpulos, capaz de manipular os procedimentos para se manterem no lugar.
O Benfica não pode ser governado por gente assim. É gente que não oferece garantias de seriedade. Se se comportam assim com os seus consócios como se comportarão com os adversários?

O AUTISMO EM POLÍTICA

NÃO SE CORRIGE QUEM NÃO TENTA COMPREENDER

Nada pior em política do que não saber fazer as perguntas correctas para as questões que nos preocupam.
Se as eleições me correm mal e eu continuo a atribuir a causa desse fracasso à abstenção ou à ausência de discussão de questões verdadeiramente europeias e me sinto confortável com essa justificação, é óbvio que eu reúno todas as condições para que as coisas me continuem a correr mal no futuro.
Se eu tenho a convicção de que a fraca afluência às urnas me prejudicou ou se estou igualmente convencido que o resultado poderia ter sido diferente se eu tivesse podido debater temas europeus, a primeira coisa que eu tenho de fazer é interrogar-me por que isso aconteceu e não me contentar com a descrição do fenómeno como razão explicativa suficiente do meu fracasso.
Mas há quem não queira fazer perguntas, formular questões, por temer o resultado das respostas. Só que este caminho, autista, é perigoso, neste caso mais do que em qualquer outro. Encontrar repostas para aquelas perguntas revela-se cada vez mais urgente e necessário, já que não é crível que a União Europeia possa por muito mais tempo continuar a resistir a eleições como estas.
Aliás, nem sequer se compreende, a menos que as palavras já tenham em política perdido todo o sentido, que se possa assumir a responsabilidade por uma derrota sem compreender cabalmente as causas dessa derrota e sem depois tirar todas as consequências da assumpção dessa responsabilidade.

terça-feira, 9 de junho de 2009

CONSTÂNCIO PERSISTE NA DEFESA DO INDEFENSÁVEL


A DEMISSÃO SERIA O MÍNIMO QUE SE LHE PODERIA EXIGIR

Constâncio errou pelas mesmas razões que teriam errado a maior parte dos economistas do sistema que saltitam do Banco de Portugal para a Caixa Geral de Depósitos, da Caixa Geral de Depósitos para a Associação de Bancos Portugueses, daqui para o governo, do governo para uma qualquer grande empresa: o papel deles é defender em primeiro lugar o capital financeiro contra os utentes do sistema. Defender o sistema a qualquer preço, mesmo quando estupidamente o fazem contra os próprios interesses do sistema. Mas como Portugal é um país pequenino, com primos e primas por todo o lado, com amigos de amigos comuns e com interesses cruzados em todo o tipo de actividades, o mais cómodo, para quem nunca elegeu coragem como padrão de conduta, é ir contemporizando com tudo até que a força avassaladora dos factos desnude por completo uma situação cujas consequências não podem mais ser escondidas ou encobertas.
Não há durante o longo mandato de Constâncio uma único acto do Banco de Portugal destinado a defender, por iniciativa sua, os utentes do sistema. Foi assim com os arredondamentos, foi assim com os pequenos accionistas do BCP, foi assim com as comissões indevidamente cobradas, foi assim com tudo. Somente quando um clamor se levantava na imprensa, nas televisões, na opinião pública em geral, é que Constâncio, contrafeito, actuava.
Por outro lado, todas – mas mesmo todas! – as declarações públicas de Constâncio sobre a evolução da economia nacional apontavam sempre para a penalização de quem trabalha, para a contracção da massa salarial, enquanto os bancos privilegiados pelo fisco e por operações especulativas sem controlo iam acumulando lucros obscenos, muitas vezes obtidos, como se está ver, a custa de quem neles confiou.
Já aqui explicámos neste blogue que as situações ocorridas no estrangeiro, nomeadamente em Espanha e em França, invocadas por Constâncio para justificar o seu comportamento enquanto supervisor não têm qualquer analogia com o que se passou cá.
Constâncio está agarrado ao lugar e sente com certeza as “costas quentes” para assim proceder. Tem certamente o apoio daqueles cujos interesses defende. Mas não tem seguramente o apoio do povo português. Deveria ir para casa. Estudar. Meditar sobre o que se está passar com o capital financeiro em vez de continuar a usar argumentos de baixa política que, esses sim, mais do que uma tentativa denegridora do Banco de Portugal são um verdadeiro acto consumado de agressão à inteligência de quem o ouve.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A "COISA" DE SARAMAGO


A COISA NA POLÍTICA ITALIANA

A memória política e na política obriga-nos a algum comedimento. Nunca fui favorável à utilização de argumentos ou até de expressões que já tenham sido usados para exprimir realidades completamente diferentes das que agora se criticam, principalmente quando umas e outras se situam em planos políticos muito diferentes.
Coisa foi o nome que os dirigentes do Partido Comunista Italiano atribuíram ao partido depois de terem decidido a sua transformação numa entidade diversa, após a implosão da União Soviética. No espaço que mediou entre a sua extinção e a subsequente transformação, foi-lhe, por Acchille Occhetto, filosoficamente atribuído o nome de Coisa!
Para um partido de tão nobres tradições na luta anti-fascista e democrática, aquela “filosófica” denominação chocou todos os que anteviram que a Itália jamais seria mesma sem o seu PCI!

OS RESULTADOS ELEITORAIS


A DERROTA DO PARTIDO SOCIALISTA

Escrutinados quase todos os votos, ouvidos os comentários dos líderes partidários e respectivos cabeças de lista, fica a certeza que o PS registou uma das maiores derrotas eleitorais da sua história, apenas superada pelo catastrófico resultado de Almeida Santos em 1985.
Para essa derrota contribuíram as políticas anti-populares de Sócrates durante quatro anos e a desastrada prestação do cabeça de lista durante a campanha eleitoral. Se as políticas de Sócrates, sempre acompanhadas de actos de pura propaganda e, com o aproximar das eleições, de algumas medidas de raiz demagógica, ainda, a acreditar nas sondagens, se mostravam capazes de aguentar, dentro de limites politicamente aceitáveis, a onda de contestação ao Governo, já o mesmo se não passou com a prestação do cabeça de lista que, com a sua actuação, contribuiu decisivamente para que essa contestação atingisse números antes inimagináveis.
Como aqui dissemos na hora, a escolha de Vital Moreira para cabeça de lista do PS às europeias foi um acto que desafiava a mais imaginativa das compreensões. Que terá levado Sócrates a fazê-lo é ainda hoje para muita gente um mistério, já que não é de acreditar que um líder partidário seja politicamente tão ingénuo que se torne incapaz de avaliar a mais-valia eleitoral de um candidato. Já são mais fáceis de compreender as razões que levam alguém com pretensões políticas a aceitar o desempenho de um papel para o qual não está capacitado. A vaidade é grande inimiga do homem. Do homem comum e do homem inteligente. Infelizmente, atinge-os por igual, mesmo quando se metamorfoseia em falsa modéstia, o que manifestamente não é o caso.
Para o PS a derrota é muito grave tanto pelo que ela representa hoje como pelo que representará no futuro. Não parece quer o PS tenha, nestas eleições, perdido o centro-direita ou sequer a direita que costuma votar nele. O que o partido perdeu foi aquele eleitorado que, ingenuamente, ou por falta de alternativa, acreditava que o PS também era uma força de esquerda capaz de pôr em pratica uma política democrática relativamente distributiva sem concessões àquilo que interiorizou como “dogmas comunistas”. Acontece que esse eleitorado está profundamente decepcionado e descrente na real capacidade de o partido realizar tal política. Por isso, se refugiou na abstenção ou votou no Bloco, cujo crescimento tem sido fundamentalmente alcançado à custa do voto jovem urbano e do eleitorado socialista.
E há fortes motivos para preocupação futura, porque este eleitorado é de muito difícil recuperação. Causticado por decepções sucessivas, e intuindo que a chamada ala esquerda do PS não passa de uma fantasia, este eleitorado tenderá a engrossar o Bloco de Esquerda, logo que seja capaz de romper a barreira psicológica da fidelidade partidária ou de voto. O PS tenderá, por isso, a ser, cada vez mais, um partido de centro com uma forte incidência de centro-direita. O percurso político pessoal de todos – todos, sem excepção! – os seus militantes politicamente intervenientes, oriundos de forças de esquerda, que num passado já remoto ou até mais próximo, contestaram as políticas de direita do PS, tem sido no sentido da sua aproximação às teses de direita que o partido põe em prática, principalmente no campo económico, no social com repercussões económicas e no entendimento da própria democracia política. Quer isto dizer que não há dentro do partido qualquer força política organizada ou organizável capaz de inverter ou, no mínimo, equilibrar a acentuada viragem á direita da nomenclatura socialista.
Por seu turno, a vitória de Rangel está muito longe de constituir a vitória que a direcção do PSD apregoa. A vitória de Rangel acontece, apesar do PSD, por mérito próprio e demérito do seu principal opositor. Não é em termos numéricos uma grande vitória. Pelo contrário, ela confirma o PSD como partido incapaz de encontrar por si uma solução governativa. Nesta vitória pesou muito o facto de Rangel ter aparecido só. Uma campanha com Ferreira Leite será um verdadeiro desastre, por mais que daqui até às eleições os intoxicadores da opinião pública façam um grande esforço de distorção da realidade.
O Bloco tem todas as condições para continuar a subir, embora vá seguramente perdendo em radicalismo aquilo que ganhar em eleitorado.
A CDU é hoje uma força estável, com tendência para alargar a sua influência a outras áreas geográficas, além das tradicionais.
O crescimento das duas forças de esquerda vai ainda depender muito do modo como reciprocamente interpretarem os respectivos papéis. O sectarismo, o triunfalismo ou qualquer tipo de tentação hegemónica ser-lhes-ão fatais. E por isso a esquerda portuguesa, que não milita activamente, mas que inequivocamente dá o seu apoio a uma política de esquerda e espera finalmente poder colher os seus benefícios, nunca perdoaria que razões menores pudessem pôr em causa aquilo que cada vez mais se apresenta como a possibilidade de concretização de legítimas expectativas.
Finalmente, o CDS tem razão para se sentir agastado com as sondagens. Prova de que a vitória de Rangel não é a vitória que o PSD já canta, é o resultado alcançado pelo CDS em condições muito difíceis (principalmente, políticas e económicas), e que muito se deve à boa prestação de Nuno Melo, tanto no Parlamento, como na campanha.
O crescimento do BE, CDU e CDS – os verdadeiros vencedores destas eleições – fará, daqui até Outubro, aumentar o discurso da ingovernabilidade, destinado a preparar, se não houver uma oposição muito firme, susceptível de ser levada às últimas consequências, o clima político para uma reforma do sistema eleitoral patrocinada pelo Bloco Central – PS e PSD.

domingo, 7 de junho de 2009

A DECLARAÇÃO ANTIDEMOCRÁTICA DE VITAL MOREIRA





O PRIMEIRO COMENTÁRIO



O comentário ao resultado das eleições será feito mais logo. Agora apenas cabe sublinhar o comentário antidemocrático do cabeça de lista do PS. Nada que não se esperasse.
Vital Moreira apresentou como facto negativo a votação nos partidos de esquerda, querendo com essa sua afirmação sublinhar o mesmo que qualquer vulgar reaccionário normalmente pensa: a esquerda pode existir, desde que não governe nem constitua uma força capaz de influenciar a governação. Mas pior do que tudo isso é o que veio a seguir, ou seja, o alarme já lançado sobre a alegada fragmentação do sistema partidário. O que isto, por outras palavras, quer dizer é que Vital Moreira já se candidatou para fazer a teorização de uma reforma do sistema eleitoral que leve à aprovação de uma lei que privilegie os dois partidos por agora mais votados, através da criação de falsas maiorias, e marginalize os restantes.
ADITAMENTO
Ouvida a intervenção de Jardim, apraz registar a sua consonância com Vital Moreira. Também ele considera sintoma de "doença democrática"o somatório da votação BE/CDU. É preciso mudar o sistema, diz.

AINDA O DISCURSO DO CAIRO


UMA BREVE NOTA

Não tendo feito, na altura própria, o comentário que o evento justificava, aqui fica uma brevíssima nota sobre a importância do discurso de Obama.
O que o discurso tem de verdadeiramente inovador na política americana desde Reagan, talvez mesmo desde Carter (deixando sempre um hiato para Bush pai, um político realista da velha escola) é a afirmação, sob a forma de princípio, de que a crença nos nossos valores e a convicção com que os defendemos não nos atribui o direito de os impormos aos outros. Traduzindo: a democracia não se exporta. “So let me be clear: no system of government can or should be imposed upon one nation by any other”.
O quarto tema do discurso de Obama, a Democracia, rompe com um dogma do pensamento neoconservador que influenciou decisivamente a política americana nestes últimos trinta anos. Ou seja, que a natureza interna dos regimes influencia o seu comportamento externo e que o poder (americano) deve ser usado para fins morais. Por outras palavras, as sociedades liberais democratas têm o dever de lutar pela mudança dos regimes que não defendem os mesmos valores e devem colocar esse objectivo como uma prioridade da sua política externa, tanto mais que o direito internacional se revelou demasiado fraco para garantir a segurança colectiva.
Esta negação da legitimidade do direito internacional, logo do multilateralismo, a afirmação do papel quase messiânico atribuído ao poder americano na busca do bem geral e a imposição do direito de lutar pela mudança dos regimes que se fundamentam em princípios diferentes dos das sociedades liberais democratas – ou seja, o travejamento basilar do pensamento neoconservador em política externa foi inquestionavelmente posto em causa pelo discurso do Cairo. Verdadeiramente, houve uma ruptura. Veremos se a prática política americana vai estar à altura do significado profundo deste discurso. Veremos também como reagirá, principalmente nas universidades, a grande intelectualidade americana a esta revolução coperniciana da política externa.
Evidentemente, que o pensamento neoconservador estava muito longe de recolher a unanimidade do pensamento político americano, principalmente depois do desgaste que a prática de George Bush lhe causou. Todavia, engana-se quem pensar que há uma parte significativa da intelectualidade americana (e, obviamente, da própria sociedade) imune à influência do pensamento neoconservador. Isso não se passa na América, nem tão-pouco se passa em alguma esquerda europeia, cujas raízes ideológicas não andam, de resto, muito longe da génese ideológica do neoconservadorismo americano.

sábado, 6 de junho de 2009

POLÍTICA INTERNA: TEMA FORTE DE TODAS AS CAMPANHAS



POR QUE NÃO SE DISCUTE POLÍTICA EUROPEIA?

É um facto inquestionável que, em toda a Europa, o grande tema de debate das eleições para o Parlamento Europeu foi a política interna dos respectivos países. Perante um facto tão notório, repetido por todo o lado, com mais ou menos intensidade, não adianta entrar no discurso recriminador, acusando os candidatos, nomeadamente as oposições, de aproveitarem estas eleições para ajustar contas com os respectivos governos. Se os cidadãos sentissem realmente as questões europeias como problemas seus, nada impediria a discussão destes temas e que o seu debate acalorado se fizesse entre os candidatos. Se isso não acontece e se, por todo o lado, em vez de assuntos europeus se privilegia a discussão das questões internas, o que sensatamente terá de fazer-se é perguntar por que razão isso acontece.
A principal razão desta situação parece ser a falta de legitimidade da União Europeia. Mesmo sem grandes elaborações teóricas, nem especiais conhecimentos na matéria, os eleitores sentem que estas eleições servem para muito pouco ou mesmo para nada, como parece ser a opinião da maioria.
A União Europeia regula-se à revelia das mais elementares regras da democracia vigente na maior parte dos Estados membros e as pessoas sabem isso. Sabem que há na UE órgãos políticos a mais e órgãos verdadeiramente representativos a menos e que, em última instância, quem acaba por ser responsável pelo que lá se passa são os respectivos governos nacionais. Mas, se é assim, para que discutir política europeia nestas eleições? Mais: que sentido têm estas eleições?
Neste modelo de construção europeia, atípico e imperfeito, é caso para perguntar se não faria mais sentido que os membros do parlamento de Estrasburgo saíssem dos parlamentos nacionais, mediante uma eleição que respeitasse a proporcionalidade existente na câmara.
Não se trata de defender menos democracia. Trata-se, pelo contrário, de garantir mais transparência e menos mistificação. Se o Parlamento não tem os poderes normalmente atribuídos a um órgão parlamentar para quê elegê-lo directamente? E se o Conselho, cada vez mais poderoso, não responde realmente perante ninguém, a não ser, indirectamente perante as opiniões públicas nacionais, que sentido faz eleger directamente o Parlamento?

AS BASÓFIAS DE QUEIROZ


O JOGO DE LOGO, CONTRA A ALBÂNIA

Ao contrário do que vai dizendo a maior parte dos comentadores, o jogo de logo à tarde da selecção contra a Albânia não é decisivo. Decisivos foram os seis jogados até hoje e a magríssima pontuação neles alcançada. Uma hipotética vitória apenas adiará, por mais algum tempo, um desfecho esperado e inevitável.
Pois, não obstante este triste quadro, o seleccionador nacional continua a “basofiar” (“Se fosse albanês…”) naquele estilo tão típico dos fracos, com total impunidade da imprensa portuguesa, desportiva ou não.
Mas já não falta muito para saber se, apesar de Queiroz, os jogadores conseguem ganhar à Albânia.

BALANÇO DA CAMPANHA


QUEM GANHA E QUEM PERDE

É opinião quase unânime que a CDU e Paulo Rangel fizeram uma boa campanha. O CDS, apertado no seu raio de acção pelo PSD, e sem querer abrir hostilidades contra Rangel, fez o que pôde. O Bloco, cujas expectativas com que parte, ou que outros lhe criam, dificilmente se confirmam, teria estado mais à vontade se a discussão tivesse incidido mais sobre Europa e menos sobre política interna. Finalmente, o PS que, no decurso da campanha, passou da depressão à euforia, provavelmente exageradas tanto uma como outra, acabou-a com a convicção de que dificilmente alcançará um nível de votação que lhe permita aguentar o desgaste governativo daqui até às legislativas.
Na campanha do PS pesaram decisivamente a crise e o cabeça de lista. Ambos pelas piores razões. Por mais que se tivesse esforçado, o PS não conseguiu desligar a sua governação da maior parte das consequências da crise, se não mesmo de algumas causas e isso pesará no resultado final. O modo como durante quatro anos fustigou amplos sectores da sociedade e como agravou as desigualdades sociais, em homenagem a um pretenso valor (redução do défice) que, uma vez alcançado, logo se desvaneceu com a rapidez de um relâmpago, nunca lhe permitiu ter uma campanha fácil e antecipadamente vitoriosa. Contudo, o estado de permanente guerrilha interna em que o PSD iniciou a campanha permitir-lhe-ia acalentar certas esperanças de vitória. Porém, esta possibilidade, mais por demérito do concorrente directo do que por mérito próprio, foi relativamente inviabilizada pela infeliz campanha do seu cabeça de lista.
De facto, saiu-se mal tanto na defesa da política comunitária, como na da política interna. Tendo começado por afirmar que apenas queria discutir Europa, viu-se batido no primeiro frente-a-frente com os demais candidatos quando não foi capaz de responder convincentemente aos argumentos de uma Europa alternativa, nem às repercussões internas da política europeia. Voltou a sair-se mal na política europeia, quando trouxe para a discussão uma proposta muito mal preparada (criação de um imposto europeu), quase de conversa de café, vendo-se obrigado a recuar tanto por pressão das críticas dos concorrentes, como de pressões internas. Perante o agravar da situação, Sócrates e outros notáveis do PS tiveram de intervir na campanha, subalternizar o candidato, para criar no eleitorado a convicção de que a hegemonia eleitoral estava restabelecida. Com este objectivo relativamente conseguido e supondo-o razoavelmente consolidado, as altas figuras do PS voltaram a afastar-se da campanha, deixando novamente o candidato entregue a si próprio. É então que, por iniciativa deste, se assiste a uma reviravolta no discurso eleitoral, doravante apenas preocupado com questões de política interna, para responder mais incisivamente ao principal adversário eleitoral – o PSD. É neste novo quadro que o cabeça de lista abre uma nova frente, ligando o PSD ao BPN, sem ter em conta as repercussões desse discurso no contribuinte, que, por força de uma decisão pouco esclarecida do PS, sabe que vai ter de pagar os onerosíssimos estragos causados no BPN por administrações ruinosas, sempre com o silêncio e a complacência da autoridade reguladora.
Rangel, que andou quase sempre só, aproveitou o debate sobre temas nacionais para tirar toda a vantagem da discussão. Acabou por capitalizar o facto de não beneficiar abertamente do apoio de ninguém importante dentro do partido, mostrando-se como o novo rosto do PSD. Pode não ter tido banhos de multidão, laboriosamente organizados pelas estruturas partidárias, pode não ter feito comícios previamente encenados com cânticos, bandeirinhas e outras coreografias, mas apesar de ter andado sempre só nunca deu a imagem de ser um homem isolado. Pelo contrário, é nele que o militante desenfeudado e o votante anónimo do PSD confiam para fazer ressurgir o partido. Pode não ganhar, mas andará lá muito perto.
O CDS, com Portas e Nuno Melo, fizeram um grande esforço para encontrar um espaço de afirmação numas eleições onde o partido já defendeu quase todas as posições possíveis relativamente à Europa. Nesta campanha privilegiaram a política interna, realçaram os méritos da sua actividade parlamentar de oposição ao governo, nomeadamente a vigorosa denúncia e posterior investigação da complacência culposa da entidade reguladora das actividades financeiras, embora muito provavelmente nada disso impeça que o CDS venha a ser o grande sacrificado do voto útil (que nestas eleições até nem tem razão de existir) e o principal prejudicado do ressurgimento do PSD. Se conseguir eleger um deputado, poderá dar-se por feliz.
O Bloco, que começou muito bem na discussão das questões europeias, opondo-se com vantagem ao que parecia ser o ponto mais forte do candidato do PS, acabou por fazer uma campanha tipicamente de questões internas, num estilo muito próximo do que tem sido a matriz do partido desde que foi criado. O seu êxito vai fundamentalmente resultar da mobilização do voto urbano jovem. Provavelmente duplicará a sua participação no PE.
A CDU fez desde o princípio ao fim uma campanha muito forte, coerente e sem falhas. Vendo a Europa como mais um palco de luta pela defesa dos interesses nacionais, tal como os interpreta, a CDU não tem que se defrontar com alguns dos problemas atinentes à construção europeia com que os outros partidos se defrontam. Por outro lado, continuando a ser a força social mais consistente, com maior capacidade de luta e de reivindicação, a CDU, numa eleições como estas, poderá captar o voto de todos aqueles que entendem ser benéfico para a democracia a existência de um partido relativamente forte capaz de se opor com tenacidade e persistência aos desvarios de um governo que não hesita em passar por cima dos interesses da maioria em nome de uma mirífica e nunca alcançada vantagem futura. Ponto é saber se, não obstante toda essa imensa capacidade de luta, aumentará o número de deputados.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

AINDA A CAMPANHA DO PS E O BPN


O QUE TODO O MUNDO PERCEBE

A sondagem de hoje, da Católica e a de ontem, da Marktest, demonstram que algo vai mal na campanha do PS. Mais correctamente: que algo piorou, desde que a campanha começou.
Toda a gente sabe que o PS partia para estas eleições em condições difíceis. Pela ordem natural das coisas, se o PSD estivesse minimamente unido e não constituísse um partido tão próximo de um reino feudal como na realidade constitui, o PS perderia as eleições. Com o PSD na situação em que está, a vitória do PS parecia assegurada sem dificuldades de maior.
Certamente que o PS e o PSD têm, à escala nacional, uma quota-parte de responsabilidade na crise internacional actual. Tanto um partido como outro tudo fizeram, enquanto governaram, para colocar o país a la page com o que de mais “moderno” se passava lá fora em matéria de liberalização da economia, desregulamentação, diminuição do papel do Estado, entrega dos sectores estratégicos da economia à ganância do lucro privado, discriminação do trabalho como força social e secundarização das classes trabalhadoras no processo produtivo. O discurso de ambos os partidos foi e continua a ser um discurso completamente orientado para as empresas, no qual, sem pudor, como a coisa mais natural do mundo, se concebe e se defende o Estado como instituição ao serviço exclusivo do capital. E no que respeita ao processo de construção europeia, a sintonia ainda é maior. Teoricamente, não haveria portanto razões para beneficiar um partido em detrimento de outro já que ambos são por igual responsáveis pelo que se passa na sociedade portuguesa, servindo as bravatas que aqui e ali eclodem entre os seus dirigente apenas par disfarçar a grande consonância existente entre ambos sobre tudo o que é essencial. Esta grande convergência de propósitos não significa que não haja, como na realidade há, uma luta intensa pelo exercício do poder de que as bravatas sobre questões menores constituem o exemplo mais significativo.
Evidentemente que a grande força do poder ideológico, que se manifesta em todos os domínios da sociedade e sem o exercício e os efeitos do qual não seria possível manter a coesão social, faz com que as coisas sejam vistas de forma muito diferente daquilo que na realidade elas são pela generalidade dos eleitores. E é esse poder que, no fundo, assegura a alternância entre o PS e o PSD.
Exactamente por isso é que certo tipo de bravatas não cabem neste jogo e quando são usadas por uma das partes elas acabam por ter um efeito completamente diferente do esperado perante aquelas pessoas – e são a larga maioria – que, apesar de sujeitas ao tal poder ideológico - que não lhes permite ver a realidade como na realidade ela é -, nesses casos não se deixam enganar tal a evidência dos factos em questão.
Assim aconteceu, se bem interpreto, com a tentativa de ligação do caso BPN ao PSD. Certamente que o que se passou no BPN releva do gangsterismo financeiro e também é verdade que muitos dos que lá estavam desempenharam papéis importantes no PSD. Só que nestas matérias o eleitor sabe que comportamentos igualmente reprováveis são comuns a gente do PS e que essa gente se aproveitou ou aproveita do aparelho de Estado, a qualquer nível, para colher vantagens pessoais. E sabe também que as tais situações de gangsterismo financeiro somente foram possíveis porque quem fiscalizava fechou completamente os olhos a todas as práticas ilícitas e duvidosas. No mínimo, fê-lo por negligência grosseira, já que o dolo eventual, nestas circunstâncias, é muito difícil de provar. Mas já não é difícil provar que havia, por parte da entidade reguladora, uma predisposição sociológica e política, reiteradamente manifestada ao longo dos anos, de protecção do capital financeiro em detrimento dos utentes do sistema, que fez com que situações igualmente graves tivessem acontecido noutros bancos e possam inclusive estar ainda a ocorrer noutras instituições.
A incapacidade de aceitação das responsabilidades, contra toda a evidência dos factos, por parte da entidade reguladora demonstrou que ela não está em condições de se auto-regenerar e demonstrou também que a protecção que o governo dela fez e faz apenas se compreende por via de uma cumplicidade empenhada na defesa do mesmo tipo de interesses.
Por estas razões e porque a generalidade das pessoas finalmente percebeu que vão ser elas, enquanto trabalhadores e contribuintes, a pagar o gangsterismo de uns e a incúria de outros, é que a bravata trazida para a campanha eleitoral pelo cabeça de lista do PS se virou contra o próprio partido e fez com que, juntamente com outros dislates menores, tivesse havido uma reviravolta nas intenções de voto. Que pode não ser suficiente para a derrota, mas que anda lá muito perto.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

ELEIÇÕES EUROPEIAS: ÚLTIMA SONDAGEM


AFINAL, QUEM VAI À FRENTE?

Caiu como uma bomba nas hostes socialistas o resultado da sondagem da Marktest para a TSF e o Jornal de Negócios, que prevê um empate técnico, com vantagem de dois pontos para o PSD.
Se outras sondagens, a publicar nos próximos dias, confirmarem os resultados desta, isso significará que o PS e a maior parte dos órgãos de comunicação se enganaram redondamente sobre a marcha da campanha eleitoral. Depois de um começo verdadeiramente desastroso, o PS acreditou que, com a descida de Sócrates ao terreno, havia invertido o rumo da campanha e assegurado uma vitória tranquila aos seus candidatos. E a tal ponto esta convicção se deve ter instalado no seio do estado-maior socialista, que até os “candidatos clandestinos” receberam autorização para se mostrar e intervir na campanha.
Pelo contrário, Rangel, que foi fazendo a campanha muito isolado ou com apoios indesejáveis, pode passar de candidato derrotado a candidato vitorioso. Se isso acontecer, tal situação não deixa de constituir uma estrondosa derrota para o PS e para a auto-suficiência do seu cabeça de lista. De facto, em muitos momentos da campanha, Rangel mais parecia uma daquelas equipas que jogam sem treinador e com os vencimentos em atraso, tal a solidão que frequentemente o acompanhava mesmo nas tradicionais praças-fortes do PSD.
Os meios materiais de que o PS dispõe e que faustosamente exibiu durante toda a campanha justificariam uma vantagem folgada. Se a não alcançar, como se espera, estas eleições, se para outra coisa não servirem, teriam pelo menos o mérito de pôr termo à arrogância socialista e à sua incapacidade para aceitar pontos de vista diferentes dos seus por mais razoáveis que sejam.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

ISRAEL E AL QAEDA: A GRANDE CONVERGÊNCIA



OBAMA AMANHÃ NO CAIRO


Barack Obama iniciou hoje uma importante visita aos dois países árabes aliados dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Egipto, com o objectivo declarado de dar um passo muito importante no processo de reconciliação dos Estados Unidos com o Islão. É, por isso, aguardado com expectativa o discurso que o Presidente americano amanhã pronunciará na Universidade do Cairo, num acto também patrocinado pela Universidade Al Azhar, uma das grandes referências históricas do pensamento muçulmano.
Ciente de que o conflito israelo-palestiniano é a chave para a resolução da maior parte dos problemas internacionais com que a América se defronta, esta administração tem-se mantido firme na exigência de dois Estados e no desmantelamento dos colonatos. Até ao presente as autoridades judaicas sabiam que as anteriores administrações americanas, nomeadamente as últimas, quando formulavam idênticos propósitos não eram para ser levadas a sério. E a concordância de princípio que as autoridades judaicas condicionalmente exprimiam era do mesmo modo interpretada pelas autoridades americanas. Uma dupla reserva mental subjazia à política americana do Médio Oriente.
Desta vez os judeus estão conscientes de que algo mudou. A ponto de os EUA poderem deixar de apoiar incondicionalmente Israel nas Nações Unidas como sempre tem vindo a fazer desde a Guerra dos Seis Dias. Essa razão por que Israel tudo fará para que a política americana de aproximação aos árabes em particular e ao Islão em geral fracasse. Nesse sentido, Israel trabalhará no terreno e o lobby judaico, na América, onde, é bom não esquecer, Israel continua a ter um grande peso, tanto no capital financeiro (actualmente em crise profunda) como na política, principalmente no Senado.
Pelo seu lado, a Al Qaeda, a quem esta viagem claramente incomoda, faz o possível por alcançar um resultado semelhante ao pretendido por Israel, a ponto de Bin Laden ter emitido uma nova mensagem de mobilização dos combatentes islâmicos contra o grande Satã.

OS PRISIONEIROS DE GUANTÁNAMO E PORTUGAL


POR FAVOR, PEÇAM-NOS PARA OS RECEBERMOS

Cerca de cinco meses depois de empossada a administração Obama, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português vai, finalmente, ser recebido na próxima sexta-feira pela sua homóloga, Hillary Clinton.
Luís Amado considera que já há suficiente harmonização entre os países da União Europeia para que, doravante, os que assim o desejarem, possam responder favoravelmente aos pedidos americanos de recepção dos detidos de Guantánamo. E que Portugal só espera uma solicitação concreta e directa dos Estados Unidos para poder considerá-la.
Não tínhamos dado conta que, não obstante as insistências de Amado, haja no quadro comunitário uma posição comum. Pelo contrário, o que tem resultado das várias vezes em que o assunto já foi tratado é uma grande divergência de posições entre os Estados membros, com a agravante de, no âmbito do espaço Shengen, a decisão tomada por um Estado afectar necessariamente os demais. O que o Ministro talvez tenha querido dizer é que não havendo possibilidade de acordo, cada um assumirá as suas responsabilidades.
Para além desta questão prévia, não pode deixar de estranhar-se que este assunto constitua uma prioridade para o Governo português nas negociações de sexta-feira, em Washington. O Ministro com um afã de mostrar serviço aos “queridos aliados” começou por voluntariar-se, sem sequer ter ouvido os parceiros comunitários e sem, internamente, ter ouvido outras entidades, nomeadamente o Presidente da República. Passados vários meses, sem que os americanos tenham apresentado qualquer solicitação, o Ministro continua a voluntariar-se e a oferecer-se, quase pressionando os americanos para que lhe peçam o translado de prisioneiros para Portugal.
É uma “diplomacia” difícil de compreender e seria muito mais avisado da parte do Ministro, em vez de andar a tentar prestar um serviço que ninguém lhe pediu e que os portugueses seguramente rejeitam, interrogar-se sobre as razões que têm levado os americanos a não desejar esse favor de Portugal…

A AGENDA ANTI-BARROSO DE SOARES


EM QUESTÃO A PRESIDÊNCIA DA COMISSÃO EUROPEIA

Depois de várias ameaças e outras tantas críticas ao putativo candidato indigitado à Comissão Europeia, Mário Soares, na esteira de Ana Gomes, conseguiu finalmente lançar entre os notáveis um pequeno movimento de contestação ao apoio que certos chefes de governo socialistas já concederam a Durão Barroso para mais um mandato à frente da Comissão Europeia.
Este movimento poderá fazer todo o sentido enquanto movimento de natureza puramente clubista: apoiar um “nosso” em vez de apoiar um dos “outros”, embora politicamente se não perceba muito bem que diferença possa haver entre um presidente socialista e um presidente como Durão Barroso. Afirmar que tal apoio constitui um “verdadeiro suicídio político” para os socialistas é manifestamente um exagero e é apenas mais uma das típicas demagogias dos socialistas que tendem sempre a vincar as diferenças do que é acessório para escamotearem a consonância de posições com a direita sobre tudo o que é essencial.
É caso para perguntar a Mário Soares e aos demais socialistas que se juntaram ao apelo contra Barroso quem governou maioritariamente a União Europeia a 15, quem ainda hoje a governa maioritariamente a 28, isoladamente ou em coligação, e quem foi, portanto, responsável pela implementação do programa neoliberal que indiscutivelmente constitui a sua matriz. É caso até para dizer que as maiores objecções à construção neoliberal vieram sempre da França, cujas posições eram muito desdenhadas em Bruxelas pelos socialistas.
Se Mário Soares e outros socialistas portugueses estão realmente empenhados numa agenda política de combate ao neoliberalismo devem começar pela própria casa e não lhes faltarão certamente bons motivos para se manterem activos.
E se apelo tem como causa remota o apoio concedido por Barroso à guerra do Iraque não deixa de ser espantoso que ele esteja também assinado por Aleksander Kawaniewski, ao tempo presidente a Polónia, grande apoiante, com tropas, da invasão do IRaque!

O A330 DA AIR FRANCE


UM ACIDENTE SEM EXPLICAÇÃO


Causou uma enorme comoção o acidente com o moderníssimo Airbus da Air France ao largo de Fernando Noronha. Quem frequenta com regularidade aquela rota sabe bem, qualquer que seja a época do ano, que praticamente não há viagem sem turbulência exactamente na zona onde se presume que o avião caiu.
Se a viagem é feita de dia, como normalmente acontece no sentido Europa-Brasil, é muito frequente verem-se naquelas paragens nuvens gigantescas, assustadoras, que os pilotos contornam para fugir às consequências danosas das tempestades. Quem desde há muito viaja para o hemisfério sul também sabe, ou pensava saber, que os aviões estão equipados com radares meteorológicos que lhes permitem detectar com a devida antecedência as rotas perigosas. Creio que esta tecnologia já existe há muitas décadas, embora tenha vindo a ser cada vez mais aperfeiçoada com os extraordinários progressos técnicos proporcionados pela informática.
O A330 é o “supra-sumo” da Airbus e certamente que a última coisa que um passageiro experiente admitiria é que um avião daquela gama e com a sua extraordinária tecnologia poderia cair depois de atingida a altitude e velocidade cruzeiro.
Das muitas explicações que se aventam, insusceptíveis de confirmação se as caixas pretas não forem encontradas, resta sempre a dúvida sobre se o erro humano não é o principal responsável pelo que de outro modo não tem explicação.
Nos muitos depoimentos prestados, nas televisões nacionais e estrangeiras, por pilotos de várias nacionalidades, não pode deixar de sublinhar-se a segurança e a lucidez das respostas prestadas pelos pilotos da TAP.

terça-feira, 2 de junho de 2009

ISRAEL CRITICA EXIGÊNCIAS AMERICANAS



GOVERNO ISRAELITA GARANTE QUE NÃO DESMANTELARÁ COLONATOS


A poucos dias do esperado discurso de Barack Obama no Cairo, cresce a tensão entre o governo israelita e a administração americana, não apenas pelas divergências relativas à situação dos colonatos, mas também por começar a haver do lado judaico a convicção de que Obama quer ganhar a simpatia dos árabes e muçulmanos em geral à custa de Israel.
Membros do governo israelita de extrema-direita já não fazem segredo em demonstrar publicamente o seu descontentamento face à administração Obama, acusando-a de pender para o lado palestiniano.
Torna-se agora mais claro que a Israel só interessa uma paz que resulte de um diktat. Na verdade, Israel nunca aceitou o princípio dos dois Estados (ainda há dias tive oportunidade de ler a primeira conversa de Golda Meir com Nixon - numa altura, portanto, em que o trabalhismo governava Israel sem que ninguém lhe fizesse frente – durante a qual ela disse abertamente ao presidente americano que os dois Estados já existiam – Israel e Jordânia – e que teria de ser no território jordano que os palestinianos teriam de se acantonar), assim como também nunca aceitou o princípio de desmantelamento dos colonatos, nem da proibição de construção de novos colonatos. A distinção que eles fazem – e que a actual administração americana não aceita – entre colonatos “legais” e colonatos “selvagens”, era claramente uma distinção para “americano ver” e seguramente destinada a fazê-los aceitar, sem mais discussão, os “legais”, como parece ter resultado com W. Bush.
A agravar a situação, há ainda o facto de a administração americana não estar a actuar contra o Irão com a “firmeza” que Israel reclama.
Do ponto de vista americano, a política que esta administração está a tentar levar à prática no Médio Oriente é inequivocamente a que melhor serve os seus interesses. Mas não vai ser fácil implementá-la. Ela vai ser boicotada, vai ser vítima de vários “golpes”, além fazer correr a Obama riscos pessoais graves.