terça-feira, 19 de maio de 2009

VASCO LOURENÇO: UM HERÓI DO NOSSO TEMPO



A FORÇA DA CORAGEM


As longas viagens de avião, principalmente se realizadas de dia, permitem durante horas a fio a leitura ininterrupta de livros, que, noutras circunstâncias, estariam sujeitos a múltiplas interrupções. E não há nada como a leitura seguida para “mergulhar” completamente o leitor na ambiência da escrita.
Impressionou-me fortemente o percurso de Vasco Lourenço na Guiné. Embora em situação melhor que a dele, também eu fiz a guerra colonial na Guiné, quando Spínola era Governador e Comandante em Chefe da colónia.
Assisti aos feitos da poderosa máquina de propaganda por ele montada para ter efeitos em Portugal e nas colónias, principalmente na Guiné. Em Lisboa, era a República, com Raul Rego à frente, que, no campo da oposição, mais ajudava a divulgar a lenda spinolista. Nas Forças Armadas e nos meios criticamente afectos ao regime, uma legião de fiéis encarregava-se de fazer chegar a todo o lado as virtudes e as qualidades do chefe, construindo lendas, inventando histórias, a ponto de até a imprensa de países com liberdade de expressão, como a francesa, as repetir acriticamente.
Porém, quem, com um mínimo de experiência política, fez a tropa na Guiné, sabia que tudo não passava de uma gigantesca operação de propaganda e de demagogia barata, alimentada por um séquito de incondicionais que tudo fazia para servir os projectos de poder de Spínola.
A verdade era bem outra. Spínola, não obstante as mudanças tácticas de condução da guerra, ensaiadas muito tardiamente, como Vasco Lourenço muito bem sublinha, foi derrotado militar e politicamente na Guiné, como Costa Gomes constatou, dois ou três meses depois do seu regresso a Lisboa, quando lá se deslocou já no tempo de Bettencourt Rodrigues.
Spínola, enquanto exerceu funções políticas e militares, foi frequentemente prepotente com os inferiores hierárquicos que não o adulavam e sob o discurso, na aparência, politicamente diferente, feito nas paradas dos quartéis ou nos “Congressos dos Povos da Guiné”, estava sempre presente o homem que, integrado na Divisão Azul, visitou a frente de Estalinegrado, aspirando por uma vitória nazi.
Por tudo isto, pelo medo que a sua arbitrária prepotência frequentemente infundia, poucos eram aqueles que ousavam fazer-lhe frente. Um ou outro oficial general da Marinha, mais ou menos abertamente, um ou outro miliciano, logo castigado de facto ou de direito e pouco mais.
A chegada a Bissau de um jovem capitão, comandante de companhia, integrado num batalhão de infantaria, sediado numa das zonas mais críticas da guerra, ajudou, com a sua corajosa frontalidade, a desmontar o mito e a demonstrar que era possível fazer frente a Spínola em todos os planos: no político, no militar e até no da coragem física.
Para quem não viveu os tempos da ditadura ou desconheça o sentido normalmente atribuído ao conceito “disciplina militar”, principalmente em tempos de guerra, poderá não reconhecer no comportamento de Vasco Lourenço o valor e o significado que ele realmente teve. Mas quem viveu aqueles tempos sabe que os factos narrados por Vasco Lourenço, em “Do interior da Revolução”, ao longo de vinte e quatro meses de comissão, são verdadeiramente heróicos. Além do mais, eles demonstraram que, se era possível fazer frente ao general mais idolatrado da ditadura, também seria possível fazer frente à própria ditadura.
Por isso, o 25 de Abril deve muito a Vasco Lourenço.

3 comentários:

Osvaldo Castro disse...

Meu Caro Correia Pinto,

Fiz link pra o Praça Stephens neste post, merecido e excelente, sobre o capitão de Abril Vasco Lourenço.

Abraço

OC

ComRevDe disse...

Não é Vasco Lourenço que se gaba de ter levado em frente o 25 de Novembro?

JMC Pinto disse...

Obrigado Osvaldo.
Agora, respondendo a ComRevDe:
Meu Caro: A história é mais complexa. Voltarei ao tema e até poderia contar coisas que ninguém sabe. Mas, para quê, se as não posso provar?
Só para concluir: há mais que um 25 de Novembro, como também há mais que um anti-25 de Novembro.
Quer mesmo saber a minha opinião a 34/35 anos de distância: perdemos por culpa própria.
Obrigado pelo comentário
JMC Pinto