quinta-feira, 22 de agosto de 2013

“O LUGAR DE EUSÉBIO”


OU A MISTIFICAÇÃO HISTÓRICA
O Estado Novo tem sido estudado e reestudado por muitos historiadores contemporâneos e existe hoje sobre ele uma abundantíssima bibliografia, muito desigual na sua qualidade e frequentemente mistificadora daquilo que foi o mais duradoiro regime político do século XX português, se não mesmo um dos mais duradoiros do século XX, nomeadamente se tendermos a identificar a essência do regime com o governo de um homem que lhe deu forma, sentido e características individualizantes, não completamente coincidentes com outros da mesma época, não obstante a tendência para encontrar paralelismos em regimes já implantados noutros países ou que logo depois se implantaram.
Por outro lado, para além das obras gerais abarcando a historiografia política, económica e social, há inúmeros estudos parcelares e sectoriais que, partindo quase sempre de uma visão de conjunto, tendem a encontrar nesse específico sector objecto de estudo as linhas políticas dominantes caracterizadoras do regime. A verdade é que a realidade foi quase sempre mais inventiva do que o enquadramento que os esquemas preconcebidos deixam compreender. E se há sectores onde as notas dominantes do regime estavam muito presentes, outros há onde as diferenças entre o que se passava cá e lá fora são quase nulas ou, a existirem, funcionavam num sentido de certo modo oposto ao que por vezes se pretende sugerir.
Um dos sectores da vida social e política portuguesa da época que não tem merecido a atenção dos grandes nomes da nossa historiografia contemporânea é sem dúvida o desporto e, dentro dele, o futebol.
São poucas e pouco relevantes as obras sobre o Estado Novo e o futebol. Há muitos artigos dispersos, alguns deles de duvidosa qualidade, há as referências ligeiras numa ou noutra obra generalista, mas escasseiam as obras que tenham estudado o fenómeno com objectividade e rigor.
E é talvez por isso que hoje, perdida, ou quase perdida, que está a memória dos que foram contemporâneos do fenómeno se assiste a uma verdadeira reinvenção daquilo que foi a vivência do futebol no Estado Novo ou da sua importância política.
O futebol nunca foi para o estado Novo uma prioridade. Obviamente que o Estado Novo não era alheio ao desporto e ao seu enquadramento como factor de educação da juventude escolarizada. E, para começar, é bom que se atente no adjectivo. Praticamente não havia desporto escolar no ensino obrigatório. Somente nos liceus, e em muito menor medida nas escolas comerciais, é que a “educação física” adquiria alguma relevância como cadeira curricular. Mas nela o futebol não desempenhava nenhum papel, absolutamente nenhum, como também não desempenhava nas actividades da Mocidade Portuguesa. Pelo contrário, o futebol era reprimido nos tempos livres e a sua prática sujeita a sanções – é certo cada vez mais difíceis de aplicar e por isso tolerado sempre que o local onde se jogava não perturbava a actividade dos recreios, o que era difícil.
Esta atitude contra o futebol nas escolas, era acompanhada por uma marcada distanciação do regime em relação ao futebol em geral, nomeadamente ao futebol “não amador”, que era o futebol jogado pelos clubes da Primeira Divisão. Pelo menos, por alguns, já que outros, como a Académica, se mantiveram fieis ao desporto amador, apesar de essa qualificação não passar, em grande medida, de uma ficção.
Não se infira, porém, daqui que o desligamento do Estado Novo relativamente ao futebol era total. O Estado Novo, apesar de muito parco em apoios à actividade desportiva e de praticamente não subsidiar financeiramente a construção de infraestruturas indispensáveis à prática do desporto, não se coibiu de construir o Estádio Nacional, inaugurado em 10 de Junho de 1944, como uma espécie de santuário, não verdadeiramente da prática desportiva, mas de desfiles desportivos sempre ligados a datas históricas que o regime queria homenagear e criar, à luz delas, a sua própria imagem identitária.
Durante a década de cinquenta muitos atletas, nomeadamente futebolistas, oriundos das colónias começaram a fazer parte das equipas portuguesas. Alguns estavam na “Metrópole” como estudantes, como é o caso dos futebolistas ultramarinos dessa época que alinhavam na Académica, outros vieram expressamente para integrar as equipas nacionais. O desenvolvimento do futebol, principalmente em Angola e em Moçambique – mais em Moçambique -, devido ao apoio que algumas empresas coloniais prestavam aos clubes, se é que não tinham elas próprias o seu clube, a criação de filiais das grandes equipas “metropolitanas” nas colónias, a ida para África de treinadores e outros profissionais do desporto favoreceram esse recrutamento que começou, como se disse, em grande escala na década de cinquenta e que depois se manteve sempre em crescendo até ao 25 de Abril.
Na década de 50, brancos e pretos oriundos das colónias, que depois se tornaram famosos no futebol português, chegaram a Lisboa e ao Porto para representar o Benfica, o Sporting, o Belenenses e o Porto. Dentre os brancos, José Águas, Juca, Costa Pereira e Acúrsio foram certamente os mais notáveis. Entre os pretos e mestiços, no Belenenses, o lendário Matateu, mais tarde o seu irmão Vicente; no Benfica, Santana e Mário Coluna, o grande capitão da história do Benfica; no Porto, Albasini, Miguel Arcanjo, Carlos Duarte e Perdigão; no Sporting, Mário Wilson e Hilário, entre outros; na Académica, Torres. Só mais tarde, em Dezembro de 1960, Eusébio chegou ao Benfica.
Quando Eusébio chegou à “Metrópole” já era um dado adquirido a presença de grandes jogadores “ultramarinos” nas equipas “metropolitanas”. Eusébio seria apenas mais um, se as credenciais de que vinha acompanhado se confirmassem.
Evidentemente, que o Estado Novo não levantava qualquer tipo de objecção a que os jogadores “ultramarinos” integrassem as equipas “metropolitanas”, mas daí a dizer-se que o regime desempenhava nesse recrutamento um grande papel ou que se prevalecia da sua presença no território de “Portugal continental” para disso tirar dividendos políticos vai uma distância que a história não confirma. E dizer, como faz, o autor (Nuno Domingos) do primeiro artigo da série hoje iniciada no Público - Racismo e Colonialismo – que Eusébio era uma espécie de ícone do regime, não passa de uma mistificação construída a partir de uma realidade puramente imaginada.
Dá-se até o caso de praticamente todos os que chegaram na década de 50, com uma pequena nuance para Matateu, serem pessoas mais evoluídas que os seus colegas metropolitanos, que falavam mal o português, tinham muita dificuldade em se exprimir, exactamente por o futebol estar muito ligado ao analfabetismo e às camadas menos instruídas da população, enquanto os que vinham de Moçambique e de Angola se exprimiam bem, com alguma fluência, dando a ideia de que provinham de um ambiente bem mais aberto e esclarecido que o metropolitano donde eram oriundos os seus colegas de equipa - não todos, obviamente, mas a maior parte deles.
Neste plano, com Eusébio, assistiu-se a uma acentuada regressão. Aliado à muita timidez de um miúdo nascido e criado na Mafalala, sem contacto com a “cidade do cimento” e as suas vantagens, constatava-se uma quase completa ausência de educação “assimiladora” - Eusébio quase não sabia falar português, exprimia-se muito mal, por monossílabos e embora se depreendesse do seu olhar e dos gestos uma inteligência viva, específica, faltavam-lhe sempre as palavras para exprimir as ideias que nunca conseguia verbalizar. Ficaram famosas as primeiras entrevistas televisionadas conduzidas por Artur Agostinho, em que o popular locutor perguntava e respondia por Eusébio a partir de uma prévia conversa à margem das câmaras ou do que dele conhecia pelas muitas viagens que faziam juntos.
Com Eusébio em Lisboa, sob a permanente luz da ribalta, pelos extraordinários feitos desportivos de que era o principal intérprete, abriu-se, para quem desconhecia a realidade colonial, uma frecha que deixava ver com muita mais clareza o que era em África a vida e a instrução dos africanos.
Obviamente que as vitórias do Benfica e os êxitos da selecção nacional, nomeadamente a memorável participação no Mundial de 1966, em Inglaterra, deram a Eusébio e aos demais companheiros uma visibilidade mundial que antes não tinham. Nessa mesma época, a televisão iniciava os primeiros passos nas transmissões em directo, propagando os feitos dos que se notabilizavam pelos cantos do mundo que tinham o privilégio de a eles poder assistir em directo ou, mais tarde, em resumos. A outra parte do mundo – e era a maior parte -, ainda sem televisão, continuava a receber essas notícias apenas pela rádio e pela imprensa.
Também não é minimamente verdade que a idolatria por Eusébio tivesse sido fomentada pelo Estado Novo. Quem propagava os feitos de Eusébio era a imprensa independente e em muito menor escala a nascente televisão, mais pela força da imagem do que pela palavra. Era na Bola, jornal formado por oposicionistas ao regime de Salazar e com uma redacção constituída por democratas (com duas execepções), alguns até próximos do Partido Comunista, que os feitos de Eusébio eram propagandeados e assim chegavam (sempre tardiamente) às colónias, principalmente a Angola e a Moçambique. No estrangeiro, nomeadamente na Inglaterra, era o único nome do futebol mundial que rivalizava com Pelé.
A imprensa da época, tanto a oficiosa como a que se esforçava por se manter independente, não dava qualquer relevo ao desporto. Serão muito poucas as primeiras páginas de jornais generalistas anunciando ou celebrando feitos desportivos individuais ou colectivos. Na rádio, a mesma parcimónia. O desporto quando era notícia – e maior parte das vezes não era - era tratado no fim dos noticiários quase sempre laconicamente. O mesmo se passava na televisão. Raramente uma notícia desportiva integrava o telejornal e o tempo de transmissão dos programas desportivos num ano era seguramente inferior ao que hoje qualquer canal generalista lhe dispensa num mês!
Em Portugal não acontecia, nem de perto nem de longe, no plano oficial, o que no Brasil se passava com Pelé. O regime brasileiro, tanto antes como durante a ditadura militar iniciada em 1964, fez de Pelé um símbolo do Brasil.  Pelo contrário, em Portugal, o futebol e os seus principais intérpretes, apesar das vitórias o Benfica e dos êxitos da selecção nacional, tiveram sempre para o regime uma importância secundária, sendo mesmo em alguns casos uma potencial fonte de preocupações.
Pode hoje pensar-se que as duas vitórias sucessivas do Benfica na Taça dos Campeões Europeus e a participação em mais três finais no curto espaço de quatro anos representavam para o regime um feito de que este não poderia deixar de se aproveitar. Mas não foi assim, nem havia motivos para assim ser. Antes do Benfica, quem tinha ganho as cinco anteriores competições da Taça dos Campeões Europeus fora o Real Madrid, verdadeiro símbolo do franquismo e da mais impiedosa ditadura europeia da época. Que é que o regime português tinha para se prevalecer perante as democracias ocidentais e do leste que antes já não tivesse sido alcançado pela Espanha? Nada, portanto, que se compare ao que representou para a Alemanha do pós guerra a vitória no mundial de 1954 ou o que representaram para o Brasil as vitórias de 1958 e 1962 - a da Alemanha para “vingar” a humilhação de 1945, as do Brasil para fazer esquecer o “maracanazo” de 1950!

10 comentários:

Alcipe disse...

Muito bom artigo, Zé Manel. Não podemos deixar mistificar a memoria

Zé_Lucas disse...

No entanto, os 3 f's era o que os movia...

Zé da Póvoa disse...

Esforço inglório do autor que não consegue mistificar a realidade. Eusébio foi, efectivamente, um ícone e a própria equipa que representava era a equipa do regime fascista, a exemplo do Real Madrid em Espanha, do Dínamo de Bucareste na Roménia e outras. Eusébio teve oportunidade de ir jogar para Itália e fazer fortuna e foi o regime de então que o impediu porque a figura negra de Eusébio permitia apresentar o regime como pluri-racial. De resto ainda deve haver imagens de cerimónias públicas (ex: inauguração da ponte Salazar) em que jogadores negros do benfica, além de Eusébio e Coluna, aparecem logo atrás do presidente Tomás com a bandeira do clube numa mão e a da Legião na outra. O próprio Coluna ainda há pouco confirmou isso tudo.

JM Correia Pinto disse...

Falar de História como quem fala de futebol não dá. Neste espaço só falo de coisas sérias. Conversa de Trio de ataque, de Pinto da Costa ou de LFV tem de ser noutro lado. Entendido?

Zé da Póvoa disse...

O comentário que enviei é uma coisa séria, aliás uma coisa muito séria mesmo. Ele traduz uma realidade infelizmente vivida por muitos de nós e de que ainda há documentação que a pode confirmar.
Não falo em futebol, nem em penalties, nem foras de jogo. A realidade é o que é e não aquilo que alguns gostariam que fosse!

Ricardo Lima disse...

As declarações de Coluna são puramente fantasiosas. Não é novidade para ninguém que Coluna está manifestamente diminuído. Nessa entrevista disse: No meu tempo, os estatutos do Benfica proibiam a contratação de jogadores estrangeiros. Falso. Os estatutos do Benfica nunca tiveram uma norma com essa proibição.
Atravessei a Ponte com Thomaz, disse também. É só ver os vídeos. Onde está Coluna? É porem provável que a Associação de futebol de Lisboa tenha sido convidada e que jogadores representativos dos grandes clubes da capital ou os próprios clubes tenham estado presente. Mas somente uma investigação histórica séria o poderá confirmar …e explicar.
Salazar proibiu-me de sair, disse também Coluna. Falso. Essas proibições nunca existiram. Trata-se de uma fantasia. A proibição como diz o A do post era do clube. Mas também não há notícia desses convites relativamente a Coluna, apesar de ter deixado muito boa impressão no Brasil da primeira vez que lá foi numa digressão organizada por Otto Glória. Mas não apenas ele também Costa pereira e José Águas.
Finalmente dizer que o Benfica era o clube do regime é uma afirmação ridícula. Em toda a sua história o Benfica teve apenas um dirigente 8pouco importante) ligado ao regime, à União nacional. Foi o único clube português que sempre teve eleições durante o fascismo. Compara-se com os outros. E só uma sonora gargalhada poderá servir de resposta. Até se poderia ir mais longe e falar da democracia hoje nos clubes de futebol. Embora ela esteja em vias de ser completamente substituída pelo dinheiro, há como se sabe clubes, ou melhor dizendo, um clube cuja democracia interna apenas encontra alguma rivalidade na Coreia do Norte.
Sobre o futebol e o Estado Novo, pode ler-se o livro de Ricardo Serrado, que o Ado post não cita

Zé da Póvoa disse...

Coluna diminuido? Estatutos? Dirigentes não ligados ao fascismo?
Argumentos tão pobres não merecem réplica. Recordo apenas os altos dirigentes do clube que tinham as suas roças nas ditas províncias ultramarinas que acumularam fortuna graças ao sangue e ao suor dos negros que exploravam até ao tutano (escravatura envergonhada!).

MT disse...

No tempo do Eusébio o prémio do jogo era uma camisa Trilpe Marfell e uma garrafa de brandy. A constante mistificação do Eusébio, do SLB, dos 5-3 à Coreia e do 3 lugar no mundial de 66 fazem parte de perpétua campanha de engrandecimento do Benfica, cujos últimos 30 anos nada têm de relevante a acrescentar. O Eusébio é um símbolo, como portista rspeito-o, apesar de ter quase 40 anos, apenas vi uns resumos manhosos e preto e branco do Benfica nesses gloriosos anos. Já foram. Já passaram.

Anónimo disse...

Obrigado Senhor Dr. José Manuel pelo artigo que nos apresenta, não só pela correctíssima e despreconceituada visão, como também pela veracidade dos factos apontados.Hoje qualquer indivíduo teoriza nos jornais ou em livros sobre factos que só conhece de ouvido, não sabemos se pagos por alguma ideologia ou por vedetismo. Enfim, uns verdadeiros falsificadores da História

Anónimo disse...

Excelente comentário.