quarta-feira, 10 de julho de 2013

A COMUNICAÇÃO DE CAVACO


 

 

ELE E O SEU GOVERNO

 

Nenhuma emoção, absolutamente nenhuma, antecede a comunicação que dentro de pouco tempo Cavaco Silva vai fazer ao país.

Não há memória nas comunicações de Cavaco de alguma delas ter a ver com problemas do país. Todas as comunicações que fez até hoje como Presidente da República têm a ver com ele. Com as suas queixas, com as suas justificações, com as suas anteriores advertências, enfim, com assuntos que não interessam nada à generalidade dos portugueses e que têm apenas a estulta intenção de à distância do presente tentar condicionar a história que no futuro se fará sobre a sua actuação enquanto responsável político que por mais tempo, depois de Abril, esteve à frente dos destinos do país.

A de hoje não será diferente. Cavaco vai tentar justificar por que mantém o Governo em funções, apesar de aos olhos da maioria dos portugueses se ter tornado evidente que o rearranjo dos protagonistas antes desavindos não merece qualquer credibilidade, consequência, aliás resultante, da falta de credibilidade desses mesmos protagonistas.

A Cavaco nem passará pela cabeça explicar aos portugueses as razões que justificam que um partido minoritário se torne, segundo o novo arranjo, no principal responsável pela condução dos negócios públicos. Como igualmente lhe não passará pela cabeça explicar, politicamente, o que é que, segundo ele, este novo Governo tem de diferente relativamente ao anterior.

Não, isso não são interesses que prendam a atenção de Cavaco. Cavaco estará mais interessado em afirmar que, gozando o Governo da confiança da maioria parlamentar, não vai ser ele, como Presidente da República, que irá contribuir para a desestabilização do país.

Desestabilizar, para Cavaco, significa, permitir que o poder mude de mãos quando está nas mãos da direita. A desestabilização para Cavaco nada tem a ver com a políticas que o Governo leva ou tenta levar a cabo contra a vontade da esmagadora maioria dos portugueses, mas apenas com o facto de Governo se encontrar aparentemente coeso. Sendo coesão sinónimo de manutenção em funções quaisquer que sejam as vicissitudes que acompanham essa manutenção e quaisquer que sejam as políticas que conjunta ou separadamente os parceiros da coligação ponham em prática ou publicamente defendam.  

Além de ser um inimigo declarado da “instabilidade”, Cavaco também não quer, tal como Passos Coelho ou o CDS, que os sacrifícios dos portugueses tenham sido feitos em vão. Cavaco quer ter a garantia de que esses sacrifícios vão continuar e se vão até agravar, passando a atingir áreas e pessoas que doravante serão muito mais penalizadas do que já foram até aqui.

É isso o que significa realmente evitar que sacrifícios já feitos tenham sido em vão.

É claro que os portugueses sabem perfeitamente que os sacrifícios que até agora fizeram, além de se não justificarem por não serem consequência de factos por eles cometidos, mas antes destinados a salvar os bancos, a pagar os roubos de pessoas ligadas ao poder ou com ele intimamente relacionadas, a repor as verbas necessárias para cobrir os negócios ruinosos, ou mesmo fraudulentos, feitos por governantes no interesse de terceiros, sabem também que esses sacrifícios em nada contribuíram para regularizar aquelas situações que lhes diziam serem as causas de todos os males: redução do défice e da dívida, crescimento económico, etc. Sabem que nada disso se verificou e que, pelo contrário, tudo se agravou a ponto de tais factos se terem tornado hoje realidades económicas verdadeiramente insustentáveis.

O que porventura os portugueses não sabem, ou muitos, pelo menos, não saberão, é que os novos e vultosos sacrifícios que lhes vão ser exigidos são sacrifícios a somar aos anteriores. Sacrifícios que não têm em vista permitir-lhes no futuro uma vida melhor, mas, pelo contrário, consolidar a opção por uma vida pior. Quem hoje estiver reformado e perder uma parte da sua reforma nunca mais a recuperará; quem hoje for agente ou funcionário público e for despedido nunca mais arranjará emprego no Estado; quem hoje passar a pagar mais ou muito mais pelos cuidados de saúde nunca mais vai ver diminuídas as suas contribuições no sector sempre que precisar de recorrer aos seus serviços; quem hoje passar a pagar pela educação dos seus filhos o que ontem não pagava não mais poderá esperar que essas contribuições baixem no futuro ou deixem de existir; quem hoje perder apoios sociais de protecção ao desemprego, à maternidade, à velhice, etc., não mais voltará no futuro à situação em que estava antes.

É nisto e apenas nisto que consiste a ameaça permanentemente feita sob a forma de chantagem destinada a impedir que o poder mude de mãos …para “se não perderem e não terem sido em vão os sacrifícios dos portugueses”.

A “estabilidade” imposta pelos credores e pelos patrões da Europa exige que “esses sacrifícios se não percam”. Exigem que se consolidem!

2 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Vou levar para partilhar, meu amigo! Obrigada!
Um grande abraço :)

Rogério Pereira disse...

Há algo inesperado, Cavaco apoia governo a prazo. E troca governo de gestão de 6 meses, por governo a prazo a mais dum ano. Ena com cantano!!! Estou derreado!, mas os consultores de Cavaco "merecem" o soldo: até até os lideres dos partidos do "arco da governação" fecham-se em copas, falaram os 7ºs escriturários ( e alguns bens nervosos)