terça-feira, 18 de novembro de 2008

O DIÁLOGO DE MELOS E OBAMA


O QUE VAI FAZER OBAMA?

Ao ler hoje (segunda-feira), no Público, o interessante artigo de Boaventura Sousa Santos sobre a hegemonia do bem, que Obama poderá levar a cabo, veio-me imediatamente à ideia o Diálogo, ou Conferência de Melos, que Tucídedes tão bem descreve na História da Guerra do Peloponeso.
No decurso da guerra do Peloponeso, os atenienses decidiram democraticamente enviar uma expedição à Ilha de Melos, colónia de Esparta, que até aí se tinha mantido neutral no conflito que opunha Esparta a Atenas.
Os emissários atenienses, que antes de qualquer hostilidade conferenciaram com os representantes dos mélios, levavam um mandato claro: ou os mélios se aliavam e se submetiam a Atenas, ou Atenas executaria todos os homens e escravizaria as mulheres e as crianças.
Os mélios cientes da sua razão em vão tentaram demonstrar aos atenienses que o facto de serem uma colónia de Esparta não os impossibilitava de se manterem neutrais. Todavia, depressa concluíram que, se demonstrassem ter razão e insistissem em não se submeter, a guerra os esperava; caso contrário, esperava-os a escravidão.
O diálogo prosseguiu, intenso e franco, como hoje se diria, não fora tratar-se de um diálogo filosófico fundacional. Em determinada altura, os emissários atenienses disseram:
Prosseguiremos para vos mostrar que viemos aqui por interesse do nosso império e que diremos o que seguidamente iremos dizer para salvaguarda do vosso país, assim como gostaríamos de exercer esse império sobre vós sem conflitos e de vos vermos protegidos, para o bem de ambos”.
Ao que os mélios responderam:
E como pode, dizei, numa tal circunstância, ser assim tão bom para nós servir como é para vós exercer o poder?”
Porque teríeis a vantagem de vos submeterdes antes de sofrerdes o pior, enquanto nós só ganharíamos por não termos que vos destruir”, disseram os atenienses.
Quer isso dizer que não consentiríeis que fôssemos neutrais, amigos em vez de inimigos, mas não sendo aliados de nenhum dos lados?”, perguntaram os mélios.
Não, porque a vossa hostilidade não pode causar-nos tanto prejuízo como resultaria de a vossa amizade ser vista pelos nossos súbditos como prova da nossa debilidade, enquanto que, pelo contrário, a vossa inimizade reflecte o nosso poder”, responderam os atenienses.
O diálogo prossegue, os mélios não se submeteram, os atenienses, depois de várias vicissitudes, conquistaram a ilha, mandaram matar todos os homens em idade adulta e venderam as mulheres e as crianças como escravos!
Mais tarde, a questão de Melos voltou a ser discutida na assembleia, em Atenas, em tom recriminatório, mas o primeiro mandato já estava cumprido e executado…
Atenas era uma democracia de cidadãos, que assim se manteve, mesmo durante a guerra. Os estrangeiros e os escravos não tinham direitos. Os mandatos eram imperativos e curtos; os mandatários, em certas épocas, até chegaram a ser escolhidos à sorte.
A América é, sob muitos aspectos, uma democracia ateniense. Obama vai defrontar-se durante o seu mandato com problemas muito semelhantes aos que constam deste diálogo.

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