segunda-feira, 11 de julho de 2011

“AS VIRTUDES” DE CAVACO

A PROPÓSITO DE RECENTES INTERVENÇÕES


 Quando se recandidatou a Presidente da República, Cavaco Silva apresentou um “cardápio” de virtudes, de que se auto-intitulou portador, dificilmente igualáveis por qualquer adversário que com ele quisesse concorrer.
Se para a esquerda não havia qualquer ilusão sobre a personalidade política de Cavaco Silva, um dos grandes responsáveis pela difícil situação que o país atravessa, para outros, menos conhecedora dos meandros da “coisa política” ou apoiantes de políticas de direita, Cavaco aparecia como uma referência de estabilidade, de relativa independência e até de segurança face a uma crise que a cada dia se apresentava mais difícil de superar.
Não foi, porém, necessário esperar muito tempo para se perceber que o apoio a Cavaco estava circunscrito ao seu núcleo mais fiel e que a provável vitória que se antevia resultava mais da inexistência de um candidato congregador de todos os votos de esquerda e de centro-esquerda do que propriamente dos méritos do candidato de direita.
A maioria absoluta de Sócrates na sua primeira legislatura não deixava a Cavaco muita margem de manobra se queria, como queria, assegurar sem riscos a reeleição. Só mesmo quando a “estrela” de Sócrates começou a empalidecer entre a legião dos seus inúmeros fiéis, é que Cavaco, agastado com a questão dos Estatutos dos Açores, resolveu, em parceria com o director do Público e o seu assessor de imprensa, lançar um ataque tão mal urdido quanto incompetentemente gerido nos seus desenvolvimentos a propósito de umas pretensas escutas de que Belém estaria sendo alvo.
Faltou então a Sócrates a verdadeira compreensão do momento político que se estava a viver e a audácia para lançar um contra-ataque demolidor contra Cavaco, porventura convencido de que essa não era uma batalha pela qual valesse a pena terçar armas. Hoje percebe-se que esse foi um dos grandes erros políticos de Sócrates e o seu declínio perante o eleitorado que o elegeu começa exactamente por ter deixado Cavaco “impune” depois do “episódio das escutas”.
Cavaco aguentou calado e recuperou o suficiente para ser reeleito e depois derrubar Sócrates. De facto, nunca mais a partir de então deixou Cavaco de dificultar a vida ao governo, tanto pelos seus silêncios como pelas palavras contundentes com que ia demolindo a sua acção. Já com o país a braços com dificuldades financeiras quase insuperáveis, enquanto Sócrates esbracejava para adiar o inevitável na esperança de que algo pudesse acontecer para o salvar, Cavaco ia-lhe dando sucessivas amonas, certo de que se tratava de um náufrago que não valia a pena socorrer – uma espécie de eutanásia política que a salus populi justificava.
São deste período as sucessivas declarações de Cavaco sobre o papel meramente constatador, se não mesmo regenerador, dos “mercados” e das “agências de rating”, bem como as pretensas análises sobre a situação explosiva do país e a incapacidade de o povo suportar mais sacrifícios.
O ponto alto desta escalada, a verdadeira luz verde dada ao PSD para o derrube do governo na próxima oportunidade, coincidiu com o discurso de investidura do segundo mandato presidencial em que traçou um quadro quase apocalíptico da situação do país e manteve um tom muito próximo das intervenções ressentidas com que tinha assinalado a vitória eleitoral.
O governo acabou por cair e Cavaco acreditou que, sob o seu alto patrocínio, a União Europeia, os mercados, as agências de rating e outras forças cuja composição e objectivos Cavaco ainda não compreendeu iriam tecer louvores ao novo quadro político e à força regeneradora que ele inspiraria.
Daí os ataques às agências de rating - antes tão elogiadas pela corajosa acção avaliadora que exerciam e pelo papel salutar que desempenhavam relativamente às economias doentes - quando estas contrariamente ao esperado não reviram o seu parecer para melhorar a avaliação do país mas antes o agravaram para níveis nunca antes sonhados.
Cavaco é um político profissional. No fim do mandato em curso somará quase trinta anos de vida política activa e, pelo menos, mais dez de actuação nos bastidores preparando a reentrada em cena.
Desta longa experiência resulta haver coisas que Cavaco faz muito bem e outras em que pouco ou nada progrediu.
Cavaco não compreendeu como político – nem adianta falar como economista, já que isso seria normal – as consequências da adesão de Portugal ao SME como caminho de preparação para adesão ao euro, apesar de, pouco depois daquela decisão, no seu segundo mandato como PM, ter tido um sério aviso que durou cerca de três anos, do que poderia acontecer, mas que ele por erro de análise imputou exclusivamente à reunificação alemã. Ainda como político, não teve a capacidade suficiente para antever como funcionaria uma moeda única num amplo mercado livre, constituído por economias muito desiguais e assimétricas, nem as consequências que inevitavelmente a prazo essa mesma moeda produziria. Pelo contrário, entendeu, como tantos outros, que uma moeda única partilhada com economias tão poderosas como a alemã seria uma fonte de prosperidade e de riqueza para todos. Depois do mercado único…a moeda única! Não compreendeu, finalmente, a dinâmica das dívidas contraídas pelos países menos competitivos (é falso ou, pelo menos, incorrecto, falar-se apenas em dívidas soberanas, porque a dívida é pública e privada, sendo esta muito mais pesada que a primeira e, nalguns casos, resultando a pública exclusivamente da privada, directa ou indirectamente) nem a inevitabilidade do seu agravamento sob pena de as respectivas economias deixarem de funcionar.
E, por tudo isso, não deixa de ser ironicamente dramático que agora venha a apelar à reconstituição do aparelho produtivo, quando, com a “política do bom aluno”, ajudou a destruí-lo na agricultura, nas pescas, na agro-indústria e na indústria em geral. Então, para sermos “modernos” tínhamos que viver dos serviços…e do inevitável betão. Agora, temos de regressar à “lavoura”!
Os fundos comunitários que durante os mandatos de Cavaco entraram em catadupa num país atrasado como Portugal, a queda abrupta do preço da energia, os juros baixos e a consequente diminuição do serviço da dívida obnubilaram a visão política de Cavaco sobre o que se estava a passar e sobre as suas mais que previsíveis consequências. E essa obnubilação, infelizmente, perdura até hoje nas mentes “cavaquistas” que continuam convencidas de que é possível regressar a uma “prosperidade” que mais não foi do que o prelúdio da nossa nova pobreza!
É esta incapacidade de analisar o que se passa que o leva hoje a atacar as agências de rating, por serem americanas, como se a questão das agências de rating dependesse mais da sua “nacionalidade” do que dos grandes interesses a que estão ligadas independentemente da “nacionalidade” desses interesses. E é essa mesma atitude que o leva a calar a subida da taxa de juro decidida pelo BCE, em homenagem a interesses hegemónicos, com profundo desprezo pela situação das economias (e das pessoas que sofrem com isso) periféricas, a pretexto de que tem de combater a inflação que nenhum estudo sério admite possa constituir uma ameaça ou sequer uma preocupação. Isto para não falar do “programa da troika” e da inviabilidade de por seu intermédio se chegar a uma solução credível.
Em contrapartida, há coisas que Cavaco faz bem feitas, mesmo muito bem feitas. De outro modo resultaria incompreensível tanto tempo de poder efectivo.
Cavaco conhece muito melhor do que se supõe as características do povo português. Sabe manter o hieratismo do poder; sabe fingir que não é político; sabe atacar com muita eficácia os adversários políticos; sabe cultivar o desprendimento relativamente aos bens materiais e aos grandes interesses, enfim, sabe fingir, porque sabe bem que a política que hoje se cultiva assenta no fingimento. É certo que tudo isto não passa de um remake. Mas resulta e isso é o que interessa.
   

11 comentários:

JVC disse...

Cavaco conhece muito bem o povo português. Indiscutivelmente, conhece o zé povinho, vem dele - o que não o diminui - tem a sua mentalidade porque os estudos só deram um pouco de polimento aos sapatos de aldeão.

Isto liga-se à analogia do teu post anterior, em relação a Salazar. Foi assim, com essa identificação provinciana com o de mais medíocre temos, de paroquial, beato, mesquinho, que Salazar se fez e se aguentou, porque ganhou a identificação "popular".

Parece-me é que, desta vez, o teu comentador Manojas não vai protestar contra esta analogia.

Francisco Clamote disse...

Parabéns, Correia Pinto. Excelente análise.

Ana Paula Fitas disse...

Perfeito... e a terminar com chave de ouro como se requer à exactidão do verdadeiro soneto :)
Abraço.

MANOJAS disse...

Esta analogia de JVC é certeira, mas é dele, não está explicitada no post, embora acredite que pudesse estar na mente do autor. Quanto à analogia do anterior post, ela é clara e intencional.

Luis Eme disse...

excelente texto.

era bom que Cavaco lesse, perceberia algo sobre ele próprio, que não se vê nos espelhos onde mira.

Anónimo disse...

O Governo caiu porque houve uma coligação negativa da esquerda BE+PCP com a direita.Este texto apaga essa responsabilidade, como alias começa a ser normal nos seus textos. Existe uma parte que nunca entra na equação.

JMCPinto disse...

Respondendo ao comentário anterior: o BE e o PCP sempre estiveram - e bem - contra a política do Governo para combater a crise.
Quem mudou de opinião foi o PSD ..e Cavaco. Portanto, não faz qualquer sentido afirmar que foi a esquerda que derrubou o Governo. Como não faria qualquer sentido poupá-lo, mantendo-se inalterado o seu programa de acção.
Aqui não há branqueamentos...porque já é tudo muito claro!

Anónimo disse...

Obrigado pela resposta JMCPinto.
Não concordo que o derrube de um governo e consequente vinda do FMI mereça tal justificação.
O Governo PS sem maioria na assembleia e face a uma grave crise internacional dependente de uma Europa de maioria ultraliberal no afrontar da crise não poderia fazer melhor. Nenhum Governo poderia, em boa verdade, como se esta a ver agora, porque a crise é europeia não nacional. O que o PS fez foi sempre tentar poupar mais à crise os mais debeis. Com dificuldades e nem sempre conseguido mas foi tentado.
O que a esquerda irrealista fez foi dar conscientemente o poder à direita escudando-se em dogmas e apriorismos porque acha que lhe é mais favoravel fazer a revolução(ou qualquer outro irrealismo demagogico) com a direita no poder. E aqui existe calculismo e interesse partidario acima do interesse das pessoas, ou do Povo, como demagogicamente afirmam.
A politica adulta e madura exige principios mas tem que sempre haver lugar à negociação e ao compromisso.A esquerda que temos faz mais vezes parte do problema do que da solução. É mais facil.

MANOJAS disse...

Realmente é tudo muito claro, e vê-se bem o resultado do combate travado pelo PCP e do BE.Não, não faz qualquer sentido dizer que foi o PCP e BE que derrubaram o governo, faz
sentido é dizer que os dois partidos se aliaram ao PSD e ao CDS para o derrubar.

JM Correia Pinto disse...

Meu Caro anónimo
Obrigado pela resposta. Acho que não vale a pena continuar o diálogo sobre o passado, porque já percebi, pela sua escrita, que era perfeitamente capaz de antecipar a minha réplica do mesmo modo que eu anteciparia a sua contra-réplica.
Falemos então do futuro: a crise é europeia. Mas quem está em condições de a combater e superar? Do lado dos partidos social-democratas e socialistas europeus não há uma única proposta capaz de solucionar o problema. E compreende-se porquê; porque, mesmo na oposição, eles fazem parte do sistema que ajudaram a construir. Evoluíram com o neoliberalismo para posições muito próximas dos partidos de direita. Terão mais sensibilidade social? A questão está em saber em que consiste isso. Se se trata de pôr em prática políticas que gradualmente vão despojando os trabalhadores dos seus direitos, a pretexto de que temos de evoluir, como diz Assis (diria melhor se dissesse involuir), ou de ser mais competitivos, certamente, mas não à custa do trabalho, como indirectamente advogam os socialistas que falam nos ganhos excedentários do trabalho relativamente aos ganhos de competitividade, do que estamos a falar não é de Estado Social, mas de destruição do estado social mediante compensações mínimas e temporárias aos excluídos.
A nossa questão, portanto, é outra: é acabar com este “sistema”.… E isso não se faz com “consensos”, menos ainda com o “consensos” de que o PS participa com o PSD e o CDS, mas com rupturas! Chame-lhe Revolução, chame-lhe o que quiser, mas é disso que se trata. É preciso atacar e desmantelar o poder do capital financeiro em vez de ser governado por ele. É preciso dominar os sectores estratégicos da economia, como hoje ainda acontece em alguns grandes europeus. É preciso…é preciso muita coisa e é bom recordar essa muita coisa hoje, 14 de Julho…dia a partir do qual muito do que era até então “impossível” se tornou possível e depois até normal…

Anónimo disse...

Caro JMC pinto, grato uma vez mais.
o que os partidos socialistas e sociais democratas tentam hoje fazer é controlar os estragos do capiltalismo. E uma posição defensiva? É, claro.
É possivel fazer mais e melhor, sem duvida. Mas as envolventes não são as melhores por diversos motivos e alguns com muitas culpas proprias dos proprios partidos sociais democratas. Inegavel.
Outra coisa perfeitamente diferente é o alheamento total e sem contexto que em nome de uma impossibilidade presente entrega o poder à direita. E a perspectiva histórica (o passado) tem que estar presente quando se analisa o posicionamento actual. Olho para os países da Ex URSS e vejo-os todos rendidos à direita, a China capitalista, etc...Existem pessoas, partidos,organizações que nunca falham na enunciação dos objectivos mas são sempre maus na acção.No fim favorecem sempre aqueles que dizem combater.