quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A ENTREVISTA A MAHMOUD AHMADINEJAD

NA RTP 1 POR MÁRCIA RODRIGUES



Sem explicações prévias, o Presidente do Irão foi esta noite entrevistado por Márcia Rodrigues na RTP 1.

São tão raras, ou quase inexistentes, as hipóteses de ouvir em directo, numa entrevista, uma personalidade internacional de quem tanto se fala e de quem só se ouve aquilo que as grandes centrais de informação querem que se ouça, que a primeira coisa a fazer, para lá dos méritos ou deméritos da entrevista em si, é felicitar a RTP e a jornalista pelo acontecimento.

Dito isto, é lamentável que a entrevista tenha sido exclusivamente conduzida sob a óptica da “cartilha ocidental” relativamente ao Irão, ou seja, completamente dominada, no que respeita às perguntas, pela lógica do “Eixo do Mal”.

A jornalista ficou certamente muito contente por ter dito de viva voz a Ahmadinejad aquilo que os americanos e a imprensa ocidental espalham sobre o Irão – comportamento que somente pode considerar-se corajoso se a mesma jornalista igualmente for capaz de em idênticas circunstâncias confrontar Bush ou Blair com as suas acções, imputando-lhes de princípio ao fim da conversa os graves crimes que tanto um como outro cometeram durante os respectivos mandatos. Mas será quase pedir-lhe o impossível já que nem um nem outro lhe concederiam tal entrevista, salvo a peso de ouro, algo manifestamente incomportável para a deficitária situação em que a RTP se encontra.  

Mas foi pena que a Márcia não conhecesse melhor o Irão, com base em fontes credíveis, e também um pouco da sua história recente, pelo menos do fim do século XIX para diante, e não tivesse aproveitado esta oportunidade, não apenas para falar com Ahmadinejad sobre o programa nuclear, sobre a ameaça israelita e americana, sobre as últimas declarações de Sarkozy, sobre a situação na Líbia e nos países árabes em geral, mas também sobre certas questões internas relacionadas com a sua economia, com o conceito de república islâmica, enfim, uma entrevista que nos permitisse conhecer melhor o “outro” e não tanto colocar o “outro” sob a provocação constante dos clichés com que é retratado no mundo ocidental.

No Ocidente tende hoje a desprezar-se a questão colonial, nomeadamente com a configuração que ela tomou depois da Conferência de Berlim de 1885, muito por força da hipócrita propaganda das principais potências coloniais que tendem a remeter para o esquecimento um passado que deixou marcas muito profundas, principalmente nas mais antigas civilizações, humilhadas e exploradas por dominações estrangeiras com total desprezo pelo seu passado, pelos seus valores, enfim, pela dignidade dos seus povos.

A América que conheceu o colonialismo embora num quadro completamente diferente do que existiu na África e na Ásia, pelo menos para aqueles que no continente americano acabaram por tomar nas suas mãos os destinos dos respectivos os territórios, começou por reagir contra as manifestações de colonialismo, manteve o protesto, mesmo depois da II Guerra Mundial, contra as suas manifestações mais serôdias, mas breve a Guerra Fria acabou por impor as suas leis e pouco depois a politica americana, pelas múltiplas intervenções em território alheio, terminou por se confundir com a dos colonialistas do passado, se não mesmo a colaborar com eles na espoliação das riquezas alheias, como aconteceu no Irão aquando o golpe perpetrado pela CIA, em 1953, que depôs o nacionalista Mossadegh.

De qualquer modo, não obstante as suas limitações, a entrevista não deixou de ser um interessante momento de televisão.

4 comentários:

Marco disse...

Nem uma pergunta sobre direitos humanos ou a situação das minorias religiosas no Irão!

Anónimo disse...

Meu Caro Zé Manuel,

Tivera eu dinheiro sobrando e garanto-lhe que comprava passagem e estada para passearmos 30 dias no Irão.
Aliás, será que teremos o prazer de ler aqui, num qualquer dia, um eloquente relato de uma sua viagem/estada no Irão?

JR

JM Correia Pinto disse...

Meu Caro JR
Se gostava de ir ao Irão? Certamente. Muita curiosidade em conhecer o "berço" de uma das mais antigas civilizações.
Quanto ao resto, a "distância" é irrecuperável...A religião, qualquer religião, constitui uma barreira intransponível, mais ainda se está assumida como doutrina de Estado.
Mesmo assim, é preciso conhecer melhor. Estar lá...sem óculos levados daqui. Mas nada disso tira que aquele obstáculo não seja intransponível. Abaixo o dia de S. Bartolomeu!
A propósito: conhece um poderoso país onde quem se quiser candidatar a qualquer cargo, desde os mais importantes aos mais irrelevantes, deixa de ter qualquer hipótese se declarar que ...é ateu?
Se não conhece...vai ter de mudar de óculos!
Um grande abraço amigo
CP

Anónimo disse...

È lamentavel que a RTP seja porta-voz das falsidades e mentiras do regime iraniano