quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O EMBAIXADOR DE ISRAEL



QUEM ASSUME A CULPA?

 

Vai uma grande comoção no MNE por o Embaixador de Israel, numa sessão relacionada com o Holocausto, ter dito publicamente que Portugal foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste quando soube da morte de Hitler. E concluiu: “ É uma nódoa que para nós, judeus, vai aparecer sempre associada ao nome de Portugal”.

Paulo Portas, sentindo ultrajada a honra do país, chamou o Embaixador às Necessidades e, segundo o sempre bem informado Carlos Albino, pregou-lhe um valente raspanete.

Já antes, no Público, Pedro Lomba se tinha insurgido por o Embaixador ter mentido. Portugal não foi o único a colocar a bandeira a meia-haste. Teve a companhia da Santa Sé (Papa Pio XII), da Suíça e da Suécia! Não há nada como a fidelidade histórica. Mas não apenas: para Lomba esse era o comportamento adequado de qualquer Estado neutral. Salazar cumpriu o protocolo.

Que Portas e Lomba naveguem nas mesmas águas, embora pretextando viagens diferentes, a gente compreende. O que todos temos mais dificuldade em compreender é por que razão os alemães continuam a expiar os crimes cometidos pelos nazis, numa espécie de culpa colectiva, transgeracional, e os outros povos que igualmente praticaram horrores, ou que institucionalmente simpatizaram com os assassinos ou os homenagearam, devem ser individualmente culpados ou até desculpados.

Isto é que é mais difícil de perceber. Vichy, que Salazar tanto admirava, a ponto de para lá ter mandado um dos seus fiéis como Embaixador, Caeiro da Mata, durante anos e anos foi apenas acusada de “colaboracionismo”, quando o que na realidade se passou foi um “proselitismo” muito semelhante aos dos nazis. Foi preciso que Jacques Chirac chegasse ao poder para que a culpa da França pelo que se passou durante a Ocupação e, principalmente por Vichy, fosse assumida sem rodeios.

E do massacre de 1506, da matança da Pascoa, no Rossio, que nos dirão Portas e Lomba? Ainda hoje causa arrepios a leitura da crónica de Damião de Góis. É certo que o Rei, D. Manuel, fez alguma coisa …depois. Aliás, estava no Alentejo. Mas o mal estava feito. Como é possível tanto ódio e tanta selvageria? Esta uma nódoa bem maior, incomensuravelmente maior, do que a Salazar deixou na História de Portugal pelas suas simpatias pelo fascismo italiano e pela Alemanha hitleriana como principal baluarte contra o “perigo vermelho”. Até Churchill ele criticou pelo discurso proferido no dia seguinte ao da invasão da URSS.

O Embaixador falava do holocausto e da recuperação da casa de Aristides Sousa Mendes. Durante décadas (e não apenas durante a Ditadura) Sousa Mendes foi uma personalidade mal vista no MNE. Eram-lhe imputados múltiplos defeitos e graves falhas de serviço. Aliás, no processo disciplinar que lhe foi instaurado, foram os “bufos” de Salazar no MNE, todos diplomatas, que, pelos seus depoimentos, verdadeiramente o condenaram.

O tempo foi passando, a tradição oral no MNE sobre o comportamento de Sousa Mendes foi-se esbatendo, gradualmente foi prevalecendo a opinião corrente no país democrático e hoje ele é um herói, até no MNE. E é. Nem interessa saber se foram trinta mil os vistos que passou ou se foram muito menos. O que importa é que ele passou tantos vistos quantos os que humanamente podia passar, em poucos dias, e continuou a passá-los, em Hendaia, já depois de Salazar ter mandado encerrar o consulado de Bordéus. E se nem todos puderam aproveitar dos salvo-condutos passados, Portugal deve essa a desonra a Salazar e ao Embaixador Teotónio Pereira que, pressuroso, correu para Irun, para comunicar à Guardia Civil que não deveria aceitar os vistos passado depois de 24 de Junho de 1940.

Conclusão: a culpa, ou se preferirem, a vergonha, o opróbrio, têm de ser assumidos colectivamente pelo povo descendente dos que praticaram os feitos ignominiosos do mesmo modo que são assumidos com orgulho os feitos heroicos. E é por isso que o povo de Israel por muito que tenha sofrido no passado vai ter futuramente que suportar a culpa e a vergonha pelo modo infame como trata os palestinianos!

 

8 comentários:

João Torres Centeno disse...

orld War II & the Holocaust

Approximately 380 Jews were living in Portugal during the outbreak of World War II and an additional 650 Jewish refugees from Central Europe were granted "resident" status. After France fell to Nazi Germany, Portugal adopted a liberal visa policy allowing thousands of Jewish refugees to enter the country, however, those of Russian origin or birth were excluded. More stringent restrictions were made in immigration policy, from late 1940 to spring 1941, resulting in decrease usage of its ports.

During the Holocaust, Aristides de Sousa Mendes, disobeyed government orders and issues visas enabling Jews to travel from France to Portugal. He was dismissed for disobedience and died impoverished. For his efforts, he was later recognized as one of the "Righteous Among the Nations," Portugal’s only honoree.

During the second part of the war, Portugal agreed to give entry visas to those coming via rescue operations, on the condition that Portugal would only be used as a transit point. Portugal also joined other neutral countries in the efforts made to save Hungarian Jewry. More than 100,000 Jews and refuges were able to flee Nazi Germany into freedom via Lisbon. All of Portugal’s Jews and Jewish refugees living there survived the war.

In http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/vjw/Portugal.html

anamar disse...

Zé Manel,
obrigada por esta lição de história e de apelo sentido.
Abraço

Ana

JM Correia Pinto disse...

Este texto é relativamente simpático para o “Estado Novo”. A verdade é que não há indícios de Salazar ter tido alguma simpatia pela causa judaica ou sequer compaixão pelo que estava a acontecer aos judeus na “Europa hitleriana”. Pelo contrário, no começo da guerra, depois de já serem conhecidas as perseguições na Alemanha, Salazar tornou a concessão de vistos a perseguidos pelo regime nazi dependente de prévia autorização de Lisboa.
A PIDE, ou melhor, a PVDE, dirigida pelo tristemente célebre Agostinho Lourenço – um homem da confiança de Salazar - desempenhou nesse período um papel muito activo. Mais tarde, muito mais tarde, quando a guerra já estava perdida – e é bom não esquecer que Salazar levou muito tempo a admitir a derrota da Alemanha – é que Salazar começou a ser mais permissivo. É nesse período, já depois do Desembarque na Normandia, que são concedidos os vistos de Budapeste. Mas nada de ilusões: sabe-se hoje que muitos dos judeus de Budapeste (não me refiro aos que beneficiaram do visto português) compraram a sua liberdade aos nazis.
Por outro lado, havia uma cultura no regime que não apontava nesse sentido, no sentido de alguma compaixão pelo que estava a acontecer. Seria interessante saber que notícias deram os embaixadores – Veiga Simões, Nobre Guedes e Tovar - que Portugal teve em Berlim, durante o III Reich, sobre a perseguição aos judeus e que respostas obtiveram de Salazar. Ou conhecer os relatos de conversa desses embaixadores com Salazar, quando se deslocavam a Lisboa.
Pode dizer-se, como alguns dizem, que Salazar se orientava mais pela ideia da defesa do regime do que por preconceitos raciais. Só que a questão não é bem essa. Salazar por razões ideológicas tendia a desconfiar de gente perseguida pelo regime nazi, fosse essa perseguição de natureza política ou fundada em motivos raciais. Portanto, acaba sempre por ser a marca ideológica do regime que a tudo se sobrepõe. Primeiro o regime - e foi assim sempre até ao 25 de Abril – depois o “resto”. E o “resto” só era atendido se não fizesse perigar o regime, quer esse perigo fosse real ou existisse apenas nas mentes paranoicas dos salazaristas e seus esbirros.

JMCPinto disse...

Para que não haja más interpretacoes: os judeus de Budspeste foram ás dezenas de milhares para Auschwitz. Os que salvaram foram uma ínfima minoría.

Anónimo disse...

Muito muito boa e oportuna a informação que o autor aqui coloca neste "post".
Mas..., mas quanto ao remoque final, ainda que também oportuno, temos que reconhecer que para o povo de Israel, contrariamente ao alemão em 1940, é muito estreia a via para no futuro poder sequer assumir culpas. Pergunte-se aos vizinhos, agora vitimas da "acção musculada" de Israel o que pensam do futuro desse Estado..
lg

cristof9 disse...

Obrigado pela boa licao que nos ofereceu.
Sobre o exagero nas referencias as vitimas judias temos que o entender como o resultado duma predominancia judia/inglesa na comunicacao social mundial que quem queira ver nota todos os dias. Menos simpatico e o branqueamento que fazem do povo palestiniano e nao como historia aconteceu ontem e dura ha muito. E oassassinato dos cientistas iranianos? onde ha moral para tao hediondo crime? Foram massacrados sim mas nao tem preservado a nossa simpatia devido aos crimes que cometem.Agora sao outros e estes de hoje portam-se como criminosos.

Fernando Vasconcelos disse...

Sendo franco-português e tendo estudado história em particular a história da segunda-guerra na perspectiva francesa - devo confessar antes de Chirac e portanto não sei ao certo se os manuais desde aí mudaram - queria só complementar que Vichy e o seu governo é tratado como se não fosse a "verdadeira" França. Isso é materializado no facto dos seus colaboradores terem sido julgados no pós-guerra como traidores assim como outros colaboracionistas de forma formal ou informal. Acho que se procura esquecer mais do que reconhecer qualquer culpa. E no que respeita ao holocausto no qual o regime de Vichy teve efectivamente uma participação activa aí nem sombras de mea-culpa. De resto subscreve-se e no que diz respeito ao estado judaico e a um outro comentário feito neste post diria o que digo sempre. Os fins nunca justificam os meios. Tenho simpatia confesso por Israel pelas dificuldades porque passaram por aquilo que conseguiram fazer mas isso não justifica os meios. Nada justifica os meios. Esses como a culpa e como os erros têm de ser assumidos como tal por si mesmos e não justificados pelo fim por mais honroso que este seja.

Anónimo disse...

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