sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SÓCRATES E A DÍVIDA



O PRECONCEITO COMO GUIA DE ACÇÃO



Sócrates falou sobre a dívida em França e um enorme alarido levantou-se em Portugal. É de crer que por duas razões. Primeiro, por Sócrates ter falado – votado como está ao ostracismo não tem direitos de cidadania; auto-expulsou-se da polis para não ser condenado, logo não deve interferir nos negócios da “cidade”; depois, por ter dito que essa coisa de pagamento da dívida era conversa de crianças.

Portas, do alto da sua inteligência, disse que tinha lido três vezes para tentar perceber a frase. Estava abismado! À esquerda do PS e no PS que repudia Sócrates os comentários foram chocarreiros. E até Freitas, em voraz busca de novo tacho, conhecido especialista em perfídia, traição e oportunismo, achou conveniente abandonar por momentos o seu limitado raio de acção de raciocínio por alíneas e chavetas para tentar fazer humor, concluindo que, agora sim, compreendia por que razão a "bomba lhe estourou nas mãos". 

E todavia Sócrates disse o óbvio. Que a dívida era para ser gerida. De facto, ninguém pensa em pagar a dívida no sentido de a liquidar, chame-se o devedor Alemanha, Estados Unidos, Grécia ou Portugal. E mesmo quando por razões de racionalidade económica algum daqueles devedores resolve antecipar o pagamento da dívida, fá-lo como simples acto de gestão da dívida, contraindo outra, a preço mais baixo, para pagar a antiga. Mas a dívida, como ónus, mantém-se e o que tem é de ser gerida.

A dívida representa, portanto, uma despesa, como qualquer outra, inscrita no orçamento, para se fazer ao longo do ano.

Até aqui, tudo certo e tudo óbvio. Então porquê o problema da dívida? O erro de Sócrates é, no fundo, o erro da zona euro. Sócrates, como toda a gente na zona euro – toda a gente salvo aqueles, raríssimos, que desde início apontaram os defeitos da “construção” da moeda única – acreditou que no maior e mais rico espaço económico do mundo nunca iriam faltar os recursos financeiros a preços comportáveis. Porventura até terá pensado, como tantos outros, actuando neste ou noutros espaços económicos igualmente ricos, a começar por Greenspan, que esses recursos financeiros não só nunca faltariam, como seriam cada vez mais baratos. Logo, a dívida continuaria a ser gerível por os recursos que anualmente lhe estão afectos continuarem dentro de uma comportável percentagem do montante global das despesas orçamentais.

Enganou-se. Enganaram-se todos, ou não fosse o homem o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra. E se for economista, três, quatro, as que calhar…O que Sócrates não suspeitava é que esses recursos financeiros que caíam em catadupa sobre os “carentes de capital” iriam, de um momento para o outro, tornar-se escassos, muito escassos, levando essa escassez a uma subida vertiginosa dos seus preços. E quando isso aconteceu – não interessam agora as causas: elas têm sido várias nos últimos quarenta anos, embora nunca como desta última vez – a dívida deixou de ser gerível. E foi o que se viu, melhor, o que se está a ver.

Dir-se-á: se a dívida pública fosse menor, o problema seria menos grave. Mentira. Havia quem tivesse uma dívida pública bem menor e esteja com problemas bem maiores; há quem tenha uma dívida pública igual e tenha problemas bem menores; há quem tenha uma dívida maior e não tenha qualquer problema de gestão da dívida.

Portanto, se um ser racional quer pautar o seu comportamento por aquilo que em última instância o distingue à superfície da terra vai ter necessariamente de concluir que essa correlação entre o montante da dívida pública e o grau de dificuldade ou a de facilidade da sua gestão é uma coisa um pouquinho mais complexa do que à primeira vista parece.

E, portanto, deve continuar a indagar até encontrar uma resposta que o satisfaça, pondo de parte reacções pavlovianas, sob pena de ficar limitado pelo reflexo condicionado que o simples enunciado de um nome com uma determinada carga vocálica tende a provocar.

13 comentários:

Anónimo disse...

O que me parece,

É que Sócrates disse de facto uma coisa diferente do que quereria dizer, aliás, percebia-se o que queria dizer, no entanto, a linha dura anti-dívida leu "à letra" um pedaço da frase que ele proferiu, no fundo, descontexutalizou-a.Tem o autor razão quando refere que não é linear a relação entre dívida (seja em valor absoluto ou relativo) e os problemas que dela resultam, mas existe essa relação: há países que não têm problemas destes, exactamente por não terem dívida (porque não precisam, porque têm saldo s/exterior que a contrabalançam -veja-se o caso do R.U. que tê uma dívida per capita várias vezes à nossa-, ou porque não tiveram acesso a créditos.) como se sabe Portugal nem sempre teve problemas, nem sempre pelas melhores razões.. Depois há um aspecto, para lá de todas as relativizações, que não podia deixar de inquietar e fazer temer pelo futuro e mesmo tremer, que é o crescimento do valor absoluto e relativo do endividamento (do país). Nos últimos 5-6 anos teve uma evolução exponencial (aqui não há exageros!) e que não podia deixar deter consequências desastrosas, algum dia o prestamistas duvidariam da capacidade de pagar.No caso português essa incapacidade é bem avivada pela situação de desequilíbrio endémico da balança comercial. Os problemas políticos na "U"E apenas aceleraram o processo. No governo do Guterres havia quem pensasse que os excedentes alemães funcionariam como se fossem portugueses!!! Um Sec Estado , questionado sobre o deterioramento das contas com o exterior, chegou a perguntar se, por acaso, a Baviera também estava preocupada com a sua Balança Comercial. Parece mentira mas aconteceu.
lg

D., H disse...

Subscrevo o seu ponto de vista que é expresso no postal.
Em síntese, retenho três aspectos:
1- Esta “celeuma” que se levantou com a afirmação de Sócrates é nitidamente uma manobra de diversão, o desenterrar do “fantasma” que está moribundo…É a vã tentativa, de Passos Coelho e governo, em encontrar aliados para o abraço a Merkel e à perda de soberania a que estão dispostos.
2- Sendo impensável pôr uma esponja sobre a forma como o governo Sócrates geriu os recursos financeiros – e isso não está em causa, é facto que de um momento para o outro, a manipulação especulativa atirou os juros para valores incomportáveis. Isto porque a União Europeia está refém do capital financeiro, e está como está…
3- Passos Coelho escusa de vir com o moralismo de “homem de boas contas”, que jamais conseguirá pagar a dívida sob a forma que nos é apresentada. É matematicamente impossível!

Cumps

Ana Cristina Leonardo disse...

O problema não foi o que o Sócrates disse sobre a dívida: o problema é não o ter dito quando andou a pedir colo à Merkel.
E deixando de lado os aspectos patológicos que a mim me parecem definir a personagem, criada a confusão veio imediatamente desdizer-se. Esse Sócrates pode ser uma besta política mas a verdade é que, esprimidinho, esprimidinho, só diz banalidades.
Quanto ao país ficar em pulgas com uma conversa qq em Poitiers, sem comentários.
A direita só aproveita o que a chamada esquerda lhe dá de bandeja. A direita cumpre o seu papel, a esquerda é que é uma desgraça!

Francisco Clamote disse...

Ainda que pouco versado na matéria, subscrevo.

JM Correia Pinto disse...

Ana Cristina
Tendo a apreciar os factos de modo não emocional. Provavelmente nem sempre consigo. No caso, o que foi dito pelo Sócrates, tal como ele apresentou as coisas da primeira vez que falou, está certo. A dívida é para ser gerida como qualquer outra despesa orçamental. Se qualquer outra despesa orçamental aumenta acima do razoável, pondo em risco a cobertura de outras igualmente importantes, algo está errado. E é preciso atalhar logo.
O que Sócrates não fez, como está dito no post, porque não contava – nem ele nem os outros – que os recursos financeiros viessem a ficar tão caros de um momento para o outro. E não contava porque o passado para muita gente não representa nada. Ou não representa porque é desprezado, ou não representa porque é desconhecido. Bastava atentar, primeiro, o que se passou na África subsahariana na década de oitenta, embora a uma escala infinitamente menor; o que se passou no sudoeste asiático posteriormente à liberalização de capitais; e o que se passou logo a seguir na América latina, nomeadamente na Argentina. As causas remotas foram diferentes em cada um dos casos, mas as próximas foram todas iguais: de um momento para o outro os capitais que afluíam às “pàzadas” tornaram-se escassos, os juros subiram, subiram muito, e quem devia deixou de poder “aguentar” o serviço da dívida.
Isto o que eu queria dizer e acho que disse. E “isto” o que não queria dizer: apesar de Sócrates politicamente não me merecer… etc e tal…Isto eu nunca faço. Sentia-me diminuído se para expressar uma opinião que aparentemente foge ao contexto, tivesse que estar a explicitar todo o contexto para demonstrar ou, pelo menos declarar, que me mantenho fiel ao contexto.
Cada um tem o seu estilo. E eu admiro muito o seu…
Abraço
CP

Anónimo disse...

ingsjmdrO problema é que o tipo é um ignorante e quando falou estava sem teleponto...

heretico disse...

no caso, o "problema" de Sócrates foi a sua consabida pulsão para a cacafonia e a redundância - aquela tirada "que era coisa de crianças", matou-o!

a questão de fundo é aqui apresentada com admirável clareza.

gostei. de verdade...

Ana Cristina Leonardo disse...

Eu também admiro o seu estilo, contrário ao meu - que penso com o coração e sinto com a cabeça :) Mas não é esse o ponto. O ponto é que ele não só deixou crescer a dívida até onde sabemos, como o fez com a arrogância da ignorância. Uma ignorância, ainda por cima, patologicamente fascinada por parecer culta.
Além disso, é fácil vir com a conversa de que "foi assim que eu aprendi..." quando anda por poitiers a dar conversa a putos. Eu teria gostado de o ter visto explicar isso era à Merkel, na altura devida. A não ser que se trate de um aprendizado recente... em Paris.
(mas o desmentido/explicação seguintes sobre o assunto... diz tudo)

Anónimo disse...

Caro Dr Correia Pinto: ponha-se a pau e leve uma boa comitiva a um restaurante chique francês e corre o risco de ver o repasto oferecido pelo ex primeiro ministro de portugal, já que, pode crer, ele lhe está eternamente agradecido por, neste seu blogue, haver reposto a verdade da sua lição aos alunos em Poitiers.
Claro que o homem cometeu mais um pecadilho da sua grande vaidade. Comportou-se cá como aqueles presidentes de junta ou de câmara que fazem "obra" e quem vier que feche a porta e apague a luz...
E, na cidade da luz o homem encandeia-se, que tristeza!

Este tipo de gente não merece uma linha, mas pelos vistos teve eco...
É gente que sai de 1º ministro e vai para Paris estudar? filosofia?, por++ra o gajo enriqueceu como? A fazer projectos na Guarda e com o ordenado de 1º ministro?
Não este país está podre.

Rogério Pereira disse...

"Mas a dívida, como ónus, mantém-se e o que tem é de ser gerida.
A dívida representa, portanto, uma despesa, como qualquer outra, inscrita no orçamento, para se fazer ao longo do ano."

Não sei se, reconhecendo verdade no que diz, a dívida é passível de ser gerida quando, de modo artificial, entra em escalada por via dos "tais" mercados... Hoje mesmo, do Expresso: A probabilidade de incumprimento (default) subiu em todos os periféricos da zona euro - Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha - e também para a França, Bélgica e Áustria, segundo dados ao final da manhã da CMA DataVision. Nenhum escapou.Particularmente preocupante a subida do risco de Itália para cerca de 40% (com mais de 560 pontos base no preço dos credit default swaps, seguros contra o risco) e de Espanha, de novo, acima de 30%.

As yields (juros) dos titulos soberanos a 10 anos de Portugal, Itália, Espanha, Bélgica e França estão em alta, segundo dados da Bloomberg ao final da manhã. No caso de Itália registe-se a ultrapassagem, de novo, da barreira dos 7% no caso dos títulos do Tesouro a 5 anos.

Leu disse...

Corroborando: http://www.youtube.com/watch?v=9ZtqhM5W1o0

Anónimo disse...

Aquele rapaz do "Inimigo público" é um bronco

Anónimo disse...

repudio estes senhores que suportam o sr Sócrates... daqui a pouco começam a ver fantasmas e snipers nos Telhados que os querem exterminar... não se consciencializem daquilo que o anterior governo fez e continuarão cegos no que diz respeito À dívida e aos sacrifícios que têm de ser feitos... porque o caminho que levou até ter que pedir ajuda externa foi de orgulho e negação até ao último minuto, não admitindo o erro grosseiro que cometera... ai meus senhores se vê a sua autoridade e falta de humildade e sinceridade. Exemplos disso, todos os casos em que estiveram envolvidos... mas como aqui dizem estes senhores, nos 6 anos de governação socialista devia ser o Pedro Passos Coelho que encomendava noticias destas para entreter o Tuga...