terça-feira, 1 de março de 2011

O MINISTRO DAS FINANÇAS ESTÁ DESORIENTADO


UM CAMINHO SEM SAÍDA

Compreende-se que um técnico formado e formatado no regime capitalista, submerso por esta voragem especulativa, interpretada em nome do rigor das contas públicas, entre em pânico perante o que se está a passar. Mas já não é aceitável que um responsável político pelas finanças de um país continue a reagir politicamente com base em pérfidos "estímulos externos" como frequentemente tem feito, e ontem voltou a fazer, o Ministro das Finanças.
Já aqui há tempos havíamos dito que Teixeira dos Santos estava esgotado, anímica e fisicamente. Agora está também esgotado politicamente. E não há nada pior na presente conjuntura do que ter nas Finanças (e também nos Negócios Estrangeiros) alguém que alinhe acriticamente com as posições adversas – as posições defendidas por aqueles que querem manter tudo na mesma, recuperando, à custa de sacrifícios alheios incalculáveis, dos grandes desequilíbrios por que também são responsáveis.
Ontem, o Ministro das Finanças, certamente apavorado com alguns indicadores que somente ele conhece ou, muito pior, convencido de que pode aplacar a voracidade dos predadores, veio mais uma vez lançar internamente o pânico dizendo que “novas medidas” serão tomadas, se necessário.
Isto é uma conversa tão absurda que até há dificuldade em pegar-lhe com calma e serenidade.
Com a inflação que aí vai, com os combustíveis a subir como nunca, com as demais matérias-primas em alta, nomeadamente as agrícolas, com os rendimentos dos salários diminuído, com a recessão à porta, o Ministro das Finanças vem dizer que pode tomar novas medidas de austeridade? Para quê? Com que objectivo? O Ministro ainda não percebeu que isto é um caminho sem saída? O Ministro não ouve nem lê o que dizem e escrevem economistas de renome (não estes “Cantigas” que por cá temos), sejam eles neo-keynesianos ou até discípulos de Milton Friedman, que claramente apontam a via seguida como o caminho para o abismo?
O Ministro ainda não percebeu, quanto mais não fosse pelo exemplo da Grécia e da Irlanda, que as ditas “medidas” só agravam a situação, não baixam os juros (a Grécia e a Irlanda pagam agora juros mais altos do que antes), aumentam o desemprego e provocam a recessão?
O Ministro ainda não percebeu que o problema é político e não económico? Que é preciso alterar politicamente a zona euro: ou seja fazer aquilo que a Alemanha não quer fazer? O Ministro ainda não percebeu que quem faz subir os juros é Berlim, o governo alemão, empenhado como está em impor na zona euro uma modelo de submissão à Alemanha?
Claro que o jogo oposto ao praticado pelo Ministro (e respectivo Governo) é arriscado, mas que tem que ser jogado até ao fim, politicamente sem medo, sempre na convicção de que haverá quem perca muito mais do que nós se isto for ao “charco”.
A estratégia alemã, na qual a França estupidamente alinhou, está cada vez mais à vista: numa primeira fase, salvar os seus bancos, permitindo-lhes receber o mais possível dos créditos concedidos a quem não lhes podia pagar, fosse para financiamento de exportações alemãs, fosse para rentabilização dos excedentes financeiros dessas mesmas exportações. Logo que os bancos estejam razoavelmente reequilibrados, manter nos chamados países periféricos um regime económico apertado (pacto de competitividade, é um exemplo) subordinado aos interesses da economia alemã, que não passará necessariamente pela sua exclusão da zona euro, embora tal hipótese não seja de descartar num tempo em que tal ocorrência já viesse a ter efeitos limitados sobre as economias do centro.
É evidente que isto é inviável, como inviável é manter, no essencial, a zona euro tal como está. Mas ser inviável não significa que a Alemanha não acredite na sua viabilidade. Por muito estranho que a comparação possa parecer, ela tem de fazer-se: ainda há bem poucos anos a Alemanha supunha – atenção, não eram meia dúzia de alemães, eram quase todos – que era possível estender as suas fronteiras para leste e beneficiar por tempo indeterminado de trabalho escravo. As mentes mais brilhantes da Alemanha pensavam isto e não apenas umas dúzias de criminosos.
Pois hoje a Alemanha também pensa que pode manter uma zona euro em que ela seja o principal país exportador, com moderação interna de salários, baixa procura interna, contenção de importações e ter como principais compradores os demais países dessa mesma zona. Mas se estes ou alguns destes não vendem o suficiente para poder pagar o que nela compram, como vão pagar? É isso que a Alemanha está a tentar “resolver” da forma que se conhece…

5 comentários:

Sousa disse...

Doutor Correia Pinto, viu o "Prós e Contras" de ontem?

Se não viu, aqui vai o link:

http://www.rtp.pt/multimediahtml/progVideo.php?tvprog=26006&idpod=52486&partes=1

Anónimo disse...

Parabéns por esta posta!
Subscrevo.
Julião da Costa

Anónimo disse...

Filosofias à parte, o discurso no Blog até é coerente, como é que o autor resolveria o problema de manter os rendimentos nominais (no euro), o emprego e, simultaneamente, aliviar o garrote do défice se os "mercados" não aceitarem continuar a financiá-lo em condições suportáveis? Ameaçando a estabilidade periclitante do Sistema?
Esta pergunta é sincera

LG

Anónimo disse...

Eu também acreditei, como a grande parte dos portugueses, que Portugal ia do Minho a Timor, e também foi a guerra e a crescente percepção de que não se conseguiria vencer os "terroristas" que fez luz na mente do bom povo português.

ZeManL disse...

"O Ministro não ouve nem lê o que dizem e escrevem economistas de renome (não estes “Cantigas” que por cá temos), sejam eles neo-keynesianos ou até discípulos de Milton Friedman, que claramente apontam a via seguida como o caminho para o abismo"

Folgo em saber que afinal ainda há economistas que, no seu critério, não são "incultos"