terça-feira, 21 de junho de 2011

AINDA SOBRE A "DERROTA" DO BLOCO



VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA
Continua a propósito dos resultados eleitorais do Bloco uma aparente grande discussão, na realidade uma conversa à volta de questões secundárias, sobre as causas da sua derrota, quando a questão fundamental parece ser a de saber que tipo de partido pretende o Bloco ser.
A questão está em saber se o Bloco quer ajudar a gerir o capitalismo neoliberal, arredondando  as suas arestas mais vincadas, sem pôr de parte uma acção política pautada por uma relativa coerência ou se, pelo contrário, quer, como parece, pôr em prática um programa político que, sem explicitamente questionar a sociedade de mercado, pretende introduzir profundas reformas com vista à construção de um modelo de sociedade muito diferente daquele que hoje temos.
Se o objectivo do Bloco é o primeiro, ele vai ter de mudar de prática política e, principalmente, de discurso. Não basta certamente para que isso aconteça prontificar-se a analisar, numa perspectiva relativamente crítica, com uma futura troika as medidas que ela trouxer no bolso para aplicar à governação de Portugal. Vai ser preciso muito mais: vai ser necessário dar provas inequívocas de que está integrado no sistema e que não questiona nem pretende pôr em causa as suas bases fundamentais e o seu modo de funcionamento tal como hoje existem. A ideia de supor que uma arreigada profissão de fé às liberdades e aos direitos fundamentais que ideologia neoliberal também diz aceitar, pelo menos enquanto for ideologicamente hegemónica, chegarão para conceder ao Bloco o “passaporte” de possível partido de governo é de uma confrangedora ingenuidade política, na medida em que aceita como bons e fiáveis alguns dos instrumentos da propaganda ideológica do capitalismo oriundos de uma época em que tinha de se bater com adversários poderosos e prontos, a todo o momento, a aproveitar as suas fragilidades onde quer que elas geograficamente se manifestassem para o substituir, constituindo aqueles instrumentos, por contraposição à cultura dominante dos adversários, um poderoso factor de dissuasão contra a mudança. Nos tempos modernos a “exacerbação” desses valores funciona exactamente ao contrário: eles constituem um factor de rejeição por parte daqueles que estão sempre dispostos a transigir e a negociar sobre o seu conteúdo, sempre que as circunstâncias (ou os tempos, como diz Assis) o reclamem.
Todavia, se o objectivo do Bloco, como tem parecido, for outro, for o de “domar” o grande capital, nomeadamente o financeiro e especulativo, atacando sem contemplações os interesses instalados, apontando no sentido da construção de uma sociedade mais homogénea na sua diversidade, o Bloco tem de estar consciente de que essa luta não tem o seu ponto culminante de quatro em quatro anos nas urnas, que mais não são do que um episódio da luta mais complexa que se tem de travar com vista a um fim que nunca se sabe quando se alcança, mas que pelo simples facto de existir como ponto inarredável da agenda política constitui um obstáculo permanente presente à dominação sem oposição da sociedade neoliberal. O êxito ou o inêxito deste objectivo não pode, em “circunstâncias normais”, ser predominantemente medido pelos resultados eleitorais, que hão-de sempre reflectir com as “nuances” de ocasião a forma de pensar da ideologia dominante arreigadamente instalada no eleitorado.
O problema do Bloco, pelo menos para quem observa de fora, parece ter sido o de ter acreditado, ou continuar a acreditar, aos mais diversos níveis da sua intervenção política, na “quadratura do círculo”. A desilusão e a frustração decorrentes dos resultados eleitorais parece terem ai a sua principal explicação. Só que não há “quadratura do círculo” para quem luta por algo de novo e de muito diferente daquilo que existe…

ADITAMENTO

A reacção de Rui Tavares, que acaba de vir a público esta tarde, é a prova dos múltiplos equívocos em que o Bloco incorreu como partido de esquerda. Nem era preciso ter uma grande experiência política para antecipar possíveis consequências decorrentes de certo tipo de “contratações”. Bastava ler certos artigos da última página do Público.

Só que RT, para ser completamente coerente com a sua indignação, deveria ter deixado o lugar ao partido que o elegeu. Não o fez, porque, tal como Nobre, também ele está convencido de que tem um valor autónomo. Com a diferença, apesar de tudo importante, de “nunca se ter medido” …

3 comentários:

Rogério Pereira disse...

Fico. Fico com as ideias...acho que fazem sentido

Anónimo disse...

O que e "valor autonomo"? Sera $$$$$$$$$$$$$?

Gonçalo Avelãs Nunes disse...

Para quem como eu já passou pelo PCP e pelo Bloco se considera de esquerda e de matriz marxista é precisamente esse o problema. Que partido neste momento está disposto a de forma aberta coerente e estruturada atacar o capitalismo dessa forma.
Um grande abraço
gonçalo avelãs nunes