quarta-feira, 16 de março de 2011

AINDA SOBRE OS PROTESTOS DE SÁBADO PASSADO

SERÃO LEGÍTIMAS TANTAS DÚVIDAS?

Ainda sobre o protesto da “Geração à rasca” e o que para aí se ouve dizer, nomeadamente sobre a ausência de objectivos, falta de ideias claras sobre o que fazer e até a analogia que alguns já fizeram com o “Tea Party”.
Alguns comentários são manifestamente exagerados, embora a questão seja, de facto, muito complexa.
Por um lado, há já em muita gente a convicção de que, pelas vias institucionais, ninguém (quer dos que estão ou dos vão ficar “à rasca”) vai conseguir algo de muito diferente daquilo que existe e que a cada dia se agrava. O sistema tal como está organizado, e ainda por cima neste momento, não permite fissuras. Aparece mesmo aos olhos da maioria como um bloco, fechado, impossível de se deixar penetrar a partir de qualquer ideia nova ou diferente daquelas que diariamente o alimentam e lhe asseguram a vida por via das proclamações e comentários, no essencial convergentes, veiculados pelos media. Qualquer argumentação inovadora leva logo em cima com uma chuva de argumentos tendentes a demonstrar que tal hipótese não tem qualquer viabilidade, porque os “mercados” isto e mais aquilo, os nossos parceiros na União Europeia jamais aceitariam e por aí fora. É claro que todos esses argumentos são desenvolvidos a partir das próprias bases do sistema e assentam no pressuposto de que ele é imutável.

Por outro lado, numa situação como a actual, em que um partido já está há muito tempo no poder, pode haver a tentação de acreditar na possibilidade de mudança prometida por outro partido, igualmente do sistema, que apresenta as mesmas propostas ou até piores, de forma diferente. É o que se passaria com a apresentação de propostas que assentem numa radicalização dos pressupostos neoliberais nas quais a demagogia bem feita pode perfeitamente confundir-se com a racionalidade. A mais conhecida (principalmente, pelas piores razões, sistematicamente omitidas) passa pela diminuição dos impostos. Na presente situação qualquer abaixamento dos impostos tem de passar por um corte na despesa que o compense. Esta ideia de que as pessoas passam a pagar menos impostos pode ser muito persuasiva e convencer muita gente, primeiro, porque é muito fácil demonstrar com meia dúzia de exemplos isolados, de grande impacto público e quase nenhum efeito financeiro que há no Estado muitas despesas supérfluas que podem ser evitadas. E depois, porque o abaixamento dos impostos, se efectivamente se verificar, vai logo notar-se, enquanto a diminuição das despesas tem um efeito gradual e diferenciado. Esta é, de facto, a maior tentação em que pode cair o movimento da “Geração à rasca” – uma luta contra o Estado e tudo o que ele parece representar - e então, nesse caso, haveria fundadas razões para o assemelhar ao “Tea Party”.
Nada, porém, do que se ouviu na Avenida da Liberdade ou na Praça dos Aliados, aponta nesse sentido. As pessoa não têm o sentimento de que o inimigo seja o Estado, nem nada na nossa difusa “cultura política” aponta nesse sentido. O que as pessoas têm é o sentimento de que há muita gente na política ou a ela ligada que usa o Estado em benefício próprio e das clientelas que a apoia. O que não é exactamente a mesma coisa que entender que o Estado não passa de instrumento ao serviço dos grandes interesses. As pessoas acham que o Estado pode desempenhar um papel de árbitro e de agente interventor na vida económico-social contribuindo com a sua acção para uma sociedade muito mais equitativa.
Em terceiro lugar, estão os que, situando-se dentro do sistema, o contestam. Aparentemente teriam, numa situação como a presente, reunidas todas as condições para desempenhar um papel que pudesse levar a uma efectiva mudança e angariar um grande apoio popular capaz de se tornar no sustentáculo da prometida ruptura. Acontece que, quem está dentro do sistema, e o contesta, está, pela sua própria história, mas também pela acção do poder ideológico que o sustenta, sujeito a reacções quase pavlovianas relativamente àquilo que propõe ou até mesmo racionais justificadas por descrenças fundadas.
Quem está fora e aparece de novo beneficia, portanto, de todas as vantagens: não tem passado, sabe perfeitamente o quer não quer e, se continuar na luta, breve vai perceber que o que não quer jamais pode ser evitado no sistema em que vive.
A partir daí todas as portas estão abertas…
A luta continua! Ou como dizem os Homens da luta: “Luta, camarada, luta!”

A ENTREVISTA DE SÓCRATES


COMENTÁRIO DE QUEM NÃO A VIU

Não vi, estava a ver o Bayern-Inter, de certeza muito mais interessante. Porque estive até ao fim sem saber como o jogo iria acabar. A Europa tem muitos defeitos, mas a maior parte dos jogos de futebol ainda preservam aleatoriedade inerente a qualquer jogo.
Com a entrevista de Sócrates, à semelhança do que por cá se passa com certos jogos de futebol, já se sabia antecipadamente como começaria, como decorreria e como iria acabar. A questão, porém, não só é essa.
A questão é que as alternativas institucionais a Sócrates são exactamente iguais ou piores. O PSD não tem rigorosamente nada para dizer. Nada. E esse é o único aspecto desta crise política em que interessa insistir à saciedade: são iguais ou piores, tanto um como outro (parece ilógico, mas não é).
Mas também interessa falar de duas personalidades que nestes dias se manifestaram e cujas vozes deixam algumas interrogações.
Cavaco, depois daquele desastre que foi o discurso da tomada de posse, voltou a falar hoje, no aniversário do 15 de Março (massacres no norte de Angola pela UPA), e novamente apelou aos jovens.
É muito difícil saber qual a fonte inspiradora de Cavaco. Como é um homem pouco dado às letras nem sempre as suas incursões fora da vulgata económica são facilmente compreensíveis. Aparentemente, poderia estar a inspirar-se em João Paulo II, quando em Varsóvia, ao iniciar a senda dos gigantescos comícios que, por mérito seu, realizou por esse mundo fora, incentivou os jovens a agir e lhes disse: “Não tenham medo!”.
João Paulo II quando assim falou tinha em mente uma agenda política que acabou por executar com toda a mestria. Os jovens e o povo polaco em geral eram um dos grandes intérpretes dessa agenda, que ele controlava e geria, com as alianças convenientes, fazendo, por isso, todo o sentido o seu apelo.
E o de Cavaco, faz? Que Cavaco tenha uma agenda política, parece evidente. E que tenha intenção de a pôr em prática no segundo mandato, também. Só que estes apelos à juventude e o modo como foram feitos em nada vão contribuir para a implementação dessa agenda.
Como se viu nas manif’s de sábado não há qualquer sintonia entre o sentimento e a vontade dominantes nos manifestantes e as palavras do discurso de Cavaco. Cavaco fez um discurso escandalosamente de direita, sem pôr em causa, ou sequer questionar, as bases da sociedade e dos poderes dominantes contra os quais as manifestações se fizeram.
E no discurso de hoje o apelo aos jovens ainda é mais esdrúxulo, porque ao tomar a guerra colonial como exemplo de coragem dos que nela participaram – um projecto à partida falhado e condenado pela História – independentemente dos actos de bravura sadia que nela tenham ocorrido, ele acaba por invocar um paralelismo que nenhum jovem aceita como modelo de acção. Portanto, este caminho que Cavaco parece querer calcorrear não tem nenhuma hipótese de prosperar junto daqueles que são o alvo dos seus apelos. Cavaco está claramente mais à vontade para incentivar o empreendedorismo da juventude, como já fez quando apresentou Rendeiro como exemplo.
Mário Soares, por seu turno, em artigo no DN, dá mais uma vez um exemplo muito elucidativo do modo como a chamada esquerda do PS vê a crise e a situação em Portugal.
Em teoria, critica-se a Europa em nome dos valores da unidade, da solidariedade e da igualdade, culpa-se os responsáveis pela sua política profundamente conservadora, neoliberal, geradora de profundas desigualdades, pelo desemprego, precariedade, pela impunidade dos responsáveis pela crise e pelas políticas económicas recessivas que apenas agravam a situação existente, a ponto de a tornar intolerável.
Mas no que respeita a Portugal, critica Cavaco – e bem – por no discurso de tomada de posse ter ignorado a crise internacional e também Sócrates por ter agido à revelia do povo, dos parceiros sociais e das instituições. Mas quanto ao conteúdo, nada! A crítica é somente formal, diz apenas respeito ao modo de actuação e nem uma palavra sobre o seu conteúdo dos programas.
No PS é e sempre foi assim: aquilo que em tese se defende nunca é para aplicar cá dentro.

terça-feira, 15 de março de 2011

O DENTINHO É TÃO PUDICO


E ISSO FICA TÃO BEM NA RTP…

O Dentinho que é repórter residente (residência já com mais uma década!) da RTP algures na Europa, ao que se supõe em Paris, foi agora mandado para a Líbia, para Tripoli, para informar os espectadores da RTP do que se está a passar na zona controlada por Kadafi.
Mas não, ele comporta-se como aqueles fanáticos comentadores de futebol, que não fazem a menor ideia do que seja a realidade objectiva – aquela para a qual convergem as diversas observações – e só estão interessados em veicular as “verdades subjectivas” que já levam construídas antes de os acontecimentos ocorrerem.
Dentinho, que já fazia as delícias do saudoso Mário Castrim, refinou com a idade e depois de já ter contado muita “balela”, em muitos anos de serviço ao serviço dos poderes constituídos, num súbito acesso de pudicícia, que nas mais velhas profissões acontece muito com a idade, recusou-se a transmitir algumas passagens de uma conferência de imprensa de um suposto ou verdadeiro membro da Al Queda, feito prisioneiro pelas forças leais a Kadafi.
Por pudor...
ADITAMENTO
Está na hora de Dentinho ir um pouco mais para sudeste - Arábia Saudita e Barhein - onde certamente terá muito que contar, ouvindo as "autoridades constituídas".

A "GERAÇÃO À RASCA" E O FUTURO


A PROPÓSITO DE UM ARTIGO DE KRUGMAN

Nem de propósito, no dia anterior ao da manifestação da “Geração à rasca” o I e outros jornais europeus publicaram um artigo de Paul Krugman, em Portugal traduzido com o título “A educação não é chave do sucesso económico”, no qual o prestigiado economista, com base num artigo publicado pelo “The Times” sobre investigação jurídica, noutros estudos e, fundamentalmente, com base na observação do que se passa com o emprego numa sociedade como a americana, conclui que a educação superior não é nos tempos que correm, só por si, garantia de bom emprego ou, sequer, de emprego.
O desenvolvimento tecnológico e a informatização têm nestes últimos vinte anos destruído muitos empregos não tanto nas áreas do trabalho pouco qualificado, como durante muito tempo se supôs que poderia a acontecer, mas exactamente naqueles áreas onde se pressupunha que o tipo de trabalho a realizar em conjugação com a informatização exigia formação académica superior.
Mas não. Não foi isto o que aconteceu. Foi exactamente no “meio” entre os que ganham muito e os que não têm qualificações especiais que a falta de emprego mais se faz sentir. Por outras palavras, a formação académica superior tida, até há bem pouco tempo, como o “passaporte” para o ingresso numa classe média estável deixou de o ser.
As conclusões factuais deste artigo (porque com as políticas ninguém se interessou) foram entre nós glosadas de diversos modos, em alguns casos sem grande rigor e noutros com honestidade intelectual muito aquém da desejável.
Houve logo quem dissesse que o Estado era o grande responsável pelo que se estava a passar: andou a vender ilusões a quem estudava e a conceder licenciaturas sem qualquer interesse para o mercado de trabalho.
Pode haver, e certamente haverá, alguma responsabilidade do Estado, mas já é muito duvidoso que tal crítica possa ser feita por quem permanentemente defende o apagamento do papel do Estado. O que deveria o Estado fazer? Orientar a educação, consoante as necessidades do país? O numerus clausus nas universidades tem como se sabe várias interpretações e outras tantas causas. Mas o que teria acontecido em Portugal se o governo, qualquer governo, além de ter estabelecido o numerus clausus tivesse também proibido as universidades privadas ou tivesse limitado drasticamente a sua intervenção a certas áreas do ensino?
Os que agora responsabilizam o Estado o que teriam dito então se o Estado tivesse actuado de dessa maneira? E o que teria dito o próprio Tribunal Constitucional se o Estado tivesse tido uma actuação muito mais interventiva e restritiva?
A apresentação acrítica das constatações acima referidas pode levar a que as correntes mais reaccionárias que defendem a privatização do ensino e da saúde ganhem um novo alento com base na “demonstração” de que há licenciados a mais, acabando por tornar a educação superior apenas acessível aos que tem mais dinheiro. De facto, a restrição da educação superior como consequência de uma exigência do mercado acabará por empurrar os mais pobres para as profissões cuja formação é mais barata, deixando a superior quase exclusivamente para os que tiverem dinheiro para a pagar.
E se a mobilidade social nas sociedades capitalistas contemporâneas já estava em crise, o desenvolvimento desta lógica na política do ensino levará fatalmente a uma sedimentação ainda maior dos estratos sociais. Quem nasce rico tende a continuar rico, quem nasce pobre tem cada vez menos hipóteses de deixar de o ser.
Este estado de coisas – que é, no fundo, aquele contra o qual se manifestaram centenas de milhares de jovens no último fim-de-semana - confirma igualmente a tese, aqui já exposta, de que as modernas sociedades capitalistas estão por todo lado a abrir caminho para a criação de uma sociedade dual com poucos de um lado, ganhando muito, com acesso a todo o tipo de privilégios e muitos do outro, ganhando pouco, em trabalho predominantemente precário, vivendo largos períodos de desemprego.
A solução não estará em tornar a educação mais rara e selectiva (mesmo que o critério não fosse exclusivamente o do dinheiro), mas antes continuando a aposta numa educação de qualidade, porventura mais orientada para as necessidades das modernas sociedades, tendo sempre como pressuposto uma política também ela orientada para a busca de soluções inclusivas, que rejeite a marginalização de largos extractos da população, dividindo por todos o que passou a ser mais raro, de modo a evitar a criação de dois pólos extremados por um imenso fosso a separá-los.
Está, porém, cada vez mais evidente que soluções diferentes das actuais não podem ser encontradas dentro do sistema, nem por via de um mutualismo, como alguns agora propõem, que já fez a sua época e cujo principal mérito foi certamente o de, pela sua prática, ter permitido concluir que aquele não seria o caminho para atacar com sucesso as profundas desigualdades geradas pelas sociedades capitalistas. É este novo caminho que por todo o lado cada vez mais se impõe. É preciso refundar a democracia, com base noutros pressupostos, que não permitam a sua completa adulteração, como actualmente está a acontecer.

segunda-feira, 14 de março de 2011

SÓCRATES DISSE O QUE SE ESPERAVA


PSD NÃO TEM NADA PARA DIZER

Sócrates aplicou ao PSD mais um golpe no qual Passos Coelho caiu que nem um “patinho”.
É óbvio que se Sócrates tivesse dito cá dentro abertamente o que andava a tramar com Bruxelas para apresentar a Merkel, o PSD por razões meramente tácticas ter-se-ia posto de lado, e o anúncio de Sócrates ao Conselho Europeu já não se poderia fazer ou, se fosse feito, não teria força nenhuma.
Para evitar esse cenário, Sócrates no seu melhor estilo de “chicoesperto” colocou o PSD perante o facto consumado e tirou as consequências: se o PSD desaprovar as medidas, fica com responsabilidade da crise política; e se ganhar eleições fica com o ónus de apresentar sob a sua responsabilidade exclusiva o mesmo ou pior do que aquilo que agora rejeitou apoiar; se aprovar as medidas anunciadas, fica associado a elas e será tão responsável quanto o PS.
Se Passos Coelho fosse tão “esperto” como Sócrates teria, na própria noite em que este fugazmente lhe comunicou o que no dia seguinte iria fazer, convocado a imprensa para dar conhecimento do que Sócrates escondera, dando logo a saber a posição do PSD.
Não o fez e agora não tem nada para dizer como se viu pela declaração do melífluo Relvas. Como pode ter algo para dizer…se está de acordo?
E Cavaco também terá muito pouco para dizer. Pelas mesmas razões.
Tanto o PSD como Cavaco só podem refugiar-se nas questões institucionais, que são importantes, mas com as quais Sócrates convive muito bem por saber que ficam à margem das preocupações do “eleitor português”.
A conversa de um lado e do outro está vista. A conversa pode ser diferente, mas o objectivo é o mesmo. Com esta gente não vamos a lado nenhum!

SOBRE OS CAMIONISTAS



TÊM REGIME ESPECIAL?

Primeira dúvida: é uma greve ou um lock out? Se for lock out, como aceitá-lo à luz da Constituição?
E se for greve, os camionistas, nos piquetes de greve, têm direitos que os trabalhadores não têm quando desempenham idêntico papel?
Os camionistas estão, na memória política do século XX, associados ao que de mais reaccionário existe nas sociedades motorizadas…
ADITAMENTO
Errei na primeira pergunta: o lock out pressupõe um conflito laboral. No caso, o encerramento da actividade empresarial não tem essa causa.
E errei também na segunda, na qualificação do acto dos camionistas, porque o encerramento da actividade empresarial pelos patrões não é greve, qualquer que seja a natureza do conflito que o determina.
Quanto ao resto, nada a alterar.
SEGUNDO ADITAMENTO
Os camiões que fazem as entregas nos supermercados "Pingo Doce" e que circulam com este logotipo também paralisaram a sua actividade.
Alguém acredita que isso possa ter acontecido sem a concordância do merceeiro do "Pingo Doce"? Mais uma meritória e filantrópica acção desse grande patriota! Enquanto não acabarmos com estes "excessos de patriotismo" não vamos a lado nenhum.
Além de não pagarem os impostos devidos pelos dividendos também querem o gasóleo e as "estradas" mais baratos!
Os mesmos de sempre!

O EURO TEM FUTURO?


ASSIM, NÃO!

É a pergunta que hoje toda a gente faz desta ou de outra maneira mais simpática (“Como assegurar o futuro do euro”? Que mais não é que: “Como salvar o euro?”).
Exactamente por o euro ter constituído um grande logro para todos – inclusive para a Alemanha que dele tem tirado a maior vantagem -, é que hoje não é preciso ter especiais conhecimentos de economia, nem de moeda, para se perceber que uma moeda comum a vários Estados independentes não pode existir nas condições em que o euro foi criado, se desenvolveu e hoje vive.
Mais cedo ou mais tarde – e é isso que já está a acontecer com vários Estados por muito que se tente escondê-lo – verificar-se-á que uma moeda comum criada num mercado que na prática, sob vários aspectos (em teoria em todos), funciona como um mercado interno, só pode existir se atender às particularidades, especificidades e níveis de desenvolvimento das economias dos respectivos Estados e dispuser dos meios e mecanismos adequados para esse efeito.
Independentemente de qualquer vontade perversa, mas antes como consequência natural do funcionamento da actividade económica, se por força da hegemonia económica de um deles, ou de mais que um, a moeda servir apenas a política desse ou desses Estados – isto é, se atender apenas à específica natureza das economias hegemónicas – os outros Estados não têm qualquer hipótese de continuar nesse conjunto, arrastando a sua saída, e os problemas que a ela inevitavelmente estarão ligados, o fim da moeda única.
Começando pelo princípio. A moeda única foi um logro, porque quem a impôs (a França) na base de uma decisão puramente política acreditou que essa era a decisão económica e politicamente correcta para compensar a inevitável reunificação alemã que a Rússia já não tinha força para impedir, que a América acabou por aceitar quando teve a garantia de que a Alemanha não abandonaria a NATO e que a Inglaterra verdadeiramente nunca quis. A França estrebuchou, Mitterrand pôs em prática todo o seu maquiavelismo político e até alguma ostensiva inabilidade quando foi a Berlim Leste tentar adiar o que já estava consumado, e acabou por fazer com Kohl o “negócio da moeda única” supondo que assim amarrava a Alemanha e a sua economia à Europa unida.
E até é verdade que, nos anos economicamente duros da “assimilação” da reunificação, a França tirou mais partido da moeda única do que a Alemanha, na medida em que viu consideravelmente aumentadas as suas exportações além-Reno.
O que ninguém na altura ninguém percebeu foram as consequências do que se estava a criar. Acreditou-se que, com um banco central feito à imagem do Bundesbank e duas ou três regras vagamente restritivas relativas ao défice e à dívida, se assegurava a perenidade de uma moeda que “iria ajudar a unir” decisivamente a Europa. Como se a economia de um país em sistema capitalista fosse algo que se pudesse reconduzir ao papel económico do Estado que, aliás, por força das correntes ideológicas vigentes, não deixava de se reduzir drasticamente a cada dia que passava. Mas mesmo que não fosse o caso. Passou a haver um “novo mundo” para os bancos e as empresas que nenhum Estado podia controlar.
Do outro lado do Atlântico, renomados economistas americanos, com óbvia grande experiência do que é uma moeda única num enorme espaço económico constituído por estados federados, sempre puseram muitas dúvidas ao êxito de tal empresa. Mas como tudo estava aparentemente a correr bem e o euro, a partir de determinada altura, até passou, em cotação, a superar o dólar, ninguém lhes ligou por cá.
A euforia reinava por todo o lado. Estados que sempre tiveram balanças de pagamentos deficitárias e que conheciam o penoso caminho da busca de divisas para fazer face aos défices das suas balanças comerciais diziam e ouviam dizer que agora esse problema “não se punha” porque temos todos a mesma moeda. Ou seja, davam a entender que o problema se resolveria uma pouco à semelhança do que até então se resolvia o endividamento interno. “Um pouco à semelhança” e não do mesmo modo, porque agora não poderiam criar moeda, já que havia um banco central, que não dependia exclusivamente de nenhum deles, e tinha como principal missão o controlo dos preços, ou seja, da inflação. Mas, à parte isso, tudo igual.
E aqueles outros Estados que viviam permanentemente angustiados com a inflação, tinham doravante a garantia de que com um banco central à alemã esse flagelo deixaria de existir.
Enfim, apenas vantagens!
O que aconteceu silenciosamente ao longo dos anos conhece-se muito bem agora pelo barulho que está a fazer. Situação que a crise financeira de 2008 apenas pôs a nu, e em certa medida agravou, mas que já existia.
A economia mais competitiva e as economias que mais de perto a acompanharam foram-se impondo no grande espaço económico comum expulsando para o caixote do lixo da história os aparelhos produtivos dos Estados que não tinham (por desvantagem competitiva) capacidade para concorrer com elas num mercado livre.
Por outro lado, os Estados, as empresas e os cidadãos (ou as famílias, como os economistas gostam de dizer) foram-se endividando por razões aparentemente diferentes mas no fundo reconduzíveis ao mesmo denominador comum: crédito barato e necessidade de rentabilidade do capital.
Os Estados endividaram-se para cumprir as funções que são as suas, embora nem sempre pelas melhores razões. Alguns, que sempre foram deficitários, agravaram os seus défices, porque, como o crédito era barato e o “problema das divisas estava resolvido”, era altura de fazer obra e servir clientelas que, se não perpetuavam no poder os governos que as decidiam, pelo menos lhes asseguravam uma longa duração.
Outros, que até nem eram por aí além deficitários, viram-se por força da crise “obrigados” a assumir despesas (sociais, de estímulo económico e de resgate) que antes não suportavam.
Por seu turno, os bancos endividam-se para conceder crédito às empresas e às famílias.
As empresas contraíram dívidas para financiar actividades económicas viradas para sectores onde a concorrência externa não se fazia sentir, mas que simultaneamente não geravam recursos provenientes de rendimentos externos. Ou seja: a dívida contraída fora do país , por quem emprestou às empresas ou pelas próprias empresas, agravava-se tanto mais quanto mais estas actividades se desenvolviam.
Empurradas pelo crédito barato, as famílias gastavam acima dos seus previsíveis rendimentos (cada vez mais falíveis dada a crescente precariedade do emprego) para comprar produtos produzidos por aquelas empresas, nomeadamente casas, mas também – e em grande escala – para consumo.
O dinheiro, por seu turno, era emprestado por quem tinha excesso de liquidez proveniente dos excedentes comerciais e era barato, porque, como existia em quantidades excedentárias relativamente às necessidades das economias que o geravam, tornavam-no num bem pouco escasso.
Esta foi a “ratoeira” que nem aqueles que dela mais beneficiaram à época da criação da moeda única sequer suspeitaram – o que também nos dá uma ideia muito correcta do que é a “ciência” económica.
E hoje? Hoje é o que se sabe: os que emprestaram o dinheiro sem qualquer racionalidade económica querem recebê-lo por inteiro e depressa, tanto mais que muitos ou quase todos os bancos que o fizeram estão numa situação económica muito difícil. Ou seja, precisam de muitos milhares de milhões para se recapitalizarem. E então acham que a via mais segura para atingir esse objectivo – agora que o dinheiro é escasso – é através de draconianas medidas de austeridade.
As medidas draconianas que os Governos dos Estados credores (entenda-se: bancos alemães, alguns franceses e mais uns poucos) impuseram aos devedores traduzem-se como toda a gente sabe em políticas altamente restritivas, que agravam o desemprego, geram a recessão e não impedem, antes agravam, a constante subida dos juros.
Como estas políticas são objectivamente contraproducentes para combater a crise e subjectivamente incomportáveis pela generalidade dos agentes económicos, a consequência previsível da sua reiteração seria a bancarrota dos Estados endividados, a falências das empresas em geral e dos bancos em particular, e o lançamento no desemprego e na miséria de milhões de pessoas.
E é por isso que, com estas políticas, o euro não tem futuro. Nenhum futuro, como muito em breve se constatará.

domingo, 13 de março de 2011

INDIGNAI-VOS!


NOTAS SOLTAS SOBRE AS MANIF’S DE ONTEM

A primeira e mais importante constatação que as manifestações de ontem evidenciaram é a de que “eles” – “todos eles” - ficaram assustados. Todos os que se reclamam muito ou pouco do sistema ficaram apreensivos, preocupados. Esperam pelo desenrolar dos acontecimentos com a convicção de que pode haver consequências e o desejo de que as não haja ou de que possam ser revertidas a seu favor, se as houver.
A título de exemplo, o “Eixo do Mal” de ontem à noite foi disso o espelho fiel. Entre a vontade de “enquadrar” e a preocupação de desvalorizar, o que verdadeiramente contava era o receio do que pode vir a seguir.
E não é caso para menos. Em Lisboa, desde os primeiros dias da Revolução de Abril que se não via uma tão genuína e abrangente vontade de estar presente. Para já apenas para exprimir a desilusão, a frustração, o desespero, a revolta. O resto virá a seu tempo.
No Porto nunca se viu nada igual depois de Delgado e dos dias que se seguiram ao 25 de Abril.
É o princípio de uma onda que só agora começou.
Esta sociedade, este modelo não tem saída. Ou melhor: só tem a saída em que estamos a viver desde há quase trinta anos e que se agravou consideravelmente nos últimos dez. Não apenas em Portugal, mas em toda em Europa, com graus de intensidade diferentes, consoante os países, a sua força económica e a memória da sua história mais recente.
Ainda agora Stéphane Hessel, nascido em Berlim, em 1917, judeu alemão, francês desde 1937, resistente contra Vichy e o nazismo, secretário da Comissão que na ONU elaborou a Declaração dos Direitos do Homem, escreveu no fim do ano passado um pequeno livro – Indignez-vous – com mais de um milhão de exemplares vendidos, onde faz um retrato fiel da actual situação mundial, sem esquecer – ele que é de origem judaica – a vergonhosa situação da Palestina.
Diz Hessel: “ O interesse geral deve prevalecer sobre o interesse particular. A justa repartição da riqueza crida pelo mundo do trabalho deve prevalecer sobre o poder do dinheiro”. E noutro passo: “Atrevem-se a dizer-nos que o Estado já não pode assegurar o pagamento das despesas sociais. Mas como pode faltar hoje o dinheiro para manter e aumentar essas conquistas quando a produção da riqueza aumentou consideravelmente desde a Libertação, numa época em que a Europa estava arruinada? Tal só acontece porque o poder do dinheiro é tão grande, insolente, egoísta, com os seus servidores introduzidos nas mais altas esferas do Estado. Os bancos privados estão exclusivamente preocupados com os seus dividendos e com os altos salários dos seus dirigentes e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão profundo e competição pelo dinheiro nunca esteve tão animada”.
Palavras gastas, velhas, dirá cinicamente o sistema pela voz dos seus intérpretes. Mas não. É o mesmo problema de sempre. Em cada época com os seus específicos contextos. Mas a questão de fundo é sempre a mesma, embora possa variar a forma de a resolver.
Há, porém, invariáveis que se mantêm constantes: não são os que tiram vantagem desta situação, aqueles que têm à sua guarda o sistema, que vão alterar o rumo das coisas. Tão pouco será no quadro do sistema que as criou, potenciou e as impõe que elas poderão ser alteradas.
A alteração terá de surgir de uma ruptura que somente o povo, na força imparável da sua vontade, poderá fazer.
É nesse sentido que vão ter de apontar todas as “indignações”. Indignações feitas acção, passada que seja a fase das lamúrias e dos queixumes.
ADITAMENTO
O livro de Stéphane Hessel é ainda importante a outro título num país como Portugal. Ele marca a diferença, em matéria de diagnóstico, entre a posição de um homem progressista que luta pelo bem comum e aponta caminhos de futuro e a dos reaccionários que se comprazem na descrição da catástrofe, sem nunca aprofundar as suas causas e sem ter a ousadia de apontar caminhos que toquem nos privilégios e interesses instalados, deixando sempre subentendido que os "rearranjos" a fazer têm como pressuposto inalterável o status quo do dinheiro!

sábado, 12 de março de 2011

O POVO EM LUTA!


GRANDES MANIFESTAÇÕES EM TODO O PAÍS

Animado pelos “Homens da Luta” e por mil e uma outras formas de intervenção espontânea o povo desceu à rua em todo o país e deixou muito claro o que pretende: uma ruptura completa com as práticas políticas vigentes.
Não adianta apresentar mais argumentos contra a irracionalidade desta governação opressora ou de qualquer outra igual a ela, institucionalmente saída dos mesmos pressupostos e portadora dos mesmos vícios e defeitos. Tão-pouco adianta arremeter contra aquele verdadeiro “covil de malfeitores” que regularmente se reúne em Bruxelas ou noutras capitais europeias, que aplaude a coragem dos que apenas têm a covardia de deixar os ricos incólumes e flagelam impiedosamente os mais pobres, confiscam o futuro dos jovens, promovem o desemprego dos que estão empregados, espoliam os reformados e os funcionários públicos e apresentam como supremo objectivo da sua governação a precarização do trabalho, despojado de todos os direitos, transformado na primeira das mercadorias descartáveis.
Ao ponto a que as coisas chegaram já nada disto adianta. O que adianta é que cada povo desempenhe o papel que lhe compete. E o papel do povo português no presente momento histórico é correr com eles. Correr com eles por qualquer meio.
É certo que neste momento muitos dos que hoje se manifestaram não têm ainda um objectivo claro para a luta em que estão participando, salvo o que decorre da situação em que se encontram que querem ver alterada. Mas breve saberão, pela continuação da luta, que esse objectivo não é alcançável nem pela sua massiva exibição perante o poder instalado, nem tão-pouco por via de procedimentos institucionais, aliás em crise de inoperância por todo o lado, mas apenas e só através de uma profunda ruptura social e política geradora de um novo tipo de sociedade
Mais tarde ou mais cedo toda a Europa vai ter que viver segundo um novo paradigma. E o que agora, neste tempo, está em jogo é saber se o paradigma por que vamos passar a viver é aquele que os titulares de todos os privilégios nos querem impor, continuando eles a viver segundo o paradigma anterior e a generalidade do povo reconduzida a uma espécie de novos escravos ou se vamos ter a coragem - nós, a grande maioria - de impor um novo paradigma mais justo, mais igualitário, que sirva de padrão e de medida a todos.
O reajustamento vai ser difícil, a memória das velhas gerações com os seus mitos e os seus modelos vai continuar presente por muito tempo, mas a escolha é cada vez mais imperativa: ou uma sociedade dual, com poucos de um lado e muitos do outro, e um enorme fosso a separá-los; ou uma sociedade mais homogénea na sua diversidade e pluralidade.
Para alcançar esta nova sociedade é preciso, como sempre, destruir a antiga, começando naturalmente por correr de vez com todos os seus representantes e intérpretes.
E como eles não permitem que “isto” se possa fazer pacificamente vai ter de se fazer como a História o ditar…

ACABOU! SÓCRATES FORA. JÁ!


NÃO É POSSÍVEL MAIS

Sócrates, sem tratar do assunto no Governo (o Conselho de Ministros não decidiu nem foi consultado), sem comunicar rigorosamente nada à Assembleia da República, mantendo o Presidente da República à margem, deslocou-se como vassalo a Berlim e depois a Bruxelas para apresentar um novo pacote de austeridade, feito à custa do roubo dos mais frágeis da sociedade portuguesa, representativo da expressão mais vergonhosa da política neoliberal, com total e ostensivo desprezo pelo povo e pelas instituições democráticas.
A forma como tudo se passou. As mentiras sucessivas. O completo descrédito a que o Primeiro Ministro chegou, não permitem esperar mais: Sócrates, fora!
O que virá a seguir neste momento já não importa. A convicção de muita gente é que o problema se não resolve com eleições. Complica-se e agrava-se com eleições. Mas isso é outra conversa, que também se não resolve com voluntarismos. A seu tempo se verá como…
O que de imediato interessa é o restabelecimento de um mínimo de dignidade. Um país quase milenário não pode ter no Governo quem não o saiba representar. Sócrates comportando-se como se comporta é indigno de representar o país. Fora!
Sócrates actua à margem do Estado e do Povo. Ignora as instituições democráticas. Despreza o povo. Só atende a boys. Fora!

ENTRE BANDIDOS


COMO ESCOLHER?

El País com aquela isenção que o caracteriza em política internacional diz hoje num artigo não assinado (e que não consta da edição on line) que Kadhafi dispõe de muito dinheiro na Líbia e que é com esses fundos que está a pagar mil dólares americanos por dia a cada um dos cerca de 4000 mercenários do Mali, do Níger ou do Sudão que lutam por ele.
Mil dólares por dia é muito dinheiro! É altura de fazer contas. Entre ser pago por um bandido a mil dólares por dia ou ser roubado por bandidos todos os dias…eis a questão!

sexta-feira, 11 de março de 2011

JAPÃO


O APOCALIPSE ACONTECEU

Hoje é dia de luto. Amanhã ajustaremos contas com os bandidos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A MOÇÃO DE CENSURA


ENFIM, O ESPERADO

A moção de censura não trouxe nada de realmente novo, salvo a alusão muito fugaz de Portas ao discurso de Cavaco Silva e algumas respostas de Sócrates a Louçã que mais pareciam dirigidas ao discurso de ontem do que propriamente ao proponente da moção.
O PSD, manifestamente “entalado” entre o discurso de ontem e a moção de hoje, optou por desvalorizar a moção, considerando-a surrealista e pouco credível, sem simultaneamente a rejeitar, e por esquecer momentaneamente o discurso de ontem.
É natural que o PSD actuasse assim, pois se não desvalorizasse a moção teria de votar contra, embora seja mais difícil justificar por que não a rejeitou, e também se compreende que tenha deixado momentaneamente na sombra o discurso de Cavaco, já que o seu aprofundamento obrigaria à apresentação de uma moção de censura. É, porém, provável que a actual direcção do PSD, para lá dos aplausos entusiasmados de ontem, também esteja ainda a ponderar os efeitos do discurso relativamente ao papel que o partido pretende desempenhar.
Portas praticamente nem à moção se referiu e aproveitou a sessão parlamentar para interrogar o Primeiro Ministro sobre questões várias da governação: contratos a prazo, BPN, juros da dívida, etc.
O PCP, pela voz de Bernardino Soares, coerentemente com a votação da moção criticou asperamente as políticas laborais de Sócrates, nomeadamente as propostas que foram apresentadas à concertação social.
Na segunda volta das intervenções a palavra pertenceu aos segundos-planos e o debate continuou no mesmo tom morno até ao fim, não sem que antes, Assis, a pretexto de responder a Louçã, e mais tarde também Sócrates, tivessem de facto respondido a Cavaco.
Infelizmente, ninguém quer saber do que se passa em Bruxelas, nem do próximo Conselho Europeu.
Feitas as contas, o resultado será o que antes se conhecia: o PS votará contra a moção; o PSD e o CDS abster-se-ão; e o BE e o PCP, serão a favor.

UM DISCURSO RASCA


SOBRESSALTO CÍVICO?

É um discurso rasca, porque é um discurso fraco. É um discurso em que ninguém sai a ganhar. Em que o principal perdedor é o seu autor. E quando um acto que praticamos tem o efeito tendencialmente oposto ao que pretendíamos alcançar manda a inteligência que seja imediatamente repensado o que fizemos.
À medida que o tempo passa e se relêem algumas passagens do discurso de Cavaco Silva na tomada de posse do seu segundo mandato cresce a indignação junto de largos sectores da sociedade portuguesa pela atitude assumida pelo Presidente da República num dos momentos mais críticos da história contemporânea de Portugal.
Cavaco fez uma análise limitada da situação existente: limitada pelos instrumentos de análise que utilizou e limitada também por ter feito um uso sectário e de facção desses parcos instrumentos.
Cavaco desuniu no pior sentido do termo: desuniu porque foi faccioso; porque lançou os emocionalmente portugueses uns contra os outros quando eles mais do que nunca careciam de estabilidade emocional para no confronto sereno e lúcido das suas divergências encontrarem linhas de rumo do futuro.
Cavaco desprezou elementos determinantes na presente situação que nenhum homem de média instrução teria postergado. E fá-lo mais uma vez por sectarismo e por limitação intelectual (a limitação intelectual não decorre apenas da nossa própria limitação mas também do desprezo pelas capacidades e aptidões alheias).
A crise financeira internacional que desencadeou todas as crises por que o mundo agora passa e pelas quais vai continuar a passar por tempo ainda indeterminado não é considerada no discurso de Cavaco. Melhor: é considerada como um não elemento da presente situação. Cavaco assim o entende, como se tem visto por anteriores intervenções, por considerar natural e normal que os “mercados” ajam sem limitações nem regulamentações no “comércio” dos produtos financeiros. Esta visão facciosa da compreensão dos factos tende a imputar as responsabilidades não àqueles que promovem os negócios e jogam com a sorte da economia mundial com base em virtuais, mas muitíssimos lucrativos, produtos financeiros, mas aos que não resistem às facilidades da conjuntura e tentam tirar também partido e proveito da respectiva situação.
Mas é também por limitação intelectual que Cavaco, no seu profundo provincianismo, tenta fazer passar a ideia da crise como um produto português. Um produto que teria sido evitado se se tivesse seguido os seus sábios conselhos. Nesta outra perspectiva Cavaco apela ao entendimento simplista do homem inculto, que na estreiteza da sua compreensão, não está devidamente capacitado para abarcar a complexidade do mundo actual.
Mas o discurso é também, como já foi dito noutro post, demagógico, perigosamente demagógico. Quando Cavaco fala em “sobressalto cívico” ou tenta cavalgar o anunciado protesto da “Geração à rasca”, o que pretende realmente o Presidente da República? O recurso a meios não institucionais por apelo directo daquele que tem por missão assegurar o regular funcionamento das instituições constituirá para a generalidade das pessoas algo de difícil compreensão. Mas mesmo que se entenda legítimo tal apelo, nomeadamente em contextos que o possam justificar, sobra sempre a imensa e perigosa dúvida sobre o conteúdo e sentido desse apelo.
Sem palavras que o explicitem, sem gestos inequívocos que o tornem imediatamente compreensível, a tentação de qualquer intérprete é entendê-lo a partir da personalidade conhecida de quem o faz. E de Cavaco, em matéria de “sobressalto cívico” ou de luta juvenil, conhece-se muito pouco e o pouco que se conhece não é muito recomendável.
De facto, não há notícia de qualquer participação do jovem Cavaco nas lutas estudantis do seu tempo, contra a ditadura e a guerra colonial. A manifestação mais conhecida foi aquela que agora veio a público durante a campanha eleitoral através da publicação de uma fotocópia de uma ficha que entregou na PIDE, segundo o próprio para consulta de documentos reservados.
E depois durante a vida política conhecida, o grande “sobressalto cívico” por que todos passámos durante os dez anos de governação cavaquista, com dinheiro a rodos vindo de Bruxelas, foi aquilo que em Espanha, na mesma altura, ficou conhecido como a “cultura del pelotazo”.
Fortunas que se faziam quase da noite para o dia, o começo de uma grande promiscuidade entre a política e os negócios, enfim o fim de uma época e o começo de uma outra bem diferente da anterior.
Onde está o “sobressalto cívico” de um orçamento que Cavaco, por intermédio dos seus amigos políticos, em grande medida também impôs? Onde estão as propostas de Cavaco que contrariem a política recessiva imposta pela ortodoxia neoliberal de Bruxelas?
Se Cavaco quer algo que vá muito para além disto ou muito diferente disto, então vai ter de o explicar muito claramente. Mas aí resta sempre uma dúvida e sobra uma certeza: está Cavaco disponível para se demitir do cargo que ocupa e recandidatar-se de seguida como líder partidário para, pelo voto, voltar a governar o país? É que fora deste contexto Cavaco não vai ter qualquer hipótese de o fazer, salvo subversão completa das instituições. Só que nesse caso haverá mais actores …

AINDA O DISCURSO DE CAVACO


NUMA OUTRA PERSPECTIVA

No post anterior fez-se a análise do discurso de Cavaco a partir das suas próprias palavras. Neste far-se-á uma preter-interpretação. Por que fez Cavaco um discurso tão violento, ele que passou anos a defender a “cooperação estratégica” – algo que não existe à luz da Constituição portuguesa – e a afirmar que pretendia criar condições de estabilidade ao Governo? Por que muda de rumo exactamente numa altura em que a sua ostensiva divergência mais prejuízos pode trazer ao país?
Por que deixou de estar de acordo com o Governo? Mas como deixou de estar de acordo se o Governo, no essencial, mais não faz do que executar o diktat imposto pelos alemães?
É quase impossível não ligar esta atitude de Cavaco ao que lhe aconteceu no último ano de mandato e, principalmente, na campanha eleitoral para a sua reeleição.
Cavaco não aceita que o vejam como um político igual aos outros. Ele próprio até é capaz de acreditar que é um político radicalmente diferente. Infelizmente para ele, e para a imagem que faz de si próprio, Cavaco sabe hoje que o povo português o vê como mais um. Igual aos outros. Foi a intentona das escutas e o inacreditável texto que ele próprio redigiu para “contar o que se passou”. Foram as acções da SLN. Foi a permuta da Mariani pela “Coelha”. Foi a sua ligação a Dias Loureiro. Foi o financiamento da primeira campanha eleitoral por Oliveira e Costa/BPN/SLN.
Enfim, foi o que é normal num político. Mas Cavaco jamais aceitará que tudo "isto" tenha sido evidenciado. E há todas as razões para supor que Cavaco está convencido que foi Sócrates ou a sua gente que trouxeram para a ribalta o que antes estava por detrás do palco. Facto também normalíssimo em política. Mas para Cavaco não. Por que ele não se considera um político. Político tem para ele sentido pejorativo. E é por ter consciência de que essa qualificação está agora irremediavelmente colada à sua personalidade que Cavaco está, estará, eternamente ressentido.
Tal como aqui tínhamos dito nem Cavaco é capaz de superar os seus próprios ressentimentos, nem tem da crise e da Europa um entendimento que ajude a sair dela…

quarta-feira, 9 de março de 2011

CAVACO IGUAL A SI PRÓPRIO: LIMITADO E SEM GRANDEZA


UM DISCURSO FRACO

Cavaco Silva não surpreendeu. Foi igual a si próprio: um discurso limitado e demagógico.
Cavaco Silva não compreendeu nem vai compreender jamais as verdadeiras causas da situação em que o país se encontra. Causas de que ele começa por ser o principal responsável quando deu início a opções políticas no quadro europeu sem que sequer tivesse equacionado as suas reais consequências a prazo.
Cavaco acreditou que a formação do mercado único entre economias profundamente desiguais poderia a prazo relativamente curto transformar-se numa vantagem para Portugal, apesar das grandes diferenças com que partiam alguns dos países que passaram a partilhar o mesmo espaço económico.
Cavaco acreditou que a liquidação de uma parte importante do aparelho produtivo português, exactamente aquele que era menos competitivo no plano europeu, poderia ser substituída pelo resultado da aplicação de ajudas financeiras conjunturais, aliás em alguns casos concedidas para encurtar ainda mais os prazos de destruição do aparelho produtivo, sem ter compreendido que o efeito aparentemente vantajoso da aplicação daquelas ajudas (enfim, excluindo os casos em que elas foram drenadas para a mais pura corrupção ou para gastos no essencial não reprodutivos, como aconteceu praticamente em toda a linha com as verbas do Fundo Social Europeu, ou para gastos sumptuários não reprodutivos, como muitas das destinadas à agricultura e às pescas) continha em si o gérmen das actuais dificuldades.
Quando hoje Cavaco insiste na crítica à produção e ao apoio à produção de bens não transaccionáveis, esquece a sua grande responsabilidade na actual estrutura da economia portuguesa, não apenas por ter participado acriticamente na formação do mercado único europeu, mas principalmente por não ter percebido as consequências da adesão de Portugal ao Sistema Monetário Europeu, acto preambular da adesão ao euro, nas concretas condições da economia portuguesa.
Pelo contrário, sem base científica e partindo, como quase sempre partem os economistas como Cavaco, de uma análise puramente ideológica, Cavaco acreditou que aqueles dois momentos fundadores do “Portugal moderno” constituiriam a panaceia para todos os males que atavicamente nos atormentam.
Cavaco não percebeu nada disto e hoje, perante a situação criada, faz um discurso puramente demagógico e politicamente enganador para se distanciar das grandes responsabilidades que contraiu em mais de quinze anos de “serviço” nos mais altos cargos do Estado português. Melhor: é um discurso impróprio por ter em vista um objectivo politicamente partidário, ou seja, recheado de opções ideológicas escondidas, disfarçado numa pretensa, mas muito fraca, análise técnico-económica da situação do país, da qual é escamoteado o que de mais importante aconteceu no mundo depois de fins de 2008.
Por exemplo, quando Cavaco fala na perda de competitividade da economia portuguesa o que é que ele quer dizer? Certamente constata um facto, mas o modo como aborda o assunto pressupõe uma imputação política geradora de responsabilidade. Ora, esta forma de colocar o assunto não é séria: porque ou Cavaco reconhece que a perda progressiva de competitividade resulta da moeda única e apresenta para o facto os remédios que propõe; ou se insinua que a perda de competitividade é o resultado de erradas opções políticas de quem governa deveria ter dito quais as medidas que a seu tempo deveriam ter sido tomadas.
Cavaco não faz uma coisa nem outra, fica pela insinuação. E sabe-se, hoje sem qualquer dúvida, o que no "jargão europeu" de raiz prussiana significa ganhar competitividade.
Outras vezes pela proclamação, como quando advoga políticas activas de emprego. Em que consistem?
E quando fala em empresas ameaçadas a que se refere? Não certamente aos compadrios que adiante denunciou, que, como bem se sabe, começaram com os seus governos, alguns deles ainda hoje bem gravosos para o erário público português. Ou será que se está a referir ao merceeiro do Pingo Doce, a quem nada aconteceu, apesar de ter dado mais uma prova evidente do modo como os patrões do dinheiro entendem o patriotismo?
E quando Cavaco apela à redução da despesa, a que despesa se refere? À dos colégios privados que vivem à custa dos subsídios do Estado ou às despesas de saúde e educação públicas?
E quando aponta como modelo um país virado para as exportações de bens e serviços o que quer realmente Cavaco dizer com isso? Que percentagem do PIB deve, segundo Cavaco, ser imputada às exportações?
Francamente, a sensação com que se fica depois de ouvir Cavaco é que como economista é limitado e como político falta-lhe grandeza, muita grandeza.
Mas é o que temos…

ENTRE O CONVITE PARA JANTAR E A CADEIA


UM EXEMPLO

Talvez os estudantes de hoje não saibam ou talvez alguns saibam que se noutras épocas não muito distantes algum ou alguns deles tivessem a ousadia de interromper em jeito de contestação uma sessão solene, partidária ou não, na qual estivesse no uso da palavra um dos mais altos dignitários do regime, o mínimo que lhes aconteceria seria, de imediato, a cadeia e depois a expulsão da Universidade.
Hoje, apesar de tudo, recebem um convite para jantar e ainda é o interrompido que tem de apresentar desculpas e prestar múltiplos esclarecimentos. Os estudantes, pelo contrário, queixam-se por não terem podido concluir o protesto.
E assim é que está certo. O que não está certo é haver para aí muita gente a dizer que isto agora está como dantes ou pior. Essa é uma outra forma de ser fascista hoje.

domingo, 6 de março de 2011

MEXIA: UM EXEMPLO DE DEMAGOGIA BARATA


A ENTREVISTA AO EXPRESSO E UMA QUESTÃO CONEXA

As palavras de António Mexia ao Expresso sobre a dívida da EDP são apenas o pretexto para abordar um dos temas que ultimamente mais tem sido tratado por alguns comentadores: a relação entre a dívida pública portuguesa e espanhola.
Diz Mexia que a dívida da EDP é consequência do agravamento da dívida soberana. É preciso de facto uma grande “lata” para fazer tal afirmação.
Os exemplos que por todo o lado conhecemos dizem exactamente o contrário. Não só a dívida pública é, por todo o lado, inferior à privada, como muita da dívida pública acumulada nos últimos anos é consequência directa ou indirecta da privada.
É consequência directa naqueles casos em que ela resulte de resgates bancários, como aconteceu na Irlanda, como aconteceu em Portugal, em muito menor escala, e como pode vir a acontecer em Espanha, sem esquecer os grandes Estados que tiveram de fazer resgates bancários gigantescos, como os EUA, o RU e a própria Alemanha.
É consequência indirecta em todos aqueles casos – e é o que acontece em todo lado – em que o aumento da despesa pública, nomeadamente a de natureza social e a de relançamento da economia, está relacionado cm a crise financeira e suas consequências.
Qualquer pessoa minimamente informada sabe isto. Não é preciso ganhar milhões de bónus em cada ano em empresas excessivamente endividadas para ter acesso a este tipo de conhecimentos.
Directamente relacionada com esta questão há uma outra que nos últimos tempos tem vindo a ser objecto de análises simplistas. Diz ela respeito aos juros pagos por Portugal e pela Espanha para se financiarem no mercado de capitais.
A maior parte dos nossos comentadores, para justificar a diferença de taxa de juro entre os dois países, diz, naquele tipo de linguagem que já começa a enjoar, que a Espanha soube fazer o seu “trabalho de casa”, reconheceu a crise muito primeiro que Portugal, sendo estas as razões que justificam a diferença nas taxas de juro pagas por um e outro país.
Tal justificação não tem o menor fundamento. Nem aqueles que a fazem tratam de a justificar com factos. Ou seja, estão a mentir.
De facto, a Espanha não reconheceu a existência da crise primeiramente que Portugal. Pelo contrário, já a crise ia alta e ainda Zapatero numa extensa entrevista a El País recusava aceitar a existência de qualquer crise. Foi e continua a ser muito criticado por esta sua posição.
Depois é também falso que a Espanha tenha tomado medidas de austeridade mais duras do que as portuguesas. Não são: nem no que respeita às receitas (impostos) nem no que toca às despesas (os cortes sociais em Portugal são incomparavelmente mais gravosos do que adoptados em Espanha).
Por outro lado, os índices macroeconómicos mais frequentemente citados são em Espanha mais negativos do que os portugueses: crescimento inferior ao de Portugal; défice superior ao de Portugal, tanto o apurado como o esperado; desemprego, muito mais alto lá do que cá.
Então, por que paga o tesouro espanhol juros inferiores aos de Portugal para se financiar?
Em primeiro lugar, porque a dívida espanhola é inferior à média europeia. O grande ónus que sobre ela impende é, como cá, a ausência de crescimento económico e de redução do desemprego. Pior ou tão grave, é ainda a suspeita de que parte da dívida privada (principalmente a bancária) pode tornar-se pública. Por isso, é que a Espanha está tão interessada no aumento do Fundo Europeu e na sua flexibilização.
Em segundo lugar, a relativa moderação da subida de taxa de juro da dívida pública espanhola é a consequência de uma espécie de prudência dos ditos “mercados” que sabem muito bem o que poderia acontecer se houvesse ameaça de bancarrota da Espanha…

sábado, 5 de março de 2011

A SITUAÇÃO NA LÍBIA


OS PERIGOS DO IMPASSE

A situação na Líbia não é igual à da Tunísia, nem do Egipto, disse Saif El Islam, filho de Kadhafi, numa arrogante intervenção televisiva.
A intervenção foi arrogante, feita por quem não estava minimamente habituado a lidar com o contraditório qualquer que seja a forma que ele revista. Mas revelou-se, tem-se revelado, verdadeira.
A Líbia está em guerra civil. A Europa e mais ainda a América habituadas a lidar monocromaticamente com os efeitos internacionais decorrentes da acção dos “povos inferiores”, embora no passado tivessem apoiado Kadhafi, como grande aliado nessa visão unilateral do mundo, e até gostassem de poder continuar a contar com ele, tanto pelo excelente petróleo que lhes proporcionava, como pelo papel de “Kapo” que lhes prestava no “escorraçamento” de imigrantes, além de, por interesses do próprio, ser um valioso bastião contra a Al Quaeda, viram-se por hipocrisia obrigadas a alinhar contra Kadhafi, supondo que a revolta da Líbia tomaria, mais dia, menos dia, o mesmo curso da dos seus vizinhos de leste.
Aparentemente enganaram-se. E como sempre acontece nestas coisas, quando a aposta é forte e o jogo corre mal, a tentação do jogador é reforçar a aposta.
Nada, porém, pior para o Ocidente do que continuar nesta espiral de ameaças. A guerra civil é, deve ser, em qualquer parte do mundo, um assunto que tem de ser resolvido pelos contendores. Nenhuma norma ou princípio do direito internacional permite a terceiros interferir no conflito, salvo as acções de natureza humanitária que são, na sua genuinidade, acções pacíficas, não militares.
Não intervenção não significa necessariamente cruzar os braços. Não intervenção significa não envolvimento no conflito com forças militares. E é isso que o Ocidente deve fazer, independentemente dos auxílios que possa prestar fora do teatro de operações.
As intervenções militares para fins humanitários que a história regista, com excepção das que nos tempos modernos possam ser autorizadas e apoiadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, foram manifestações imperialistas. Que começaram com o Império Britânico, foram imitadas por Hitler e Mussolini e desenvolvidas depois da Guerra Fria pelos Estados Unidos quer sob a capa da NATO, quer acolitadas pelos britânicos e mais um ou outro títere de ocasião.
Mas não é apenas por razões jurídicas que o Ocidente deve actuar com prudência relativamente à Líbia. É também por razões políticas. Se o Ocidente não quer que a saudável revolta do mundo árabe se vire a prazo relativamente curto contra si deve deixar que sejam os árabes a resolver os seus problemas, por mais dramáticos que eles sejam.
Além de que é de uma profunda hipocrisia que não escapa a qualquer árabe instruído dos nossos dias esse permanente brandir de ameaças de toda a ordem, como as do Tribunal Penal Internacional, quando continuam impunes crimes bem recentes cometidos por Bush, Blair e outros, ou se exacerba o perigo resultante da destabilização da margem sul do Mediterrâneo quando ainda há bem poucos anos americanos e ingleses destabilizaram vastas regiões do Médio Oriente, com total desprezo pelas consequências dessa destabilização para os povos atingidos.
É esta arrogante supremacia do “homem ocidental” que a prazo vai cavar a sua derrota…Não aceitar os outros como iguais numa época em que eles são cada vez mais iguais …e mais numerosos não é certamente uma política inteligente.

BCE OU BANCO CENTRAL ALEMÃO?


COM CONSTÂNCIO, AO LADO, A ABENÇOAR

Num gesto inédito para os costumes dos bancos centrais, Jean-Claude Trichet disse ontem, em Frankfurt, em conferência de imprensa, que o Conselho do BCE considera possível a subida da taxa de juro em Abril. Sob pena de se tratar de um truísmo inútil, a declaração de Trichet só pode querer dizer que os juros vão subir em Abril, logo provocar desde já uma subida da taxa de juros no mercado, independentemente de a taxa básica do BCE se manter a mesma por mais um mês.
A política monetária do BCE parece apenas servir os interesses da Alemanha, eventualmente da Áustria e intermitentemente da Holanda e da Finlândia, com um distanciado desprezo pelos efeitos que as suas decisões possam ter sobre os demais.
Obcecada pela inflação, a Alemanha impõe ao BCE um rígido controlo dos preços, que o Banco prossegue com o manejo da taxa de juro, qualquer que seja a situação macroeconómica da generalidade dos países e quaisquer que sejam os efeitos da sua política monetária sobre esses países.
Todos se recordarão da subida da taxa de juro no auge da crise financeira, quando, exactamente na mesma altura, a Reserva Federal Americana, o Banco de Inglaterra e o Banco Central do Brasil faziam o contrário.
Pois também agora, ao abrigo da sua propalada independência, que mais não é do que a consonância com os ditames da ortodoxia financeira alemã, o BCE sobe (na prática) a taxa de juro colocando os países endividados, seus cidadãos e empresas, em grandes dificuldades.
Se com as medidas até agora impostas pela Alemanha os países em dificuldades já não teriam nenhuma hipótese de crescer, vendo antes agravada a sua situação económica, com esta subida da taxa de juro, e a sua mais que previsível progressão até ao fim do ano, o resultado vai ser ainda bem pior.
O BCE diz que quer combater a inflação resultante da alta de preços das matérias-primas. Por que sobem os preços da matérias primas?
Os preços das matérias-primas em geral sobem, para além das causas específicas que possam estar a afectar o preço do petróleo, porque, como ainda há dias bem explicava Paul Krugman, se trata em primeiro lugar de bens finitos; em segundo lugar, porque tem aumentado muito a procura, principalmente dos emergentes; e, em terceiro lugar, porque as alterações climáticas têm tido um efeito devastador em muitas delas, principalmente nas agrícolas.
Como é que este problema se resolve? Das três formas de distribuição de bens que o mundo (e a economia) conhece, o capitalismo usa frequentemente apenas uma: os bens são distribuídos pelos que têm mais dinheiro para os pagar.
Ora, o BCE, com a sua política, não só se conforma com este resultado, o que seria “normal” visto tratar-se de um dos expoentes do capitalismo mundial, como agrava aquele resultado, facilitando a compra dos bens escassos pelos que tem mais fácil acesso ao dinheiro. Ou seja, os que têm possibilidade de o pagar mais barato.
E sabe-se quem na Europa "compra" o dinheiro mais barato...
O que é espantoso é que países importantes da União Europeia, como a França, a Itália e a Espanha, aceitem esta política como uma fatalidade. O caso mais grave é, porventura o caso da França, que sob Sarkozy se tem comportado relativamente à Alemanha como uma espécie de França de Vichy!
Alguém na Europa vai ter que pôr cobro a isto. Não pode esperar-se que seja a partir de dentro da Alemanha que o problema se resolva. Da Alemanha nunca virá a solução, mas o problema. Já por duas vezes no século passado a Alemanha caminhou convictamente para o abismo. Se ninguém se opuser à sua política, se não se criar uma forte opinião pública europeia contrária à política alemã, será a própria Europa que agora caminhará para o abismo empurrada pela Alemanha.
Portugal fez mal, muito mal, quando se dessolidarizou da Grécia e continuou a errar quando sublinhou excessivamente o que o separa da Irlanda (apesar de, em parte, até ser verdade), da mesma forma que a Espanha erra agora quando tenta demonstrar que nada a assemelha a Portugal. E por ai fora, a Bélgica, a Itália e o que adiante se verá.
A força dos “mercados” é a fraqueza dos devedores desunidos!

quinta-feira, 3 de março de 2011

O LONGO CURSO


ESTUDOS DE HOMENAGEM A JOSÉ MEDEIROS FERREIRA

Acaba de ser lançado um livro de homenagem a Medeiros Ferreira, com a qualidade gráfica das edições Tinta da China, coordenado por dois discípulos seus, Pedro Aires Oliveira e Maria Inácia Rezola, autora de alguns dos mais bem conseguidos trabalhos sobre o 25 de Abril.
Com mais de três dezenas de colaborações da autoria dos mais conhecidos nomes da moderna historiografia portuguesa, este livro é uma justa homenagem ao historiador e ao combatente de sempre pela liberdade.
De todas as colaborações que dele constam, vem a propósito citar o interessante artigo de um velho amigo comum, Manuel Valentim Franco Alexandre, sobre “Hintze Ribeiro e a sua época”.
Para começar, é bom recordar que no século XIX se teve de resolver a questão da ligação por comboio de Portugal à Europa, passando por Espanha, tal como hoje se põe para as redes ferroviárias de alta velocidade.
Diz Valentim Alexandre (autor do texto a seguir resumido) que na época em que Hintze Ribeiro assumiu a pasta das Obras Públicas, 1881, já se estava numa fase de desencanto, longe das expectativas iniciais, de por via de uma política de obras públicas destinadas a “desencravar” o país e aproximar regiões se alcançar uma solução global para os reais problemas de desenvolvimento e de atraso de que Portugal padecia. As obras públicas e a abertura de novas vias de comunicação foram importantes, mas não eram a solução mágica para a resolução dos problemas com que o país se defrontava.
Pois bem, na altura estava em causa a ligação por via férrea de Salamanca a Portugal. Por onde fazer a ligação? Por Barca D’Alva (via linha do Douro) ou por Vilar Formoso (via linha da Beira Alta)? Hintze Ribeiro, temendo que esta última fosse a preferida de Madrid, com alegados prejuízos para o Porto e o norte do país, promoveu, por intermédio do financeiro Henry Burnay, a formação de um “sindicato” de sete bancos do Porto para financiar a construção da ligação por Barca D’Alva, financiamento esse garantido pelo Estado a um juro de 5%.
O negócio, apesar das críticas, acabou por fazer se e na proposta de lei da Câmara dos Deputados que o aprovou sublinhava-se que o encargo assumido pelo Estado tinha como importante compensação o acréscimo de movimento que a ligação a Salamanca traria para a linha do Douro e os “elementos de prosperidade que daí advir[iam] para o comércio do norte de Portugal”.
Como pouco depois se veio a reconhecer, o preço da construção da linha estava muito inflacionado e dele terão resultado prejuízos para o Estado e para os próprios bancos. Quem ficou verdadeiramente a ganhar foi o construtor da linha, nem mais nem menos, o financeiro Henry Burnay, acusado de acumular grandes lucros com uma entrada inicial de capital relativamente pequena.
Este financiamento para a construção da via férrea em território espanhol destinado a assegurar a ligação de Salamanca a Portugal, por Barca D’Alva, ficou na gíria política da época conhecido por “salamancada”. A “salamancada” parece também ter sido o início de uma crescente influência plutocrática na política portuguesa, como escreve Lopes de Oliveira, citado por Valentim Alexandre.
Nesta homenagem a Medeiros Ferreira, apetece dizer – e esta a razão desta longa citação – que com a História só não aprende quem não quer. E embora, na esteira de Marx, se diga que a História acontece como tragédia e se repete como farsa (18 de Brumário de Luís Bonaparte), esta será mais uma razão para conhecermos a História... se queremos evitar farsas que nos saiam caro.

O ENCONTRO DE BERLIM


AS RESPONSABILIDADES DA ALEMANHA NA CRISE

O encontro de Berlim entre Merkel e Sócrates talvez tenha ido um pouquinho mais além daquilo que se esperava. Merkel disse a Sócrates que o esforço já feito era meritório, mas que Portugal tinha que fazer mais.
Sócrates, por seu turno, disse que Portugal está a fazer o seu papel e deu a entender que esperava mais da Europa, isto é, da Alemanha.
Mas não é esta a opinião dominante na Alemanha. Como é sabido em toda a União Europeia, a direita e a extrema-direita alemãs veiculam internamente a falácia de que a Europa do Sul quer viver à custa da Alemanha. O Bild é, no plano mediático, o veículo desta perigosa propaganda populista que atinge e convence na Alemanha não apenas a direita, mas os restantes quadrantes políticos, salvo raríssimas excepções, bem como – o que é muito mais grave – certos sectores daqueles que no estrangeiro são especificamente visados pela demagogia alemã.
E este é porventura o aspecto mais grave da questão. De facto, mesmo que se entenda que as medidas de austeridade de cunho eminentemente recessivo e socialmente injustas não resolvem o problema fundamental de Portugal, que é o crescimento e o emprego, e sem esquecer as responsabilidades do Governo e do PSD na sua adopção, bem como do CDS, se tivesse feito falta, não pode nunca na crítica e no comentário político escamotear-se a responsabilidade da Alemanha pela política económica seguida na Europa para combater a crise da dívida, que é, como muito bem se sabe, uma crise do euro.

A política que a Alemanha cegamente impõe em defesa do seu interesse com total desprezo pelos seus efeitos nos demais países da União e muito particularmente nos países mais endividados é inaceitável e não deve passar sem uma pressão permanente da opinião pública dos países atingidos. Infelizmente, esta política que além de egoísta é estúpida, porque, a prazo, acaba por também não defender os próprios interesses da Alemanha, é apoiada pela direita em Portugal (partidos, imprensa e comentadores afectos) que sectariamente se compraz nas reservas da Sra Merkel, bem como nos demais sinais, quase todos oriundos da Alemanha, destinados a estimular os grandes movimentos especulativos em curso.
Do lado da esquerda, a crítica a Sócrates e a Teixeira dos Santos pela aceitação, ontem porventura mais do que hoje, da prepotência alemã, naquilo estilo bem português de que convém não enfurecer a fera, embora tenha toda a razão de ser, de modo algum pode ser desacompanhada de uma crítica ainda mais contundente à Alemanha no modo como desde o início tem lidado com a crise, ancorada no falso argumento de que o virtuoso não tem de pagar pelos desmandos dos desleixados.
Que esta seja a conversa da Alemanha e nela fundamente toda a sua actuação não é coisa que verdadeiramente constitua novidade. É mais uma repetição de uma história que a História já conhece. A Alemanha tem dificuldade em acomodar-se à realidade tal como ela é. E é desta incomodidade permanente entre o que ela é e o modo como ela se vê que nascem os seus fantasmas e deles os demónios que a tem acompanhado, desde o começo da sua existência como Estado unificado sob a égide da Prússia.
Na década de 10 do século passado foi a “facada nas costas” dos comunistas sem pátria que internamente a derrotaram. Duas décadas depois eram os judeus “apátridas” e “bolchevizados” que estavam na origem de todos os males. E depois o que se sabe…
Enfim, lamenta-se que Sócrates tenha ido a Berlim em mais uma manifestação formal de vassalagem à prepotência alemã. Mas se apesar de tudo não cedeu às pressões da Chanceler, como à primeira vista parece ter acontecido, talvez algo de positivo se possa tirar da viagem. Nota-se que há uma pequena inflexão no discurso de Sócrates: fala agora abertamente nas responsabilidades da Europa (leia-se da Alemanha) e menos em ajuda.
Se a estratégia do Governo consistir em aguentar a situação, deixando, se entretanto a Europa nada fizer, que o movimento especulativo atinja outras economias bem mais fortes do que a portuguesa, é bem provável que aqueles que têm muito mais a perder se sintam obrigados a actuar de outra maneira. E quem tem mais a perder são os que mais beneficiam com o euro, a começar pela Alemanha.
Agora, o que Portugal não pode é aceitar mais medidas de natureza recessiva, mesmo que o Fundo de Europeu de Estabilidade Financeira se não flexibilize no sentido pretendido pela maior parte dos países, como muito provavelmente vai acontecer em virtude da posição alemã.
Finalmente, uma nota sintomática: se alguma conclusão se pode tirar da fisionomia dos interlocutores do encontro de ontem à tarde em Berlim é a de que a Chanceler não parecia satisfeita com o resultado da reunião, o que, a ser verdade, seria positivo.

terça-feira, 1 de março de 2011

OS ÁRABES, A LÍBIA E OS AMERICANOS


A INQUIETANTE PRESENÇA DE HILLARY CLINTON

Os americanos, como quase toda a gente, foram completamente surpreendidos pelos acontecimentos do Mediterrâneo. O que não tem nada de criticável. Foi a História com toda a sua força a marcar imprevisivelmente a sua presença onde menos se esperava. Só para os economistas incultos (infelizmente quase todos) é que o futuro é completamente previsível. O futuro e o comportamento do homo oeconomicus!
Pois bem, a América começou por ligar pouco à questão da Tunísia – um país que lhe dizia pouco – mas logo mudou de opinião quando começou a perceber que o exemplo do que lá se passava estava a contagiar o vizinho do leste. E aqui, quando o povo começou a entrar em cena, a América tremeu, sem saber bem como actuar, embora soubesse muito bem o que queria fazer.
O que a América queria fazer era manter a estabilidade na zona, continuar a contar com um aliado estratégico tão importante como o Egipto e, simultaneamente, não decepcionar aqueles que na Praça Tahrir, cada dia em maior número, se manifestavam contra o regime vigente. Obama foi acompanhando a situação “pela televisão”, dando uma no cravo outra na ferradura, chegou a ter palavras de algum entusiasmo pelo que se estava a passar, mas logo cometeu o grave erro de mandar ao Cairo Frank Wisner que, ao bom estilo do que há de mais estúpido na América, ia deitando a perder todo o equilíbrio até então conseguido, mais por mérito dos manifestantes do que propriamente da América.
Durante todo este período, Hillary Clinton falou pouco e quando falou foi para agravar a animosidade em relação aos americanos. A partir do momento em que se percebeu que esta revolta, com características muito originais, estava quase a cem por cento orientada para a resolução de problemas internos que afligem os egípcios e que, numa primeira fase, afastado que foi Mubarack e posteriormente alguns dos seus mais próximos seguidores, as forças revolucionárias concediam um crédito vigilante de confiança ao Exército para fazer a transição para outra coisa que ainda não se sabe bem o que será, os americanos tranquilizaram-se relativamente e conseguiram essa coisa espantosa de, num país onde tinham uma tão grande presença, uma viragem política tão marcada como a que aconteceu no Egipto se não fazer também contra eles.
Embora tudo isto seja mais mérito dos revoltosos do que da acção americana propriamente dita, a verdade que é os americanos, até ver, ainda não estão a perder no Egipto. E para isso terá contado muito a figura de Obama, o seu capital de simpatia e o discurso do Cairo que ele havia proferido numa altura em que ainda sonhava com os “amanhãs que cantam”.
Os próprios israelitas que de início entraram em pânico, com declarações inquietantes da extrema-direita judaica no governo, breve perceberam também que o melhor era não se meterem publicamente nos assuntos do Egipto para não criarem um problema onde ele ainda não existia.
Já quanto ao que se passa na Líbia, os americanos, com uma acção mais discreta de Obama (cada vez mais prisioneiro na Casa Branca), têm falado principalmente pela voz de Hillary Clinton. E a sensação com que se fica é que se a mulher continua a falar com a arrogância e o tom irritante com que repetidamente o tem feito, vai a breve trecho conseguir aquilo que os islamistas radicais ainda não tinham conseguido até agora.
A Senhora Clinton ainda não percebeu que a América não está a viver os “tempos gloriosos”do fim da Guerra Fria, que fizeram do mandato do seu amado esposo algo de parecido com o governo de um imperador no apogeu do seu poder, mas tempos bem diferentes que não escamoteiam as debilidades americanas em vários domínios, principalmente naqueles em que até aqui tinham sido incomparavelmente fortes, como o económico e o militar.
A senhora Clinton não percebe que há nos povos árabes oprimidos um legítimo ressentimento contra os americanos, por estes se terem aproveitado em toda nação árabe de governantes corruptos, cleptocratas, ditadores, enfim, de gente que vivia completamente à margem do seu povo, para, por intermédio deles, fazer a sua política e defender os seus interesses com completo desprezo pelos direitos do povo e do seu bem-estar.
Há em todos esses países muita gente jovem, instruída, como nunca houve, que tem plena consciência do que se passou e do que move os americanos (e obviamente também os europeus), mas que não quer abrir tacticamente nenhuma frente de luta externa para não desviar as atenções do essencial. Mas também não quer que os americanos se metam, exactamente porque os conhecem.
É provável que Obama tenha consciência disto, mas está visto que ele perdeu o controlo da política no Mediterrâneo, com a emergência da questão Líbia, e deixou que fosse Hillary Clinton a tomar conta da situação no bom e velho estilo americano. Se a mulher não for controlada, se a deixam actuar como típica representante do sistema, ela será capaz de fazer em pouco tempo tantas asneiras como Bush.
É imperioso que ela não transforme o Mediterrâneo num barril de pólvora e haja alguém que deixe os povos árabes conquistar e depois gozar, sem tutelas, a liberdade por que estão lutando!

O MINISTRO DAS FINANÇAS ESTÁ DESORIENTADO


UM CAMINHO SEM SAÍDA

Compreende-se que um técnico formado e formatado no regime capitalista, submerso por esta voragem especulativa, interpretada em nome do rigor das contas públicas, entre em pânico perante o que se está a passar. Mas já não é aceitável que um responsável político pelas finanças de um país continue a reagir politicamente com base em pérfidos "estímulos externos" como frequentemente tem feito, e ontem voltou a fazer, o Ministro das Finanças.
Já aqui há tempos havíamos dito que Teixeira dos Santos estava esgotado, anímica e fisicamente. Agora está também esgotado politicamente. E não há nada pior na presente conjuntura do que ter nas Finanças (e também nos Negócios Estrangeiros) alguém que alinhe acriticamente com as posições adversas – as posições defendidas por aqueles que querem manter tudo na mesma, recuperando, à custa de sacrifícios alheios incalculáveis, dos grandes desequilíbrios por que também são responsáveis.
Ontem, o Ministro das Finanças, certamente apavorado com alguns indicadores que somente ele conhece ou, muito pior, convencido de que pode aplacar a voracidade dos predadores, veio mais uma vez lançar internamente o pânico dizendo que “novas medidas” serão tomadas, se necessário.
Isto é uma conversa tão absurda que até há dificuldade em pegar-lhe com calma e serenidade.
Com a inflação que aí vai, com os combustíveis a subir como nunca, com as demais matérias-primas em alta, nomeadamente as agrícolas, com os rendimentos dos salários diminuído, com a recessão à porta, o Ministro das Finanças vem dizer que pode tomar novas medidas de austeridade? Para quê? Com que objectivo? O Ministro ainda não percebeu que isto é um caminho sem saída? O Ministro não ouve nem lê o que dizem e escrevem economistas de renome (não estes “Cantigas” que por cá temos), sejam eles neo-keynesianos ou até discípulos de Milton Friedman, que claramente apontam a via seguida como o caminho para o abismo?
O Ministro ainda não percebeu, quanto mais não fosse pelo exemplo da Grécia e da Irlanda, que as ditas “medidas” só agravam a situação, não baixam os juros (a Grécia e a Irlanda pagam agora juros mais altos do que antes), aumentam o desemprego e provocam a recessão?
O Ministro ainda não percebeu que o problema é político e não económico? Que é preciso alterar politicamente a zona euro: ou seja fazer aquilo que a Alemanha não quer fazer? O Ministro ainda não percebeu que quem faz subir os juros é Berlim, o governo alemão, empenhado como está em impor na zona euro uma modelo de submissão à Alemanha?
Claro que o jogo oposto ao praticado pelo Ministro (e respectivo Governo) é arriscado, mas que tem que ser jogado até ao fim, politicamente sem medo, sempre na convicção de que haverá quem perca muito mais do que nós se isto for ao “charco”.
A estratégia alemã, na qual a França estupidamente alinhou, está cada vez mais à vista: numa primeira fase, salvar os seus bancos, permitindo-lhes receber o mais possível dos créditos concedidos a quem não lhes podia pagar, fosse para financiamento de exportações alemãs, fosse para rentabilização dos excedentes financeiros dessas mesmas exportações. Logo que os bancos estejam razoavelmente reequilibrados, manter nos chamados países periféricos um regime económico apertado (pacto de competitividade, é um exemplo) subordinado aos interesses da economia alemã, que não passará necessariamente pela sua exclusão da zona euro, embora tal hipótese não seja de descartar num tempo em que tal ocorrência já viesse a ter efeitos limitados sobre as economias do centro.
É evidente que isto é inviável, como inviável é manter, no essencial, a zona euro tal como está. Mas ser inviável não significa que a Alemanha não acredite na sua viabilidade. Por muito estranho que a comparação possa parecer, ela tem de fazer-se: ainda há bem poucos anos a Alemanha supunha – atenção, não eram meia dúzia de alemães, eram quase todos – que era possível estender as suas fronteiras para leste e beneficiar por tempo indeterminado de trabalho escravo. As mentes mais brilhantes da Alemanha pensavam isto e não apenas umas dúzias de criminosos.
Pois hoje a Alemanha também pensa que pode manter uma zona euro em que ela seja o principal país exportador, com moderação interna de salários, baixa procura interna, contenção de importações e ter como principais compradores os demais países dessa mesma zona. Mas se estes ou alguns destes não vendem o suficiente para poder pagar o que nela compram, como vão pagar? É isso que a Alemanha está a tentar “resolver” da forma que se conhece…