sábado, 5 de fevereiro de 2011

O IMPASSE NO EGIPTO





AS VERDADEIRAS CAUSAS

Aparentemente, apenas aparentemente, os governos ocidentais de Washington a Berlim, passando por Roma, Paris e Londres, advogam uma mudança da situação política no Egipto e agora também a saída de Mubarack por temerem que o apodrecimento da situação possa criar uma instabilidade incontrolável em todo o Médio Oriente.
A princípio, quando a revolta começou, apenas “exigiam” medidas, deixando ao critério de Mubarack o entendimento do conceito, o tempo certo para a sua adopção e a responsabilidade pela sua execução.
O povo continuou a resistir, Mubarack tentou inverter a situação, não por via dos métodos habituais, mas recorrendo antes ao falacioso processo de usar esses mesmos métodos como se de uma reacção popular se tratasse.
A manobra, mal executada, não resultou. Prontamente desmascarada pelos correspondentes internacionais e pelo próprio povo, acabou virando-se contra Mubarack.
A partir dessa altura, aos governos ocidentais só lhes restava deixar cair Mubarack, mantendo, no essencial, o regime com a promessa aos revoltosos de que a “abertura” seria negociada entre o sucessor do “rais”e os representantes da oposição.
Washington aparentemente apostou tudo nesta via (e a Europa, que estava disposta a apoiar “criticamente” Mubarack, não teve outro remédio senão ir atrás, embora contrariada), parecendo até disponível, face ao impasse criado, para promover ou incentivar um golpe militar “coordenado” por gente do regime que, assegurando a ilusão da mudança, controle a “transição”.
Mubarack, contando para já com o apoio implícito do exército, parece ter outra estratégia: deixar apodrecer a situação por mais alguns dias na tentativa de, por óbvias razões de subsistência, circunscrever a revolta a um pequeno número de resistentes, forçando os representantes da oposição a dialogar sem grande mobilização popular.
Trata-se provavelmente de uma estratégia arriscada, em princípio, condenada ao fracasso, não apenas por em países como o Egipto a desmobilização de quem muito pouco tem a perder ser mais difícil de conseguir do que na Europa, mas também porque sempre seria possível à oposição retomar a mobilização popular com relativa facilidade.
No essencial, o que no imediato se joga no Egipto é saber quem faz a “transição”: o regime (preferencialmente, sem Mubarack), enquadrando-a, orientando-a e controlando a sua execução; ou a oposição, sem outro enquadramento que não seja o que resulta do entendimento entre as várias facções que a compõem?
A América e agora, por arrastamento, também a Europa, põe todo o seu peso na primeira hipótese.
Mas há outros actores, alguns já entraram em cena, outros anunciaram a entrada, que apostam na segunda solução, sendo ainda cedo para se perceber como as coisas vão evoluir. No entanto, é desde já óbvio que, por razões não coincidentes, o Irão, o Hamas, o Hezbollah, a Turquia e a Rússia preferem a segunda via.
O impasse na revolta popular do Egipto volta a colocar na ordem do dia algumas das mais elementares máximas revolucionárias que, depois das transformações ocorridas na Europa do Leste, em fins da década de 80 do séc. passado, muitos julgavam ultrapassadas: a tomada do poder sem ataque e controlo dos seus centros nevrálgicos.
É possível tomar o poder pacificamente? Parece que não. O exemplo da Europa de Leste não é repetível. Em primeiro lugar, ele ocorreu em países que na realidade não tinham qualquer identificação com o socialismo (salvo a Checoslováquia), a maior parte deles era fascista, tinham apoiado Hitler e lutado a seu lado, e todos haviam, pura e simplesmente, sido ocupados em consequência da derrota militar da Alemanha. Tudo, portanto, condições para que, uma vez estancada, por razões externas, a fonte de coerção, os regimes caíssem uns a seguir aos outros sem resistência. E a própria União Soviética, que se foi gradualmente desagregando na sequência de um lento mas progressivo processo de transformação, também caiu sem luta por razões muito específicas que têm a ver com a “natureza última” do regime. Uma vez questionada, a partir de cima, a eficácia do modelo e defendida a sua substituição por algo que ninguém conseguia compreender claramente o que fosse, estavam criadas as condições, ao fim de cinco anos de permanente questionamento do dito modelo, para que o regime caísse pacificamente. Mas o que em última instância, num momento de crise, determinou a queda (e a desagregação) pacífica foi a “natureza última” do regime, ou seja, a ausência de propriedade privada, a fonte última de todos os conflitos!
No Egipto tudo é diferente, muito diferente. O regime não cairá pacificamente, nem haverá neutralidade das forças armadas. De facto, o impasse não resulta da posição de Mubarack, mas daquilo a que erradamente se chama a “neutralidade” das forças armadas egípcias. Mantendo-se estas aparentemente à margem do conflito, mas controlando e protegendo os centros nevrálgicos do poder, não é de esperar a queda do regime por via de manifestações pacíficas, por mais multitudinárias que elas sejam, tanto mais que a ditadura também é apoiada por largas camadas que dela dependem económica, social e politicamente. Camadas que, por terem muito a perder, estão na disposição de a defender.
O mais provável, portanto, é que, não tendo o povo pelo seu lado as forças armadas ou uma parte significativa delas, acabe por ser Mubarack, ou a sua gente, a fazer a dita “transição”, muito orientada, em última instância, pelas conveniências do próprio regime e de Washington. Provavelmente haverá alguns progressos, mas tudo ficará muito aquém das expectativas. E não há pior derrota do que a vitória que cria a ilusão de mudança, deixando, no essencial, tudo na mesma.

5 comentários:

Anónimo disse...

".....determinou a queda (e a desagregação) pacífica foi a “natureza última” do regime, ou seja, a ausência de propriedade privada" É uma ideia aparentemente original (nunca a tinha visto expressar por ninguém)e com enorme potencial, com certeza integrando uma teoria mais global sobre os acontecimentos. Mas, como, à luz daquela ideia/teoria, explicar os conflitos entre Estados em que prevalecia a propriedade colectiva?
L.Gomes

Demo Gra Pia disse...

Impasse adonde?

está cheio de ideias feitas

ou melhor desfeitas

a demografia é a causa última de todas as coisas

Anónimo disse...

Esse "camarada" que antes de mim te comentou já ouviu falar de Roma, do que a República Romana conseguiu em 50 anos? A gente sabe: nessa altura Malthus ainda não existia...

Anónimo disse...

Ainda assim Mubarak tem um mérito e é preciso reconhecê-lo: não "soltou" o exército para cima da população. Não causou um banho de sangue e podia tê-lo feito.

Daqui a uns anos estaria sentado no Tribunal Penal Internacional para a ser julgado.

Mas há aqui questões importantes: afinal quem manda no exército egípcio? Existem "Salgueiros Maias" ou "capitães de Abril" por lá?

Se não existem então bem pode esperar o povo egípcio.

A Choldra disse...

Sobre a questão demográfica acima referida, convém lembrar que o Egipto nos últimos 40 anos multiplicou por 3 a população. Nenhum Sistema poderá responder às necessidades geradas por esta explosão populacional. É claro que o problema do desemprego não resulta só disso, se não, não o teríamos nós também, agora que lhe dá uma dimensão de uma bomba de uma magnitude impossível de calcular. Também é verdade que o problema afceta a generalidade do mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento mas nos países muçulmanos tem uma "pica" especial. mas introduz