quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A RTP, A MÁRCIA E O EGIPTO



UMA VERGONHA

Ontem a RTP entrou em directo da “Praça da Libertação” (Praça Tahrir) para mostrar o que se estava a passar. Tinha enviado para lá uma senhora, chamada Márcia Rodrigues, conhecida por ter “estagiado” durante anos numa das “democracias” plutocráticas da Europa, muito presente no centro europeu para apoiar com as suas reportagens o que de mais reaccionário por lá se passasse.
Agora mandaram-na para o Egipto e ontem lá estava entre os “apoiantes” de Mubarack, eufórica, a entrevistá-los e a mostrar ao mundo da RTP a “sua justa luta”.
As cadeias noticiosas que estavam a transmitir em directo (CNN, Sky News, France 24, BBC Word, Aljazeera, pelo menos, estas) explicavam aos telespectadores, com base nas informações prestadas pelos jornalistas egípcios e pelo povo, quem eram os “apoiantes” de Mubarack.
Pois a senhora Márcia, entusiasmada, no meio dos “bufos”, dos “pides” e dos “legionários” do Mubarack, foi incapaz de nos dizer quem eles eram. Nem mesmo depois de os ter deixado!
É uma vergonha. Mas não é caso único. Se bem se reparar, com excepção do Carlos Fino em Bagdad (excepção que lhe ia custando a vida), todos os correspondentes ou enviados especiais da RTP ao estrangeiro são sempre do mais “alinhado” que há. Em todo o lado, seja em Washington, em Madrid, em Berlim, em Londres, no Rio de Janeiro ou em Bruxelas. Ou reproduzem os pontos de vista dos representantes da plutocracia ou divulgam acriticamente os mais vulgares lugares comuns, sendo absolutamente incapazes de apresentar uma informação objectiva, descodificada, numa palavra, audível. Pior do que isso é quando militam abertamente por um dos lados, sempre o mais à direita.
É curioso observar que os correspondentes residentes (aliás, mais do que residentes, alguns são vitalícios…) quando, no país em que estão, criticam o governo em funções – o que é raro – é sempre para defenderem uma posição mais à direita, como é o caso de Madrid, do Rio de Janeiro e de Washington.
E já agora que vem a propósito: qual o critério de escolha destes “senhores”? São escolhidos por concurso ou por compadrio? E qual o tempo de duração das comissões? Tem limites ou são nomeações vitalícias?
Algumas parecem vitalícias, mais vitalícias do que a do Vasco Lourinho em Madrid, fundador do Jovem Portugal, mandado para a capital espanhola por Salazar…por ser demasiado fascista!
ADITAMENTO

Entretanto, Márcia corrigiu: tomaram-na por uma repórter igual aos outros, apoiante da Revolução, mudaram-na de hotel e ela hoje já reconheceu quem eram aqueles manifestantes pró Mubarack. Mais vale tarde do que nunca, mesmo que seja uma mudança conjuntural.

3 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Caro JMCorreia-Pinto,
Grata pela publicação deste post, aproveito para lhe dizer que fiz link deste e de outro dos seus textos publicados sobre a matéria.
Abraço.

JVC disse...

Zé, não vi a reportagem, mas fico chocado contigo. Como é que tão velho e querido amigo pode revelar-se-me como um desavergonhado mentiroso? É que ninguém de bom senso como eu, mesmo tendo em conta Mário Crespo e outros, pode acreditar que o que contas é verdade. O que é que te deu? :-))))))

Mas também quem é que te manda ver a nossa televisão? Não te chega ser, como somos, leitor diário online dos melhores jornais europeus e americanos? Estou a ficar cada vez mais como o Burt Lancaster do apartamento em cima, sem que isto signifique ter crises com jovenzitos...

Jorge Almeida disse...

Link para a reportagem:

http://www0.rtp.pt/noticias/?t=Confrontos-no-Cairo-entre-apoiantes-e-opositores-de-Mubarak.rtp&headline=20&visual=9&article=412658&tm=7