terça-feira, 26 de junho de 2012

A ESPANHA CONTINUA A LUTAR



COM A ESPANHA RESGATADA TUDO SE COMPLICARÁ



A direita que governa a Espanha tem poucas semelhanças com a que está no poder em Portugal. A direita espanhola é nacionalista – aceita contrariada os nacionalismos locais e o multilinguismo -, soberanista – continua a fazer da independência nacional e da grandeza de Espanha um dos seus pontos de honra – e é apenas liberal qb. O próprio europeísmo da direita espanhola não nada a ver com o “europeísmo bacoco” daqueles que tendo perdido em casa, por amputação territorial, a noção de Pátria julgam poder encontra-la na Europa sem fronteiras. O europeísmo dela é como o das grandes potências europeias – subordinado à expansão e defesa dos interesses espanhóis tal como os interpreta. A Europa não é uma nova expressão da Pátria perdida, é um campo de reencontro de um domínio que se perdeu e de expansão da influência espanhola. Carlos V e Filipe II continuam na cabeça de qualquer espanhol que se preze.

Além disso é uma direita herdeira do falangismo e das várias nuances do fascismo que, tendo sido vitoriosa em casa, logrou passar incólume durante a Segunda Guerra e manter-se no poder, apesar das derrotas do fascismo e do nazismo na Europa, até finais da década de 70. Sem ter sido verdadeiramente derrotada quando aceitou "jogar o jogo democrático”, ela não teve que se descaracterizar para sobreviver, antes se manteve igual a si própria, com as limitações impostas pelas regras do jogo que aceitou jogar.

É essa mesma direita, internamente truculenta na sua linguagem e nos seus processos, que hoje estrebucha e resiste a deixar-se intervencionar pelos poderes que dominam Bruxelas, certa como está de que do afundamento de Espanha resultará a desagregação da própria Europa, na qual outros terão muito mais a perder do que ela.

Esta luta que a direita espanhola está travando, não sendo propriamente quixotesca, está porém longe de poder ser vitoriosa. A Europa é hoje – se é que alguma vez deixou de ser – um enorme campo de batalha onde se disputam influências e se defrontam hegemonias. A crise do euro tem-no demonstrado com mais evidência do qualquer outra crise.

O resgate do sector financeiro espanhol feito por via da responsabilização directa do Estado não vai desanuviar a situação na Europa. Pelo contrário, vai agravá-la. A dívida espanhola aumentará e com ela o défice, por via do respectivo serviço. Se a Espanha já estava na mira dos mercados, mais vai passar a está-lo depois do resgate. Agravar-se-á a situação financeira do país onde todos os dias se detectam novos buracos. Agora é o das auto-estradas concessionadas que não conseguem sequer angariar receitas para ir pagando a dívida que as financiou. Um após outro os países periféricos vão caindo, primeiro os mais pequenos, agora os grandes. Logo depois chegaria – se lá se chegasse – a vez da França. É o edifício europeu construído com pés de barro que aos bocados se vai desmoronando.       

O caso da Espanha é muito interessante, porventura mais do que o da Irlanda. É que na Espanha depois das turbulências causadas pela crise monetária de 92/93, em que houve três desvalorizações sucessivas da peseta, obviamente causadas por a paridade cambial estabelecida no quadro do SME ser completamente irrealista, como era a da lira italiana, a da libra esterlina e a do próprio escudo, a economia não deixou de crescer.  E foi continuando a crescer depois da adesão ao euro até 2010. A convicção de que a economia espanhola assentava em bases sólidas era tão forte que Zapatero até se recusou a admitir que houvesse crise! 

A economia crescia impulsionada pela chamada “bolha imobiliária” mas também por um investimento público em larga escala coroado de sucesso. E, todavia, quando mais a Espanha crescia…mais se afundava.

A economia pode ser uma ciência e certamente sê-lo-á com todas as limitações que acompanham as ciências sociais. Mas uma coisa de que todos nós hoje temos a certeza é de que os economistas nunca olham para a economia como tal mas antes baseados em factores irracionais que tendem a sobrevalorizar muito mais do que as evidências empíricas que os ajudariam a compreender a realidade. Pois não era evidente que o “progresso” da Espanha estava a ter como consequência a perda constante da competitividade relativamente àqueles que dentro da zona euro iam reforçando a sua?     

Há vários factores relevantes para a perda de competitividade, mas aquele que seguramente vai ser tido em conta, lá como cá, para tentar recuperar a competitividade perdida vai ser certamente o salário – o custo directo e indirecto do trabalho.

Como se vê não houve em Espanha, ao contrário do que aconteceu em Portugal, obras que tivessem sobreendividado o Estado ou cujos efeitos no PIB fossem quase nulos. Pelo contrário, a economia crescia e a dívida do Estado estava bem abaixo da média da dívida da zona euro e muito abaixo dos chamados critérios de Maastricht já que a maior parte dos investimentos públicos que o Estado fazia era financiada pela receita fiscal proporcionada pela construção civil. E todavia…

Esta crise não assenta portanto em culpas como alguns convictamente pretendem fazer crer, a começar pelos luteranos alemães. Isto é o capitalismo a actuar no contexto específico da “bolha monetária” criada pelo euro. O capitalismo não tem em vista proporcionar o interesse geral a partir da busca do interesse individual nem tão pouco assenta na famosa destruição criativa que Shumpeter teorizou e Greenspan tanto elogiou. O capitalismo assenta única e exclusivamente no lucro. Na busca incessante do lucro. E dessa busca e sua concretização decorrem depois múltiplas consequências as quais, a partir do momento em que a economia se liberalizou e globalizou, deixaram de ser tidas em conta pela razão muito simples de elas já não fazerem perigar a subsistência do sistema. Pelo contrário, a hegemonia alcançada pelo capitalismo fá-lo sair mais forte das crises que provoca porque por via dessa hegemonia pode agora recapitalizar-se ilimitadamente à custa dos contribuintes!

E é isto o que se está a passar na Europa onde o único problema que se põe é o da repartição dessa recapitalização pelos contribuintes. É mais uma vez a questão nacional a ditar as suas regras…


2 comentários:

Rogério Pereira disse...

Parece que juntou várias peças do puzzle para depois só montar algumas delas. A sua conclusão é clara, mas algo me parece que ficou por dizer... até mesmo relacionado com o titulo dado ao seu post.

JM Correia Pinto disse...

Sim, Rogério, é verdade. Já estava longo. O resto virá mais tarde...