domingo, 22 de julho de 2012

JOSÉ HERMANO SARAIVA



ESBOÇO DE UM PERCURSO

Convidado no estertor do salazarismo, em 1968, para substituir Galvão Telles, Hermano Saraiva viveu já com Marcelo Caetano, de quem continuou ministro até Janeiro de 1970, um dos períodos mais conturbados da ditadura portuguesa na “Educação Nacional” e seguramente o de mais graves consequências para a sobrevivência do regime. Saraiva apesar de já ter desempenhado cargos de algum relevo na ditadura, deputado e procurador à Câmara Corporativa, era por essa altura mais conhecido como irmão de António José Saraiva, o grande vulto da crítica literária e da história da cultura portuguesa, do que propriamente pelo seu percurso político. Mas tudo mudou depois daquela crítica passagem pelo último governo de Salazar e pelos cerca de quinze meses em que integrou o primeiro governo de Marcelo Caetano.

Nostálgico de Salazar de quem se manteve fiel admirador até aos finais dos seus dias, Saraiva não compreendia os ziguezagues políticos de Marcelo, a sua indecisão, as promessas que não poderia cumprir sem que o regime se desmoronasse nem a dúbia intenção com que eram feitas e que acabavam sempre por trazer ao regime mais prejuízos do que vantagens. E é neste contexto de desmistificação à esquerda do marcelismo como algo de substancialmente diferente do salazarismo e de ansiedade e preocupação à direita pela manifesta incapacidade de Marcelo desempenhar o papel de verdadeiro continuador, que Saraiva julga chegada a hora de, a propósito da rebelião estudantil de Coimbra, dar uma prova inequívoca de firmeza e decisão fazendo frente à revolta dos estudantes sem meias palavras.

Num discurso que ficou famoso, proferido cerca de um mês depois de Thomaz ter sido vaiado em Coimbra na inauguração do novo edifício das Matemáticas, mas numa altura em que os “dados ainda não estavam completamente lançados”, Saraiva, tomando por referência os movimentos estudantis da Europa, principalmente em França, proferiu, com a solenidade ameaçadora que o regime ditatorial sabia conferir aos graves momentos, a frase que ficou célebre: “Isto não acontecerá em Portugal”.

Foi o fim de Saraiva como ministro e o rastilho para uma luta que atingiu tais proporções que ainda hoje são apontados a dedo aqueles, pouquíssimos (andam por aí quase todos...bem recompensados), que desobedeceram à palavra de ordem do movimento estudantil – greve aos exames! Ridicularizado pela banda desenhada do imaginativo Carlinhos Santarém, Saraiva era então o alvo de todas as chacotas.

Aguentou-se penosamente no Ministério por mais uns meses na tentativa quase impossivel de, sem perder a face, manter o perfil autoritário tão pomposamente proclamado e abrir uma pequena brecha por onde pudesse passar a negociação por que todos (ou quase todos) ansiavam. Não o conseguiu, nem a sua actuação recente o permitiria, tendo então Marcelo chamado para lhe suceder esse todo o terreno da política nacional – Veiga Simão – que vinha com a incumbência de apaziguar e reformar…mas essa já é uma história que não é para aqui chamada…

Um ano depois de ter saído do Governo, Saraiva que até então se tinha dedicado fundamentalmente ao direito, como advogado, apesar de também ser professor, estreia-se na sombria RTP com um programa chamado “O Tempo e a Alma”. Aguardado com todas as reservas e muita desconfiança não apenas pelos estudantes, mas também pelos meios oposicionistas cada vez mais numerosos, o programa vai gradualmente cativando a simpatia dos portugueses. E, surpresa das surpresas, o saudoso e implacável Mário Castrim, crítico televisivo do Diário de Lisboa, faz-lhe referências elogiosas que constituíam à época uma espécie de salvo conduto que quase permitia a Saraiva apresentar-se doravante ao grande público sem a “mancha” do seu passado recente.

O que fascinou Castrim, como a todos nós, para além da capacidade comunicativa que Saraiva dava provas num contexto muito diferente daquele que o tinha tristemente celebrizado, foi a extraordinária descrição da Revolução de 1383-85 que consta da “1.ª parte da Crónica de El- Rei D. João I”, de Fernão Lopes. Saraiva juntou à empolgante narrativa de Fernão Lopes um dramatismo tal que era impossível não ver naquelas palavras a revolução popular por que todos ansiávamos.

Marcelo, assustado com o que se estava a passar, terá achado francamente contraproducente a narração pública em clima de grande audiência de uma das mais extraordinárias descrições da literatura portuguesa – a morte do bispo de Lisboa lançado do alto de uma das torres da Sé e o que a seguir se passou: “E logo nesse dia algumas pessoas refeces lançaram ao Bispo, onde jazia nu, um baraço nas pernas, e havendo chamado muitos cachopos para que o arrastassem, ia um rústico bradando adiante: justiça que manda fazer nosso Senhor o Papa neste traidor cismático castelhano, porque não tinha com a santa Igreja. E assim o arrastaram pela cidade, com as vergonhosas partes descobertas, e o levaram ao Rossio onde o começaram a comer os cães, que nenhum o ousava soterrar. E sendo já deles muito comido, soterraram-no ao outro dia ali no Rossio, e os outros dois foram depois soterrados, para tirarem o fedor diante de suas vistas”.

Saraiva convidado para Embaixador de Portugal no Brasil por lá iria ficar até à Revolução. Sem admiração por Marcelo, o regime para ele tinha acabado com a morte de Salazar – “o ditador que morreu na miséria, um justo”, como ele não deixou de o qualificar até ao fim dos seus dias…

Saraiva passou bem pela Revolução. Pouco tempo depois de “normalizado” o novo regime consolidou um papel de divulgador cultural quase único na sociedade portuguesa iniciado com o já referido “O Tempo e a Alma” e continuado durante cerca de quatro décadas  com programas de grande audiência sobre Portugal, as suas terras, o seu povo e a sua história.

Apesar de depreciado por certos meios académicos convencionais, às vezes com comentários verdadeiramente ridículos, Saraiva teve o inexcedível mérito de ser um patriota que enalteceu sem nacionalismos agressivos o papel do povo na História de Portugal.

Num tempo em que a direita perdeu a noção de Pátria, em que um núcleo cada vez mais numeroso de governantes, de responsáveis políticos, de executivos públicos e privados, de técnicos qualificados, ou assim tidos, das mais diversas especialidades é capaz de tudo sacrificar em troca de dinheiro, desde o mais simbólico ao patrimonialmente mais valioso, não pode deixar de enaltecer-se a voz daqueles que não sucumbem à voracidade dos tempos e que pautam pelos seus valores de sempre uma conduta de vida.  
Saraiva foi um desses homens e por isso merece o nosso respeito por maior que seja a nossa discordância ideológica.