ESBOÇO DE UM PERCURSO
Convidado no estertor do salazarismo, em 1968, para substituir Galvão Telles,
Hermano Saraiva viveu já com Marcelo Caetano, de quem continuou ministro até Janeiro
de 1970, um dos períodos mais conturbados da ditadura portuguesa na “Educação
Nacional” e seguramente o de mais graves consequências para a sobrevivência do
regime. Saraiva apesar de já ter desempenhado cargos de algum relevo na ditadura, deputado e procurador à Câmara Corporativa, era por essa altura mais conhecido como irmão de António José Saraiva, o grande vulto da crítica literária e da história da cultura portuguesa, do que propriamente pelo seu percurso político. Mas tudo mudou depois daquela crítica passagem pelo último governo de Salazar e pelos cerca de quinze meses em que integrou o primeiro governo de Marcelo Caetano.
Nostálgico de Salazar de quem se manteve fiel admirador até
aos finais dos seus dias, Saraiva não compreendia os ziguezagues políticos de
Marcelo, a sua indecisão, as promessas que não poderia cumprir sem que o
regime se desmoronasse nem a dúbia intenção com que eram feitas e que acabavam
sempre por trazer ao regime mais prejuízos do que vantagens. E é neste contexto de
desmistificação à esquerda do marcelismo como algo de substancialmente diferente
do salazarismo e de ansiedade e preocupação à direita pela manifesta
incapacidade de Marcelo desempenhar o papel de verdadeiro continuador, que
Saraiva julga chegada a hora de, a propósito da rebelião estudantil de Coimbra,
dar uma prova inequívoca de firmeza e decisão fazendo frente à revolta dos estudantes
sem meias palavras.
Num discurso que ficou famoso, proferido cerca de um mês
depois de Thomaz ter sido vaiado em Coimbra na inauguração do novo edifício das
Matemáticas, mas numa altura em que os “dados ainda não estavam completamente lançados”,
Saraiva, tomando por referência os movimentos estudantis da Europa, principalmente
em França, proferiu, com a solenidade ameaçadora que o regime ditatorial sabia
conferir aos graves momentos, a frase que ficou célebre: “Isto não acontecerá
em Portugal”.
Foi o fim de Saraiva como ministro e o rastilho para uma luta
que atingiu tais proporções que ainda hoje são apontados a dedo aqueles,
pouquíssimos (andam por aí quase todos...bem recompensados), que desobedeceram à palavra
de ordem do movimento estudantil – greve aos exames! Ridicularizado pela banda desenhada
do imaginativo Carlinhos Santarém, Saraiva era então o alvo de todas as
chacotas.
Aguentou-se penosamente no Ministério por mais uns meses na tentativa quase impossivel de, sem perder a face, manter o perfil autoritário tão pomposamente proclamado e abrir uma pequena brecha por onde pudesse passar a negociação por que todos (ou quase todos) ansiavam. Não o conseguiu, nem a sua actuação recente o permitiria, tendo então Marcelo chamado para lhe suceder esse todo o terreno da política nacional – Veiga Simão
– que vinha com a incumbência de apaziguar e reformar…mas essa já é uma história que
não é para aqui chamada…
Um ano depois de ter saído do Governo, Saraiva que até então
se tinha dedicado fundamentalmente ao direito, como advogado, apesar de também
ser professor, estreia-se na sombria RTP com um programa chamado “O Tempo e a
Alma”. Aguardado com todas as reservas e muita desconfiança não apenas pelos
estudantes, mas também pelos meios oposicionistas cada vez mais numerosos, o
programa vai gradualmente cativando a simpatia dos portugueses. E, surpresa das
surpresas, o saudoso e implacável Mário Castrim, crítico televisivo do Diário
de Lisboa, faz-lhe referências elogiosas que constituíam à época uma espécie de
salvo conduto que quase permitia a Saraiva apresentar-se doravante ao grande
público sem a “mancha” do seu passado recente.
O que fascinou Castrim, como a todos nós, para além da
capacidade comunicativa que Saraiva dava provas num contexto muito diferente daquele
que o tinha tristemente celebrizado, foi a extraordinária descrição da
Revolução de 1383-85 que consta da “1.ª parte da Crónica de El- Rei D. João I”, de Fernão
Lopes. Saraiva juntou à empolgante narrativa de Fernão Lopes um dramatismo tal
que era impossível não ver naquelas palavras a revolução popular por que todos ansiávamos.
Marcelo, assustado com o que se estava a passar, terá achado
francamente contraproducente a narração pública em clima de grande audiência de
uma das mais extraordinárias descrições da literatura portuguesa – a morte do
bispo de Lisboa lançado do alto de uma das torres da Sé e o que a seguir se passou: “E logo nesse dia
algumas pessoas refeces lançaram ao Bispo, onde jazia nu, um baraço nas pernas,
e havendo chamado muitos cachopos para que o arrastassem, ia um rústico
bradando adiante: justiça que manda fazer nosso Senhor o Papa neste traidor cismático
castelhano, porque não tinha com a santa Igreja. E assim o arrastaram pela cidade, com as vergonhosas
partes descobertas, e o levaram ao Rossio onde o começaram a comer os cães, que
nenhum o ousava soterrar. E sendo já deles muito comido, soterraram-no ao outro
dia ali no Rossio, e os outros dois foram depois soterrados, para tirarem o
fedor diante de suas vistas”.
Saraiva convidado para Embaixador de Portugal no
Brasil por lá iria ficar até à Revolução. Sem admiração por Marcelo, o regime
para ele tinha acabado com a morte de Salazar – “o ditador que morreu na
miséria, um justo”, como ele não deixou de o qualificar até ao fim dos seus
dias…
Saraiva passou bem pela Revolução. Pouco tempo
depois de “normalizado” o novo regime consolidou um papel de divulgador cultural quase
único na sociedade portuguesa iniciado com o já referido “O Tempo e a Alma” e continuado
durante cerca de quatro décadas com programas de grande audiência sobre Portugal, as suas terras, o seu povo e a sua história.
Apesar de depreciado por certos meios académicos convencionais,
às vezes com comentários verdadeiramente ridículos, Saraiva teve o inexcedível mérito
de ser um patriota que enalteceu sem nacionalismos agressivos o papel do povo
na História de Portugal.
Num tempo em que a direita perdeu a noção de
Pátria, em que um núcleo cada vez mais numeroso de governantes, de responsáveis políticos, de executivos públicos e privados, de técnicos qualificados, ou assim tidos, das mais diversas especialidades é capaz de tudo
sacrificar em troca de dinheiro, desde o mais simbólico ao
patrimonialmente mais valioso, não pode deixar de enaltecer-se a voz daqueles que
não sucumbem à voracidade dos tempos e que pautam pelos seus valores de sempre uma
conduta de vida.
Saraiva foi um desses homens e por isso merece o nosso respeito por maior que seja a nossa discordância ideológica.
3 comentários:
Parabéns pela objectividade do seu comentário e por ser capaz de reconhecer os méritos que J.Hermano Saraiva, malgré tout, também tinha.
Muito bem.
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