quarta-feira, 26 de março de 2014

VOLTANDO À UCRÂNIA


 

QUE FUTURO?

Torna-se cada vez mais evidente aos olhos das pessoas informadas, que não se deixam intoxicar pela poderosa imprensa ocidental, que quem manda em Kiev e por extensão em parte da Ucrânia são as milícias fascistas e nazis do Svoboda e do Pravy Sektor com a cumplicidade dos corruptos de Iulia Timochenko.

São estes os aliados do Ocidente: dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra e da Alemanha para citar apenas os que realmente contam. Que a Alemanha esteja do lado dos que governam a Ucrânia, nada a estranhar, porque com Hitler ou sem Hitler os aliados naturais da Alemanha são os mesmos desde há muito: croatas, eslovacos, austríacos, húngaros, letões, ucranianos do ocidente e os finlandeses (se os deixassem). Mas que aqueles que no Ocidente lutaram contra o nazismo, nomeadamente a Inglaterra e os Estados Unidos, já que a França saiu estranhamente vitoriosa de uma guerra que perdeu por duas vezes, estejam hoje do lado dos aliados de Hitler não deixa de ser uma ignomínia para os milhões de soldados que por eles combateram e lutaram gloriosamente e não deixa de ser também a evidência do estado de degradação moral a que desceu o capitalismo que tudo sacrifica ao lucro e à ganância.

Que a “geração neoconservadora” americana, a que Obama também pertence, por mais que se pense o contrário, e a que antes dele já outros altos responsáveis pertenceram, como Bush e a sua gente, os Clinton e Reagan, não compreenda a complexidade da situação europeia, da sua geopolítica, da sua história e das gravíssimas consequências que decorrem dos passos errados que se dêem na Europa, é grave, mas era esperado. Mas já não era de esperar que a Inglaterra, apesar das nefastas reformas introduzidas na educação por esse coveiro do trabalhismo britânico, que foi Tony Blair, também não compreenda e alinhe cegamente com as máximas do capitalismo neoliberal de cariz neoconservador no cerco à Rússia, bem como a França, principalmente a direita francesa, já que os socialistas sempre foram um pau-mandado de Washington e tanto mais quanto mais frouxa e inepta for a sua direcção, como é actualmente o caso, alinhe igualmente neste desvario europeu manobrado pela Alemanha, é de uma gravidade extrema que prenuncia não apenas o fim da União Europeia – o que em si, tal como as coisas estão, até poderia não ser mau – mas principalmente a futura e muito próxima irrelevância política desses dois países na condução da política europeia.

É exactamente tendo por referência um quadro que não andará muito longe deste que a Rússia irá actuar no futuro próximo. A Rússia já percebeu - e quem não perceberia no lugar dela – que a sua integração no espaço europeu e por extensão no espaço ocidental só poderia ter lugar como súbdito, nunca como par. Como súbdito militarmente cercado e economicamente diminuído. E isso a Rússia não vai aceitar certamente. A ofensiva ocidental na Ucrânia irresponsavelmente conduzida pela União Europeia e logo secundada pelo neoconservadorismo americano (que hoje domina praticamente toda a classe política), que não teve pejo em se servir dos maiores escroques do leste para a tentar pôr em prática uma política de facto consumado, retira quaisquer dúvidas a quem porventura na Rússia ainda as tivesse sobre quais os verdadeiros objectivos do Ocidente.

Colocada perante esta evidência, a Rússia anexou a Crimeia, fazendo uso de um simulacro de legalidade, apesar de tudo mais bem urdido do que as técnicas fraudulentas utilizadas pelo Ocidente em situações similares, com a diferença de a Crimeia nunca realmente ter sido ucraniana e de a maioria esmagadora da população estar de acordo com aquele resultado. E está preparando agora a jogada seguinte, obviamente imposta pela razão de Estado, consubstanciada na garantia da sua segurança e na protecção dos seus nacionais.

E a jogada seguinte continuará a passar pelo não reconhecimento do governo de Kiev e dos bandos nazi-fascistas que o integram e por uma de duas soluções: ou uma Ucrânia neutralizada à finlandesa (sem quaisquer veleidades de integrar a NATO) e federalizada com ampla autonomia das componente federadas, nomeadamente as regiões do leste em Donetsk e em Kharkov, ou seja, de forma mais correcta, tudo o que fica para lá do rio Dniepre ou, segunda alternativa, a Rússia ver-se obrigada a ir em auxílio da população russófona ameaçada de marginalização e hostilizada pelas milícias nazi-fascistas de Kiev e da Ucrânia Ocidental, ficando, neste caso, a Ucrânia praticamente circunscrita ao território antes integrado na Polónia entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o começo da Segunda. Um território que ficaria doravante à mercê da cobiça dos alemães (novas técnicas) e dos polacos (velhas técnicas).

Esta segunda alternativa é uma aposta de risco mas que a Rússia muito provavelmente assumirá se a investida Ocidental permanecer e os seus interesses estratégicos continuarem a ser desprezados. E isso levará a que, depois desta crise, ou porventura desde já, a Rússia tenha de reorientar as suas relações, olhando para Oriente e para a América Latina.

Do lado de cá, o capitalismo ocidental, com excepção do entreacto representado pela Revolução de Outubro e suas sequelas no mundo, só tem somado vitórias e isso tem-no levado a olhar apenas para o presente e para o futuro imediato sem qualquer preocupação com uma perspectiva verdadeiramente estratégica que tenha em conta o que possa acontecer a longo prazo. A lógica do lucro é fundamentalmente uma lógica de conjuntura. E a da capital financeiro mais do que a de qualquer outro. Ele vive da ocasião. O que interessa é cavalgar a onda e tirar da força motriz que dela irradia a máxima vantagem. O que possa acontecer depois, logo se verá. O capitalismo adaptar-se-á e voltará a tirar proveito da nova situação. Sempre foi assim, exulta o capitalismo vitorioso!

E de facto, há fundadas razões para recear as consequências desta visão temerária que o capitalismo de hoje tem da política. A diferença que hoje existe relativamente ao passado é que num passado não muito remoto os Estados não se dispensavam de desempenhar o seu papel e tinham frequentemente em conta estratégias destinadas a garantir a sua própria sobrevivência corrigindo e pondo alguma ordem na voracidade do capital em defesa dos seus próprios interesses. Hoje, pelo contrário, os Estados, nomeadamente os Estados ocidentais desenvolvidos, estão completamente nas mãos do capital, principalmente do capital financeiro e especulativo, sendo este e o modo como interpreta os seus interesses que ditam a acção dos Estados, obrigando-os a agir mesmo quando o modo de actuação imposto acaba por causar dano aos seus próprios interesses estratégicos. É por isso que nesta crise não é tão relevante quanto se supõe o papel que determinados sectores políticos, mais ligados a um certo tipo de interesses que privilegia a estabilidade e a consolidação dos fluxos comerciais entretanto criados, possam vir a desempenhar já que a sua acção estabilizadora e de contenção é facilmente suplantada pela fatídica aliança entre o neoconservadorismo arvorado em defensor universal de altos valores morais e a acção rapinadora do capital financeiro.

Por outro lado, como se tem visto, pelos múltiplos exemplos ocorridos nestes últimos vinte anos tanto na Europa como em África e no Médio Oriente, o papel outrora desempenhado pelas massas populares de oposição aos desvarios expansionistas do capitalismo está hoje muito limitado ou é quase inexistente dada a fragilidade do movimento operário, por um lado, e a colonização das consciências pela ideologia dominante, por outro. Tudo isto aponta, infelizmente, para a intensificação de uma situação explosiva na Ucrânia…onde tudo poderá acontecer.

 

6 comentários:

Anónimo disse...

Pode-se discordar duma ou doutra ideia ou levantar-se alguma dúvida sobre alguma questão mais complexa
Mas, para além (ou por causa )da clareza e da exposição metódica e substantiva, é também um prazer lê-lo.
De

jlsc disse...

Desde há muito, mas sobretudo desde os tempos em que em Coimbra comecei a respirar uma parte da sua atmosfera com altos custos que não hesitaria em de novo suportar) que penso que só a clareza do pensamento pode permitir a clareza da expressão.
Com "clareza" não pretendo, todavia, significar apenas a "forte articulação lógica" que é um dos principais ingredientes da retórica, mas a "consistência filosófica" que tem por imperativo o respeito dos factos passados, como tal estabelecidos na História, e dos presentes, fundados na observação dos elementos que os farão ingressar nesse acervo comum da Humanidade.
Partilho, até ver sem reservas, pressupostos, método e conclusões do discurso do autor, sejam elas assertivas ou simples interrogações.
Por me ensinar, recordar e dar corpo ao que (também) penso com mediana clareza, fica credor da minha gratidão.

jlsc disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Se dum lado temos Neo-Nazis ( ontem parece que um foi morto), do outro temos a ocupação da Crimeia ao arrepio de toda a legalidade, ( não se faz um referendo em 15 dias ).

Por isso venha o diabo e excolha.
Quem se lixa como sempre é o povo.

Cin Gori disse...



"Se dum lado temos Neo-Nazis ( ontem parece que um foi morto), do outro temos a ocupação da Crimeia ao arrepio de toda a legalidade, ( não se faz um referendo em 15 dias )."


Nem mais.

E doze horas apenas já servem para se rasgarem os acordos e compromissos assinados com um governo legitimo?


Compreendo; os referendos para serem legitimos devem esperar mais de quarenta anos?

Talvez seja por isso que ainda não se realizou no Sahará Ocidental.

Cin Gori disse...



"Se dum lado temos Neo-Nazis ( ontem parece que um foi morto), do outro temos a ocupação da Crimeia ao arrepio de toda a legalidade, ( não se faz um referendo em 15 dias )."


Nem mais.

E doze horas apenas já servem para se rasgarem os acordos e compromissos assinados com um governo legitimo?


Compreendo; os referendos para serem legitimos devem esperar mais de quarenta anos?

Talvez seja por isso que ainda não se realizou no Sahará Ocidental.