terça-feira, 30 de junho de 2009

GUANTÁNAMO: O FRETE AOS AMERICANOS

DEFESA DOS DIREITOS DE QUEM?

O recente episódio da estadia em Portugal dos advogados dos presos de Guantánamo que querem vir para Portugal e as vicissitudes a ela ligadas (recusa dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Administração interna em os receber) é a prova provada de que nesta “história” de Guantánamo o que o Governo pretende, nomeadamente o MNE, é fazer o frete aos americanos. Os direitos dos detidos é assunto que não lhe interessa nada. Nem ao Governo, nem a outros conhecidos defensores dos direitos do homem para quem Guantánamo só serve para atacar Barroso!

O GRANDE INIMIGO DO PATRONATO PORTUGUÊS


QUE FAZER COM ESTA GENTE?

Depois de ver e ouvir um programa sobre relações laborais em tempo de crise (com este ou com outro nome), a sensação com que se fica é a de que, mesmo que o custo do trabalho tendesse para zero, a maior parte das empresas portuguesas não seria competitiva. E fica-se também com a ideia de que mesmo nessas condições os trabalhadores continuariam a ser vistos pela generalidade dos patrões como os grandes inimigos das empresas. Bom, bom seria passar sem eles…

segunda-feira, 29 de junho de 2009

GOLPE NAS HONDURAS


A CORRELAÇÃO DE FORÇAS NA AMÉRICA LATINA

Se eu conhecesse o sistema jurídico hondurenho tão bem como JM Fernandes, estaria certamente em condições de comentar os meandros jurídicos que serviram de pretexto ao golpe. Como não conheço, tenho de aceitar que a Constituição não possa ser alterada por referendo, que o Parlamento, depois de convocado o referendo, possa aprovar uma lei proibindo as consultas referendárias 180 dias antes ou depois de eleições gerais, que as Forças Armadas tenham competência para declarar ilegal a convocatória do referendo e, acima de tudo, que o Supremo Tribunal de Justiça possa anular a a decisão do Presidente da República de destituir o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas.
A tudo isto responde JM Fernandes com a mesma convicção com que defende o neoliberalismo ou a "respeitabilidade" dos 28 economistas. Só que, coitado dele, mete-se num beco sem saída: depois de ter respondido tão categórica e afirmativamente àquelas questões, só lhe restava concluir pela “legalidade” do golpe. Não vai, porém, ser fácil. A América Latina já não é o que era e hoje os Estados Unidos já não põem e dispõem como outrora.

MADOFF, 150 ANOS DE CADEIA!

SEMELHANÇAS E DISSEMELHANÇAS

Quando o processo de Madoff foi instaurado, já o MP andava às voltas há uma série de anos com investigações sobre fraudes de bancos e de outras empresas. Muito antes das vigarices de Mardoff terem sido descobertas já por cá se investigava o BCP e o BPN. É verdade que os nossos negam tudo. Mesmo o que é evidente. Os anglo-saxónicos confessam...e contam tudo. Por que será?
Vamos acreditar que nos 150 anos mais próximos tenhamos uma condenação em forma dessa gente que fez por cá, à nossa escala, o que Madoff fez por lá.

A CIA E O IRÃO


O CONTRIBUTO DE PAUL CRAIG ROBERTS

Já aqui abordámos por várias vezes a situação do Irão, tentando compreender o que realmente se passa naquele milenário país. Mas não está fácil. Se, por um lado, há notícias que dão como muito provável, a curto prazo, um compromisso entre as classes dirigentes desavindas - o tal jogo que não seria de resto zero, a que aqui também já aludimos -, ou que até admitem, como possível, uma vitória do chamado sector reformista mediante a substituição do Guia Supremo, outras há que apontam no sentido oposto: uma vitória dos radicais, sem contemplações pelos vencidos. É para este entendimento que aponta a recente acusação de os distúrbios que se seguiram ao acto eleitoral terem sido preparados ou influenciados pela CIA e pelos serviços secretos britânicos que teriam visto na disputa eleitoral para a Presidência da República a criação da situação adequada à destabilização do regime.
Esta tese, defendida pelos “duros” de Teerão, foi logo sufragada por Chávez e por outros políticos que já foram alvo de manobras de destabilização da CIA. Todavia, o que mais espanta é que ela tenha também sido convictamente defendida por Paul Craig Roberts, ex - Secretário de Estado adjunto do Tesouro, na era Reagan.
Ainda é cedo para saber o que se está a passar. Duas coisas são, porém, certas. Primeira: a CIA e os serviços secretos britânicos têm experiência na área: o golpe de 1953, hoje mais compreensível e narrável em seus pormenores, depois da abertura dos arquivos. Segunda: a situação de então era muito diferente da actual.
Em 1953, o golpe, entre muitas outras acções de destabilização do regime, começou a ser preparado pelos ingleses, embora com conhecimento da CIA, que, durante a presidência Truman não teve autorização para actuar, mas acabou por ser posto em prática por aquela agência - operação Ajax-, na presidência seguinte (Eisenhower), sob a responsabilidade directa de Kermit Roosevelt Jr., neto de Theodore Roosevelt. Então, foi necessário corromper muita gente, Ayatollahs inclusive, recorrer a pessoas inqualificáveis e beneficiar de um estilo de actuação muito peculiar de Mossadegh que não se defendeu como devia. Eram a dignidade do Estado e orgulho de um povo que estavam em causa contra a secular rapina britânica. Não foi um golpe fácil, mas fez-se.
Hoje, as condições são muito diferentes. O orgulho nacional mantém-se intacto e o ressentimento contra a perfídia americana, que os iranianos tinham por amigos, Mossadegh incluído, também, mas há notoriamente um certo cansaço das populações mais jovens e das urbanas que querem viver num regime mais aberto, e sobretudo, mais próspero. A liderança de Ahmadinejad trouxe-lhes mais inflação, custo de vida mais alto, desemprego e uma excessiva crispação internacional que está muito longe de ser apoiada por todos, tanto dentro como fora do regime. Por outras palavras, teoricamente as condições são hoje mais favoráveis a uma acção da CIA do que há 56 anos. É muito provável que a CIA, durante a presidência Bush, estivesse preparando, com o apoio dos ingleses, uma acção de destabilização do regime. E também é provável que a presidência seguinte tivesse que decidir sobre “o que fazer”. Já vimos isso noutras ocasiões: com Kennedy, por exemplo, que teve de dar seguimento a uma acção preparada pela “mesma CIA” que planeou e executou o golpe de Teerão (a CIA de Allan Dulles). Mesmo que se dê o benefício da dúvida a Obama – e deve dar-se, de outro modo o discurso do Cairo seria uma ignomínia – nada nos garante que os ingleses não tenham tomado a acção a seu cargo com a colaboração oficiosa da própria CIA.
Mesmo que tudo isto fosse verdade – e tão cedo ninguém o conseguirá provar – não parece, contudo, que os americanos estejam em condições de poder retirar de uma eventual mudança de liderança em Teerão as mesmas vantagens que “colheram” com o golpe de 1953.

O SONHO DE RUBINA

A PEQUENA LATIKA DE “SLUMDOG MILLIONAIRE”

Depois da leitura deste texto, fragmento da vida de Rubina Ali, a pequena Latika de “Quem quer ser bilionário?”, é difícil não relativizar a importância das coisas…

UM SUPERBOY



ASSIM VALE A PENA DEFENDER O GOVERNO



Mérito, apenas mérito pode justificar a privilegiada situação de Luís Patrão…

AINDA A ESTRATÉGIA ELEITORAL DO PS


A ANÁLISE DA SITUAÇÃO

André Freire, nos Ladrões de Bicicletas, faz hoje (28 de Junho) um comentário sobre a estratégia eleitoral do PS, considerando pouco inteligente a captação do voto de centro e da direita por não permitir “capitalizar qualquer tipo de voto útil à esquerda”.
A estratégia do PS pode não resultar. A dinâmica do processo eleitoral pode trazer novidades que agora dificilmente se antevêem, mas a estratégia de manter o eleitorado de centro e de direita não me parece assim tão pouco inteligente como aquele artigo pretende. Certamente, que o ideal para o PS era captar aquele eleitorado do mesmo modo que o captou em 2005. Só que as condições agora são muito diferentes e por isso os actos através dos quais o PS procura fazê-lo têm de ser evidenciados de modo muito mais visível do que há 5 anos. Por outro lado, o PS conhece bem o seu eleitorado à esquerda e sabe que uma parte dele (pequena) pode ser seduzida pelo Bloco, mais dificilmente pela CDU, mas sabe também que a imensa maioria dos votos que normalmente recebe deste sector tem muita dificuldade em romper com a fidelidade de voto. É mais provável abster-se ou votar em branco, como fez nas europeias, do que mudar de partido. E o PS conta recuperar este voto com a conversa do costume, já aqui explicitada por mais de uma vez.
Neste contexto, não me parece que faça sentido falar em voto útil à esquerda. Voto útil seria deslocar tacticamente para o PS o voto da CDU e do Bloco a fim de evitar a vitória da direita mais reaccionária. Mas há condições políticas para isto? Então, não será muito mais útil votar na CDU e no Bloco para eventualmente viabilizar um governo PS minoritário ou, além de minoritário, segunda força eleitoral, pressupondo, como agora parece muito provável, que PSD e CDS não façam maioria na câmara? Ou não será ainda mais útil manter o voto naqueles partidos, obrigando – segunda alternativa - o PS a aliar-se à direita, caso seja a força política mais votada?
Reconheço que tenho alguma dificuldade em misturar os planos: se faço análise descritiva, tenho de me ater aos factos, interpretá-los correctamente e raciocinar em função deles. Se pelo contrário, me situo no plano prescritivo, como muitas vezes acontece nos posts deste blogue, o que tenho em vista é fazer vingar a minha opinião e levar os outros a agir de acordo com ela. Misturar os dois planos no tratamento do mesmo assunto é que me parece metodologicamente muito incorrecto e, porventura, mistificador.

sábado, 27 de junho de 2009

UMA OUTRA FORMA DE VER AS COISAS

PARA COMBATER AS RECEITAS DOS ECONOMISTAS DE DIREITA


Um conjunto de personalidades de várias áreas do saber apresenta "Um Manifesto com Prioridades", no qual se defende o combate ao desemprego como o objectivo central da política económica.

SOBRE A ITÁLIA DE BERLUSCONI

COMO EXPLICAR ESTA ITÁLIA?

Para uma tentativa de explicação ver o artigo de Sami Naïr, no El País de hoje.

A ESTRATÉGIA ELEITORAL DO PS


GARANTIR OS VOTOS QUE À DIREITA LHE DERAM A MAIORIA ABSOLUTA

Embora não tenha procedido a nenhuma análise minuciosa dos últimos resultados eleitorais, a leitura de certos sinais pós-eleitorais, a que aqui fiz referência, logo me disse que o PS iria tentar garantir os votos que, ao centro e à direita, lhe asseguraram a maioria absoluta em 2005. Certo de que será quase impossível repetir este resultado em 2009, o PS está agora apenas preocupado em ficar à frente do PSD pelo maior número de votos possível. Para isso não pode descurar o centro e a direita. Quanto aos votos de esquerda, para além das habituais declarações destinadas a captar este eleitorado, que a dita esquerda do PS se encarregará de fazer, os responsáveis socialistas acham que apenas uma pequena parte deste eleitorado migrará para o Bloco, enquanto a maior parte continuará a não se rever em nenhum dos dois partidos de esquerda e a ter muito dificuldade em se desligar eleitoralmente do PS. Como o PS acredita que a alternativa que se coloca a este voto é a abstenção, está confiante de que uma campanha bem dirigida e localizada sobre os reais perigos da direita (privatização da saúde e da segurança social, além da destruição de parte importante do que resta do Estado social) fará este voto retornar ao PS.
A notícia hoje publicada pelo Diário de Notícias parece confirmar esta estratégia.

CAVACO RECUA NA MARCAÇÃO DAS LEGISLATIVAS

O PSD FEZ DE "LEBRE"...E FICOU ISOLADO

Chegou a pairar na política portuguesa a ideia de que Cavaco iria marcar as legislativas no mesmo dia das autárquicas. O Presidente era claramente favorável à simultaneidade dos actos eleitorais, tendo-se o PSD feito eco público desta vontade. Perante a recusa unânime dos demais partidos, nomeadamente do CDS, Cavaco, depois das declarações sobre o negócio da PT com a Media Capital, não tinha grandes alternativas: ou marcava as eleições para o mesmo dia e confirmava-se aos olhos da opinião pública como um simples lider partidário, ou seguia a opinião da maioria e mantinha teoricamente a aparência de equidistância partidária. Foi o que fez.
A ideia de que há eleições a mais é tipicamente uma perspectiva tecnocrática. Como não é possível passar sem elas, o ideal é que haja o menos possível e pelo menor espaço de tempo possível. Para não perturbar...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

AFINAL, O GOVERNADOR DESAPARECIDO...ESTAVA NAMORANDO



A MORAL DA DIREITA MAIS REACCIONÁRIA

A notícia também não teria nada de verdadeiramente excepcional, apesar de um dos intervenientes na história ser governador de um estado americano, se não fosse dar-se o caso de a “escapadinha” de 5 dias ter sido protagonizada por um dos mais acérrimos defensores dos “valores familiares”. Mark Sanford, Governador de Carolina do Sul, ex-congressista, defensor da supremacia das leis divinas, feroz opositor de Obama, militante fervoroso da destituição de Clinton no caso Monica Lewinsky, enfim, um baluarte do Partido Republicano, ei-lo apanhado nas “pampas” com a sua namorada argentina!
Por isso, camarada, quando ouvires falar politicamente na defesa dos “valores familiares”, põe-te em guarda!

BCP: A PROVA DE FOGO DO MINISTÉRIO PÚBLICO



BANQUEIROS ACUSADOS


Mais um banco acusado de ter sido assaltado pelos seus administradores. A notícia pode fazer a primeira página dos jornais, embora na realidade nada tenha de novo. Desde que o capitalismo financeiro se tornou no principal motor da economia capitalista, vai para uma ou duas décadas, toda a gente se apercebeu de que o sistema, tal como funcionava, permitia todas as irregularidades e vigarices. Em todo o mundo, e não apenas em Portugal, os governos, subservientes, não tinham autonomia para agir, e as entidades reguladoras, coniventes, fechavam os olhos. Depois foi o que se viu: roubaram os clientes,” lícita” ou ilicitamente, e mergulharam a economia no caos. Fica-se com a sensação de que a partir de determinada altura as autoridades em geral desistiram de querer saber o que se passou e passaram a estar muito mais interessadas em evitar as piores consequências do que se passou, despejando sobre os bancos rios de dinheiro que os contribuintes, a seu tempo, pagarão.
O que entre nós se estava a passar no BCP foi sendo denunciado por aqueles que, estando mais próximos, mas não tirando qualquer vantagem das manobras em curso, quiseram defender os seus investimentos. Depois, a entidade reguladora, no seu jeito brando e apaziguador, acabou por intervir, embora o essencial – isto é, o crime – tivesse sobrado para o Ministério Público.
O MP que tem coleccionado inúmeros falhanços nas suas acusações tem aqui a sua verdadeira prova de fogo. Ou consegue que sejam exemplarmente condenados aqueles que acusa e "salva a honra do convento” ou não consegue e ninguém acredita mais na justiça em Portugal. Por isso este processo é, a vários títulos, um processo exemplar!

PT: SÓCRATES RECUA


AFINAL, JÁ NÃO HÁ NEGÓCIO

O Governo anunciou hoje que não autorizará a aquisição de 30% da Media Capital pela PT. Quaisquer que tivessem sido as motivações do negócio, uma coisa é certa: o governo cedeu à pressão da direita, encabeçada pelo Presidente da República, e da esquerda institucional, que também criticava aquele negócio.
Esta convergência de posições, ditada por razões muito diferentes, acaba por favorecer a direita. Enquanto a esquerda via no negócio uma tentativa encapotada de controlo de um sector da comunicação social hostil ao governo e funda o seu protesto na defesa do princípio da liberdade de informação, a direita apenas estava (e está) interessada na manutenção daquela tribuna. A questão de princípio não a preocupa, nem a motiva, como no passado já se viu.
Posta assim a questão, não faltará quem venha dizer que entre manter o princípio e favorecer a direita ou esquecê-lo para não beneficiar a direita, vale sempre mais defender o princípio.
Nada mais certo. Só que era possível fazer as duas coisas: defender o princípio e atacar o oportunismo da direita. A defesa incondicionada da liberdade de informação não impede a esquerda de denunciar o oportunismo da direita no caso TVI. O que a direita quer é manter Moniz a qualquer preço. Esse é o seu objectivo. Incompreensível é alinhar num protesto ao lado da direita, deixando intocada a ideia de que ambos os protestos têm o mesmo fundamento.
Mais cedo do que tarde, a esquerda conhecerá a dimensão do seu erro e se alguém admite a possibilidade de uma TVI ao contrário, em caso de vitória da direita, certamente estará vivendo num mundo irreal. Logo um imenso coro de protestos, amplificado pela “voz transparente” dos grandes pontífices, nos viria dizer que o programa seria anti-democrático por não respeitar o contraditório na informação, nem na opinião e por aí fora. Em conclusão: uma derrota de Sócrates a qualquer preço poderá ter um desfecho muito pouco vitorioso.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

CAVACO JÁ TEM RESPOSTA

SOBRE O CONCEITO DE TRANSPARÊNCIA ...

O presidente executivo da PT foi entrevistado na RTP e a jornalista que o entrevistou habituada, mal habituada, à conversa dos nossos políticos, tinha como grande objectivo saber: em que dia começaram as negociações da PT com a Media Capital; se o Governo tinha conhecimento dessas negociações ou até se incitou a PT a fazê-las; e, magna questão, se Moniz continuará na TVI caso a PT venha a comprar 30% do capital daquela empresa. E lá teve as respostas que merecia, dadas por uma daquelas raras pessoas que existem em Portugal – inteligente e competente.
Mas não foi somente ela que levou que contar. Cavaco também levou. Preocupado com a transparência, segundo ele o grande valor sobrante desta crise, Cavaco quer explicações sobre o negócio. E teve a resposta no plano institucional: uma empresa cotada nas bolsas de Lisboa e de Nova York é sindicada pelas autoridades reguladoras. Os seus negócios são mais transparentes do que quaisquer outros. E ficou também a saber que estas negociações, se tiverem êxito, não serão muito diferentes de outras já realizadas.
Esta preocupação de Cavaco pela transparência dos negócios e dos comportamentos é louvável. Pena que essa mesma necessidade de transparência não lhe tivesse ocorrido com a mesma intensidade quando os factos vindos a público já apontavam para um comportamento menos próprio de um conselheiro de estado, por si nomeado, em quem continuou a depositar a confiança, quando as dúvidas sobre a sua conduta já eram mais que muitas. Pena também que os seus negócios com a SLN, proprietária do BPN, não tivessem sido mais explicados no que respeita à compra e venda de títulos dessa mesma empresa. Se é certo que a dita empresa não estava cotada em bolsa, não sendo, por isso, tão exigentes os requisitos de transparência, também não é menos verdade que toda a gente ficou com imensa curiosidade em saber como foi determinado o valor de tais títulos.
E, para finalizar, já que estamos a falar de transparência, também uma dúvida nos assalta, que gostaríamos de ver desvanecida com uma resposta esclarecedora: o que preocupa Cavaco é que Moniz deixe de ser responsável pela informação da TVI?

AINDA A "EXCEPÇÃO" DE CAVACO E A TVI


CAVACO TOMA PARTIDO

Olhando as coisas a frio, dificilmente a intervenção de Cavaco sobre o putativo negócio entre a PT e a Media Capital, pode deixar de ser interpretada como uma tomada de partido no conflito que opõe a informação da TVI (Jornal de sexta) a Sócrates, diga-se o que se disser sobre a garantia da liberdade de imprensa. E tais palavras, ditas agora, depois da vitória eleitoral do PSD nas europeias, juntam mais umas tantas condições para o desencadeamento de uma ofensiva vitoriosa contra o governo PS. Quem está de fora, vê assim aproximar-se o cenário que, em artigo publicado durante a campanha eleitoral para a Presidência da República, considerei perigoso para a democracia portuguesa. O texto está aqui, à disposição de quem o quiser ler: nada pior, num regime como o nosso, do que ter o Presidente da República a governar por interposta pessoa.
Pode dizer-se que estamos a caminhar demasiado depressa e a antever cenários de muito difícil concretização. Oxalá assim seja, mas não deixa de ser estranho que o PR apareça a intervir exactamente para proteger o exemplo mais abjecto de liberdade de imprensa existente em Portugal. Ou seja, uma campanha ad hominem movida por um director de televisão, com a triste colaboração do seu cônjuge, contra um político, destinada a servir os seus adversários políticos.
E a propósito de adversários políticos convirá ter em conta o seguinte. Teoricamente, a campanha da TVI desfavorece o visado e favorece todos aqueles que se lhe opõem. Mas só teoricamente. Na prática, a campanha apenas favorece a força política que está em condições de o substituir. E essa força política é o PSD. O PSD de Cavaco e de Ferreira Leite. O mesmo PSD que durante os dez anos de cavaquismo foi escandalosamente favorecido por esse mesmo director de televisão, então à frente da RTP.
Por isso mesmo é que eu tenho muita dificuldade em compreender as tréguas, para não dizer o aplauso envergonhado, que as forças de esquerda institucionais concedem à TVI. Aquela gente é de direita e do mais perigoso que a direita tem. Francamente, não é necessário ter um pingo de simpatia por Sócrates e pelo governo PS – este blogue fala por si – para atacar a informação da TVI, porque na realidade, mais do que a concreta campanha contra Sócrates, aquele jornal é apenas um exemplo daquilo que o director da informação pode fazer no domínio da “política informativa”.
E não será aquela forma de fazer jornalismo o resultado de uma verdadeira usurpação de poderes que por razões muito especiais (e conjunturais) os proprietários da estação não estão em condições de impedir? Quem tem em Portugal ou no estrangeiro “aquela liberdade de imprensa”?
Insisto: gente como aquela é perigosa para a democracia. O que fariam a um governo de esquerda?

CAVACO E AS EXCEPÇÕES


OS NEGÓCIOS DAS EMPRESAS

Cavaco acaba de afirmar que não se mete nos negócios das empresas. Tal como os treinadores que não falam sobre o trabalho dos árbitros, falando sempre que lhes convém, também Cavaco Silva abriu uma “excepção”. Uma excepção para falar do eventual negócio entre a PT e a Media Capital (TVI). Neste caso, Cavaco acha que deve falar.
Não nos pronunciamos sobre o negócio, que desconhecemos. Mas apenas sobre questões de princípio. Como pode justificar-se que o Presidente da República não se pronuncie sobre o caso BPN? Como pode justificar-se o seu silêncio relativamente a negócios tão danosos para o erário público, ainda por cima da responsabilidade de pessoas que serviram nos seus governos e que são (alguns) da sua confiança pessoal? Isso é que os portugueses não compreendem!

O NEOLIBERALISMO JÁ AO ATAQUE

ÀQUELES QUE AFIRMAM QUE O NEOLIBERALIMO ESTÁ AGÓNICO

Um pouco por todo o lado, os governos europeus vêm tomando medidas anti-crise e, consequentemente, agravando o défice público. Muito se tem discutido se tais medidas serão ou não susceptíveis de gerar inflação. Como aqui já referimos certos sectores neo-keynesianos americanos têm negado essa possibilidade. E entendem que não devem deixar de ser tomadas, mesmo que haja o risco de alguma inflação. Como as medidas anti-crise não são todas da mesma natureza, aquelas a que agora nos referimos são as que assentam fundamentalmente num aumento do investimento público.
O Banco Central Europeu e alguns bancos centrais nacionais, fiéis à sua política monetarista, embora tivessem resistido inicialmente à tomada de medidas significativas contra a crise (o BCE até chegou a aumentar a taxa de juro quando a crise já estava abertamente desencadeada), acabaram por ceder à pressão dos governos, primeiro apara salvar bancos em risco de falência, depois para apoiar claramente a economia real fortemente penalizada pela crise financeira.
Como cima dizíamos, face ao agravamento dos défices, o Banco Central Europeu já começou a cerrar fileira com vista à imposição de políticas onde impere a “ortodoxia económica”.
Jean Claude Trichet, convidado um destes dias para participar em Espanha num seminário de banqueiros e empresários já veio dizer, aliás na esteira do governador do Banco de Espanha, que a crise exige uma reforma laboral e moderação salarial. E referindo-se à Espanha não teve pejo em afirmar: “O sistema espanhol de protecção é excessivamente oneroso para os empresários; para conseguir um mercado de trabalho mais dinâmico seria bom eliminar essas rigidezes” E acrescentou: “Não quero assustar ninguém, mas introduzir mais flexibilidade (no despedimento) é bom”. E quanto aos défices foi igualmente muito claro quando disse que não havia mais margem para mais endividamento, logo não haveria lugar para mais medidas de apoio.
Mais uma vez aqueles que são os grandes responsáveis pela crise, aí estão eles a passar a factura ao maior número e aos que nenhuma responsabilidade têm no que aconteceu. Mas estas palavras também demonstram que os bancos centrais vão continuar a defender as mesmas políticas como se nada se tivesse passado.
Embora seja de prever que Zapatero não ceda em matéria de flexibilização laboral, a resposta mais consistente voltou a vir de França. Sarkozy respondeu a Trichet que não poria em prática uma política de austeridade, porque tais políticas sempre falharam no passado e disse ainda que não aumentaria os impostos, uma vez que tal medida apenas contribuiria para prolongar a crise e diferir a sua superação.
De qualquer modo, a pregação já começou. Para que possa ser levada à prática depois de concluídos os ciclos eleitorais mais próximos…

terça-feira, 23 de junho de 2009

AINDA O IRÃO

QUE CONSEQUÊNCIAS?

Ainda não compreendi muito bem o que se está a passar no Irão. Às vezes isso acontece em consequência da própria dinâmica dos movimentos populares, cuja trajectória só se enxerga com clareza tempos mais tarde, outras vezes por falta de conhecimentos e informação competente. Claro, que tenho uma ideia, como toda a gente. E já tive oportunidade de aqui a expor.
À primeira vista, o que parece estar a acontecer é uma sequela das divergências existentes no seio da cúpula dirigente sob a forma de conduzir a “Revolução Islâmica”, ou, sem aspas, a República Islâmica.
De um lado, um sector que advoga uma posição intransigente relativamente a Israel e ao Ocidente em geral (na realidade, o Grande Satã), sem concessões no plano interno a quem esteja na disposição de encarar uma nova política. Deste lado, o Guia Supremo, o Presidente da República em exercício e o Conselho dos Guardiães.
Do outro lado, um sector reformista, igualmente defensor da República Islâmica, que vem mantendo divergências com os sectores próximos do Guia Supremo desde há muito tempo, mas que nos últimos meses, em consequência de algumas alterações da conjuntura internacional, de que é exemplo mais frisante a nova administração americana, passou a defender de uma forma mais clara e aberta uma mudança de política como caminho mais adequado para a defesa dos grandes objectivos da República Islâmica. À frente deste grupo está, sem qualquer dúvida, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, um dos homens mais poderosos do Irão, economicamente. Mais em consequência da situação gerada pela contagem dos votos para a eleição presidencial e pela palavra de ordem de Musavi - “Novas eleições” - do que propriamente pelo clima criado pela campanha eleitoral, parece ter-se juntado ao sector reformista um vasto grupo inorgânico de opositores (salvo, porventura os comunistas do Tudeh) que foi engrossando com o alastramento da revolta, a quem claramente não desagrada certos estilos de vida ocidentais. Mas é preciso ter alguma prudência na caracterização deste grupo, já que o grito de contestação que todas as noites se ouve em Teerão e noutras cidades, a partir das açoteias, ainda é o mesmo que derrotou o Xá: Allah-u Akbar (Deus é grande) e Marg bar Diktator (Morte ao ditador).
Como no Ocidente a realidade iraniana é muito mal conhecida - a imprensa e os media em geral apenas reproduzem estereótipos - torna-se tudo mais difícil de analisar nas horas críticas. Por exemplo, o facto de o recenseamento eleitoral não ter semelhança com a generalidade dos recenseamentos europeus (atenção: nos EUA também há regimes impensáveis na Europa) não significa que no Irão a batota eleitoral seja mais fácil ou que, no caso de ter ocorrido, não possa ser detectada. Mas não é só nesse plano que o desconhecimento é grande. O facto de os Estados Unidos terem entrado em conflito com o Irão, praticamente desde os primórdios da República Islâmica, mais na era de W. Bush do que anteriormente, com a famosa catalogação do Irão no Eixo do Mal, fez com que a imprensa ocidental se considerasse dispensada de conhecer e de pensar. Apenas tinha que reproduzir as consignes vindas de Washington ou então, uma parte dela – e isto é o que verdadeiramente ela gosta de fazer – criticar os excessos num estilo a que poderíamos chamar “Ana Gomes”.
Um outro aspecto interessante da actual situação iraniana é a perplexidade gerada pela prudência de Obama. Os políticos ocidentais e a matilha dos comentadores internacionais que os segue e reproduz ficaram claramente desorientados com a atitude de Obama. Habituados por W. Bush, mas também por Clinton e por Reagan, a seguir “criticamente” as posições americanas, viram-se subitamente na contingência de ter opinião…