terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A ENTREVISTA DE DUARTE NUNO DE BRAGANÇA



A VANTAGEM DE FALAR CLARO

A entrevista que Duarte de Bragança concedeu a Público é interessante, apenas por uma razão: ele pensa o que diz e diz o que pensa.
Hoje nenhum político age assim: diz o que não pensa e faz o que não diz.
Se os políticos falassem claro, a escolha seria mais fácil e controlo mais simples. Como não falam, a política é um jogo de máscaras.

OBAMA COMPLETA GOVERNO


UM GOVERNO DE CENTRO-DIREITA

Com a designação de Robert Gates para a Defesa, de Hillary Clinton para os Estrangeiros, Eric Holderpara a Justiça e James Jones (ex-comandante supremo da NATO na Europa entre 2003/06) para Conselheiro de Segurança Nacional, Obama completou o essencial do seu governo.
É um governo de centro-direita, tanto segundo os padrões europeus, como segundo os norte-americanos.
Grande decepção para a ala esquerda do partido democrata e grande decepção também para todos os que, tanto na América, como no resto do mundo, acreditaram que a “mudança”, tantas vezes anunciada e prometida, seria por contraposição à habitual política de Washington. Não é. Agora já se sabe que não é. A mudança é apenas por referência à política de Bush. Mais concretamente: encerrar Guantánamo (se conseguir resolver alguns problemas jurídicos que lhe estão associados), sair do Iraque quando for possível (Bush, mais tarde ou mais cedo, também o faria) mais multilateralismo à Bill Clinton (ou seja, “vejam lá se concordam comigo”) e mais proteccionismo. Internamente, que é o que verdadeiramente interessa a Obama, haverá alterações mais significativas relativamente à política de Bush, principalmente nos impostos, na saúde, na educação e no ambiente. Difícil seria não haver! Veremos se em Wall Street tudo fica mais ou menos na mesma ou se haverá mudanças significativas. Se houver, saber-se-á nos primeiros dois ou três meses de governo.
E vamos também ver como nas questões internas Obama se entende com o Congresso, principalmente com a Câmara dos Representantes, eleita em época de grande crise e cuja maioria está claramente à sua esquerda.
O futuro dirá se, para o mundo em geral, Obama será mais um presidente americano ou se será um presidente que faz diferença.

OS VÔOS PARA GUANTÁNAMO E O "PÚBLICO"



“EL PAÍS DIZ QUE GOVERNO DURÃO BARROSO SABIA DOS VOOS ILEGAIS”

É assim que O Público de 2ªfeira na última página titula uma notícia que desenvolve na página 11. Acontece que nem nesta página, nem o El País de ontem dizem o que se afirma na última página do Público. De facto, o que o El País diz é o que se transcreve na página 11 do Público e que neste blogue foi resumido neste post, ou seja que “ Esta diligência está sendo realizada em vários países que se encontram ao longo da rota que devem seguir os aviões em questão”, países que o El País, e não a nota do MRE, entende serem, pelo menos, a Turquia, a Itália e Portugal.
Não sei se o Governo de Durão Barroso sabia ou não dos voos da CIA de transportes de prisioneiros. Agora o que sei é que, se as informações prestadas pelo conselheiro militar da embaixada americana em Madrid estavam correctas e se o Director Geral para a América do Norte e para a Segurança e Desarmamento, Miguel Aguirre de Cárcer, do MRE de Espanha, transcreveu correctamente o que lhe foi solicitado, quem recebeu em Portugal o pedido de sobrevoo e de escala foi o II Governo Guterres. Resta saber que resposta terá dado esse Governo, então já em gestão. Terá permitido? Terá devolvido a resposta para o próximo governo, empossado cerca de 90 dias depois? Terá contactado o leader do partido mais votado para “consensualizar” (para utilizar um verbo cujo sentido, em política externa, é tão do agrado do nosso actual MNE) a resposta?
Uma quarta hipótese é possível: não terem os americanos pedido qualquer autorização. Era perfeitamente provável que o tivessem feito, por muito que essa desconsideração custe aos nossos atlantistas, se esse comportamento não fosse para eles um comportamento de risco. Fazendo clandestinamente escalas, a Administração Bush corria o risco de ser denunciada por um observador indiscreto. Ela queria a cumplicidade e a conivência das autoridades dos países em rota para o caso de ser necessário fazer neles uma escala, fosse para abastecimento ou outra razão de ordem técnica, fosse para mudança de avião. Por isso, é quase certo que o tenham feito. E se seguiram um procedimento idêntico ao de Espanha, é fácil saber quem terá sido contactado em Portugal.
Esta questão está a tornar-se muito mais interessante do que alguns (talvez, algumas) supunham. Porque pode dar-se o caso de as entidades inicialmente envolvidas não serem as que se contava que fossem, mas outras… Ou seja, agora é que só vai mesmo saber-se o que se passou connosco, quando os americanos abrirem os arquivos, porque em Portugal não há “gargantas fundas”, nem os papéis deixam rasto…

domingo, 30 de novembro de 2008

A OPERAÇÃO FURACÃO



A ENTREVISTA DE CÂNDIDA ALMEIDA


Cândida Almeida concedeu uma entrevista ao DN sobre a operação furacão.
Dificilmente se poderia imaginar uma entrevista mais infeliz.
A entrevista é do princípio ao fim inconsistente. As respostas estão mal estruturadas e a opinião pública fica com uma má ideia sobre a forma como são conduzidas em Portugal este tipo (só este?) de investigações criminais.
Em primeiro lugar, para se vir falar sobre esta investigação quatro ou três anos depois de iniciada, é preciso ter ideias muito claras sobre o que se quer dizer. E, francamente, não sei se a Procuradora, na esteira das anteriores declarações do PGR sobre o crime económico, pretendeu preparar a opinião pública para um desfecho inconcludente do processo ou, se, pelo contrário, quis vir fazer uma espécie de “mid-term review”, dando conta do que se fez até hoje e do que falta fazer.
Em qualquer dos casos, a entrevista é um falhanço. Dela não resulta ter a investigação uma estratégia clara sobre o que pretende. Parece mais interessada em arranjar desculpas do que em apontar rumos claros que tenham sido seguidos. Desculpa-se frequentemente com a lei em vigor, para logo depois, num tardio rebate de consciência, vir dizer que concorda completamente com as exigências constitucionais portuguesas.
Depois, à semelhança de uma colega sua, parece estar muito preocupada por a investigação criminal ocorrer depois do crime! Este ponto de vista parece estar a generalizar-se no MP, como se o contrário é que fosse normal. É claro que pode haver fiscalização preventiva, mas a partir do momento em que haja crime ou suspeita dele, a investigação será sempre um posterius.
A referência à PJ nos termos em que foi feita levanta todo tipo de suspeitas: ou não dizia nada, ou dizia mais.
Finalmente, as reservas ao inquérito parlamentar são politicamente inaceitáveis. Embora se saiba antecipadamente o resultado de uma comissão parlamentar de inquérito que contenda com os interesses da maioria, nem por isso a opinião pública deixa de ficar mais esclarecida com o que nela se passa. Acredito é que o MP não esteja muito interessado em que o grande público tome conhecimento de factos precisos, porque quanto mais conhecimento houver do processo, menos tolerância haverá para um desfecho inconclusivo.

GUANTÁNAMO - EM ESPANHA JÁ SE COMEÇA A SABER



E POR CÁ, COMO VAI SER?


Como se previa, as cumplicidades no sequestro de prisioneiros começam a ser desvendadas.
O El País de hoje, com base num relatório secreto a que teve acesso, noticia a conivência de Aznar na passagem e escala em Espanha de voos militares americanos com prisioneiros para a base de Guantánamo. Ainda segundo aquele relatório, era a própria embaixada americana em Madrid que pedia ao governo espanhol autorização para aquelas escalas.
E por cá, como foi? Será que eles passaram sem pedir autorização a ninguém? Mas que desconsideração …
ADITAMENTO
O relatório, muito secreto, do Ministério das Relações Exteriores de Espanha diz que diligências idênticas às de Madrid estavam sendo feitas noutros países situados ao longo da rota que os aviões iriam fazer. E que o El País identifica como sendo, pelo menos, a Turquia, a Itália e Portugal.
A ser assim, alguém no MNE terá sido contactado. Será que esse alguém escreveu alguma nota sobre o assunto? Ou será que o contactado dispensaria pela sua posição a elaboração de uma nota?
O que é interessante é o tratamento burocrático que os americanos fizeram do assunto. Não foi o Embaixador que pediu uma entrevista ao Ministro. Foi o conselheiro político-militar da embaixada que telefonou directamente ao Director-Geral de Política Externa para a América do Norte e lhe pediu uma audiência urgrente.
Se tiver havido paralelismo de actuação, já haveria aqui elementos para uma boa investigação. Haveria...porque em Portugal nada é como parece ser.
Para complicar ainda mais as coisas: o relatório que o El País publica é de 10 de Janeiro de 2002 e o primeiro voo de prisioneiros terá passado no espaço aéreo português no dia seguinte.
O Governo de Durão Barroso tomou posse no dia 19 de Abril de 2002. Logo...

PINTO MONTEIRO RECONHECE A DIFICULDADE DO MP NA INVESTIGAÇÃO DO CRIME ECONÓMICO



É MAIS FÁCIL APANHAR OS DE FORA DO QUE OS DE DENTRO

Em entrevista recente à SIC, o Procurador-Geral da República reconheceu que é muito difícil investigar o crime económico. Por outras palavras, foi preparando a”malta” para o resultado zero dos processos mais conhecidos que estão em curso.
A sua colaboradora mais famosa até chegou a dizer que a investigação estava em desvantagem…porque partia sempre atrás! Desta gostei…
Perante tais declarações, ninguém pode queixar-se dos julgamentos sumários feitos pelos media aos suspeitos de fraudes económicas.
Feitas as contas, o trade-off é-lhes favorável: ficam com a reputação arruinada (durante uns tempos…), mas não perdem o dinheirinho “gamado”…

sábado, 29 de novembro de 2008

A CRISE FINANCEIRA E O PAPEL DOS JURISTAS



PODE O GOVERNO ACTUAR ARBITRARIAMENTE?

Como aqui logo sublinhámos, as leis que, em consequência da crise financeira, regulam a intervenção do Estado no sistema bancário são propositadamente vagas e lacunares. Os diplomas complementares que facilitam a sua aplicação ou têm normas inconstitucionais (como acontece com a Portaria n.º1219-A/2008 de 23 de Outubro, de que os bancos ainda se hão-de prevalecer) ou mantêm em pontos importantes a excessiva generalidade dos diplomas principais.
Isto significa que o Governo fica com uma extensa latitude de actuação e pode, dado o clima político reinante em Portugal, actuar contrariamente ao interesse público e aos verdadeiros fins para que, à luz do direito, aquelas intervenções foram previstas. Quando dizemos que o Governo pode não queremos dizer que o Governo tem o direito de actuar como actuou, mas que o Governo tem de facto a possibilidade de o fazer.
E a questão que juridicamente se coloca é a de saber se essa actuação é, em todos os casos, lícita e, não o sendo, como pode ser atacada. Evidentemente, que não me estou a referir a uma actuação contrária aos interesses dos accionistas e simultaneamente contrária à lei. Essa pode ser sempre directamente atacada pelos prejudicados.
Estou antes a referir-me a uma actuação não apenas contrária mas gravemente danosa do interesse público como parecem ser as duas intervenções que o Governo já fez. Uma coisa tenho por certa: o Governo não tem nesta matéria, como não tem em nenhuma outra, o direito de actuar arbitrariamente.
E discricionariamente, podê-lo-á fazer? O Governo tem de visar com a sua actuação a defesa do interesse público, explicitando muito clara e concretamente o que entende por essa defesa, ou seja, qual o interesse público que em cada caso está a defender (não pode, por exemplo, limitar-se a simples declarações genéricas do tipo “o efeito sistémico…” ou “a imagem de Portugal junto da banca internacional…”, ou outras do mesmo género) e tem que respeitar depois um conjunto de princípios e normas constitucionais que, em actos desta natureza, sempre balizam a sua legalidade.
A discricionariedade do Governo não pode ser entendida como leque de decisões à sua escolha, sendo legal aquela pela qual ele optar, seja ela qual for. Não. A decisão do Governo, para ser lícita, tem de ser a juridicamente correcta. E essa é apenas uma e não uma entre várias.
A outra questão é da legitimidade para atacar a decisão do Governo.
É este o repto que deixo aos juristas, principalmente aos magistrados, da judicatura e do ministério público, que se prestigiariam muito mais aos olhos dos portugueses se tratassem destas e doutras questões semelhantes do que de desprestigiantes questões corporativas.
Aos demais juristas não valerá muito apelar. Os pareceres estão caros…e o Governo, um bom freguês.

IRONIA OU CONFISSÃO?



O PAPEL DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS NA CRISE FINANCEIRA

Francamente, não sei como interpretar as declarações daqueles que sublinham o “importante papel” que a CGD tem desempenhado no combate à actual crise financeira, partindo daí para, numa pretensa posição “anti-neoliberal” justificar, junto daqueles que advogaram a sua privatização, a continuidade da dita no sector público empresarial do Estado.
Se é ironia, está muito mal conseguida. É que nestas coisas da ironia a gente tem sempre como paradigma Eça de Queiroz…
Mais me parece uma verdadeira confissão do papel se pretende a Caixa desempenhe. Enfim, era como dizer: “Estão vocês a ver, seus neo-liberais, por que é que nós não baixámos os impostos? É para agora termos dinheiro para pagar os prejuízos dos ricos!”

OS COMENTADORES OFICIOSOS DA CRISE FINANCEIRA



SEM INDEPENDÊNCIA NÃO HÁ LIBERDADE


Não é somente em política internacional que uma matilha de comentadores (para utilizar a feliz expressão do meu amigo Rui Namorado) desvirtua, distorce e interpreta de forma comprometida os factos, também no comentário económico nacional se passa o mesmo.
Ainda ontem, pouco depois de tornada pública a decisão sobre o futuro do BPP, já a SIC N reunia um conjunto de “comentadores” encarregados de fornecer a explicação oficiosa da decisão.
Tudo se disse para a justificar: desde salvar a imagem do país até proteger os “pequenos depositantes”que confiaram na solvabilidade do banco.
Nauseado com os comentários, aliás na mesma linha dos hoje desenvolvidos pelo Expresso - ou não fosse Balsemão um dos felizes accionistas do BPP – fechei a televisão dez minutos depois de os começar a ouvir.
Este país é um país de dependentes, a todos os níveis…e sem liberdade não se vai a lado nenhum!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A CRISE FINANCEIRA E O ESTADO



A POLÍTICA IRRESPONSÁVEL DO PS


Para além de tudo o que já foi dito sobre o modo como o Governo comprometeu o Estado na crise financeira, nomeadamente o nulo efeito útil sobre a economia das medidas a destinadas a impedir as falências bancárias em geral – agora já toda a gente diz que os empréstimos que os bancos venham a contrair, com o aval do Estado, se destinam a pagar passivos no exterior ou a reestruturar a sua dívida externa, facto que aqui há muito havíamos previsto -, é particularmente grave a actuação que o Governo vem tendo relativamente aos pequenos bancos.
Estas “banquetas”, como com toda a propriedade poderiam ser chamadas, apesar de não representarem quase nada enquanto entidades concessionárias de crédito e de terem neste plano uma diminuta influência sobre a economia nacional, são contudo, quando se trata de salvá-las, extremamente onerosas para o erário público por terem passivos muitíssimo superiores ao que seria exigível para bancos desta dimensão.
O Governo não querendo deixar cair nenhuma, tanto as que basearam a sua actividade em práticas ilícitas do foro criminal, como as que pura e simplesmente apostaram no risco e perderam, compromete ou pode comprometer o futuro da Caixa Geral de Depósitos, além de onerar injustamente os contribuintes em geral e praticamente inviabilizar uma intervenção em larga escala num banco grande que dela venha a necessitar.
Guiado pela obsessão de salvar os accionistas e argumentando com o propalado, mas efectivamente nulo, efeito “sistémico” – como se as falências, tal como lucro, não fossem consequências normais do sistema capitalista! – o Governo comete erros atrás de erros e compromete o futuro dos portugueses.
Aqui há muitos anos atrás, quando muito se discutia a “função social” da propriedade privada, um famoso sociólogo francês, também professor de direito, já cansado dos argumentos papais, e outros, sobre a matéria, disse mais ou menos o seguinte: “Então, se é assim, por que é que a propriedade privada não vai a concurso para poderem ser seus titulares apenas os mais aptos a desempenhar aquela função”? . É também caso para dizer: “Então, se os bancos não podem falir, por que não são todos nacionalizados e se proíbe a actividade bancária a privados?”

GOVERNO DO PS SALVA, INDIRECTAMENTE, BANCO DOS RICOS



É ASSIM A GOVERNAÇÃO EM PORTUGAL


A SIC N acabou de anunciar que João Rendeiro renunciou ao cargo de presidente do BPP, no quadro de um acordo liderado pelo Banco de Portugal e apoiado pelo Governo. O plano de salvamento do banco passa por um empréstimo concedido por um sindicato bancário, no qual obviamente está a Caixa Geral de Depósitos, que, por sua vez o negociará com aval do Estado Português.
Por outras palavras, o Estado Português assegura parcialmente (dado o papel da Caixa) um empréstimo ao BPP, para impedir de imediato a sua falência, e garante-o na totalidade.
Dada a natureza deste banco, tendo em conta o perfil dos seus credores (que a Sra Serras Lopes teve a ousadia de dizer na TV que muitos eram pedreiros…), a posição do Governo é coerente com o seu habitual comportamento político.
Este Governo tudo fará para que os ricos passem incólumes pela crise.
Constâncio, o desacreditado Constâncio, que passou toda a sua vida política a pregar moderação salarial, a pedir sacrifícios aos trabalhadores, aí está na primeira linha da negociação que o Governo subscreverá. Negociação cujos contornos os portugueses nunca irão conhecer, assim como também desconhecerão a real situação em que se encontra o BPP.
É assim a governação em Portugal!

AS PROPOSTAS DE PAUL KRUGMAN

QUE FAZER?


Vale a pena ler este artigo de Paul Krugman e comparar com o que cá se faz.
E depois digam lá se ele não tem razão, como muito bem sublinham os Ladrões de Bicicletas, quando afirma:
"Some people say that our economic problems are structural, with no quick cure available; but I believe that the only important structural obstacles to world prosperity are the obsolete doctrines that clutter the mind of men".

O PROGRAMA COMUNITÁRIO DE COMBATE À CRISE E PORTUGAL


QUE MEDIDAS?



A Comissão Europeia, composta por liberais, conservadores, socialistas e social-democratas neoconvertidos ao neoliberalismo, apresentou um programa de combate à crise que, no essencial, assenta nos planos nacionais (calculados em 130 mil milhões de euros) e na contribuição comunitária, na ordem dos 30 mil milhões (14,4 mil milhões de fundos comunitários e 15,6 do Banco Europeu de Investimentos).
Esta proposta é bem diferente da que inicialmente se encarou, que apontava para contribuições dos Estados membros na ordem de 1% do respectivo PIB. Como não foi possível chegar a qualquer tipo de acordo, desde logo porque é muito diferente a situação económica de cada país, deixou-se à liberdade de cada um a formulação do plano considerado mais adequado à respectiva situação nacional.
Mesmo com estas limitações, que ilustram bem o sentido da integração comunitária, há dificuldades, pois os fundos que a Comissão se propõe alocar são fundos antecipados de programas já existentes e para os injectar no sistema económico é necessário que os contribuintes líquidos aceitem antecipar as suas contribuições – o que não é seguro, como se já viu pela reacção da Alemanha.
Como este programa, depois de analisado pelo próximo Conselho de Economia, vai ter de ser aprovado, em última instância, pelo Conselho de Chefes de Estado e de Governo na reunião de 11 e 12 de Dezembro, o mais provável é que se traduza em nada ou muito pouco, não sem que, no fim, todos colaborem no número habitual de considerar aquele Conselho uma grande vitória e um importante contributo para a superação da crise.
Simultaneamente, o Comissário dos assuntos económicos e monetários, o socialista Joaquim Almunia, um dos neoconvertidos ao neoliberalismo, já advertiu que as eventuais derrapagens orçamentais devem ser “limitadas e transitórias”, ou seja, de algumas décimas e de um ano, não de vários.
Remetendo para cada um dos EM o encargo de superar sozinho uma crise que é de todos e mantendo apertado o garrote do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a Comissão sabe que está a colocar em grandes dificuldades os países mais pequenos e de menores rendimentos afectados pela crise, que naturalmente terão mais dificuldades em a vencer do que os grandes. Já que é certo e seguro que se os grandes tiverem que aumentar o défice fá-lo-ão sem quaisquer consequências no plano comunitário.
Infelizmente, não é apenas a Comissão que não compreende, ou não se propõe atacar com eficácia, a presente situação. Internamente, passa-se o mesmo quer com o Governo quer com a oposição de direita, principalmente o PSD.
Segunda as palavras de M.F. Leite, que tenta fazer a síntese do que pensam Cavaco e Eduardo Catroga, o que interessa é assegurar a rentabilidade dos investimentos e competitividade das empresas.
Por rentabilidade dos investimentos entende-se a sua amortização em prazos curtos, sem atribuir grande relevância ao seu efeito multiplicador, e a natureza privada dos mesmos. Ferreira Leite insiste frequentemente na ideia de que é necessário o Estado não absorver recursos que têm que estar disponíveis para os privados, qualquer que seja a fonte desses recursos.
E por competitividade das empresas deverá entender-se o mesmo de sempre: isenção ou diminuição da carga fiscal, subsídios e degradação salarial.
O Governo, por seu turno, insiste num vasto programa de investimentos públicos e numa política orçamental que não privilegia, antes agrava, os rendimentos das pessoas.
Se a política que a direita propõe é o caminho mais que certo para o agravamento da recessão, aliás nada de muito diferente do que tem acontecido nestes últimos sete anos, a do Governo não atende suficientemente às características da presente situação e, por isso, arrisca-se a provocar no país profundas convulsões sociais pela iniquidade das suas medidas.
A receita da direita é retrógrada, porque no actual momento o que interessa é relançar a procura, principalmente a interna, única que depende de nós. Somente o relançamento da procura poderá inverter a espiral descendente em que cada dia estamos mais mergulhados. As famigeradas receitas para assegurar a “competitividade” das empresas ditadas pela insensata esperança de assim aumentar as exportações apenas contribuirão para agravar a crise. Não apenas porque diminuem drasticamente os rendimentos dos trabalhadores, mas também por o relançamento da procura nos mercados importadores não ser neste momento influenciável por uma relativa baixa dos produtos. Ignorando o principal, ou seja, que apenas há investimento privado se houver procura, a direita, ao insistir no relançamento do investimento privado sem procura, está de facto a dificultar ou mesmo a impedir a saída da crise.
Do lado do Governo, se é positivo no geral o programa de investimentos públicos, com excepção do novo Aeroporto de Lisboa, que vai traduzir-se num grande prejuízo para o país, não é seguro que o Governo tenha compreendido como se estimula a economia em épocas de crise profunda, como já é e vai ser aquela em que nos encontramos mergulhados. O Governo tanto no seu discurso, como na sua prática apenas tem diante dos olhos as empresas e apenas olha para as pessoas, quando olha, numa perspectiva assistencial.
Esta perspectiva está errada e padece do mesmo mal de base de que enferma a direita. Ou seja, a saída da crise não passa por uma via que vai das empresas para as pessoas, mas das pessoas para as empresas. Todo e qualquer gasto público que o Governo se proponha fazer neste momento, bem como qualquer outra medida com que pretenda estimular a economia, tem de ter isto em conta: tem de se assegurar que se trata de uma despesa que contribuirá para o relançamento da procura. Somente o maior poder de compra das pessoas poderá assegurar a viabilidade das empresas. Se o Governo apenas quer fazer obra porque tem compromissos com a empresa A ou B, sem previamente se certificar de que esse investimento serve mais aquele objectivo do que a prosperidade (fictícia) da empresa vai certamente endividar o país sem o retirar da crise.
Por outro lado, a forma atabalhoada como agiu perante a crise financeira e a excessiva confiança que continua a depositar no Banco de Portugal para a debelar, que já deu sobejas provas de que a não merece, colocam o Governo numa posição politicamente insustentável. Ninguém aceitará continuar a fazer sacrifícios e a endividar-se para que os recursos assim conseguidos sejam canalizados para os bancos mais interessados nas suas habituais práticas de agiotagem do que num apoio sério à economia nacional.

A EQUIPA ECONÓMICA DE OBAMA


QUE MUDANÇA?


Quando aqui há dias descritivamente referimos a nova equipa económica de Obama não fizemos qualquer comentário ao sentido político das escolhas.
Olhando aos nomes, somos forçados a concluir que Obama, mais uma vez, se inspirou na administração Clinton, escolhendo pessoas que já tinham trabalhado com o anterior Presidente democrata ou que nunca se demarcaram dessa política económica nem na de Bush, como acontece com o novo secretário do tesouro.
Pode dizer-se, como dizem certos assessores de Obama, encarregados de “condicionar a opinião pública” que aquelas pessoas mudaram muito e que, inclusive, estão dispostas a não repetir os erros do passado e a pôr em prática uma nova política económica, como se comprova pelo plano anti-crise a aplicar imediatamente.
Todavia, a questão que se coloca é a seguinte: se o objectivo é pôr em prática uma nova política por que não escolher pessoas que nunca tenham estado comprometidas com as do passado?
Com H. Clinton na secretaria de estado, com Robert Gates na defesa, só falta mesmo lá o Allan Greenspan, que até já fez um acto de contrição pública muito semelhante a certas auto-críticas já vistas noutras paragens.
Como diria, traduzido para português, o humorista americano Frank Caliendo: mudança ou trocos?

CATALINA PESTANA NA RTP



UMA ENTREVISTA

Catalina Pestana foi esta noite entrevistada na Grande Entrevista.
Contrariamente a João Aibéo, que já leva dezenas de horas alinhando factos, provas e nomes, Catalina Pestana, quase sem falar, sem invocar nomes nem descrever factos, deixou uma acusação impiedosa contra os que a traíram na violação mais grosseira dos valores que apregoavam.
Judite de Sousa teve a inteligência de não lhe pedir nomes e Catalina Pestana a sabedoria de não necessitar de os indicar.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

NOTAS SOBRE O CONCEITO DE DITADURA - PARTE III



AINDA A PROPÓSITO DAS DECLARAÇÕES DE MANUELA FERREIRA LEITE (CONT.)


“EU NÃO ACREDITO EM REFORMAS, QUANDO SE ESTÁ EM DEMOCRACIA…QUANDO NÃO SE ESTÁ EM DEMOCRACIA É OUTRA CONVERSA, EU DIGO COMO É QUE É E FAZ-SE. E ATÉ NEM SEI SE A CERTA ALTURA NÃO É BOM HAVER SEIS MESES SEM DEMOCRACIA, METE-SE TUDO NA ORDEM E DEPOIS ENTÃO VENHA A DEMOCRACIA”.
3 – Finalmente, temos a ditadura como instituição adequada para acudir a situações excepcionais: ”Eu digo como é que é e faz-se…E até nem sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem…”. Dictator est qui dictat.
Pulido Valente numa das suas intervenções de fim-de-semana já nos explicou que esta é uma ideia que vem da monarquia constitucional: o Rei dissolvia o Parlamento, o governo continuava a governar por decreto, mais tarde elegia-se novo Parlamento que, por via do bill de indemnidade, ratificava ou convalidava os decretos aprovados. Era a chamada"ditadura administrativa”. Acontece que esta prática (leiam-se os famosos discursos de Passos Manuel nas Cortes) que os alunos de direito conhecem desde o primeiro ano, a propósito da génese dos decretos-leis em Portugal, é muito mais antiga que a Monarquia Constitucional. É uma prática que vem de Roma, da República Romana, que consagrava a ditadura como magistratura legítima, posto que extraordinária, para a acudir a situações excepcionais, como uma guerra ou uma rebelião.
Esta magistratura extraordinária, instituída cerca de 500 ac e que terá perdurado até finais do século III ac, prestou grandes serviços à República e continuou pelos séculos fora a ser enaltecida com as características que tinha em Roma.
O ditador era nomeado por um dos cônsules a pedido do senado e a sua nomeação tinha em vista constituir, em tempos de perigo, um poder forte que não pudesse ser obstaculizado ou dificultado pela colegialidade da decisão, pelo direito de veto ou por qualquer outro procedimento impeditivo de uma decisão célere. O ditador recebia um mandato, como hoje se diria, para realizar uma determinada tarefa ou alcançar um resultado, executado o qual findava a sua missão que, em qualquer caso, nunca poderia ir além dos seis meses (cá estão os seis meses de MFL!!!) ou exceder o mandato do cônsul que o nomeara. A ditadura romana era, portanto, uma instituição legítima – estava prevista na constituição; excepcional – os demais poderes eram suspensos; monocrática – o ditador é sempre individual; e temporária – termina com a concretização do objectivo ou o mandato do cônsul, sem, porém, exceder nunca os seis meses.
À época, e posteriormente durante muitos séculos, a ditadura não tinha carácter pejorativo. O facto de ser legítima e limitada no tempo permitia facilmente distingui-la de dois conceitos clássicos, esses sim negativos, hoje praticamente caídos em desuso: a tirania e o despotismo.
O tirano é o que exerce o poder sem título ou que, tendo título, governa sem obediência às leis. A tirania é, portanto, como a ditadura, monocrática, mas não é legítima, nem necessariamente temporária.
O déspota, na concepção clássica do conceito, que prevaleceu até à teorização de Montesquieu, é aquele que exerce o seu poder no interesse próprio sobre povos naturalmente servis. Trata-se de um poder monocrático, permanente, mas legítimo, porque aceite pelos súbditos. Na concepção clássica aristotélica, o despotismo, como forma de governo, estava geograficamente delimitado - Ásia -, ideia que persiste em Montesquieu, não obstante as inovações que este introduziu no conceito. Para Montesquieu, o despotismo sem deixar de estar histórica e geograficamente delimitado, é uma forma autónoma de governo, distinta da monarquia e da república, baseada no medo, na vontade incontrolável do déspota, sem leis nem freios. A China do seu tempo é, para Montesquieu, o exemplo típico de despotismo, enquanto para Aristóteles era a Pérsia.
O despotismo terá mais tarde uma formulação positiva - o despotismo iluminado - , que fará do déspota o intérprete e aplicador das leis naturais e universais, cuja aplicação assegura ao homem a felicidade e a prosperidade.
A concepção positiva da ditadura prevalece ao longo dos tempos e é defendida pelos mais ilustres pensadores políticos ocidentais. Maquiavel, nos Discorsi, diz que a “instituição da ditadura faz bem, e não mal, à república romana; o que causa dano à vida política é o poder usurpado, não o que é livremente delegado”. Maquiavel não concorda, portanto, com a tese que responsabiliza a ditadura romana pela tirania que recaiu sobre a república, primeiramente com Sila e depois com César. Segundo ele, não foi a ditadura que facilitou a tirania, mas a usurpação do poder por quem se encontrava no governo. Se aquele título não existisse, o usurpador criaria outro: ”a força encontra facilmente um título, mas nenhum título cria a força”.
Também Jean Bodin, o grande teórico da soberania, elogia a ditadura romana e serve-se do ditador romano para fazer a distinção entre poder soberano, baseado na perpetuidade, do não soberano. O ditador romano, enquanto magistrado temporário, não era detentor de um poder soberano, cuja titularidade permanecia nos que o nomeavam. Também para Bodin, Sila é um tirano e não um ditador, e igualmente concorda com Maquiavel quando circunscreve a acção do ditador ao âmbito da função executiva.
Mais tarde, J.J. Rousseau, que dedicou no Contrato Social um capítulo à ditadura, admite que o poder sagrado das leis possa ser silenciado se isso for necessário à salvação da pátria, confiando-se, nestes raros casos, ao mais digno a missão de velar pela segurança pública. Rousseau insiste no carácter excepcional e temporário da ditadura e na sua natureza executiva: o ditador pode silenciar as leis, mas não as pode fazer falar: “o magistrado que a emudeceu (a autoridade legislativa) não pode restituir-lhe a voz (…) Tudo lhe é permitido excepto as leis”.
Carl Schmitt, o grande estudioso da ditadura, chama à ditadura tradicional, ou seja, à que temos vindo a tratar, “ditadura comissária” para a distinguir de uma outra forma muito diferente, que faz o seu aparecimento com a Revolução Francesa, a que chama “ditadura soberana” e que se prolonga até hoje.
A ditadura comissária ou delegada limita-se a suspender a constituição para a defender, enquanto a ditadura soberana “vê em toda a ordenação política existente um estado de coisas que quer eliminar com a sua acção”. Contrariamente, à ditadura comissária, ela não suspende a constituição baseada num direito constitucional, mas aspira a criar uma situação que torne possível uma nova constituição, que considera como a constituição verdadeira. A ditadura soberana não apela a uma constituição existente como fonte de legitimidade, mas à legitimidade que decorrerá do poder constituinte ao abrigo do qual a nova constituição vai ser implantada. Assim, o ditador comissário é o comissário de uma acção incondicionada de um poder constituído, enquanto o ditador soberano é o comissário de uma acção incondicionada de um poder constituinte. Dito mais simplesmente, o ditador comissário é constituído; o soberano, constituinte.
O exemplo de ditadura soberana que Schmitt apresenta é o da suspensão da Constituição de 1793 pela Convenção Nacional. A Convenção, órgão extraordinário do poder constituinte, foi encarregada de redigir uma constituição, que depois foi aprovada pelo povo em plebiscito. Com a redacção da constituição cessou o seu mandato, todavia, “devido à situação de guerra e ao movimento contra-revolucionário do interior que ameaçavam a nova constituição, a Convenção decidiu, em 10 de Outubro de 1793, que o governo provisório de França fosse revolucionário até que a paz se alcançasse”. Em consequência, foi suspensa a Constituição, que não mais voltou a entrar em vigor.
Schmitt considera soberana esta ditadura, visto a Convenção, com o cumprimento da tarefa de que estava encarregada, ter deixado de ser um órgão constituído; por outro lado, nem no mandato de redacção da constituição, nem na própria Constituição se admitia a sua suspensão, e tão-pouco existia qualquer outro órgão constituído que a pudesse decretar . A Convenção actuou fazendo apelo ao pouvoir constituant do povo e afirmando simultaneamente que este estava impossibilitado de o exercer em virtude da guerra e da contra-revolução.
Apesar das diferenças, existe alguma continuidade ente a ditadura comissária e a soberana, desde logo a excepcionalidade e o carácter temporário, aliás interligados, já que toda a situação excepcional é, por definição, temporária. O que as distingue, sem prejuízo do carácter temporário não ser respeitado, é a perda da natureza monocrática: a ditadura jacobina já não é a ditadura de uma pessoa, apesar do peso de Robespierre, mas de um grupo revolucionário, o Comité de Salvação Pública e a extensão dos poderes ditatoriais.
A perda de duas características fundamentais da ditadura clássica na transição da ditadura comissária para a ditadura soberana – o carácter monocrático do poder e a extensão dos poderes ditatoriais – é que vai fazer com que o conceito jamais possa ser entendido no sentido positivo com que foi instituído em Roma. De facto, a perda do carácter monocrático permitiu que o marxismo passasse o usar o conceito de ditadura para expressar o domínio de uma classe sobre outra: ditadura do proletariado e ditadura da burguesia. E a perda da natureza executiva da ditadura, circunscrita à execução de um mandato limitado no tempo, a favor da natureza legislativa, que se permite aprovar leis, inclusive constitucionais, e abolir, e não apenas suspender, garantias constitucionais, acabou por alterar definitivamente o sentido do conceito.
Se do ponto de vista teórico nenhuma dúvida pode existir na distinção entre a ditadura clássica, que é uma ditadura constitucional e constituída, e a ditadura moderna, que é extra constitucional e constituinte, do ponto de vista prático podem, por vezes, suscitar-se dúvidas, porque os novos ditadores tendem a associar à ditadura que institucionalizam certas características da ditadura clássica para a legitimar. É o que se passa quando se invoca a natureza excepcional da situação que a impõe e a natureza transitória do poder que se vai passar a exercer. Esta justificação ocorre frequentemente naqueles casos em que a seguir a uma insurreição armada, sempre justificada pela existência de uma situação excepcional, se instaura uma ditadura para preparar a nova ordem constitucional que o povo aprovará no exercício do seu poder constituinte. Mas não haja ilusões, trata-se apenas de invocações que têm em vista uma finalidade legitimadora, que a prática e o tempo se encarregam de desmentir. Recorde-se o que se passou entre nós, com o 28 de Maio de 1926, nomeadamente depois da chegada de Salazar ao governo. Por isso, a ditadura moderna não é mais uma instituição legítima, mas uma forma de governo dos tempos modernos a que classicamente se chamaria tirania, quer por se tratar de um poder exercido sem título legítimo, quer por se tratar da apropriação de um poder maior do que aquele que constitucionalmente foi confiado.
Daí a gravidade das palavras pronunciadas…

NOTAS SOBRE O CONCEITO DE DITADURA - PARTE II



AINDA A PROPÓSITO DAS DECLARAÇÕES DE MANUELA FERREIRA LEITE (CONT.)


“EU NÃO ACREDITO EM REFORMAS, QUANDO SE ESTÁ EM DEMOCRACIA…QUANDO NÃO SE ESTÁ EM DEMOCRACIA É OUTRA CONVERSA, EU DIGO COMO É QUE É E FAZ-SE. E ATÉ NEM SEI SE A CERTA ALTURA NÃO É BOM HAVER SEIS MESES SEM DEMOCRACIA, METE-SE TUDO NA ORDEM E DEPOIS ENTÃO VENHA A DEMOCRACIA”.

2- A carga pejorativa incidente sobre o conceito de democracia, implícita no discurso de Ferreira Leite, quando deixa dito que a ”ordem” se restabelece sem a democracia e subentendido que a “desordem” é uma situação normal em democracia, é muito, muito antiga e das mais ancestralmente arreigadas nas convicções populares.
Basta dizer que já Heródoto, no século V ac, num texto que ficou célebre, Livro III das Histórias, sobre a melhor forma de governo a adoptar na Pérsia, por morte de Cambises, pôs três persa a dissertar sobre qual das três formas de governo deveria ser adoptada: o governo de muitos; o governo de alguns; ou governo de um só.
Otanes, que foi o primeiro a falar, defendeu o governo do povo, elogiando todas as suas virtudes: antes de mais, a isonomia (em linguagem moderna, a lei igual para todos); depois, a distribuição à sorte dos cargos públicos; em terceiro lugar, a obrigação de os representantes do povo prestarem contas do exercício do poder; e, por fim, todas as decisões estarem sujeitas ao voto popular.
Megabises, que falou em segundo lugar, manifestou-se completamente contrário ao governo popular: “ A massa inepta é obtusa e prepotente; nisto nada se lhe compara. De nenhuma forma se deve tolerar que, para escapar da prepotência de um tirano, se caia sob a da plebe desatinada. Tudo o que o tirano faz, fá-lo conscientemente, mas o povo nem tem sequer a possibilidade de saber o que faz (…)".
Dario falou em terceiro lugar e concordou com Megabises sobre tudo o que este disse contra o governo popular. Porém, acrescentou: “Quando é o povo que governa, é impossível não haver corrupção na esfera dos negócios públicos, a qual não provoca inimizades, mas sim sólidas amizades entre os malfeitores: os que agem contra o bem comum fazem-no conspirando entre si. É o que acontece até que alguém assuma a defesa do povo e ponha fim às suas tramas (…)".
É claro que esta discussão, que Heródoto situa ficticiamente na Pérsia, deixa-nos perceber o grau de desenvolvimento que o pensamento político grego já tinha atingido um século antes das famosas teorizações de Platão e Aristóteles sobre o mesmo tema, que também não foram muito favoráveis à democracia. Platão, que viveu a época da decadência da democracia ateniense e que, talvez também por isso, perfilhava uma concepção pessimista da história, considerava, na República, a democracia uma das quatro formas corruptas de governo por referência à república ideal que defendia, embora no Político a considere a pior das boas e a melhor das más. E Aristóteles, numa classificação que ficou célebre, fundada na aplicação simultânea de dois critérios: “quem governa” e “como governa”, usou o termo democracia para significar o mau governo de muitos e o termo genérico de politeia para caracterizar a forma boa do governo de muitos, embora numa formulação que parece resultar de uma fusão de oligarquia com democracia tendente a, como diríamos hoje, a fomentar o aparecimento de uma forte e numerosa classe média, âncora segura da estabilidade governativa.
A verdade é que, não obstante a “politeia” se aproximar de um governo ideal, o próprio Aristóteles reconheceu que esta forma de governo estava intimamente associada a pequenas comunidades, territoriais e demográficas, o que sempre impediu que ela se aplicasse a Estados de outra dimensão. A ideia de que a democracia estava directamente associada à dimensão das comunidades foi uma ideia que prevaleceu durante muitos séculos sem contestação.
Quase dois milénios mais tarde, Montesquieu dirá que “Num Estado livre, onde em cada homem é suposto possuir uma alma livre e, portanto, governar-se a si mesmo, seria necessário que o povo, como corpo, desempenhasse o poder legislativo. Mas como isto é impossível nos grandes Estados e sujeito a muitos inconvenientes nos pequenos, é necessário que o povo faça por intermédio dos seus representantes tudo o que não pode fazer por si mesmo”. Embora Montesquieu abrisse a porta a uma democracia de outro tipo, diferente da dos antigos, a verdade é que aquela objecção (a de a democracia estar ligada a pequenas comunidades) prevaleceu em larga escala aquando da formação dos modernos Estados territoriais, que viram noutras formas de governo, nomeadamente na monarquia, a forma normal de organização política.
O próprio Rousseau chegou a afirmar que a verdadeira democracia jamais existiria, uma vez que ela exigiria, entre outras condições, um Estado muito pequeno “no qual ao povo seja fácil reunir-se e cada cidadão possa conhecer todos os demais”. Muito ligado ao conceito de democracia directa, Rousseau nega categoricamente que o ideal de democracia possa ser alcançado através da eleição periódica dos representantes parlamentares ou da eleição periódica do governo. Diz Rousseau. “Toda a lei que o povo não aprovou pessoalmente é nula; não é uma lei. O povo inglês pensa ser livre; mas engana-se redondamente; ele não o é senão durante a eleição dos membros do parlamento; assim que estes são eleitos, ele vive novamente em escravidão; não é nada”.
E, enquanto na Europa se exaltava a monarquia constitucional como única forma de governo “Em que se poderia reconhecer o espírito do mundo após a Revolução Francesa” (Hegel), do outro lado do Atlântico, um novo grande Estado, governado sob a forma de república, começava a consolidar-se – os Estados Unidos da América. Os fundadores deste novo Estado não confundiam a república por eles instituída com a democracia dos antigos. Para eles a república era a democracia representativa, na qual, diz Madison, “há uma delegação da acção governativa num pequeno número de cidadãos eleitos pelos outros”, daí resultando poder ela “ampliar a sua influência sobre um maior número de cidadãos e sobre uma maior extensão territorial”. E é do sucesso desta experiência americana que se generaliza a convicção de que o tal elo entre democracia e dimensão do território pode ser superado pela via da democracia representativa, como forma não autocrática de governo compatível com um território vasto e uma população numerosa.
Anos mais tarde, Tocqueville esforça-se por demonstrar, nas condições então vividas na América, a irrelevância da distinção entre democracia directa e democracia representativa. Em Da Democracia na América diz: “ Às vezes é o próprio povo que faz as leis, como em Atenas; às vezes são os deputados, eleitos por sufrágio universal, que o representam e agem em seu nome, sob a sua vigilância quase directa”. O que realmente importa é que o poder esteja de facto, directamente ou por interposta pessoa, nas mãos do povo, que a soberania popular vigore como a “lei das leis”, que a “sociedade aja por si sobre si mesma” e “não exista poder fora dela e ninguém ouse conceber, e sobretudo exprimir, a ideia de buscá-lo noutro lugar”. Esta completa identificação entre o poder popular e a democracia representativa, tal como Tocqueville a concebia na América, está bem patente nesta afirmação: “O povo reina sobre o mundo político americano, como Deus sobre o universo. Ele é a causa e o fim de tudo: tudo deriva dele e para ele é reconduzido”.
Esta matriz da democracia americana - a sua maior proximidade à ideia base da democracia directa, de um controlo popular (ou dos grupos) intenso e permanente sobre os eleitos, que aproxima o mandato representativo do mandato imperativo – continua ainda hoje presente, embora sob formas muito mais atenuadas, e distingue-a da democracia europeia, principalmente da existente na Europa continental, onde a eleição dos representantes, em listas fechadas, incide sempre sobre nomes escolhidos pelas cúpulas partidárias, sem qualquer possibilidade de outros representantes, que não os escolhidos pelos partidos, serem eleitos. Este processo de escolha dos representantes parlamentares torna o mandato representativo praticamente incondicionado e faz com que entre eles e o eleitorado que os elege não haja qualquer vínculo ou ligação. Na verdade, os representantes respondem perante o partido, do qual dimanam, e não perante o povo, e se querem voltar a ser eleitos ou passar a figurar nas próximas listas eleitorais têm de se manter nas boas graças do aparelho partidário, sem o qual nada se consegue, perdendo toda a sua liberdade e autonomia.
Este procedimento, hoje corrente, arrasta uma consequência muito mais grave: como os representantes parlamentares são escolhidos pelas cúpulas partidárias que, em caso de vitória eleitoral, tendem a ir para o governo, acaba por ser o governo a controlar o parlamento, mais correctamente, a maioria parlamentar que o apoia e não o contrário, como seria normal em democracia.
Associado a estas novas formas de democracia temos desde a primeira hora a consagração dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, cuja extensão e defesa, principalmente em épocas de crise, são muitas vezes postos em causa pelos adversários da democracia, sempre com o velho argumento de que o “excesso de garantias” inviabiliza ou torna muito precária a defesa dos demais cidadãos ou do próprio Estado (Guantánamo, Abu Ghraib, admissibilidade de formas de tortura, etc.).
Tudo isto para dizer que a democracia como forma de governo, quer a directa, quer a representativa, apesar do indiscutível progresso civilizacional que representa, tem historicamente, pelas várias razões acima apontadas, uma carga pejorativa que, no mínimo, impede o seu reconhecimento sem reservas. Ferreira Leite, com as suas palavras, mais não fez do que, inconscientemente, exprimir este sentimento.

NOTAS SOBRE O CONCEITO DE DITADURA - PARTE I

AINDA A PROPÓSITO DAS DECLARAÇÕES DE MANUELA FERREIRA LEITE


“EU NÃO ACREDITO EM REFORMAS, QUANDO SE ESTÁ EM DEMOCRACIA…QUANDO NÃO SE ESTÁ EM DEMOCRACIA É OUTRA CONVERSA, EU DIGO COMO É QUE É E FAZ-SE. E ATÉ NEM SEI SE A CERTA ALTURA NÃO É BOM HAVER SEIS MESES SEM DEMOCRACIA, METE-SE TUDO NA ORDEM E DEPOIS ENTÃO VENHA A DEMOCRACIA”.

Não há nada como ter um responsável político que fala à vontade, sem preocupações do politicamente correcto. Ferreira Leite, talvez sem querer, mas não sem o saber, tocou com esta “tirada” em três questões fundamentais que estão muito longe de estar resolvidas não apenas em Portugal, mas em muitas outras partes do mundo recém-familiarizadas com a vivência democrática. São elas:
Primeira: As reformas em regime democrático;
Segunda: A carga pejorativa ancestral que recai sobre a democracia como forma de governo;
Terceira: A ditadura como instituição adequada para acudir a situações excepcionais;

Interessa-nos, fundamentalmente, desenvolver a questão da democracia e da ditadura, sem, contudo, deixar de dizer algo sobre as reformas.
1 - Sobre as reformas em regime democrático, devo começar por dizer que não tenho a certeza se Ferreira Leite, no contexto do discurso que vinha proferindo, quis dizer que não acreditava em reformas em regime democrático, ou antes que, em regime democrático, não acreditava em reformas sem a participação dos "reformandos".
Enfim, sem querer aprofundar o tema, parece-me excessivo afirmar-se que o pensamento subjacente da autora vá no sentido da transferência para o sector privado das actividades dos serviços públicos cujos funcionários resistem às reformas. Esta ideia, além de ter implícita a tese de que todas as actividades do sector privado são reformáveis contra os interesses e sem a luta dos trabalhadores que as servem, parece querer dar corpo a uma outra tese, igualmente perigosa, de que em democracia as reformas podem e devem ser feitas sem a participação dos "reformandos". É isso que certos “conselheiros de Sócrates”, fundados numa concepção antiquada de poder, têm advogado, esquecendo-se, exactamente, que as características mais emblemáticas das modernas sociedades plurais são o conceito relacional de poder e os procedimentos concertados de decisão. A decisão, ou melhor, o seu efeito, nas modernas sociedades democráticas, não é um jogo de resto zero (tudo o que uma parte ganha, a outra perde), mas antes um jogo de resultado positivo para ambas as partes (ambas ganham), contribuindo assim para a manutenção do equilíbrio do sistema social.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

OUTUBRO



HÁ OUTUBROS E OUTUBROS, PRINCIPALMENTE QUANDO HÁ OUTUBROS EM NOVEMBRO

Um velho amigo deu-me hoje a conhecer o blogue Outubro da Fundação Res Publica.
Achei graça ao nome e mais ainda há frase que o encima “Outubro de 1917, quando a alternativa de esquerda ao capitalismo liberal se começou a concretizar com a tomada de posse, em Estocolmo, no dia 19, na sequência de eleições democráticas, do primeiro governo com a participação do Partido Social-Democrata Sueco (em coligação) ”.
Eu bem sei que há Outubros e Outubros, principalmente quando alguns Outubros são em Novembro, mas esta de alguns ilustres membros do partido socialista e respectivos (recentes ou mais antigos) compagnons de route recuarem até 1917 para constituírem uma alternativa ao capitalismo liberal, quando por todo lado, as referências em que se filiam, não fizeram outra coisa durante estes últimos trinta anos que não fosse advogar terceiras vias, aplicação dos princípios do “Consenso de Washington”, limitação do papel do Estado, fragilização do modelo social, hostilização aos trabalhadores em geral e tudo o mais que todos conhecemos, esse recuo a uma experiência do início do século, nem que seja como simples facto inspirador, deixa-nos na dúvida sobre se os ilustres colaboradores de Outubro não estão mais interessados em lutar contra “moinhos de vento” do que contra os verdadeiros adversários do nosso tempo!
Se alguns dos vossos colaboradores, ainda há bem pouco tempo, um mês ou dois antes de a crise rebentar, zurziam os nossos ouvidos com a prédica de que o “moderno socialismo” nada tinha a ver com a economia, como querem vocês que agente acredite no facto fundacional que vos inspira?
Não seria mais razoável e credível recomeçar em 2008, mesmo que fosse em Outubro, com uma crítica contundente à vossa teorização e prática destes últimos trinta anos?

A EQUIPA ECONÓMICA DE OBAMA



TIMOTHY GEITHNER, SECRETÁRIO DO TESOURO

Barack Obama confirmou hoje, em conferência de imprensa, a equipa económica que tem por missão afrontar a crise económica de “proporções históricas” em que o país está mergulhado.
Para Secretário do Tesouro foi escolhido Timothy Geithner, actual presidente da reserva federal de Nova York, que ostenta no seu curriculum nunca ter trabalhado para Wall Street, contrariamente aos seus antecessores mais conhecidos. É uma personalidade política respeitada, embora, entre os democratas, os sectores mais de esquerda tivessem preferido alguém mais intervencionista.
Lawrence Summers, que desempenhou idêntica função na administração Clinton, dirigirá o Conselho Económico Nacional, órgão de consulta do Presidente e Christina Romer, da Universidade de Berkley, encabeçará o Conselho de assessores económicos da Casa Branca.
Obama sublinhou mais uma vez que para afrontar a crise global “é necessária a colaboração com outros países para dar uma resposta conjunta” ao círculo vicioso em que está imersa a economia do país, marcando, assim, as distâncias relativamente ao unilateralismo do seu antecessor.