terça-feira, 7 de setembro de 2010

CARLOS CRUZ PROMETE REVELAR 200 NOMES




SERÁ QUE O PROCESSO CASA PIA SÓ AGORA COMEÇOU?

Depois das lamentáveis e desastradas prestações televisivas dos últimos dias de Carlos Cruz e do seu advogado, o ex-apresentador de televisão parece agora disposto a avançar com outros meios para lançar a dúvida na opinião pública sobre a sua condenação.
A sua estratégia tem passado por várias fases: numa primeira fase clamou inocência com base no completo desconhecimento dos factos que lhe eram imputados ou se suspeitava ter praticado. Manteve-se nesta estratégia, mesmo depois de ter sido preso, até terem começado a circular publicamente depoimentos que o incriminavam.
Numa segunda fase, que parece ter começado na instrução e prevalecido durante todo o julgamento, a sua defesa preocupou-se fundamentalmente com a exibição de factos que pudessem contrariar ou pelo menos pôr em dúvida as provas incriminatórias. Daí a repetida alegação de que os factos imputados não estavam fundamentados.
Numa terceira fase, que parece ter começado imediatamente após o julgamento e que ontem já foi muito notória no programa “Prós e Contras”, a defesa parece basear-se na seguinte pergunta: “Então, se é assim, porquê só eu?”.
Esta é sem dúvida a estratégia que poderá colher mais aplauso junto da opinião pública e que mais problemas pode trazer aos poderes constituídos, a todos sem excepção. Sendo inequívoca a existência de múltiplas violações e de abusos sexuais sem conta, dezenas, centenas (Bibi foi acusado por várias centenas de crimes e depois de analisada toda a prova acabou sendo condenado em mais de duas centenas), é óbvio para toda a gente que o número de prevaricadores terá de ultrapassar em muito a meia dúzia de condenados do "Processo Casa Pia”.
Se é certo que relativamente a muitos o crime já prescreveu ou já se extinguiu o procedimento criminal por morte dos presumíveis culpados, não será menos verdade que relativamente a muitos outros tudo continua ainda sendo possível. E é essa questão que Carlos Cruz verdadeiramente promete reavivar quando, com aparente ingenuidade, a invoca em sua defesa. Aparentemente, Carlos Cruz quer dizer que a inconsistência da prova com base na qual foi condenado é tão evidente que a existência de provas idênticas produzida no processo não serviu sequer para processar mais ninguém, quanto mais para fundamentar outras condenações.
Realmente, o que Carlos Cruz quer dizer é que se os factos que serviram de prova e fundamento para a sua condenação são assim tão relevantes, muitos outros, além dele, terão igualmente de ser condenados por existir nos autos prova da mesma consistência relativamente a eles.
E com esta estratégia, verdadeiramente arriscada, mas também ditada por aquela coragem de quem já não tem nada a perder, ele sabe que pode conseguir uma de duas coisas: ou ganhar ou criar um problema de proporções incalculáveis de muito difícil solução.
Ou seja, para além da estratégia objectivamente prosseguida visando a prescrição do processo, vai agora ser posta em prática uma outra que aponta claramente para a absolvição por “conveniência prática”…

CASA PIA: "COITADO" DO CARLOS CRUZ



“TÃO ISOLADO NA VIDA, TÃO DEPRIMIDO NAS SENSAÇÕES”!

Como não podia deixar de ser, Carlos Cruz continua a ter um papel destacadíssimo na comunicação social, usando-a a seu bel-prazer, para tentar alcançar na praça pública o que não logrou conseguir em tribunal. Ainda esta noite, no programa “Prós e Contras”, Carlos Cruz - na opinião de Marinho uma das “vítimas amarradas há oito anos ao pelourinho da ignomínia” – voltou a dispor de todo o tempo para clamar a sua inocência.
Não está em causa, evidentemente, que ele use um dos meios em que dizem ser mestre, para tentar a sua absolvição. O que está em causa é a constante mistificação que ele vem fazendo, de há oito anos a esta parte, do ambiente que rodeia o processo em que ele está envolvido.
A memória das pessoas é fraca, mas os factos aí estão para relembrar os mais esquecidos. Pouco antes de ser preso, mas logo que teve conhecimento de que estava sendo investigado e que, inclusive, se poderia saber que já antes tinha havido, sobre o mesmo tema, um processo arquivado – que até então não era do conhecimento público –, Carlos Cruz “visitou”, salvo erro na mesma noite, as três televisões, na hora de maior audiência, para em declarações emocionadas proclamar a sua inocência. Conseguiu até esta coisa inédita de um Procurador Geral da República – de facto, a nomeação para certos lugares deveria passar por exames multidisciplinares muito apertados! – vir declarar publicamente que, contrariamente aos rumores que corriam, a “Justiça nada tinha contra o Sr. Carlos Cruz”! Pouco tempo depois foi preso…
Uma vez preso desencadeou-se na maior parte das televisões e em muitos jornais uma campanha sem precedentes em defesa da sua inocência. Conhecidas personalidades, algumas delas com grande impacto mediático, outras “especialistas” em questões criminais, advogavam sem qualquer hesitação a sua libertação e faziam juras de vida sobre o “erro judiciário” em que se estava a incorrer. No clímax desta campanha, um seu assistente de produção, em tom grandiloquente, declarou às televisões: “É uma ignomínia o que estão a fazer a este homem! Se o Carlos Cruz é pedófilo, eu também sou pedófilo!”. E não é que se veio a saber depois que ele andava lá muito perto…e não se soube mais porque fugiu!
Fazendo coro com esta campanha, o seu advogado, que entretanto se juntou àquele que inicialmente se encarregou da defesa, passou a actuar – pelo menos, de acordo com os meus conhecimentos – não como um causídico, mas como um verdadeiro “mandatário eleitoral”. Havia em curso uma campanha, que, como a generalidade das campanhas, se tinha de ganhar na comunicação social. E desde então até hoje sempre assim vem actuando.
Depois, queixou-se da morosidade do processo, das audiências sem fim e esqueceu-se de acrescentar o número infindável de incidentes que levantou, os recursos interlocutórios que interpôs e as centenas de testemunhas que apresentou. Sobre isso nem uma palavra para que a culpa da morosidade recaísse inteirinha sobre a vilipendiada Justiça!
Mas também se esqueceu de referir por que razão os advogados de Carlos Silvino foram sendo sucessivamente substituídos, Silvino que até Hugo Marçal chegou a ter como advogado. Esqueceu-se de referir o que a irmã de Silvino disse publicamente em várias televisões!
Simultaneamente, foi-se passando para a opinião pública a ideia de que os “rapazes” – é assim que Carlos cruz os trata, como ainda hoje se viu e ouviu na RTP – eram prostitutos profissionais, com muita “escola”, capazes de mentir por dinheiro ou vingança e dispostos a entrar nas mais odiosas cabalas.
Apertados, ontem como hoje, sentiam-se na obrigação de reconhecer que alguns dos “rapazes” eram vítimas inocentes e que indiscutivelmente havia violações…mas nenhuma delas tinha autoria ou, quando muito, eram genericamente imputadas a Silvino desde então arvorado em “fornicador universal”.
Penosamente, o julgamento foi-se fazendo com Carlos Cruz e o seu advogado sempre na crista da onda, de uma onda que eles mediaticamente “surfavam” com a mestria que dizem ter, até que a sentença chegou, inevitável e condenatória.
Logo no tribunal, o advogado de Carlos Cruz desafiou a juíza – Marinho Pinto, que utiliza como bitola do comportamento humano sempre a acção mais reprovável, nem como bastonário se indignou …porque já viu quem tenha feito pior - e o condenado, um pouco mais tarde, “montou tenda” para através das televisões reclamar a falta de provas e de fundamentação e, logo a seguir, no seu site, para que o povo em geral tivesse acesso a algumas peças do processo, ao que ele supõe criteriosamente escolhidas.
Esta noite no já referido programa da RTP manteve o mesmo registo das intervenções anteriores - o registo da “monstruosidade jurídica” por falta de provas – e tentou ainda fazer uma interpretação deturpadora das declarações de uma das vítimas, logo abortada pela pronta intervenção de um psiquiatra presente.
Como não conheço o processo, não sei se, relativamente aos crimes por que Carlos cruz foi condenado, apreciaria as provas e formaria a minha convicção no mesmo sentido ou sentido diferente daquele a que o tribunal chegou. O que sei é que Carlos Cruz dispôs de meios que até hoje nenhum arguido, em qualquer outro processo, pôde usar para pôr a opinião pública do seu lado. Se não conseguiu…demérito seu e do seu advogado.
E também sei que num processo desta natureza, tendo em conta o tipo de crimes que estavam a ser julgados, a prova, nomeadamente a que vai para além da existência do facto, se faz – salvo situações excepcionais – mediante recurso a testemunhos. E que a prova testemunhal é livremente apreciada pelo tribunal: o juiz forma a sua convicção tendo em conta todos os elementos juridicamente relevantes. E a melhor doutrina até entende que o juiz (seja individual ou colectivo) do processo, salvaguardados os princípios do Estado de direito, dispõe de um poder discricionário na avaliação dos testemunhos, inalterável na sua concretização, pela proximidade e especial situação em que se encontra perante os factos. A título de exemplo: as imagens filmadas dos depoimentos prestados em Elvas, que Carlos Cruz colocou no seu site, não têm necessariamente o sentido que ele lhes pretende atribuir. Podem até significar o contrário do que ele supõe dever ser a interpretação do juiz. E também é bom que se diga que a concordância dos depoimentos pode não ser suficiente para formar a convicção do julgador, assim como a sua eventual divergência o não impede de a formar com base naquele que considera mais credível. Pode haver erros: avaliações deficientes ou interpretações erradas. O que não pode é haver condenação com dúvidas: se o juiz tiver dúvidas, não condena; se não tiver, condena.
Isto são coisas que – já não digo Marinho e Pinto, que é um caso perdido - Daniel Oliveira nunca vai perceber, já que das suas intervenções parece poder induzir-se que os actos de pedofilia apenas podem ser provados por documento escrito (eventualmente autenticado em notário) ou através de registos, de preferência cinematográficos ou televisivos, susceptíveis de deixarem um rasto tão indelével como os do “Eixo do Mal”.

AUSTERIDADE OU ESTÍMULOS?


A CONTRADIÇÃO COM QUE SE DEBATE O MODERNO CAPITALISMO

Passou relativamente despercebido entre nós um dos últimos artigos de Paul Krugman sobre a contradição em que se debate o “moderno capitalismo” – de um lado os que defendem a austeridade e o equilíbrio orçamental, do outro os que advogam uma política de fortes estímulos fiscais, com subalternização da questão do défice, deixada para mais tarde -, no qual satirizava a posição dos primeiros, comparando-a aos sacrifícios humanos exigidos pelos sacerdotes de antigos cultos pagãos para aplacar a ira dos deuses.
Diz Krugman que quando as economias começavam a sair modestamente da crise, embora com altos níveis de desemprego, e os grandes bancos estavam salvos, os “novos sacerdotes” deste culto moderno passaram a advogar o equilíbrio orçamental e a redução da dívida como objectivos imediatos, mais importantes do que o crescimento e relançamento do emprego.
E embora a história económica demonstre que as medidas de austeridade e de contracção orçamental prejudicam drasticamente o crescimento ou levam mesmo à recessão, não favorecendo, portanto, a criação de emprego antes o retraindo, nem beneficiando, a prazo, as perspectivas orçamentais que teoricamente lhes servem de fundamento, nem por isso os “novos sacerdotes” mudam de opinião, certos como estão de que somente uma política de austeridade (e dos sacrifícios que ela encerra) será capaz de aplacar a “ira dos deuses”.
Este dilema está patente no “moderno capitalismo”, desde o início da crise financeira: logo que a crise eclodiu em toda a sua magnitude, Bush e os republicanos, na América, e Angela Merkel e o seu partido, na Alemanha, defenderam a falência das empresas em crise e o consequente afastamento do Estado, deixando que as coisas se resolvessem por si. Somente quando a crise atingiu proporções antes insuspeitadas e se começou a perspectivar a falência em cadeia do sistema financeiro mundial é que, de um lado e do outro do Atlântico, se passou a defender a intervenção, em alta escala, do Estado, para impedir a ruína do sistema financeiro e, com ela, o desabamento da “economia real”.
É bom que se diga que, embora houvesse uma certa convergência ideológica entre a posição de Bush e a de Merkel, a coincidência de posições também era ditada por análises actuais e históricas diferentes que, todavia, convergiam no sentido de uma posição política relativamente semelhante.
Enquanto na América a tradição económica republicana vai no sentido de um afastamento do Estado de toda a actividade económica, sem que com isto se queira defender ou sugerir qualquer tipo de neutralidade estadual – aliás, historicamente desmentida pela política fiscal dos republicanos relativamente às grandes empresas e aos mais altos rendimentos – deixando que o tecido económico se auto-regenere quando qualquer grave “moléstia” o afecta, e um não menor desprezo pelas consequências sociais da crise, na Alemanha pairava a ideia de que o seu sistema financeiro passaria relativamente incólume pela tormenta e pairava também o espectro de que a “injecção” de avultadas somas financeiras na economia acarretaria inevitavelmente uma espiral inflacionista que nunca se sabe como se desenvolve, nem que consequências pode trazer (enfim, a memória da hiperinflação de Weimar a impor as suas regras…).
Mas de um e outro lado do Atlântico havia também quem, na esteira de Keynes, tomando como exemplo a política económica de Roosevelt, subsequente à Grande Depressão, defendesse uma forte intervenção do Estado na economia, mediante a aplicação de medidas de estímulo, tanto de apoio directo às empresas em crise como por via da realização de grandes obras públicas, capazes de relançar a procura, combater a deflação, promover o crescimento e o emprego, mesmo que à custa ou, inevitavelmente à custa, do agravamento do défice, assunto que seria resolvido mais tarde, logo que a economia retomasse um ciclo de crescimento e prosperidade.
Passada que foi a primeira fase da crise – aquela que afectou o sistema financeiro e o deixou muito perto do colapso – e uma vez restabelecida à custa dos Estados, o mesmo é dizer dos contribuintes, a solvabilidade do sistema bancário, logo as velhas divergências voltaram à tona, agora de forma ainda mais vincada, entre as duas vias de “recuperação da crise”.
Na América, Obama, um pouco na sequência do que Bush foi obrigado a fazer no termo do seu mandato, defendeu e fez aprovar um grande plano de resgate do sistema bancário, medidas de apoio ao sector automóvel e algumas outras, nomeadamente na área do imobiliário, sem que contudo tenha conseguido intervir significativamente no domínio das pequenas e médias empresas, fortemente afectadas pelas políticas de crédito restritivas postas em prática pelos bancos. Apesar de todas estas limitações, a resposta relativamente positiva da economia, embora sem reflexos visíveis no domínio do emprego, encorajou os republicanos a privilegiarem doravante o combate ao défice e à dívida – pelo qual, eles, mais do que ninguém, são responsáveis em consequência das políticas belicistas que desencadearam – e levou-os a contestar, com a ajuda dos democratas mais conservadores, toda e qualquer medida de agravamento do défice ou da dívida, sem quaisquer preocupações, como sempre, pelas consequências sociais desta política, aliás sabiamente dissimuladas por via de uma propaganda, muito ao jeito americano, que imputa à presença do Estado a responsabilidade pela actual situação. Sem uma linha de rumo clara, Obama tem hesitado entre apostar numa política marcadamente keynesiana, sem preocupações imediatas pelo défice e pela dívida, e uma política intermédia que pretende satisfazer ambas as partes sem no fim de contas contentar ninguém.
Na Europa, como se sabe, passado que foi o susto da falência dos bancos e depois de postos à disposição do sistema financeiro praticamente a custo zero centenas de milhares de milhões de euros, vingou a tese do reequilíbrio orçamental, em três anos, à custa de pesadíssimos programas de austeridade. Programas que certamente agradam aos bancos mas que não deixarão de se reflectir muito negativamente nas economias dos países mais endividados.
A adopção desta política pelos diferentes países da EU, ou da zona euro, não terá, ao contrário do que frequentemente se diz, os mesmos efeitos nas diversas economias. As economias menos competitivas e, por isso mais endividadas, verão, por um lado, agravar-se o fosso que as separa das mais competitivas e, por outro, diminuir consideravelmente o rendimento de largas camadas das suas populações.
O facto de os países citados estarem enquadrados num espaço económico como o da União Europeia, sujeito a regras comuns em tudo quanto seja liberalismo económico, faz com eles não tenham qualquer hipótese de adoptar políticas alternativas de combate à crise, não apenas porque, se as pusessem em prática, seriam fortemente causticados pelos mercados financeiros, mas também porque, em virtude da sua estrutura económica, a maior parte das políticas de estímulo que eventualmente viessem a adoptar, como as grandes obras públicas, acabariam por se reflectir mais positivamente em países terceiros do que no próprio país, o qual, em última instância, até poderiam prejudicar.
Já na América as coisas passam-se de forma radicalmente diferente. Em primeiro lugar, os efeitos das medidas de estímulo produzem-se, em grande medida, no próprio país; em segundo lugar, como as estatísticas demonstram, ao aumento de défice e da dívida não corresponde um aumento da taxa de juro (pelo contrário, até tem descido); e, em terceiro lugar, porque a maior parte da dívida está contraída na moeda nacional – e não numa moeda comum - cujo controlo lhe pertence em absoluto. Finalmente, se a economia crescer, em consequência da adopção daquelas políticas, o facto de tal acrescimento ser acompanhado de alguma inflação só terá vantagens, em termos nacionais. O efeito conjugado da inflação e do crescimento fará diminuir a dívida!
Há oitenta anos, sem que com isto se pretende negar as divergências de análise e de propostas dentro do próprio sistema, sempre havia uma preocupação comum que tornava aquelas divergências menos marcadas: evitar o colapso do sistema capitalista e a sua substituição pelo sistema socialista. Hoje, o capitalismo funciona sem freios de qualquer espécie e nem sequer hesita na adopção de políticas socialmente muito gravosas contanto que elas sejam as que mais favoreçam o lucro, no caso, do capital financeiro, hoje o verdadeiro “senhor” da política.
Como se sabe, na última cimeira do G 20 vingou, com pequenas “nuances” a tese europeia, defendida pela Alemanha, de que a crise se combate com medidas de austeridade que apontem, o mais rapidamente possível, para a eliminação dos défices orçamentais com vista ao almejado propósito de alcançar o equilíbrio orçamental, o novo alfa e ómega da civilização capitalista.
Na próxima cimeira, de Novembro, em Seul, vão debater-se as duas teses de “combate à crise”.
Do lado da Europa, por imposição da Alemanha, será defendida a política que no “espaço europeu” tem sido seguida sem contemplações – austeridade.
Do lado dos Estados Unidos, Obama muito causticado entre os que advogam o equilíbrio orçamental (exactamente os mesmos que mais o desequilibraram) e o quase nulo crescimento da economia e do emprego, parece decidido a optar por novas políticas de estímulo à economia. Se tal vier a acontecer, o que está longe de poder considerar-se adquirido, poderá tal posição vir a ter alguma influência positiva na Europa…

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

CASA PIA: MARINHO E PINTO SEMPRE DO LADO DO DELINQUENTE




CONCEPÇÃO UNILATERAL, LIMITADA E ABSOLUTÓRIA DA JUSTIÇA

A primeira intervenção de Marinho e Pinto nos Prós e Contras confirma, em absoluto, a tese aqui defendida acerca da sua concepção da justiça. Marinho e Pinto não só age de forma irresponsável, como age também de forma socialmente perigosa.
A defesa, sem conhecimento do processo, que acaba de fazer da atenuação das penas aplicadas pelo tribunal, a ausência completa de compaixão pelas vítimas demonstrada na sua intervenção, fazem dele, hoje, a maior aberração da Justiça portuguesa.
Depois da sua lamentável intervenção, é de louvar a singela pergunta feita pela apresentadora do programa: “E as vítimas?”.
Marinho “entupiu”, engoliu em seco, perdeu a sua proverbial verborreia e acabou, como não podia deixar de ser, por responsabilizar a Casa Pia.
Um grande momento de televisão, sem dúvida, no melhor e no pior!
ADITAMENTO
No seu delírio persecutório Marinho e Pinto, em nova intervenção, não teve qualquer problema em considerar "poderosos" as vítimas da Casa Pia ou os seus defensores e clamar compreensão para os arguidos "amarrados há oito anos ao pelourinho da ignomínia".
Não há dúvida: há aqui um problema da saúde pública!
Daniel Oliveira, mais comedido, muito se esforça para não pisar o mesmo caminho. Enfim, mas se a discussão continuar até às duas da manhã ainda lá vai...

sábado, 4 de setembro de 2010

JOSÉ TORRES


"O BOM GIGANTE"

Benfica deve-lhe muito. E o futebol português, embora menos, também.
Ausente de si, completamente esquecido por aqueles que tanto glorificou, poucos ou quase nenhuns até ontem se terão lembrado no “Benfica institucional" dos nove campeonatos que lá ganhou, das seis taças de Portugal que venceu e das três finais europeias em que participou.
Hoje, os clubes de futebol, principalmente os clubes com pergaminhos, são máquinas de fazer de dinheiro, sem tempo nem espaço para “olharem para trás”, a não ser numa perspectiva directa ou indirectamente lucrativa.
Também na Federação Portuguesa de Futebol ninguém até ontem se lembrou das mais de três dezenas de jogos em que José Torres vestiu a “camisola das quinas”, nem dos golos que marcou ao seu serviço, um dos quais decisivo para a conquista do 3.º lugar no Campeonato do Mundo.E nem mesmo do contributo que prestou, como seleccionador, para que a equipa portuguesa pudesse estar, pela segunda vez, representada num Mundial.
Também aqui, será mais lucrativo manter, a salários milionários, um incompetente Queiroz do que ter apoiado, mesmo que modestamente, um símbolo do futebol português.
No futebol, como no resto, é “capitalismo moderno”, sem contemplações, a ditar as suas leis. Apenas interessa o que dá lucro e é rentável. A solidariedade dá prejuízo...até ver!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CASA PIA



A JUSTIÇA POSSÍVEL

Ao fim de oito longos anos, depois de 462 sessões de audiência de julgamento, ouvidas 920 testemunhas e 32 vítimas, o tribunal de primeira instância proferiu hoje a sentença do “Processo Casa Pia”. Nem todos os crimes praticados terão sido punidos, nem todos os culpados terão sido condenados ou sequer julgados, mas a sentença hoje lida no Campus da Justiça de Lisboa marca positivamente a Justiça portuguesa.
Num processo onde valeu (e continua a valer) tudo, onde todas as manobras diltórias e impeditivas do exercício da justiça foram postas em prática, tanto as permitidas por lei, como as decorrentes do recurso imoderado à comunicação social por aqueles que a ela tinham (e continuam a ter) acesso privilegiado, num proceso onde os advogados (ou alguns deles) defenderam na praça pública os seus clientes com o mesmo fervor com que se faz uma campanha eleitoral, num processo, enfim, onde existiram (e continuam a existir) todo o tipo de pressões, o tribunal, não se deixando intimidar, proferiu a sentença possível e condenou seis dos sete acusados.
O acórdão do colectivo de juízes hoje proferido constituirá, assim, um marco indelével da Justiça em Portugal, não apenas pelos seus méritos jurídicos, mas também por estar em sintonia com o sentimento jurídico dominante na comunidade, livre de paixões, de vinganças ou de qualquer outro objectivo menor.
Tanto quanto se percebe, a defesa (ou alguma defesa) intensificará a partir de agora o propósito processualmente indesmentível de “encerrar o caso” pela via da prescrição. Por isso, é igualmente de louvar a decisão do Conselho Superior de Magistratura, hoje publicada, de tudo fazer para que os tribunais de recurso possam, em tempo útil, proferir as respectivas sentenças. De lamentar, mais uma vez, as palavras do Bastonário da Ordem dos Advogados e a sua compreensão unilateral, limitada e absolutória da Justiça.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

CONFRONTOS EM MAPUTO


O POVO SAIU À RUA

As últimas notícias relatam a existência de confrontos, em Maputo, entre polícias e manifestantes, principalmente jovens ou mesmo crianças, que se insurgiram contra o aumento de preços de bens essencias.
Gente com fome e sem meios para aceder a bens indispensáve à sua sobrevivência assaltou lojas e saqueou estabelecimentos, nos subúrbios e no centro da cidade. Cumprindo ordens das autoridades, implacáveis perante a ilegalidade, a polícia fez frente aos manifestantes, atirando a matar.
Diz-nos história que estes actos são ilegais, quando os manifestantes perdem, e tornam-se legais e até heroicos, se os manifestantes ganham.
Estas medidas de “ajustamento” postas em prática em todo o mundo, umas vezes para equilibrar as contas públicas outras para restabelecer os lucros privados, sempre ditadas pelo nobre propósito de assegurar a “salus populis”, não são infelizmente compreendidas pelo povo que, na sua terrível ignorância, é incapaz de interiorizar as vantagens cientificamente projectadas pelos seus mentores e autores.
Na Europa, onde as dificuldades são obviamente de outra natureza e onde o povo tem outra cultura, a política de “rigueur” tem sido conjunturalmente atenuada com a “caça aos ciganos”, que tem a dupla vantagem de ser eleitoralmente rentável e socialmente compreendida como uma medida capaz de contribuir para o restabelecimento do prestígio e da hegemonia europeias!

NOTÍCIAS CURTAS (E ESTRANHAS)

CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO

Os jornais de hoje, nacionais e estrangeiros, noticiam a morte de quatro israelitas na Cijordânia (território ocupado) e concluem que o atentado põe em causa o diálogo com os palestinianos.Quaisquer que tenham sido as motivações do acto, é normal que um atentado tenda a prejudicar as conversações em curso. O que já não se compreende é que a morte de dezenas ou mesmo de centenas de palestinianos por Israel seja sempre apresentada pelos judeus como um acto destinado a facilitar o processo de paz!

sábado, 28 de agosto de 2010

DUARTE LIMA: UMA ENTREVISTA FALHADA



APERTA-SE O CERCO

Se Judite de Sousa supunha que com a entrevista de quinta-feira prestava um favor a Duarte Lima, permitindo-lhe reverter a seu favor o clima de desconfiança que a pouco e pouco se foi instalando na opinião pública sobre o caso “Rosalina Ribeiro” enganou-se redondamente.
As explicações pouco ou nada convincentes de Duarte Lima sobre o seu papel na noite do crime deram lugar a uma nova investida da comunicação social, nomeadamente das televisões, SIC, TVI e RTP, mas também dos jornais, que não se poupou a esforços para através de vários testemunhos, principalmente colhidos no Brasil, deixar claro a natureza inusitada de alguns dos comportamentos daquela noite.
Para quem não queira alimentar o clima de suspeição, nem tão-pouco aduzir argumentos absolutórios do comportamento de Duarte Lima, o mínimo que se poderá dizer é que, para uma advocacia de milhões, se usaram processos típicos de uma advocacia de “vão de escada”.
Em primeiro lugar, é de “vão de escada” a advocacia de um advogado que ganha milhões e que numa causa de muitos milhões se propõe viajar de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro num carro alugado, para um encontro nocturno, sem que alguns meses depois se recorde do nome da empresa a que alugou o carro. Se não é exigível que se desloque em jacto privado - apesar da urgência da reunião…já que, se não fosse urgente, poderia ser realizada em Portugal três dias depois, data em que Rosalina tinha viagem marcada para Portugal - poderia e deveria, no mínimo, ter-se deslocado no avião de carreira que em poucas dezenas de minutos liga as duas cidades muitas vezes por dia, como se de uma verdadeira “ponte aérea” se tratasse.
Advocacia de “vão de escada”, em segundo lugar, já que só a natureza do aluguer pode justificar o esquecimento do nome da empresa locadora. Esquecimento, ou mais do que isso, desconhecimento perfeitamente normal, se o aluguer tiver sido feito a uma daquelas empresas “sem nome” que proliferam nas grandes cidades brasileiras, que recebem à cabeça o preço do aluguer e do qual não fica qualquer rasto…se tudo correr bem (isto é, se não houver acidentes). Obviamente, que se o aluguer tivesse sido feito numa multinacional ou numa grande empresa brasileira, presente em todos os estados, como a Localiza ou a Unidas, já seria muito mais difícil, para não dizer impossível, esquecer o nome da empresa com a qual contratou o aluguer.
Mas também é de “vão de escada” uma advocacia que trata de assuntos tão importantes depois das oito da noite numa “lanchonete” do Flamengo. E mais ainda o será se se propõe levar de noite a sua cliente para um encontro nos arredores do Rio de Janeiro, deixando-a só com um desconhecido…tão desconhecido que, mais de oito meses volvidos, ainda ninguém conhece! Aqui, a advocacia sem deixar de ser de “vão de escada” como que se transforma também numa espécie de “advocacia clandestina”… em que o advogado deixa o seu cliente, de noite, entregue à sua sorte nos arredores de uma cidade como o Rio de Janeiro. Então, há algum advogado que, não querendo esconder o seu patrocínio, se refugie na “clandestinidade” no exacto momento em que o seu cliente se prepara para fazer um dos mais importantes negócios relacionado com os bens da “herança em litígio”?
Como advogado, o comportamento de Duarte Lima deixou muito a desejar neste triste episódio. E a dúvida que resta é saber se actua sempre assim ou se só actuou assim com Rosalina Ribeiro. E é igualmente de estranhar que a Ordem dos Advogados, com base nas notícias vindas a público, ainda não tenha aberto um inquérito para, no puro plano deontológico, avaliar o comportamento de Duarte Lima. Marinho e Pinto, sempre tão presente nos casos que envolvem membros do governo ou tão rigoroso e exigente com as magistraturas, ainda não viu certamente no presente caso nada que justifique a intervenção da Ordem…

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

DUARTE LIMA: O SENTIDO DE UMA ENTREVISTA



MAIS UMA VEZ JUDITE DE SOUSA

Nas entrevistas de Judite de Sousa é possível prever com relativa segurança o que se pretende com elas. A atitude da entrevistadora varia tanto em função dos entrevistados, que o espectador quando conhece o entrevistado ou, quando não o conhece, depois de feitas as primeiras perguntas, logo percebe que a entrevista ou tem por objectivo dar ao entrevistado uma oportunidade para se explicar perante o grande público, ou colocá-lo perante um conjunto de questões difíceis quase sempre alicerçadas numa tese que por via da entrevista se pretende demonstrar, ou – muito raramente – contribuir para o esclarecimento de um assunto.
A entrevista de hoje, a Duarte Lima, não fugiu à regra. A convicção com que se fica é a de que a entrevistadora pretendeu dar a Duarte Lima, num espaço de grande audiência, oportunidade para apresentar a sua própria versão sobre um tema que nas últimas semanas tem ocupado grande espaço na comunicação social.
As três grandes mensagens que Duarte Lima pretendeu deixar aos espectadores podem resumir-se assim:
Primeira: As pessoas seguramente mais interessadas na vida de Rosalina Ribeiro eram os seus advogados, em Portugal e no Brasil;
Segunda: Há uma campanha na comunicação social contra ele, montada por pessoas que o querem destruir, que ele recusa sequer dizer que suspeita quem sejam, embora o espectador fique com a convicção de que ele sabe quem são;
Terceira: O valor mais importante para Duarte Lima é a vida humana, causa a que se tem dedicado, empenhadamente, nos últimos anos.
Não tendo as três mensagens a mesma consistência lógica – a primeira mensagem não é logicamente sustentável – havia no caso Rosalina Ribeiro pessoas mais interessadas na sua vida do que os seus advogados, nem podendo o espectador aferir da veracidade das restantes, já que elas valem mais pela capacidade de persuasão de quem as profere do que propriamente pelo seu conteúdo probatório, restava a Duarte Lima explicar-se melhor nas demais matérias. Infelizmente, não o fez, já que por via de alegados deveres deontológicos e processuais se recusou a responder à generalidade das questões colocadas pela jornalista em tom afável e amigável, senão mesmo cúmplice.
Como acontecerá com a imensa maioria das pessoas que, de perto ou de longe, têm acompanhado o caso de “Rosalina Ribeiro”, também eu não tenho nenhum conhecimento directo do processo, nem estou de posse de quaisquer elementos que me permitam sequer compreender com rigor o móbil do crime.
Acontece que conheço o Brasil e até talvez possa dizer que, para estrangeiro, o conheça relativamente bem. Talvez por essa razão não tenha compreendido a justificação apresentada por Duarte Lima para vir de carro alugado de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro (não se sabe se dia, se de noite ou se de dia e de noite) – segundo ele, a mesma que o leva a viajar de carro de Lisboa para Madrid ou para Barcelona: maior segurança na estrada do que nos voos internos. E menos ainda compreendi que, depois das oito da noite, Duarte Lima tenha levado Rosalina de carro do Flamengo a Maricá, passando por Niterói e outras terras, para a levar a um encontro com uma desconhecida (dele) e a tenha deixado nesse local sem se preocupar com o seu regresso – ele que até tinha vindo de Belo Horizonte ao Rio, de carro, para se encontrar com a sua cliente.
Mas isto digo eu que conheço o Brasil. Duarte Lima, como seguramente o não conhece tão bem, dirá outra coisa e será muito mais ousado do que eu, predispondo-se a viajar de carro de Belo Horizonte ao Rio, com a mesma tranquilidade com que vai de Lisboa a Barcelona; e do Flamengo até Maricá, de noite, para aí deixar, com uma desconhecida, a pessoa por quem tinha estima e apreço com a mesma tranquilidade com que a levaria de Lisboa a Sintra para a deixar numa residencial.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O MASSACRE DE SÃO BARTOLOMEU


A NOITE DE 24 DE AGOSTO DE 1572

Por muito que continuem por esclarecer as responsabilidades próximas no desencadeamento do massacre dos protestantes franceses (huguenotes) na noite de São Bartolomeu, não resta a menor dúvida de que somente o contexto fanático das guerras religiosas entre a cristandade, nomeadamente o fanatismo dos católicos, permite compreender o que se passou naquela sangrenta noite em Paris e nos dias subsequentes nas mais diversas regiões de França. Dezenas de milhares (os números ainda hoje variam, consoante as preferências de quem escreve) de franceses de credo religioso minoritário foram impiedosamente massacrados em todo o país.
Aqui evoca-se, hoje, a data para celebrar a liberdade religiosa, de quem tem e de quem não tem religião, a tolerância e a convivência étnica contra todas as formas de fundamentalismo religioso e contra todas as manifestações de racismo ambos filhos da intolerância e da verdade absoluta!
Infelizmente, no mundo em que hoje vivemos, quase quatro séculos e meio depois daquele infausto acontecimento, poucos são os que não padecem deste mal atávico que tem acompanhado a humanidade desde as suas mais remotas origens.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A "IMPARCIALIDADE" DA RTP




“BOM DIA PORTUGAL”

No programa da manhã da RTP, “Bom dia Portugal”, o locutor de serviço noticia a resposta de Sócrates à proposta do PSD sobre o fim da progressividade dos impostos. Para esclarecimento do assunto, o locutor convidou o dr. Fulano de tal (cujo nome desconheço), “especialista” na matéria.
Então, o tal dr., um jovem de tenra idade, começa por responder à pergunta do locutor, esclarecendo os conceitos de progressividade e de proporcionalidade fiscal, mas logo acrescenta com toda a convicção: não se percebe porque existe todo este alarido à volta da proporcionalidade dos impostos (a proposta do PSD), já que se trata de um assunto “estudadíssimo” e com excelentes resultados nos países do Leste da Europa que aplicaram este sistema. Estes países, que eram paupérrimos, estão hoje todos à frente de Portugal e isso deve-se ao sistema fiscal em vigor que premeia quem mais trabalha e promove o desenvolvimento.
Ao ouvir este comentário lembrei-me de Castrim e daquele seu sentimento dividido sobre a RTP: gosta-se da RTP porque é uma estação pública que não está sujeita às imposições do capital privado e à férrea lógica do lucro e detesta-se a RTP porque é uma “velha prostituta” capaz de todas as baixezas e de se vender ao primeiro figurão que lhe “cheire” a poder.
Mas este episódio serve também para demonstrar como é verdadeira a tese de que a generalidade dos nossos comentadores, “especialistas” e aparentados é absolutamente incapaz de se pronunciar sobre qualquer questão sem ser numa perspectiva puramente ideológica. Mesmo aqueles que são chamados a esclarecer um assunto, imediatamente deturpam os elementos de facto ou os desprezam, para fazerem vingar a posição que ideologicamente defendem como se uma verdade científica se tratasse. Mas a RTP sabe muito bem quem escolhe…

sábado, 21 de agosto de 2010

MÁRIO SOARES E FIDEL




AS PARTIDAS DA MEMÓRIA

Só hoje tomei conhecimento do último artigo que Mário Soares escreveu no DN. Não será de estranhar que tenha olhado com especial atenção o “capítulo” que dedicou a Fidel.
Depois de descrever a recente intervenção do Comandante no Congresso dos Deputados do Povo, segundo a avaliação político-pessoal que dela faz, Soares recorda a sua primeira visita a Cuba, nos idos de 60, e deixa-nos o testemunho da impressão com que ficou do regime que então se estava construindo na ilha.
No relato que faz do longo mês que lá passou, Soares esqueceu-se de referir que iniciou a sua estadia em Havana no melhor hotel da cidade, equipado com ar condicionado e todas as demais comodidades. Soares estava feliz e sentia-se em férias nas Caraíbas.
Dias mais tarde chegaria a delegação do PCP, chefiada por Álvaro Cunhal, e só então os cubanos se aperceberam de que tinha havido um engano na instalação dos hóspedes. Os aposentos que estavam sendo ocupados por Soares e Fernandes Fafe destinavam-se aos representantes do PCP. Então, com toda a naturalidade, os cubanos, ao que parece com gentil ironia, mudaram Soares e Fafe de hotel, dando-lhes a entender que estariam melhor noutro lado, não obstante os reiterados protestos dos “desalojados” que insistiam em fazer ver aos seus anfitriões que não precisavam de se incomodar com eles…porque estavam muito bem onde se encontravam.
Este “down grade” com que Soares não contava, ainda por cima para um hotel sem ar condicionado, marcou decisivamente a sua estadia em Cuba…
Muitos anos mais tarde, numa Cimeira Ibero-Americana numa cidade da América Latina, depois de Soares já se ter desforrado nos jornais daquela terrível desfeita com epítetos como o de “dinossauro” e outras “pérolas” do género, Fidel, imponente no seu metro e noventa, desceu a pé a escadaria que ligava os salões do primeiro andar ao “lobby” do hotel. Cá em baixo, Soares falava com alguém. Fidel, olhando-o de alto, pára por momentos ao cruzar-se com ele, e detém-se em algo que Soares ostentava na aba do casaco. Puxa-lhe levemente a aba, com ar simultaneamente familiar e sobranceiro, e diz-lhe: “Chiquitito, chiquitito”. Soares, surpreendido e afável, balbucia um qualquer som seguido de “Comandante”, mas já Fidel se afastava em direcção ao destino que o esperava…
Os anos continuaram a passar sem que Soares tivesse retribuído a "hospitalidade" cubana, nem como Presidente nem a título pessoal. Provavelmente, não terá havido muitas ocasiões para o fazer, embora o mais certo seja Soares não as ter proporcionado pelas razões que se conhecem. Fidel não era seguramente a sua "praia". Outros, que não ele, tiveram mais sorte, como aconteceu com Mobutu, democraticamente recebido no Algarve, na casa do Vau...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

MAIS FANTASIAS NEOLIBERAIS



A PRESSÃO FISCAL EM PORTUGAL

Uma das mais conhecidas fantasias neoliberais assenta na falsa ideia de que a diminuição da carga fiscal contribuirá decisivamente para o crescimento da economia.
Já aqui se demonstrou que tal “teoria” é falsa, como normalmente são a maior parte das “teorias” económicas…exactamente porque não são teorias.
Em Portugal, a diminuição da carga fiscal teria por consequência inevitável o aumento da dívida. Esta conclusão é segura. A maior parte das demais conclusões antecipadas pelos neoliberais estão por demonstrar. São simples propostas de programas políticos disfarçadas de “verdades” económicas.
Mas também já é verdadeira a conclusão de que a diminuição da carga fiscal favorece principalmente os detentores dos mais altos rendimentos, não resultando dessa diminuição, no plano macroeconómico, qualquer efeito positivo para a economia nacional.
Os últimos dados publicados pelo Eurostat sobre a pressão fiscal na Europa mostram que a pressão fiscal média da União Europeia a 27 (isto é, compreendendo as selvagens políticas neoliberais das Estónias, Letónias, Lituânias, Eslováquias, etc…) é de 38,7%do PIB, entendendo-se por pressão fiscal os impostos e as quotizações sociais. Pois bem, Portugal, que quase não cresce há dez anos, está abaixo dessa média com 36,7% enquanto a Alemanha, o país que mais crescerá este ano, regista uma média de 39,3%.
A Dinamarca e a Suécia, cujo nível de vida nenhum cidadão de com senso em qualquer parte o mundo desdenharia possuir, andam pelos 48,2% e 47,1%, respectivamente.
Portanto, ao contrário do que para aí vão dizendo os Portas e os Coelhos, a conclusão que destes dados se pode retirar é a de que a carga fiscal em Portugal é baixa, sem que de tal conclusão se possa inferir que é justa. Seguramente não é: há quem pague demasiado relativamente aos rendimentos auferidos e há quem não pague nada ou pague muito pouco relativamente ao que seria justo pagar, entendendo-se por justiça para este efeito a progressividade da carga fiscal em função dos rendimentos auferidos.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

NOTÍCIAS DO MUNDO EM TEMPO DE FÉRIAS (5)




A ESPOSA INFIEL

Contra as barbaridades do Islão, no Irão, no Afeganistão, em qualquer lugar. La Casada Infiel, de Federico Garcia Lorca.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

RECUPERAÇÃO DA ZONA EURO?


UMA PURA FICÇÃO

De acordo como os dados preliminares do Eurostat a economia da zona euro cresceu 1% no segundo trimestre deste ano por referência ao trimestre anterior. Portugal ficou-se pelos 0,2% e a Alemanha atingiu a cifra recorde de 2,2%, a maior desde a reunificação.
Se as médias já são na generalidade dos casos uma ficção, apenas descodificáveis pelo recurso sistemático a outros elementos, as da zona euro correm o risco, se tomadas à letra, de representarem uma pura mentira.
De facto, faz tanto ou tão pouco sentido juntar a economia da Alemanha à de Portugal para se obter uma média, como faz a junção da economia da Alemanha à do Gana ou da Nigéria, por muito estranha que esta afirmação possa parecer. Mas já faz todo o sentido dizer que a economia da Alemanha cresceu ao ritmo de 2,2% enquanto a portuguesa se ficou por um crescimento dez vezes menor. E o que se diz de Portugal, pode dizer-se da Espanha, da Irlanda e da Grécia, esta com uma divergência muitíssimo mais acentuada.
Ou seja, estas cifras apenas confirmam a tendência para uma divergência estrutural entre as economias mais competitivas da zona euro ou da própria UE e as dos países menos competitivos. De facto, o crescimento da Alemanha deveu-se fundamentalmente a um aumento das exportações, que retomaram a situação anterior à crise, e não a um aumento da procura interna, nem, consequentemente, a um aumento das importações, o que a ter-se verificado, poderia ter tido um efeito positivo nas demais economias europeias, na medida em que tal aumento decorresse de um aumento das exportações destes para a Alemanha.
Como não é esse o caso, nem tem sido nos últimos quinze anos, a razão primeira e fundamental do fraquíssimo crescimento dos países periféricos da zona euro ou, do seu mais que provável crescimento negativo nos próximos anos, tal como hoje já está a acontecer com a Grécia, deve-se ao modo como a zona euro e a própria UE estão estruturadas. Os planos de austeridade e as demais medidas restritivas em vigor e a implementar nos próximos anos não são a verdadeira causa dos resultados obtidos, mas antes uma consequência daquela estruturação. Ou, se se preferir, a causa próxima de outras causas mais remotas.
Podem dar as voltas que derem, podem, inclusive, derrubar o Estado Providência – ou o que dele resta – como o PSD se prepara para fazer, se for eleito, mas enquanto a zona euro e a própria União Europeia não forem profundamente reestruturadas no sentido de aproximar o seu funcionamento, em todos os domínios, às consequências das regras básicas que neste momento a dominam - liberdade de mercadorias, pessoas e capitais –, de modo a equilibrar os efeitos da liberalização num espaço económico altamente heterogéneo, os resultados, no plano macroeconómico, continuarão a ser os mesmos.
Quem prosseguir com esta política sem a questionar, nem modificar ou tentar modificar, buscando as alianças necessárias para o conseguir, o mais que poderá fazer é “empurrar” os desequilíbrios existentes para os mais numerosos, o mesmo é dizer, para os detentores dos rendimentos mais baixos, política que, de resto, já está a ser seguida, sem que, contudo, daí resulte qualquer tipo de equilíbrio futuro.
Quando os nossos “economistas” dizem que temos de fazer “dieta”, que temos de “emagrecer” e outras tretas do género, não estão, como se sabe, a referir-se ao emagrecimento dos “pançudos”, mas exigir que se tornem esqueléticos aqueles que já estão à beira da inanição!

"É UMA TORTURA VIVER NA ABUNDÂNCIA SEM ACESSO A ELA"



DEPOIMENTO DE UMA EMIGRANTE CUBANA

Yaquelin Lugo, emigrante cubana em Espanha, caixa num supermercado do norte de Madrid, tece várias considerações sobre a vida de um emigrante num país em crise.
Ver artigo na última página do El Pais de hoje, dedicado ao drama do desemprego.

DOIS EXCELENTES ARTIGOS DE ECONOMIA



OPÇÕES EM TEMPO DE CRISE

Vale a pena ler os dois artigos a seguir citados: um de Paul Krugman, EE UU se sume en la oscuridad, em que mais uma vez defende uma política económica contrária à que está sendo seguida no seu país e põe a nu as consequências das opções económicas que apenas se preocupam com a redução do défice.
O outro, John Stuart Mill contra el BCE, é de J. Bradford Delong, ex-secretário adjunto do Tesouro dos Estados Unidos e professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e nele se demonstra que os “princípios económicos” a que os economistas frequentemente recorrem são uma fraude, já que não existe, em economia, uma verdadeira “teoria económica”, contrariamente ao que se passa com as demais ciências.
Enfim, nada que seja muito novo, a não ser o facto de ser dito por renomados académicos, já que todos sabemos, por experiência, que o raciocínio dos economistas nada tem de científico, sendo frequentemente prejudicado pelos pressupostos ideológicos de que partem os seus autores.

domingo, 15 de agosto de 2010

NOTÍCIAS DO MUNDO EM TEMPO DE FÉRIAS (3)



GUANTÁNAMO E FIDEL

Enquanto Obama se mostra incapaz de fazer respeitar as promessas eleitorais, dando mais um triste exemplo de uma presidência que se deixa dominar pelos lobbies e pelos múltiplos poderes fácticos que ele prometeu combater, Fidel, um pouco mais a sul, avisa o mundo que “está totalmente recuperado” e que se pode continuar a contar com ele na luta contra o imperialismo americano.
Criticado pelos seus apoiantes e pelos advogados que o próprio Pentágono escolheu para defender os “raptados” de Guantánamo, Obama, com o regresso às “comissões militares”, travestidas de tribunais, patenteia a sua incapacidade para pôr termo a essa vergonha que é Guantánamo e retoma o caminho de Bush mandando julgar, sem as garantias comuns, os muitos presos que ainda se encontram naquela base americana.
Com esta atitude de impotência institucional, fica claro que o “Império” tem as suas regras inapeláveis, governe quem governar. Por isso, Fidel continua em guarda e ri-se da democracia americana…