segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CAVACO SILVA: O DISCURSO DA VITÓRIA


AS PALAVRAS DE CAVACO

O discurso de vitória de Cavaco Silva não pode deixar de ser considerado surpreendente pelos seus mais importantes apoiantes políticos. Onde estes certamente esperariam palavras de grandeza à altura do cargo e da vitória, não muito diferentes daquelas que até hoje sempre pautaram os discursos dos Presidentes eleitos, proferidos na noite do desfecho eleitoral, depararam-se com palavras ressentidas, onde não era difícil perscrutar uma vontade de vingança reprimida, com algumas passagens ao nível de outras que já se tinham ouvido a políticos menores que foram a votos com questões patrimoniais de natureza pessoal por resolver. Também estes políticos se escudaram no voto popular para deixar sem resposta as questões que a democracia escrutinava.
Certamente que uma campanha política se faz em torno de ideias, de programas, de propostas. Mas não é indiferente a personalidade de quem defende as ideias, de quem apresenta os programas, de quem formula as propostas.
Cavaco Silva pode supor que as questões de natureza pessoal levantadas na campanha são indignas e que, como tal, podem ser plebescitadas pelo voto popular. Mas não podem!
Em aberto continuam questões sem resposta. A aquisição de acções, num aumento de capital de uma sociedade, por um preço privilegiado, apenas reservado a quatro entidades por deliberação da Assembleia Geral, é uma questão em aberto, diga Cavaco Silva o que disser. Tanto mais em aberto quanto se sabe que tais acções foram menos de dois anos mais tarde vendidas à sociedade que as emitiu, ou uma outra dela inteiramente dependente, por um lucro de 140% e se sabe ainda que essa mesma sociedade e o banco por ela detido a cem por cento incorreram numa das maiores fraudes da história da banca portuguesa. Que ambas as instituições eram geridas por amigos políticos de Cavaco Silva, alguns a contas com a justiça, e se sabe por fim que as consequências patrimoniais de tal descalabro não recaíram sobre os accionistas, como seria normal, mas sobre o contribuinte português, que será obrigado com o seu esforço a colmatar aquele prejuízo e, mais grave ainda, sobre os trabalhadores do sector público que por via de um confisco parcial do seu salário são igualmente chamados a pagar aquele e outros desmandos!
Esta questão não é uma calúnia. É uma questão política da maior importância.
Como em aberto continua a permuta declarada de uma vivenda por um terreno quando uma das pessoa intervenientes no negócio já declarou publicamente que houve uma permuta de vivenda por vivenda! Independentemente das questões de facto que tal negócio levanta, há questões fiscais que estão por resolver. E disso Cavaco Silva não pode livrar-se.
Mas as palavras de Cavaco não recordam apenas aqueles que pretendem encontrar nos votos todas as respostas a perguntas incómodas, elas recordam também a tristemente célebre “intentona das escutas” no desenvolvimento da qual Cavaco Silva exibiu perante todos os portugueses a sua capacidade para formular um raciocínio lógico, coerente e convincente. Também agora com o então Cavaco acredita que há por detrás das perguntas que os seus negócios suscitam uma cabala laboriosamente urdida por uma mente pérfida que o pretende denegrir.
A conta em que Cavaco Silva se tem ou em que gostaria que os outros o tivessem não corresponde mais à ideia que a partir destas eleições muitos milhões de portugueses dele terão. E Cavaco sabe disso. Daí a sua incontida revolta.
Cavaco Silva ficou, como muito bem disse Defensor Moura, definitivamente apeado do altar em que ele próprio se alcandorou. A partir destas eleições os portugueses conhecem-no melhor.
As palavras de Cavaco no dia da vitória são palavras crispadas, ressentidas, porventura premonitórias da crispação existente na sociedade portuguesa. Cavaco, como muito bem se sabe pelo seu passado político, não é homem para atenuar as diferenças e unir os portugueses. Pelo contrário, como ainda hoje ficou demonstrado há nele uma vontade de desforra ressentida de alguém que se sentiu tocado naquilo que mais laboriosamente havia construído durante toda a sua vida política: a imagem com que gostaria que os portugueses o vissem. Mas não foram os seus adversários políticos que lhe obscureceram a imagem, foi ele próprio com a sua obstinada recusa em se deixar democraticamente escrutinar.
A análise política da reeleição de Cavaco Silva fica para mais tarde…

domingo, 23 de janeiro de 2011

O "OLHAR DO TURISTA"



A PROPÓSITO DOS INDICADORES ECONÓMICOS DE DEZEMBRO

Já aqui abordámos este tema há mais de um ano. Não há olhar mais impreciso, mais imperfeito, menos rigoroso e, simultaneamente, mais convencido das suas verdades do que o do turista.
O turista olha, fotografa, contacta, mas não “vê” o país que visita em toda a sua complexidade, porque isso não é possível.
Ficaram famosas na pré-campanha eleitoral francesa das últimas presidenciais as observações de Ségolène Royal sobre a China, fundamentadas numa visita semi-turística que tinha feito ao grande país asiático.
Foi com um olhar semelhante ao do turista que no passado mês de Dezembro jornalistas, comentadores e muita outra gente asseguravam “com base no que se via” um consumo interno nunca visto em anos anteriores.
Forneciam-se dados parcelares do cartão multibanco, dissertava-se sobre o movimento nas lojas e concluía-se que, afinal, a crise ainda não tinha chegado. Pelo contrário, havia uma vitalidade nunca vista.
E, afinal, segundo os dados do Banco de Portugal, o que se passou foi exactamente o contrário: “a actividade económica entrou em queda em Dezembro de 2010, empurrada sobretudo pelo consumo privado, que recuou 0,5%, segundo os indicadores do Banco de Portugal, ontem divulgados”.
É que uma coisa é o que parece…outra o que é. E o que acontece em Portugal é que a riqueza está cada vez mais injustamente distribuída, há cada vez mais pobres e os ricos são cada vez mais ricos.
O país tem cerca de 10 milhões de habitantes e hoje há menos gente a consumir do que havia o ano passado e há dois anos. Quem olha com o “olhar do turista” não enxerga o que realmente se passa.

sábado, 22 de janeiro de 2011

CASAMENTOS


UMA PERGUNTA INOCENTE

Um cidadão da Arábia Saudita pode casar-se em Lisboa, no consulado do seu país, com três cidadãs portuguesas?
Creio que o casamento poligâmico, no sentido de casamento celebrado simultaneamente com duas ou mais mulheres (se fosse ao contrário seria poliândrico), sendo todos os nubentes solteiros, não é crime à luz do direito português (pelo menos, não está previsto no Código Penal), embora a bigamia seja.
E não sendo crime pode o acto, à luz do direito internacional, deixar de ser praticado, se o direito da Arábia Saudita o permitir?
É apenas uma pergunta para ajudar ao debate...sem qualquer intenção de nele continuar. O acto formal do casamento, em qualquer das suas múltiplas modalidades, não é certamente nos tempos correntes das questões mais mobilizadoras.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O BALANÇO DA CAMPANHA


O QUE DELA RESTA

A maioria dos comentadores considera a campanha para as presidenciais uma das mais desinteressantes de todo o regime democrático português.
É bom que se perceba por que está tão arreigada esta convicção na generalidade do povo português e por que razão a campanha constituiu uma desilusão para quase todos, não apenas para os que não participam em comícios, arruadas e outras tipo de acções, mas também para muitos destes, se não para os próprios candidatos, como resulta de algumas intervenções televisivas.
A primeira explicação deve buscar-se na profunda transformação ocorrida nestes últimos dez anos no seio da União Europeia, acentuada pela recente crise da dívida e do euro, que fez com os países menos influentes - na prática quase todos, com excepção dos que realmente mandam: a Alemanha, com o apoio da França, a abstenção da Inglaterra, a indiferença da Itália, e mais um ou dois países ricos - deixassem de ter uma palavra importante sobre quase tudo o que é importante para o seu próprio destino.
Esta ideia que corresponde ao que de facto se passa é claramente compreendida e interiorizada pelas classes dirigentes, mas é também intuída pelo povo em geral por via de um sentimento difuso de impotência e incapacidade para o arreigamento do qual muito têm contribuído aqueles que, tendo desistido de lutar em Bruxelas, apresentam as suas decisões como uma inevitabilidade resultante de algo que não podem comandar, nem sequer influenciar.
Perante este quadro numas eleições como as presidenciais, onde esse poder de intervenção é ainda menor e confuso – menor porque o Presidente não governa e confuso porque numa campanha presidencial surgem sempre propostas impossíveis de concretizar – é natural que o povo se afaste, tanto mais quanto menos interessantes são os candidatos e as propostas que eles apresentam.
Por outro lado, o povo também compreende que as propostas de ruptura para serem viáveis têm de ser realistas, exequíveis e não apenas demarcadoras de um terreno que se ocupa no quadro de um mero protesto destinado a não perdê-lo ou a ampliá-lo para fins futuros.
Em segundo lugar, mesmo nestes estritos limites em que a campanha tenderia sempre a realizar-se, a sua animação poderia ter sido outra se a demarcação esquerda/direita correspondesse, pelo lado da esquerda, a uma ruptura geracional capaz de entusiasmar largos estratos etários que dela estão completamente alheados e, por outro, reunisse em si potencialidades aglutinadoras de toda a esquerda, quanto mais não fosse numa segunda volta.
Como nada disto aconteceu, o saldo positivo que resulta desta campanha é o fim do mito Cavaco, como personalidade política apolítica, como individualidade acima de qualquer suspeita e relativamente à qual nem sequer havia a ousadia de a ligar a algo que fosse menos recomendável ou digno, e ainda a sua confirmação como político demagógico e limitado, incoerente e incapaz de compreender os grandes desafios que se põem ao futuro de Portugal, realidade excessivamente ilustrada pela repetição de banais lugares comuns que apenas atestam as suas limitações!

COELHA: ESTÁ DESFEITO O ENIGMA?


NÃO, NÃO ESTÁ.

Fernando Fantasia, amigo de Cavaco Silva e homem ligado à SLN, em entrevista concedida ao JN, explica o “negócio da Coelha”
Tal como se suspeitava, há uma clara divergência entre o negócio realmente efectuado e o negócio declarado - o que consta da escritura.
Da escritura consta a permuta de um prédio urbano (a vivenda Mariani) por um prédio rústico (o terreno onde está hoje edificada a Vivenda Gaivota Azul).
Ao contrário do que diz Fantasia, não houve troca entre dois prédios urbanos, porque à data – 1998 – só um existia, o de Montechoro.
O que realmente houve foi a permuta de um prédio urbano por um rústico, ficando o permutante deste obrigado a nele edificar uma vivenda nas condições acordadas pelas partes.
Esta divergência entre o que foi declarado e o que realmente foi acordado existe, indiscutivelmente, e era relevante para efeitos fiscais (sisa).
A segunda questão que se põe – e agora já há legitimidade para colocar todas as questões, porque um representante de uma das partes já confessou que o negócio efectivamente realizado não é o que consta da permuta – é saber o que realmente ficou acordado entre os contraentes: se o permutante do terreno ficou obrigado a construiu a vivenda que hoje lá existe nada mais recebendo, como contra-prestação, do que a “vivenda Mariani”; ou, se, além desta, Cavaco Silva ficou obrigado ao pagamento de qualquer quantia suplementar.
Na entrevista ao JN, Fantasia dá a entender que houve troca por troca, casa por casa. Assim sendo, de duas uma: ou as vivendas tinham o mesmo valor e não houve qualquer favor; ou, como muitos dizem, a da Coelha valia muito mais do que a de Montechoro e nesse caso Cavaco Silva, ao contrário do que ontem aqui se disse, terá feito um excelente negócio.
Se esse tiver sido o caso, a empresa de Fantasia, à época, como ele próprio diz, ainda não ligado à SLN, limitou-se a fazer um favor, um grande favor a um amigo – um favor porventura de muitos milhares de contos!
A dúvida persiste, mas como tudo se passou entre amigos é bem possível que assim tenha sido. Aliás, a Visão já demonstrou que,quem começou por comprar as sociedade off shores, proprietárias dos terrenos da urbanização da Coelha, foi uma sociedade constituída, além de Fantasia e outros, por um outro amigo de Cavaco - Carpeto Dias –, ao tempo seu assessor em São Bento! Tudo entre amigos, portanto!
Questão igualmente relevante para efeitos fiscais (e que ninguém tem abordado) é a do valor atribuído às prestações permutadas pelo contrato de 1998. Vinte e sete mil contos pela vivenda de Montechoro é pouco, muito pouco. Nem o dobro chegaria para a comprar! Mas como tudo foi negociado entre amigos o fisco será certamente compreensivo…
Enfim, as coisas são como são: certos sectores da imprensa não estão interessados em investigar nada, outros investigam mal ou não sabem investigar e tudo ficará na mesma depois das eleições. De seguro apenas uma certeza: após a passagem de Cavaco Silva por São Bento negócios e política nunca mais voltaram a ser o que eram antes. É a vida!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

CASA DA COELHA: ESTRANHO NEGÓCIO




FINALMENTE, A ESCRITURA PÚBLICA

Finalmente, a leitura da escritura pública da famosa permuta do terreno da Coelha pela Mariani.
A interpretação mais razoável do que nela vem escrito leva-nos à conclusão de que Cavaco Silva trocou a vivenda de Montechoro, a conhecida Mariani, por um terreno na Praia da Coelha, tendo sido atribuído a ambos os prédios o valor de 27 000 contos.
O conceito de ambos parece ser aqui sinónimo de "a cada um", embora não seja de excluir a interpretação mais literal segundo a qual se atribuiu aos dois em conjunto (ambos) aquele valor, ou seja, 13 500 contos a cada.
Seja uma ou outra a interpretação, há aqui qualquer coisa que não bate certo.
No primeiro entendimento, Cavaco Silva pagou pelo terreno 27 000 contos. Ou seja, fez um péssimo negócio, um negócio ruinoso, impróprio de quem nunca se engana e raramente tem dúvidas, porque em 1998 o preço de mercado para aquela área de terreno e respectiva localização era obviamente muito inferior.
No segundo entendimento, “ganhou” de um lado - o valor do terreno baixou - mas perdeu do outro - a casa foi vendida muito barata quase se podendo dizer ao desbarato (uma vivenda com jardim e piscina no centro de Montechoro por 13 500 contos seria, em 1998, uma verdadeira pechincha!). Ou seja, o negócio era igualmente ruinoso.
Às vezes acontece – não me estou a referir ao negócio em análise - este tipo de permutas encobrir um negócio simulado. Ou seja, as prestações trocadas não são as declaradas na escritura, mas outras. Por exemplo: o titular do prédio rústico, além da transferência deste, fica também com uma outra obrigação, por exemplo, a de edificar uma moradia, nas condições acordadas pelas partes em documento separado.
Normalmente, a simulação descobre-se porque há uma grande desproporção entre as prestações que se permutam ou porque há uma avaliação defeituosa (para menos) das prestações trocadas ou de uma delas.
Estes negócios simulados podem servir vários fins: podem servir para iludir o fisco, mas podem também encobrir um negócio de favor.
Imagine-se que a prestação a cargo de um dos permutantes, por exemplo, a daquele que tem que a obrigação de construir, é muito mais onerosa do que a do outro contraente. Ou seja, a simulação pode ser tão bem feita que aquele que aparentemente ficou a perder é o que afinal fica a ganhar e muito! É o que acontece, no exemplo dado, quando a nova construção vale muitíssimo mais do que a construção que foi dada em troca.
No “caso da Coelha” a única coisa que realmente se sabe é que a gente ligada à SLN/BPN tão acusada, a justo título, de praticar “imparidades” prejudiciais à sociedade, desta vez conseguiu uma “imparidade” de sentido inverso. Conseguiu trocar um terreno de cerca de 2000 m2 por uma vivenda, com piscina e jardim, no centro de Montechoro! Grande negócio!
Quem fica mal na fotografia é o economista Cavaco Silva…E fica tão mal que nem sequer vai querer exibir o contrato que fez com o empreiteiro para a construção da casa, nem os recibos dos respectivos pagamentos...
E...e…e..e..

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A COELHA VAI A VOTOS?



É O QUE DIZEM OS APOIANTES DE CAVACO SILVA

Quem ouve os apoiantes de Cavaco Silva nas televisões, na rua, na campanha não pode deixar de concluir que as questões a que Cavaco Silva não quer responder vão ficar esclarecidas no próximo dia 23.
É o que eles dizem: o povo português vai responder às vossas dúvidas no próximo domingo!
Grande democracia a nossa, não há dúvida: a democracia que leva a votos os negócios particulares de Cavaco Silva!
ADITAMENTO
Entretanto, corre na internet notícia de que uma revista, a Sábado, encontrou num cartório de Lisboa a escritura de aquisição da casa(?), terreno (?) da Praia da Coelha. Sem prejuízo de esclarecimentos mais detalhados que a revista amanhã possa publicar, o que hoje vem publicado não esclarece rigorosamente nada.
A questão está em saber o que se trocou, o que foi permutado entre os contraentes. Aparentemente (e digo aparentemente porque não tenho elementos para mais), a prestação de Cavaco Silva foi a vivenda que tinha no Algarve, em Montechoro, e a contra-prestação do outro permutante - aparentemente uma empresa (?) gerida (?), maioritariamente detida, (?) por Fernado Fantasia (?) - o que deu em troca? Esta é que é a questão. Ou seja, saber se há ou não correspectividade entre as prestações.
E claro que o problema põe-se - há que dizê-lo com toda a frontalidade, plagiando Baptista Bastos - porque os negócios feitos por gente ligada à SLN/BPN tinham tudo menos correspectividade (equilíbrio, equivalência) entre as prestações, como o inquérito parlamentar amplamente documentou, o Banco de Portugal confirmou e o erário público pagou!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CAVACO SILVA: ADENSAM-SE AS DÚVIDAS


COMO E A QUEM FOI ADQUIRIDO O TERRENO DA CASA DA COELHA?

Cavaco Silva pode continuar a não explicar, pode inclusive ser reeleito sem esclarecer qualquer dúvida, mas não pode eliminar as dúvidas que cada vez mais se adensam sobre as suas ligações a pessoas do BPN.
E estas dúvidas, se porventura for reeleito, irão acompanhá-lo durante todo o seu mandato. Um Presidente da República, instituição máxima do regime republicano, não pode conviver com dúvidas acerca da honorabilidade de negócios realizados pelo cidadão que conjunturalmente ocupa aquele cargo. Em nome da dignidade da República e do cargo, Cavaco Silva tem de explicar-se, porque nenhuma das explicações que até agora facultadas foi suficiente para esclarecer o que se passou com a compra das acções da SLN e com a aquisição do terreno da Casa da Coelha.
Na política, em democracia, todos são escrutinados. Cavaco não está, contrariamente ao que afirma, acima de qualquer suspeita. Nem ele, nem ninguém.
E, em vez de se vitimizar e de andar a espalhar aos quatro ventos que o querem caluniar, deveria pura e simplesmente explicar as dúvidas que os seus negócios suscitam. Ele, Cavaco Silva, como cidadão, e não remeter os jornalistas nem todos os outros que querem ser esclarecidos para o site da Presidência da República.
A Presidência da República não é para aqui chamada. Não foi como Presidente da República que ele celebrou os negócios que levantam dúvidas. Foi como Aníbal Cavaco Silva.
E as perguntas que continuam sem resposta são: A quem comprou Cavaco as acções da SNL? Desconhecia Cavaco que tais acções lhe estavam a ser vendidas a menos de metade do preço fixado para os não accionistas? Não se apercebeu Cavaco de que ao adquirir por aquele preço acções da SLN poderia estar a emprestar o seu nome à operação de aumento de capital então em curso? Pode Cavaco exibir o documento comprovativo da compra das acções?
Quanto ao terreno da Casa da Coelha não são menores as dúvidas que a transacção suscita. A Visão online tem matéria suficiente para exigir explicações. Em vez da fazer resumos, mais vale ler aqui o que a Visão apurou.
De qualquer modo não se percebe o que Cavaco permutou. Um terreno na Coelha por uma vivenda em Montechoro? Uma vivenda em Montechoro por um terreno na Coelha mais a respectiva construção de uma vivenda (T6) com logradouro? E o permutante é simultaneamente o titular do terreno e construtor civil da vivenda? Só de facto com a escritura de permuta, que Cavaco Silva não mostra, se poderiam esclarecer algumas dúvidas.
Por outro lado, seria interessante que a Visão investigasse em nome de quem está registada a casa que Cavaco tinha em Montechoro, aparentemente objecto desta permuta.
Sobre o que não há dúvida é que o espírito da SLN ronda Cavaco!

PRÓS E CONTRAS - AS LIMITAÇÕES DE UM DEBATE



APONTAMENTOS AO CORRER DA PENA


O “Prós e Contras” de ontem tratou essencialmente da crise portuguesa no contexto da crise da dívida e do euro.
Entre o discurso cavernícola dos economistas de serviço, que por acaso até não eram os mesmos do costume, e a mítica ideia de Europa, alimentada por um discurso aparentemente crítico, mas na realidade incapaz de compreender o que realmente se passa, tudo acaba, como sempre, na inevitável convergência sobre a necessidade de “rever” as leis do trabalho e a constatação da incapacidade de tomar “as medidas que se impõem”.
Criados no pensamento único, apesar de alguns terem protagonizado dentro dessa unicidade uma reviravolta coperniciana que os fez passar directamente de Mao Tse Tung para Milton Friedman, estes nossos comentadores foram “educados” num clima político e social tributário do pensamento neoliberal em luta contra o trabalho como factor de produção organizado. Tudo o que possa desagregar e isolar o trabalhador é bom para a economia, sem que sequer lhes passe pela cabeça saber quais as reais consequências desse constante e progressivo empobrecimento da grande maioria, ou seja, de quem trabalha a um nível de retribuição médio-baixo. Isso não importa. O que interessa é que o lucro aumente e, eventualmente, a economia cresça, quando cresce, nem que seja só em proveito de alguns.
Logo, as “medidas que se impõem” são as que garantem este resultado, independentemente das consequências.
Este é o primeiro grande preconceito. Entender que o que é bom para a economia é algo que tecnicamente se exprime numa maior taxa de lucro e, eventualmente, numa taxa de crescimento, independentemente do modo como essa riqueza se redistribui, constitui um grave erro que a actual situação dramaticamente ilustra, além de ter como consequência um resultado socialmente inaceitável.
É claro que não percebendo isto os “nossos comentadores” nunca irão perceber por que há divida e défice ou, quando muito, irão, como Cavaco, imputar essa responsabilidade ao desregramento comportamental dos diversos agentes económicos, situem-se eles no Estado, na direcção das empresas ou pura e simplesmente no plano do consumo! Enfim, tudo consequência de comportamentos que um “homem certinho” jamais teria!
No caso português, o preconceito acima aludido é tão grande que nem sequer lhes permite ver aquilo que as matemáticas demonstram: os salários em Portugal não só não subiram acima da competitividade da economia, como tão-pouco são os seus custos os que, proporcionalmente, mais oneram o custo final do produto, não advindo do custo desse factor de produção a perda de competitividade das empresas.
A segunda questão que os “comentadores oficiais” tratam como uma questão técnica, embora frequentemente a refiram como questão política, é a Europa, melhor dizendo a União Europeia.
Deixando de lado a questão da Europa em toda a sua complexidade, e atendendo apenas à questão da dívida, é preciso perceber que o que neste momento está em jogo é saber se a sua reestruturação (sim, porque a dívida não poderá deixar de, mais tarde ou mais cedo, ser reestruturada) se vai fazer sob a “égide dos devedores” ou sob a “égide dos credores”. E é isto e nada mais que explica a posição da Alemanha.
A própria actuação do BCE, ao contrário do que vulgarmente se pretende fazer crer, prossegue este mesmo objectivo, com uma nuance: a de salvar os grandes devedores dos grandes credores à custa dos contribuintes dos países endividados.
A divergência que possa haver entre o BCE e a Alemanha não tem a ver com os objectivos prosseguidos, que são os mesmos, mas com as consequências que podem resultar da opção por ele adoptada para os atingir. Por outras palavras, a Alemanha receia que a actuação do BCE provoque inflação. E, entre outras consequências socialmente inconvenientes, os credores perdem com a inflação.
Portanto, é completamente falso que o BCE esteja a “ajudar” Portugal (ou outro país) ao comprar dívida no mercado secundário. Quem o BCE está a ajudar são os grandes devedores dos grandes credores à custa dos contribuintes, aos quais, reflexamente, acaba por conceder uma pequena folga quando comparado o resultado da sua actuação com o que resultaria de uma actuação pura e dura como a que o Bundesbank propõe e Merkel defende!
Mas é ainda importante que se diga, principalmente numa altura em que ninguém o diz, que o Fundo de Estabilização Financeira, vulgo "FMI", tanto na sua versão rígida (a actual) como na versão flexível (a proposta por alguns) não resolve qualquer problema, como já se está a ver com a Grécia e com a Irlanda. De facto, os efeitos normalmente associados à intervenção do "FMI" - contracção orçamental, desvalorização, inflação, crescimento - não se verificarão na zona euro. Apenas ocorrererá o primeiro que isoladamente considerado nunca poderá gerar crescimento, mas apenas e só recessão. E sem crescimento e com empréstimos a uma "benemérita" taxa de juro de cerca de 6% - que é a do FEF - jamais a dívida poderá ser paga ou sequer aliviada.
Ou seja, todas as medidas que "estão em cima da mesa" não passam de paliativos.

Saber o que vem depois ou as consequências perversas que isto possa ter para todos, inclusive para quem impõe estas políticas, é uma questão que o capitalismo em regra não coloca quando o que está em causa no imediato é a estabilidade do seu próprio sistema financeiro. Além de que a Alemanha, como a História abundantemente demonstra, tem “vistas curtas”

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

QUEM NO GOVERNO QUER O FMI?


OU A PSEUDO-INGENUIDADE DOS DISSIDENTES

Ninguém acredita que quem está na política há mais de duas décadas actue ingenuamente em momentos cruciais para a “linha oficial” do partido a que pertence e do Governo que integra. Não é crível que quem não faz outra coisa senão política, nem tenha dado provas de saber fazer outra coisa senão política, cometa deslizes comprometedores por simples negligência.
Tudo na acção política tem um sentido. E quem anda nela sabe muito bem o sentido que pode ser dado às palavras que profere ou às acções que pratica.
Sócrates, independentemente de todas as responsabilidades que lhe possam ser atribuídas na condução de uma política económico-financeira nefasta para o interesse nacional, principalmente por não ter ousado inverter o “rumo das coisas” em Bruxelas, nem ter tido um discurso crítico relativamente aos diktats que de lá vinham, não quer a entrada do FMI em Portugal. E nem interessa agora discutir as motivações subjectivas que subjazem a esta atitude: se as dramáticas consequências daquela intervenção para os portugueses de baixo e médio rendimento; se as trágicas consequências para o seu Governo,inevitavelmente associado a tudo o que de pior ainda acontecesse a partir de então; se ambas, pura e simplesmente.
Por isso Sócrates se tem desdobrado em contactos nos quatro cantos do mundo, num esforço de diversificação das relações comerciais, económicas e financeiras, por há muito já ter chegado à conclusão de que com os nossos “mui estimados amigos” não iria a lado nenhum e teria mais dia, menos dia, que seguir o exemplo da Grécia e da Irlanda.
Também não pode constituir novidade para ninguém, a começar obviamente por Sócrates, que a colocação da dívida pública a um juro próximo dos 7%, mas claramente inferior à última taxa exigida para empréstimos da mesma natureza, não constitui um bom negócio nem garante a sustentabilidade da nossa economia, porque ninguém – indivíduo, empresa ou Estado – pode aguentar pagar uma taxa de juro várias vezes superior à sua taxa de aumento de rendimento, de lucro ou de crescimento.
Só que o problema que há uma semana se colocava não era obviamente este. O problema consistia em saber se se invertia a tendência, ou se, pelo contrário, se agravava, tornando de imediato inevitável o recurso ao eufemísticamente chamado “Fundo de Estabilização Financeira", com todas as consequências que daí decorrem, aqui já várias vezes referidas. A inversão da tendência, pelo contrário, embora em si nada resolvesse, teria a enorme vantagem de proporcionar um relativo alívio, que, além de poder ser aproveitado, como está a ser, para a diversificação das relações, poderia permitir também a eventual consolidação no seio da própria União Europeia, naquilo a que se poderia chamar um certo establishment relativamente dissidente, de certos desenvolvimentos tendentes a alterar a doutrina ultra ortodoxa defendida pela Alemanha e seus fiéis acólitos (Holanda, Áustria e Finlândia), como a flexibilização do tal “Fundo de Estabilização”, o aumento da sua capacidade de financiamento, a emissão de eurobonds, enfim, uma relativa alteração da política do BCE, tendente a proximá-lo da Reserva Federal ou do Banco de Inglaterra.
Mas, além disso, permitiria também – e aqui só mesmo a estupidez da habitual matilha de comentadores económicos não vê – aguentar o mais possível a situação de um pequeno país cujo resgate à “grega ou à irlandesa” não constituiria qualquer problema para a União Europeia e, simultaneamente, deixar agravar a situação da Espanha a ponto de exigir uma intervenção muito diferente daquela que tem sido feita até aqui, sob pena de tudo se desmoronar.
Percebendo isto em todos os seus detalhes ou simplesmente intuindo (o mais provável) que tudo o que possa atrasar a entrada do FMI é mau, a direita, com Cavaco à frente, e os seus aliados atrás, tudo tem feito para evitar que esta estratégia tenha êxito.
Cavaco na própria manhã da colocação da última partida de dívida logo desmereceu os resultados da operação e, seguramente guiado pelos seus altos padrões morais – os que lhe permitem comprar (?) acções a preços reservados a Oliveira e Costa ou às suas SLN; ou comprar (?), permutar (?) terrenos oriundos de empresas off shores (dedicadas à especulação fundiária) entretanto adquiridas por um seu amigo que à data da aquisição era seu assessor no gabinete da PCM; ou perceber três reformas, duas delas de trabalho a tempo inteiro –, a idoneidade dos compradores. “É preciso saber quem comprou”, disse ironicamente.
Muito louvável esta atitude de querer saber quem compra ao Estado títulos ao portador, por parte de quem desconhece, nos seus negócios particulares, a quem comprou, por quanto comprou e a quem vendeu!
Mas Cavaco não está só. Tem quem o apoie dentro do Governo. Tem dentro do Governo quem, como ele, ache que é preciso demonstrar muito respeitinho pelos “senhores investidores”; quem, como ele, se insurja contra o debate parlamentar que se seguiu à aprovação do Orçamento entre aqueles que o aprovaram; quem, como Merkel, ache que é preciso constitucionalizar os limites do défice e da dívida…porque é através de proibições defensoras da mais pura ortodoxia monetarista que se obtém a “salvação do euro” e a “prosperidade económica”.
Não admira, por isso, que Sócrates tenha sido publicamente desautorizado sobre o objectivo da sua recente visita ao Qatar! Que haja no Governo quem confirme o que ele negou…
Esta confissão ajuda a direita a atacar por uma de duas vias: ou porque falhou o objectivo da operação; ou porque o comprador não pertence ao “selecto grupo dos senhores investidores” de Frankfurt, Paris, Londres ou Nova York, tudo terras onde o “capital tem pátria”!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O "ESPÍRITO" DA SLN RONDA CAVACO



AS COINCIDÊNCIAS SUCEDEM-SE

Aquela de Cavaco Silva ter dito que era preciso nascer duas vezes para ser mais sério do que ele pressupõe, entre muitas outras coisas, uma excelente memória…ou então o poder suficiente para que impedir que alguém tenha o atrevimento de lhe solicitar publicamente o exercício daquela predestinada faculdade.
Acontece que Cavaco não tem uma coisa nem outra. E se lhe falta a primeira por dano irreparável da natureza, também não vai conseguir a segunda por muito que os “ventos da história” estejam ávidos de soprar nesse sentido.
Cavaco não se recorda de factos que agora são importantes para aqueles seus compatriotas que neste momento estão fazendo um grande esforço para não ter que nascer pela segunda vez.
Um “abastado investidor” que tenha comprado meia dúzia de acções nos “leilões” das privatizações e outros tantos títulos obrigacionistas é capaz de se recordar de quanto lhe custaram umas e outros, a quem e onde os comprou.
Cavaco, um “mísero professor”, tão cheio de qualidades e de requisitos para o exercício do cargo de PR, não se recorda de nada que diga respeito às acções da SLN adquiridas em 2001. Entregou-se completamente nas mãos do BPN. E se assim fez para a compra outro tanto seria de esperar para a venda!
Também não é capaz de explicar como é que um funcionário do Banco de Portugal pode exercer a docência a tempo inteiro na Universidade. Primeiro, ou a partir de certa altura, na Nova; depois na Nova e na Católica.
E também a este respeito o que não sobram são dúvidas que a memória não dissipa. Em primeiro lugar, como se podem exercer dois empregos a tempo inteiro, desde que um seja público? Em segundo, que fundamento tem a notícia veiculada à época de que a partir de determinada altura passou a exercer funções na Católica, mantendo na Nova apenas o ordenado? E o que teria acontecido ao processo disciplinar remetido pelo reitor Alfredo de Sousa ao Ministro da Educação (Deus Pinheiro)?
Factos que a memória de Cavaco Silva, se fosse boa, certamente ajudaria a esclarecer.
Mas é seguramente pedir-lhe muito. Como se pode pedir tal coisa a uma pessoa que, segundo a Visão, se não recorda da escritura de compra (ou permuta) do terreno que na década de 90 adquiriu na Coelha?
O esquecimento é o mundo das trevas. Aqueles que afadigadamente buscam luzes nas respostas de Cavaco para ficarem a saber se vão ter que nascer pela segunda vez podem ficar descansados: Cavaco nada esclarecerá ou não fosse ele um anti-iluminista!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SINAIS DOS TEMPOS



A REVOLUÇÃO E A SUBCULTURA

Foi com alguma mágoa que no passado fim-de-semana se assistiu ao quase silenciamento da morte de Vítor Alves, um revolucionário de Abril, suplantada na generalidade dos media pelo destaque dado a certos fenómenos de uma subcultura muito em voga nos nossos dias.
Já ontem Sousa Duarte, no Público, em artigo de opinião, tinha chamado a atenção para aquele relativo silenciamento em detrimento de outras notícias que hoje alimentam preferencialmente os famigerados “critérios jornalísticos” de que os detentores dos media e seus fiéis validos se prevalecem para nos fazer mergulhar numa subcultura social, política e até económica com que nos preenchem o dia e lavam o cérebro.
Não admira por isso que Marcelo Rebelo de Sousa, uma espécie de cronista "social" da política, tenha dedicado na sua pregação dominical mais tempo à lamentável morte de Nova York do que ao desaparecimento de Vítor Alves.
Felizmente, nem todos os maus exemplos fazem escola. Ainda ontem o El Pais dedicou quase uma página à morte de Vítor Alves.
ADITAMENTO
Sobre questões aqui abordadas incidentalmente, a não perder Carlos Amaral Dias na Grande Entrevista.

A DIFICULDADE EM ACOMPANHAR CERTOS DISCURSOS




NÃO VER AS DIFERENÇAS

Nada pior em política do que não enxergar as diferenças, seja com base em considerações estratégicas, seja com fundamento num tacticismo conjuntural. É óbvio para qualquer pessoa minimamente atenta que há uma direita à direita do PS, da qual fazem parte Cavaco e sua gente, bem com o resto do PSD e o CDS, além da direita não partidária, influente, que está por detrás de quase tudo o que é poder económico e ideológico.
Toda esta direita, sem excepção, embora com palavras diferentes, quer a entrada do FMI em Portugal pelas razões sobejamente conhecidas e que podem sintetizar-se nas palavras já publicadas neste blogue.
A entrada do FMI em Portugal obedece a um objectivo estratégico de profunda alteração do regime político-constitucional português, nomeadamente em tudo o que diga respeito à consagração de direitos sociais, retirando-os da Constituição e deixando, em sua substituição, um conjunto reduzido de frases vagas susceptíveis de ser interpretadas segundo a vontade de quem governa.
A experiência diz-nos que em situações limite, que tenham a ver com os fundamentos socioeconómicos do regime, nem todos aqueles que em situação normal seriam capazes de opor resistência, conseguem, em estado de crise declarado, manter a mesma consistência.
Mesmo sem alterações constitucionais significativas, a probabilidade de o FMI, uma vez cá dentro, pôr em prática medidas anticonstitucionais e, em qualquer caso, altamente lesivas dos sectores mais frágeis e numerosos da sociedade portuguesa é altíssima, para não dizer que é uma certeza.
A direita, com Cavaco como principal porta-voz, ficou altamente decepcionada por não ter havido hoje um agravamento da taxa de juro que tornasse desde já irreversível o recurso ao FMI, como já tinha ficado ontem com os números preliminares das contas públicas.
Cavaco, bem interpretado, chegou quase a dizer aos predadores financeiros que não acreditassem completamente no que se estava a passar, advogando a necessidade de deixar correr mais algum tempo para se ver em que medida as tendências subjacentes aos anúncios de ontem se consolidavam. Simultaneamente, receoso de que as suas palavras não tivessem o eco devido, agitou o espantalho da altíssima probabilidade da crise política para por essa segunda via relançar a dúvida sobre a situação económico-financeira, com vista, objectivamente, a agravá-la.
Quem, à esquerda, desconsiderar estas questões, por mais justas e devidas que sejam as críticas à política do Governo, não insistindo, como ponto fulcral do discurso político, no desmascaramento da política de direita, antes privilegiando os ataques “às manobras” do Governo deixando subentendido que se recreou uma realidade que os factos desmentem, comete um grave erro estratégico que nenhuma consideração táctica pode justificar!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O ERRO DE KRUGMAN




PARA ALÉM DO ERRO DE ANÁLISE ECONÓMICA

Logo que me chegou a notícia do post de Krugman sobre Portugal – Portugal? O nao! -, minutos depois de publicado no seu blog do NYT, fiquei apreensivo com o seu teor e mais ainda quando horas depois foi transcrito no Estado de S. Paulo, em português, pelo aproveitamento que seguramente iria ter por parte da direita.
Krugman, que sem hipocrisia nutre simpatia pelo nosso país, demonstra pela forma relativamente titubeante como começa o post, que não tem um conhecimento profundo da situação macro-económica portuguesa, contrariamente ao que se passa, por exemplo, com a situação da Grécia, da Irlanda e da Espanha que domina melhor.
A referência ao abaixamento de salários que aqui há cerca de seis meses já havia feito num contexto diferente, e que rapidamente foi aproveitado pela direita que o execra, é agora repetida, sem outro contexto que não seja o que resulta do post, embora se saiba que as propostas de Krugman para a crise da dívida na zona euro passam por uma alteração estrutural da União Económica e Monetária, devendo aquela sua ideia interpretar-se no quadro do imobilismo reinante entre os principais Estados da zona euro, nomeadamente a Alemanha, que rejeitam qualquer outra concepção político-económica do euro, bem como qualquer outra saída da crise que não seja através de políticas recessivas, altamente penalizadoras da procura interna e do emprego.
Independentemente deste facto, de que a direita não quer saber, e independentemente do erro de análise económica de Krugman – um erro factual, de facto a perda de competitividade da economia portuguesa não resulta de nenhuma subida desproporcionada dos salários, contrariamente ao que se passa noutros países -, o erro substancial de Krugman é de natureza essencialmente política.
Uma personalidade como Krugman, que luta consequentemente contra a direita no seu país, ouvida em todo o mundo pelos seus atributos científicos e posições políticas, não pode “oferecer de bandeja” à direita portuguesa e europeia argumentos para agravar ainda mais o fosso que separa os ricos dos pobres e para tornar o trabalho no bode expiatório da crise da dívida, fazendo dele o alvo fácil e indefeso por que toda direita aspira.
Talvez Krugman não saiba que a direita portuguesa é social e politicamente falando tão ou mais cavernícola que a direita do seu país, e não é por ela não ter um discurso ostensivamente tão violento, do ponto de vista do confronto político, quanto a americana que ela deixa de olhar com desprezo para os direitos do trabalho e demais direitos sociais, estando sempre à espera que se lhe depare uma boa oportunidade (FMI, descalabro económico-financeiro, etc.) para poder pôr em prática o seu verdadeiro programa.
Mesmo involuntariamente, como é seguramente o caso, Krugman não pode prestar-se a esse papel.
Essa ideia muito difundida na América de que há na Europa, nomeadamente na Ocidental, uma espécie de “pacto” mínimo entre o capital e o trabalho com vista à institucionalização e manutenção de um Estado social amortecedor dos grandes desmandos do capitalismo pertence ao passado. É uma ideia que teve concretização prática entre o fim da guerra e a Queda do Muro de Berlim. Depois de 1989, principalmente depois de 1991, tudo mudou. Que Krugman não tenha ilusões: o grande inspirador do “pacto social” era o “espectro do comunismo”. Hoje o programa da direita é destrui-lo!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A DIREITA CLAMA PELO FMI


LOGO A SEGUIR ÀS PRESIDENCIAIS

A direita ficou manifestamente nervosa com as notícias hoje divulgadas sobre as contas públicas e a possibilidade de elas poderem contribuir para um relativo abaixamento de juros em consequência da influência “negativa” que tais notícias possam ter sobre os predadores financeiros.
E por isso rapidamente apresentou novos argumentos justificativos da presença da funesta instituição (FMI), como as projecções do Banco de Portugal para o próximo ano, a desorçamentação de alguns pesados encargos e vários outros de modo a criar um clima económico-financeiro pouco tranquilizador para os credores. Basta ver como nos canais de notícias de hoje à noite a conhecida matilha de economistas de direita e de extrema-direita, além dos habituais oportunistas de turno, se afadigaram na demonstração de que os resultados do défice orçamental de 2010 são enganadores.
Por que é que a direita deseja tão ardentemente a presença do FMI? Não seguramente tanto pela possibilidade de chegar ao poder o mais depressa possível, pois Cavaco (se for eleito) só dissolverá o Parlamento se tiver a certeza da formação de uma nova maioria, como pela esperança, que os exemplos conhecidos já tornam certeza, de que o FMI imponha finalmente o programa por que a direita aspira.
Qual é esse programa? A receita é conhecida. A pretexto de garantir recursos por um determinado período de tempo, aliás a juros bem elevados, o FMI arrogar-se-á o direito de exigir mais despedimentos, inclusive aqueles que agora não são possíveis, como na função pública; baixar os salários, incluindo o salário mínimo; limitar ao mínimo os apoios sociais ou mesmo eliminá-los, como será o caso do rendimento social de inserção, do subsídio de desemprego, etc.; liberalizar e embaratecer os despedimentos; acabar com o serviço nacional de saúde como serviço universal tendencialmente gratuito; onerar pesadamente o ensino, nomeadamente o superior; limitar os descontos das entidades patronais para a segurança social, estabelecendo igualmente um tecto para os descontos dos subscritores e para as próprias reformas, de modo a acabar com o princípio da solidariedade intergeracional e a abrir por esta via o caminho para a privatização da parte “rica”da segurança social; enfim, privatizar tudo que ainda houver para privatizar.
Este o programa de todos aqueles que se desdobram em argumentos para justificar a presença do FMI.

AS EXPLICAÇÕES DE CAVACO SILVA


APENAS UMA GRANDE CONVICÇÃO PESSOAL

Quanto ao BPN, Cavaco Silva nada esclareceu. Quem estava convencido de que houve favor, convencido ficou. E quem acredita na palavra de Cavaco Silva, independentemente dos factos, a acreditar continua. As explicações de Cavaco deixaram tudo na mesma. Mas a sua forte convicção pessoal em defesa da sua inocência e a facilidade com que qualifica de desonestos aqueles que apenas querem ser esclarecidos demonstram que Cavaco conhece bem o povo português e que sabe tirar partido de uma muito bem encenada vitimização.
O mesmo conhecimento não tinha infelizmente do BPN. Cavaco Silva acreditava no BPN, acreditava na excelência da instituição quando não exercia cargos políticos e continuou a acreditar nela como Presidente da República, agora já não com base na sua argúcia interpretativa, mas antes em informações prestadas pelo Banco de Portugal, implicitamente responsabilizado, no bom estilo de Paulo Portas, por tudo o que se passou.
Quem lá estava a gerir o banco não lhe mereceu, agora nem antes, qualquer censura: isso é assunto dos tribunais. As censuras vão inteirinhas para o governador do BP e para o modelo de gestão escolhido, depois da “nacionalização”.
Igualmente extraordinária, para quem tanto se auto-reclama dos mais diversos dotes, é a comparação entre os “activos tóxicos” de bancos ingleses e americanos resultantes da acção especulativa de instituições completamente desreguladas e a acção de uma quadrilha que assaltou um banco, administrando-o.
Sem querer entrar em interpretações psicológicas mais profundas, para o espectador mais atento fica a ideia de que há um certo tipo de ilícitos, os ligados a grandes manigâncias financeiras, que não merecem a mesma censura de outros que, embora produzindo danos às vezes até menores, são alvo de violenta condenação por serem levados a cabo por outro tipo de intérpretes. Digamos que os primeiros, por estarem ligados ao “empreendedorismo”, são para largos extractos populacionais socialmente aceitáveis, enquanto os segundos por estarem directamente relacionados com o banditismo são severamente condenados.
É isto que explica que o chamado crime de “colarinho branco” preocupe tão pouco os extractos políticos promiscuamente ligados aos negócios, porque eles sabem muito bem que fora de certos círculos restritos é relativamente benevolente a atitude de grande parte da população, apenas traduzida num mal dizer inconsequente.
Voltando a Cavaco Silva e ao BPN, a ideia com que se fica, depois da entrevista de ontem, é a de que ele nos quer fazer acreditar que desconhecia completamente o que se dizia do BPN e das práticas nele seguidas nos meios em que ele próprio se situa: pagamento de juros incomportáveis, negócios altamente lucrativos com títulos cuja consistência se desconhecia e tudo mais que na Exame de Janeiro de 2001 se descrevia. Toda esta cândida inocência Cavaco Silva nos expõe com toda a convicção. A sua relação com o banco era distante e confiante: “Apliquem as minhas poupanças onde forem mais rentáveis”. Não sabe quanto lhe custaram as acções que comprou, nem o preço por que as vendeu e a quem as vendeu. Não sabe nada. Entregou-se nas mãos do banco.
E todavia nós sabemos que num banco dominado por correligionários políticos e membros de seus anteriores governos lhe foram vendidas acções por um preço apenas destinado a quatro entidades, bem inferior ao que estava preferencialmente reservado aos accionistas. E nem sequer lhe passa pela cabeça, na hipótese mais benéfica, de o preço por que comprou as acções ser uma espécie de recompensa pelo prestígio que o seu próprio nome emprestava à colocação de um aumento de capital junto de novos accionistas em condições altamente favoráveis para os verdadeiros detentores do banco.
Nada. Nada lhe ocorre. Perante tanta ingenuidade e incapacidade de avaliação de pessoas e coisas apenas resta concluir que Cavaco Silva está muito longe de reunir os atributos que se exigem a um Presidente da República. Se por masoquismo, como diz JM Coelho, o povo português continuar a votar nele, depois não se queixe!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O ATENTADO DO ARIZONA




AS CONSEQUÊNCIAS DO DISCURSO DO TEA PARTY

A extrema-direita americana, com a cumplicidade e a cobardia de toda a direita, insiste na ideia de que está em curso uma tentativa de descaracterização da América levada a cabo pelas “elites” brancas instruídas com o apoio eleitoral dos hispânicos, afro-americanos e todas as demais minorias progressistas.
E prega a guerra sem quartel a todos os que recusam os pressupostos político-filosóficos da sua intervenção. O Arizona é um estado que, pela sua localização e composição étnica, tem estado sob a mira do Tea Party e onde o Partido Republicano, dominante nas últimas eleições, tem posto em prática uma política de emigração que recorda alguns dos piores exemplos das políticas segregacionistas seguidas pelos estados do Sul há 50 anos.
Foi contra este clima que se insurgiu e foi eleita a congressista democrata Gabrielle Giffords, gravemente ferida no atentado que em Tucson matou seis pessoas e feriu mais onze.
Embora não se possa afirmar que exista uma relação directa entre o atentado e um grupo político específico, há, sem dúvida, um clima de intolerância e de crispação no seio da direita que propicia este tipo de actos.
A congressista estava na famosa lista de Sara Palin, como um dos alvos, pelas posições que havia defendido na Câmara dos Representantes no anterior mandato (2008-2010).

VÍTOR ALVES


UMA LEMBRANÇA INESQUECÍVEL

Recordo de Vítor Alves a leitura do programa do MFA na manhã de 26 de Abril de 1974. Depois de um dia vivido com grande intensidade, na Guiné, acompanhando pela rádio, quando havia directos, e pelos telex da Marinha, as vicissitudes da manhã e tarde do 25 de Abril, caiu uma sombra de dúvida e de tristeza quando, no começo da madrugada, se soube da composição da Junta de Salvação Nacional e se acompanhou a intervenção de Spínola.
Logo a seguir, a emissora oficial do PAIGC, alertava contra mais uma manobra spinolista e reiterava a vontade de continuar a luta até à vitória final.
Na manhã seguinte, a leitura integral do Programa do MFA, por Vítor Alves, dissipou todas as dúvidas.
Por muitas razões fica o nome de Vítor Alves associado ao 25 de Abril, mas esta para quem estava fora do teatro da Revolução não será certamente a menor!

sábado, 8 de janeiro de 2011

AFINAL, HOUVE MESMO FAVOR!




A DIREITA UNIDA TENTA ABAFAR O CASO

Imagine-se o que aconteceria neste país se se descobrisse que Sócrates tinha comprado e revendido com um lucro de 140% acções não cotadas em bolsa de uma empresa gerida pelo Coelho ou pelo sucateiro de Ovar. Sim, o que diria Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo, o que diria o “Padre Malagrida” no Plano Inclinado, o que escreveria JM Fernandes no Público, enfim, o que teria escrito e dito toda a media portuguesa, mesmo que a dita empresa se não tivesse transformado num dos mais graves problemas orçamentais do Estado português?
Diria aquilo que é óbvio, com o acinte que lhes é próprio.
Pois é. Mas sabe-se agora que Cavaco Silva comprou por um preço reservado ao presidente da SLN e a mais três empresas por ele dominadas (1 euro) acções provenientes de um aumento de capital que deveriam ter sido pagas ao preço estabelecido para os “compradores convidados” (novos accionistas) - 2,2 euros!
É até muito provável que o preço estabelecido para Oliveira Costa e “suas” três empresas já seja em si uma ilegalidade. Agora, o que não há dúvida é que essa ilegalidade é indiscutível quando esse mesmo preço é estabelecido, contra as deliberações da AG, para um terceiro, que nem accionista era. É bom que se perceba que Cavaco beneficiou de um regime de compra a que nem sequer Dias Loureiro teve acesso…
Em termos simples pode dizer-se que Oliveira e Costa ofereceu a Cavaco Silva e família 1,2 euros por acção. A que propósito se dá uma “prenda” destas a alguém? Como explica Cavaco Silva que um seu ex-secretário de Estado, aliás, muito contestado por incompreensíveis perdões fiscais que concedeu, lhe tenha proporcionado semelhante benefício?
Não há, portanto, dúvida de que houve um favor. E para se ter a certeza de que esse favor não foi completo, Cavaco deveria demonstrar que pagou as acções, porque quem oferece 1,2 euros também pode oferecer 2,2.
A direita unida à volta deste caso começou por invocar a honestidade de Cavaco como uma espécie de infalibilidade papal para afastar qualquer tipo de suspeita, quando o problema era muito mais comezinho: tratava-se apenas de perceber se houve ou não um favor, político ou pessoal, e que explicações racionais poderiam ser aduzidas para afastar aquela suspeita.
Como esta estratégia não pegou – o silêncio de Cavaco só agravou a situação -, a direita, munida de documentos que entretanto conseguiu obter, desencadeou então a segunda vaga argumentativa, primeiramente insinuada por Miguel Relvas e logo depois desenvolvida por Marques Mendes com toda a "convicção": Cavaco até perdeu dinheiro, porque houve quem à mesma época tivesse vendido mais caro. E acrescentava: o problema não está na actuação de Cavaco mas na esquerda que, como não aceita o lucro e o confunde com actividade ilícita, está sempre predisposta a lançar calúnias contra as pessoas honradas.
É claro que desde a primeira hora se percebeu que o negócio não era claro: nem em si, nem pelas pessoas com quem foi feito. E mesmo que se aceitasse que Cavaco estava completamente inocente, isso não seria bom para ele. Pelo contrário, tratar-se-ia de mais um facto a atestar a fragilidade de Cavaco para o desempenho as funções de Presidente da República: a incapacidade para avaliar devidamente os factos e as pessoas.
Que Cavaco em situações de aperto fica emocionalmente descontrolado já se sabia: viu-se no modo primário como lidou com a intentona das escutas, mas viu-se também agora: acossado pela situação do BPN, Cavaco só encontrou como resposta um ataque à actual administração do BPN, culpando-a da situação em que o banco agora se encontra. Ao meter-se na “boca do lobo” – como pode fazer tal crítica uma pessoa que nunca dirigiu a menor censura à criminosa gestão anterior? –, Cavaco demonstrou mais uma vez que não está à altura das situações difíceis. De facto, esta sua lamentável actuação, independentemente dos juízos de valor que se façam relativamente ao facto em si, demonstra as fragilidades de Cavaco como governante, principalmente em situações de crise.
Para o resto da direita, nomeadamente para o CDS – tão activo na defesa de Cavaco – a responsabilidade por tudo isto continua a ser do “polícia”. Dos ladrões o CDS só fala quando são pequenos. Quando se trata de ladroagem da grande – BPN, submarinos, helicópteros, sobreiros, etc. -, o CDS cala-se e arranja coisinhas pequenas para distrair as atenções: uma carteira roubada por esticão, mais uma historieta de Teresa Caeiro e por aí se fica, embora muito estridentemente.
Só que desta vez a coisa está feia: houve mesmo favor!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NOTAS SOLTAS SOBRE O BPN


COMENTÁRIOS DISPERSOS

1 -Entretanto, os cavaquistas descobriram que Cavaco afinal “vendeu barato”, ou seja, “até perdeu dinheiro, porque deixou de o ganhar”.
Tudo isto porquê? Porque como "doutamente" explica esse insuportável Miguel Relvas, o BPN em 2003 estava em alta! E não é que ele tem razão. Só que se esqueceu de acrescentar que a alta era a da roubalheira! Parece que não houve ano com tanta batota como aquele, daí que Cavaco se não tenha apercebido de nada, apesar dos seus excelsos dotes de economista
Mas quem tiver dúvidas, além de Ângelo Correia que tudo é capaz de explicar, pode também escutar Marques Mendes. Embora haja uma pequena iferença entre os dois: é que Ângelo Correia é patrão, um patrão das Arábias, enquanto Marques Mendes continua empregado de um dos patrões da SNL! E será só Marques Mendes ou haverá mais “avençados” no outro lado do bloco central?
2 - Lamentável que a comentadora da TVI (Constança Cunha e Sá), louvando-se em Portas, tenha vindo dizer para o telejornal que a actual administração do BPN comprou acções da SLN por um preço ainda superior ao pago a Cavaco. É por estas e por outras que não se pode confiar nesta imprensa que temos, impreparada, desleixada, sem rigor, enfim, incompetente!
3 - Portas continua muito empenhado em meter na cadeia sem julgamento os larápios do esticão - é com isso e com a “lavoura” que tem ocupado parte do seu tempo político -, embora no caso do BPN só esteja preocupado em culpar o “polícia”. Porquê? Porque como pequeno partido que é Portas não se ocupa dos grandes ladrões, só dos pequenos.
4 - Notável João Soares, no frente a frente com Paula Teixeira Pinto. Ela no seu tradicional papel de hiena feroz não deixando ninguém falar, ele tranquilo, dando de barato, nas parcas intervenções que conseguiu fazer, que essa história do lucro de 140% é “desagradável”, mas até se pode perceber; que a compra de acções pela sociedade sem deliberação da AG também não é muito ortodoxa, enfim, mas não passa de uma formalidade. Agora o que é importante, para acabar com a conversa, é que o Prof. Cavaco Silva mostre a cópia do cheque ou da transferência bancária da compra das acções. É que pior do que a venda com 140% de lucro é a suspeita de que não houve compra, mas doação!
E remata: “É que se não demonstrar que comprou, é porque houve oferta!”

COELHO AO POLEIRO!


A ESTUPIDEZ DE UMA JORNALISTA

É preciso ser-se muito estúpido e caninamente fiel aos fretes partidários para não saber aproveitar um homem como José Manuel Coelho num programa de televisão dedicado à campanha eleitoral para Presidente da República.
Numa época em que a generalidade do povo português pensa dos políticos que governam o mesmo que JM Coelho, mas não é capaz de exprimir com a mesma graça e acutilância a sua vontade de intervenção, é triste, muito triste, não saber aproveitar aquele que poderia ter sido um grande momento de televisão.
A sra não percebeu o sentido da bandeira nazi no parlamento da Madeira, não percebeu o sentido profundo da barriga de aluguer, não percebeu nada. E, de facto, a ausência de humor é o caminho mais curto para se detectar a ausência de inteligência…
Notável aquela acção de campanha de Coelho na Embaixada da República de Cabo Verde, pedindo às autoridades cabo-verdeanas a colaboração no “reenvio” de Dias Loureiro para Portugal para aqui desempenar o benemérito papel de ajudar o país a sair da crise e os portugueses a enriquecer em pouco tempo.
Igualmente notável a dos quatro ordenados de Cavaco, a da reforma de Jardim numa instituição onde nunca trabalhou e a dos “pasquins” pagos com dinheiro do continente para serem distribuídos gratuitamente na Madeira! E muito mais…

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A ENTREVISTA DE ALEGRE



E UM FRENTE A FRENTE NA SIC NOTÍCIAS

Não há muito a dizer sobre a entrevista de Manuel Alegre à RTP. Disse o que se esperava e a entrevistadora não pôde deixar de abordar os negócios de Cavaco Silva com a SLN.
Alegre não confundiu a situação do BPN anterior à “nacionalização” com a gerada por esta medida, embora se perceba que não se sente muito à vontade com ela. Alegre não pode desautorizar o Governo, mas toda a gente sabe que se tratou de uma decisão inconcebível só possível no quadro de uma grande irresponsabilidade governativa. Portanto, nada de muito novo aconteceu.
Mais importante é a confirmação de que as acções de Cavaco na SLN foram compradas por ordem de Oliveira e Costa. E por mais voltas que Cavaco dê a confirmação desta notícia arrasta consigo a suspeita do que já se veiculava: a de que tal compra não pode deixar de configurar-se como uma situação de favor!
Aliás, vários factos apontam nesse sentido, quer os que tentaram dissimular o negócio, quer os que pretendem agora fazer crer que se tratou de um negócio normal.
A primeira estratégia de Cavaco foi dissimular o facto, escondê-lo, sob a capa de um preciosismo jurídico. Sentindo-se culpado, ou supondo-se acossado – Cavaco lá saberá – mandou publicar um comunicado dizendo que não tinha comprado nem vendido nada ao BPN. Era verdade, mas tinha comprado e vendido acções de uma empresa proprietária do BPN a 100%.
E por que razão omitiu Cavaco este facto, que só se veio a conhecer quando o Expresso o tornou público? Pela razão muito simples de se tratar de acções de uma empresa não cotada em bolsa que foram compradas e revendidas à mesma entidade com um lucro de 140%! Tudo isto em pouco mais de ano e meio. E mais: pelo facto de essa entidade estar ligada à maior fraude bancária posterior ao 25 de Abril.
Tudo isto Cavaco sabe tão bem ou melhor que todos nós. E sabe também que não se dá ordem de compra nem de venda de títulos não cotados em bolsa. Em empresas como a SLN, a compra e a venda de acções fazem-se por ajuste entre o comprador e o vendedor. Daí que não possa deixar de considerar-se sibilina a referência feita no comunicado à ordem para vender todos os títulos.
Finalmente, é de facto espantoso que o mesmo homem que no auge da especulação bolsista da sua segunda maioria absoluta tenha advertido os portugueses, como primeiro-ministro, de que era preciso ter cautela porque andava muita gente a comprar “gato por lebre”, não se tenha apercebido, face a uma taxa de lucro incomparavelmente superior à da especulação bolsista no seu maior pico, de que alguém em negócio particular lhe estava a comprar “rato por lebre”! É de facto espantoso! E como o facto é em si inexplicável no quadro de uma gestão normal, ninguém agora o poderá considerar como tal!
Cavaco não tem desculpa. Se como cidadão comum era apenas mais um dos que beneficiou dos negócios ruinosos do BPN, como Presidente da República o seu acto torna-se politicamente insustentável não apenas por o ter cometido, mas principalmente por o ter tentado esconder.
Lamentável, melhor dizendo, execrável, foi também a intervenção desse inefável Miguel Relvas num frente-a-frente com Fazenda.
De Ricardo Costa que veio a seguir à seráfica Ana Lourenço explicar o comportamento de Cavaco (coitado, cometeu um “errozito”…) não há nada a dizer, como nada há dizer da quase totalidade da imprensa portuguesa, além daquilo que já se sabe: uma merda!

A CANDIDATURA DE NOBRE


A CRUA REALIDADE SOB O MANTO DIÁFANO DA FANTASIA

A candidatura de Fernando Nobre parece reunir à partida vários ingredientes que no actual contexto político aparecem como apelativos para um número significativo de pessoas. De facto, ele apresenta-se como o homem independente dos partidos, que nunca “sujou as mãos” na política e que até abandonou uma carreira profissional para se dedicar a causas humanitárias, mais não sendo esta sua candidatura, bem vistas as coisas, do que a continuação desse mesmo “percurso”: a resposta a um imperativo humanitário de salvar Portugal da grave situação em que se encontra.
A verdade é que o discurso eleitoral de Nobre, embora insinue estes objectivos, está bem longe de os traduzir em factos convincentes para o eleitorado mais experimentado politicamente.
Pelos actos de campanha mais divulgados – debates e entrevistas – percebe-se que a candidatura de Nobre não é uma candidatura contra o establishment, do qual, aliás, ele faz parte numa modalidade hoje muito em voga – mas, fundamentalmente, uma candidatura contra Alegre.
A candidatura de Alegre, como se sabe, está enredada em dois factos que se contradizem e dos quais o candidato é o principal prejudicado e parcialmente responsável. O primeiro tem a ver com a declarada oposição à sua pessoa (não ao seu programa, nem à sua política) do sector soarista, que se considera gravemente traído na eleição presidencial de há cinco anos, não deixando, desde então, de clamar vingança; o segundo resulta do efeito castrador que o apoio oficial do PS provocou no candidato, apesar de por ele próprio solicitado.
Perante este quadro, que com segurança anteciparam, bem como as respectivas consequências, os ditos sectores soaristas, na impossibilidade prática de convencer um nome incontornável dentro do partido a apresentar-se, esforçaram-se por encontrar alguém que, fora dele, pudesse causar mossa à candidatura de Alegre. E esse alguém foi Nobre.
Somente por inexperiência política se pode supor que considerações de outra natureza estão na origem deste apoio, já que não é esta a primeira vez que Soares opta contra o candidato da "esquerda"para, por razões puramente pessoais, se vingar de quem contrariou as suas estratégias de poder. Já assim aconteceu com a segunda candidatura de Eanes, que Soares recusou apoiar, sugerindo implicitamente o voto no candidato da extrema-direita, que, além do mais, se preparava para plebiscitar uma nova constituição, de acordo com a estratégia golpista de Sá Carneiro, falhada que fora, uns anos antes, idêntica tentativa do mesmo protagonista, dessa vez aliado a Spínola!
Por isso não deixa de ser de uma pungente ingenuidade a carta aberta que Rui Feijó ontem publicou, na qual pede a Soares que apoie abertamente o candidato da sua preferência (Nobre, que não é citado) e simultaneamente reclama de Soares o apoio, na segunda volta, ao candidato que passar, contra Cavaco Silva.
De facto, a candidatura de Nobre não é contra Cavaco, que aliás reverencia, nem tão-pouco a de alguém situado fora do sistema.
Nobre está na campanha para impedir uma vaga de fundo do eleitorado PS a favor de Alegre, de quem, de resto, abertamente se distancia.
Também não é verdade que Nobre esteja fora do sistema. Nobre participa do sistema nessa modalidade hoje muito em voga entre empresários, consultores, “proprietários” de ONG e até comentadores profissionais que é a de passarem o dia a dizer mal do Estado e a exigir que se retire para eles próprios actuarem com os meios que esse mesmo Estado lhes faculta. Esta a independência de Nobre.
Nobre tem tido politicamente um percurso volátil que sempre se orienta de acordo com os apoios de que necessita. Engana-se quem supuser que Nobre se contenta com o simples reconhecimento expresso com umas palmadinhas nas costas como recompensa pelo seu “percurso”. Nobre é muito mais exigente nos apoios que solicita, que sempre têm de ser traduzíveis em actos palpáveis de grande significado prático. Daí as oscilações…
Que não se iludam os democratas e socialistas que de boa fé o apoiam. Nobre está na campanha por Cavaco!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

COM FRANCISCO LOPES ELA NÃO "FAZ FARINHA"

O QUE FAZ FALTA

Francisco Lopes dominou por completo a “Grande Entrevista”. Com ele em antena a responder, Judite de Sousa foi reconduzida ao seu papel.
Por muito que custe, tem de reconhecer-se que Álvaro Cunhal tinha razão. O PCP ou mantinha a sua matriz identitária ou, mais tarde ou mais cedo, desapareceria.
E é importante, muito importante, que o PCP exista tal qual é, como importante seria que tivesse mais força.
Todos os nossos males – os males dos que não são especuladores, banqueiros, monopolistas, oligopolistas ou dos que vivem à sua sombra – resultam da implosão dos partidos comunistas que apostam numa distribuição mais igualitária da riqueza.
Não haja ilusões: só o socialismo de quem não abdica dos princípios pode regular o capitalismo; só o socialismo de quem ameaça a concentração da riqueza pode promover o estado social em todas as suas componentes.
Francisco Lopes foi hoje a demonstração dessa firmeza. A firmeza de quem recusa tomar a parte, sob as luzes da ribalta, pelo todo; a firmeza de quem se não deixa enredar nas pequenas disputas de protagonismo, aproveitando antes todas as ocasiões para repisar o que é fundamental.
É uma liturgia que soa repetitiva ou mesmo insuportável a ouvidos burgueses, mas é uma liturgia indispensável…porque sem ela tudo se desmorona…

CAVACO REFUGIA-SE NA VITIMIZAÇÃO




O CASO BPN

O caso BPN não vai largar Cavaco por mais que ele mande os seus porta-vozes encenar um espectáculo conhecido: o do homem impoluto vítima de uma campanha suja feita por gente sem princípios e sem decência democrática.
Não sei se foi bem isto o que eles disseram, mas é isto o que eles querem dizer. Cavaco auto-definiu-se como sério: não é político, apesar de não fazer outra coisa desde os fins da década de 70; não entra em jogos partidários, não obstante ter feito toda a sua carreira política à sombra de um partido que dominou com mão de ferro; não mistura a governação com negócios, mas defende os especuladores e tem todas as suas amizades políticas concentradas em pessoas que nunca fizeram outra coisa senão negócios; não contemporiza com a corrupção, embora a “cultura del pelotazo”, como os espanhóis lhe chamam, tenha começado nos seus governos.
Cavaco é um típico pequeno-burguês miudinho, provinciano, que viveu fora da sua época quando era jovem, desejoso de ascensão social, muito bem retratado em romances símbolo da literatura universal…que Cavaco não leu. Como tal, nunca entrará em grandes jogadas económicas, arriscadas, capazes de transformar a vida da noite para o dia como aconteceu com tantos dos seus “amigos políticos”.
Tudo tem que ser feito a uma escala diferente, pequenina, das poupanças miúdas que se vão somando até atingirem um patamar satisfatório; depois uma aplicação sem risco, se possível com muito lucro.
Por outro lado, vai preparando o futuro com duas reformas provenientes de ocupações onde, por força das circunstâncias, nunca pôde passar muito tempo. Mas vai fazendo os descontos do trabalho que formalmente o ocupa como se lá estivesse a tempo inteiro para mais tarde as somar a outra que irá adquirir no exercício da profissão a que mais se dedicou – a política.
É uma vida certinha, sem sobressaltos, como a dos filmezinhos super 8 que fazia em Moçambique.
Só que no caminho dos “negócios miudinhos” surgem factos que adensam dúvidas a que a diferença de escala não retira importância. Entre o arrojo de um ex-ministro que no BPN consolida uma fortuna de milhões “caída do céu” com negócios “impossíveis de acontecer” e a compra e venda de títulos de uma sociedade proprietária de um “banco laranja” dominado por cavaquistas, não há, para sermos rigorosos, apenas uma diferença de escala. Há também a diferença entre a ausência do tal arrojo, confortado por anteriores caminhadas deixadas impunes, de quem busca a “iniciativa” por mais arriscada que seja com vista a um resultado que obsessivamente persegue, e a simples atitude daquele que aceita uma choruda proposta de lucro feita por quem quer recompensar a notoriedade adquirida e tantas outras vantagens que as boas “amizades” conferem.
E assim, com reformas e lucros, se vai acumulando um pecúlio que, não sendo nada de especial quando comparado com o dos “amigos”, tem com o deles alguns pontos em comum…
Esta é uma prova de fogo não apenas para Cavaco, mas também para a imprensa portuguesa!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

NOBRE E A "DAMA DE SINTRA"




CONVERGÊNCIA DE OBJECTIVOS

A “Dama de Sintra” entrevistou hoje Fernando Nobre. A estratégia da entrevistadora é sempre a mesma: ilibar Cavaco Silva do caso “acções SLN”, mais correntemente conhecido como “caso BPN”.
Apenas vai mudando de táctica consoante o entrevistado e as suas mais que previsíveis respostas. Ontem, com Defensor Moura, o objectivo era impedi-lo desde o início de falar no assunto, remetendo a questão para o minuto final de modo a minimizar o seu efeito ou mesmo a neutralizar qualquer intervenção mais contundente.
Hoje, com Nobre tudo mudou. Sendo claro que Nobre se candidata contra Alegre, é evidente para qualquer analista político que as suas respostas sobre o “caso BPN” só poderiam traduzir-se num ataque àqueles que, segundo o seu mais que conhecido entendimento, fazem da campanha um palco para ataques pessoais e ao carácter dos outros candidatos. E já se sabe que nesta sua diatribe contra os outros candidatos pode sempre contar com a colaboração da entrevistadora que, questionando-o, vai simultaneamente extraindo as conclusões e tirando a "moral da história".
Com Nobre escusa Cavaco de se preocupar. A cidadania que ele diz representar não entra nos meandros dos negócios financeiros. Fica à porta, ou não fosse Nobre um ilustre representante da exigente cultura do subsídio…
Oriundo do “Portugal Ultramarino”, educado na Bélgica, Nobre apenas encontra “Portugal metropolitano” na década de oitenta do século passado. E é do percurso feito a partir de então em instituições humanitárias que se alimenta a sua candidatura. Percurso que, pelo menos num ou noutro ponto, convergiu com o da entrevistadora, que também acompanhou no Congo, como jornalista, o drama dos campos de refugiados do Uganda.
Nobre tem excelentes relações com os media que sempre registam os primeiros dias da ocorrência de uma qualquer catástrofe. Passados esses dias, a catástrofe deixa de ser notícia, os desventurados da fortuna ficam entregues ao seu triste destino, e a gente só fica a saber quem “posou” para a fotografia. E essa é uma falha que infelizmente Nobre não pode agora colmatar. Como atestar a continuação da sua presença se as televisões se vêm embora?
Nobre quer falar das ideias que o movem, da ruptura que representa relativamente aos demais…mas só fala do percurso e o percurso, como acabamos de ver, sofre de indocumentação…
É pena que Nobre não tenha documentado mais o seu percurso com reflexões, propostas e acções que pudessem no futuro contribuir para atenuar pelo menos as catástrofes causadas pelo homem, à semelhança daqueles que, tendo igualmente feito da vida um permanente percurso pelas catástrofes que assolam a humanidade, nos legaram um contributo narrativo capaz de ajudar a compreender e a prevenir a desgraça de quem as sofre.
Qualquer que tenha sido o papel de Nobre no percurso que escolheu, por mais nobre que seja, ele é curto para justificar uma candidatura à Presidência da República, embora possa ser suficiente para atingir os seus objectivos.

CAVACO VAI TER MESMO DE SE EXPLICAR


HÁ OU NÃO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO?

Na América, o candidato presidencial que tivesse beneficiado de um negócio altamente lucrativo feito com um Banco sujeito a resgate do Estado, já teria abandonado a sua candidatura, fosse por vontade própria ou alheia.
Em Portugal, tudo é permitido. Os nossos jornalistas estão muito preocupados com a liberdade de imprensa na Bielorrússia, com a sorte dos georgianos da Abekázia, com as Damas de Branco de Havana, enfim, com os assuntos que os americanos põem na agenda internacional para distrair as atenções de qualquer outra coisa que estão a fazer noutro lado. Mas não estão nada preocupados no esclarecimento do “caso BPN”, no qual Cavaco é suspeito de ter auferido um lucro "impossível" de acontecer em circunstâncias normais.
O caso é tanto mais grave quanto é certo ele ter-se passado com um banco onde proliferaram os negócios ilícitos, realizados nas condições mais estranhas, gerando prejuízos sem conta, que, por infeliz decisão do governo, vão ser pagos pelos contribuintes portugueses.
Perante este quadro, é inadmissível que o actual Presidente da República e candidato à reeleição do cargo, se negue a dar explicações sobre as condições da realização do negócio de compra e venda de acções da SLN, exclusiva proprietária do BPN.
Se as acções tivessem sido compradas e vendidas em bolsa, em princípio, tudo seria normal. Mas como se pode considerar normal um negócio particular que em cerca de dois anos proporciona um lucro de 140%?
A quem vendeu Cavaco as acções? A um banco? A uma empresa? A um particular? Ou a Oliveira e Costa em nome individual ou à entidade por ele representada?
E por quanto se venderam à época as acções da mesma empresa em negócios particulares? Foram todas vendidas ou adquiridas pelo mesmo preço que pagaram a Cavaco?
Sejamos claros: o que é preciso esclarecer é se se trata de um enriquecimento ilícito ou de um negócio perfeitamente normal.
Cavaco não pode eximir-se a uma resposta, nem ensaiar a habitual vitimização de quem se sente acossado. Ele vai ter que responder.
Em vão, no famoso site da Presidência da República se procura uma resposta para estas questões. Aliás, a resposta não tem que ser dada pelo Presidente da República, nem pelo site institucional da função, mas pelo cidadão Cavaco Silva.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

DEFENSOR MOURA NA "GRANDE ENTREVISTA"


A ESTRATÉGIA DA ENTREVISTADORA

Ficou claro que a "Sra dona primeira-dama de Sintra" tinha uma estratégia para a entrevista de Defensor Moura: uma estratégia que nada tinha a ver com a possibilidade de o candidato expor com clareza o seu programa e simultaneamente criticar o programa dos adversários, dizendo do mesmo passo o que pensa das respectivas candidaturas, mas antes impedi-lo, a qualquer preço, de falar sobre Cavaco Silva.
Conhecendo a frontalidade de Defensor Moura dos debates da pré-campanha, nomeadamente o modo como afrontou Cavaco Silva, a Sra entrevistadora enredou a conversa, pondo-o a falar dos recursos financeiros de que dispõe para fazer a campanha, das suas hipotéticas divergências com a linha oficial do PS ou do processo "Face Oculta" (que nada tem a ver com a campanha eleitoral), de modo a cortar cerce qualquer tentativa de o candidato se referir a Cavaco Silva, que é, no fundo, aquele contra quem ele se candidata.
Assistimos, portanto, a mais um vergonhoso exercício do modo como entre nós se interpreta a liberdade de imprensa. No entanto, apesar de todos os esforços, a Sra entrevistadora não conseguiu evitar tratar do assunto BPN, acabando por dar a Defensor Moura breves instantes para abordar o tema. Apesar de interrompido, Moura deixou o essencial do que interessa saber: O BPN é um banco que participou em múltiplos negócios ilícitos ora proporcionando lucros incomportáveis, ora fomentando pseudo-investimentos como meio de transferência ilícita de recursos.
Quem vai pagar a actividade criminosa do BPN e a gestão danosa pela qual são responsáveis nomes grandes do “cavaquismo” é o povo português.
Ora, sabe-se, por investigação jornalística, que o cidadão Cavaco Silva e família investiram mais de trezentos mil euros em acções da entidade proprietária do BPN, tendo em pouco mais de um ano auferido lucros de 140%! Cavaco vai ter de explicar como isto foi possível.
Uma coisa é certa: não é a "Sra dona primeira-dama de Sintra" que estará interessada no aprofundamento deste assunto. Portanto, é bom que os restantes candidatos, independentemente das perguntas que a dita Sra lhes faça, abordem o tema com frontalidade e deixem no ar as perguntas que ela não quer fazer.