terça-feira, 21 de setembro de 2010

A DEMISSÃO DE CARRILHO



CARRILHO NÃO COMPREENDEU AS FUNÇÕES DE EMBAIXADOR

Embora se trate de um assunto menor, de escassa relevância política, vale a pena fazer um ligeiro comentário à notícia que hoje alguns jornais chamam à primeira página: a demissão de Carrilho do posto de Embaixador de Portugal na Unesco, Paris.
O primeiro comentário que a notícia merece é o de que o MNE, uma vez mais, “ficou mal na fotografia”. Tendo havido uma divergência entre o Governo e o Embaixador (facto normal), a propósito da votação para Secretário Geral da Unesco do nome indicado por Portugal, o Embaixador depois de, em vão, ter tentado demover o Governo a mudar de opinião, recusou-se a votar no sentido indicado por Lisboa (facto muito grave), a ponto de ter sido substituído na votação por um funcionário diplomático ido propositadamente da capital para o efeito.
O Embaixador deveria ter sido imediatamente demitido, já que tal acto não é compaginável, em nenhuma parte do mundo, com as funções de embaixador.
O MNE, incompreensivelmente, contemporizou e aguardou vários meses por um movimento diplomático para demitir Carrilho, dando, ou tentando dar, ao facto um ar de normalidade. Ou seja, aparentemente o MNE incitou outros a actuarem como Carrilho. É, porém, muito provável que actuação do MNE seja bem mais pérfida do que parece: deixando ficar Carrilho a “cozer” em lume brando durante vários meses, é provável que o MNE tenha querido consolidar politicamente a ideia de que os “embaixadores políticos” são um perigo não mais devendo ser nomeados para qualquer posto, seja qual for a sua natureza.
Quaisquer que tenham sido as motivações do MNE, perfídia ou tibieza, é óbvio que o comportamento de Carrilho não tem desculpa. Por isso, qualquer tentativa de aproveitamento político da sua parte seria ridícula.

3 comentários:

Francisco Clamote disse...

Aplaudo. Cumps.

Jorge Almeida disse...

"É, porém, muito provável que actuação do MNE seja bem mais pérfida do que parece: deixando ficar Carrilho a “cozer” em lume brando durante vários meses, é provável que o MNE tenha querido consolidar politicamente a ideia de que os “embaixadores políticos” são um perigo não mais devendo ser nomeados para qualquer posto, seja qual for a sua natureza."

Não me parece que seja isso. A própria "desobediência" de Carrilho é o bastante para isso.

Parece-me que o MNE não quis agitar as águas, atendendo ao perfil mediático da pessoa em causa.

Gil disse...

O que foi grave no episódio da eleição do Director Geral da UNESCO não foi o desacordo do Embaixador - que só o honra face aos antecedentes racistas do candidato apoiado por Portugal - nem o facto de ter faltado à sessão, dando, assim, lugar a que o seu substituto cumprisse as instruções de Lisboa.
Carriljo podia fazê-lo, invocando junto do MNE a sua objecção de consciência.
O que foi verdadeiramente grave foi a divulgação que fez da sua atitude, foi o "oh! olhem p'a mim, tão vertical que eu sou", auto-promoção e vedetização da actividade diplomática.
Sim, devia ter sido imediatamente substituído.
De qualquer modo, acho que Carrilho mente quando insinua que não sabia da sua iminente substituição, ao aformar que "soube pelos jornais".
Há muitos meses que se sabia que neste movimento diplomático, em que o seu nome e o posto que agora deixa estão integrados num número bastante amplo de postos e diplomatas, ele seria substituído pelo actual Embaixador em Nova Delhi.
Carrilho sabia-o e não houve nada que se afastasse da praxe do MNE se, como já reconheceu, a sua saída lhe foi anunciada por um telefonema do Secretário Geral; é sempre assim e não se justificaria que MC tivesse qualquer tratamento preferencial.
Por isso é lamentável o circo que o interessado e a sua editora montaram à volta do caso.
Não é difícil de prever que os que o atacaram e insultaram durante a sua passagem pelo Min. da Cultura e por ocasião da candidatura à CML vão, agora, promovê-lo à categoria de mártir da liberdade de opinião, ao lado de Manuela Moura Guedes e Mário Crespo.
VIDAS...