quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A COLIGAÇÃO DE DIREITA, OS "VALORES" E OS "PRINCÍPIOS"



A INCULTURA DEMOCRÁTICA DO POVO PORTUGUÊS

Seria impensável num Estado moderno, desenvolvido, culturalmente preparado, que dois responsáveis políticos de direita se exprimissem nos termos em que acabaram de o fazer Paulo Portas e MF Leite. Tal discurso só é politicamente possível se essas pessoas tiverem a certeza, como têm, de que esse país não conta com uma escola pública democrática e de que, portanto, os cidadãos que dela saíram não têm a cultura democrática necessária para rejeitar o mais retrógrado dos discursos.
E nisso o Partido Socialista tem também muita culpa, porque nos muitos anos de governo que leva depois do 25 de Abril muito pouco contribuiu para a formação de cidadãos com cultura democrática. Facto que não é de estranhar, já que os intelectuais orgânicos do PS são, em regra, gente de direita, pelo menos no que respeita ao seu contributo para a formação da verdadeira cidadania, ou seja, a que se exprime na real assunção de direitos que a democracia tem por função garantir e assegurar.
E é por isso que tanto MF Leite e P Portas se permitem vir falar de “valores” e de “princípios”, que nem sequer têm necessidade de explicitar, porque, pela ordem natural das coisas, são “valores” e “princípios” absolutos.
Paulo Portas esteve hoje, parcialmente, apenas parcialmente, mais perto dos seus verdadeiros “valores”quando negou a aceitação de qualquer princípio de solidariedade social e atribuiu à preguiça ou à falta dos “valores” que ele defende, a marginalização social a que uma parte, cada vez mais numerosa, dos seus concidadãos é votada. Para ele, tudo se resolve pela repressão e pelos julgamentos sumários imediatos com total desrespeito pelos direitos universalmente consagrados.
Quando a gente compara depois o resto do seu hipócrita discurso sobre as pretensas preocupações sociais com a governação do CDS e se recorda dos patéticos telefonemas de um tal Pinheiro, pressionando Ministros e recorrendo a Portas para o fazer, com vista à concessão de favores e vantagens ao grande capital não pode deixar de se indignar com a ingenuidade do eleitorado que de boa fé o apoia.
Não descendo ao mesmo nível de radicalismo reaccionário de Portas, embora preparando-se para com ele fazer uma aliança, dada a “proximidade de princípios e valores”, MF Leite centra todo o seu discurso na desqualificação moral dos seus adversários (que não têm uma política de verdade, que não têm princípios nem valores) e acaba por fazer um discurso tão demagógico quanto o de Portas, posto que mais soturno. Nem sequer está em causa a insensata, mais que desonesta, defesa de Jardim, nem a vaguidade do seu programa eleitoral, aliás, intimamente ligada à supremacia dos seus “valores” e “princípios” e correspondente desqualificação moral dos oponentes. O que está em causa é a pretensa exclusiva preocupação de governar apenas para atender aos problemas sociais decorrentes da crise. Essa preocupação não passa realmente de uma farsa, como claramente decorre do seu mais que sintético programa. Limitar o Estado em todos os domínios, apelar aos privados em todos os sectores é o verdadeiro “programa social” do PSD e esse programa a gente sabe ao que leva. Como ontem muito apropriadamente disse Jerónimo de Sousa, “No tempo da escravatura não havia falta de trabalho, o que havia era falta de direitos!”.

3 comentários:

PMA disse...

ninguém pode dizer duas verdades sem ser logo acusado de tudo e mais alguma coisa.

exigir rigor nas prestações socias, e na aplicação da lei, é do mais elementar bom senso.

foi apenas isso q o Portas disse.

em relação às restantes "coisas" q o autor tenha visto, apenas peço encarecidamente q comunique aos restante mortais onde o podemos ver..

apenas por n pensarmos todos pelo msm diapasão, n faz do autor um "anjo" e dos restantes umas bestas quadradas e mais sei lá oquê..

JMCPinto disse...

O problema não é esse. O problema é que o “partido de Portas” é um partido perigoso num país como o nosso, exactamente por ser um partido “sem princípios”. O CDS, tal como foi fundado, era um partido de direita, formado por gente próxima ou mesmo saída da ditadura, que tinha relativamente a todas as grandes questões nacionais uma posição típica da direita forçada a viver em democracia. E, ainda por cima, numa democracia onde não era, nem nada que se pareça, a força dominante. Mas era um partido que não enganava muito o eleitor. O seu programa e o seu discurso coincidiam com aquilo que seria a sua prática governativa, como se viu claramente na Aliança Democrática e até, antes dela, na coligação com o PS.
O CDS liberal, que nunca chegou a ser, também não enganava o eleitor, salvo nos resultados que ligava ao sistema que defendia. Mas isso é normal em qualquer força política.
Pelo contrário, o CDS de Portas, sendo um partido de direita, é um partido populista que não hesita em recorrer à maior demagogia para alcançar os seus fins. Portas actua em “nichos de eleitorais de mercado” desde que neles anteveja alguma hipótese de “lucro”. Recorre ao que de mais primitivo há no interior do ser humano para alcançar os seus fins. Chama preguiçoso a quem recebe o rendimento mínimo, ou lá o que lhe queiram chamar, apenas para estimular a inveja; refere-se aos imigrantes com desprezo; usa a questão da segurança para amedrontar as pessoas e criar um clima de medo; quer julgamentos sumários, regredindo com as propostas que faz aos tempos mais recuados da civilização europeia, exactamente porque sabe que isso corresponde ao sentimento de uma camada inculta do povo. Enfim, Portas é um atraso civilizacional, típico de uma forma de pensar de certa gente de um continente que já liderou o mundo e que hoje se vê a braços com a necessidade de lidar com povos muito diferentes que igualmente querem ocupar o lugar a que têm direito.
Como se pode acreditar nele?

PMA disse...

não encontro, nem nos principios politicos apresentados, nem na acção politica governativa (nos curtos espaços de tempo em q tal aconteceu) algo parecido com o q defende, em relação ao CDS.(mas pode ser falta minha, reconheço!)

Numca ouviu o Portas dizer (ou o CDS) q quem recebe o RSI é preguiçoso. O q ouviu foi, e mt a meu ver, o elencar de prioridades no q aos beneficios sociais diz respeito. É a coragem de assumir prioridades, e n o seu contrário, q deve ser aplaudido!
A prioridade aos desempregados jovens, aos casais ambos desempregados, aos pensionistas!
Por ser óbvio (pelo menos para mim) q a relação estado cidadão tem que ser uma de direitos e deveres.
Tal n implica, como ficou ontem bem claro, o desaparecimento do RSI, antes a sua efectiva fiscalização e correcto posicionamento nos diversos apoios sociais estatais.

Isto é de "um partido perigoso"!?

Por outro lado não considero o CDS um partido de direita liberal. Tal n existe em portugal (e levar-nos-ia a uma mais longa discussão!). Ele é, na minha modesta análise, um partido Democrata Cristão.

mais..o q é estranho, num pais dito civilizado, não é a existência de um partido de direita (à imagem do q sucede em toda a europa desenvolvida).
O q é de facto estranho é a existência de 2 partidos comunistas, de génese política totalitária, q nas últimas eleições tiveram 20%!! Isto sim n encontra em nenhum pais desenvolvido. Isto sim é um sinal de "um atraso civilizacional".isto sim será uma prova do nosso sub-desenvolvimento democrático de q fala no seu primeiro post, enganando-se apenas no destinatário!

(declaração de interesses:não voto CDS!)