segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O QUE PODE LEVAR SÓCRATES A NÃO PENSAR EM COLIGAÇÕES



COM O QUE CONTA SÓCRATES

A primeira experiência de governo "PS sozinho" não correu bem. É certo que era outro tempo político, mas não correu bem, apesar de a direita ter uma grande dívida de gratidão para com Soares. Uma moção de censura derrubou Soares. A segunda experiência cumpriu a legislatura, também em condições muito diferentes das de hoje. O país vinha de dez anos de cavaquismo, ninguém mais queria tão cedo voltar a ouvir falar de PSD e o próprio PSD percebeu isso. De qualquer modo nunca poderia contar com a CDU, nem com o PP para uma iniciativa destinada a pôr termo ao governo de Guterres. A terceira experiência também correu mal, apesar de Guterres ter metade dos deputados no Parlamento. Poder-se-á dizer que a instabilidade veio mais de dentro do que de fora, que houve falta de liderança e outras coisas do género. E provavelmente tudo isso é verdade, mas o certo é que a experiência foi curta e correu mal.
Tendo em conta este passado, o que levará Sócrates a arriscar uma experiência do mesmo tipo?
É claro que antes de mais se poderia dizer o que muitos já têm dito, inclusive em comentários neste blogue, sobre essa estratégia. Ou seja, que essa é a opinião da maioria do eleitorado do PS e que essa é também a única forma de manter intacta a individualidade do PS no panorama político partidário português.
Tudo isto é muito verdade, mas a questão está em saber se um governo do PS sozinho tem viabilidade para governar sem que da sua instabilidade decorra um prejuízo político-eleitoral para o partido. Se o PS chegasse à conclusão que dessa forma de governo resultaria a prazo um prejuízo para o partido, certamente que Sócrates mudaria de opinião. E não muda, em nosso entender, por duas razões.
Primeira - Sócrates sabe muito bem que Cavaco Silva está fragilizado e, diga o que disser amanhã, essa situação vai-se manter até ao fim do seu mandato. E se Cavaco acalenta alguma esperança de se recandidatar a um segundo mandato, depois que se passou nestes últimos tempos, a última coisa que ele pode fazer é arranjar um conflito sério com o PS.
O segundo ponto que Sócrates tem por certo é que o resultado das eleições verdadeiramente só não agrada ao PSD. Os demais partidos, nomeadamente o CDS e o Bloco, estão satisfeitíssimos com a bancada parlamentar que têm e não arriscariam tão cedo voltar a pô-la à votação do povo português. Somente o PSD poderia estar interessado nisso. Mas para isso precisaria de partir com outras certezas e outra credibilidade, factos que, olhando para o panorama do partido, se não vislumbram nas suas fileiras.
Veremos mais tarde se estas razões são consistentes…

2 comentários:

JVC disse...

Não sei bem onde calha melhor este comentário, se aqui se no post sobre o senhor da CIP. Tanto faz.
Começo por dizer que, conforme os mails que ontem trocamos, nós e amigos do peito, até parecia que conseguimos o que queríamos: PS em primeiro mas sem maioria absoluta. Fizemos cálculos, votámos útil e racional, em discordância com gente que já só está para votar do fundo da alma, como os votos em branco, de protesto, da minha mulher e do Marcelo.
Ganhámos o essencial mas perdemos em coisas que podem vir a ser muito importantes. Como dizes, Sócrates pode bem não pensar em coligações, porque tem mais margem de manobra dada por, estes resultados.
1. Entendimentos do PS à sua esquerda vão ser difíceis, precisam de concordância de ambos, BE e PCP/PEV. Esta dificuldade é fácil razão para explicar o essencial, a total distância de Sócratesn em relação e essa esquerda.
2. Entendimentos com o CDS dão logo maioria. Afinal, o CDS não pode deixar cair facilmente muitas das suas posições de direita económico-liberal, porque afinal também não não são radicalmwenteb diferentes do blairismo do PS socrático? Receio que o próximo governo seja muito, na prática, uma convergência PS-CDS, mesmo que não formalizada como coligação. Desde logo, na velha tradição do rotativismo, será coisa de divisão partidária na união do sentar à mesa do orçamento.
3. Pior, há outra possibilidade, a de negociações do PS com o PSD para garantir a abstenção do PSD, o que faz passar qualquer lei.
Com tudo isto, receio que o próximo governo vá ser mais à direita do que o anterior. Será que a luta extra-parlamentar ainda vale e que pode levar a pensar, como já se diz, que isto é governo para dois anos? Espero que sim.

JMCPinto disse...

Meu Caro João:
A hipótese de o PS se entender preferencialmente à direita é muito provável ou quase certa. Quanto à hipótese de o próximo governo ser mais á direita que o anterior, não será muito provável, tendo em conta o que foi a política do anterior. E no anterior o PS poderia sempre fazer uma política de direita sozinho parecendo que estava permanentemente zangado com o CDS e o PSD (como se via nos debates quinzenais). Agora, medidas da mesma natureza já teriam de ser ostensivamente aprovadas com o voto da direita, em aliança, e isso, como regra, é mais difícil para eles. Vão ter que simultaneamente dar alguma coisa á esquerda. E na execução desta estratégia é mais provável que o PS dê algo à esquerda nas questões fracturantes do que propriamente nas económicas. Com isso cala parcialmente ou pontualmente o Bloco e pode inclusive ser levado a pensar que ao PC não é necessário dar quase nada…porque o PC não lhe tira votos.
Mas aqui é que o PS, ou os seus estrategas, se enganam redondamente. O PC pode, de facto, não tirar proveito directo da contestação, mas a sua influência social e a sua capacidade de mobilização é tal que, mesmo não tirando proveito directo, causa sempre, indirectamente, muita mossa ao PS. O caso dos professores é paradigmático. Mas há outros.
Concluindo, enquanto o PSD estiver como está – e vai continuar assim por muito tempo – o parceiro privilegiado do PS vai ser o CDS…embora preferisse o PSD.
cp