segunda-feira, 15 de março de 2010

O CONGRESSO DO PSD




QUE SE PODE DIZER DEPOIS DE TUDO O QUE JÁ FOI DITO?

É muito difícil dizer o que quer que seja sobre o Congresso do PSD depois de “meio-mundo” já ter opinado sobre o assunto. Além desta dificuldade, acresce a de apenas ter visto algumas, poucas, intervenções, entre as quais as dos candidatos, sem que, no local onde estava, sequer tivesse compreendido se estavam a fazer a intervenção inicial ou a final.
A ideia com que se fica é que o PSD é um partido à procura de eleitores. Ou seja, a evolução sofrida pela sociedade portuguesa nestes últimos 35 anos trouxe ao PSD dificuldades que ele ainda não foi capaz de superar. Não acompanhou devidamente as mutações sociais, não foi capaz de compreender a sociedade que ele próprio ajudou a transformar e ficou naturalmente um pouco à deriva como sempre acontece a quem navega sem rumo.
Enquanto o PS aderiu claramente ao neoliberalismo reinante, identificando a sua política com a dos grandes interesses, nomeadamente os do capital financeiro e da construção civil, com um discurso ideologicamente ambíguo de modo a poder continuar a contar com o apoio de uma parte considerável dos assalariados, empregados urbanos e até da pequena burguesia citadina, fazendo do seu falso apego às prestações sociais e das prestações sociais de emergência a prova da sua ligação ao trabalho e aos desfavorecidos, ajudando deste modo a esquecer que essa mesma emergência é a consequência da sua iníqua política económica, e alardeando simultaneamente algum radicalismo em questões de natureza social capazes de interessar certas minorias activas e gozar da complacência de sectores mais cultos e progressistas da sociedade, o PSD manteve-se ligado a sectores cada vez mais diferenciados, insusceptíveis de identificar por uma grande gama de interesses comuns e tornou-se residualmente numa espécie de partido que, contando com os fiéis de sempre, cada vez mais tribalizados, apenas tem por objectivo acolher os desencantados das “políticas socialistas”. É claro que isto é pouco e leva ao que se tem visto. Nenhum dirigente serve, porque nenhum está em condições de interpretar os interesses muito diferenciados do conjunto.
Não parece, assim, que deste congresso vá sair algo de radicalmente diferente ou até, muito simplesmente, algo de diferente. Entre um Pedro Passos Coelho neoliberal, sem as subtilezas do PS, com as naturais desconfianças do grande capital, que prefere acreditar em quem já deu provas, e de um eleitorado menos urbano de raiz pequeno-burguesa que não pode dispensar o apoio do Estado e um Paulo Rangel que oscila entre um populismo demagógico e dramático e uma espécie de ninho acolhedor dos desencantados que mudam de voto sempre na esperança de encontrar alguém que lhes “liberte o futuro”, não é difícil prever que, faça o PS o que fizer, não será por este lado que vai cair.
O PSD poderia ter futuro se mudasse muito e fosse capaz de uma retórica política, que teria de ter alguma correspondência prática, susceptível de aglutinar um muito vasto conjunto de interesses comuns a várias camadas da sociedade portuguesa todas elas situadas na parte média baixa da pirâmide social. Não o fazendo corre o risco de ver o PS erodir-se nas franjas para partidos à sua esquerda e à sua direita, e de ele próprio ver fugir parte do seu eleitorado tradicional para outras forças políticas mais coerentes nos seus propósitos.

8 comentários:

JVC disse...

Concordo no essencial com um ponto central do teu escrito, ao que me parece saber ler-te: o PS é hoje o partido mais merecedor do investimento e apoio da direita económica.
No entanto, não estou certo de que seja uma situação consolidada mesmo a médio prazo (por exemplo, até às próximas eleições). Esta clara simpatia dos negócios pelo PS deve-se muito, a meu ver, ao mandato de maioria absoluta e à personagem "marcante" de Sócrates. Ambas se foram.
Por outro lado, o PSD, que foi durante muito tempo, pelo menos desde Cavaco, o polo de identificação da direita dos interesses económicos, deixou de desempenhar este papel ÚTIL, como bem dizes. No entanto, parecendo que o continuista Rangel e o já passado "gentleman" do Porto Aguiar Branco vão perder, não garanto que Passos Coelho não venha a dar maiores garantias de neo-liberalismo transparente e eficaz, eleitoralmente combativo, mais do que o de Sócrates.
Nesta situação, continuo a pensar que o principal drama do PS - e da esquerda em geral - é que os certamente ainda muitos socialistas com quem se podia dialogar à esquerda e convergir até para um programa comum, à francesa, estejam tão calados, tão sujeitos ao aparelho dominado por Sócrates e seus "boys". Eu teria vergonha. Ou melhor, certamente que já teria entregue o cartão que nunca tive.
Nota - faltou comentares, mas o texto não dá para tudo, essa incrível alteração aos estatutos do PSD proposta por Santana Lopes, a que já se chama a lei da rolha. Assim se vê como a democracia tem a doença congénita de incluir tanta gente que de democracia sabe e sente nada.

JVC disse...

Há nuances importantes. No comentário anterior, falei da tal "lei da rolha" do PSD, pensando naquilo que - garanto - ouvi ontem sempre dito pela comunicação social: "quem criticar o presidente do partido..."
Afinal, vejo hoje, é "quem se opuser publicamente às directrizes do partido..."
Há uma grande diferença, ninguém é obrigado a pertencer a um partido, mas se o é, tem de cumprir regras. Já que o PSD é tão portista, imaginem o que faria o Pinto da Costa a um sócio do FCP que escrevesse no jornal do Benfica um artigo contra o dragão?
Que jornalistas temos nós? São os que, mesmo veteranos como o senhor Crespo, estão a confundir toda a gente com a "liberdade de expressão", coisa que esconde muita e muita venalidade de jornalistas corruptos. Ou julgam que corruptos são só os políticos?

JMCPinto disse...

Meu Caro JVC

O problema é que a "malta" demite-se de pensar. Fizeste bem em corrigir a tua opinião, depois de correctamente informada. De facto, há normas no Estatuto disciplinar do PSD e nos Estatutos do PS (e provavelmente em outros partidos)semelhantes à norma "desajeitada" ontem aprovada no congresso do PSD.
CP

V disse...

"O PSD poderia ter futuro se mudasse muito e fosse capaz de uma retórica política, que teria de ter alguma correspondência prática, susceptível de aglutinar um muito vasto conjunto de interesses comuns a várias camadas da sociedade portuguesa todas elas situadas na parte média baixa da pirâmide social. Não o fazendo corre o risco de ver o PS erodir-se nas franjas para partidos à sua esquerda e à sua direita, e de ele próprio ver fugir parte do seu eleitorado tradicional para outras forças políticas mais coerentes nos seus propósitos" -- Correia Pinto dixit.

Daí que, digo eu, as coisas só se clarifiquem quando se alterar o actual quadro partdário, o que, mais tarde ou mais cedo, é inexorável.

Estou certo ou estou errado?
V

JMCPinto disse...

Certíssimo!
CP

JVC disse...

O busílis é saber como alterar o quadro partidário. Temos de esperar para ver, mas não vejo perspectivas a curto prazo, nem mesmo com o BE.

Não sei se não seria mais eficaz alterar o quadro institucional dos partidos, limitar-lhe o seu papel exclusivo e exagerado na democracia, fazer intervir os cidadãos seus eleitores na sua vida interna (como nos EUA), incentivar as "constituencies", mesmo com sistema proporcional, controlar as transferências repentinas do poleiro político para o empresarial, acabar com as jotas, limitar aas subvenções do Estado (mas sem que isto se traduza em maior financiamento encapotado pelas grandes empresas),etc.

Mas isto é círculo vicioso, porque tudo isto teria passar pelos próprios partidos, como actuais decisores políticos.

Anónimo disse...

Respondendo a JVC
Pois essa é que é a questão. Logo, só uma nova estruturação partidária feita de fora para dentro...
CP

Jos disse...

Dando sequência a esta sugestão exógena de CP, gostaria de deixar a opinião de que a interiorização da ideia de democracia supõe que a única forma legitima de regeneração é a endógena. O problema reside mais, a meu ver, no sucesso da procura de uma certa organicidade que dê corpo e impacto a correntes de opinião que existem. A SEDES, criada nos últimos tempos da ditadura, teve um impacto e importância assinaláveis não apenas na informação política como na formação de quadros cuja importância foi relevante na orientação de forças partidárias que emergiram na democracia.
Nos dias de hoje a, digamos, "bacia" ideológica existe, mas as correntes de pensamento não encontraram ainda os "leitos" por onde fluam e confluam.
Acredito que será por aí, nesta revolução ainda mal percebida, que se fará a densificação da participação do cidadão na gestão política dos seus destinos, limpando a democracia dos bandos de malfeitores e inúteis que a empobrecem a ponto de a fazerem mesmo fazer perigar.

jlsc