quarta-feira, 17 de junho de 2009

VASCO LOURENÇO E A REVOLUÇÃO DE ABRIL


“DO INTERIOR DA REVOLUÇÃO”


aqui escrevi sobre a acção de Vasco Lourenço antes da constituição do movimento dos capitães. Fazia então tenção de continuar a apreciação crítica da sua narrativa, tanto na preparação do 25 de Abril, como posteriormente, desde o dia do derrube da ditadura até ao requiem pelo processo revolucionário. Entretanto, meteram-se a campanha eleitoral e as eleições, e o tema foi sendo adiado. É agora altura de o retomar.
Para quem viveu intensamente o período que vai de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975, conhece ou mesmo participou em muitos dos episódios descritos, a narrativa de Vasco Lourenço faz novamente vibrar os corações de todos aqueles que acreditaram poder, enfim, mudar o mundo, quanto mais não fosse à escala nacional. Para isso muito contribui o entusiasmo e a convicção com que Vasco Lourenço descreve os grandes momentos da Revolução de Abril.
O que achei mais extraordinário é o facto de cada momento ser descrito com o mesmo estado de espírito com que foi vivido, apesar de a entrevista que levou à edição do livro ter sido concedida muitos anos depois da ocorrência dos factos. Diga-se, a propósito, magistralmente conduzida por Manuela Cruzeiro, a maior especialista portuguesa em “25 de Abril”.
E esse estado de espírito está muito longe de ter sido vivido com o mesmo entusiasmo ao longo dos meses que balizam a narrativa. A luta inicial contra os spinolistas e seus aliados, contra todos aqueles que logo a seguir ao 25 de Abril o quiseram amordaçar, é certamente uma das partes mais belas e mais vibrantes do livro. Depois, a partir do momento em que a Revolução se acelera, aparece-nos um Vasco Lourenço dividido entre o apoio inequívoco a todas as medidas que pudessem contribuir para a real emancipação do povo português e o constrangimento resultante de muitas dessas medidas serem impulsionadas por uma vanguarda que tendia a marginalizar quem não lhe acompanhasse o passo.
Nota-se que há da sua parte uma genuína preocupação de manter a unidade do movimento, a unidade entre todos os militares de esquerda, o que, seguramente, só poderia ser alcançado com cedências que a voracidade dos tempos então vividos de forma alguma permitia.
Se ainda há algum entusiasmo nos primórdios da formação do grupo dos 9, frustradas que foram as tentativas de encontrar uma posição unitária, ele vai-se perdendo gradualmente à medida que o confronto final se aproxima entre, de um lado, gonçalvistas e copconistas, e, do outro, os nove e toda a direita militar e civil e até mesmo a extrema-direita. Nesta fase, que culmina com o 25 de Novembro, o desencanto de Vasco Lourenço já é evidente. Muito do que é importante pela primeira vez lhe passa ao lado. E com o andar dos tempos, cada vez mais. Ele deixa claramente de ser o protagonista para passar a ser apenas mais um. E isso deixa-lhe a mágoa de não ter conseguido pôr de pé a revolução que idealizou.
Em poucas linhas, esta é a minha interpretação da narrativa de Vasco Lourenço. Convém ainda dizer que a interpretação que ele faz dos grandes momentos da Revolução de Abril: o dia 25 de Abril, a rendição de Marcelo Caetano, o papel de Spínola, o Golpe Palma Carlos (mais propriamente, Golpe Sá Carneiro/Spínola), o 28 de Setembro, o 11 de Março, a constituição do Directório, o 25 de Novembro, é muito objectiva e corresponde ao que realmente se passou. Ele não faz a menor concessão às teses da direita, nem às fantasias postas a circular pelo Partido Socialista.
Hoje, à distância de 35 anos, creio que o momento dramático da Revolução de Abril é o que na sequência da queda do IV Governo Provisório consuma a divisão entre os genuínos militares de Abril. E esse momento ocorre quando a seguir à aprovação consensual do PAP (Programa de Acção Política) se consuma a ruptura, por um lado, com a constituição de um directório insuficientemente representativo (faltava-lhe uma “perna”) e, por outro, com a aprovação de documentos que, contrariando aquele, representam uma visão parcial do pensamento político do MFA.
A perda de militares como Vasco Lourenço, Vítor Crespo e de tantos outros a eles ligados, lançados nos braços de um PS que nunca quis nada de substancialmente diferente daquilo que hoje temos, foi fatal para a Revolução e para a implantação de uma democracia avançada. Esta é uma auto-crítica que está por fazer. E fazê-la não significa nem de perto, nem de longe aderir às teses de Soares e Sá Carneiro que, em meu entender, se davam por muito satisfeitos com o resultado das primeiras golpadas de Spínola…se tivessem tido êxito.
Talvez valha a pena contar aqui um episódio em que participei, cujo significado aparente, por ser claramente contraditório com outros (únicos conhecidos), não deixará de ser questionado.
Na altura da formação do V Governo Provisório, quando já se tinham gorado as hipóteses de gente ligada ao PS fazer parte dele (Vasco Lourenço diz desconhecer se o houve essas negociações; posso assegurar que houve e nelas participaram três figuras relativamente importantes do PS, à época – uma já falecida, outra que anos mais tarde se “eclipsou” e, finalmente, uma terceira que continua a nível regional a ser muito influente), Vasco Gonçalves pediu-me par me avistar com um conhecido líder partidário para saber da sua opinião sobre alguns dos nomes que estavam a ser contactados para compor o Governo.
Sobre um desses nomes, para Ministro dos Negócios Estrangeiros, a dita figura política teceu as críticas mais contundentes e disse-me mesmo que a simples indigitação constituía um desprestígio e um descrédito para a Revolução. Sobre outros nomes que estavam sendo encarados para Vice-primeiro-ministros, a resposta que eu ouvi foi a seguinte: “São pessoas respeitáveis, mas não acrescentam nada. O que interessa é lá ter os militares de Abril desavindos. O Primeiro-ministro (Vasco Gonçalves) devia era convidar o Vasco Lourenço, o Vítor Crespo ou o Vítor Alves para Vice-primeiro-ministros. Falar com eles. Levá-los para o governo. De outro modo, o governo não terá base de apoio suficiente e cairá”.
À época, tal proposta, vinda da esquerda, seria impensável.
Desnecessário será narrar a resposta de Vasco Gonçalves.

6 comentários:

Ricardo Proença disse...

Podia indicar o nome do livro e o autor. Está a chegar um aniversário e penso que seria uma óptima prenda para alguém que eu conheço.

Muito obrigado.

Cumprimentos

JMC Pinto disse...

O livro é de Vasco Lourenço, entrevistado por Manuela Cruzeiro, e chama-se "Do Interior da Revolução", editado pela Âncora.
JMCPinto

JVC disse...

Sugiro uma oferta dupla, de outro livro a meu ver também indispensável, outra longa entrevista de M. Cruzeiro: "O sonhador pragmático", entrevista com Melo Antunes. Editorial Notícias, 2004, ISBN 972-46-1563-4. Complementam-se, a visão do homem de acção, V. Lourenço, e a do ideólogo, M. Antunes.

Manuela disse...

JMC Pinto:
Grande e boa surpresa encontrar-te por aqui, e verificar a atenção, o interesse e a competência com que leste este trabalho. São sinais como estes que nos animam a continuar este verdadeiro combate pela memória de um tempo a que demos o melhor de nós próprios, mesmo se as coisas não correram exactamente de acordo com tantos, tão generosos e utópicos desejos.
Grande abraço
Manuela Cruzeiro

Anónimo disse...

Este senhor é um animal! Só digo isto! Não sabe o que diz! Diz-se ser militar? Coitado!

Anónimo disse...

Refiro-me a vasco lourenço, mais precisamente ao ultimo livro publicado "Do Interior da Revolução".